Noções elementares de archeologia
Part 6
Entre os assentos dos espectadores e o espaço destinado para os jogos (_area_), havia, em alguns circos, um canal, de largura de 10 pés, cheio de agua (_euripus_), resguardado por engradamento do lado da _area_. Porém os circos não eram rodeados de tal fosso: ainda não se encontrou nenhum vestigio no de Caracalla em Roma, embora fosse um dos principaes, assim como em outros explorados depois.
O _euripus_ não se abria nunca do lado dos _carceres_, para não interromper a entrada para o circo.
No centro da _area_ dos circos levantavam uma parede de 4 pés de altura e 12 de largura, prolongando-se em quasi todo o comprimento do recinto. A esta construcção, que dividia o circo longitudinalmente, davam o nome de _spina_. O imperador Augusto foi o primeiro que fez levantar sobre a _spina_ um obelisco dedicado ao Sol.
Havia também sobre a _spina_ dos circos pequenos templos, altares, estatuas e sete bolas, _ova_, sustentadas em eixos, que serviam para indicar o numero de voltas executadas pelos carros, _ova ad metas curriculis numerandis_, e sete delphins postos em pedestaes, ou em architrave sustentada por columnas. Os delphins tinham sido escolhidos em veneração de Neptuno, porque se suppunha serem estes os animaes mais ageis do mar. Nas duas extremidades, e na parte exterior da _spina_, havia sempre tres pyramides firmadas na mesma base, e servindo de ponto de limite. Era junto d'estes marcos (_metoe_) que os carros deviam voltar para as extremidades do circo, evitando tocar no marco. O ponto de partida era collocado de modo que os concorrentes tinham sempre á esquerda a _spina_ e os marcos.
Os conductores de carros (_aurigæ_) traziam um vestuario como especie de librés de côres differentes e formavam partidos ou facções. Primeiramente houve quatro librés: a branca, _alba_; a encarnada, _russea_; a azul, _veneta_, e a verde, _prasina_. O imperador Domiciano juntou a estas mais duas: a purpura, _purpurala_; e dourada, _aurata_.
Quando os espectadores se enthusiasmavam faziam apostas para que alcançasse triumpho outra facção, ou côr. Tempos depois, as côres usadas nos circos deram logar a formarem-se verdadeiras facções politicas, a que pertenciam milhares de cidadãos.[15]
_Naumachia_.--Suppõem-se que os _circos_ serviam ás vezes de _naumachia_. A _naumachia_ era para a simulação de combates navaes, que se davam em grandes caldeiras cheias de agua, rodeadas de construcções análogas ás dos circos; todavia, concebe-se difficilmente como um circo podia estar apropriado para este genero de divertimentos sem grandes inconvenientes e sem obras preparatorias. A transformação da _area_ dos circos em lagos devia acontecer raras vezes, porque em algumas cidades mandavam abrir lagos apropriados para os combates navaes.
*Theatros*
Quasi todas as cidades importantes da Gallia possuiam theatros edificados no reinado de Adriano e Antonio, o _Piedoso;_ esses monumentos eram encostados ás collinas sobre o declive das quaes se dispunham os assentos de cantaria em semi-circulo. Na parte inferior d'estas bancadas estava a orchestra, que correspondia ao que chamâmos platéa nos actuaes theatros, e que ficava sobre um terreno plano, assim como a scena.
[Figura 57: Plano de um theatro antigo]
Esta ultima disposição do theatro dividia-se em tres partes, a saber: o _proscenium_, ou _pulpitum_, o palco em que representavam os dramas; a _scena_, grande fachada muitas vezes ornada com as diversas ordens de architectura, e o _post cenium_, onde os actores se preparavam para entrar em scena.
_A scena_ apresentava tres portas no fundo: a do centro, mais alta e ornada que as outras, chamava-se _porta real_; entrava por ali o personagem principal da peça, que representasse o dono do palacio; as figuras secundarias entravam pelas outras portas que se designavam _hospitalia_, porque de certo representavam os hospedes ou familiares do dono do palacio.
