Noções botanicas das especies de Nicociana mais usadas nas fabricas de tabaco, e da sua cultura

Part 2

Chapter 24,050 wordsPublic domain

1.^a A boa folha das Tabacoeiras completamente preparada, e embarricada do modo acima declarado não súa, nem fermenta mais, excepto havendo algum accidente extraordinario: se, pelo contrario, ella foi mal preparada, não sufficientemente sêcca, nem bem comprimida nas barricas, ella soffre huma nova fermentação, e depois apodrece.

2.^a A folha das Tabacoeiras de huma segunda colheita, isto he, os renovos, que rebentão nos troncos, ou tocos, depois que a primeira planta, ou tronco principal foi cortado, he sempre ruim, fora de estado de se poder conservar por qualquer preparação que seja; por conseguinte a sua exportação para o estrangeiro ou só per si, ou misturada com outras he constantemente prohibida pelas leis do paiz.

3.^a Quanto mais pingue, e humido fôr o terreno empregado na cultura, e plantação da planta do Tabaco, e quanto mais esta abundar em principios aquosos, oleosos, e acres, tanto mais tambem se prolongará a sua desseccação, e fermentação, e precisará de mais cuidado: huma preparação sufficiente para a folha ordinaria he insufficiente para esta, porque ella fermenta de novo, e se corrompe depois; ella fermenta, e apodrece tambem, todas as vezes que he molhada na barrica, ainda mesmo que tenha sido bem preparada. Nesta nova fermentação as folhas se enchem de bolôr, perdem o seu cheiro, e gosto, fazem-se brancas, e de modo tal se corrompem, que não servem para mais nada do que para estrume.

4.^a Em hum terreno muito pingue, e humido a planta do Tabaco eleva-se até mais de seis pés, e as suas folhas por todos os lados adquirem huma extensão enorme. Huma planta tão bem nutrida contem huma tal abundancia de succos, e principios taes, que he difficil de preparar a sua folha de modo, que se possa conservar muito tempo sem huma nova fermentação perigosa.

5.^a As plantas, que produzem a folha de mais fina, e delicada qualidade, são as que se crião em hum terreno moderadamente pingue, e solto na parte occidental da Virginia, e Maryland, perto das montanhas de Allegany; mas o producto he muito menos do que nos prados humidos, e nas margens dos rios, que ficão mais perto do mar. Se o terreno he muito solto, e sabuloso, a planta soffre nimiamente da sêcca, e calor, e produz muito pouco.

6.^a Em fim, he necessario hum muito grande gráo de calor tanto para a cultura, como para a preparação da Folha das Tabacoeiras; o calor do mez de Junho, Julho, e Agosto na Virginia he ordinariamente de quasi 30 gráos do thermometro de Reaumur; e esta Provincia está situada entre 36, e 40 gr. de lat. septentrional.

_Da Cultura da Tabacoeira em Hollanda._

Ainda que a Hollanda esteja em hum clima bem diverso do da Virginia, o povo industrioso, que o habita, não he menos dado á cultura da planta do Tabaco, e delle tem feito hum dos ramos importantes do seu commercio, e das suas riquezas.

Cultiva-se com effeito muito Tabaco na Hollanda; somente as Provincias de Gueldres, e Utrecht produzem annualmente onze milhões de arrateis, de que tres erão algum dia vendidos ao Contracto geral de França. Neste paiz, principalmente nos redores de Armesfort, semêa-se a semente da planta do Tabaco em grandes camas de estrume formadas com taboas; ellas tem tres pés de altura, dez de largo, e hum comprimento indeterminado; são rodeadas por fora até a altura das taboas com estrumes dos porcos, e carneiros, mistos com a palha das camas, em que elles se deitão; e por dentro são recheadas da mesma casta de estrume até a altura de dous pés, e por cima deste de hum pé de terra fina solta, e bem mista com estrume podre, que forma huma sorte de verdadeira terrugem.

