Noções elementares de archeologia

Part 11

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A grande transformação que se operára na architectura em geral, pelo descobrimento do estylo ogival, devia reagir sobre a architectura militar: foi preciso pois dar maior elevação aos andares, pôr as torres em harmonia com as outras construcções. Esta mudança, além d'isto, estava tão intimamente ligada com a introducção do estylo ogival que se vê a fórma quadrada presistir nas regiões da França e de Portugal, que conservaram o estylo _roman de transição_, e ao mesmo tempo com o estylo ogival; foi principalmente no reino de França, onde a architectura ogival appareceu tão bella no seculo XIII, que os torreões cylindricos apresentavam as suas agradaveis fórmas e proporções.

*Apparelhos*

O apparelho que se distingue pela denominação de _mediano_ encontra-se nas torres e nas muralhas do seculo XIII: porém, as pedras variam de dimensões conforme a natureza dos materiaes empregados. Em _Coucy_, onde estas pedras são de sufficiente grandeza e perfeitamente apparelhadas, eram consolidadas as paredes com vigas encastradas na alvenaria, como fôra uso nos seculos precedentes. Algumas torres, cujos revestimentos são em pedra tosca, tem todavia fiadas de cantaria em differentes alturas, como se fossem faixas de tijolos, e mostrando por este modo especies d'aros na elevação das torres. A gravura junta mostra esta disposição.

[Figura 201]

*Janellas*

No exterior dos edificios, as _janellas_ mostram muitas vezes o feitio de simples frestas chamadas _seteiras_, porque se podiam lançar por ellas frechas sem receiar as que viessem de fóra. Algumas d'estas janellas, demasiadamente rasgadas na parte interna, são ornadas de columnas de cada lado, e de molduras com _tóros_ ou _nervuras_, como se fazia nas das igrejas. Nos logares menos expostos aos ataques, no interior dos pateos, encontram-se janellas bipartidas, encaixilhadas em _lancetas_; as grandes salas dos castellos recebiam do mesmo modo claridade. Ahi a extremidade da ogiva era tapada com cantaria: de maneira que as aberturas ficavam de fórma quadrada.

*Portas*

As grandes portas flanqueadas de duas torres, na entrada das praças fortes, tomaram tambem nas arcadas a fórma ogival; estando algumas vezes munidas de duas pontes levadiças; uma manobrando por detraz da ponte levadiça A, e a outra collocada na extremidade opposta da passagem de abobada, para o interior do recinto C. Habitualmente, não se podia communicar da porta com as duas torres lateraes: a entrada para ellas estava situada dentro do _baylum_, isto é, no primeiro recinto.

[Figura 202]

As portas das torres e das casas situadas no interior dos castellos, mais pequenos que os precedentes, eram ornadas de molduras e de columnas, mas nunca apresentavam as repetidas archivoltas como as das portas de entrada das igrejas de igual época, e não se via n'ellas nenhuma ornamentação.

*Molduras*

As molduras, que se usavam nos castellos do seculo XIII, eram do mesmo feitio que aquellas empregadas na architectura civil d'aquella epoca.

A pintura sobre as paredes veio auxiliar a esculptura para a decoração dos castellos, e as grandes salas tinham muitas vezes cobertas as suas paredes.

*Recintos urbanos*

Sabe-se que grande numero de cidades e grandes povoações foram elevadas a municipios nos seculos XII e XIII. Esta instituição, uma das mais importantes revoluções sociaes da edade média, produziu mudanças extraordinarias na importancia relativa e no estado material das cidades.

Pouco depois o espirito da industria se reanimou, o commercio veio a ser objecto de séria attenção, e principiou a prosperar; a população augmentou sensivelmente, e a riqueza appareceu nos logares que estiveram por muito tempo servindo de asylo da pobreza.

Então as cidades se engrandeceram e aformosearam.

A maior parte ficou rodeada de muralhas, e aquellas que as tinham já alargaram o seu antigo recinto.

El-rei D. Fernando I cingiu Lisboa com uma nova cintura de muralhas de que existem ainda alguns vestigios. Em Coimbra tambem foram reedificadas por ordem do mesmo monarcha.