A parede do fundo da scena formava dois lados ou alas (_versuræ_,) onde havia outras duas portas, uma á direita e outra á esquerda, as quaes faziam suppôr darem saida para o campo e para a praça publica. A configuração de um theatro apresentava pois de um lado a forma semi-circular, do outro a de quadrado. Para chegar ao logar dos espectadores havia muitas escadas partindo do circuito e dirigindo-se da circumferencia para o centro, afim de estabelecer muitas divisões que, pela rasão de sua forma de cunha, eram designadas com o nome de _cunei_.
Havia, além d'isso, na elevação do amphitheatro (_cavea_) que cercava a orchestra, duas ou tres divisões principaes, indicadas por separações chamadas _præcinctions_ e ficavam parallelas ás filas dos assentos.[16] Estas divisões tinham o nome de _cavea prima_, _cavea media_, _cavea maxima_ ou ultima, conforme estivessem mais ou menos proximas da orchestra.[17]
Havia tambem, em muitos theatros, aberturas quadradas, correspondentes a corredores abobadados dispostos sob os degraus do theatro, e por onde cada qual podia passar para occupar o seu logar, sem ser obrigado a subir da orchestra ou a descer da summa, _summa cavea_. Estas aberturas chamavam-se vomitorios (_vomitoria_,) porque parecia que lançavam fóra os espectadores, quando estes entravam em multidão para os seus logares.
Tinham os antigos tres especies de scenas, a scena tragica, a scena comica e a scena satyrica.
As vistas do theatro eram diversas, conforme o genero das peças que se representavam.
As mudanças da decoração praticavam-se por varios systemas. Chamava-se aos bastidores _ductiles_, quando giravam em corrediças; _versatiles_, quando se viravam sobre pião.
Muitas machinas fraccionavam na scena e coadjuvavam os papeis dos actores.
Como os theatros não eram cobertos, estendia-se acima das paredes um grande toldo para dar sombra aos espectadores. Este _velarium_[18] estava fixo ou suspenso em mastros cravados no alto das paredes. Vitruvio recommenda que não exponham os theatros do lado do sul, para evitar que os raios do sol aqueçam demasiadamente o ar.
[Figura 58: Plano do theatro de Champlieu]
O theatro de Orange, em França, é uma ruina digna de ser contemplada, e poucas ainda ha que se lhe possam comparar. As suas columnas tinham 18 pés de altura e 2 pés e 4 pollegadas de diametro; a altura das paredes era de 108 pés com tres ordens de columnas. A fachada exterior era decorada por duas fileiras de arcadas sobre as quaes havia um attico. O theatro fôra construido com cantaria de extraordinarias dimensões; notando-se n'estas pedras vestigios de incendio violento.
[Figura 59: Exterior da scena do theatro de Orange]
*Amphitheatros*
De todos os monumentos romanos existentes são os _amphitheatros_ os que offerecem ainda as ruinas mais collossaes e magestosas. Eram, como indica a etymologia da palavra _amphitheatro_, dous theatros collocados em frente um do outro, e separados por um espaço livre de forma oval destinado para os combates dos gladiadores e animaes ferozes.
A este espaço davam o nome de arena _arena_, por causa da areia que espalhavam pelo chão, afim de fazer desapparecer o sangue dos homens e dos animaes derramado durante a luta.
[Figura 60: Plano de um amphitheatro]
Os palanques eram dispostos á roda da _arena_, de maneira que de todos os lados os espectadores podessem gosar o espectaculo. Nos amphitheatros, como nos theatros, esses logares eram divididos horisontalmente por cintas curvas ou _baltei_; e verticalmente pelas escadas em subdivisões cuneiformes, como explicamos acima. Os degraus apoiavam-se nas abobadas, que iam estreitando para o lado da _arena_, alargando-se e elevando-se á medida que se aproximavam do portico ou galeria, contornando o edificio. Estas abobadas, inclinadas para o centro e alargando para o exterior, eram sobrepostas umas ás outras, e formavam muitas ordens, onde havia muitas cintas curvas.
[Figura 61]
A vista do corte de um grande amphitheatro mostra claramente esta disposição, com as cintas e o effeito produzido no meio dos palanques pelos _vomitorios da cavea_. Outro corte apresenta parte do amphitheatro de Aries, mostrando como as grandes escadas, partindo das galerias, conduziam ao interior da _cavea_.
