# Noções elementares de archeologia

## Part 7

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[Figura 71: Villa de Bignor em Sussex.]

Uma grande parte d'estes corredores tinha mosaicos.

Ao longo do _crypto-portico_ septentrional estavam dispostos os aposentos (n.^{os} 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13).

No n.^o 14 via-se um mosaico de 8 pés de quadrado dividido em formas de rhomboides e triangulos.

O n.^o 15, era uma das melhores casas da _villa_, tinha 19 pés por 30, com uma grande camara de 12 pés, o que lhe dava 32 pés por todo o comprimento do norte ao sul; o pavimento era formado de mosaico muito notavel, porque um dos desenhos representava o rapto de Ganymedes.

No meio do aposento, e ao centro da maior composição circular de mosaico, via-se uma cisterna de pedra branca e de 4 pés de diametro, no fundo da qual existia um orificio com tubo de chumbo.

Esla sala e o aposento immediato eram aquecidos por um hypocausto, cujo forno se abria pela parte exterior da casa na base da parede.

O n.^o 19 era um _atriolum_, ou pequeno pateo ornado de columnas. Os aposentos do pateo do norte e do sul (21, 22, 23, 24, 25), eram em geral ornados de pinturas, e com o chão de mosaicos.

No n.^o 22 encontrou-se um fogão de 31 pollegadas de boca, e 17 pollegadas de fundo; tijolos ligados com ferro ao fogão formavam-lhe as paredes lateraes. Outro fogão similhante foi achado no quarto n.^o 23.

Os aposentos menos importantes occupavam o lado sul até o n.^o 35. Aquelles que se lhe seguiam haviam feito parte de um banho.

Depois da sala das estufas, vinha a que era destinada para o banho frio (n.^o 40), que tinha 35 pés por 30. O chão estava menos mal conservado e compunha-se de pedras brancas e pretas de 6 pollegadas em todos os sentidos, dispostas em xadrez.

O sitio do banho achava-se pouco mais ou menos no meio do aposento. Era um reservatorio com aproximadamente 18 pés de leste ao oeste, de 3 pés e 2 pollegadas de profundidade. Descia-se por tres degraus do lado de leste, do oeste e do norte.

A bella sala (n.^o 41), situada a leste da precedente, apresentava um quadrado de 35 pés, porém era um tanto irregular por causa da direcção diagonal da parede de leste. Admirava-se um mosaico mais bem conservado que os restantes.

A maior parte destas _villæ_ teria sido construida nos tres primeiros seculos da era christã, julgando-se assim pelas medalhas encontradas nas suas ruinas, e que algumas datam do seculo IV.

*Monumentos funereos*

Depois de descrevermos os edificios, onde os antigos passavam a vida de confortos da civilisação romana, a ordem natural nos conduz aos monumentos que encerravam os despojos mortaes.

Ainda que algumas familias mandassem enterrar os corpos, todavia o uso de queimal-os foi quasi geral em Roma antes da conquista da Gallia, e n'este ultimo paiz, nos dois primeiros seculos da era christã.[27]

A fogueira funebre (_rogus_ ou _pyra_) era formada de lenha de facil combustão e faziam-n'a mais ou menos alta conforme a cathegoria das pessoas finadas. O corpo era posto sobre uma especie de leito de ferro ou maca, e os parentes do defuncto, depois de lhe terem dirigido o ultimo adeus, voltavam o rosto e acendiam a fogueira com uma acha.

Quando a fogueira estava extincta, lançavam vinho nas cinzas do defuncto, e então estas eram cuidadosamente encerradas em uma urna que mettiam em seguida na terra com certo numero de vasos de differentes formas e tamanhos, que se collocavam em roda, os quaes estavam cheios de liquidos ou algum manjar offerecido aos _deuses manes_.

As urnas de barro descobertas em grande numero de cemiterios são em geral do feitio simples, e muitas apresentam côr cinzenta; comtudo, notam-se por suas formas perfeitas e graciosas. As mais ornadas tem filetes, entre os quaes se traçaram riscos parallelos. Algumas tem estrias ao alto, outras molduras entrelaçadas, em zig-zags, etc. etc. As formas mais geraes são as das gravuras seguintes _a_, _b_, que se encontram nos antigos cemiterios.

[Figura 72: Urnas de vidro, do museu de Tours.]