As torres, quasi sempre cylindricas nos outros paizes, foram dispostas ao correr das muralhas das cidades, seguindo a fórma da construcção adoptada para esse fim.

Quando estas eram postas em estado de defensa, então viam-se coroadas por essas galerias salientes feitas de madeira, de que a torre de Laval [fig. 162] apresenta um bello exemplo. Por meio d'estas sacadas de madeira chamada _hurdicium_, podia-se dominar o pé das fortificações, e lançar pedras e outros projectis sobre os sitiantes, pelos intervallos abertos dispostos entre as vigotas que sustentavam o parapeito em falso.

Esses remates de madeira podiam ser incendiados, e os engenheiros do século XIII procuraram o modo de substituir a pedra á madeira. Portanto, a grande torre de Coucy tinha caxorros formados de cantaria em que apoiava a galeria que seria naturalmente de madeira, ficando correspondente ás aberturas do ultimo andar; podiam citar-se outros exemplos de tentativas feitas para substituir a pedra á madeira. Foi sómente no seculo XIV que este melhoramento veio a ser geral.

O recinto d'_Aigues-Mortes_ apresenta a fórma de um parallelogrammo rectangular; o maior numero das torres era semi-circular no exterior da muralha, e quadrada no interior, de maneira que apresentava pouca sacada sobre o baluarte interior e formava linha com elle, levantando-se a certa altura acima do parapeito. As portas principaes abriam-se entre as duas torres; o intervallo que existia entre estas ultimas era occupado pela sala onde se içavam as pontes levadiças; em cada ponte havia duas: uma para a porta exterior, e outra para a porta interior.

[Figura 203: Uma das portas d'Aigues-Mortes]

Tinham boas escadas, cujos degraus descançando nas abobadas com a volta de quarto de circulo, deixavam subir á trincheira de cada lado das grandes pontes.

[Figura 204: Muralhas e torres d'Aigues-Mortes--Vista do interior da praça]

As abobadas das torres eram guarnecidas de arcos encruzados. Algumas chaminés existem ainda nas salas que ficam por cima das pontes de entrada: o cano por onde saía o fumo tem a configuração octogona.

Sabe-se que estas bellas fortificações foram levantadas por Philippe o _Ousado_ (1270-1285); pertencem pois ao fim do seculo XIII.

As pontes levadiças moviam-se por meio de vigas servindo de alavancas, ás quaes o taboleiro estava suspenso. Não se encontraram vestigios das caixas nas quaes entravam as vigas ou alavancas para ficarem os madeiros recolhidos: este systema julga-se fôra geral, sómente nos seculos XIV e XV.

[Figura 205: Uma das portas do recinto da muralha de Laon]

A ponte levadiça, que se abaixava detraz das portas correndo por uma calha aberta na cantaria, tinha por fim multiplicar os obstaculos; fazendo-a mover do aposento que ficava por cima d'esta porta, e aquelles que se deixavam apanhar entre as pontes levadiças podiam ser esmagados da parte superior, ou trespassados de frechas atravez das grades de resguardo.

Quando os rios passavam pela parte de fóra das muralhas, e que se tinham aproveitado para servirem tambem como meio de defensa, as pontes tinham nas extremidades dois fortes; um para defender a entrada da ponte, o outro para deter a tropa que a quizesse transpôr; estas obras de fortificação, chamadas _cabeças de ponte_, compunham-se, ás vezes, de muitas torres e formavam um pequeno quadrado defendido de todos os lados. Acontecia tambem, quando a ponte tinha certo numero de arcos, o ultimo de cada extremidade não era abobadado, havendo uma ponte de madeira que descançava sobre os seus pilares.

[Figura 206: Porta guarnecida de grades]

Havia em determinadas localidades torres collocadas sobre a ponte, como se vê na gravura da ponte de _Cahors_.

[Figura 207: Vista de uma cabeça de ponte]

CAPITULO V

ERA OGIVAL SECUNDARIA

*ARCHITECTURA RELIGIOSA*

*Forma das igrejas*

Notavel mudança se introduziu no seculo XIV no plano das igrejas pelo accrescimo de um renque de capellas ao longo de cada um dos lados das naves. As capellas, que formam de certo modo o complemento dos templos da idade média foram, n'essa época, construidas depois das obras completas da edificação dos templos, grande numero de igrejas e muitas cathedraes do século XIII; a contar do seculo XIV, deu-se muitas vezes á capella terminal, consagrada á Virgem, maiores dimensões que d'antes.