[Figura 62: Corte do amphitheatro de Aries]
Na _arena_ havia combates de gladiadores,[19] de homens e animaes, e só de animaes.
Nos dias de combate eram os gladiadores conduzidos processionalmente em volta da _arena_; depois punham-n'os aos pares, juntando os de força egual. O signal do combate era dado por uma banda de trombetas.
[Figura 63: Fachada exterior do amphitheatro de Arles (França)]
Havia diversas classes de gladiadores, conforme as armas que empregavam no ataque e na defeza.
O amphitheatro de Arles, ruina das mais pittorescas que existem n'este genero em França, tinha de comprimento do grande eixo 420 pés de Norte ao Sul; e do pequeno eixo 309 de Leste a Oeste. A arena tinha no grande diametro 209 pés, e no pequeno diametro 119: gravura da pag. 71 [fig. 63].
[Figura 64: Uma das principaes entradas do amphitheatro de Bordeos]
Uma cousa particular, que não existe nos outros amphitheatros, é que as galerias subterraneas giravam por baixo e á roda do _podium_.
O _podium_ estava a 14 pés acima do solo da arena. A parede do sucalco que o levantava a esta altura, era furada na parte inferior, com oito passagens, conduzindo das galerias subterraneas para a arena, passagens que saiam da galeria exterior.
[Figura 65: Plano do amphitheatro de Chenevières (Loiret)]
O amphitheatro era construido com boa cantaria de grande apparelho, posta sem cimento algum, e era tal a grandeza das pedras que, apesar de tantos seculos decorridos, ainda se conservam solidas nos seus leitos.
O plano da gravura da pag. 73 [fig. 64] mostra a disposição de outro amphitheatro, que pelo seu genero custava muito menos a construir, que outros compostos de dois lados, porque sendo marcada a inclinação para a encosta, bastava edificar o _podium_ do lado aberto. Podia-se também facilmente transformar os amphitheatros em theatros com outras disposições para o scenario e então constituíam monumentos mixtos, que foram numerosos durante a dominação romana.
*Banhos publicos*
Os romanos tinham muitas especies d'estes estabelecimentos, que se conheciam com os nomes de _thermæ_, _lavacra_ e _balnea_.
As _thermas_[20] eram vastos edificios que continham não só os banhos, mas tambem porticos e passeios arborisados, salas onde os philosophos e os rhetoricos davam lições publicas e liam as suas obras; onde se exercitavam na luta: chamavam-lhes _gymnasios_.
Citavam, entre as mais sumptuosas de Roma, as de Agrippa, Nero, Tito, Caracalla,[21] Antonino e Diocleciano, das quaes existiam ainda consideraveis vestigios.
Não se deve suppôr comtudo que haveria similhantes estabelecimentos em todas as cidades onde os romanos dominaram. O mais geral era construir _lavacra_ ou _balnea_, de limitada dimensão, á qual estavam ás vezes reunidas algumas dependencias dos _gymnasios_.
Taes edificios eram mais ou menos espaçosos conforme deviam ser francos ao publico de uma cidade bastante povoada, ou simplesmente destinados ao uso de pequena localidade, ou de uma unica familia.
O _apodyterium_ era a sala de vestir, ou em que ficavam depositados os fatos antes do banho.
O _aquarium_ continha os reservatorios, nos quaes a agua era recebida e podia clarificar-se antes de distribuida no edificio.
O _vasarium_, tirava este nome de tres grandes vasos, ou depositos cheios de agua quente, de agua tepida e de agua fria.
O _laconicum_, estufa aquecida por um _hypocausto_, tinha ás vezes uma das extremidades em semicirculo, onde havia um _disco de bronze_, pelo movimento do qual, abaixando-se ou levantando-se, podia augmentar-se a intensidade do calor, ou diminuir a temperatura.
O _tepidarium_ era, segundo Vitruvio, a estufa menos quente que a antecedente, e em contacto com ella.
Havia outra casa destinada para o banho de agua quente, que se tomava n'uma especie de tina, _labra_.
O pequeno pateo ou vestibulo que precedia o forno do hypocausto chamava-se o _propnigeum_ ou o _proefurnium_.
A parte destinada ao banho frio era o _frigidarium_, ou sala não aquecida, onde os banhistas descançavam alguns instantes antes de sairem para a rua, afim de evitarem o perigo da mudança rapida da temperatura.
