Noções botanicas das especies de Nicociana mais usadas nas fabricas de tabaco, e da sua cultura
Part 1
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Rita Farinha (Março 2012)
NOÇÕES BOTANICAS
DAS ESPECIES
DE NICOCIANA
MAIS USADAS NAS FABRICAS DE TABACO,
E DA SUA CULTURA.
PELO Dr. FELIX DE AVELLAR BROTERO.
[Figura]
LISBOA:
NA IMPRESSÃO REGIA. ANNO 1826.
_Com Licença._
As plantas, cujas folhas se costumão usar na factura de diversas sortes de Tabaco, são todas do genero _Nicotiana_, segundo a opinião de todos os Botanicos modernos. Este genero pertence á Familia das Solaneas da Classe oitava do Methodo natural do Dr. Jussieu, e á Classe Pentandria, Ordem Monogynia do Systema artificial do Dr. Linnéo: as suas notas caracteristicas são as seguintes.
_Caracter natural (ou extenso)._
O calys he monophyllo, ovado, fendido em cinco lacinias, e persistente.
A corolla he monopétala, e afunilada; tem o tubo mais comprido do que o calys, e a orla hum pouco patente, dividida em cinco segmentos iguaes.
Os filetes dos estames são cinco remontantes, assovelados, e quasi tão compridos como a corolla: as suas antheras são oblongas, e obtusas.
No pistillo o germen he sobre-posto ao receptaculo da fructificação, ovado, e terminado por hum estylete filiforme do comprimento da corolla, cujo estigma he hum tanto capitoso, e chanfrado.
O pericarpo he huma capsula ovada com hum pequeno rego de cada banda, de duas cellulas, e duas valvulas; abre-se pelo cume, e tem no centro dous corpos esponjosos apegados ao partimento, e assim formando hum grosso pilar.
As sementes são numerosas, reniformes, rugosas, e denigridas, ou ruivas, e oleosas.
_Caracter essencial (ou abbreviado)._
O calys fendido em cinco lacinias; corolla muito mais comprida do que elle, afunilada, fendida em cinco segmentos iguaes, e regular; estames inclinados para huma banda; estigma chanfrado; capsula bivalve, e de duas cellulas.
Especie 1.^a
Nicociana Tabacoeira Vulgar, Herva Sancta, Herva do Tabaco ordinaria. (_Nicotiana tabacum Lin._)
_Caracter especifico abbreviado._
As folhas são lanceoladas-ovadas, agudas, rentes, hum pouco decursivas pelo caule; as lacinias da sua corolla são agudas.
_Descripção._
A raiz desta especie he composta de varios ramos subdivididos em muitas radiculas, mais ou menos delgadas, alvadias, quasi inodoras, mas de sabor acre, como o do caule, e folhas. He annual, ou vivaz, conforme os climas.
O caule he roliço, hum tanto lanuginoso, viscoso, e dividido em varios ramos alternos, e levantados; a sua altura, grossura, e duração varía conforme os climas, e terrenos: nos paizes quentes, e em Portugal dura vivo mais de hum anno; no Real Jardim Botanico da Ajuda ha hum pé de quatro annos, cujo caule he maciço, e lenhoso, tem mais de quinze palmos de alto, e quase duas pollegadas de grossura na base.
As folhas são dispostas alternadamente, e sujeitas a variar, segundo os climas, e terrenos; em huma variedade são largamente lanceoladas, participando hum pouco da forma ovada, agudas, na base rentes, e ahi rematadas em dous lobulos obtusos, abarcantes, e mais, ou menos decursivos pelo caule; em outra variedade são estreitamente lanceoladas, muito pontudas, e para a banda da base de tal sorte estreitadas, que parecem pecioladas, sem com tudo o serem, mas rentes, com dous lobulos obtusos, muito pouco, ou nada decursivos; em algumas outras variedades acima destes lobulos ha huma sinuosidade de cada lado, e depois a folha fica estreitamente lanceolada; em todas estas variedades as duas faces da folha são verdes, mais ou menos lanuginosas, e viscosas; o seu talo, e veios, mais ou menos grossos, segundo a crassitude, e extensão do seu parenchyma; a sua grandeza ordinaria nos terrenos pingues, e bem cultivados he de pé e meio até dous pés de comprido, raramente mais, e de hum pé, ou pouco mais, de largo; mas estas medidas diminuem muito nos terrenos mediocres, e pouco ferteis; nos paizes quentes, e no estado da sua perfeita madureza tem muito forte cheiro.
