Chapter 6
Coney-Island aos domingos é para os americanos o que o Bois é para os francezes e Hyde Park é para os inglezes--um interessantissimo microcosmo de incrivel bizarraria, cheio do vago rumor de uma multidão que passeia, que canta, que ri e que bebe ao ar livre, n'um _pêle-mêle_ vertiginoso, com as suas _toilettes_ claras, com o seu bello ar despretencioso, com os seus gestos largos de quem respira uma atmosphera leve e pura.
Essa pequena ilha constitue a principal diversão domingueira dos habitantes de Nova York.
Familias inteiras, burguezes de todas as castas, _cocottes_, affluem para ali n'esses dias. Pela manhã, cedo, largam da Fulton Station grandes barcas embandeiradas conduzindo musicas, cheias de passageiros. Muita gente prefere ir por terra, em trens que partem de Brooklin.
Não ha logar para todos nos hoteis. Improvisam-se _pic-nics_ defronte do mar, na beira da praia, formam-se pagodeiras, e muitas pessoas ha que não se lembram de comer--preferem a cerveja, o _bock_ a qualquer especie de alimento solido.
Vimos dois grandes hoteis--o _Great Hotel_ e o _Gigantic Elephant_.
Aquelle é um magnifico estabelecimento, todo construido de madeira de lei sobre enorme plataforma que se move em trilhos proprios. Novo genero de hoteis até então desconhecido para nós. N'um dado momento podem ser conduzidos, como qualquer _tramway_ d'um logar para outro.
O _Gigantic Elephant (the monarch of the architectural world_, como lá dizem...) mede 175 pés inglezes de altura, é dividido em 31 compartimentos, ventilados por 63 janellas, e illuminado, á noite, por 25 fócos de luz electrica. Figura um elephante colossal, de madeira, em pé, no meio de um jardim. Em cima, no dorso do monstro, existe um terraço d'onde se descortina uma esplendida paisagem rasa e calma.
Quer n'um, quer n'outro, o _promeneur_ encontra abundante variedade de petiscos e bebidas.
As creanças, com especialidade, fazem de Coney-Island um céo aberto. Ellas, sim, não perdem os cavallinhos que andam á roda ao som de um classico realejo seboso, os passeios aereos, na ponte russa, nas barquinhas, nos trens elevados...
Por toda a parte musica, realejos, pregoeiros de _cousas maravilhosas_, gritos, gargalhadas...
Tiram-se retratos instantaneos, apostam-se corridas, sobem-se elevadores de duzentos metros acima do solo, pesca-se, alugam-se cavallos de passeio... Emfim, Coney-Island é uma miniatura da vida tumultuosa das grandes cidades.
O pobre diabo que não fôr esperto e economico arisca-se a voltar com as algibeiras cheias de vento...
Á noite enchem-se novamente os trens e as barcas. Em uns e outros a algazarra torna-se insupportavel. Canta-se a _Marselheza_ em vozes detestaveis, grita-se, bate-se com a ponteira da bengala no chão, assovia-se, imitam-se animaes de toda a especie... Uma loucura!
Entretanto, abençoado paiz! em todas essas pagoderias não se distingue siquer um bonné policial. Não ha conflictos, nem desastres.
Tudo corre na maior harmonia, sem intervenção da guarda civica. Os _policemen_ podem cochilar á vontade: a população americana é naturalmente pacata e respeitadora da ordem.
Coney-Island é o complemento necessario e indispensavel de Nova-York.
Pelo verão reunem-se ali cerca de 5.000 pessoas, segundo o calculo approximado do consul brasileiro.
Dias depois da nossa chegada, o _Barroso_ entrou para o dique de Brooklin, a fim de soffrer alguns reparos no casco.
Emquanto isto se dava, emquanto a guarnição occupava-se da limpeza externa do cruzador, com o cuidado, com o desvelo e com o carinho mesmo de amigos dedicados, iamos visitando outras cidades americanas, ligeiramente, de relance.
Não nos foi dado, porem, diga-se em parenthesis, ver o mais grandioso espectaculo dos Estados-Unidos--a celebre cascata do Niagara, que Chateaubriand pinta com as maravilhosas côres de sua palheta de artista inimitavel.