As urnas de vidro, muito mais raras que as de barro, eram reservadas para os finados de familias abastadas. Tem um tanto o feitio das urnas de barro, porém o mais é apresentarem a configuração de um grande frasco com gargallo redondo com uma ou duas azas, sendo o corpo ora cylindrico, ora quadrado.

As urnas mais notaveis são de cobre batido e lavrado, e tambem estas difficilmente se encontram.

Em Alcacer do Sal fez-se em 1874 o descobrimento de um necropole romano, no qual se acharam quatro urnas cinerarias com pinturas, imitando o genero etrusco, obra executada por artista grego. Eram de differentes tamanhos, tendo a maior 0,59 de altura, 0,34 de largura; esta rara descoberta feita em Portugal causou bastante admiração entre os archeologos estrangeiros.

[Figura 73]

O orificio das urnas era tapado, ou com um prato voltado, ou com um pedaço de tijolo, ou ardozia, e até com um bocado de lagea.

Encontram-se geralmente junto d'estas urnas, taças de differentes generos e pequenos vidros com gargallo estreito e sobre o comprido, especie de galheta com feitios variados; mas o maior numero é de barro encarnado, e suppõe-se terem servido para conservar o vinho, o leite, ou algum licor offertado aos _manes_ do finado.

[Figura 74]

A maior parte das urnas, foram mettidas dentro da terra sem caixas de resguardo; porém muitas tiveram esses cofres para a conservação. Se a madeira que serviu para isso apodreceu a primitiva existencia parece provada pelos pregos que ligavam as taboas, que se encontram ás vezes em roda das urnas. É possivel que as urnas de vidro ou crystal, que pertenciam a defunctos de cathegoria, fossem mettidas nos cofres de madeira ou de pedra. Alguns d'estes ultimos, encontrados em varios cemiterios, eram compostos de duas peças e bastante espaçosas para conterem a urna _cineraria_, e os vasos accessorios de que já fallámos. Finalmente, construiam ás vezes, no proprio local, e no momento do enterro, o cofre ou resguardo que devia conservar a urna _cineraria_.

Em quanto ás cinzas do finado de humilde condição e pobre eram mettidas em vasos de formas simples, e accumuladas nos cemiterios sem cousa alguma que as indicasse; as que pertenciam á classe media da sociedade tinham por cima da urna um _cippo_, e os mais opulentos apresentavam um monumento ainda mais importante.[28]

Em geral, os monumentos mais sumptuosos estavam postos em fileira nas _vias_ que davam entrada nas cidades.

As pedras sepulchraes, ou _estélas_,[29] tomavam differentes feitios e algumas apresentavam inscripções e a effigie do finado. [fig. 75]

[Figura 75: Estéla.]

Não se deve cessar de recommendar as explorações dos cemiterios romanos. Quando se procede a obras publicas, ou particulares, descobre-se a sua existencia no meio dos campos, principalmente nos terrenos incultos, onde as urnas tem sido conservadas por faltas de convenientes excavações.

Algumas sepulturas, destinados á classe inferior, são tambem monumentos importantes como se vê na presente gravura.

[Figura 76: Monumento de S. Ramiro.]

O monumento pyramidal de S. Ramiro, é um edificio composto de tres ordens de andares sobrepostos, com aproximadamente 50 pés de altura. O primeiro andar é quadrado, e serve de pedestal, com baixos relevos nas quatro faces; pilastras sem pedestaes ornam-lhe os angulos.

O segundo andar é egualmente quadrado com quatro arcos de archivolta que assentam em pilastras; nos angulos tem quatro columnas corinthias com estrias; o friso é ornado de arabescos em que se distinguem cavallos marinhos alados, sereias, etc.

O terceiro de fórma circular, mostra uma cobertura conica sustentada por columnas corinthias, semelhando d'este modo o lanternim do pequeno templo circular _monoptero_: debaixo d'esta especie de cupula estão collocadas duas estatuas em pé, uma de homem, outra de mulher.

Não pode haver duvida de que esta pyramide seja monumento sepulchral; pois sobre o friso do segundo andar, ficando orientado ao Nordeste, vê-se a seguinte inscripcão:

SEX L M IVLIEI C F PARENTIBVS SVEIS

que se tem lido d'este modo:

_Sextus Lucius Marcus Julii curaverunt fieri parentibus suis_. As duas estatuas representariam pois o pae e a mãe de _Julius_, os quaes erigiram a pyramide.