As flores são dispostas em panicula na extremidade do caule, e dos seus ramos; são como expuz no caracter natural do genero; alem disso, o calyz he lanuginoso, a corolla tem o tubo hum pouco felpudo por fora, e a orla dividida em lacinias agudas, e mais, ou menos purpureas, ou côr de carne.
Os orgao sexuaes, fructo, e sementes são como mencionei no caracter natural do genero.
Esta especie he indigena do Brasil, Perú, Antilhas, e outros paizes quentes da America; a mais antigamente usada para tabaco de fumo, e as suas variedades, e subvariedades são hoje tambem as que mais se empregão na fabricação dos diversos tabacos. A sua duração, e tempo de florescencia varião conforme os climas; nos do norte da Europa he ordinariamente annual, floresce commumente em Julho, e Agosto, e perece inteiramente com os frios do outuno: nos paizes os mais meridionaes da Europa vive ordinariamente mais de hum anno, e floresce aqui em todas as estações, menos no inverno; na Africa, e Asia a sua duração, e florecencia differe pouco das da America meridional: no Brasil chega a viver dez, e doze annos, florece em todas as estações, e conserva muitos annos as suas folhas vigorosas.
Especie 2.^a
Nicociana arbustiva, ou Tabacoeira arbustiva. (_Nicotiana fruticosa_ de Linnéo, La Marck, e outros Botanicos.)
_Caracter especifico abbreviado, segundo os Botanicos modernos._
As folhas são estreitamente lanceoladas, muito attenuadas para a banda da base, e parecendo assim quasi pecioladas, mas são rentes, com os seus lobulos abarcantes, e pouco, ou nada decursivos; o caule he arbustivo.
Os distinctivos, que nas suas Descripções os Botanicos modernos dão desta planta, e o caracter especifico, que lhe designão, são insufficientes para a constituir especie diversa da precedente; o ser arbustiva, ou subarbustiva he proprio tambem da primeira; as folhas, mais ou menos estreitas com a forma lanceolada, só podem constituir variedade, e o mesmo se deve julgar de ser a sua panicula hum pouco mais laxa, o caule mais baixo, e as lacinias do calyz, e da corolla mais compridas, e o seu tubo mais apertado. Nem me parece que esta planta seja indigena da China, e do Cabo da Boa Esperança, como dizem, antes penso que he Americana na sua origem, pelas razões, que depois indicarei, e tão somente huma variedade da Nicociana Tabacoeira do Brasil, que nos ditos paizes se acha naturalisada.
Especie 3.^a
Nicociana rustica, ou Tabacoeira menos ordinaria. (_Nicotiana rustica_ Lin. et La Marck.)
_Caracter especifico abbreviado._
As folhas são ovadas, obtusas, pecioladas; as corollas das suas flores são amarelladas, de orla muito curta, com lacinias obtusas.
_Descripção._
A raiz desta planta he da grossura do dedo minimo no seu collo, raramente simples, quasi fusiforme, porquanto ordinariamente he dividida em varios ramos, de côr alvadia, mais ou menos obliquos, sem profundarem muito a terra, e guarnecidos de muitas radiculas capillares. O seu caule he roliço, felpudo, viscoso, rijo, e levantado até á altura de dous, ou tres pés; divide-se em varios ramos, alternos, levantados. As suas folhas são tambem alternas, ovadas, obtusas, viscosas, integerrimas, e todas pecioladas com peciolos curtos; a sua superficie he rugosa em huma variedade. As duas flores são dispostas em huma panicula apertada na extremidade do caule, e ramos. A sua florecencia na Europa he em Junho, e Julho. A corolla he amarellada, tem o tubo pouco mais comprido do que o calys; a sua orla he pequena, patente, e dividida em cinco lacinias obtusas, e redondeadas. As suas capsulas são obtusas, e quasi globosas. Esta especie he indigena do Brasil, e de outros paizes da America meridional; alguns pertendem que as suas sementes forão trazidas do Mexico para a Europa, e antes que as da Nicociana Tabacoeira vulgar; seja o que fôr, he certo que ha muitos annos os Inglezes, Francezes, e outras Nações Europeas a cultivão para tabaco. Ella se acha aclimada, e naturalisada hoje na Europa, e em alguns sitios, que são proprios para os Meimendros; propaga-se pelas suas sementes tão espontaneamente como elles; por tanto a sua cultura he muito facil, mas as suas folhas são pequenas, e somente para tabaco de fumo se tem reputado proprias. Eu não sei se no Brasil ella he hoje empregada neste uso, porque antigamente só era usada como medicamento.
