Noções botanicas das especies de Nicociana mais usadas nas fabricas de tabaco, e da sua cultura

Part 3

Chapter 33,558 wordsPublic domain

Todas as folhas não amadurecem ao mesmo tempo, por conseguinte não devem tambem ser colhidas todas no mesmo tempo; começa-se pelas debaixo, e destas se vai continuando até as ultimas de cima. Por esta razão em alguns paizes faz-se distincção das folhas em tres qualidades; as mais estimadas são as mais altas do tronco. Nas boas culturas, e fabricas de Tabaco cada huma destas tres qualidades he estremada.

Á proporção que se vão colhendo, põem-se humas sobre as outras, com o maior aceio que he possivel, e levão-se para o seccadouro. São enfiadas então em guita, ou fio de estopa grosso, para serem penduradas em varas; ou aliàs furão-as, e passão-as a varinhas cylindricas de vime, salgueiro, ou amieiro, que tem cinco, ou seis pés de comprido, e até huma pollegada de grossura. Na enfiada ficão de sorte, que a nervura media de huma não toque na da outra seguinte. As varinhas são penduradas em varas, ou travessas de madeira postas humas por cima das outras em hum telheiro, ou alpendre, ou em algumas aguas-furtadas, que tenhão aberturas de todos os lados, a fim de que o vento possa seccar as folhas. Mechem-se estas de quando em quando nas enfiadas, principalmente quando não faz vento; quanto menos conchegadas estão as folhas, e quanto mais desviadas estão as varinhas das enfiadas, com tanta mais facilidade se faz a deseccação.

As folhas de cima do tronco, ou as da primeira qualidade são as que precisão de mais tempo para se seccarem. Devem ser colhidas o mais perto, que fòr possivel, do tronco para nada dellas se perder.

Quando o tempo está nublado, ou humido he forçoso fazer fogo no seccadouro, para que as folhas se não alterem, e corrompão; mas estando o tempo sêcco por nenhum modo se deve ahi entreter fogo.

Com ouso he que se aprende a conhecer com certeza o perfeito gráo da deseccação das folhas. Se ellas ficassem muito sêccas perderião o seu cheiro particular, e se desfarião em migalhas; e se ficassem humidas apodrecerião. Poder-se-hia dizer que hum bom indicio do dicto gráo he qunado, apertando-se na mão hum punhado de folhas, estas recobrão o seu volume, sem se quebrarem, logo que se abre a mão.

Tanto que as folhas se achão sufficientemente sêccas tirão-se para baixo as varinhas dependuradas, põem-se no pavimento, ficando as folhas nellas ainda enfiadas. Arranjão-se então humas em cima das outras, e de modo, que formem hum quadrado, no meio do qual se acha hum espaço vazio necessario para que o vapor, que exhalão, e que ainda transpirão, possa escapar, e sahir bem livremente; deixão-se ficar neste estado durante oito, ou quinze dias, e depois disso cobrem-se até que com ellas se queirão fazer os molhos chamados _manócas_, que ultimamente se mettem em barricas apertadamente, ou se entrôxão bem em esteiras, aonde ficão até se venderem.

_Cultura da Nicociana Tabacoeira na Guiana Franceza._

Esta Colonia fica pouco distante da linha equinoccial; ha nella grandes calôres, e abundantes chuvas durante seis mezes do anno; os seus terrenos em geral são soltos, e saibrentos, e por isso proprios para a producção das Tabacoeiras. As que ahi se cultivão são as mesmas, que se costumão cultivar no Brasil, e Verina, ás quaes alguns dão tambem o nome de Tabacoeiras do Rio das Amazonas. As culturas são feitas humas em matos, e bosques depois de queimados, outras em terras, que já se tem rompido, e cultivado, as quaes ficão mais ou menos visinhas das habitações. As queimadas são verdadeiras terras virgens, e o seu _humus_, e cinzas supprem bem os estrumes; he nellas que se fazem as plantações mais extensas: nas outras, por falta de estrumes, praticão-se bardos, ou malhadas, com bois, e cavallos, e são as que produzem plantas mais fortes; todas são cercadas de seves feitas ordinariamente com Opuncias. Os trabalhos são todos feitos á enchada; as cavas, e plantações fazem-se em todas as estações do anno; as terras baixas, e humidas são preferidas ás ladeirentas.

