Chapter 4
Ás onze horas da noite a barca de passeio _Keokuk_ largou de Nova Orleans, rio abaixo, conduzindo a turma de guardas-marinha, alguns officiaes e o commandante, com destino ás _Jetties_.
Uma excellente embarcação a _Keokuk_, especie de pequena cidade fluctuante, muito larga e espaçosa, avantajando-se em dimensões aos vapores da Companhia Brazileira. Tres pavimentos: o superior, coberto por um grande toldo, onde os passageiros podiam fumar á vontade; o do meio formando um salão-refeitorio, ao lado do qual ficavam os camarotes e o porão, para mercadorias; rodas á pôpa, systema de locomoção que não conheciamos; duas chaminés, e machina possante. Em semelhantes condições eramos capazes de fazer a _volta do mundo em oitenta dias_...
Passámos a noite sobre o rio, navegando á meia força, ao sabor da correnteza.
Lá iamos outra vez para a região dos mosquitos! Preparámo-nos para dar quixotesca batalha, apezar da falta impreenchivel do nosso querido companheiro, o barbeiro de Sevilha, quero dizer o barbeiro de bordo, o impagavel hespanhol que tanto nos divertira na caça aos mosquitos.
Pela manhã, cedinho, estavamos em Port-Eads, defronte do escriptorio central do respeitavel engenheiro.
Café, biscoitos..., e desembarcámos.
O bom velho já nos esperava com o seu bello ar de urso domestico, barba muito branca, de barrete e oculos, entre os seus mappas coloridos e os seus prospectos representando _steamers_ e as _jetties_.
--Folgo bastante em lhes poder mostrar o plano da empreza ha tantos annos iniciada sob minha direcção, disse elle com um amavel sorriso de bonhomia patriarchal.
E começou a desenrolar diante de nossos olhos uma serie infindavel de cartas hydrographicas, mappas, desenhos...
Vale a pena se admirar essa obra monumental.
Tratava-se de cavar o leito do rio, n'um dos braços de sua foz, por modo a effectuar-se a navegação livremente, na linha da correnteza, e terem entrada embarcações de grande calado, desenvolvendo-se assim o já notavel commercio de Nova-Orleans. Com esses trabalhos o porto irá melhorando consideravelmente, sendo para notar o grande movimento de navios que entram e sahem durante o dia.
O rio tem pelo menos 16.000 milhas navegaveis que os americanos dia a dia tratam de aproveitar dando sahida a innumeros productos do fertilissimo valle do Mississipe, o qual abrange cerca de 768.000.000 geiras _das mais ricas terras do mundo_, como elles lá dizem. Sua emboccadura é, portanto, a passagem natural de todos aquelles productos.
Desde 1726 têm sido empregados esforços inauditos a fim de se aprofundar essa parte do famoso rio; mas, foi em 1875 que o governo dos Estados Unidos contratou definitivamente esse serviço com Mr. Eads, e é bem provavel que em futuro não muito remoto esteja o porto franqueado a todos os navios do mundo, graças á perseverança e aos esforços de habeis engenheiros.
A visita foi curta, mas proveitosa.
Tomámos novamente a barca, e ás cinco horas da tarde atracavamos no forte Jackson, velha fortaleza abandonada, á margem direita do rio. Lá estava ainda, immovel e muda, a descommunal artilharia que Farragut, o velho almirante, commandara na guerra sanguinolenta dos separatistas, que terminou com a tomada de Nova-Orleans.
Os velhos canhões dormiam seu somno de bronze, lá dentro, nos corredores escuros como os de uma Bastilha, e a nós, estudantes de historia naval, inspiravam não sei que respeito sagrado. Perante elles falavamos baixo, como para não os acordar...
A fortaleza é grande, mas só tem a importancia archeologica que a historia lhe empresta; não resistiria, talvez, ás modernas baterias. Opulenta vegetação rasteira cresce-lhe em derredor. O seu aspecto é sombrio como o de um cemiterio: as grossas paredes denegridas e o silencio que a cerca dão-lhe um cunho mysterioso de crypta subterranea e produzem no visitante uma incommoda sensação de abandono e tristeza. Em cada canto parece surgir a sombra de um confederado clamando vingança.