Não tivemos mesmo a felicidade de ver Washington, a bonita capital americana, e tão pouco o presidente Cleveland.
Esse previlegio coube quasi que exclusivamente ao ex-principe D. Augusto, que aliás não revelou grande admiração pela Niagara, nem pelo presidente Cleveland.
Sua Alteza não era para que digamos muito amigo da natureza, e menos aínda de personagens illustres.
Quanto a mim continuei a ver a famosa cascata por um oculo, nos livros do poeta, e o Sr. Cleveland, vi-o casualmente no _Daily News_, no acto do seu casamento realisado a esse tempo. Pareceu-me um bello typo de _yankee_: cheio de corpo, cabello penteado p'ra traz, olhar firme, bigode grosso...
Assim, contentámo-nos com visitar algumas cidades de importancia e tão depressa que era impossivel apanhar com precisão todos os caracteres por meio dos quaes se pode apreciar a vida de uma população.
Vejamos:
BALTIMORE--Cídade aristocratica, pequena, mas extremamente bella na simplicidade, no gosto sobrio de sua edificação, muito asseiada, muito clara, semelhando toda ella, no seu conjuncto gracioso, uma confortavel habitação de outomno, fresca e risonha, boa para se gozar o socego de uma villegiatura sem preoccupaçães mercantis e utilitarias.
A gente de Baltimore parece viver uma vida tranquilla e descuidada no calmo interior de seu _home_, longe da mentira social, longe de todo o ruido, beatificamente, n'uma paz invejavel, respirando uma atmosphera livre do microbio daminho das civilisações tumultuosas.
Baltimore é uma cidade por excellencia aristocratica e hygienica, onde os temperamentos requintadamente pacificos encontrariam o desejado repouso trespassado da incomparavel doçura de um clima raro.
Na melhor de suas praças e no mais elevado de seus pontos ergue-se a estatua em marmore do grande Washington, geralmente considerada «um dos mais interessantes monumentos da America» e inaugurada em 1809. Mede 60 pés quadrados na base e 15 de altura. Sobre o pedestal foi levantada uma elegante columna dorica de 20 pés de diametro na base e 15 no cimo, onde branqueja a estatua do primeiro presidente dos Estados-Unidos, representando-o no momento de renunciar a sua commissão de general em chefe dos exercitos de seu paiz.
Para subir até essa galeria fui obrigado a vencer duzentos degráos (contados) de uma estreita escadaria de pedra, em espiral. De cima vê-se, a olho nú, todo o panorama, realmente bello, da cidade, que lembra uma d'essas paisagens hollandezas, muito claras e suggestivas, taes como descreve Ramalho Ortigão, e onde destacam, n'um fundo de aguarella, linhas de arvoredo e reverberos d'agua parada...
Ouvi dizer algures que as mulheres mais bonítas dos Estados-Unidos são as de Baltimore. Durante as poucas horas que ahi nos demorámos vimos alguns rostos femininos na verdade encantadores. É possivel que vissemos com olhos protectores de hospedes em terra estranha...
Era nosso consul n'aquella cidade Fontoura Xavier, o conhecido autor das _Opalas_, bom poeta e pessimo republicano, que se apressou em nos proporcionar todas as commodidades possiveis, franqueando-nos os quartos e os salões do melhor hotel do logar. Fez mais: offereceu gentilmente á officialidade brazileira um delicadissimo almoço ao qual compareceram diversos estudantes nossos patricios.
Guardamos bellas recordações de Baltimore.
PHILADELPHIA--Grande centro de industria e commercio. Altas chaminés caracteristicas. Céo encoberto de fumaça, pesado e lugubre a certas horas do dia. Aqueductos, casas colossaes, ruas largas e atulhadas de barricas e caixotes. Continuo movimento de carros e tramways. Immensa e grandiosa, a cidade vista de qualquer ponto elevado. A lembrança que fica é a de um grande edificio em construcção, cheio de rumor de machinas e de operarios em actividade permanente.--Jardim Zoologico.--Universidade importantissima, onde vão estudar moços de todas as nacionalidades.--City Hall, edificio monumental, vasto e muito alto, onde funccionam as repartições publicas: dizem ser o maior dos Estados-Unidos.