Para se fazer a sementeira escolhe-se hum terreno fresco, e humido dentro de algum cerrado; cava-se este, e estruma-se bem, ficando em fim preparado da mesma sorte, que se costuma praticar com os destinados para a sementeira de huma horta. A semente de hum, ou dous annos, tendo primeiramente sido misturada com cinza, he então lançada no dicto terreno por dispersão, como se semêa o trigo; cobre-se immediatamente, e borrifa-se, o que raramente he preciso fazer por ser o clima bastantemente chuvoso. A fim de proteger as plantinhas recem-nascidas dos ardores do Sol, até que sejão assás fortes para os poderem supportar, cerca-se a sementeira com ramadas, e esteirões.

Tres semanas, ou hum mez depois de feita a sementeira, tendo então as novas plantas cinco, ou seis pollegadas de altura, quatro, ou cinco folhas, e mostrado hum vigoroso estado (porque as muito altas, esguias, e com poucas folhas são desprezadas) faz-se a transplantação. Arrancão-se da sementeira as novas plantas, arranjão-se com todo o cuidado em cestas com as raizes para baixo, para que as folhas as preservem do Sol, e ar quente, e immediatamente são levadas para os terrenos, que se achão de fresco cavados; plantão-se ahi com huma enchadada, regão-se depois, e todas as vezes que o precisão: nos terrenos de matos, e bosques queimados põem-se pé e meio distantes humas das outras, e sem alinhamento algum; a cultura nestes terrenos he misturada mais ou menos com a do arroz, milho grosso, e miudo, algodão, mandioca, e alguns outros vegetaes; nos cerrados dispõem-se as plantas em tres pés de distancia humas das outras, e ahi são alinhadas, e cultivadas sem mistura de outras differentes especies. O crescimento do caule em altura varía de cinco até sete pés, e quando se julga estar já bem vigoroso he despontado, a fim de derivar a seiva para as folhas. Como os terrenos são muito ferteis deixão-se no caule todas as folhas, que são numerosas, de vinte até quarenta.

A colheita das folhas faz-se ordinariamente no fim de tres mezes depois da transplantação, e em qualquer hora do dia. Conhece-se que as folhas estão maduras pela sua côr amarellada, varias especies de manchas, e por quebrarem na base facilmente; alguns as esmagão, ou triturão com as mãos, seccão-as depois junto ao fogo, e com ellas ultimamente cigarrando sabem reconhecer o seu estado proprio para o apanho. São colhidas huma e huma, e na primeira colheita só se apanhão as inferiores, que estão maduras, sem com tudo estarem sêceas, e deixão-se as outras para a seguinte. Nas plantações em queimadas os cultivadores costumão deixar na terra os caules depois da colheita das folhas, e nelles colhem os tenros renovos, que sabem aproveitar. As folhas, que se vão apanhando, lanção-se em cestas, nas quaes são immediatamente levadas para os telheiros, e ahi alastradas sobre esteiras, caniços, e vergas enlaçadas, em que ficão hum dia expostas ao ar para se murcharem, e amollecerem. Depois disto são bem estendidas, e dispostas em camadas dentro de caixotes, pias, e celhas; sobre estas põe-se então huma tampa de taboas bem carregada com pedras; ficão assim tres, ou quatro dias a fermentar, passados os quaes tirão-se dos dictos vasos, ligão-se duas a duas, tres, ou quatro a quatro com atilhos, para que servem as varinhas de varias plantas, a que chamão _Liane_, e os Portuguezes _Sipó_; estes molhos de folhas pendurão-se depois á sombra nos telheiros, e alpendradas até adquirirem a sua sufficiente seccura. Neste estado, e em dias frescos, e humidos são salpicadas com agua do mar; tirão-lhes o fasciculo fibroso do talo, e passão a fazer com ellas o tabaco de corda, e tambem charutos, enrolando-as em hum fio de arame. Alguns cultivadores costumão cortar pela base os caules ainda succulentos das plantas, e dependura-los nos telheiros, aonde, tendo brotado alguns renovos, arrancão-lhos, dão-lhes os mesmos preparos que ás folhas, e lhes servem para rechear o âmago das cordas de tabaco.

A sementeira das Tabacoeiras, a transplantação, amanhos, colheita das folhas, a sua preparação, e venda fazem-se dentro do espaço de seis mezes completamente.

_Cultura da mesma planta em algumas partes do Brasil._

As Tabacoeiras, que ordinariamente se cultivão para a fabricação do tabaco, sendo todas indigenas dos climas quentes da America meridional, e de terrenos mais ou menos soltos, e humosos, circumstancias proprias do Brasil, não se pode duvidar que este vastissimo paiz seja naturalmente do número dos mais proprios para a producção, e boas qualidades de taes plantas. A sua respectiva cultura, segundo as informações, que tenho podido obter, he com pouca differença em muitas Comarcas do modo, que passo a expôr.