Em quanto a semente germina, e a plantula seminal cresce, e se fortifica nesta cama de estrume, preparão-se outras camas não longe della, mas de hum genero differente, e são humas especies de canteiros. Para os fazer abre-se no terreno huma cova de algumas pollegadas de profundidade; são separados estes canteiros huns dos outros por huma vereda de hum palmo de largo, ou pouco menos, são escarnados, a sua base he de dous pés e meio, a sua altura he de dous pés, e a sua escarpa, ou jorro he de tres pollegadas de cada hum dos dous lados, de sorte que na parte superior só tem dous pés de largura, e o seu comprimento he indeterminado. A sua direcção he do Norte para o Sul. Na altura de seis, ou oito pollegadas acima do nivel da cova põe-se huma camada de estrume de carneiro bem fino, e esmigalhado, a qual he de pollegada e meia de grossura, e por cima della outra de seis pollegadas de terra bem estrumada, e se continúa assim camada sobre camada até a altura indicada de dous pés. As veredas tem duas utilidades: o dar expedição á corrente das aguas, e commodidade para fazer as sachas. Ás vezes estes canteiros tem mais, ou menos altura, conforme o terreno he mais, ou menos humido: mas a sua largura na parte superior he sempre de dous até tres pés, quando muito. He nestes canteiros assim preparados que se faz a transplantação das novas plantas, com as cautelas ordinarias; e para tirar algum proveito das camas de estrume das sementeiras, que ficão então vagas, semêão nellas sementes de alface, aipo, e de outras hortaliças. As novas plantas de Tabaco são encravadas na terra até ao nascimento das folhas, e pé e meio distantes numas das outras; ellas são dispostas em quincunce, e formão duas fileiras em cada canteiro.

Os campos das plantações das Tabacoeiras em Hollanda são rodeados de seves muito altas, ou de plantações de arvores, sem dúvida para abrigar as plantas dos ventos impetuosos. Dão-se a estas plantas, até ao periodo da sua madureza, quasi os mesmos amanhos, que se costumão dar na America septentrional, isto he, são sachadas, regadas, quando o precisão, despontadas da guia, e despojadas dos seus renovos, etc.

Depois de se terem alimpado os seus renovos, começão-se a colher as folhas da segunda, e terceira qualidade. A terceira qualidade consiste nas mais pequenas, e peiores folhas, que se achão na parte infima do tronco; as que se achão situadas immediatamente acima dellas, em numero de cinco, ou seis, são as da segunda qualidade; colhem-se humas, e outras ao mesmo tempo; mas escolhem-se depois na casa do seccadouro. Em quanto ellas se secção, alimpão-se dos rebentões novamente as plantas, e vigião-se, a fim de se poderem colher acertadamente as folhas, que restão, e formão a primeira qualidade; porque, se acaso se deixão amarellar no tronco as folhas, ellas perdem a sua força, e facilmente soffrem degradação. Estas duas colheitas são feitas por mulheres, que arrancão as folhas o mais perto do tronco, que podem, e mesmo com huma porção da casca, e epiderme delle, para que ellas pezem mais.

Depois das preparações competentes, que são as ordinarias, as folhas são postas em molhos, ou manócas, como os Francezes lhes chamão, e as embarricão, ou entrouxão apertadamente em esteiras, e mesmo em grandes cestas.

Segundo Mr. Jansen, as plantas do Tabaco, principalmente aquellas, que se achão no meio dos campos, soffrem infinitamente por causa dos ventos fortes, e chuvas, que os acompanhão, e pelo granizo principalmente, que ás vezes dentro de poucos minutos rouba ao plantador todo o fructo do seu trabalho. Para obviar esta desgraça do modo possivel os cultivadores dividem hum campo em muitos canteiros quadrados, isto he, em trinta até trinta e seis por _arpente_, ou courella de cem aguilhadas, cada huma de vinte pés. Rodêão-se estes quadrados de ramalhos de carvalho, amieiro, salgueiro, ou de faia; mas a primeira especie de ramos he sem dúvida a melhor, porque pode aturar dous annos no cercado, e as outras devem mudar-se todos os annos. Esta sorte de ripados he praticada, fazendo-se primeiramente regos fundos á enchada, mettendo nelles os ramos, e entulhando então os ditos regos. Estes abrigos, ou quebra-ventos guardão as plantas dos máos effeitos dos ventos, e chuvas fortes: elles servem tambem para os feijoeiros de trepa, que gostão de terra estrumada, funda, e alteada, como a que he propria para a cultura da planta do Tabaco, são proveitosos pelos seus fructos, e ajudão tambem a abrigar as plantas do Tabaco. Passados dous annos estas seves de ramos de carvalho são tiradas, e servem de lenha para o lume, e logo se estabelecem outras.