Não ha tempo a perder. Temos apenas trez horas a nossa disposição, pois que o trem deve partir para Annapolis ás cinco da tarde e já são duas...
Leio na taboleta de um bond: _Zoological Garden_... Oh! sim, vamos ao Jardim Zoologico, a mais completa collecção de animaes, que já se conseguiu formar. O meu companheiro, que conhece o Jardim Zoologico de Londres e o de Philadelphia, opta por este. Vejo, de passagem ruas bellissimas, esplendidas filas de casas luxuosas, magnificos jardins particulares, templos em estylo gothico; descampados...
Mas, a viagem é longa, o tempo escorre sem a gente perceber, e é preciso contar com a volta, a fim de apanhar o trem.
Trabalho perdido! Voltámos no mesmo bonde, sem ter visto o appetecido Jardim... Zoologico.
Mal tivemos tempo de chegar, embarafustar por entre os passageiros que se accumulavam na _gare_, e saltar para dentro do vagon.
E eu fiz o resto da viagem pensando no assombroso progresso d'aquella cidade enorme, que ainda em 1791 não era mais que uma simples colonia a respeito da qual Chateaubriand exprimia-se d'este modo:--_L'aspect de Philadelphie est froid et monotone_...
Não foi preciso mais de um seculo para que os americanos fizessem d'ella uma das principaes cidades industriaes do mundo.
Em Philadelphia tive occasião de ver, pela primeira vez, bondes electricos funccionando com a maxima regularidade.
O que será a grande cidade americana d'aqui a cem annos?
XIV
Abramos capitulo especial para Annapolis, não que esta cidade, a mais antiga dos Estados-Unidos, mereça-nos mais que qualquer das outras, absolutamente não, mas por uma deferencia bem entendida, por um recolhido sentimento de gratidão para com a joven officialidade da marinha norte-americana, que ali recebeu as primeiras lições de disciplina militar e dever civico, e que soube nos acolher em seu seio como verdadeiros irmãos de armas que eramos.
A nossa visita coincidía com a festa de formatura dos guardas-marinha, uma das bellas solemnidades annuaes dos Estados-Unidos á qual concorrem centenas de pessoas da mais elevada sociedade--a fina flor da aristocracia d'aquelle paiz--movidas pelo nobre enthusiasmo de apertar a mão á mocidade que se despede da escola para entregar-se ás duras lidas do mar.
Antes, porem, de dizer o que foi essa festa descrevamos, rapidamente, a cidade.
Annapolis é como uma nota dissonante na civilisação americana. Imagine-se um quilombo africano, uma grande aldeia cortada de ruas desiguaes, estreitas e desalinhadas, com um aspecto sombrio e detestavel de velho burgo colonial, onde se move uma população na maior parte negra e atrazadissima--e ter-se-ha essa antithese da cidade moderna. Bridgetown, a capital de Barbados, avantaja-se-lhe mil vezes com toda sua poeira, com toda a imprudencia e mizeria de sua baixa população.
Vê-se que os americanos têm-lhe certo respeito e conservam-na esquecida e retrograda por uma especie de devoção archeologica, sacrificando por esse modo o seu bom gosto caracteristico e o seu tradicional amor ao progresso.
Insipida, monotona e triste como um cemiterio de pagãos--Annapolis é um protesto, um anathema contra a evolução natural das cousas, uma nodoa antipathica em pleno mappa da Confederação americana. Nada ha ali que interesse e desperte a curiosidade senão a Escola Naval (_Naval Academy_) situada n'uma das extremidades da cidade, á beira-mar.
De anno em anno enche-se de povo; seu unico hotel, um pardieiro, extravasa, e então sente-se um fremito de vida nova percorrer aquellas ruas habitualmente socegadas e tristes. Passeiam bandas de musica, fluctuam bandeiras na frontaria das casas, por toda a parte ouve-se uma vozeria estranha de gente que bebe e canta nos cafés (arremedo de cafés) e todas as janellas abrem-se como para receber o desinfectante da alegria, importado das grandes cidades circumvisinhas.
Annapolis accorda, então, de seu pesado somno tumbal para saudar os estudantes que saem da academia para a vida publica.