[Figura 77: Sarcophago do museu de Ruão.]

_Enterramentos_.--Os corpos que não eram queimados, enterravam-n'os em sarcophago de pedra ou em caixões de chumbo, resguardados em outro cofre de madeira, ou de pedra, como se vê na gravura da pag. 93 [fig. 77].

[Figura 78: Sarcophago com inscripção e a ascia, (_está collocada por cima do M_).]

Em numerosos sarcophagos dos pagãos está representada a _ascia_,[30] e o nivel, em esculptura. Alguns tem uma inscripção na tampa, porém esta vê-se mais geralmente no meio do cofre, como indicamos na gravura da pag. 94 [fig. 79].

As inscripções eram mui interessantes por quanto expressavam o maior sentimento das familias. Os antigos nada tinham que invejar aos povos modernos a este respeito: e é facil comproval-o. Eis um epitaphio que patenteia o profundo affecto de uma infeliz mãe chorando a perda da filha querida:

_Ó dôr! quão amargas tem sido as lagrimas derramadas n'esta sepultura em que jaz Lucinia... Lucinia, suave alegria de tua mãe. Sim! aqui está sob este gelido marmore. Prouvesse aos Deuses que o espirito de novo se animasse porque ella conheceria quão dolorosa é a minha afflicão. Viveu 27 annos, 10 mezes e 25 dias. Parthenoca, mãe infeliz, lhe mandou erigir este monumento_.

Os Aliscamps deixaram-nos outros que se distinguem por sua philosophia, e a cujo sentido se dá muitas vezes a interpretação da philosophia christã. Taes são as duas inscripções seguintes:

*D. M. FVI, NON SVM; ESTIS, NON ERITIS; NEMO IMMORTALIS*

_Fui, não sou; sois, não sereis; ninguem é immortal_.

Por outra vemos que entre os romanos, _como entre nós_, os herdeiros eram mais solicitos em apoderarem-se dos bens dos paes, que dispostos a levantarem-lhes jazigos; de modo que os homens avisados mandavam construir os tumulos em vida, para terem a certeza de que não se lhes perdia a memoria.

*D. M. LVCIVS GRATIVS EVTICHES DOMVM AETERNAM VIVVS SIBI CVRAVIT NE HAEREDEM ROGARET TAVTA*

_Lucio Grado Eutichis erigiu, ainda vivo, esta morada eterna, para não pedir ao seu herdeiro que lhe prestasse este serviço_.

Ao findar a dominação romana, quando o christianismo estava solidamente estabelecido na Gallia, _a incineração dos mortos já não se praticava_.[31]

Os sarcophagos christãos em marmores são faceis de distinguir dos sarcophagos pagãos por causa das esculpturas symbolicas, ou das scenas biblicas que os ornam.

*Objectos de barro*

Os objectos de barro são, na maior parte, fragmentos que se encontram nas localidades habitadas no tempo da dominação romana.

As peças mais notaveis pela fórma delicada e pela conservação, são de barro vermelho envernisadas com bastante brilho, e ornadas com figuras em relevo. Encontram-se em grande quantidade nos logares que tiveram importancia sob o dominio romano. É raro, sem duvida, acharem-se vasos inteiros; mas pode julgar-se pelos fragmentos encontrados quaes seriam a forma e as dimensões dos objectos a que pertenciam.

Os vasos de barro encarnado apresentavam quasi o mesmo feitio, vasos bojudos, tijelas ou gamellas de differentes tamanhos [fig. 79], taças com pé, compoteiras, pequenas taças, travessas redondas de diferentes tamanhos com borda saliente [fig. 80], pratos, pires, etc, etc.

Pode suppôr-se que a boa louça encarnada servia principalmente para o serviço da mesa, e para o de toucador.

[Figura 79]

[Figura 80]

A forma dos vasos era geralmente perfeita: os que tinham figuras eram fabricados com moldes, e isto explica a apparencia gasta de alguns; o interior era liso, notando-se apenas alguns circulos concentricos formados pelo torno. Por baixo do fundo do vaso achava-se, quasi sempre, o nome do operario ou do fabricante, gravado com uma especie de estampilha ou sinete.