Alguns cultivadores arrancão os troncos, de que se tem tirado as folhas, os quaes juntos com alguns rebentões, que tinhão guardado, lhes servem para fazer estrumes, que espalhão nas terras lavradias; mas he melhor, nas terras destinadas para a cultura do Tabaco, deixa-los apodrecer nellas, espedaçando-os, e enterrando-os com a enchada, quando se revolve o terreno na primavera.

_Da Cultura das Tabacoeiras na Alsacia._

Depois da Hollanda, a Alsacia he o paiz da Europa, onde a cultura da planta do Tabaco tem sido seguida com mais cuidado. Por evitar repetições indicarei somente, segundo Kauffman, e Mr. de Villa Nova, as operações particulares adoptadas no dito paiz.

Alguns dias antes de fazer a sementeira os cultivadores mettem a semente dentro de hum pedaço de panno de linho, tem cuidado de humedecer de quando em quando este panno, põem-o em hum lugar quente, e mesmo sobre a coberta dos seus fogões; quando a plantula seminal tem germinado, e adquirido quasi meia pollegada de comprido, lanção na terra a semente. As camas de estrume, em que fazem a sementeira, são feitas com menos cuidado do que as ordinarias dos hortelões, e jardineiros. Nunca cobrem as novas plantinhas, mas regão-as frequentemente, e até duas vezes no dia. A transplantação faz-se no mez de Junho. Como em outros lugares, as plantas ficão distantes humas das outras dous pés em todas as direcções; são sachadas duas, ou tres vezes até o período da colheita. Junto do meado de Agosto cortão-lhes as guias. As folhas pequenas do cimo do tronco são arrancadas, logo que apparecem, e só se deixão as grandes, ordinariamente treze, ou quatorze.

A colheita tem lugar antes do fim de Setembro, julgando os cultivadores que, se fosse mais tempo demorada, os frios a destruirião, e que a menor geada branca basta para matar as folhas. Arrancão as folhas, e ficão na terra os troncos em pé; não os cortão senão quando lavrão o terreno da plantação passada, e então são enterrados com o arado. As folhas são levadas ao seccadouro, aonde ficão até ao mez de Março; então fazem com ellas montes, ou rumas de 4 ou 5 pés de alto, em que não bolem senão no tempo da sua venda. O comprador se encarrega de tudo o mais.

Hum _arpente_ de 48:400 pés quadrados pode produzir cem quintaes (cem arrateis por quintal) de folha fresca, que se reduzem a 14 quintaes de folha sêcca.

As plantas são sujeitas a serem destruidas pelos caracóes, e por huma especie de ferrugem. Em taes casos reformão, com a brevidade possivel, com plantas novas as que se achão estragadas.

_Aviso aos Cultivadores da Planta do Tabaco em França publicado pela Sociedade de Agricultura de París._

As sementes da Planta do Tabaco (_Nicotiana tabacum_) semêão-se em viveiro, e transplantão-se as plantulas nelle germinadas, quando ellas ahi tem adquirido huma certa força. O viveiro deve ser huma cama de estrume nos paizes, onde a primavera he fria; e somente hum canteiro de boa terra de horta nos paizes, onde o principio desta estação he brando.

Quanto ás camas de estrume, ellas são bem conhecidas dos hortolões, como tambem os gráos de calor proprios para nellas se podêr semear a semente da Planta do Tabaco. Usa-se commummente do estrume de cavallo, que não esteja podre, e, na sua falta, do estrume de vaccas: a quantidade he proporcionada ás sementes, que hão de ser semeadas. Para fazer a plantação de hum _arpente_ de terra, que tenha novecentas toezas quadradas (cada toeza consta de seis pés), serão sufficientes seis oitavas de sementes, as quaes requerem huma cama de vinte e dous pés de comprido, e quatro de largo. Dá-se á cama a grossura, ou altura de pé e meio até dous pés do sobredicto estrume, ficando elle bem calcado com os pés; este estrume depois será coberto com seis pollegadas de terra de horta, ou, ainda melhor, de terra de horta misturada com terrugem, isto he, com esterco bem podre. Esta cama será cercada com taboas para bem a suster, e mesmo para sobre ella pôr caxilhos com papeis vernizados, havendo necessidade delles, sendo a primavera fria.