Retirámo-nos em marcha funebre, calados e supersticiosos...
Dormimos ainda essa noite sobre o rio para amanhecermos em Nova-Orleans. Já estavamos com saudade do _Barroso_.
Continuaram as manifestações de amisade ao Brazil.
O neto do imperador, jovem e irrequieto, embalde procurava fugir ás insistencias da aristocracia local e por diversas vezes desejou ter nascido simples burguezinho, como qualquer de seus collegas.
E digamos aqui, muito a discreção, Sua Alteza podia ser um bello moço, um digno cavalheiro, um excellente amigo e camarada, mas... Sua Alteza era um pessimo principe. A sua grande aspiração era a vida livre, sem peias, essa vida alegre e bohemia que se exgota depressa nos _cafés-concertos_ e nos _restaurants_.
Não gostava de continencias e despresava o juizo imbecil dos que lhe apodavam de estroina. O certo é que esse juizo em nada o compromettia perante o _high-life_ americano que o estimava sufficientemente. Elle era o representante immediato da familia imperial, era o alvo predilecto de todas as manifestações ao Brazil na grande festa internacional.
Seria ocioso, senão monotono e fatigante, descrever, uma por uma, em todos os seus detalhes, com todas as suas côres mirabolantes, essas manifestações, profundamente fraternaes e democraticas, com que nos recebeu a distincta sociedade de Nova-Orleans. Bailes, regatas, passeios improvisados, concertos, brindes,--e não raro a tolda do nosso bello cruzador converteu-se em esplendido salão de baile, acordando a sons de orchestra e gritos de alegria o silencio agreste das margens do Mississipe.
É este o unico consolo d'aquelles que andam no mar em serviço da patria--o repousar em terra amiga. Vão-se as saudades para dar logar á franca expansão dos corações: a alma do marinheiro transforma-se, como por encanto, n'um hostiario de alegrias de uma ingenuidade incomparavel, e elle ri com os outros, canta e sente-se tão bem como si estivesse em seu proprio paiz, no meio de seus amigos e de seus parentes. Encantadora illusão, que só dura emquanto elle não abre as velas mar em fóra nessa interminavel derrota de argonautas que vão atraz do bezerro de ouro da felicidade...
Não direi, não, o que nos divertimos, as multiplas sensações por que passou o nosso espirito n'essa Luiziania que o Mississipe embala com o rithmo nostalgico de suas aguas côr de barro. Seria desdobrar a natureza humana tão complexa e mysteriosa.
Vamos adiante, consultemos o caderno de notas.
_25 de Abril_...--Estavamos na Paschoa, a festa risonha e popular da ressurreição do Christo. Até então nenhum desgosto, nenhuma tristeza, nenhuma magoa toldara o céo purissimo de nossas alegrias. Vagavamos em mar de rosa, egoistas de felicidade, sereno o espirito, aberto o coração a todos os influxos bons. Boa vida, por um lado, essa de quem viaja sem grandes preoccupações, no bojo de um navio patricio.
Eis que, de repente, uma nota dissonante e sombria chamou-nos á realidade pungente da vida humana: morrera um nosso companheiro de bordo, o Leocadio..., que digo eu? um d'esses heróes anonymos que usam gola ao pescoço, um pobre marinheiro que a fatalidade arrebatou de sua terra natal para morrer tysico em paiz estranho.
Ninguem imagina a dolorosa impressão que produz a morte de um companheiro de viagem longe da patria, n'um hospital desconhecido.
Fez-se o enterro com todas as honras devidas ao obscuro soldado e velho marinheiro, nascido, por assim dizer, sobre o mar e educado na escola das tempestades. Tinha sessenta annos. Era o «cosinheiro da prôa». Sobre o seu corpo foi estendido a bandeira nacional brazileira como symbolo da patria reconhecida.
N'esse dia, conforme já estava assentado, toda a guarnição do _Barroso_ desembarcou a fim de assistir á missa solemne da Paschoa na cathedral de S. Luiz, o mais importante dos templos catholicos da cidade, situado na rua Chartres.
Bem que antiga, essa egreja parece resistir ainda por muito tempo. Foi o primeiro edificio catholico erigido em Nova-Orleans pelos capuchinhos, em 1718, ao tempo da fundação da cidade. Tomou o nome de S. Luiz em homenagem ao rei da França.