A _piscina natatilis_ ou _frigida lavatio_, reservatorio de agua fria em que as pessoas robustas podiam banhar-se depois do banho quente, e de que se fazia uso principalmente no verão.
O _eleothesium_, onde os banhistas podiam esfregar o corpo com oleo ou perfumes[22].
Uma curiosa pintura a fresco, copiada das thermas de Tito, em Roma, e que representava o interior de uma casa de banhos, faz comprehender muito bem a disposição geral de taes estabelecimentos, como se vê na gravura da pag. 76 [fig. 66].
Distinguem-se, no primeiro plano, duas salas sob as quaes arde o fogo do hypocausto.
[Figura 66: Vista de uma pintura a fresco tirada dos banhos de Tito.]
Uma d'estas salas devia ser a _concamerata sudatio_, ou a estufa abobadada para fazer transpiração.
Ha n'esta sala um pequeno forno, cuja abobada fecha em escudo de bronze que se movia por meio de corrente, afim de deixar sair mais ou menos o vapor da agua quente.
Junto do _laconicum_ está a sala do banho, separada por um corredor. Vêem-se muitas pessoas n'uma grande tina _labrum_, em volta da qual estão assentos encostados á parede.
Mais afastado apparece representado o _vasarium_, com os tres grandes vasos collocados em diversos niveis: o primeiro menos elevado contem agua a ferver; o segundo agua tepida, e o terceiro agua fria.
No segundo plano, e por detraz da estufa para suar, vê-se a sala chamada _tepidarium_.
Passado o _tepidarium_, distingue-se a sala fria, _frigidarium_, que em alguns banhos servia tambem ao _apoditerium_. Em ultimo plano está o _eleothesium_, ou sala dos perfumes.
Para se formar idéa exacta d'estes monumentos, convem examinar e comparar entre elles que se têem descoberto em differentes partes; para o que apresentamos as gravuras dos banhos de Verdes e de Landunum.
*Explicações crestas casas de banhos*
Entrava-se por dois pateos sobre o comprido ou corredores G, K, nos banhos de Verdes, para os salões P, S, os quaes tem ainda no chão mosaicos. D'estes dois salões passava-se para o vestibulo B, e d'ahi para a sala D, cujo piso estava sobre hypocausto.
A sala imediata C, devia ser de temperatura mais elevada á antecedente; pois o forno collocado em F, no pequeno pateo proximo, recebia d'elle o calor que circulava primeiro debaixo do piso da referida sala C.
Havia outras casas que não eram aquecidas pelo hypocausto, especie de saletas pelas quaes se entrava e saía P, A, B, S.
[Figura 67: Banhos de Verdes (França), vistos de alto.]
[Figura 68: Plano dos banhos de Landunum (França).]
Duas bandeiras muito notáveis que serviriam para banhos frios ML, tinham communicação por uma passagem com a sala D; cada uma d'ellas tinha em S e em R um reservatorio para agua.
Os pateos H e I serviam de deposito para o combustivel.
Em cada uma das salas O e P havia um nicho para uma estatua.
Nos banhos de Laudunum (pag. 79 [fig. 68]), no vestibulo D, o chão tinha mosaicos. D'aqui passava-se á bella sala (n.^o 8), tambem com mosaico. Seguiam-se outras casas com o solo suspenso e aquecido pelo hypocausto; em uma (n.^o 7) de um lado tem um nicho circular, e do outro, quadrado _d c_, que serviam para as banheiras.
A sala n.^o 6 seria a reservada para conservar maior gráo de calor, porque o forno do hypocausto tinha a boca d'elle no centro d'esta casa.
O forno tinha serventia pelo pequeno pateo n.^o 4. Antes de atravessar a sala n.^o 6 aquecia tres reservatorios revestidos de cimento _f. f._
As salas E, e os n.^{os} 9, 10, 11 eram casas para depositos do estabelecimento.
*Palacios*
Quasi todas as cidades de pequena importancia tinham palacio destinado para os aposentos dos imperadores, quando as visitavam; porem antes serviam para os seus representantes, os intendentes ou funccionarios encarregados da administração do paiz.