A semente de dous annos pode germinar tão felizmente como a de hum anno; nós não assegurâmos a bondade das sementes, que forem mais velhas. No caso de dúvida pode fazer-se a experiencia com algumas semeadas em canteiro, cama de estrume, ou debaixo de hum caixilho vidraçado, ou manga de vidro, conforme fôr o clima.

Pode-se appressar a germinação das sementes, mettendo-as em hum panno de linho, humedecendo este de tempos em tempos, e pondo-o em algum lugar quente; e, quando a plantula seminal tiver quasi quatro linhas de pollegada, deverão ser semeadas, porque então vegetarão de pressa, e rebentarão logo as suas plumulas.

O tempo, em que se costuma semear a planta do Tabaco em França, he desde o fim de Fevereiro até ao fim de Março. Esta planta, temendo muito as geadas no seu estado tenrinho, e quando se avisinha ao período da madureza das suas folhas, he necessario livra-la das dictas geadas na primavera, e com tudo semea-la assáz temporã para que as suas folhas se achem maduras antes das geadas do outono.

Escolher-se-ha hum dia, em que não chova, para fazer a sementeira: como as sementes são muito miudinhas, para que ellas possão ser espargidas com maior igualdade, algumas pessoas misturão-lhe arêa, ou terra. Depois de semeadas, deve-se regar a sementeira com hum regador de buraquinhos muito estreitos, cobrem-se com terra fina peneirada por hum crivo, mas tão pouca, e tão levemente, que baste só para esconder as sementes. Huma cautela, que não he indifferente, consiste em espalhar sobre a sementeira alguma moinha, ou palhiço, que se pode tirar de cama estrumada do anno antecedente, ou aliàs huma pouca de palha branda, que se esmigalhará, esfregando-a bem com as mãos. e pondo-a em estado de moinha; esta moinha, ou palhiço assim espalhado na sementeira quebra muito a força do chuveiro do regador, batendo nelle primeiro que na terra; e a radicula da semente não he arrancada, nem a planta posta fora do lugar, em que estava; em fim, a sementeira he mais igual tanto na distancia, como na germinação, e força das plantas.

No caso que se semêe cedo, e que o paiz seja frio, deve-se ter o cuidado de cobrir o lugar da sementeira, durante as noites frias, ou com taboas sustidas entre travessas por cima do dito lugar, ou com lônas, ramalhos, ou com palha longa de centeio. Alguns cultivadores se servem mesmo de caixilhos vidraçados, ou de papel oleado em lugar de vidros.

A fim de appressar a germinação das sementes algumas pessoas, durante tres, ou quatro dias tem a sementeira bem tapada, e coberta com caixilhos, cujas juntas são barradas com bosta de vacca; e depois deste tempo deixão entrar o ar na sementeira, regão-a, e não a tapão tão exacta e escrupulosamente. Nós não aconselhâmos este methodo, porque exige muita vigilancia; e os que não souberem tê-la farão com que a semente, e nova plantula sejão queimadas com o demasiado calôr, ou tambem que a plantula seminal, crescendo rapidamente, fique esguia, e muito fraca. Sabendo-se aproveitar o calôr das camas de estrume, não ha necessidade de estar tapadas, e cobertas; demais disso ellas podem ser aquecidas, applicando-se-lhes á roda novo estrume, se o frio da atmosphera o exige.

Deverá haver cuidado de mondar a sementeira das hervas ruins, e de a regar, quando fôr necessario.

Tudo o que dissemos a respeito da sementeira em cama de estrume deve applicar-se igualmente á que fôr feita em canteiros, que supprem as camas nos paizes, em que ellas são inuteis.

