Chapter 5
Mas, para que não fosse de todo ociosa e inutil a nossa visita á Cuba, aproveitámos o ensejo de ver uma de suas mais pittorescas e curiosas cidades--Matanzas, onde chegámos depois de algumas horas de viagem costeira. Ahi nos esperava o vice-consul do Brazil, excellente cavalheiro, cujo primeiro cuidado foi pôr á nossa disposição vinte e tantos carros de praça a fim de que não perdessemos opportunidade de contemplar o magestoso panorama do valle de Yumiri, um dos mais bellos do mundo, cerca de uma legua distante da cidade.
--Os senhores vão vêr um bellissimo trecho da natureza americana, como talvez não haja igual no Brazil, preveniu-nos o consul. É uma maravilha!
E lá fomos, subindo e descendo morros, completamente alheios á topographia do paiz, cheia d'altibaixos, lá fomos caminho de Monserrate, n'uma disparada unica por montes e valles, aos solavancos.
Era quasi noite quando parou o ultimo carro, e corremos logo á tal «maravilha» que o diplomata recommendara.
Aqui têm os aguarellistas _motivo sensacional_ para uma téla rembrannesca:
Crepusculo... Céo pardo com uns tons de azinhavre muito vagos, aqui, ali, bordando nuvens... Embaixo a longa extensão concava do valle afundando-se como o leito de um grande mar, que tivesse desapparecido, verde escuro, indistincto quasi a essa hora do dia.
Defronte, no segundo plano, a sombra opaca de uma cordilheira,--larga faixa de velludo cinzento--limita o scenario, confundindo-se com as tintas indecisas da planura sideral. E, sobre tudo isso, uma tristeza religiosa, um vago silencio de abysmo...
Vê-se muito ao longe, de um lado da paísagem, rasgando o fundo nebuloso do quadro, uma nodoa escarlate, ao comprido, muito desenhada, muito escandalosa mesmo em meio de toda essa harmonia de côres esmaecidas...
Ha muito que o sol tombou na sua eterna circumvolução diurna. A sombra que se alastra, a pleiada phosphorecente dos pyrilampos, o silencio absoluto que nos cerca--tudo inspira respeito: e a gente esquece preconceitos e doutrinas para, instinctamente, levantar uma prece á mysteriosa Força que rege o Universo...
Existe no alto da montanha a modesta capella de N. S. de Monserrate, sempre aberta aos crentes, muito branca na sua despretenção de nicho d'aldeia, com a sua torresinha triangular onde vão fazer ninho, no inverno, as andorinhas do valle.
Cahio de todo a noite, e, no silencio da estrada que descia em broncas sinuosidades, regressámos para o hotel, cujo salão príncipal tinha agora o aspecto sumptuoso (dados os devidos descontos...) d'um refeitorio de convento em dia de festa paschoal: meza lauta, vinte variedades de vinho excellentes e tudo mais que se faz mister n'um banquete finamente organisado á moderna.
O resto é facil de imaginar: brindes, hurrahs, charutos finissimos... e um somno reparador obrigado a pezadelos...
Na manhã seguinte acordámos para outro passeio não menos agradavel. Era preciso aproveitar o tempo do melhor modo possivel. Cometteriamos indisculpavel falta si não fossemos ver as _Cuevas de Bella-mar_, essas caprichosas grutas subterraneas, verdadeiros palacios de crystal puríssimo, que se abrem terra dentro em toda a opulencia de suas maravilhosas stalagmites e stalactites. Era mais uma deliciosa surpreza que nos estava reservada. Ir á Matanzas e não ver as _Cuevas_ equivale a ir a Roma e não ver o Papa. Cumprimos o nosso dever de viajantes, que não se contentam com a vaidade infantil de pisar solo extrangeiro.
_Cuevas de Bella-mar_... Entre os numerosos phenomenos que a geologia registra muitos ha que ainda estão por ser lucidamente explicados, por sua propria natureza complexa e profundamente scientifica.
No terreno da geologia subterranea, com especialidade, innumeros são os problemas a destrinçar, e um dos mais curiosos e interessantes é, sem duvida, a formação das cavernas, as excavações produzidas por agentes externos, pela infiltração natural da agua no solo calcareo, formando essas caprichosas pyramides de crystal, que a sciencia denomina _stalagmites_ e _statactites_.
