# Noções elementares de archeologia

## Part 5

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Não julguemos que a architectura antiga está representada pelas _cinco ordens_ classificadas e regularisadas pelos insignes architectos italianos do _Renascimento das artes_. Ficaremos muito surprehendidos quando, examinando os restos da architectura romana existentes nas antigas cidades, particularmente na Italia, e n'este paiz em especial Roma, virmos que não differem, quasi em parte alguma, na _rigorosa similhança_, as cinco celebres Ordens desenhadas e medidas por Vignola, Palladio, Serlio, Scamozzi e outros architectos illustres. Pelo contrario, os typos principaes da architectura antiga apresentam infinita variedade, que augmenta nos edificios cuja data se aproxima dos ultimos tempos do imperio, a tal ponto que vem a ser realmente mui difficil determinar a Ordem a que pertencem taes ou taes entablamentos, capiteis, bases, columnas, etc.

Os capiteis, principalmente, apresentam diversidade de formas e ornamentações, que será baldada a classificação rigorosa; mostram todavia na composição riqueza e delicadeza de cinzel, sobejamente notaveis; observando-se pelo conhecimento dos effeitos pittorescos, produzidos no claro-escuro, o esmero do trabalho. As partes em relevo são conservadas com acerto e habilmente executadas.

Os architectos modernos, creando typos unicos sob a denominação de cada uma das Ordens; desejando subordinar tudo a esses typos, privaram-se de produzir combinações graciosas, em quanto os artistas do estylo romano, engenhosos e fecundos, tiravam partido da liberdade de composição, enriquecendo a architectura em que reproduziam as formas, não punham peias á imaginação, e evitavam executar obras monotonas, pobres e sem attractivos, como succede em muitas presentemente levantadas.

Os edificios publicos e muitas casas particulares eram durante a dominação romana, revestidas de marmore, ou de cimento e cal; e algumas tinham mosaicos, e aqueciam-n'as por meio dos hypocaustos.

Os _mosaicos_[11] antigos, dos quaes se tem encontrado repetidamente fragmentos em localidades hoje inhabitaveis, compõem-se de pequeninas peças cubicas imbebidas em especie de massa e assentes em cimento misturado com tijolo moido.

[Figura 35]

Estas pequenas peças de diversas cores eram combinadas de maneira que formavam differentes desenhos. Alguns mosaicos representavam combates de animaes e outras scenas.

A mais importante descoberta feita em Portugal foi a que fizemos perto de Leiria, em 1874, de um mosaico de cinco côres e com difficeis combinações de linhas geometricas, pertencente a uma _villa rustica romana_.

_Hypocaustos_.--Os hypocaustos, estabelecidos no pavimento terreo das habitações romanas, eram empregados como os caloriferos modernos.

Para formarmos idéa exacta do hypocausto, é preciso figurarmos um sobrado levantado quasi a 2 pés acima do solo, e sustentado sobre pequenos pilares A de egual altura, distantes uns dos outros 1 pé, por meio dos quaes o calor circulava e aquecia por egual o piso que cobria esta especie de subterraneo. Os pilares dos hypocaustos eram geralmente quadrados, compostos de tijolos de 7, e 8 ou 10 pollegadas de comprimento, uns sobre os outros, com o intervallo de uma camada de argamassa.

[Figura 36]

Os pilares do hypocausto recebiam grandes tijolos de 18 a 20 pollegadas em quadrado B, formando a base do pavimento das habitações.

Em muitas localidades, os tijolos eram sobrepostos de modo que apresentavam o cimo menos largo que a base.

O calorico não ficava concentrado no subterraneo onde estava o hypocausto: circulava nos pontos mais elevados, e entrava egualmente em todas as partes da atmosphera das salas, passando dor tubos quadrados de barro cozido 4 e 5, introduzidos na grossura da parede, 3 e 3, gravura de pag. 46 [fig. 37], um dos quaes, em posição vertical, penetrava no hypocausto, emquanto outros, collocados horisontalmente, circumdavam os aposentos.

O lume que aquecia o hypocausto era acêso n'um forno posto em pequenos pateos ou vestibulos proximos do hypocausto.