O grande acto, a que assistimos, da distribuição de titulos, realisou-se n'um dos vastos salões da Escola, presente numerosissimo auditorio: familias em grandes trajos de luxo, altos funccionarios, estudantes...
Ao receberem seus diplomas os noveis officiaes de marinha foram vivamente applaudidos pelos seus companheiros, cahindo sobre elles uma chuva imprevista de flores, no meio de palmas e gritos de enthusiasmo. E, começaram os abraços, as felicitações, os conselhos e as lagrimas de commoção...
Abrem-se de par em par as portas do estabelecimento e a multidão de espectadores precipita-se por todos os lados, feliz, alegre, desafogada como si acabasse de assistir a uma festa de amor e justiça.
Ainda não estava concluido o programma.
Em seguida á solemnidade official,--a festa intima, a festa de despedida que os _naval cadets_ (aspirantes) offereciam aos seus companheiros.
Noite clara e constellada. O largo edificio da Escola de Marinha regorgita de convidados que se cruzam em todos os sentidos no salão do baile, nos corredores, nos _bouffets_, nas ante-salas...
Nota-se em todas as caras certo ar de intimidade, certo bem estar flagrante, um quer que é communicativo e bom.
Uma ou outra casaca solitaria, destoando da linha geral das _toilettes_ largas e frescas. Observo curiosamente o apuro de um official japonez que franze as sobrancelhas n'um gesto de enfado.--Por que será?... Julgo de mim para mim que o pobre camarada não se sente á vontade dentro de suas calças de panno com largos galões dourados. A casaca o incommóda visivelmente. O chapéo armado, elle já não sabe como o tenha--si na mão, si debaixo do braço ou mesmo si na cabeça...
Desabotoam-se risos gentis em boccas purpurinas. Derramam-se essencias preciosas no ambiente luminoso. Conversa-se alto. Bellas _miss_ de face escarlate abanam-se com os leques de ricas plumas de edredon. Os leques e as joias são as unicas riquezas que conduzem n'um contraste frizante com os vestidos leves e claros.
Em um dos lados do enorme quadrilatero, onde reluziam panoplias arranjadas á capricho, estava levantado um pavilhão de aspecto risonho, em cujo frontespicio destacavam em letras de luz
1887 TO 1886
FARWELL
Era o logar do director da escola.
Começou a dança...
...E á meia noite a musica fazia signal para a ultima valsa.
Ficamos sabendo que todas as festas nocturnas terminam invariavelmente á meia noite, nos Estados-Unidos. É uma velha praxe que os americanos poucas vezes transgridem.
Annapolis, _blak city_--como te chamam teus proprios patricios, tu não poderás saber nunca a saudade que levámos de tí n'essa esplendida noite clara e constellada!...
XV
O _Barroso_ continuava no dique, em Brooklin.
Logo ao regressarmos de nossa viagem á Annapolis tivemos aviso para uma outra excursão não menos interessante e agradavel.
West Point era agora o principal objecto de nossa curiosidade,--West Point, a bella povoação á margem do Hudson, onde funcciona a Escola Militar. Estavamos convidados para assistir a outra festividade academica--um combate simulado entre os alumnos do estabelecimento,--manejos d'armas, exercicios de esgrima, assaltos.
Comprehende-se a grande utilidade que necessariamente nos adveria d'essas visitas aos estabelecimentos militares no extrangeiro. Sem nos aperceber, iamos conhecendo, _de visu_, os diversos processos de ensino pratico, os methodos mais modernos de educação physica, e, quando mais não fosse, lucravamos com a vista de objectos novos e de novas paisagens.
O viajar é uma necessidade quasi imprescindivel para o espirito e para o organismo. A alma como que se dilata em presença de estranhas combinações de côr e de luz. A monotonia da vida urbana cansa o espirito, fatiga-o, consome-o lentamente: é preciso o grande ar, o ar livre e temperado dos campos, a natureza em toda sua belleza original, para que não se morra de tédio e desanimo. O tempo é limitadissimo e inapreciavel para quem viaja com desejo de ver e saber.
Muitos ha que preferem morar eternamente em Paris ou em Londres, no centro da cidade, asphyxíado pela poeira dos _boulevards_, a gastar economicamente o seu rico dinheirinho vendo a natureza de perto, gosando as inaffaveis delicias do campo e das praias, saboreando o clima das montanhas, deliciando a vista com o espectaculo das fontes mumurejantes, dos frescos arvoredos trespassados de luz...