As _Cuevas de Bella-mar_ formam um dos mais bellos panoramas que se podem imaginar.
Figure-se um grande tunel aberto no subsolo e de cuja abobada pendem crystaes multiformes, cada qual o mais surprehendente, alguns de tamanho admiravel, emquanto do chão constantemente humido sobem outros de egual estructura, ponteagudos quasi sempre, formando, ás vezes, columnatas brilhantes, esplendidos capiteis, tão caprichosamente dispostos que dir-se-iam architectados por mãos humanas. A caverna prolonga-se a perder de vista, deslumbrante como um palacio encantado, á luz dos archotes, porque é impossivel percorrel-a sem luz, e a cada passo uma nova exclamação de surpreza irrompe da bocca do observador, espontanea e enthusiastica.
É, com effeito, encantador o aspecto das _Cuevas_.
A athmosphera é quasi insupportavel, apezar da humidade que se reflecte das paredes da gruta: um calor medonho de fornalha acceza!
É expressamente prohibido tocar nos crystaes. Um guarda, empunhando um archote, acompanha o visitante, recommendando-lhe de espaço a espaço, todo cuidado, toda cautela para que não dê alguma cabeçada...
Desta vez tinhamos sabido preencher o tempo utilmente, compensando as horas perdidas em Havana.
N'esse mesmo dia o _Barroso_ fez-se de marcha para o _paiz dos yankees_, para Nova-York, a bella e maravilhosa cidade que o consenso universal alcunhou de Londres americana.
E... foi um dia a ilha de Cuba...
XII
...Manhã de inverno, fria e nebulosa, sem uma restea de luz confortavel. Estava interdicta a nossa curiosidade, pois que amanhecemos defronte da bahia de Hampton Road, a essa hora coberta de cerração, cheia de nevoeiro, impenetravel. Não podiamos, que pena! ver Nova-York de fóra, do mar, abrangel-a toda com um golpe de vista, stereotypal-a na imaginação para todo o resto da nossa vida. A grande cidade cosmopolita dos trens elevados e das pontes colossaes dormia o somno beatifico da madrugada, envolvida n'um largo capuz de neve atravéz do qual apenas se podia ouvir a sineta de invisiveis embarcações que bordejavam demandando o porto. Adivinhavamos que muitos vapores transatlanticos aguardavam, como nós, o momento azado para fazerem sua entrada.
Felizmente não durou muito esse estado quasi afflictivo. Por traz do nevoeiro compacto e lugubre os primeiros clarões da manhã surgiram como uma apparição bemdita, rompendo a monotonia branca da atmosphera, e pouco a pouco, á proporção que a neve ia se rarefazendo, o _Barroso_ tomava chegada muito lento, e Nova-York destoucava-se n'um fundo luminoso, batida pelas primeiras irradiações do sol, ruidosa e alviçareira, toda cheia de brilhos, como um quadro de malacacheta.
Onze horas. Céo limpo e mar chão--como se diz nos diarios nauticos. Nem mais um floco de neve, tudo luz agora, e já podemos ver cheios da mais intima satisfação, com uma surpreza ingenua no olhar, o aspecto risonho da bahia cortada de embarcações á vela e á vapor, com os seus longes de verdura matizando perfis de montanhas indistinctas, muito descoberta, sem o sombrio magestoso das paisagens americanas do sul, bella na sua simplicidade natural, e, sobretudo, muito clara áquella hora.
Á direita destacava, á bocca do Hudson, a grande, a enorme, a colossal ponte que liga Brooklin á Nova-York lembrando-nos que realmente tinhamos chegado outra vez á terra feliz dos _yankees_, e d'outro lado erguia-se, _illuminando o mundo_, a estatua da liberdade, bello symbolo de bronze, cujo pedestal occupa toda a ilha de Bedloe.