_Embutidos e ornamentos_.--O marmore foi frequentemente empregado para a decoração das paredes.

Em geral, os architectos romanos souberam tirar grande partido dos materiaes que fornecia o paiz em que se faziam as obras.

Não era raro vêr entrar em combinação os materiaes indigenas com os exoticos mais preciosos, taes como o porphyro, os marmores cipolino, os ophitos, etc., etc.

O uso de pintar as paredes era tão geral que as simples construcções em taipa e os tectos revestidos de barro tambem recebiam essa ornamentação. A pintura era applicada sobre delgado guarnecimento de cal.

Os methodos usados pelos romanos para a pintura das paredes são-nos imperfeitamente conhecidos. Comtudo, um d'elles consistia em applicar com a broxa cera colorida e derretida, estendendo-se ainda quente nas paredes.

[Figura 37: Tubos verticaes (4 e 5) para circular o calor, mettidos nas paredes]

A cêra não era empregada só, mas misturavam-n'a com azeite para a tornar mais liquida: todavia, a maior parte d'essas pinturas parece ter sido assente a frio, e a sua adherencia seria produzida, talvez, por uma especie de colla que lhe ajuntavam.

As paredes e os tectos eram tambem em algumas habitações revestidos de mosaicos de vidro preto, azul, branco, verde escuro, etc., decorações que se encontravam em muitas salas de banhos.

Plinio diz-nos que empregavam o vidro nos mosaicos das abobadas e das paredes, advertindo que este uso era recente, comparativamente com o dos mosaicos de pedra ou barro cozido. Achâmos na _villa rustica romana_, descoberta por nós em Leiria, duas casas com mosaicos d'este ultimo modo, e outra de argila cozida.

_Telhas e telhados_.--Os telhados das casas romanas eram formados de telhas chatas de grande dimensão, mais compridas que largas com um resalto sobre os dois lados: assim como havia telhas curvas similhantes ás dos telhados modernos.[12] As primeiras adaptavam-se umas ás outras pelas extremidades que não tinham resalto; as segundas ligavam-se entre si no sentido da inclinação do telhado, ficando em fiadas parallelas as telhas chatas e para cobrir as juntas e evitar a infiltração das aguas da chuva.

Os fragmentos das telhas com resalto tem resistido quatorze seculos á acção destruidora dos elementos, e das pancadas do arado; encontram-se espalhados e enterrados em grande quantidade em quasi todos os logares onde existiram construcções romanas.

Em fim, estes restos são o melhor indicio para o reconhecimento das regiões antigamente occupadas pelos romanos.

*Pontes*

As pontes, obra de tamanha utilidade, tornam-se mui notaveis pelas suas ousadas dimensões. Existem presentemente poucos vestigios d'ellas: o maior numero ficou destruido, pela força das correntes, ou reconstruido em diversas épocas e alterado na primitiva construcção. Podemos apenas citar poucas das compostas na época romana.

Nas pontes, como em outros monumentos gallo-romanos e luso-romanos, empregou-se o grande apparelho, e muitas vezes de alvenaria com argamassa (_empleton_) revestido de pequenas pedras symetricas (_opus incertum_).

[Figura 38: A ponte de S. Chamas, e as suas duas portas monumentaes]

Quando usavam os materiaes de grande dimensão, as pedras ficavam prezas umas ás outras com os cancros de ferro ou de bronze, e algumas vezes com malhetes de madeira de oliveira, previamente secca no forno.

Nas pontes construidas com pequeno apparelho a boa qualidade da argamassa dava-lhes tal solidez, que os pegões que sustentavam os arcos não soffreram depois nenhuma alteração.

Os pegões apresentavam algumas vezes, do lado da corrente, uma parte saliente triangular, para cortar assim a força da agua; e se o rio tinha demasiada extensão, acontecia então dividil-o em muitos braços, afim de construir a ponte em secções. D'este modo corrigia-se a rapidez dos rios pela divisão das aguas, e tornava-se menos difficil a construcção das pontes. Na idade media foram imitadas.