As plantas brotadas das sementes semeadas em Fevereiro estão boas para serem transplantadas no mez de Maio; as da sementeira de Março devem ser transplantadas mais tarde; tanto as muito novas, como as muito adultas são igualmente custosas de pegar. Quando ellas tem duas pollegadas fora da terra, e cinco, ou seis folhas, por pouco que o tempo seja favoravel, a transplantação será segura, e feliz. Deve haver todo o cuidado de não transplantar, em quanto se houver de temer as geadas, porque as plantas tenras no meio dos campos não se podem preservar dellas, como nas sementeiras se pode fazer. No clima de París he raro que hajão geadas depois de dez de Maio.

A terra, em que se houver de fazer a plantação, deve ser preparada do modo, que vamos expôr. Será bom que se experimente, mas em pequena quantidade, huma plantação em toda a sorte de terrenos, a fim de se observar qual he o que produzirá mais, e o que dará o de folha de melhor qualidade. A planta dá-se melhor em huma terra _substanciosa_; por esta palavra entendemos a terra composta de arêa, e de terra vegetal, ou a composta de terra calcarea-humosa, e argilla bem misturadas. He necessario que ella tenha muita profundidade, e fique bem solta, e movel. Por isso hum lugar, aonde se cortou huma matta, esteve hum prado arteficial muitos annos; e huma terra virgem de bastante fundo arroteada convem muito a esta plantação, por terem muita terra humosa, como costumão ter as terras novas. Não se pode duvidar tambem que as terras, em que houve linhos ordinarios, e canamo, açafrão, lupulo, etc. sejão tambem boas para ella; as terras, que são boas para trigo, tambem são proprias para a plantação da Herva do Tabaco.

Á proporção de sua compacidade, ou segundo forem mais ou menos tenazes, e duras, deve o número das lavouras ser mais ou menos. Sendo a lavoura feita á charrua dever-se-ha fazer huma antes do inverno, a fim de que as geadas possão dividir, e esboroar as leivas, e terrões; e duas lavouras depois do inverno, a saber: huma no principio da primavera, e outra pouco tempo antes da transplantação. Ha terrennos, que precisão de quatro lavouras, huma antes do inverno, e tres depois delle, e ainda assim he preciso gradar em cada huma dellas.

O amanho feito á enchada he melhor do que feito com o arado, ou charrua; mas he mais custoso; sendo feito á enchada bastará fazer huma cava antes do inverno, e outra na primavera, excepto se a terra se cobrir de hervas, porque então será necessario fazer huma terceira cava.

Não se devem estrumar as terras virgens, ou arroteas, mas devem-se estrumar aquellas, que andarem em cultura regulada, que tem produzido trigo, e outras plantas, que as tem esgotado dos seus principios fertilisantes. Como, em geral, as terras para a cultura das Tabacoeiras são terras fortes, o estrume de cavallo deve ser preferido, como tambem o dos carneiros, o das aves domesticas, e mesmo os excrementos humanos, posto que passem por diminuir a qualidade das Folhas do Tabaco. He inutil dizer aos cultivadores de grandes culturas que, se elles nellas empregarem terrenos compactos, precisão de usar de estrumes não de todo apodrecidos, alem das margas calcareas, ou das caliças dos edificios velhos, feitos com argamaça de cal, ou gesso, que são muito proprias para abrir as argillas; e tambem, no caso que os terrenos sejão muito soltos, elles os farão mais fortes, estrumando-os com estrumes bem podres, principalmente o de vaccas, e misturando nos ditos terrenos margas argillosas; porque estas preparações não são menos uteis, e necessarias para os terrenos destinados para a plantação das Tabacoeiras, do que para as searas de milho, e trigo. A respeito da quantidade dos estrumes necessaria ella depende da especie do estrume, e do seu estado, como tambem da natureza do terreno; bastará dizer que as terras para a plantação das Tabacoeiras devem ser estrumadas como costumão ser as que se destinão para searas de trigo.

Fazendo-se o amanho á enchada podem-se formar pequenos monticulos de terra, cuja base tenha dous, ou tres pés de diametro: com o arado mesmo na ultima lavoura se poderão fazer regos largos, e fundos, ficando a terra em espigão alto, o que fará as vezes de monticulos; elles podem ficar tambem dous, ou tres pés distantes, e fazendo margens.