As primeiras, e abundantes aguas de Março, e Abril, tendo humedecido sufficienternente as terras, preparão-se alguns canteiros em hum terreno d'antes bem estrumado, e nelles he semeada por dispersão a quantidade de semente, que se julga ser necessaria, e proporcionada á plantação. Correndo o tempo favoravel, no fim de quatro dias brota a semente, e dahi a hum mez, pouco mais ou menos, as plantulas tem chegado á altura de hum palmo, crescimento, em que costumão ordinariamente ser transplantadas. Durante este espaço de vegetação a sementeira he bem mondada das hervas ruins, e se faz toda a diligencia de dia, e mesmo de noite com luzes, por afugentar, apanhar, e matar os insectos destruidores das tenras plantas, os quaes ás vezes são tantos, que as estragão todas, ou quasi todas, e obrigão o cultivador a renovar a sementeira huma, duas, e tres vezes: igual damno lhes causão tambem algumas vezes os excessivos ardores do Sol, e as demasiadas chuvas continuadas.

A extensão de terra destinada para a transplantação fica em descanço no anno precedente, e he ordinariamente proporcionada ao gado, de que o cultivador pode dispôr para nella fazer bardos, ou malhadas, especies de curraes mudaveis de oito em oito dias. A terra, que fica em descanço, e aonde se fazem os bardos, commumente não he limpa do mato, que tem; este trabalho he só feito no tempo visinho á transplantação; mas alguns cultivadores mais intelligentes costumão hoje não só alimpar-lhe todo o mato, mas tambem cava-la, ficando sendo hum alqueive; e o mato com algumas hervas servindo de cama ao gado dos bardos. Chegado o tempo conveniente para a transplantação, que ordinariamente se julga ser Junho, e Julho, o terreno das malhadas, se não tem sido alqueivado, he limpo do mato á fouce, e á enchada, com a qual se costumão fazer todos os trabalhos de revolver a terra, porque o interessante uso do arado he muito pouco praticado no Brasil. Limpa a terra, começa-se por abrir em alguma das suas extremidades huma cova da largura, e profundidade de pouco mais de dous palmos, e puxa-se para dentro della toda a herva, ou capim, que se acha tres palmos á roda, operação que vulgarmente se chama _capinar_; depois disto abre-se outra igual, tres palmos distante da primeira, puxa-se a herva para ella da mesma maneira, e com a terra, que della se tira, acaba-se de encher a primeira, e sobre esta se faz hum monticulo, ou camalhão, de hum palmo de alto; em outra igual distancia, e em linha recta, abre-se huma terceira cova, capina-se á roda, entupe-se igualmente a segunda, e sobre esta se forma hum segundo camalhão: vai-se continuando uniformemente este trabalho por toda a terra das malhadas até ella ficar cheia de camalhões dispostos em fileiras, e todos distantes entre si o espaço de tres pés. Faz-se então a transplantação, se antes o tempo não tem para ella corrido favoravel, aliàs faz-se á proporção que se vão formando os camalhões. Consiste esta em arrancar brandamente do canteiro da sementeira as plantulas, que nelle tem crescido até a altura de hum palmo, pouco mais ou menos; mettem-se depois em cestos, e nelles são conduzidas immediatamente ao lugar da plantação, aonde se dispõem no alto dos camalhões, e ahi se regão sem demora, no caso que não se esperem chuvas. Antigamente não se usava esta sorte de amanho, e ainda hoje, segundo me dizem, em algumas pequenas culturas feitas em lugares baixos, ferteis, e humidos, he omittida; nestes lugares hum negro com hum páo agudo vai abrindo buracos pouco a pouco em certas distancias, deita nelles algumas sementes, cobre-as, e depois de germinadas desbasta-as, e deixa somente ficar huma, ou duas em cada buraco, as quaes sem mais amanho que huma, ou duas sachas não deixão de produzir bem.