As pontes construidas com mais esmero e regularidade eram ás vezes verdadeiros monumentos, que serviam tambem para aformoseamento. Algumas tinham portas monumentaes ou arcos de triumpho.

_Pontes de madeira_.--Tratámos das pontes de pedra, porque só estas poderiam subsistir até os nossos dias; mas, durante o dominio dos romanos, tinham elles egualmente grande numero de pontes construidas de madeira.

Passava-se tambem os rios servindo-se de barcos de passagem, com jangadas sustentadas em odres ou tonneis vazios, como é usado ainda hoje em casos urgentes. Havia tambem pontes firmadas em barcos, como se vê figurado na columna de Trajano em Roma.

_Muralhas e caes_.--Os caes ou as grandes muralhas de supporte, construidas nas margens dos rios, vinham ligar-se ás pontes, quando estas existiam nas cidades.

*Aqueductos*

Os aqueductos, pela sua consideravel extensão e a importancia das ruinas que se conhecem em differentes pontos, offerecem interesse especial.

Os romanos, como todas as nações civilisadas, gastavam grande quantidade de agua para os usos domesticos; sendo muito escrupulosos na boa qualidade da agua, embora a fossem buscar a grandes distancias para os centros da povoação, empregando para esse fim canaes ou aqueductos.

[Figura 39: Restauração de um aqueduto em siphão]

Os aqueductos antigos que ainda existem, como os que possue a Italia, e os vêmos em outras partes, apresentam os canos de alvenaria feitos com mais ou menos solidez, e mais ou menos cuidadosamente betumados. Serviam-se geralmente das pedras de pequenas dimensões, embebidas na argamassa. Os canos, sendo proporcionados ao volume de agua que deviam levar, eram formados com abobada em volta perfeita, se ás vezes cobertos com grandes lageas assentes e sobrepostas sem cimento.

Para se obter o nivel das encostas que se encontravam na juncção dos encanamentos, faziam-n'os passar então sobre arcos mais ou menos elevados, que reuniam os dois lados do valle; outras vezes sobrepunham-se dois ou tres renques de arcos, com receio de que a demasiada altura dos pilares lhes diminuisse a solidez.

Quando o valle era muito profundo, para por este meio poder firmar-se o encanamento do aqueducto em nivel conveniente, conduziam a agua em tubos de chumbo que subiam até o cume da collina opposta, onde a agua pudesse seguir a sua corrente natural, conforme Vitruvio descreve mui claramente no seu 8.^o livro de architectura.

[Figura 40: Canal subterraneo do aqueducto]

[Figura 41: Canal de aqueducto sustentado sobre arcadas]

[Figura 42: Vista geral da ponte do Gard]

Para evitar trabalhos sempre difficies e dispendiosos, faziam seguir aos encanamentos subterrâneos, rodeios, ou sinuosidades, e por esta maneira as aguas podiam transpôr grandes espaços sem encontrarem encostas, e sem ficarem impedidas pelos obstáculos das montanhas.

Os aqueductos eram todavia mais communs soterrados, e só apparentes nos valles, onde necessariamente os canos passavam sobre paredões ou arcarias.

Os encanamentos que distribuiam as aguas nas fontes para os banhos e para outros estabelecimentos publicos e particulares das cidades gallo-romanas, eram feitos de chumbo ou barro. Saiam de um reservatório commum, ou castello de agua, _castellum_, como se vê um em Évora, do tempo de Sertorio.

A primeira gravura da pag. 51 [fig. 40], mostra o encanamento do aqueducto de Fréjo, um dos mais extensos que subsistem, tal qual se apresenta á vista quando se mantém subterraneo, ou collocado nas encostas das collinas, fig. 41. Este exemplo explica todo o systema empregado pelos engenheiros romanos.

Os aqueductos seguem a construcção egual das obras de arte executadas nos caminhos de ferro, transpôem como ellas os valles sobre viaductos, e atravessam as montanhas por meio de vallas ou tUneis.

Pontes e aqueductos serviam para transpôr os valles, e alguns tinham 90 arcos. A ponte do Gard, em França, era formada de três renques de arcadas sobrepostas, servia para o transito e o ultimo conduzia a agua á cidade, correndo na extensão de 41:000 metros. Indica a gravura da pagina anterior a sua construcção.