Mais tarde, em Setembro de 1723, desabou sobre a nascente cidade, cuja população elevava-se a 200 almas, formidavel cyclone, que arrasou todos os edificios, causando uma mortandade incalculavel. Narram os chronistas que foram arrojados á costa trez navios que se achavam fundeados no porto. Em breve, porem, a cidade foi reedificada, sendo em 1724 reconstruida a egreja, essa mesma que ainda hoje ergue seus torreões vetustos na rua Chartres.
Naquelle anno o territorio de Nova-Orleans foi dividido em tres grandes districtos sob a administração dos capuchinhos, dos carmelítas e dos jesuitas. De então em diante multiplicaram-se os edificios religiosos, egrejas palacios episcopaes, conventos, etc.
O convento das Ursulinas data egualmente da fundação da cidade e é um estabelecimento catholico á maneira do de Ruão conhecido por esse mesmo nome.
É um dos ultimos conventos que ainda existem nos Estados-Unidos. Consta de trez andares e ergue-se á margem do rio, para onde abre suas janellinhas atravéz das quaes se vê passar a sombra phantastica das religiosas.
X
Um bello povo, o de Nova-Orleans--jovial, communicativo, hospitaleiro e sincero. A elle devemos os melhores dias dessa longa viagem ao paiz suggestivo e excepcional dos _yankees_, universalmente querido e respeitado por sua grandeza industrial e por suas bellas tradições de energia e patriotismo.
E emtanto approximava-se o dia da partida: iamos embora rumo de norte, levando comnosco a immorredoura lembrança do Meschasebé, «le roi des fleuves», e das legendarias terras que Chateaubriand poetisara nas suas inimitaveis _viagens_. Restava-nos, porem, o consolo de que ainda iriamos á sonhada Nova-York dos trens aereos e das emprezas colossaes.
Corações á larga, rapazes! Um homem é um homem!...
A saudade, porem, não é uma simples figura de rethorica, pelo amor de Deus! É um estado d'alma como a nostalgia, como o amor, como a tristeza, como a dôr...
A saudade existe, é um phenomeno perfeitamente real e determinado na ordem dos factos psychologicos. Não nos venham dizer outra cousa os senhores neologistas _fin de siècle_. Por ter sido cantada em prosa e verso, nem por isso a saudade deixa de ser o que é na verdade--uma commoção nervosa interessando o mais delicado e sensivel do coração humano, uma dolencia vaga, fluctuante n'alma, intraduzivel como um sonho nebuloso, tocada de doçura e ungida de tristeza...
Por que uma pessoa tem barba no rosto e já passou dos vinte annos, segue-se que não deve ter mais saudade, que deve ser um insensivel, uma massa inabalavel?
Absolutamente não. A lagrima, expliquem-na como quizerem os doutores da sciencia, hade existir emquanto palpitar em nós esse musculo que se chama coração, emquanto a humanidade soffrer e houver um motivo sentimental para commover os seres dotados de intelligencia. É talvez uma questão de mais ou menos intensidade nervosa. Por que tudo é egoismo neste seculo essencialmente palavroso e mercantil, deve-se concluir que, em futuro não muito longe, a raça humana se transforme n'uma como esphynge, sem affectividade possivel, ou que o systema nervoso passe a exercer funcções negativas na physiologia do porvir? Não o acreditamos...
A lagrima hade existir _per omnia secula_, e a saudade terá sempre a sua lagrima, como sentimento superior ás nossas forças.
Chorar sobre o tumulo de um amigo é tão natural, tão humano como chorar porque nos separamos de um ente querido. Não desejo agora, por um velleidade de rabiscador sentimentalista, fazer a psychologia da lagrima. O que eu quero é confessar, embora d'isso me advenha o qualificativo de _piégas_, que não podiamos--eu e a maior parte dos meus collegas--pensar em deixar Nova-Orleans sem um demorado fremito de palpebras e uma nevoa humida no olhar triste...
E, dizendo isto, está dito o que nos merecia a hospitaleira população d'aquella cidade.
Entretanto, ainda não estavam satisfeitos os luizianenses. Como ultima prova de verdadeira estima o _Luiziania Jockey-Club_ deu-nos um magnifico baile na vespera da partida.