Contrariamente ao que se fazia em o norte, no sul e no sudoeste de França, muitas igrejas do século XIV não tinham naves lateraes, mas só a nave principal; o côro não tinha, como annos depois, a separação da galeria no arco triumphal, e as cadeiras do côro que a dividiam do resto da igreja.

Em logar de naves lateraes, formaram capellas rectangulares entre os pilares dos contrafortes que recebem os arcos das abobadas. Fez-se então, por cima d'essas capellas, tribunas correspondendo exactamente a estas, recebendo luz de compridas janellas com duas ou tres aberturas e no cimo ornadas de triflorios moldurados; porém, no maior numero de casos, não tinham ornato algum. Comprehender-se-ha melhor esta disposição pela gravura da pag. 211 [fig. 210] dos dois vãos da cathedral de _S. Bertrando de Comminges_ (França).

[Figura 208: Plano da cathedral de Bayeux _a_. Capellas annexas do lado do norte.--_b_. Capellas annexas do lado do sul.]

[Figura 209: Plano de uma igreja do sul da França sem naves lateraes]

[Figura 210: Dois vãos com arcadas da cathedral de Saint-Bertrand-de-Comminges]

Portanto, no seculo XIV, as igrejas do meio-dia raras vezes tinham o _triforium_ e o _clerestory_, que occupavam os dois terços da altura das paredes lateraes. A mesma disposição foi seguida nos seculos XV e XVI.

*Contrafortes*

A largura consideravel que deram no XIV seculo ás janellas do _clerestorium_, e a pouca resistência que as paredes com aberturas arrendilhadas apresentavam então ao encontro das abobadas, obrigou a fortificar as paredes situadas entre as janellas, empregando maior esmero no trabalho dos arcos-botantes. O contraforte servia tambem nos edificios do norte de apoio para dois arcos-botantes, sobrepostos, como se vê na cathedral de Amiens em França, na Batalha em Portugal, etc.

As torrinhas não tinham sómente por fim formar o remate do contraforte; serviam tambem pelo _seu peso_ para consolidar ainda mais o esforço das abobadas e os outros produzidos pelos proprios arcos-botantes.

Nos paizes meridionaes, a falta das naves lateraes, como já mencionámos, ao correr da nave principal, evitou construirem-se arcos-botantes; porque os contrafortes elevavam-se verticalmente até ao cimo das paredes, apresentando muitas vezes grande saliencia. A curiosa igreja dos jacobinos de _Toulouse_, de que damos a vista lateral, pag. 213 [fig. 211], é um exemplo que faz vêr esta disposição habitual do emprego dos contrafortes executados no meio-dia em França. Esta igreja, construida inteiramente de tijolos, é uma das mais ousadas construcções que se conhecem.

O emprego do tijolo concorreu para se fazerem modificações nas fórmas das aberturas e n'aquellas dos ornamentos; e, n'este caso, principalmente pela influencia dos materiaes, por tal modo, que o investigador estranho ao paiz ficaria realmente muito perplexo quando lhe fosse preciso determinar uma data para indicar a época d'estas construcções, cujas ogivas são tão semelhantes durante muitos seculos.

[Figura 211: Igreja dos Jacobinos de Toulouse, inteiramente construida de tijolos]

*Ornamentos*

A maior parte dos ornamentos do seculo XII, vê-se que passaram sem alteração para o seculo subsequente.

As folhagens, de que já apresentámos typos, quando tratámos da flora mural, e que ornam muitas vezes os monumentos do ultimo meado XIII seculo, caracterisam de igual maneira as decorações do principio do XIV.

Pondo de parte essas analogias, as molduras apresentam na execução certa differença no seculo XIV, principalmente na ultima metade. Se por ventura se nota, em geral, maior perfeição na _pratica_ das esculpturas, encontra-se tambem alteração nas fórmas: os tóros não tem já a mesma rotundidade, nem a sacada que os distinguia no XIII seculo; em uma palavra, já não é a obra feita sob a antiga direcção. Estas differenças são mais faceis de descobrir com a vista do que em minuciosa descripção.