O numero dos aqueductos era extraordinario; não só se encontravam nas proximidades das grandes povoações, mas tambem das pequenas, e até junto das casas de campo de limitada apparencia.

*Cloacas*

As _cloacas_ constituiam outra especie de aqueductos subterraneos para receber as aguas inuteis, ou para as aguas da chuva e immundicies.

Em Roma, estendiam-n'as por toda a cidade, e subdividiam-n'as em muitos ramaes que vinham desaguar no Tibre. O principal cano de despejo, com o qual os outros communicavam era chamado _cloaca maxima_. Tinha abobadas elevadas construidas com grande solidez, por debaixo das quaes se passava em barcos[13].

*Praças publicas*

_O forum_ era geralmente uma praça onde se reuniam as assembléas do povo, onde se administrava a justiça e onde se tratavam os negocios publicos. Estava em certas partes rodeado de _porticos_, edificios e lojas.

Nas cidades de importancia secundaria, onde os porticos não eram repetidos como em Roma, achavam-se principalmente perto dos monumentos publicos, taes como os theatros, as thermas, os palacios, os templos, etc. etc.; collocavam muitas vezes os porticos do _forum_, por detraz da scena dos theatros, afim de que, conforme diz Vitruvio, quando inopinadamente chovesse durante o espectaculo, o povo pudesse abrigar-se ali.

A forma das praças, ou _fora_, era a do quadrilongo. Vitruvio affirma que devia ter um terço em comprimento, a mais de um lado que de outro.

*Basilicas*

A palavra _basilica_, significa _casa real_: designava em Roma um edificio sumptuoso dentro do qual os magistrados faziam justiça, por isso a distinguiam do _forum_, onde as sessões eram celebradas ao ar livre. As basilicas tinham tambem a fórma de um quadrilongo.

Parte dos porticos, interiormente decorados, ficava occupada pelos commerciantes: portanto, estes edificios eram ao mesmo tempo destinados aos negocios forenses, e uma especie de praça de commercio.

Em quanto á disposição das basilicas as primitivas egrejas christãs transmittiram-nos a imitação, e conservaram o nome. As basilicas consistiam pois em vasto recinto, tres vezes mais comprido que largo, dividido em renques de columnas formando muitas naves. Não ha a certeza de que as basilicas fossem rodeadas de paredes por todos os lados; julga-se que algumas eram abertas, pelo menos de um lado, para dar mais facil accesso ao povo, e para que as galerias communicassem melhor com a praça publica.

Não se pode duvidar de que não tivessem existido basilicas nas cidades gallo-romanas; porém seria difficil indicar o sitio que occupariam, porque desappareceram completamente os vestigios.

*Arcos de triumpho e portas monumentaes*

Os _arcos de triumpho_, porticos levantados á entrada das cidades, no logar da passagem publica, perto dos _forums_, diante dos templos, e na cabeça das pontes, etc. etc.; afim de indicar a memoria de uma victoria, de um grande serviço prestado ao imperio, e algumas vezes sem outro intuito mais que o de aformosear as cidades onde se erigiam.

[Figura 43: Arco de triumpho]

Dá-se tambem esta denominação ás portas das cidades antigas, que apresentavam uma disposição quasi similhante á dos arcos de triumpho. Estes, porém, eram monumentos isolados, formando um só corpo, e não se ligavam ás construções das trincheiras ou muralhas.

Era o contrario do que succedia nas _portas da cidade_, as quaes não obstante patentearem por vezes nas fachadas grande magnificencia, todavia as extremidades lateraes ficavam encravadas nas muralhas dos recintos fortificados, formando-lhes assim o accessorio ou a ornamentação.

[Figura 44: Portas de Santo André em Autun]

Entre as portas, a disposição mais seguida era a que a gravura apresenta, copiada da de Santo André de _Autun_, em França.