Passadas algumas semanas depois da transplantação, e tendo crescido as plantas hum palmo, as hervas circumvisinhas dos camalhões roção-se com a enchada, conchegão-se a elles, e juntamente se chega a terra aos pés das plantas. Neste estado com tudo a plantação he sujeita aos mesmos inconvenientes que a sementeira, já por causa dos insectos, já pelas contrariedades do tempo; e os cultivadores necessitão por isso de fazer segunda, e mesmo, terceira transplantação. Correndo porem o tempo favoravel, e tendo as plantas vegetado bem quatro, ou cinco semanas depois do precedente amanho, costumão então impedir-lhes o crescimento dos seus caules, e cortar-lhes com as unhas a sua ponta, a que chamão _capar_, deixando somente nelles sete, oito, ou mais folhas á proporção do seu vigôr, e da fertilidade do terreno, as quaes depois augmentão muito em grandeza, e chegão ás vezes a ter tres palmos de comprido, e dous de largo. Esta operação de mais disso faz com que dentro de breve tempo comecem nas axillas das folhas a apparecer olhos de renovos, os quaes o cultivador, passados oito até dez dias, manda cortar todos, ao que chamão _desolhar_: passado igual numero de dias, tendo segunda vez brotado novos olhos, repete-se o mesmo córte; mas nesta segunda desolhadura costumão deixar intacto hum bom olho junto da base do caule, como fiel, a fim de servir de principio de huma nova producção, a que chamão _soca_, ou segunda Folha; por quanto, cortado o caule da primeira Folha, forma-se outro igual do renovo do dicto olho, ou fiel, o qual muitas vezes produz mais, e melhor do que o primeiro. Pratica-se com este segundo caule o mesmo despontamento, e desolhadura, como no primeiro, e tambem inferiormente junto do nó, em que nascêo; do primeiro se lhe deixa hum olho de renovo intacto para formar hum terceiro caule, e terceira Folha. Neste caule, e em outros successivamente delle originarios se pratica tudo o mesmo uniformemente, e em fim se deixão alguns pés da ultima producção, nos quaes se não faz despontamento, nem desolhadura alguma, por serem destinados a dar sementes para as futuras plantações.

Alguns dias depois da segunda desolhadura observa-se terem as folhas crescido mais, e a entrarem a mudar de côr mais ou menos, a amarellecer, e dar signaes de maturação. Começa-se então a sua colheita, a qual se faz ou apanhando á mão cada folha sobre si, ou cortando o caule em duas, ou tres partes, deixando em cada huma destas algumas folhas; á proporção que se vão apanhando as folhas, e cortando os caules, estes productos são lançados em cestas, ou no chão por alguns menos intelligentes, para ahi murcharem hum pouco, e dentro de poucas horas são conduzidos para as casas de preparação, telheiros; e alpendradas. As apanhadas á mão são ahi reunidas, cinco a cinco, ou seis a seis, em molhos, e nesta forma dependuradas em cordas, ou varas de sipó, que se achão prezas aos caibros dos telheiros; os pedaços dos caules cortados com folhas tambem são dependurados em semelhantes varas, ou cordas. Ficão assim todas as folhas á sombra, e em arêjo durante oito dias, pouco mais ou menos. Tirão-se depois das varas, ajuntão-se em montes, extrahe-se-lhes o fasciculo fibroso do talo, ou nervura dorsal, operação a que chamão _espinicar_ a folha, e faz-se-lhes depois a preparação denominada folha torcida, e separão-se as mais largas para servirem de capas de corda. Aprestadas assim as folhas passa-se immediatamente a reduzi-las a corda, a capear esta, a enrosca-la, e dispô-la era grossas maçarocas, a que chamão bolas de tabaco de fumo. São estas enfiadas em hum páo, e a sua corda he varias vezes desenroscada, e tornada a enroscar em outro igual páo; passados alguns dias são conduzidas para hum tendal, aonde ficão postas, encravados os seus páos a prumo em huma viga comprida, e côncava, na qual escorre pouco a pouco o seu succo oleoso, que se aproveita; e por longo tempo ainda, e em varios dias se continuão as vira-voltas da sua corda até que esta se julga estar bem curada, e ter adquirido as perfeitas qualidades para ser facturada em grossos rolos. He ordinariamente em Janeiro que estes rolos se fazem com a corda das bolas; as suas roscas são humedecidas com huma mistura de melaço, e succos oleosos, que as bolas d'antes tinhão vertido, ficão, o mais que pode ser, apertadas, as terminaes são cobertas com folhas sêccas de Gravatá, e outras plantas, e se lhes põe por ultimo huma capa de couro de boi bem conchegada. He neste estado que a folha das Tabacoeiras preparada pelo cultivador se conduz para a casa da arrecadação competente, por onde precisa ser approvada para se poder vender, e exportar.