Eis aqui desenhados alguns capiteis do seculo XIV com a sua ornamentação vegetal.

[Figura 212: Capiteis do seculo XIV ornados de folhagens]

[Figura 213: Amores-perfeitos e myosotis]

[Figura 214: Folhas de rainunculos]

*Arqueaduras na ornamentação*

Os arcos continuos servem de remate aos frontões triangulares; e ás vezes são ornados com enfeites de fórma de _colchetes_.

[Figura 215]

Vêem-se tambem as paredes ornadas com estas _arqueaduras fingidas_ collocadas em ponto muito elevado, subdivididas por delicados pinasios de pedra, tendo o cimo com rendilhados como se executavam nas janellas. Este genero de decoração foi muitas vezes empregado sobre grandes superficies lisas, principalmente no fim do XIV seculo e no seculo seguinte.

Os _colchetes_ eram collocados mais profusamente sobre os logares que já designámos, ficando menos separados uns dos outros, como se praticava no seculo XIII. Alguns se transformavam em folhas largas arqueadas.

*Triforium*

No seculo XIV uma alteração muito notavel se manifestou na galeria do _triforium_: em logar de ficar tapado como era d'antes, veio a ter claridade por meio de janellas que correspondiam aos arcos da galeria inferior.

[Figura 216: Triforium transparente]

O especimen acima mostra um _triforium_ tendo luz por baixo de uma grande janella de _clerestory_: então as paredes ficavam verdadeiramente rendilhadas, como se vê na cathedral de Strasbourg, no convento da Batalha em Portugal, ele. Alguns _triforiuns_ com claridade são attribuidos ao segundo meado do seculo XIII; porém a maior parte pertence ao XIV e XV.

*Columnas*

A disposição das columnas é a mesma no seculo XIV que no XIII; aquellas que estão enfeixadas principiam a tornar-se de aspecto mesquinho, e não se destacam sufficientemente como as precedentes dos pilares quando se faziam em grupos. Ao principio do seculo XIV não era raro encontrar ainda capiteis, que faria suppôr pertencerem ao XIII; porém depressa o açafate se desformou, e as folhagens mudaram de natureza. Não se vêem no meado do século XIV, esses colchetes que se arqueavam em volutas e que formavam de certo modo o ornamento obrigado dos capiteis do XIII.

No seculo XIV, as folhagens eram dispostas nos capiteis de modo a formar dois ramalhetes sobrepostos, e a dividir assim o açafate em duas partes quasi iguaes. Esta combinação era tambem muito caracteristica do seculo XV. Succedia, ao mesmo tempo, na forma das bases, um trabalho de transformação d'onde devia sair um typo novo.

Essas bases não apresentam mais os escapulados tão profundos como no século XIII; até desapparecerem inteiramente, e os dois toros ficam mui separados um do outro.

Os socos tem a importancia nova nos pilares do seculo XIV. Muitas vezes mostram tantos socos repelidos quantas são as columnasinhas, e são de fórma octogonaes ou prismaticas. Quando o soco tem muitos _resaltos_, esses resaltos ficam separados por molduras reentrantes; algumas vezes, emfim, a parte inferior do pilar é formado por um massiço no qual os socos parece que são embutidos.

*Janellas*

No seculo XIV, muitas columnas servindo de pinasios verticaes dividiam essas aberturas no sentido da largura, e o centro da arcada apresentava muitos compartimentos em feitio de flôr de trêvo, folhas de quatro pontas ou em florões.

[Figura 217: Janellas do seculo XIV]

A combinação mais usual era aquella que se vê na figura A: duas ogivas gemeas encimadas por um oculo polylobado, enche todo o vão da janella. Cada uma das duas ogivas se decompõe em duas outras partes ou em duas novas aberturas, tendo por cima um florão; de maneira que o todo da janella apresenta em ponto grande a imagem das duas ogivas gemeas que emmolduram, e que representara portanto o mesmo feitio das janellas do seculo XIII. Nos edificios de ordem interior, a janella B é muito frequente a sua applicacão no seculo XIV. A gravura seguinte mostra uma janella muito grande, pertencente ao seculo XIV; tal como se vê algumas vezes na extremidade dos cruzeiros das igrejas, ou na sua fachada occidental, as mais importantes.

