Noções elementares de archeologia

Part 3

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Outras vezes as pedras são substituidas por trincheiras ou fossos de terra. Tem-se encontrado em algumas partes, posto que raramente, terrados parallelos na direcção de Leste a Oeste, e do Norte a Sul, que apresentam, em quanto á disposição, muita analogia com os alinhamentos de pedras e parece terem tido o mesmo destino.

Os alinhamentos de pedras mais notaveis e mais vastos que se conhecem em França, são os de _Karnac_, de _Ardeven_, e de _Penmarch_. Compõem-se de mais de 1:200 pedras toscas em 11 filas parallelas com 763 toezas de comprimento, e 47 de largura. As mais elevadas tem 18 a 20 pés, e as mais pequenas 4 a 5. Ha entre ellas algumas de volume tão extraordinario que lhes avaliam o pezo em 70 a 80 milheiros.

Os alinhamentos de _Ardeven_ estão dispostos regularmente em filas parallelas, tambem na direcção do Norte para o Sul, e no espaço de 3 kilometros de extensão.

*Circulos*

Outra combinação de pedras erguidas toma a forma de circulos, que têem sido designados pelo nome de _cromlecks_.[3]

[Figura 10: Circulo de pedras]

Os maiores d'estes circulos existem em Inglaterra; um d'elles, o vasto circulo de Avebury, em Wiltshire, está totalmente destruido; porém ainda houve quem o visse quasi completo por 1713; compunha-se de 660 pedras, e achava-se situado no meio de uma planicie, ficando-lhe o terreno em declive de todos os lados, como pode vêr-se na gravura junta.

[Figura 11: Restauração do monumento d'Avebury.]

O circulo exterior era formado de 100 pedras de 15 a 16 pés de altura, collocadas a 27 pés umas das outras; tinha perto de 1:300 pés de diametro, e via-se cercado de profundo fôsso, contornado exteriormente por larga trincheira de terra.

Este grande circulo continha dois circulos mais pequenos, compostos cada um de dois renques concentricos de _peulvans_, do qual um tinha 30 pedras, apresentando um diametro de 466 pés; e o outro 12 pedras, com o diâmetro de 186 pés.

O monumento de Stone-Henge[4] está situado a 6 milhas de Salisbury, em uma eminencia, na proximidade da qual se encontram muitos _tumulos_; é composto de 4 circulos concentricos, dos quaes os dois maiores são circulares, em quanto os outros dois mostram a forma um tanto elliptica.

[Figura 12: Vista de Stone-Henge, proximo de Salisbury]

O circulo exterior tinha quasi 97 pés de diâmetro; e compunha-se primitivamente de 30 pedras erguidas com altura de 10 a 12 pés, collocadas a 1 metro de distancia umas das outras; estas 30 pedras sustentavam egual numero de impostas ou pedras collocadas horizontalmente que se ligavam nas extremidades e formavam d'este modo uma especie de balustrada tosca.

O segundo circulo ficava a 9 pés do precedente, era formado de 29 pedras esguias sem impostas, e por metade da grandeza das do circulo exterior: apenas 19 estavam erguidas haverá 38 annos.

O terceiro circulo, a 13 pés do precedente, apresentava uma illipse tendo o pequeno eixo 52 pés, e o maior quasi 55; formado por _trilithos_[5] de grande dimensão, o mais elevado, dos quaes tinha 22 pés de altura.

Finalmente, o circulo central tambem um pouco elliptico, compunha-se de 20 _peulvans_ com a altura de quasi 6 pés.

[Figura 13: Disposição dos renques de pedras em Stone-Henge]

Na extremidade oriental do oval, dentro do ultimo circulo, havia uma pedra medindo 16 pés de comprimento e 4 de largura, posta em plano na terra, e que se suppõe serviria de altar.

As pedras esguias que compunham estes quatro circulos eram quasi todas mais largas na base que no vertice; tinham sido cravadas em cavidades abertas em rocha de natureza graphite, e havia o cuidado de as consolidarem calcando-as com fragmentos de pederneira em volta das cavidades.

Um largo fôsso de 30 pés, collocado entre duas trincheiras, formava o quinto recinto circular á roda das pedras do circulo exterior.