A terra estando assim preparada, e a planta na sementeira tendo adquirido a altura, e força convenientes, passa-se a fazer a plantação, com tanto que seja depois de ter chovido, porque a chuva he necessaria para facilitar o arranco das plantinhas com todas as suas raizes, e mesmo com hum pequenno terrão, como tambem para a pôr em huma terra, que logo não a seque. Pode com tudo succeder que não tenha havido chuva; neste caso será preciso regar bastantemente a sementeira, e regar tambem cada planta, logo que fôr transplantada; e não se deve lançar-lhe muita agua de huma vez: será melhor regar com menos agua, e por duas vezes.

Para plantar faz-se hum buraco na terra com hum bordão aguçado em baixo, e curvado no cimo para servir de punho (a que chamão plantador); encrava-se neste buraco a planta até ao seu olho, isto he, até ao ponto onde nascem as suas folhas, e com o plantador se lhe encosta a terra pelos lados para a firmar. Quando o terreno está disposto em monticulos põe-se a planta no meio de cada hum delles; e quando elle está preparado em margens, ou tambem em regos aproximados em adorsamento, ou espigão, põem-se as plantas dous pés, ao menos, distantes humas das outras, dando á plantação a forma de quincunce; quanto menos bom para a qualidade da Folha das Tabacoeiras fôr o terreno, tanto mais as plantas devem ficar distantes humas das outras.

Succede ás vezes que as sêccas, ou geadas serôdeas destroem algumas plantas, reservão por isso algumas na sementeira, e com ellas são providos os lugares vagos.

Deve-se sempre ter a plantação limpa de hervas ruins, sachando-as tantas vezes, quantas forem necessarias; ao menos tres sachas são precisas; o tempo dellas he a necessidade, que o determina.

Quando as plantas tiverem hum pé, ou pé e meio de alto, o que ordinariamente succede seis semanas depois de plantadas, são sachadas, chegando-se-lhes a terra em roda do pé elevadamente, como se faz ao milho grosso, e ás batatas; e esta operação he feita com a enchada, ou sacholas.

No periodo, em que se descobre em cada planta hum nó, ou botãosinho, que he o principio da flor, he tambem occasião propria para lhe cortar a ponta da guia, a que chamão descabeçar, ou despontar: com os dedos, navalha, ou tisoura tira-se-lhe a ponta de modo, que não lhe fiquem mais de doze até quatorze folhas. A planta então fica reduzida á altura de dous pés. Esta operação obriga a seiva a fazer rebentar diversos renovos nas axillas das folhas. Devem-se estes tambem arrancar todas as vezes que brotarem, a fim de fazer derivar, e concentrar a seiva nas folhas, que são o objecto principal da cultura.

Para ter sementes deixão-se no campo alguns pés, sem lhes cortar a guia. Basta deixar poucos, se não ha intento de vender sementes; porque hum bom pé pode dar sementes para semear hum _arpente_ de París. Os pés bons para dar sementes são os mais vigorosos, os primeiros que se plantárão, e não os que forão substituidos nos lugares vagos das plantas mortas. Na Hollanda estes pés de plantas-mãis são desfolhados pouco a pouco, á proporção que se vão elevando, para que toda a seiva se dirija ás sementes, e só colhem estes pés, quando as capsulas, que contem as sementes, se tornão negras; cortão-os então, pendurão-os nos tectos das casas, aonde ficão até á primavera: as sementes assim dentro das suas capsulas se fortificão cada vez mais, e se conservão melhor.

Quanto ás plantas, cuja guia foi cortada, conhece-se que as suas folhas são maduras, e boas para serem colhidas, quando ellas começão a perder aquelle verde vivo, que as caracterisava, e a tomar por degradação hum fraco amarello; então ellas se inclinão para a terra, e espalhão o seu cheiro particular até huma certa distancia; nas suas faces formão-se algumas pequenas malhas, e a sua costilha, ou nervura media tem huma certa facilidade de se podêr quebrar com os dedos.