Noções elementares de archeologia
Part 12
[Figura 224: Hospital de Nuremberg]
*Casas da camara*
Algumas casas dos municipios do seculo XIV, como a de Brunswich, mostra qual a importancia adquirida por estes monumentos desde o seculo XIII (vêde a pag. 193 [fig. 195], a casa da camara de Ypres), como se conservou até no seculo XIV, sendo então decorada com coruchéos, balaustradas e estatuas, e com as molduras mais elegantes d'aquella época.
*Mercados, açougues e armazens*
_Mercado coberto de Bruges_. O mercado de Bruges, que pode ser considerado como monumento mixto, pois que é ornado do campanario communal, fórma um quadrilatero de 84 metros por 43. As casas mais visinhas do campanario estavam d'antes isoladas; acrescentaram-lhe as azas desde 1325 até 1364.
O mercado de _Evron_, em França, construido de madeira, data do seculo XIV, como igualmente o côro da igreja abbacial: compunha-se de duas naves formadas por tres filas de prumos.
[Figura 225: Prumos que sustentam o grande madeiramento dos mercados em Évron]
Apresentemos o traçado das peças de madeira de uma asna d'este grande madeiramento, e que se apoiam sobre o renque dos prumos de vigas, que separam as duas naves. Este madeiramento merece estudo particular, e será apreciado pelos constructores, visto que estes grandes edificios construidos por esta fórma acabaram de todo, e ainda não foram sufficientemente estudados.
_Mercado de Dives_. O antigo mercado de Dives, em madeira, tem igualmente certa importancia. A parte menos antiga, que está do lado leste, pertence ao seculo XIV; os dez vãos mais bem construidos que compõem o mercado primitivo, datam certamente da idade media; tem 32 metros de comprimento e 11 metros de largura, decompondo-se da maneira seguinte: a nave central, 7 metros; as lateraes 4^m,32. A gravura mostra o córte transversal do madeiramento.
[Figura 226: Córte transversal do mercado de Dives]
Em certas cidades bastante povoadas, onde a corporação dos carniceiros era poderosa, como em Gand (Belgica) e na Inglaterra, o mercado coberto formava um monumento.
[Figura 227: Vista d'uma parte do açougue de Gand]
_Açougue de Gand_. Este grande edificio, do qual os viajantes vulgares não fazem caso, e que os itinerarios não se dão ao incommodo de descrever, é comtudo digno de ser citado. É dividido no interior em duas naves por bem combinadas divisões de madeira. As duas portas das fachadas correspondem ás duas naves. Datando a sua construcção do fim do seculo XIV, o açougue de Gand foi consideravelmente augmentado depois, e reconstruido em grande parte no reinado de Carlos V, em 1542.
[Figura 228: Grande armazem de deposito na cidade de Constance]
O armazem de deposito de Constance, pag. 232 [fig. 228], pode dar-nos idéa dos grandes armazens do seculo XIV; compõe-se de muitos andares, cujos pavimentos de madeira são sustentados por grossas vigas a prumo.
*Casas particulares*
[Figura 229: Casa antiga construida em Cordes]
As casas particulares do seculo XIV eram, como as do seculo XIII, construidas de cantaria ou madeira; quando havia na proximidade bons materiaes, que facilmente se extrahiam e transportavam, davam-lhe a preferencia; porém, achar-se em similhantes condições era raro, e por isso preferiam a madeira; veio d'ahi certa combinação no systema particular das construcções, de que se encarregavam especialmente os entalhadores para ornamentar as madeiras apparentes; além de facilitarem as suas edificações.
Escolhemos como especimen das casas construidas de cantaria, uma das mais notaveis que existem em _Cordes_, como se vê na gravura da pag. 233 [fig. 229].
*ARCHITECTURA MILITAR*
*Formas geraes*
[Figura 230: Galeria saliente de cantaria]
A começar do seculo XIV, as partes habitadas dos castellos tomam formas mais regulares, encaminhando-a a se aproximar do estylo moderno. No pateo principal, que é ordinariamente quadrado, apresentam grandes e vastas habitações que se ligam intimamente com as muralhas de recinto. Por esta forma, as obras de defensa estão alternadas com os aposentos, ficando _as construcções civis augmentadas em prejuizo das fortificações_. Muitos castellos do seculo XIII se completam no XIV com grandes addicionamentos.