Especie 4.^a
Nicociana glutinosa, ou Tabacoeira racimosa. (_Nicotiana glutinosa_ Lin. et La Marck.)
_Caracter especifico abbreviado._
As folhas são cordiformes, integerrimas, pecioladas; as flores dispostas em racimos, e voltadas todas para hum mesmo lado; o calys tem o segmento superior maior.
_Descripção._
Esta especie tem o caule roliço, felpudo, viscoso, e por fim ôco; a sua altura he de dous até quatro pés, e ordinariamente ramoso. As suas folhas são pequenas, alternas, em forma de coração, agudas, ondeadas, hum pouco felpudas, muito viscosas, e pecioladas. As flores são viscosas, e dispostas em cachos simples, e curtos; os seus pedunculos são alternos, mas curtos do que as flores, e unilateraes; junto da sua base tem huma, ou duas bracteas lineares, agudas, e de menor comprimento do que elles. As lacinias do calys são agudas, mais ou menos desiguaes entre si, e a superior he sempre mais comprida. A corolla tem o tubo pallido, estreito, curto, e curvado, depois he tumida, e bipeda, as suas lacinias são ovadas, agudas, de côr purpurea desmaiada, e hum tanto desiguaes no comprimento, de modo que a orla parece quasi bilabiada. Os estames estão inclinados para a banda de cima da corolla, e igualmente o estylete do pistillo. A capsula he ovada, e aguda. Esta planta he indigena do Perú, e annual; alguns a cultivão, e empregão as suas pequenas folhas nos mesmos usos, que as da Nicociana rustica.
Especie 5.^a
Nicociana paniculada. (_Nicociana paniculata_ Lin.)
_Caracter especifico abrreviado._
As folhas são cordiformes, integerrimas, e pecioladas; as suas flores dispostas em huma laxa panicula; o tubo da corolla he muito comprido, e aclavado na parte superior; e as lacinias da sua orla curtas, e obtusas.
_Descripção._
O caule desta especie he roliço, estriado, e coberto de huma lanugem alvadia; tem tres pés e meio até quatro de altura, os seus ramos são alternos, e levantados. As suas folhas tambem são alternas, e em forma de coração, integerrimas, agudas, e hum tanto alvadias, em razão de serem cobertas de huma certa lanugem esbranquiçada; os seu peciolos são compridos, canaliculados, e cotanilhosos. As flores são dispostas em huma panicula terminal, solta, e pouco ramificada; os seus pedunculos são felpudos, e viscosos. O calys he dividido em cinco dentes agudos, e quasi lanceolados. O tubo da corolla he muito comprido, estreito, e em forma de massa (_clava_) na sua extremidade; a sua orla he patente, e as suas cinco lacinias são muito curtas, e obtusas. Tem a capsula aguda. He annual, e indigena do Perú, aonde foi descoberta, e desenhada pelo Padre Feuillée. Mostra ter grande affinidade, e semelhança com a _Nicociana rustica_, mas differe della, principalmente pelas suas folhas, e corolla; florece na Europa nos mesmos mezes, e lhe pode ser substituida, posto que mais delicada.
Não sei que esta especie seja indigena do Brasil, nem que nelle seja cultivada, e me admiro muito que Mr. Sarrazin no seu moderno Tractado das Tabacoeiras, seguido por Mr. Bosc, e alguns outros Botanicos Francezes, diga ser ella a Tabacoeira commum do Brasil, e da Asia, a qual com grande probabilidade me não parece ser outra senão a _Nicotiana tabacum_ de Linnéo.