Estes nomes estão umas vezes no genitivo, outras antecididos ou seguidos das lettras _o_ ou _of_, para designar _officina_, assim: _of Severi_; _Bassi_; _of o_, _Croci_, _Crassi o_; o que quer dizer que os vasos sairam da officina ou da fabrica de Severo, de Basso, de Croco, de Crasso, etc, etc.

[Figura 81]

A palavra _manu_, escripta com todas as lettras ou em abreviatura, como nas inscripções de: _Priscilli manu_, _Silvani m_, significa da mão de Priscillio, de Silvanos, etc.

Alguns d'estes vasos eram inteiriços, não podendo sair do molde senão depois do barro ter seccado para que o relevo se tirasse sem damno do concavo do molde.

A maior parte porém era tirada de duas ou mais peças, porque seria impossivel formar um molde de uma só peça para os vasos bojudos.

Se os fabricantes de louça de barro imprimiam os seus nomes no fundo d'esses vasos, os artistas que fariam as formas e compunham os assumptos que deviam apparecer nos relevos exteriores, inscreviam tambem os seus nomes nos moldes, entre as figuras.

_Barro preto_.--As peças de barro preto são mais raras que as encarnadas, embora se encontrem misturadas com estas.

Tem-se encontrado cobertas com bom verniz côr de ébano, e mostrando argila, menos compacta que a dos vasos encarnados; ora cinzenta, ora esbranquiçada, ou avermelhada.

_Objectos de barro bronzeado_.--Apparecem tambem em muitas localidades pequenos vasos muito leves, de barro encarnado ou amarellento, misturado de quartzo cobertos de verniz de furta-côres, suavemente applicado.

[Figura 82]

_Barros avermelhados, cinzentos escuros, ou esbranquiçados_, etc.--São mais ou menos apurados; a massa ou argila de differentes côres foi empregada para fabricar travessas, pratos, vasos de diversos feitios destinados para varios usos, botijas, etc.

[Figura 83]

Nos vasos destinados para os liquidos, como são as nossas garrafas, encontram-se, quer de barro vermelhado, quer cinzento ou esbranquiçado, formas mui elegantes, das quaes se conservaram algumas até o presente.

Os vasos, como os que se vêem em seguida, ora de barro encarnado, ora cinzento, apreciam-se um tanto com as saladeiras, ou tijelas grandes, de que ainda se faz uso.

[Figura 84]

Encontram-se, egualmente, em terrenos cultivados, onde se acham também telhas e vestigios de habitações romanas.

*Figurinhas de barro*

As estatuetas de barro cozido de côr alvacenta acompanham, muitas vezes, os fragmentos que assignalam o logar occupado pelas construcções gallo-romanas, e ainda constituem objectos pertencentes á arte de oleiro.

Encontra-se sobre tudo, frequentemente entre ellas, a figura de _Venus_ Anadyomena,[32] e taes estatuetas são tão similhantes, que parece terem saido do mesmo molde; estão completamente nuas, com a cabeça coberta de abundantes cabellos, a mão direita apanhando-os, e a esquerda tomando a roupagem.

As outras figurinhas que se encontram mais vezes junto das Venus, representam uma mulher amamentando uma ou duas creanças, sentada n'uma cadeira de braços feita de vime encanastrado. Alguns archeologos suppôem ser esta a imagem de Latona,[33] outros a de Lucina:[34] porém, julga-se que estas figuras serviam para _ex-voto_, tanto das mulheres que desejavam obter feliz parto, como d'aquellas que mostravam a sua gratidão pelo terem alcançado, ou em fim das mães que creavam os filhos, e que o offereciam á deusa invocada por ellas n'esta circumstancia.

[Figura 85]

A imagem de Mercurio encontra-se em grande numero entre as estatuetas de barro cozido.

Mas nem todas as figurinhas antigas que se encontram eram destinadas para reproduzir a imagem das divindades. Eram vazadas nas formas como se faz presentemente um grande numero de objectos profanos, caricaturas, brinquedos para creanças, etc.

[Figura 86]

Entre estes ultimos, podem citar-se as figuras de aves, animaes diversos, carneiro, javali, etc., e também chocalhos como os achados em tantas localidades diversas, e que se compôem d'um pequeno globo de barro cozido tendo dentro seixosinhos que produzem o effeito de um cascavel.