As torres dos angulos encerravam geralmente as escadas para se subir aos differentes andares. Collocavam tambem uma escada principal na torre levantada ao centro da fachada nobre do edificio.
Os cachorros de madeira que coroavam as paredes das fortificações apresentavam, como já dissemos, bastantes inconvenientes, aos quaes procuravam dar remedio. No seculo XIV as galerias salientes de cantaria com bésteiras, gravura da pag. 234 [fig. 230], substituiram pouco a pouco os cachorros nas praças fortes. As muralhas d'_Avignon_, e as de _Cahors_, reconstruidas no seculo XIV, offerecem bellos exemplos.
[Figura 231: Interior de uma porta com ponte levadiça]
As bésteiras não existiam antes dos seculos XIV e XV; á falta de outro typo, pela sua construcção pode-se confirmar a antiguidade das muralhas, quando ellas lhe servem de remate sem nenhuma interrupção. As portas dos recintos são constantemente defendidas por duas torres, e tendo na parte superior, como no seculo XIII, uma sala onde faziam mover a ponte levadiça. Foi no seculo XIV, que principiaram, como já referimos, a ser munidas de pontes levadiças,[53] movidas por contrapesos. A pequena porta destinada aos pedestres tinha ponte levadiça particular, como se vê na gravura da pag. 235 [fig. 231].
Citaremos entre os castellos mais completos do seculo XIV o de _Pierrefont_, que fomos vêr em 1867 quando a sua restauração era dirigida pelo eminente architecto e archeologo, o nosso confrade mr. Viollet-le-Duc.
A formidavel Bastilha de Paris, destruida em 1789, cujo _fac-simile_ se encontra em grande numero de bibliothecas publicas, fôra começada em 1369 por ordem do rei Carlos V. Esta fortaleza compunha-se de habitações em grande altura, dispostas regularmente em roda de um pateo quadrilongo; tinha quatro torres semiesphericas nos angulos do quadrado e mais duas no centro dos dois maiores lados.
[Figura 232: Vista exterior da Bastilha]
Diversas janellas quadradas se abriam para o interior dos pateos, e algumas nas muralhas exteriores.
_Vincennes_ é antes uma praça forte do que um castello propriamente dito; a forma regular do recinto, o torreão, as torres, os parapeitos, este todo offerece um bello exemplo do grande monumento militar do seculo XIV,[54] e sempre que se pudesse, dever-se-hia adoptar um plano symetrico, quando o terreno fosse aproprido para similhante construcção.
Esta fortaleza conserva ainda algumas construcções muito antigas.
O rei Filippe Augusto foi o primeiro soberano que mandou edificar n'este logar uma casa de campo para suas caçadas.
A maior parte das fortificações foram demolidas em 1337, para se construirem as que existem; assim como o bello torreão do castello, que veio a ser prisão do Estado no reinado de Luiz XI. Este torreão é um dos melhores, no seu genero, que possue a França.
É notavel a elegancia da galeria dos antigos aposentos reaes, bem como a architectura da capella, construcções pertencentes aos reinados de Francisco I e da rainha Maria de Medicis.
CAPITULO VI
ERA OGIVAL DO SECULO XV E PRINCIPIO DO XVI
*ARCHITECTURA RELIGIOSA*
Posto que a fórma usual das igrejas tivesse ficado a mesma no seculo XV e no principio do XVI, os architectos tiveram certa tendência para se afastarem da regularidade symetrica da época anterior; fizeram nas igrejas existentes augmentos que vieram a destruir a harmonia, juntando-lhes, por exemplo, outras capellas fóra das proporções das que já existiam.
*Ornamentos*
As formas prismaticas ou angulares dominam no feitio das molduras do seculo XV, tanto nos toros e nas nervuras, como nos pinasios, e até nos mais insignificantes detalhes; isto dava aos ornamentos _aspero_ aspecto, por causa de _magreza_ no cinzelado, que nunca apresentaram os executados nos seculos XIII e XIV.