Eu preferirei sempre a paz absoluta e invejavel dos suburbios.
E é por isso que, a cada nova excursão fóra da cidade, eu sentia-me bem commigo e bem com o resto da humanidade. Voltava sempre mais consolado e mais leve, como si sahisse de um quarto muito escuro e abafado para a claridade larga e bella do dia...
Foi assim que recebi a noticia do passeio a West-Point.
Como devia ser magnifico o Hudson lá para as bandas de sua nascente, a qualquer hora do dia, iluminado pelo sol, calmo e radiante, ou coberto de nevoa, pela manhãsinha, ou no silencio da noite, vago e sombrio como um pantano dormente!...
Era o que iamos vêr.
Seis horas da manhã...
Cahia uma neve friissima, transparente, e aggressiva como alfinetadas.
O _Express_, pequeno e elegante cruzador americano, especie de transporte de guerra, esperava-nos de «fogos accezas», deitando fumo pela chaminé.
Remos n'agua e toca p'r'adiante! Pontualidade no caso.
Estamos á bordo.
O _Express_ offerece o bello aspecto de uma galeota imperial que vai suspender ferro...
Fazia gosto ver a ordem e o asseio que apresentavam o convéz e a camara.
Tinha-se acabado de fazer a baldeação matinal. Marinheiros, perfeitamente uniformisados, occupavam-se em limpar as chapas de metal; outros colhiam cabos á prôa; outros lá cima, nas vergas, atavam ou desatavam andarivelos, muíto rubros, com os seus bonnés de panno azul marinho onde se lia o nome do navio, em letras cor de ouro:--_Express_.
A camara--uma sala espaçosa e clara, elegantemente adornada--occupava um terço do pontal, a ré, na primeira coberta. Em baixo, na segunda coberta, ficavam os camarotes e a praça de armas.
Servido o _fine cognac_, que os americanos de bom tratamento não dispensam nos dias invernosos, o _captain_ subio ao passadiço e deu a voz de suspender. A machina tocou adiante e o _Express_ começou a singrar o Hudson.
Variadissimo o aspecto da paisagem. Ora o rio se estreita em curvas caprichosas, ora vai-se alargando, sempre manso, banhando cidades e aldeias, limpido ás vezes, outras vezes toldado e sombrio.
West Point fica á duzentas milhas de Brooklin.
Passámos o dia inteiro e a noite em viagem para amanhecermos em nosso destino.
Novas manifestações de sympathia. Officiaes e alumnos da Escola Militar esperavam-nos com aquelle sorriso affavel de gente hospitaleira, que logo se traduz em franca e sincera camaradagem.
A Escola estava acampada perto do estabelecimento, em exercicios praticos.
Innumeras barraquinhas de lona, alinhadas em symetria, alvejavam, como um acampamento de beduinos, guardadas por sentinellas que rondavam de arma ao hombro, perfilando-se de vez em quando em continencia a um official que passava.
Cada barraca abrigava cinco a seis alumnos que se rendiam pontualmente na sentinella.
Emquanto um rondava, grave e silencioso, de mochila ás costas e espingarda ao hombro, os outros divertiam-se a trocar sôcos, a jogar o dominó, a apostar corridas, até que o tambor ou a corneta os chamasse á fórma. Então, com uma rapidez extraordinaria, lestos, vivos e fortes, corriam todos a seus postos, e, em menos de um minuto, estava formada a companhia.
Cada alumno era um verdadeiro soldado.
Alegres, o sangue a pular-lhes no rosto, cheios de saúde, tesos, empinados, quadris largos, espaduas amplas, todos se pareciam em robustez physica.
Uns rapagões sadios!
Notei mesmo certa propensão dos americanos para o militarismo. Parece que a educação militar, a adapção de principios rigorosos na disciplina do corpo, é o unico meio de obterem-se homens robustos e cumpridores do dever. A Escola de West Point é, sem exagero, um exemplo raro de estabelecimentos d'esse genero. E não era sem uma ponta de tristeza que nós, brazileiros,--raça degenerada e lymphatica--viamos crear-se assim uma raça forte e alegre com todos os caracteres de virilidade e independencia.