A Dinamarca, a Noruega e a Suecia, conteem certo numero de _cromlecks_, quasi todos circulares ou ellipticos, apresentando geralmente uma pedra no centro, que se suppõe ter servido de altar.[6]

Acredita-se que estes monumentos nem sempre foram usados nas ceremonias religiosas.[7] Na infancia dos povos, os logares consagrados ao culto deviam servir tambem para tribunal de justiça, assim como para ponto de reunião dos conselhos patriarchaes ou de notaveis, que tratavam dos interesses da nação, das eleições, das inaugurações, etc.

Em o Norte, os nobres reuniam-se antigamente dentro de recintos circulares formados de pedras, para elegerem os seus principes, até a promulgação da Bulla de Ouro pelo imperador Carlos IV, em 1356. O circulo de pedras, no qual Eric foi proclamado rei da Suecia, existe ainda proximo de Upsal; uma grande pedra toma o centro, como em outros recintos d'aquelle paiz. Outrotanto se praticava na Irlanda e na Escossia.

Taes são os principaes monumentos de pedra dos tempos prehistoricos. Accrescentemos que o vulgo lhes attribue origens fabulosas, como obra de um ente colossal chamado _Gargantua_; que a tradicção os tem indicado como encerrando preciosos thesouros; abrigos de fadas, de almas do outro mundo, e dos espiritos que as acompanham!

*Recintos formados com terra*

Estes recintos consistem em um _vallum_ de terra, ás vezes misturada de seixos, circumdando extensões mais ou menos consideraveis e cujas formas são mui variadas. Poder-se-hia attribuir essa especie de claustros á outra época do que a que corresponde aos tempos prehistoricos, se não houvesse tumulos encerrados no _vallum_, ou levantados proximo d'elles, o que faz suppôr que serão contemporaneos.

*Architectura dos tempos prehistoricos*

Pouco sabemos acerca de qual seria a architectura anterior ao dominio dos romanos. Presume-se porém que nas primitivas construcções empregariam a madeira e o barro.

As habitações eram circulares, construidas com madeiras e vimes enlaçados.

No interior faziam as divisões com terra; o telhado formavam-n'o de ripas de carvalho ligadas com massa de argila e palha cortada, conforme os vestigios encontrados na Gallia, na Bretanha, na Germania, em Hespanha e Portugal.

De investigações feitas em França e na Inglaterra, conheceu-se que muitas habitações dos celtas tinham antes a forma oval do que redonda, e algumas vezes rectangular; mostravam alicerces de pedra secca, e muitas eram construidas em nivel inferior ao solo que as circumdavam, quer fosse para se resguardarem dos rigores do clima, ou quer para não darem ás paredes altura consideravel.

Estas casas estavam em relação com a simplicidade dos costumes; deviam ter um só andar, e apresentavam uma só abertura, que servia de porta e janella.

Em todas a forma era egual, mas as dimensões divergiam. O numero e a grandeza das casas deviam corresponder á cathegoria e opulencia dos possuidores.

Os gaulezes abastados tinham sempre junto de si séquito para o qual necessitavam de grandes habitações. Escolhiam portanto o terreno para ellas nos bosques e perto dos rios, ou em eminencias, afim de servirem egualmente de fortalezas para a propria defensa.

*Utensilios e instrumentos diversos*

Em época, que não podemos determinar, os nossos antepassados souberam, que o estanho combinado com o cobre produzia uma liga mais rija e mais pesada que estes dois metaes separados; as analyses que o celebre mineralogista Clarke repetidas vezes fez em Inglaterra, e aquellas que se fizeram em França, demonstraram que sobre 100 partes quasi todos os bronzes antigos contem 12 de estanho e 88 de cobre; porém que esta proporção não é constante, e que a quantidade de estanho ou de chumbo combinada com o cobre, varia ás vezes desde 4 até 15 por 100.

Mr. Clarke verificou que os antigos bronzes descobertos na Grecia, no Egypto e em algumas partes da Asia,[8] continham a mesma quantidade de estanho (88 e 12): sendo esta a proporção necessaria para se obter o _maximum_ de densidade resultante d'estes dois metaes.