As folhagens mostram, a começar do seculo XV, fórmas inteiramente differentes das que notámos nos seculos XIII e XIV, são folhas de couve encrespadas, de cardo e outras plantas. As folhas de vinha foram tambem empregadas com as outras folhas recortadas: estas formam, nas hombreiras das portas, das janellas, cornijas e festões executados com tanta habilidade, que parece se despegam da pedra, e são apenas adherentes na sua superficie: estas grinaldas eram ás vezes entrelaçadas com fitas. Os esculptores divertiam-se tambem em representar diversos animaes entre as folhagens.
[Figura 233: Grinaldas de folhas recortadas]
Os _crochets_, em parte differentes dos executados no seculo XIV, mostram em geral mudança de fórma análoga a dos ornamentos, representam folhas de couve ou cardo encrespadas, arredondadas, reviradas, parecendo-se com cabeças de golphinhos.
*Contrafortes*
O fragmento representado na pag. seguinte [fig. 234], mostra o effeito dos apainelados, dos pinaculos na sua applicação descançando sobre animaes--caryatides; finalmente os dos frontões triangulares, por cima das janellas ornados de folhas encrespadas, rematavam com balaustradas e divisões do estylo flamejante de _labaredas_.
[Figura 234: Pinaculos descançando sobre animaes--caryátides]
*Columnas e pilastras*
Já não se vêem columnasinhas enfeixadas, porque foram substituidas por simples nervuras prismzticas. Os capiteis, mais geraes, eram ornadas de folhagens encrespadas, dispostas em dois ramos sobrepostos um ao outro. No final do seculo XV e no XVI, não é raro encontrar as columnas completamente sem capiteis; então as nervuras dos pilares prolongam-se sem interrupção até ao cimo do edificio e formam um todo com os arcos ramificados de abobada. Sobre algumas pilastras, encontram-se pinaculos, molduras com grandes relevos mais ou menos complicados, e misulas para servirem de peanhas ás estatuas.
[Figura 235]
*Portas*
As portas de arcos abatidas, ou de volta de sarapanel, que se chamam arcos _Tudor_, porque foram mui usadas em Inglaterra no reinado de Henrique VII e Henrique VIII, vêem-se principalmente no final do seculo XV ou no principio do XVI, e eram enfeitadas como as outras portas, com bellas folhas retorcidas e coroadas de um penacho pediculado, como está representado na seguinte gravura.
[Figura 236]
*Janellas e oculos (espelhos)*
Os compartimentos, que dividem as janellas e aberturas circulares chamadas _oculos_ ou _espelhos_, apresentam mais geralmente feitios retorcidos, assimilhando-se a labaredas, corações esguios, etc. etc., que differem das flores de trevo, folhas de quatro pontas, e outras figuras radiantes. Foi em razão d'estas formas retorcidas, tantas vezes reproduzidas nos compartimentos das janellas, nos espelhos, nas balaustradas e nos ornamentos representados na cantaria, que se tem designado o estylo ogival do seculo XV sob o nome de gothico _flamejante_.
*Abobadas*
Os arcos das abobadas vieram a ser mais salientes e prismaticos: as suas peças curvas principiaram tambem a ramificar-se na segunda metade do seculo XV e no XVI, e os pontos de juncção mostram por vezes _penduraes_.
[Figura 237: Rosa flammejante em compartimentos triangulares]
*Torres*
As torres do seculo XV apresentam uma grande variedade de formas: ha algumas, cujas agulhas são muito elegantes (Belgica, Bordelez, Normandia, ele.); outras são quadradas, flanqueadas de contrafortes salientes, e que não tem a leveza dos primeiros.
No seculo XV, em logar de flanquear com duas torres as fachadas das grandes igrejas, tinham muitas vezes levantado uma unica torre quadrada ao meio do frontão occidental, como _S. Bavon de Gand_, a cathedral de Berne, e a cathedral de Ulm, etc.
Muitas torres d'esta época apresentam, grav. pag. 245 [fig. 239] sobre os angulos do corpo quadrado que sustenta a pyramide, _obeliscos_ ou _torresinhos_ que se ligam ao corpo da torre por arcos botantes de uma leveza extrema, cujo _intradoz_ é ornado de festões arrendilhados.