Os palacios que deviam offerecer as disposições analogas ás das casas nobres dos particulares, differençavam-se principalmente pela extensão, pelos peristylos, pateos e diversas dependencias. Os de maiores dimensões, como o de Trajano, eram ligados ao _forum_, junto do qual havia basilica, onde se julgavam os criminosos, e tambem _thermas_.
Tal era a grandesa do palacio de Diocleciano, em Spalatro (na Dalmacia), cujas columnas e paredes estão ainda de pé, comprehendendo grandes divisões: templo, basilica, pretorio, independentemente dos aposentos imperiaes.
*Casas particulares*
Daremos algumas explicações a respeito das construcções particulares.
Chamavam _prothyrum_, nas casas das cidades, á passagem por onde se entrava no interior d'ellas.
Era n'esta passagem o quarto do porteiro _cella ostiarii_, e ás vezes a parte que servia de vestibulo, com habitação de mediana extensão.
O _atrium_ era a galeria quadrada (3)[23] tendo ao centro um pateo descoberto (_impluvium_), no meio do qual havia um tanque á superficie do chão (_compluvium_) para receber as aguas da chuva (D).
O _atrium_ era ornado com os retratos da familia; o dono da casa recebia n'elle os seus clientes. Havia muitas especies de _atrium_.
O _atrium_ toscano, que se encontrou em Pompeia em grande numero de casas e usado unicamente nos primitivos tempos, tinha o telhado sustentado por madeiros cruzados em angulos rectos: o telhado tinha escoantes para todos os lados e para o centro do pateo.
Existia a mesma disposição no _atrium tetrastylo_; apenas quatro pilares ou columnas, collocadas nos angulos do _impluvium_, sustentavam as vigas do tecto nos pontos de juncção.
No _atrium_ corinthio, as columnas para ponto de apoio eram mais numerosas, e o _impluvium_ era também mais espaçôso. Construiram o _atrium_ só para as grandes habitações.
O _atrium displuviatum_ tinha os telhados inclinados em sentido inverso dos precedentes, de modo que lançavam as aguas da chuva para fora da casa, em logar de as conduzir para o _impluvium_.
Finalmente, no _atrium testudinatum_, o pateo central era coberto de telhado um tanto mais elevado, que os das galerias.
[Figura 69: Plano de uma casa nobre na cidade romana.]
Nos predios importantes, como é representado no plano junto, havia em roda da galeria do _atrium_ aposentos destinados a diversos usos, com saidas para a galeria, e alguns dos quaes serviam de _tribuna_ ou sala de festim (C, C, C).
Na extremidade do _atrium_, e em frente do _prothyrum_, estavam o _tablinum_ (4) e duas casas mais pequenas, chamadas _azas_, communicando com elle (5-6).
O _tablinum_ e as azas encerravam a imagem dos parentes fallecidos, os livros, archivos e papeis pertencentes aos negocios do proprietario, assim como os documentos relativos ao emprego que exercia.
O _peristylo_ apresentava, além do _tablinum_, uma galeria ornada de columnas, como a do _atrium_ corinthio (17-17), cuja extensão porém era mais consideravel.
Os aposentos eram distribuidos á roda d'estas galerias (18-19); um espaço quadrado, inteiramente descoberto e plantado de flôres e arbustos no centro, devia parecer a imitação da parte central de alguns claustros.
Os _oeci_ correspondiam aos nossos salões.
A _exedra_ era outra grande sala para conversação, tendo n'um dos lados a parede curvilinea, como se fosse construida para nicho.
Encontravam-se tambem, ás vezes, nas habitações das pessoas abastadas, jogos de péla, _sphæristerium_, e salas destinadas para outros jogos.
O _banho_ era composto em geral de _apodyterium_, _frigidarium_, _tepidarium_, _sudatorium_ e _eleothesium_:
A _basilica_;
A _pinacothéca_ ou galeria para quadros;
As _cosinhas_ e as officinas dependentes para o fabrico do pão;
As cavalhariças, cocheiras e armazens;
Finalmente, havia um numero mais ou menos consideravel de quartos para dormir e para acommodar os creados.[24]
Eis agora o plano de outra casa de muito menor importancia que a anterior, na qual não encontrâmos nem as commodidades nem a regularidade das grandes habitações particulares; mas veremos que as residencias se modificam conforme a necessidade da familia e as suas posses pecuniarias. Examinemos a disposição de uma das casas descobertas nas minas de Pompeia.