Os machados de bronze, que tem sido encontrados em grandissimo numero em toda a parte e que se vêem em quasi todas as collecções,[9] apresentam entre si differenças notaveis; os typos que damos são os mais conhecidos. Estes machados teem um olhal nos lados, e existem de diversos tamanhos; as faces lateraes são de feitio de uma folha lanceolada sobre o comprido, na qual se vê o vestigio da juncção das duas peças do molde em que o instrumento foi vasado.

Em Portugal descobriu-se um muito singular, não só por suas grandes dimensões, mas por ter _dois olhaes_, o que o torna raro no seu genero.

[Figura 14a]

[Figura 14b]

[Figura 14c]

[Figura 14d]

Estes machados deviam encavar-se de duas maneiras: n'uns, o cabo entrava de espiga n'uma cavidade central _a_, _b_; n'outros, dar-se-lhe-hia a forma de palmeta para entrar nos dois lados do instrumento no logar preparado _c_; algumas vezes as bordas delgadas e salientes que formavam a parte ôcca ficavam reviradas sobre si, por modo a formar uma especie de calha _d_, apropriada para conservar a parte encavada.

*Moldes para machados*

Os machados de bronze foram sem duvida fundidos em moldes compostos de duas peças symetricas, pouco mais ou menos como os que ainda hoje são empregados na fundição das colheres de estanho.

[Figura 15: Molde aberto]

[Figura 16: Molde fechado]

É provavel que alguns d'estes moldes fossem de terra ou de pedra; porém o maior numero dos que se conservam nos museus são de bronze, fundidos egualmente como os machados.

O primeiro molde para machados celticos que chamou a attenção dos sabios foi descoberto na Inglaterra em 1779. Encontraram-se depois em muitas partes da França, principalmente na Normandia.

Estes moldes compôem-se de duas peças ôccas, que se podem juntar e unir sem se desconcertar, por meio de uma parte saliente chamada _macho_ que está na virola do molde de uma das peças, e se encaixa na fenda praticada na virola da outra peça.

_Espadas de bronze_.--As espadas de bronze compõem-se de lamina e cabo (punho). São de folhas direitas, chatas, mas reforçadas no centro da lamina, e ás vezes ainda com bojo no espaço comprehendido nos dois terços da folha. Cortam dos dois lados e tem ponta aguda.

A largura de lamina quasi sempre é de pollegada e meia ou duas pollegadas na parte mais larga, sendo a sua maior grossura de um quarto de pollegada.

No punho ainda algumas tem os pregos de bronze que haviam servido para segurar a guarnição.

As espadas eram tambem fundidas, e o metal identico ao empregado nos machados.

[Figura 17]

_Punhaes de bronze_.--Estas armas parecem-se com as espadas, exceptuando a lamina que é mais curta. O comprimento de alguns é de 10 a 14 pollegadas, e a largura da folha de 2 a 21/2 pollegadas na base.

_Pontas de lança_.--Juntamente com as armas que descrevemos, encontram-se de vez em quando pontas de lanças e objectos que foram considerados como especies de virolas ou ferragens para guarnecer a parte inferior da hastea.

_Rodeias ou collares (torques)_.--Affirmam alguns historiadores que os gaulezes traziam collares ou _torques_, como tambem braceletes e argolas nos braços.

[Figura 18]

O collar era egualmente usado pelos gregos e romanos, e outros povos; talvez não haja outro ornamento de uso mais antigo, nem mais geral.

Deve-se distinguir entre os _torques_; em primeiro logar, os que são formados de muitas peças encadeadas e enfiadas em especie de rosarios de perolas grossas de ambar, de azeviche, de vidro colorido, etc., como se encontraram dentro de alguns _tumulos_; e depois as cadeias, cujos elos são de ouro ou bronze. Em segundo logar, os _torques_, compostos de uma unica peça de metal (ouro, bronze, etc.) arqueada de maneira a formar circulo do diametro mais ou menos consideravel, e muitas vezes com lavores. Em muitos _torques_ as duas extremidades da peça metalica não estão soldadas, porém o metal offerece bastante flexibilidade para facilitar mettel-as nos punhos, podendo-se unir ou abrir, independentemente do fecho; outros _torques_ não apresentam nenhuma d'estas formas.