Alguns cultivadores preparão tambem as folhas de outro modo: depois de colhidas fazem com ellas molhos de tres até cinco folhas, dependurão estas manócas á sombra nos telheiros (os menos intelligentes as põem ao Sol), e tanto que estão quasi sêccas estendem-as em camadas dentro de huma imprensa de figura parallelogramica, comprimem-as ahi, e continuão este trabalho até que todo o vão da imprensa se ache cheio de folhas, formando estas hum sólido volume; abrem então a imprensa, e tirão della esta pezada maça, cingem-a com folhas sêccas de Gravatá, atadas com vergas de sipó, cobrem-a ultimamente com couro de boi, e he na forma deste fardo que se faz a sua venda, e exportação. Outros imprensão as mesmas folhas, no seu estado quasi sêceo, dentro de barricas de vinhatico cercadas de arcos de ferro, e sobrepostas em grossas taboas, que depois de cheias tapão bem, e assim as vendem, e são exportadas. A preparação das folhas em charutos tem sido, segundo me dizem, tambem adoptada nestes ultimos tempos por alguns cultivadores.

_Cultura da mesma planta em Lataquia._

A melhor folha para o Tabaco de fumo, de que se usa no Levante, he, segundo Mr. Olivier, a da Tabacoeira vulgar, cultivada nos contornos de Lataquia, Cidade da Syria, trinta legoas distante de Alepo. Consiste a cultura, que ahi se pratica, no seguinte.

No fim de Março faz-se a sementeira em hum canteiro de terra pingue, humida, bem cavada, e bem revolvida; hum mez, ou quarenta dias depois arrancão as plantinhas, e as levão para hum campo, o qual no inverno se tem preparado com muitas lavouras, para esta plantação; fazem-lhe regos, e nestes dispõem as plantulas, dous pés e meio, e ás vezes menos, em distancia humas das outras, logo depois regão-as huma, ou duas vezes para que peguem, e vigorem; mas não as regão mais vezes depois disto, por se julgar que com isso a sua qualidade ficaria deteriorada; sachão-as com tudo huma, ou duas vezes, e lhes mondão as hervas ruins circumvisinhas. Tanto que as plantas tem florecido colhem-lhes todas as suas maiores folhas, enfião estas, e põem-as a seccar dependuradas nos tectos de telheiros, e mesmo das casas, que habitão, de modo que fiquem bem expostas a ser arejadas. De quando em quando então, dentro dos telheiros, e casas, em que se achão as folhas dependuradas, queimão varias plantas aromaticas, a segurelha, tumilho, serpão, salva, e alecrim, o que ajuda a secca-las mais de pressa, e a communicar-lhes muitas particulas cheirosas. Estando quasi sêccas arranjão-as em molhos, põem estes a fermentar accumulados em hum montão, e para que a fermentação não seja excessivamente activa, e prejudicial revolvem algumas vezes estes molhos, e os mudão de lugar. Em fim, tendo reconhecido haver cessado inteiramente a fermentação, e nada que damnifique a folha, passão a enfarda-la.

Continua-se a colheita das folhas durante a florecencia da planta, e ainda depois, seccão-as, e preparão-as do mesmo modo; mas o tabaco, que dellas se obtem, he inferior na qualidade ao das folhas da primeira colheita, e quanto mais se demora a segunda, estando a planta em flor, tanto mais o tabaco he forte, desagrada, e perde o seu valôr; porque para os Turcos, e Asiaticos o melhor tabaco de fumo he o que tem menos acrimonia, e he mais adoçado. Em Lataquia o tabaco de superior qualidade he o da folha das Tabacoeiras cultivadas nos montes do seu contorno, elle he mais estimado do que todo o que se obtem das mesmas plantas, criadas em planicies, e este tambem muito mais do que o da folha, das que se cultivão em hortas, aonde a terra he muito pingue, e as regas muito continuadas.

Taes são as principaes noções sobre a cultura das Tabacoeiras praticada por differentes Nações, e da qual me propuz tractar; não he do meu objecto expôr aqui os trabalhos proprios da fabricação das folhas destas plantas, depois que sahem das mãos dos seus respectivos cultivadores, e são reduzidas a tabaco em pó, ou rapé; a este respeito pode consultar-se o Diccionario das Artes, e Officios, da Encyclopedia Methodica[1]. Quanto aos seus usos medicinaes, veja-se o Tractado Methodico dos Medicamentos vegetaes, do Dr. Murray.[2]

FIM.

*Notas:*

[1] Arts et Metiers tom. 7 e 8 , art. Tabac, et tom. 4, des Planches, Tabac.

[2] Murray Appar. Medicam, tom. I. pag. 383.

Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

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