*Templos*

Duas formas eram consagradas para estes edificios religiosos, a quadrilonga e a circular. Seguiam mais geralmente a primeira. Os _templos_ receberam differentes denominações, conforme a disposição das columnas que os decoravam; distinguindo-se pela seguinte maneira:

Os templos com pilastras--Os _prostylos_, fig. 45.--Os _amphiprostylos_, fig. 46.--Os_ peripteros_, fig. 47.--O _monoptero_, fig. 48.--Os _pseudo-peripterios_, fig. 49.--Os _hypetheros_, fig. 50.--Os _monopteros_.

[Figura 47: Periptero quadrado]

[Figura 48: Periptero redondo]

[Figura 45: Prostylos]

[Figura 49: Pseudo-Periptero]

[Figura 50: Hypethreos]

[Figura 46: Amphiprostylos]

Os primeiros não tinham senão pilastras nos cunhaes da frente, e só uma columna de cada lado da porta.

Os templos _prostylos_ apresentavam quatro columnas na face exterior, e não tinham nenhuma aos lados, nem na parte posterior.

Nos templos _peripteros_, as columnas rodeavam completamente o edificio; sendo em o numero de seis nas fachadas anterior e posterior.

Nos templos _pseudo-peripteros_ differençavam-se dos antecedentes em que as columnas estavam embebidas nas paredes lateraes e na parede do fundo, em logar de ficarem separadas.

Duplo renque de columnas rodeava os templos dipteros, oito das quaes ornavam a fachada.

Finalmente, o templo _monoptero_ apresentava simplesmente a cupula sustentada sobre columnas dispostas em circumferencia; e o santuario não era fechado.

Resulta pois, do que fica exposto, que em todos os templos, excepto nos monopteros, havia uma parte fechada que era o santuario; em muitos templos, corriam em roda d'esse santuario galerias abertas, como especie de porticos para a ornamentação externa do edificio. A parte encerrada era designada sob o nome de _cella_ ou _nau_. Ahi collocavam a estatua da divindade, em honra da qual o templo fôra erigido.

Na frente da _cella_, e por detraz das columnas da fachada, estava o _pronaus_ ou vestibulo, no qual abriam a porta da entrada; á extremidade opposta do templo dava-se-lhe o nome de _posticum_. Algumas vezes reservavam, na parte posterior da _cella_, um quarto A destinado a guardar o thesouro do templo, e que se designava sob o nome de _opisthodomos_.

As columnas eram sempre em numero par nas fachadas dos templos; e conforme que se contava quatro, seis, oito ou dez, os templos tomavam a denominação de _tetrastylos_ (4 columnas), _hexastylos_ (6 columnas), _octostylos_ (8 columnas), ou _decastylos_ (10 columnas).

Finalmente, certos templos eram rodeados de uma cerca _peribobos_ ou antecedidos de pateo fechado, e ornados com portico, á roda do qual estavam os aposentos dos sacerdotes.

A estatua da divindade, feita de bronze, marmore, ou pedra, collocava-se no fundo da _cella_, em pedestal um pouco mais elevado que o altar, e fazia face á porta da entrada. Em geral, os templos ficavam voltados para o oriente.

[Figura 51: Fachada da Casa Quadrada de Nimes]

Não se deve julgar que os templos fossem muito vastos; alguns d'elles tinham até pequenissimas dimensões, e isso explica-se facilmente pelo conhecimento dos usos religiosos antigos, porque o exercicio do culto era individual; cada um tinha dias proprios para o sacrificio, em quanto, no christianismo, o exercicio do culto é collectivo.

O templo _pseudo-periptero_ hexastylo ha em Nimes (França), da ordem corinthia, o qual serve actualmente para museu de archeologia. A gravura mostra as suas bellas proporções e belleza.

As dimensões e a disposição do _templo de Diana_, em Evora, apresenta-nos outro exemplo d'esta ordem de edificios do antigo paganismo, que felizmente se conserva em Portugal nas suas magestosas ruinas, como se vê na presente gravura.

[Figura 52: Templo de Diana, em Evora]

Os templos rectangulares ficavam dispostos como indica a gravura da pag. 60 [fig. 53], rodeados de porticos; no meio d'elles havia o logar da cella e dentro o pedestal para a divindade.