Tenho ainda na memoria essa derradeira impressão que me ficou de Nova-Orleans. Fazia um luar soberbo, um luar tropical, um luar de legenda, tão limpido e tão claro que se não viam as estrellas... O _Jockey-Club_, em baixo, fazia um effeito surprehendente com a sua illuminação de mil côres rodeando a grande raia das corridas, com o seu aspecto phantastico de kermesse nocturna, salpicado de pontos luminosos e galhardetes em miniatura, immoveis na calmaria da noite.
Em derredor a mudez solemne da floresta acordada de instante a instante pelo echo da musica cortando o ar calmo.
Perto do _Club_ tinha-se armado um grande estrado para a dansa ao ar livre, sem tecto, sem toldo, sob o luar.
Cruzavam-se os pares, n'um turbilhão impetuoso, ao som das walsas americanas e dos galopes á brazileira.
N'essa noite, e pela primeira vez, conversei longamente com uma _créole_, Mlle... já me não lembra o nome, um typo ideal de Walkyria de olhos negros com um extraordinario brilho nas pupillas,--microscopica, delgada, flexivel, cintura extremamente fina, certo geito adoravel de pender a cabeça para os lados, n'um abandono irresistivel... Toda de preto.
Dansámos uma quadrilha e ella convidou-me a passeiar no Prado.
Lá fomos, braço dado, eu muito circumspecto, teso dentro da minha farda de guarda-marinha, levado quasi que machinalmente por essa formosa dama d'olhos negos e seductores, arranjando a custo umas phrases de effeito, que eu não teria coragem de reproduzir; ella, desenvolta e pequenina, muito leve na sua _toilette_ escura, conduzindo-me n'aquella esplendida _promenade au clair de la lune_, para onde... não sei eu...
Perguntou-me si as brazileiras eram bonitas e ricas, si no Brazil dansava-se muito, e que tal nós tinhamos achado as americanas. Explicou-me então a differença entre _créoles_ e americanas propriamente ditas.
Respondi-lhe como pude, exaltando as nossas patricias, «bellas e ricas, como não ha eguaes no mundo...»
Parámos. Tinhamos andado seguramente dois kilometros e não viamos agora senão a parte superior do _Club_, por traz do arvoredo, toda illuminada ao longe, como uma cousa phantastica.
Á proporção que nos afastavamos dos nossos companheiros a conversa tornava-se menos animada, e, por fim, já seguiamos calados, como dois somnanbulos, no silencio da noite enluarada...
Depois é que vimos a distancia que nos separava do centro da festa.
Na volta encontrámos outros pares em doce confabulação, como nós, longe do ruido.
Despedi-me para tomar o trem, e ella, a dama dos olhos negros, disse-me um _Good bye_ tão sentido e tão suggestivo que eu não tive geito senão perder o trem.
_Good bye!_ Nada mais doce e expressivo que estas simples palavras em bocca de americana. Uma ingleza talvez que as não pronuncie com tanta suavidade, com tão sonora flexão, com tanto sentimento. _Good bye_... Ha qualquer cousa de avelludado no timbre cantante com que ellas, as _miss_ da Nova-Inglaterra dizem a sua phrase sacramental de despedida. O nosso _adeus_, aliás tão laconico e singelo não exprime tanto, não caracterisa tão bem esse estado d'alma que se denomina--saudade.
E, a proposito de--_Good bye_, vem-me a memoria um episodio de uma simplicidade primitiva e commovente que a minha indiscrição de observador tagarella não deixa calar.
Esqueçamos a rapariga d'olhos negros e narremol-o em toda a sua verdade.
Entre os nossos companheiros de viagem havia um, cuja vida estava cheia das mais interessantes aventuras amorosas. Chamava-se Manoel..., o apellido de familia não nos interessa. O joven official de marinha, moço de bella apparencia e excellente coração, apaixonara-se por uma Eva Smith muito conhecida nos cafés-concertos de Nova-Orleans. Até aqui nada mais natural. Ella vira-o uma vez diante de um _bock_, seus olhos se encontraram, e, desde logo, Manoel ficou sendo a menina dos olhos de Eva. Amaram-se por muitos dias, gosaram todas as delicias imaginaveis, elle prohibiu-a de andar nos cafés, ella prohibiu-o de olhar para outras raparigas, e assim corresponderam-se de commum accordo, sem que nunca houvesse entre elles a menor desavença.