Todos os Auctores Botanicos, que nos seus Tractados Systematicos fazem menção deste genero de hervas destinadas para a facturação de diversos Tabacos, começão pela especie, que Linnéo denomina _Nicotiana Tabacum_; todos os Tractados sobre o Tabaco, ou pró ou contra o seu uso, indicão esta mesma especie, e a dizem ser indigena de Yucatan, aonde os Hespanhoes a achárão em 1520, e depois em Tabago, e outros paizes quentes da America; os Portuguezes a descobrírão tambem depois no Brasil, e lhe derão o nome de Herva Sancta por causa da sua virtude vulneraria, e outras. Ella he pois a primeira, e a que mais antigamente foi conhecida no seu genero: Hespanha, e Portugal forão tambem os paizes da Europa, para onde primeiramente as suas sementes forão remettidas, e aonde forão primeiramente obtidas, compradas, e para outros enviadas. Mr. Nicot, sendo Embaixador de França na Côrte de Lisboa, ahi as conseguio, e levou para París em 1560, anno em que data a introducção da Herva do Tabaco em França; por cujo motivo muitos Francezes lhe ficárão chamando Nicociana: depois Tournefort; e Linnéo, e alguns outros Botanicos adoptárão este nome com preferencia a outros, e o constituírão generico, applicando-lhe por especifico o de Tabacoeira, ou Tabaco, que era o nome, que os Hespanhoes lhe havião dado, deduzido da Ilha de Tabago, aonde a sua cultura, e commercio primitivamente se tinhão estabelecido. O Cardeal de Sancta Cruz, Nuncio do Papa em Lisboa, no mesmo tempo, em que nesta Capital Mr. Nicot havia estado por Embaixador de França, tendo tambem ahi podido obter algumas das ditas sementes, as mandou para Italia, aonde fez pela primeira vez conhecer aos Italianos a Herva do Tabaco, e elles lhe derão então por isso o nome de Herva de Sancta Cruz. Por meio destas, e outras sementes, que os Italianos alcançárão de Portugal, Hespanha, e de outros paizes da Europa, aonde já era cultivada esta especie, estendeo-se a sua cultura pela Calabria, Sardenha, Ilhas do Archipélago, Syria, e Asia menor. Os Portuguezes, e Hollandezes, que introduzírão pouco a pouco o uso de tomar Tabaco de fumo em todas as costas meridionaes da Africa, e Asia, em alguns lugares dellas tambem introduzírão as sementes, e cultura desta especie de Nicociana; ella se tem ahi facilmente naturalisado por serem os climas muito analogos ao do seu paiz natal Americano; e hoje de tal sorte ahi se encontra vegetando espontaneamente, que parece tambem ser indigena da Africa, e Asia, e por alguns assim erradamente tem sido reputada.
A cultura desta especie, em pequena quantidade tanto nas hortas de Portugal, como nas das Ilhas dos Açores, he muito antiga; e provavelmente começou a tentar-se logo que as suas folhas entrárão a ser lucrativas. Nenhum paiz da Europa he mais favoravel á sua vegetação, e cultura do que Portugal; algumas pessoas me tem assegurado tê-la visto espontanea na visinhança de algumas hortas no Algarve; na Ilha das Flores tambem me consta dar-se espontaneamente, e por isso os habitantes lhe chamão _brava_; neste estado silvestre o seu caule, folhas, e outros productos são mais pequenos do que os das cultivadas, a que chamão _mansas_, e _xarafanas_; mas esta differença só constitue variedade de especie, e não especie diversa, porque todas concordão essencialmente no mesmo caracter especifico, e todas tem as mesmas qualidades, e prestimos.
Á proporção que o uso das folhas desta Tabacoeira primaria se foi dilatando, e, sendo lucrativo, assim se forão estendendo as suas culturas por toda a parte; nas que se estabelecêrão nos paizes do norte da Europa, e America a especie passou ahi a ser annual, e a produzir muitas variedades, com folhas mais ou menos estreitamente lanceoladas, pontudas, e pouco ou nada decursivas. As folhas de todas as variedades, ou estreitas ou largas, são sempre mais ou menos acres, e narcoticas, conforme os climas, e terrenos, em que se cultivão; e em razão destas qualidades, mais ou menos fortes, são usadas ou só per si, ou mistas com outras para os differentes Tabacos.