Tive occasião de assistir a uma lucta corporal entre dois alumnos, competentemente armados de luvas de camurça, rosto a descoberto. Pegaram-se a sôcos, um defronte do outro, calmos e convictos, como si estivessem commettendo uma nobre acção.
No fim de alguns minutos, o aggressor estava com o rosto inchado, escorrendo sangue, os olhos vermelhos, injectados, e a lucta acabava com um abraço entre os dois contendores. O mais forte foi acclamado pelos companheiros, teve o prémio de sua robustez.
É talvez um duro systhema de educação esse, mas incontestavelmente o mais acertado e efficaz.
Simples questão de raça...
XVI
Estava terminada a nossa estação de quasi dois mezes em Nova-York.
No dia 30 de Julho o _Barroso_ deixou aquelle porto em direcção a New-Port, outra cidade dos Estados-Unidos, refugio da população aristocratica nos quentes días de verão. Uma perfeita cidade balnearia, muito fresca e saudavel, á beira-mar, olhando para o largo oceano e recebendo-lhe as emanações salinas, com um Cassino e um Passeio Publico.
Os banqueiros e a gente rica de Nova-York costumam fazer ahi o seu ninho de verão, e, de vez em vez, para amenisar a vida monotona que se leva n'esse pequeno mundo de simplicidade e conforto, promovem regatas na esplendida enseada que orla a cidade e que n'esses dias de festa maritima toma uma feição ridente e caracteristica de aguarella ingleza, com os seus _cutters_ á vela, com os seus hiates de recreio bordejando ao largo como um bando de gaivotas pousadas n'agua...
Apostam-se milhões de libras. De França e de Inglaterra principes e lords vêm assistir e tomar parte no jogo.
A regata é um dos divertimentos predilectos dos americanos. Todas as cidades maritimas e fluviaes dos Estados-Unidos têm pelo menos um club de regatas.
Nota curiosa: em New-Port não se bebe alcool. É prohibida a importação de bebidas que contenham espirito, ou qualquer outra substancia nociva. Não se encontra um só botequim na cidade. Para tomarmos um refrigerante, uma simples limonada, fomos bater a uma pharmacia! Garantiram-nos que esse preceito contra o alcool é escrupulosamente observado n'aquella cidade. Custavamos a acreditar, mas, emfim, não havia geito senão ser delicados...
De resto, uma cidadesinha elegante e socegada, New-Port. O commercio ahi é quasi nullo.
No fim de oito dias o _Barroso_ deixava de uma vez o paiz dos _yankees_, fazendo-se de vela para os Açores.
Já agora não nos doía muito a saudade desse bello e prodigioso paiz. O regresso á patria, depois de uma ausencia de quasi um anno, enchia-nos o coração de alegria.
Não fôra a perda de um companheiro em Nova-Orleans e voltariamos todos, sem faltar ninguem, sadios e fortes, cheios de impressões novas e cheios de esperança.
Voltavamos, sim, mas tinhamos deixado atraz, em terra extrangeira, n'um cemiterio de Nova-Orleans, um dos nossos camaradas.
Traziamos uma convicção, e é que nenhum povo sabe comprehender tão bem o problema da vida humana como os americanos dos Estados-Unidos. A idéa da morte não os preoccupa: um _yankee_ triste é cousa rara e toma proporções de phenomeno.
Elles, os americanos, são geralmente alegres, bem dispostos, amigos do trabalho, compenetrados de seus deveres, e, acima de tudo, amam a sua patria mais do que qualquer outro povo.
A patria e a familia são os seus principaes objectivos. Menos egoistas que os inglezes, energicos e resolutos, sobra-lhes tempo e dinheiro para se divertirem.
Esse povo verdadeiramente democratico não pede licções a paiz nenhum: engrandeceu a custa de seus proprios esforços e dia a dia prospéra, assombrando o mundo com as suas emprezas colossaes.
Si a Allemanha representa no seculo XIX a patria das sciencias moraes, aos Estados-Unidos compete o primeiro logar na ordem dos paizes que tem concorrido grandemente para o aperfeiçoamento e bem estar humanos.