A entrada ou _prothyrum_ n.^o l, conduz ao _atrium_ n.^o 2, chamado _displuviatum_, isto é que servia para o despejo das aguas da chuva para fora da habitação. Tinha na grossura da parede o _impluvium_ n.^{os} 3 e 4, e os alegretes para as flôres.
[Figura 70]
Uma escada de madeira n.^o 5, conduzia ao aposento que occupava o dono da casa e a sua familia. Posto que a escada estivesse inteiramente destruida, era facil observar o feitio do corrimão, porque o artista a riscara na parede que lhe servia de caixa.
Os quartos 6 e 7 eram destinados para receber os estrangeiros e os amigos. O escravo que guardava a porta da rua devia dormir no quarto n.^o 8, onde se conservava tambem de dia. Era pequena a cosinha n.^o 9 collocada ao lado do corredor.
*Casa de campo (villæ)*
Suppõe-se que as mais bellas casas de campo romanas tinham só um andar; tambem não se differençavam essencialmente das da cidade, e continham pouco mais ou menos as mesmas divisões, mais arbitrarias, conforme exigia o terreno, a belleza do sitio, a importancia da exploração rural e outras circumstancias da edificação.
_Columella_,[25] distingue tres partes em uma casa de campo occupando-se de trabalhos ruraes, e o maior numero das _villæ_ gallo-romanas e luso-romanas estavam n'este caso. As tres partes eram:
A _villa urbana_, ou habitação do proprietario;
A _agraria_, ou habitação dos lavradores, e dos animaes necessarios para a lavoura;
A _villa fructuaria_, onde se recolhiam as colheitas e os outros fructos das terras.
As casas anuesas ao segundo pateo, chamadas _agrariæ_, ou _fructuariæ_, apresentavam menos interesse com relação á arte, que a _villa urbana_. Eram pertenças do casal ou dos trabalhos ruraes, _villa agraria_.
No centro do pateo da villa via-se, como se pratica ainda hoje, um tanque ou lagôa _compluvium_, para se banhar o gado. Á roda do pateo estavam dispostos, a cosinha, o abrigo para os escravos, a abegoaria (_bubilia_), o curral das ovelhas (_ovilia_), as cavallariças (_equilia_). Achava-se tambem ali o gallinheiro (_gallinaria_) e o chiqueiro para os porcos (_haræ_).
Pode-se citar como pertenças da _villa fructuaria_, que estava ora separada ora junta da _agraria_, a adega (_cellæ_) o palheiro (_horrea_), a casa da fructa (_apothecæ_), etc.
Tem-se encontrado numerosos vestigios das _villæ_ ou casas de campo fabricadas durante a dominação romana. Em 1874 descobrimos em Portugal uma proximo de Leiria, no logar de Martim Gil, na profundidade de 1^m, 59; havia ali differentes casas com mosaicos, e na principal achámol-o de cinco côres. Fizemol-o transportar para o museu da archeologia, que fundáramos em Lisboa em 1866. Não tem acontecido outrotanto com essas casas antigas edificadas nas cidades, pois foi arrasado o solo que ellas occupavam, e isso deu logar a aproveitarem-se os alicerces que ficaram enterrados.
Para darmos idéa mais completa, descreveremos a _villa_ de Bignor em Sussex (Inglaterra), por ser a mais bem conservada que existe.[26]
Compõe-se de dois pateos: um (A) mais vasto que o outro, rodeado de muros bastante grossos, não formava angulo recto com os do segundo pateo. O muro de leste tinha 277 pés de comprimento, o do norte 385 pés, e o do sul 322.
Este pateo, que representava a _villa rustica_, comprehendia muitas e amplas construcções, mas nenhuma tinha vestigios de pintura nem de pavimentos de mosaicos.
O outro pateo (B), que formava propriamente a _villa urbana_, estava cercado de casas ricamente ornadas e quasi todas tinham mosaicos.
Um corredor ou _crypto-portico_ (1, 2, 3, 4), que era construido á roda do quadrado do pateo servia para communicar com os aposentos; o comprimento do corredor era de 160 pés, de leste a oeste.