As culturas das variedades desta especie não são uniformes por toda a parte; e como ellas não deixão de contribuir mais ou menos para as qualidades da sua folha propria para differentes Tabacos, eu passarei agora a expôr as que em diversos climas diversas Nações praticão, por desejar ser util a quaesquer colonos, que houverem de emprender este genero de Agricultura nos Estados Ultramarinos Portuguezes.
CULTURA
DA
PLANTA DO TABACO.
Em diversos paizes, onde se cultiva esta Planta, seguem-se methodos diversos, que exige a variedade dos sitios, e climas, e mesmo ordinariamente a natureza dos terrenos. Estes methodos convem nos essenciaes pontos, e só differem em algumas circumstancias particulares. A maior parte da Folha de Tabaco, que consome a Europa, vem dos Estados Unidos da America; será pois acertado fazer conhecer primeiro como elle he cultivado, e preparado nesta parte do Globo terrestre; e como a exportação maior he dos Estados da Virginia, e Maryland, por estes principiaremos.
_Cultura, e preparação da Planta do Tabaco na Virginia, e Maryland, segundo Miller._
Na Virginia, e Maryland semêa-se a Tabacoeira em camas de estrume, e debaixo de caxilhos; esta sementeira faz-se na primavera, mais cedo ou mais tarde, segundo esta estação, he mais ou menos temporã, e em _razão de ser mais ou menos favoravel a sua temperatura, e meteoros_. Faz-se tambem a sua sementeira nas terras bem lavradas, estrumadas, esterroadas, e tornadas soltas; mas então ha cuidado de cobrir a dita sementeira, havendo a menor apparencia de frio. Esta planta gosta de huma terra quente, branda, fertil, e mista de arêa; em hum terreno virgem, e humido ella cresce com muita força.
A planta, criada ou nas camas de estrume, ou no meio das terras em sementeira conveniente, acha-se em estado de ser transplantada para o lugar, onde deve ficar, logo que tem quatro folhas, e que a quinta começa a formar-se; para esta operação aproveita-se a primeira chuva. O terreno destinado para nelle se transplantar a Tabacoeira está preparado em monticulos, como para huma plantação de Lupulo; elle deve ter sido lavrado á charrua, ou á enchada, o que he ainda mais util, e tornado tão brando, e solto, quanto he possivel. Na exposição do Sul, em declivio brando, ou em hum campo abrigado dos ventos Norte, e Nordeste, o bom successo da plantação he mais seguro.
Hum mez depois que as tenras plantas tem sido transplantadas, ellas adquirem hum pé, ou mais de altura. Se ellas crescem rapidamente, elevão muito de pressa a sua guia, e lanção rebentões na parte superior; os cultivadores cortão-lhos todos, e a guia, a fim de que o tronco forneça mais succos ás folhas; arrancão tambem, ao mesmo tempo, e pelo mesmo motivo, as folhas, que estão muito baixas, e perto da terra, deixando só no tronco oito até doze. Elles tem cuidado de sachar muitas vezes o terreno plantado, e de arrancar todos os renovos, que rebentão ao longo do tronco, ou da sua base, e pé.
Tres mezes quasi, depois de se ter feito a transplantação, as plantas tem adquirido todo o seu crescimento; ellas tem então quatro ou cinco pés de alto, e ás vezes mais; são outra vez decotadas na guia, e rebentões. Brevemente, depois disso, as folhas, que erão de huma côr verde pállida, ou amarellada, se tornão de hum verde escuro misto de malhas pequenas amarelladas nas suas nervuras; ellas se enrugão, e começão a tornar-se mais asperas ao tacto; he por estes signaes que os Cultivadores conhecem a madureza das tolhas.
Cortão então as plantas, algumas pollegadas acima da face da terra, á proporção que vão amadurecendo as suas folhas; deixão-as deitadas no chão todo o resto do dia, o que faz murchar as folhas. Junto á noite ajuntão-as, e põem-as em montes para que transpirem, ou suem alguma humidade durante a noite; e, se ellas abundão muito em succos, expõe-as de novo ao Sol no dia seguinte para que melhor amadureção, e se condensem os seus ditos succos; depois disso levão-as para debaixo de telheiros, ou alpendradas, edificados de modo que o ar nelles possa entrar por todas as partes, mas não a chuva. Pendurão-as ahi, cada huma separadamente, e deixão-as seccar por espaço de quatro, ou cinco semanas. Se a estação corre fria, usão do fogo para esta desseccação. O tabaco de Maryland, destinado para fumar, he quasi inteiramente seccado por meio do fogo; elle se torna amarellado, e he o mais caro de todos.