*Objectos em metal, joias e utensilios*

Havia egualmente reproduzido em cobre grande parte dos vasos que se faziam de barro, principalmente as travessas, bacias, garrafas e baldes para sacrificios.

Fizeram-se até magnificos de prata, com figuras em relevo batido: a prova d'isto são os utensilios de todas as formas, em bronze, que existem em tantas collecções publicas e particulares: broches, fivelas, e joias tão variadas como as que ahi se vêem, mostram a que ponto os romanos tinham alcançado a perfeição no trabalho dos metaes, nas pedras preciosas, no marfim, etc., etc. A descripção de todas estas riquezas artisticas, não pode figurar n'este resumido compendio.

Os objectos de metal, e os restos mais preciosos pertencentes á antiguidade, foram descriptos por Caylus, Winckelmann, Chabonillet, etc., sabios antiquarios que deram a mais completa explicação a este respeito.

Pela mesma razão, não nos devemos occupar das medalhas romanas, não obstante o estudo ser util e importante, porém necessitaria augmentar demasiadamente este livro, e o nosso intuito foi unicamente apresentar resumida apreciação da architectura pertencente á época gallo-romana, e descrever os vestigios dessiminados no solo habitado pelo povo-rei.

*Muralhas de defeza ou forticações*

Sem discutir aqui sobre qual seria a época a que pertencem as muralhas que defendiam as cidades gallo-romanas, devemos comtudo fazer menção d'ellas, porque constituem ainda provas muito importantes d'essa grande época.

Quasi sempre estas muralhas foram construidas com pedra miuda, mostrando na face exterior o pequeno apparelho, separado por cadeias de tijolos, e cuja base formada por pedras de grande apparelho deviam já ter servido nos monumentos da architectura, que provavelmente foi preciso sacrificar para lhe aproveitar o material afim de se fortificarem em momento de apuro.

O sabio Mr. de Caumont já tinha ha muitos annos insistido sobre um grande facto, que nenhum historiador indicára, e que ainda ignoram quasi todos, e é a existencia em differentes localidades d'um _castrum_, cujas muralhas estão em grande parte formadas de cantaria mostrando obra de esculptura dos seculos II e III, taes como os fustes de columnas, frisos, capiteis, tumulos, pedras com inscripções; e por isso o illustre archeologo julgou poder determinal-o como obra dos fins do seculo IV, sendo a execução d'essas fortificações em todos os logares apropriados para tal fim.

Seja como fôr, tendo-se as cidades concentrado cada vez mais, era preciso restringir o perimetro do recinto á parte mais facil para ser defendido, e na possivel extensão com os materiaes disponiveis, cercado de muralhas. Podiamos citar diversos recintos fortificados com 3 a 10 hectares sómente, em quanto essas cidades onde os havia, occupavam antes 100 e até 200, durante o tempo que disfructavam a paz.

No fim de tres seculos de espantosa prosperidade, a Gallia viu, no seculo IV, a desorganisação e o enfraquecimento gradual das instituições romanas. Custa a comprehender a que grande aviltamento chegaram no seculo V.

Um esboço rapido sobre os acontecimentos politicos da Gallia, no quarto quartel do seculo III explicará claramente a marcha progressiva da decadencia das artes do seculo IV. Depois das invasões, a miseria publica augmentou, os abusos mutiplicaram-se, a energia moral diminuiu, as grandes obras da architectura cessaram, e o gosto foi-se alterando cada vez mais.

As artes, para prosperarem, tem necessidade de paz e liberdade: estas condições essenciaes faltaram-lhe no seculo IV; vê-se portanto declinar tanto mais rapidamente quanto os lapsos da paz eram mais curtos e raros.

Todavia, assim como as instituições romanas não desappareceram com a quéda do governo romano, assim tambem as artes trazidas para a Gallia pelo grande povo sobreviveram ao imperio.

«Tal era a robustez da organisação romana, diz Michelet, que, quando a existencia parecia desemparal-a, quando até os barbaros estavam prestes a distruil-a, sujeitaram-se a ella sem o quererem. Foram obrigados, de boa ou má vontade, a habitar sob as abobadas invenciveis que não podiam abalar; a curvar a cabeça e receber ainda por cima, embora vencedores, a lei de Roma vencida.»