Era um dia de domingo, um desses dias de expansão popular, em que, no mar como em terra, ha quasi sempre uma alegria nova entre os que passaram a semana a trabalhar, a lutar pela vida incansavelmente com a consciencia tranquilla de quem vive honestamente á custa do proprio esforço. A bahia de Nova-York tinha o festivo aspecto de um dia de regatas. Esquadrilhas de hiates, com suas velas quadrangulares, muito elegantes e asseiados, cruzavam na barra, aproveitando a fresca do mar. Passavam barcas de recreio, embandeiradas, conduzindo bandas de musica, que tocavam alegremente o _Yankee doodle_. Á cerração matinal succedera um sol frio d'inverno, que dava vontade a gente improvisar pic-nics á beira-mar, fóra da cidade, longe dos botequins e das _brasseries_, nalgum verde recanto onde houvesse bastante quietação e muita agua, n'um logarejo calmo de suburbio d'onde se podesse ver ao longe, mas muito ao longe, a miniatura da cidade soturna e cansada...
O _Barroso_ tinha fundeado em frente á Battery Square e com pouco recebia a visita official do Consul brazileiro e d'outras autoridades do paiz, sendo para notar que uma das primeiras pessoas que pizaram a bordo foi o reporter do _New-York Herald_, a importante folha americana tradicionalmente conhecida no mundo jornalistico. Um cavalheiro _irreprochable_, de cartola e sobrecasaca de panno, bem apessoado, bigode louro e olhos azues, verdadeiro typo de _yankee_, amavel e expansivo. É escusado dizer, n'um parenthesis, que no dia seguinte a kilometrica folha descrevia, com uma precisão photographica, o cruzador brazileiro, sem esquecer mesmo um carneiro de estima que traziamos e que o espirituoso noticiarista incluia na lotação do navio, emprestando-lhe qualidades invejaveis. Creio até que o pobre lanigero figurou na folha _yankee_ entre os heróes de Humaytá!
Satisfeitas as formalidades officiaes da chegada, trocadas as salvas do estylo, nada mais nos restava senão ver de perto a bella cidade.
Nova-York estava quieta, muitissimo quieta, com as suas praças dezertas, com os seus parques silenciosos, fechado o commercio a ponto de não se encontrar aberta uma só tabacaria, siquer um botequim. Isso, porém, não nos causou estranheza. Sabiamos que o domingo nos Estados-Unidos é um dia completamente inutil, um dia triste para os centros populosos. Toda a gente dezerta para os arrabaldes em seus trajes domingueiros. As ruas, muito largas e compridas, permanecem ermas e cheias de silencio, entregues á vigilancia dos _policimen_. Todas as casas commerciaes, todos os armazens, todas as fabricas, todos os estabelecimentos publicos conservam-se fechados e taciturnos, como n'uma cidade abandonada.
Nova-York, a opulenta e alegre cidade cosmopolíta, tinha esguichado para New-Jersey, para Brooklin e para Conney-Island. Toda aquella multidão laboriosa e ourisedenta, que nos dias de trabalho se atropella na Broadway, bebia e cantava nos arrabaldes, expandia-se largamente nos hoteis ambulantes e nas cervejarias suburbanas, folgava e ria com desespero, sem pensar na segunda-feira, sem se inquietar com o futuro.
Por isso é que não se deparava ninguem nas ruas, por isso não se ouvia o barulho infernal das carroças e das carruagens.
O domingo no paiz dos _yankees_ é para se divertir, para se descansar, para se jogar o _criket_, para se passeiar a cavallo, para se apostar regatas, de modo que o protestantismo americano nada tem de commum com o protestantismo britannico.
Emquanto nos domingos (a dar credito na chronica) o inglez reza a Biblia no interior de seu _home_, em companhia de sua mulher e de seus filhos, o americano, ou melhor o _yankee_ exercita os musculos e bebe cerveja fóra da cidade.
Não admira semelhante discordancia, quando é sabido que a religião protestante subdivide-se em milhares de seitas. A este respeito leiam-se os bellos capitulos em que Mr. Laboulaye (Ed. Lefèvre), estuda, com uma graça especial e encantadora, cheia de humorismo e de senso critico, as instituições religiosas na America do Norte. _Paris en Amérique_ é um dos livros mais curiosos e originaes que eu tenho lido sobre os Estados-Unidos.
Em taes condições, extrangeiros no meio de uma cidade dezerta, imagine-se o nosso embaraço, a triste situação em que nos collocava a curiosidade.