Depois da inteira deseccação, as plantas são tiradas dos telheiros em hum tempo humido; porque, se as tirassem donde estavão penduradas em hum tempo sêcco, as folhas se desfarião em migalhas. Depois estendem-as em montes sobre esteirões feitos de verga, cobrem-as, deixão-as ainda suar huma semana, ou duas, conforme a sua qualidade, e conforme corre a estação, e tem cuidado de visitar os ditos montes repetidas vezes para examinar o gráo do seu calor, para os abrir, revirar, e revolver, a fim de impedir que nenhuma das suas partes aqueça demasiadamente, porque a fermentação poderia passar até o gráo de inflammação; e demais disso huma demasiada reacção fermentativa destruiria os principios, e qualidades dos succos, e faria apodrecer as folhas: he esta pois a parte mais difficil da sua preparação, e não admitte regra geral; ella depende unicamente da experiencia, e habito; hum negro exercitado nesta manipulação, mettendo a mão em hum monte de folhas, destinguirá cem vezes melhor o gráo conveniente de calor, do que o faria hum physico com o seu thermometro.
Quando esta fermentação está completamente terminada, despojão os troncos das suas folhas, separando-as da parte do cume do tronco daquellas da banda da raiz, e esta separação em duas, ou tres classes. Estas folhas deixão-se inteiramente seccar de novo, e depois são reunidas dez a dez, ou doze a doze em molhos, e ligadas; estes molhos são chamados _manócas_, e são postos em camadas regulares em barricas, pondo-se repetidas vezes por cima dellas, á proporção que se vão enchendo as barricas, huma forte tampa redonda, apertada nas ditas vezes por meio de hum prélo, ou alavanca de 1.^a especie, que faz o effeito de hum pezo de 2, 3, ou 4 mil arrateis. Este modo de embarricar, em razão da compacidade, em que ficão as folhas, he hum dos pontos os mais essenciaes para a boa conservação dellas. Ás vezes as folhas de melhor, e mais fina qualidade são enviadas em forma de rôlos; então as folhas são despojadas das suas fibras grossas, ou costilhas. Estas duas operações, tanto de embarricar, corno de fazer os rôlos, são effeituadas em hum tempo humido, quando as folhas sêccas são mais brandas, e flexiveis.
As folhas da Tabacoeira assim preparadas são remettidas ao lugar do mercado; mas antes de ser vendido está sujeito a ser examinado pelos Officiaes públicos instruidos para isso, e chamados Inspectores do Tabaco, os quaes determinão a sua qualidade. Toda a sorte de folha mal preparada, que foi molhada no caminho, e que por isso, ou por qualquer outras causas fermentou de novo nas barricas, he condemnada a ser queimada, e perdida por conta de seu dono. Os Americanos tem leis para regular todos estes objectos; e pela rigorosa observação dellas he que a cultura da planta, e a preparação da folha se tem tanto aperfeiçoado, e que o commercio, que com ella fazem, se tem estendido até o ponto, em que se vê. Nos annos antes da sua ruptura com a Inglaterra, as duas Provincias da Virginia, e Maryland remettião á Grã-Bretanha 768:000 libras esterlinas em folhas de tabaco: o seu preço medio era a oito libras esterlinas por cada barrica de 1:200 até 1:400 arrateis cada huma, o que faz 96:000 barricas de exportação. Desta quantidade quasi 13:500 barricas se gastavão nos Reinos Britannicos, e pagavão ao Estado 26 libras esterlinas e hum xelim de direitos por barrica, por tudo 351:675 libras esterlinas; as outras 82:500 barricas erão exportadas para outros paizes da Europa pelos Negociantes Inglezes. Neste ramo de commercio só per si erão empregados trezentos e trinta navios, e quatro mil marinheiros.
Ao que dissemos sobre a cultura, e recolhimento das folhas da Tabacoeira nos Estados Unidos dos Americanos, devem ajuntar-se as observações seguintes.