O que expressa Michelet com relação ás instituições romanas, poderemos applical-o ás artes, com que o povo-rei dotou a Gallia. Os monumentos em ruinas serviram em breve de modelos aos barbaros que apparecem armados com o facho de incendio. Os barbaros começaram a trabalhar tambem, a edificarem templos, palacios, mosteiros, etc, etc; foram procurar nas tradicções dos antepassados os conhecimentos para repararem as proprias devastações. A architectura gallo-romana, mais ou menos alterada nos seculos V e VI, seguiram seu caminho, até que uma grande revolução, no fim do XII seculo, substituiu por principios inteiramente novos as antigas tradições. É o que nós propomos demonstrar nos capitulos que vão seguir-se.

[Figura 87]

* * * * *

*ADDITAMENTO*

*Inscripções Latinas*

Como o estylo lapidar tem certas formulas, abreviaturas especiaes e signaes particulares, sem adquirir algumas explicações a este respeito, a interpretação ficaria baldada para quem não as possuisse; embora seja tambem preciso não ignorar os acontecimentos historicos, todavia julgamos conveniente ajuntar a este compendio alguns esclarecimentos epigraphicos afim de facilitar aos principiantes a leitura das lapidas: portanto, acrescentamos a esta publicação um quadro succinto das principaes abreviaturas que se encontram nas inscripções luso-romana, por serem estas as de mais difficil interpretação.

Ainda que a mesma lettra inicial corresponda a diversas palavras, o sentido geral da inscripção indicará a que fôr mais apropriada á sua significação. É pois facil distinguir, com alguma sagacidade, os nomes proprios dos nomes substantivos.

A palavra _tribu_, á qual as familias romanas pertenciam, fica sempre subentendida, e só se menciona o nome.

As datas, em geral, sabem-se pela indicação do anno do reinado do imperador, ao tempo do qual o monumento foi erigido. Finalmente, deu-se o epitheto de _Divus_, a cada um dos imperadores, depois da sua morte.

A.--ager; augustales: augustatis.--A. A.--apud agrum.

AB. AC. SEN.--ab actis senatus.

[AE]. CVR.--ædilis curulis. A. FRVM.--a frumento.

A. H. D. M.--amico hoc dedit monumentum.

A. K.--ante kalendas.--A. O. F. C.--amico optimo faciendum curavit.

A. P.--ædilitia potestate; amico posuit.

A. S. L.--animo solvit libens; a signis legionis.

A. T. V.--aram testamento vovit.

A. XX. H. EST.--annorum viginti hic est.

B. A.--bixit (pro vixit) annis.

B. DE. SE. M.--bene de se meritæ, _vel_ merito.

B. M. D. S.--bene merenti, _vel_ bene merito de se.

B. P. D.--bono publico datum.

B. Q.--bene quiescat.--B. V.--bene vale.

BX. ANOS. VII. ME. V. DI. XVII.--vixit annos septem, menses, sex, dies decem septem.

7.--centuria; centurio.--C.--centurio.

C. B. M.--conjugi bene merenti; et F.--conjugi bene merenti fecit.

CENS. PERP. P. P., _vel_ CENS. PERP. p. r., _vel_ CENS. P. P. P.--censor perpetuus; pater patriæ

COH. I. AFR. C. R.--cohors prima africanorum civium romanorum.--FL. BF.---flavia beneficiariorium.

C. I. O. N. B. M. F.--civium illius omnium nomine bene merenti fecit.

C. K. L. C. S. L. F. C.--conjugi carissimo loco concesso sibi libenter fieri curavit.

C. P. T.--curavit poni titulum.

C. R.--civis romanus; civium romanorum; curaverunt refici.

C. S. H. S. T. T. L.--communi sumptu hæredum, sit tibi terra levis.

D.--Decimus; decuria; decurio; dedicavit; dedit; devotus; dies; diis; divus; dominus; domo; domus; quinquaginta.

D. C. D. P.--decuriones coloniæ dederunt publice.

D. D.--dedit, dedicavit.

D. D. D. S.--decreto decurionum datum sibi; dono dedit de suo.

D. K. OCT.--dedicatum kalendis octobris.

D. M. ET. M.--diis manibus et memoriæ.

D. N. M. E.--devotus numini majestati ejus.

D. O. S.--deo optimo sacrum; diis omnibus sacrum.

D. P. P. D. D.--de propria pecunia dedicaverunt; de pecunia publica dono dedit.