Haveria um estudo interessante a fazer-se sobre as torres do seculo XV, as que existem na cidade de _Ruão_, pois são todas de notavel elegancia, embora não tenham como remate nem frechas, nem agulhas.
*Altares*
O altar, representado na gravura seguinte, tem 2^m,40 de comprido por 0^m,90 de fundo e 1^m,80 de altura. Sustentam-no tres pequenas columnas. A decoração na frente compõe-se de quatro curvaturas, alternadamente separadas por uma columna e por um pendural.
[Figura 238: Um dos altares da igreja do Flogoat (Finisterra)]
*Tabernaculos*
Encontram-se no seculo XV tabernaculos ou _ciboriums_ de pedra que podem egualmente ser considerados como accessorio dos altares; ainda que estejam a maior parte das vezes separados e encaixados nas paredes proximas, como tambem estão as credencias. O especimen seguinte mostra a configuração dos que existem em muitas igrejas já d'esta epoca.
[Figura 239]
Algumas credencias, do fim do seculo XV, são tambem mui notaveis pelo numero e acabamento de suas molduras, como se vê na gravura seguinte.
[Figura 240: Credencia dos ultimos annos do seculo XV, na capella de Jucoville]
*Pias baptismaes*
A forma mais usada no seculo XIV para as pias baptismaes foram egualmente imitadas no XV, porém as pias d'este ultimo seculo e do principio do XVI mostram, enquanto ás esculpturas, que foram executadas primorosamente com molduras prismaticas, similhantes ás que ornam os nichos, os doceis e os pinaculos da architectura ogival da epoca terciaria.
[Figura 241: Pia baptismal na igreja de S. Sebaldo]
[Figura 242]
As pias _monopediculadas_ com reservatorio e pé octogono não são raras no seculo XV: algumas imitam o feitio d'um calix e apresentam da parte externa a forma hemispherica ou ovoide.
A pia baptismal da cathedral de Bale é pediculada; o calix tem oito faces com a data de 1465. Estão representados sobre os oito lados d'este calix: Jesus Christo baptisado no Jordão; S. Lourenço, S. Thiago, S. Paulo, S. Pedro e S. Martinho. O pé tem egualmente a fórma octogona.
As pias de bronze da igreja de _S. Sebaldo_, em Nuremberg, apresentam a forma cylindra ornada com circulos em relevo. Os contornos são graciosos, e está dividida em duas partes e com arcadas collocadas a par. Os quatro evangelistas se destacam no socco, e parece que sustentam a parte superior da mesma pia.
*Tribunas--Separações formadas de cantaria*
Era do uso fazer-se um ambito gradado, especie de barreira ou separação muito enfeitada, posta entre a nave principal e o côro, sustentando geralmente uma tribuna e a estante onde se lia o Evangelho, como praticavam antes servindo-se do pulpito. As mais primorosas datam do fim do seculo XV, ás barreiras em cantaria que separavam o côro das naves, e que, desde o seculo XIII, já existiam em algumas igrejas; ellas vieram a ser nos seculos XV e XVI de grande riqueza de trabalho e de merecida admiração.
*Tumulos e campas*
No final do seculo XV e no XVI empregava-se quasi constantemente, para os tumulos arqueados, arcos postos a par, similhante a este exemplo que damos: collocavam um certo numero de tumulos d'este genero ao correr das paredes nas grandes igrejas.
[Figura 243: Arco duplo de um tumulo]
No seculo XV, encontram-se as pedras das campas cobertas por uma grande quantidade de detalhes d'architectura, como se executavam nos tumulos em vulto. O finado era representado occupando o centro de um historiado portal, composto de nichos, dentro dos quaes ornam pequenas figuras de santos em differentes alturas, ou então postas em nicho coberto por um docel; gravura de pag. 248 [fig. 242].
*Cruz dos cemiterios*
No seculo XV, tinha-se lavrado muitas cruzes em pedra para se porem no meio dos cemiterios, e o estylo das molduras caracterisa sufficientemente a época da execução. Em algumas cruzes da Bretanha, distinguem-se grupos de personagens bastante complicados, e de trabalho muito mais apurado por serem em pedra muito rija.