--Leva-me para o Brazil, Manoel... (ella só o tratava por Manoel).
--Sim, filha, depois havemos de ver isso...
--I love you very much...
--Oh! yess... I think so...
Viviam felizes como um casal de noivos, longe da cidade, n'um quarto d'hotel, onde havia do melhor vinho e da melhor sôpa.
Um bello dia:
_Elle_--Olha, sabes? O _Barroso_ suspende ferro amanhã.?.
_Ella_ (surprehendida)--What do you say?!
_Elle_ (trincando um rabanete)--É o que estou lhe dizendo. Amanhã, por estas horas, o Manoel vai sulcando o golfo do Mexico.
_Ella_ (cruzando o talher)--Impossivel! Por que já não me disseste?
--Para te poupar o desgosto...
--Oh! não, meu querido Manoel, é historia, tu não vás amanhã...
--Assim é preciso. São cousas da vida...
--Não, não, meu amor (_my love_) tu não vás, porque eu não quero, do contrario faço escandalo, estás ouvindo?
E, ao dizer estas palavras, a pobre Eva deixou cahir uma lagrima...
Silencio. Manoel continuou a jantar sem interrupção, muito calmo, com uma fleugma verdadeiramente britannica. Eva, coitada, abriu a soluçar baixinho, fungando a mais não poder, sem se aperceber de que estava fazendo de um guardanapo um lenço.
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Ultimo acto, e aqui é que está o aproposito.
Scenario: O Mississipe pardo e murmurejante sob a luz moribunda do crepusculo.
O _Almirante Barroso_, immovel sobre o rio, com a sua mastreação muito alta, fuméga. Ouve-se barulho de cabrestante e de amarras cahindo no convéz. Tremúla a bandeira brazileira na carangueija da mezena... Ultimos preparos.
No cáes agita-se uma multidão compacta.
De repente surge á tona d'agua o cepo da ancora enlameada, pingando um lodo cinzento, e o navio começa a andar vagarosamente.
A guarnição sóbe ás vergas, alastrando-se de um bordo e d'outro, e acena para terra ao som de--vivas!
Agitam-se lenços na praia, correspondendo ás saudações de bordo. Um fremito percorre os que estão no cruzador...
É o momento decisivo.
Um grande rebocador, _Theo Warriar_, vistoso e arquejante, acompanha as manobras do _Barroso_, á distancia de uma amarra, solitario e sombrio, envolto n'uma nuvem de fumaça, e em cuja tolda assoma a figura desgrenhada de uma mulher.
O cruzador segue á vante, magestoso e lento, descrevendo uma bella curva no espelho da agua, e torna a passar defronte da cidade, apressando a marcha.
As religiosas das Ursulinas lá cima, nas janellinhas do convento, acenam tambem com os seus lenços brancos.
E, no silencio da tarde que a nevoa melancolisa, repercutem estas palavras tocadas de saudade:
--_Good bye!_
--_Good bye!_ repete a mesma voz avelludada como um carinho...
Olhámos uns para os outros commovidos.
Quem seria que se lembrara de levar tão perto sua despedida aos brazileiros?
A voz era de mulher, não restava duvida...
Com effeito, reconhecemos na figura desgrenhada que viamos a bordo do rebocador Eva Smith, a amante de Manoel..., a apaixonada rapariga muito conhecida nos cafés cantantes de Nova-Orleans, cujo enthusiasmo pelo nosso companheiro tinha chegado a seu auge.
E quando o _Barroso_ desappareceu na primeira curva do rio, ainda ouviamos, tomados de uma tristeza infinita, a mesma voz cheia de desespero, agora abafada pela distancia, soluçada e plangente:
--_Good bye_, Manoel! _Good bye!_...
E dizer que a _Dama das Camelias_ é uma excepção na vida sentimental das filhas de Eva!...
O nosso Armando, que aliás nunca pretendeu regenerar ninguem, deixou se cahir n'uma saudade profunda, n'um longo adormecimento d'alma, de que só accordou no alto mar, quando já não se avistava um ponto siquer da costa americana.