Os templos circulares dividiam-se em duas classes: a primeira chamada _monoptero_, compunha-se sómente de recinto formado por columnas collocadas em pedestal commum, _stylobato_; o segundo _periptero_, apresentava uma _cella_ á roda da qual havia columnas, pousada egualmente sobre um _stylobato_, com degraus para ganhar a altura do pedestal, e dar entrada para o templo.

Fragmentos achados dos templos antigos, fizeram vêr que as suas esculpturas tinham sido pintadas de branco e amarello com traços encarnados, para dar mais relevo aos contornos.

Não só havia templos nas cidades, mas tambem nos campos. Alguns d'estes eram de grande veneração, pois que serviam de deposito aos mais ricos thesouros, principalmente os dedicados a Mercurio.

[Figura 53: Plano do templo rectangular de Izernore (França)]

_Altares_.--Já dissemos em que parte do templo se collocavam as estatuas das divindades; agora nos occuparemos da forma dos _altares_.

Havia entre elles differença de forma e de materia, proporções e usos.

A maior parte dos que se conservaram até hoje mostra a construcção de marmore ou cantaria simples; havia-os tambem de madeira; mas em menor numero. Os altares de metal apresentavam o feitio de tripode; os altares de marmore ou madeira eram quadrados, redondos, e ás vezes triangulares.

Os ornatos mais usados nos altares antigos eram os que representavam as cabeças das victimas, taças, e outros vasos e instrumentos para os sacrifícios, entrelaçados de grinaldas de flores e folhas[14]. Liam-se em alguns altares inscripções indicando a data da consagração, o nome do fundador, e as razões da devoção. Os mais bellos e custosos tinham ornamentações em baixo-relevo representando a divindade que se queria venerar e os seus attributos.

[Figura 54]

Costumavam fazer em cima dos altares e no meio d'elles, uma cavidade para receber as _libações_ ou o sangue das victimas.

Alguns altares eram fundados nas encruzilhadas, junto das estradas mais frequentadas, onde depois se ergueram cruzeiros, nos tempos modernos, para memoria.

*Edificios destinados aos jogos publicos*

Tinham os povos antigos tres especies de edificios destinados aos jogos publicos: o _circo_, o _theatro_, e o _amphitheatro_. Muitas vezes teem confundido os três sob a mesma denominação, de _circos_; porém a forma, as dimensões, e o destino estabelecem entre elles diferenças notaveis.

Os _circos_ eram mais bem considerados que os amphitheatros e os theatros; a forma d'aquelles edificios era de um parallelogrammo prolongado, circular em um dos topos, e quadrado ou levemente convexo do lado opposto. Os dois lados maiores apresentavam exteriormente duas ordens de architectura sobrepostas, limitadas por uma attica e cobertas com terraço. _Lojas_ e _passagens cobertas_ conduziam ao interior do circo, e occupavam o primeiro renque das arcadas. _Seis torres quadradas_, quatro d'estas nos pontos de juncção dos grandes e pequenos lados do circo, e duas nas extremidades, sobresaiam aos terraços; as quaes torres eram ornadas de quadrigos, ou grupos de andarilhos.

[Figura 55: Circo Maximo de Roma]

A entrada para os carros destinados ás corridas era pela extremidade convexa do circo; doze arcadas, não comprehendida a que se achava debaixo da torre, fechadas por grades de ferro, serviam de cocheiras, _carceres_, onde os cavallos eram guardados antes do começo das corridas.

É fácil comprehender a disposição dos assentos postos no interior de um circo: sobre os dois grandes lados e no hemiscyclo opposto aos _carceres_, levantavam-se os palanques, tendo acima a galeria ornada de columnas correspondentes ás paredes que separavam as arcadas exteriores da _segunda ordem_, e por meio das quaes podiam circular os espectadores.

Havia tambem, por cima dos carceres, outros palanques, e era ahi, superior á entrada principal na torre collocada ao centro das cocheiras, que estava a tribuna reservada para o imperador ou para o magistrado que presidia aos jogos.

[Figura 56: Tribuna de um circo]