[Figura 244: Cruz de Scaeb (Finisterra)]
*ARCHITECTURA CIVIL*
O caracter da architectura civil do seculo XV, emquanto ás molduras com ornatos, é egual ao empregado na architectura religiosa.
*Architectura monastica*
A architectura civil monastica segue o gosto do tempo e adoptou-se nas arcadas dos claustros, nas janellas ogivaes, com contornos curvilineos, como já expuzemos quando fallámos da architectura religiosa.
[Figura 245: Fragmento d'um claustro do seculo XV]
Para comprovar, será sufficiente apresentarmos o desenho de um claustro do fim do seculo XV, com os seus arcos a compartimentos em labaredas, ficando como esmagados pelos frontões de ramalhetes, uns a par e esguios [fig. 245B], os outros separados de varios segmentos, cujas curvaturas são mui desagradaveis (fig. 245A, estampa da pag. 251).
As folhagens golpeadas com as quaes ornavam as curvaturas dos portaes, são ás vezes vasadas com exaggeração, mas de aprimorada execução.
As janellas quadradas com pinasios de pedra multiplicam-se nos andares superiores das construcções civis. Nota-se do mesmo modo tendencia a pôr-se de parte o arco traçado por tres pontos, adoptando-se as aberturas rectangulares, que vieram a ser quasi exclusivamente empregadas um seculo depois.
O portal de entrada das abbadias e priorados ficava sempre collocado em um pavilhão que tinha superiormente aposentos; emquanto á disposição geral, era a mesma do seculo anterior.
*Paços de concelho*
Na segunda metade do seculo XV constituiu-se grande numero de novas municipalidades, afim de enfraquecer cada vez mais o poder feudal e todas as cidades rivalisaram entre si na edificação dos seus _paços de concelho_, muito dos quaes subsistem ainda e apresentam uma serie de edificios extremamente interessantes para se examinarem.
O campanario que lhe pertencia, veio a ser então uma torre elegante e de extrema delicadeza, ornada de variados contornos, como as que se executavam nas igrejas. Muitas das cidades applicavam quantias avultadas para construir e ornar seu campanario, afim de que o vissem a grande distancia, e tambem para dar maior importancia á sua representação.
A casa da camara de _Douai_, é da segunda metade do seculo XV, sendo mais notavel pelo seu campanario que pela extensão ou elevação do edificio municipal. A fachada municipal apresenta no plano terreo tres portaes ornados de folhagens encrespadas, sendo a do centro maior que as das duas outras.
[Figura 246: Casa da camara e campanario de Douai]
No segundo andar tem nove janellas em ogiva, ornadas de folhagens eguaes ás que decoravam os portaes.
A attica, que está por cima do entablamento, é mais moderna, porque pertence ao seculo XVII.
O campanario parece-se com uma torre de igreja, sendo rematada com uma agulha elegantissima feita de madeira e coberta de chumbo, apresentando varias ordens sobrepostas com frontões floreteados, e o maior numero acabando em grimpas; quatro torrinhas circulares e em sacada occupam os quatro angulos da torre na base d'essa agulha; e o telhado, de forma conica, mostra quatro pequenas trapeiras egualmente coroadas por cataventos.
A parle superior do campanario d'_Evreux_ compõe-se de uma torre com faces arrendadas e de maior leveza, coroada por uma pyramide de madeira coberta de chumbo.
[Figura 247: Campanario d'Évreux]
A parte inferior d'este campanario é mais antiga, pois que a elegante pyramide arrendada que corôa o edificio, não pode ser obra além da segunda metade do seculo XV; talvez trabalho dos artistas que fizeram a pyramide central da cathedral, que é egualmente arrendada e de madeira revestida de chumbo.
É util observar como são os feitios das sinetas que ha nos campanarios, sendo algumas mui antigas; aquella d'_Arras_, é muito curiosa pela sua bocca ter grande abertura. Tem a inscripção seguinte, que attesta ter sido fundida em 1434:
LAN: M: CCCC: E: IIII JE: FULS FAIS.