Os rarissimos transeuntes que porventura encontravamos, marinheiros ou vagabundos que desciam para o caes da Battery, olhavam-nos com um ar de surpreza, embasbacados, medindo-nos d'alto a baixo, com si fossemos uns verdadeiros botocudos de tanga e cocar.
Entretanto, não perdemos a precisa calma, e, sem mais tirte nem guarte, saltámos dentro do primeiro vehiculo que passava, uma velha carruagem de aluguel, cujo boleeiro custou devéras a comprehender que desejavamos fazer um passeio ao redor da cidade.
--Oh! yess! Yess!...
E disparou a trote largo por aquellas ruas fóra.
De modo que n'esse dia vimos Nova-York _à vol d'oiseau_ e por um prisma de tristeza e monotonia.
Em compensação a nossa demora n'aquella cidade ia ser mais longa que em qualquer dos outros portos do intinerario.
No dia immediato, uma segunda-feira, recomeçámos, sem perda de tempo, a nossa tarefa de extrangeiros em paiz desconhecido.
Eu, por mim, confesso que Nova-York produzia-me vertigens. O desejo immoderado de tudo vêr, de tudo observar, de tudo saber, trazia-me n'uma inquietação continua, tirava-me o somno, arrebatava-me á todas as commodidades, torturava-me o espirito de analyse. Uma cousa, porem, devo dizer: raro é o official de marinha, mormente da marinha brazileira, que sabe aproveitar o tempo n'essas viagens ao extrangeiro. Aproveitar o tempo, entendamo-nos, as horas de folga. Preferiamos a convivencia dos cafés-cantantes aos passeios uteis e ao mesmo tempo agradaveis. Um extrangeiro já teve a coragem de dizer que os officiaes de marinha brazíleiros levavam o tempo, na Europa, a frequentar os _conventilhos_ e os cafés-cantantes. Até certo ponto isso é verdade.
Em geral elles pouco conhecem dos paizes que têm visitado, a não ser em assumptos de sua profissão, e as suas narrativas entre amigos limitam-se quasi sempre a recordações de aventuras amorosas.
Tambem são tão curtas e tão raras essas viagens...
Quando se tem a felicidade relativa de viajar sob o commando de um official illustrado e curioso como o Sr. Saldanha da Gama, cujos conhecimentos não se restringem á navegação e á artilharia, o aproveitamento é certo. Elle não é sómente um superior hierarchico--faz-se mestre e sabe proporcionar aos seus subalternos a maior somma possivel de excursões uteis e proveitosas.
Uma das nossas primeiras visitas foi á estatua da Liberdade, na ilha de Bedloe.
O importante monumento ainda não estava completamente prompto, mas já se podia fazer uma idéa do que seria elle depois de concluido. O pedestal, de granito, occupa quasi toda a ilhota e mede, approximadamente, 15 a 20 metros de altura, 154 pés, desde o nivel do mar, formando uma especie de casamata cuja utilidade não souberam nos dizer. Sobre o pedestal ergue-se a estatua, em bronze, armada por meio de vigamentos de ferro, pois que não é inteiriça.
Conta-se que dentro d'ella realisara-se, em Pariz, um magnifico banquete de 12 talheres, presidido por V. Hugo.
Como se sabe, a estatua foi offerecida aos Estados-Unidos pela França em agradecimento dos serviços prestados por esta nação á sua amiga na guerra franco-prussiana.
O pedestal foi mandado construir á custa de subscripções populares, que em pouco tempo attingiram a uma somma elevadissima.
Não ha por ahi quem não tenha ouvido falar na famosa ponte de Brooklin (_Brooklin Bridge_), uma das maravilhas da engenharia moderna, que liga a ilha de Brooklin á Nova York.
Esta cidade, incontestavelmente o primeiro emporio commercial da America e uma das mais populosas do mundo, fica situada n'uma grande ilha formada por dois braços do rio Hudson. De um lado, á direita de quem olha para o mar, um dos deltas, o North River, separa-a de New-Jersey, e á esquerda o East River separa-a de Brooklin. A travessia para qualquer desses pontos faz-se rapidamente, em barcas que a todo instante largam de Nova-York, e por preço assaz diminuto.
A principio, quando se projectou levantar a grande ponte, surgiram mil difficuldades.