[Figura 218: Janella do cruzeiro usada no século XVI]

*Portaes*

As portas do seculo XIV differem pouco das do seculo XIII: as voltas e os tympanos são igualmente cheios de pequenas figuras em baixo-relevo; os frontões triangulares que lhe servem de remate tem rendilhados, em logar de ficarem lisos ou cheios como no seculo XIII; são tambem ordinariamente mais elevados e ornados de _crochets_. Sobre os tympanos de algumas portas, a flor de trêvo, as folhas de quatro pontas, ou florões, substituem as figuras em alto relevo.

*Arcadas*

Não se encontram as molduras tão excessivamente pronunciadas e executadas alternativamente, ora redondas, ora concavas, que ornavam no seculo XIII as archivoltas das grandes arcadas; os toros são muito menos boliados e por vezes tem feitio ellyptico, não produzindo o contraste da luz e sombra que dava tão notavel distincção aos arcos repelidos do primeiro estylo ogival.

*Torres*

As torres eram rematadas por uma agulha em pedra, e tinham passeio com parapeito e corrimão, como se vê quasi sempre entre a torre e a base da pyramide, que lhe fica superior, conforme se construia desde o seculo XIV. Até lá nos telhados pyramidaes das torres tinham posto poucos ornamentos: esculpiam-lhes unicamente modilhões curvilineos, ou telhas recortadas; mas no XIV, abriram-lhes buracos contornados como as flôres de trêvo, em florões, etc., cobriram-lhes os angulos de ornatos de forma de _crochets_. A reunião d'estes differentes caracteres podem servir para se distinguirem as grandes torres do seculo XIV das do XIII.

*Ladrilhos*

Os pavimentos de tijolos vidrados foram empregados nas capellas e nas igrejas, compondo magnificos florões.

*Pinturas muraes*

A pintura empregada nos seculos antecedentes, e que no seculo XIII cobria os portaes, as curvaturas e partes mais notaveis dos edificios, foram igualmente prodigalisadas no XIV. Existe d'essa época grande numero de decorações _polycromaticas_, infelizmente apagadas e muitissimo deterioradas.

*Pinturas sobre vidro*

Se se considera o effeito geral, a harmonia das tintas e o brilhantismo das côres, a bella época das vidraças coloridas, foi a do seculo XIII. Á medida que nos afastamos d'essa época, tão auspiciosa tambem para a architectura, as producções das pinturas sobre o vidro perdem do seu brilho, porém as figuras são de maior estatura e desenhadas com mais esmero.

Considerando, que no sul da França e nas margens do Rheno, os architectos estavam ainda no seculo XIII dominados pelos principios da escola do seculo XII, poder-se-hia suppôr que no seculo XIV deveriam ter adoptado o estylo ogival primitivo; porém não aconteceu assim: quando elles se decidiram a adoptar o estylo ogival, foram tomal-o no estado em que se achava. Assim vemol-o, no seculo XIV, na Allemanha e na Bélgica, com os caracteres quasi similhantes áquelles que dominavam em França.

*Altares*

Os _altares_ do seculo XIV não differem dos do XIII, senão pela natureza dos detalhes de architectura que fizeram entrar na sua decoração, e que oferecem os mesmos caracteres que os dos monumentos da época.

Os _armarios_, ou tabernaculos, mettidos nas paredes, proximo do altar, imitavam, pouco mais ou menos, as mesmas disposições que no seculo XIII.

As _credencias_, por vezes _gemeas_, como se faziam no seculo anterior, não tinham todavia, no meado seculo XIV, senão uma arcada única e com uma só piscina.

*Pias baptismaes*

A mesma observação ha que fazer para as pias baptismaes como para os altares. As formas usadas no seculo XIII encontram-se no XIV; sómente com a differença de que as pias pedicelladas, com columnas auxiliares, eram mui raras, e as columnasinhas são applicadas como decorações sobre um apoio central e fazem corpo com elle, em logar de ficarem destacadas como antes se praticava.