XI
Abençoada ilha de Cuba, direi muito pouco de teus aspectos, de teus costumes, de tua gente, de tua civilisação, mesmo porque a nossa demora em tua bizarra capital, foi curta como um sonho bom. Um epicurista diria que apenas tivemos tempo de mastigar um _havana_, d'esses que fabrícas aos milheiros e que fazem a delicia dos consumidores do bom tabaco.
Bellas cubanas d'olhos rasgados e sensuaes, acreditamos piamente nas coloridas descripções em que viajantes de todas as nacionalidades gabam as vossas preciosas qualidades physicas, os vossos olhos ardentes, os vossos cabellos negros, a vossa graça incomparavel e seductora... Nos oito curtos dias que passámos em vossa patria não tivemos a felicidade, a gostosa satisfação de vos contemplar senão de relance, por um acaso verdadeiramente providencial.
Dizem outros que sois bellas e irresistiveis, que dansais divinamente o _salero_, que possuís todos os encantos possiveis, e isto é quanto basta para que dispenseis o desmaiado elogio dos que não tiveram a fortuna de confabular comvosco.
E o leitor, por sua vez, contente-se em saber que Havana, com suas _calles_ irregulares, estreitas e pacatas, é uma pequena capital sem _capitaes_, sobriissima de diversões populares, quasi monotona, mas relativamente adiantada.
Não se lhe póde negar certo progresso material e mesmo uma ponta de civilisação européa.
Encontram-se nella importantes estabelecimentos commerciaes, grandes tabacarias que fornecem fumo e seus preparados a quasi todos os mercados do globo; excellentes botequins, poucos hoteis.
O celebre professor Agassiz, no roteiro de uma de suas excursões á America, disse que toda a architectura brazileira é _pesada e sombria_; eu accrescentarei que no mesmo genero são as edificações de Havana, o que não é para surprehender n'uma cidade antiga, onde se observa ainda o cunho tradicional da velha metropole hespanhola.
Entre os monumentos archeologicos notámos a secular cathedral onde (refere a chronica) estão sepultados os ossos de Christovão Colombo.
Vimos uma estatua--a de Izabel a Catholica, n'um grande largo que tem o nome da santa rainha.
Particularidade interessante: a população dá a vida por gelados, em consequencia do calor excessivo e constante a que vive sujeita.
Visitámos tambem (ia-me esquecendo) os aqueductos que fornecem agua á população da cidade. Todos elles vão despejar n'um immenso reservatorio de pedra inteiriça (como os nossos diques da ilha das Cobras), cavado no sólo, formando uma especie de tanque de grande capacidade para comportar muitos e muitos metros cubicos d'agua crystalina. O sitio onde se acha essa importante obra de engenharia, lembra, de relance, a Tijuca com as suas cascatas despejadas do alto de rochedos inaccessiveis, com a extrema frescura de suas montanhas verde-escuras, debaixo de um céo límpido e azul. É um dos melhores passeios de Havana. A viagem até ahi se faz em diligencias puxadas á mulas, arriscando-se o _touriste_ a chegar sem bofes ao fim da jornada longa e sem o attractivo das bellas paisagens claras do Brazil.
O sol é ardentissimo em Cuba, e, entretanto, as diligencias partem da cidade pela manhã e chegam ás onze horas ao reservatorio, onde não se encontram hoteis nem botequins. Sua-se por todos os póros e, no fim de contas, volta-se fatigado, com a curiosidade satisfeita, mas o corpo moido.
O Passeio Publico... Oh! não falemos de cousas tristes. Quem já viu o Passeio Publico da Bahia pode imaginar o de Havana: o mesmissimo cemiterio dezerto e sombrio, o mesmissimo abandono criminoso; arvores colossaes, meia duzia de castanheiros decrepitos, e um silencio, um silencio absoluto de arripiar cabellos. Aos domingos costuma ir chorar p'r'ali uma banda militar. Só então é que a gente se lembra que existe um Passeio Publico em Havana.
_La Havana_, de resto, é o que se póde chamar uma cidade pacifica, socegada e sem attractivos. A impressão que ella deixa no espirito de quem a viu exteriormente é de uma velha capital decadente, muito cheia de sol e poeira.