Parecia impossivel que se podesse levar a effeito obra tão arriscada e dispendiosa. Como assentar as bases do colosso n'uma profundidade de mil e seiscentos pés, que é esta a altura do rio na sua parte mais estreita?
Demais era preciso não prejudicar a navegação, construindo a ponte muito acima do nivel do mar de modo a dar passagem livre ás embarcações de commercio.
Com tudo isso os americanos metteram mãos á obra e dentro de alguns annos de trabalho assiduo os Estados-Unidos contavam mais uma gloria.
O comprimento total d'essa magnifica ponte é de uma milha pouco mais ou menos. As torres onde ella está suspensa erguem-se a 268 pés acima da prêa-mar, de forma que as maiores embarcações de commercio têm passagem facil por baixo.
O _Barroso_, cuja guinda era uma das mais altas que se tem visto em navio de guerra, apenas foi obrigado a «acachapar» os mastaréos de joanetes.
Atravessa-se a ponte em vagons movidos á electricidade, em carros de praça ou mesmo a pé. Paga-se um centimo para atravessal-a a pé!
O movimento é espantoso. Cruzam-se diariamente as duas populações de Nova-York e de Brooklin, em carros em wagons e a pé, sem risco de se atropellar, por que a cada especie de vehiculos corresponde uma passagem independente e adequada. Os que transitam á pé têm tambem o seu caminho livre e, por consequencia, não correm o perigo de ser pisados pelos carros.
Á noite o aspecto da ponte é feerico. Logo ás seis horas da tarde começa a illuminação em toda ella, de um lado e d'outro, destacando-se em alguns pontos fócos de luz electrica, enormes botões de brilhante que encandeiam a vista.
Vista do mar, então, o effeito é deslumbrante! Lembra as lendarias pontes de Veneza cortando canaes, projectando n'agua seus reflexos luminosos.
Um dos meus divertimentos predilectos era contemplar Nova-York do alto. Muitas vezes punha-me lá de cima da ponte de Brooklin, braços cruzados, n'um extase de fetiche, a olhar para um e outro lado, acompanhado com a vista a vela das embarcações que singravam no rio, pequeninos, microscopicas.
E punha-me, nessa embriaguez do grandioso a pensar no progresso dos Estados-Unidos, d'esse paiz modelo, onde tudo move-se por meio de electricidade e vapor, onde tudo é feito ás carreiras, n'um abrir e fechar d'olhos, sem a menor perda de tempo; vinham-me a imaginação escandecida as descobertas de Franklin, de Fulton e de Edison, as maravilhosas experiencias sobre o telegrapho, sobre o telephone e sobre o phonographo, e eu repetia com os meus botões, mergulhando o olhar na distancia, abarcando a cidade inteira:--Grande paiz! Grande povo, gente feliz, que sabe comprehender a vida e amar a patria!
Como era pequeno o meu paiz, com toda a grandeza de suas montanhas e de seus rios, diante do colosso americano do norte!
Cahia-me n'alma uma tristeza de desterrado, uma profunda e incomprehensivel melancolia, feita ao mesmo tempo de saudade e descrença...
Incansaveis os americanos! Nenhum povo os excede em temeridade e perseverança. Sequiosos de glorias para o seu paiz, ávidos de emprehendimentos que causem assombro ao mundo, elles tem uma grande qualidade--o amor á sua terra, o nativismo instinctivo, o _chauvinismo_ (deixem passar o termo) incondicional, absoluto, e é força confessar que, sem essa qualidade, sem esse egoismo patriotico, as nações vivem, mas não progridem.
Ainda ultimamente a camara do Estado de Nova-York approvou, por unanimidade, o _bill_ que propoz a construcção de uma nova ponte de ferro sobre o East River, passando sobre a ilha de Blackorel, que ligue Nova-York á Long-Island, e que terá seis mil metros de comprimento e 46 de altura, com uma resistencia de 65 kilometros de velocidade para os trens que a devem atravessar.
É o caso de dizer, parodiando o outro: si eu não fosse brazileiro, desejaria ser americano do norte...
XIII
Nunca fui a Londres, apezar do grande e impaciente desejo que tenho de visitar a sombria capital britannica, mas estou bem certo de que Nova-York em muitos respeitos pode ser denominada a Londres americana.