Em muitos municipios não havia nem casa de camara, nem campanarios: serviam-se do sino das torres da igreja, e era tambem na parochia que se reuniam as assembléas municipaes.
*Hospicios*
Nas salas dos hospicios encontram-se no seculo XV e no XVI a disposição que já indicámos na grande sala do hospicio de _Tonnerre_, e em outros; esta disposição é tambem a mesma nos hospitaes d'esta epoca, em Flandres. Porém limitemo-nos a citar um dos mais bellos monumentos conhecidos d'este genero, o hospicio da cidade de _Beaune_, fundado em 1442.
A aza do meio-dia e a de leste eram divididas até a altura do telhado por uma galeria com dois andares: o primeiro andar d'esta galeria, que faz lembrar os claustros das abbadias, corresponde ás aberturas do plano terreo; o segundo dava serventia aos quartos superiores, formando uma especie de varanda, como era uso construirem-se em um sem numero de casas de madeira dos seculos XV e XVI.
O telhado que cobre esta especie de attica, fica interrompido por grandes trapeiras symetricamente collocadas em duas ordens differentes, cuja disposição dá a esta parte do edificio a apparencia da decoração oriental. As empenas formadas de tres resaltos com duas, tres e até quatro aberturas, são compostas de madeiros reunidos de maneira engenhosa; d'estas especies de frontões recortados se levantam outros tantos grimpos formados por hasteas de ferro cobertas dos mais delicados ornamentos de chumbo. Sobre a fileira veste um delicado arrendado do mesmo metal.
[Figura 248: Especimen da aza meridional do hospicio de Beaune]
Na aza do norte, que tem frente para a rua, está situado o salão para os doentes. Imagine-se uma espaçosa e magnifica nave com o seu santuario, os quadros transparentes das suas vidraças de côres, a abobada aquilhada, as vigas servindo de linhas do madeiramento e guarnições pintadas com decoração simples, mas accusadas com franqueza; a grande ogiva da abside, campas tumulares, tres altares do uso oriental, tribuna, cadeiras do côro em forma de cubiculos com rendilhados, além de duas filas de camas com docel: eis o quadro magestoso que offerecia á vista, na origem, esta soberba sala.
Segundo o plano, que dâmos, comprehender-se-ha a disposição e a reunião d'estas salas. No pateo havia um poço com armação de ferro, tendo uma graciosa corôa sustentada por tres hastes de ferro, e rampas com ornatos arrendilhados, as quaes reunidas ao centro formam um telhado conico.
[Figura 249: Plano do hospicio de Beaune]
O portal do hospicio do lado da rua (P), tinha como remate um lindo alpendre, especie de baldaquino, em cima do qual, sobre pediculos, estavam as estatuetas de Nossa Senhora, de S. João Baptista e de Santo Antonio.
*Armazens--Depositos*
Os armazens e depositos continuam no seculo XV a apresentar construcções extraordinarias e com grande elevação. Citaremos para exemplo o de Nuremberg. A porta principal d'este vasto armazem é muito elegante; o tympano tem um escudo de armas e a data da construcção, 1498. O primeiro corpo d'este edificio, para o qual o portal dá saida para a rua, é o mais elevado; sendo dividido até ao telhado, em tres andares, e em quatro se comprehendermos os famosos subterraneos abobadados; depois apresenta seis andares ou galerias sobrepostas umas ás outras.
[Figura 250: Vista exterior d'uma parte do armazem de depositos, em Noremberg]
*Chafarizes*
Os chafarizes com feitio de urna não eram raros no seculo XV. O pedestal d'onde saia a agua caia em tanques e apresentava fórmas bastante variadas; construiam-nos algumas vezes em metal.
[Figura 251: Vista do chafariz de Cully (Calvados)]
Entre as fontes sómente com tanque, podemos citar a de _Cully_, cuja nascente, corre por duas aberturas circulares, nas quaes se vê um pequeno nicho com arcada de feitio trifolio.
*Palacios, casas e residencias campestres*
Muitos palacios nas cidades, e as grandes residencias campestres, que encerravam todo o necessario para um estabelecimento agricola, offereciam uma importancia tamanha como a dos edificios publicos.