[Figura 219]

Encontram-se muitas vezes pias oitavadas, como a que está representada na pag. seguinte [fig. 220], tendo cada um dos lados ornatos e compartimentos com o feitio de uma janella do estylo radiante: além das pias d'este typo, vêem-se tambem columnasinhas moldurando essas janellas e separando as faces umas das outras.

[Figura 220: Pia baptismal octogona do seculo XIV]

*Sepulturas e tumulos*

Os tumulos do seculo XIV distinguem-se dos do XIII unicamente pelo modo como os ornamentos são executados. Os caracteres que indicamos para a architectura do seculo XIV dão facilmente a conhecer os tumulos formados de arcadas collocadas ao correr das paredes.

*Campas*

As pedras tumulares, no seculo XIV, tiveram aprimorada execução; pois que todos os detalhes dos vestuarios estão reproduzidos com grande fidelidade, e as composições architecturaes destinadas a formar a parte ornamental, que encerrava a representação dos personagens, tomam o feitio das capellas ou das naves de igrejas. Tinham os seus typos correspondentes nas decorações do mesmo genero no seculo XIII, e nas vidraças pintadas com representações dos santos, que a igreja expunha á veneração dos fieis.

No norte, nos Paizes Baixos, e em outras nações, as lageas escolhidas eram de marmore de côr cinzenta ou preta; em grande parte da França, foram as campas feitas principalmente de pedra calcaria branca, como usavam em Portugal; tambem usavam as lageas amarellas ou jaspeadas, pertencendo ás formações secundarias e terciarias; finalmente, nas regiões graniticas e schistosas, serviam-se de lageas fornecidas d'estas rochas[51], porém eram menos empregadas, por causa da difficuldade com que n'ellas executavam os ornamentos.

*ARCHITECTURA CIVIL*

A architectura monastica conservou no seculo XIV as disposições geraes adoptadas precedentemente; modificaram apenas a ornamentação: portanto nos claustros apparecem as arcadas com muitos vãos, tendo como remate oculos ou espelhos, como se praticava nas construcções das janellas; e assim o mostra a gravura da pag. 226. [fig. 222]

Pode-se dizer outro tanto dos paços archiepiscopaes, e outros grandes edificios civis; notando-se, todavia, que foi no seculo XIV que principiaram a apparecer as grandes janellas com cruzetas de pedra, fig. B, pag. 225 [fig. 221], que vieram a ser depois tão communs nos seculos seguintes.

As chaminés conservaram a sua forma elegante, e quando não ficavam cobertas por um abrigo pyramidal, então assimilhavam-se a uma colunma cylindrica ou octogona; ás vezes eram ornadas no cimo por folhas de quatro pontas ou outras molduras.

[Figura 221: Janellas do seculo XIV]

*Hospicios*

Os _hospicios_, os _mercados cobertos_, as _casas da camara_, e os outros edificios de utilidade publica, não se differençavam dos que eram construidos no seculo XIII, tanto pela fórma das aberturas, como pela qualidade das molduras.

Os _hospicios_ compunham-se sempre de um ou muitos salões para os doentes, dependendo da casa conventual, ou da igreja. Estes edificios eram dispostos á roda de um pateo principal, mas havia alguns com segundo pateo para o serviço do estabelecimento.

[Figura 222: Arcos de claustro do seculo XIV]

[Figura 223: Chaminé do seculo XIV]

O hospicio de Nuremberg apresenta corpos de habitações parallelos com alguns pateos centraes debaixo dos quaes passava um braço de rio, que era desviado da corrente principal. A architectura das salas d'este hospicio parecia pertencer além do seculo XIV.

Não fallaremos das _gafarias_, as quaes tinham chegado ao numero de 19:000, depois das guerras das cruzadas, porque eram antes uma reunião de casinhas ou cellas, no meio das quaes havia um pateo e uma capellinha consagrada a S. Lazaro, que se não deve considerar hospital publico. Das numerosas gafarias dos seculos XIII e XIV só existem actualmente as capellinhas sem que apresentem interesse algum architectonico.[52]