Toda nova, toda alegre e pittoresca, sem os bairros immundos que o Tamisa lambe com as suas aguas putridas, onde boiam cadaveres em decomposição, illuminada por um sol que dá vida e confórta, a nova Londres tem um cunho especial de cidade latina. Como em Londres, tudo n'ella é grandioso e opulento, desde a edificação igual, solida e elegante, até ás festividades publicas e ás instituições nacionaes.
As ruas, longas e direitas, cruzam-se geometricamente e distinguem-se pela numeração (_Fourteen street_, _Fifteen street_ etc).
A Broadway é o centro commercial, a rua de maior movimento quotidiano,--equivale á City de Londres.
Ahi é que os carros se atropellam, que os transeuntes se abalroam n'uma confusão burlesca e indescriptivel de que a nossa rua do Ouvidor não dá siquer a menor idéa. Negociantes, capitalistas, banqueiros, correctores, operarios e vagabundos, acotovelam-se, empurram-se, pisam-se os callos e vão seguindo adiante, sem olhar p'ra traz, carregados de embrulhos, suando no verão, que costuma ser muito forte em Nova-York. A gente vê-se abarbada para romper aquella multidão cerrada, compacta e egoista.
Um cosmopolitismo sem igual em parte alguma.
Americanos, inglezes, hespanhoes, francezes, italianos, allemães, gente de todas as nacionalidades, até turcos com os seus costumes exquisitos, confundem-se nas ruas de Nova York, enchendo-as em ondas successivas e tumultuosas, como em dias de carnaval no Rio. Parece mesmo, á primeira vista, que o elemento extrangeiro absorve o nacional, tão numeroso é aquelle. Custa, porém, a encontrar-se um portuguez ou um brazileiro. Em compensação a raça latina é abundantemente representada por hespanhoes da Europa e da America. Os mexicanos, apezar da natural e occulta ogerisa que têm aos americanos dos Estados-Unidos, encontram-se a cada passo e distinguem-se logo pelo seu typo original: estatura média, rosto anguloso e abolachado, moreno, cabello duro, olhos pequenos; amaveis. Não perdem occasião de dizer mal dos americanos, que, entretanto, dedicam-lhes uma affeição especial.
Uma das cousas mais curiosas de Nova-York são os trens elevados (_elevated rail road_), a complicada rêde de linhas ferreas que rodeia a cidade passando em muitos pontos por cima da casaria, atravessando ruas inteiras sobre grandes columnas resistentes de ferro. Partem todas da Battrey Square, ponto mais meridional da ilha de Manhattan (onde fica a cidade) e vão terminar na sua extremidade septentrional, em Barlem River. Segundo o relatorio apresentado pela _New-York Elevated_, o numero de viajantes transportados em 1878 por essa linha foi de 107.079.625. (Sempre a estatistica como base fundamental do progresso entre os americanos!). A linha inteira, que tem seguramente trinta milhas, estava concluida até Harlem. Os moradores das margens d'essas estradas de ferro aereas queixavam-se continuamente da visinhança.
Podéra! Ruido, fumo e fagulhas a toda hora sobre a cabeça, não são cousas que agradem a ninguem. A pobre gente fica em risco de perder o juizo, pois não!
Felizmente, o que aliás é muito admiravel, os desastres reproduzem-se rarissimas vezes. É que o serviço faz-se com inexcedivel perfeição e as posturas municipaes verificam-se enexoravelmente.
As estações são numeradas, como as ruas: _Primeira Estação_, _Segunda Estação_, etc.
Os passageiros desembarcam em plataformas de ferro gradeadas, que communicam com as estações.
O espirito inventivo dos americanos revela-se a cada passo nas grandes cidades dos Estados-Unidos. Em todos os estabelecimentos, em todos os ramos da actividade publica se encontra uma applicação nova de mecanica industrial, um artificio de utilidade pratica, economico e curioso, uma invenção engenhosa...
Aproveitar o tempo e economisar os _dollars_--tal é o principio fundamental da sabedoria _yankee_.
Um domingo em Coney-Island: nada mais pittoresco e hilariante, nada mais suggestivo...