[Figura 19]

Appareceram tambem chapas de ouro bastante delgadas com feitio de meias-luas, porém cujas pontas estavam arqueadas de modo a formarem circulo quasi perfeito. Vêem-se, aos lados e nas extremidades de algumas d'estas peças, festões e molduras.

[Figura 20]

O pequeno intervallo que separa as duas pontas do crescente não nos faz suppôr que este enfeite servisse para se trazer em volta do collo; provavelmente ficava suspenso por uma corrente.

Alguns instrumentos achados por varias vezes nos sepulchros, ou junto dos dolmens, em França e mais frequentemente na Irlanda, consistiam em hastea de ouro arqueada tendo nas duas extremidades um disco, em alguns chato, em outros levemente concavo.

[Figura 21]

Ignora-se absolutamente para que uso seriam destinados.

Finalmente, o objecto seguinte, uma especie de _gargantilha_ formada de uma folha de ouro mui delgada, foi achado em França em diversas localidades.

[Figura 22: Collar de ouro descoberto em França]

As _moedas_ chamadas _celticas_ são provavelmente em parte contemporaneas dos ornamentos ou enfeites que descrevemos acima.

*Objectos de barro*

São tanto mais difficeis de se distinguirem os _objectos de barro celticos_, com excepção dos que se tem encontrado nos _tumulos_, quanto em algumas partes estão muitas vezes misturados com outros similhantes aos do tempo dos romanos; visto que os mesmos sitios foram habitados antes e depois da conquista de Cezar na Peninsula.

[Figura 23]

Os objectos de barro descobertos nos _tumulos_, são formados de terra preta, mal preparada e com pequenos seixos, o que produziu massa pouco solida. Os seus fragmentos são frageis, e não foram cozidos sufficientemente; a parte quebrada não mostra arestas vivas, mas sempre cheias de cavidades. As superficies d'essas peças, tanto na parte interna, como na externa, tem côr quasi egual á do ferro ferrugento; porém na parte interna é de negro carregado. Expostas á acção do lume tomam exteriormente a côr avermelhada do tijolo; em quanto no interior ficam negras, e mais frageis depois d'esta operação.

[Figura 24: Vasos achados nos tumulos de Inglaterra, Hollanda e outros paizes]

Esses vasos não parece terem sido feitos com auxilio do torno, e não apresentam nenhum moldado ou borda; foram unicamente alisados na parte exterior com um objecto qualquer, que lhes deu lustro irregularmente, de maneira que mostram na superficie altos e baixos, mais ou menos lisos, conforme vai indicado na gravura junta.

Os que foram encontrados nas cidades _lacustras_, mostram inteira similhança e caracter no fabrico. A massa não está solidamente ligada, por ter algumas partes de pederneira; a côr é preta ou cinzento escuro. Esta massa tem pouca consistencia; quando está secca quebra-se facilmente, e pode-se desfazer entre os dedos; se a molharmos, dar-nos-ha a apparencia de bocados de cortiça velha que estivesse por muito tempo exposta á chuva. As suas formas indicam a infancia da arte, excepto os fragmentos onde se descobre o uso do torno; os demais pertenceram a objectos que parece foram vasados em moldes e polidos á mão, ou lavrados com algum instrumento. Reconhece-se na superficie exterior de alguns fragmentos o trabalho de uma especie de plaina. Os ornamentos compôem-se de filetes imperfeitos, e em pequenos riscos junto á borda do orificio.

[Figura 25: Outros vasos achados nos tumulos]

Entre os objectos de arte que enumeramos, só vemos os instrumentos cuja materia unicamente podia resistir á acção do tempo; os moveis de madeira que teriam as habitações gaulezas não conseguiram chegar até os nossos dias. Os lagos de certo conservaram-nos muitos objectos, e até pedaços de tecidos que recentemente nos esclareceram alguns pontos relativos á industria d'esses povos, antes da occupação do territorio da Gallia pelos romanos, porém são ainda dados incompletos para se formar cabal idéa do estado da industria.

Terminamos este rapido esboço, apresentando o quadro synoptico das antiguidades que servem de assumpto ao primeiro capitulo.

*MAPPA SYNOPTICO DAS ANTIGUIDADES PREHISTORICAS*