No Paiz dos Yankees

Chapter 3

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--Continuam as estatuas! exclamei recordando as que vira em Barbados e Jamaica. Felizmente até agora não vira a de nenhum monarcha. Veio-me então á memoria aquella colossal massa de bronze que se ergue no largo do Rocio, no Rio de Janeiro, em fórma de um monarcha escanchado n'um bello cavallo.

Tive pena de não ser aquelle bronze aproveitado para outra cousa mais digna e util.

--Que diabo! Aquillo é uma pagina de historia patria, reflecti.--E continuei o meu _tour_.

A Canal Street é o centro commercial de Nova-Orleans, é a rua do Ouvidor d'aquella cidade, sem os grandes inconvenientes do nosso querido becco.

Larga, bastante espaçosa e comprida, offerece transitos especiaes para a população, para trens, bondes e carruagens.

As ruas, na maior parte são mal calçadas, principalmente para o interior da cidade.

É, sem duvida, admiravel semelhante incuria em se tratando de americanos do norte, entretanto, é uma verdade que não deve ser esquecida, para consolo de nossas municipalidades.

Na Canal se acham os melhores e mais solidos edificios, as mais fortes casas commerciaes, os mais importantes armazens da cidade, cafés, restaurantes, clubs, etc.

Convenci-me desde logo que os principaes productos industriaes de exportação eram--assucar e algodão, como bem presumira ao desembarcar, no caes, onde era enorme a accumulação de fardos desses dois generos.

De vitrine em vitrine, observando sempre, escrupulosamente, curiosamente, á cata de novidades extrangeiras, posso affirmar que nada vi, surprehendente... Ah! sim, vi umas graciosas caixeiras accudirem pressurosas e desenvoltas, com o desembaraço proprio de sua raça, aos compradores, cousa aliás muito simples, muitissimo natural, mas não no Brazil, onde as senhoras estão eternamente prohibidas de competir com o outro sexo na vida publica.

Parece-me que só n'este paiz ainda não se observa nem se permitte esse costume tão natural, tão proprio, tão efficaz mesmo, das senhoras pobres empregarem-se no commercio a retalho. Na Inglaterra, em Franca, na Allemanha, na Italia e nos Estados-Unidos é habito velho, ao que me consta, as senhoras servirem nos balcões, e é de notar que cumprem seus deveres com assombrosa pericia. Ás nove horas da manhã, que digo eu! ás seis horas, depois de ligeira refeição, encaminham-se para o trabalho quotidiano, felizes, satisfeitas, envolvidas em grossas capas de lã no inverno, a bolsa de um lado, sem siquer fazerem-se acompanhar. Vão direitinhas de casa para a loja ou escriptorio, sem que ninguem lhes dirija uma pilheria, sem que ninguem as desrespeite, e, á noite, recolhem-se da mesma fórma, sempre alegres, transpirando saúde, a face rubra.

Muitas vezes sahem das lojas, mudam a _toilette_, fazem seu penteado, perfeitamente dispostas, e d'ahi a pouco estão nos bailes, nos concertos, nos theatros.

Rara a casa de modas, o armarinho, a livraria onde se não encontra uma senhora exercendo as funcções de simples caxeira, ou como guarda-livros, silenciosa na sua carteira, escripturando cuidadosamente o Caixa.

Em alguns estabelecimentos publicos, no Correio, por exemplo, grande parte do serviço é feito por senhoras. Esse edificio, digamol-o de passagem, na rua Canal, é de apparencia extraordinariamente simples e desgraciosa. O serviço, porém, como em toda estação americana é correcto e sem demora.

Individuos de muitas nacionalidades acotovellam-se na grande rua.

Em Nova Orleans, como em quasi toda a a Luiziania, fala-se mais o francez que outro idioma qualquer, não sendo raro ouvirem-se negociantes, mesmo senhoras de elevada hierarchia falar, embora mediocremente, o hespanhol.

Havia chegado o momento fatal, inevitavel, de nos exhibirmos tambem em lingua alheia.

Pouco a pouco, nos iamos familiarisando com a população e com o ídioma d'esse adoravel canto da terra que o Mississipe banha.

O dia seguinte ao de nossa chegada á Nova Orleans (31 de Março) estava designado para o encerramento da Exposição das Trez Americas. Avisados d'esta solemnidade, deviamos comparecer a ella em grande uniforme, encorporados.

Foi um dia essencialmente brazileiro esse. Nos convites para a festividade lia-se esta impagavel gentilesa: _Brasilian day_.

Todas as attenções convergiam para o _Almirante Barroso (brazilian man of war)_.

O palacio da Exposição estava situado a alguns kilometros fóra da cidade, n'um de seus pontos mais pittorescos, o Upper City Park, á margem do Mississipe--largo edificio vistosamente adornado e do alto do qual se avistava toda a cidade e immediações.

Na manhã d'esse dia, por signal chuvoso e coberto de nevoeiro, embarcámos em trem especial, que nos fôra destinado pelo presidente da Exposição, Mr. Ed. Richardson, um _yankee_ muito amavel, todo cortesia, sempre com um bello e espontaneo sorriso a captivar a gente, correcto sempre, irreprehensivelmente correcto.

Embarcámos na Canal street, defronte do _Pickwick Club_, em companhia de muitos officiaes da Guarda Nacional, de Mr. Richardson e de officiaes da corveta franceza _l'Étoile_, que se achava no porto de Nova Orleans, dos consules e outras summidades do paiz.

O trem abalou como um raio, todo enfeitado de bandeirolas americanas, brazileiras e d'outras nações, ao som de musicas e acclamações delirantes, rasgando, na sua marcha vertiginosa, o nevoeiro que cahia sem cessar penetrando os wagons escancarados ao ar frio da manhã, soltando guinchos medonhos...

Durante o trajecto não me cansei de observar os sitios que o trem atravessava.

De um lado e d'outro da linha estendiam-se vastas plantações de algodoeiros desfolhados pelo rigor do inverno, amontoados de neve, immoveis phantasmas brancos no silencio infinito dos descampados; casas de campo deliciosas para se passar o verão, trancadas á neve, muito brancas e desoladas, riam, como saudando a nossa passagem, e desappareciam rapidamente no horisonte esfumado.

É de vêr a simplicidade reunida á graça que apresentam essas habitações: vêr uma é vêr cem, tal a uniformidade de sua architectura. Em geral são de madeira, pintadas de branco e cinzento, com seu terraço para as calidas noites de verão, jardim e horta arranjados com admiravel cuidado e bom gosto.

Absorvido completamente pelo aspecto variado da paisagem, sem prestar attenção ao circulo ruidoso dos collegas, eu (lembro-me bem) formava planos de vida socegada, n'algum eremiterio entre a eterna frescura das plantas e o amor eterno d'uma creatura querida.

Invejava os simples, os sertanejos, os homens dos campo--esses para quem a vida corre sempre calma, porque seu coração não conhece outro amor senão o da esposa e o dos filhos, esses de quem Boileau dizia

_Heureux est le mortel qui du mond ignoré Vit content de soi même en un coin retiré..._

E eu me transportava outra vez ao Brazil, outra vez eu tinha a nostalgia da patria, a saudade vaga e inexplicavel de minha terra natal.

Parecerá uma phantasia de poeta adolescente isto que acabo de dizer, mas é a verdade, a expressão sincera do que eu sentia ao atravessar a região que ia ter lá, ao palacio da Exposição.

A tristeza da neve communicava-se ao meu espirito imprimindo n'elle não sei que despretenciosas ambições de silencio e recolhimento. Alguem já procurou explicar a influencia que exerce o estado hygrometrico da atmosphera no estado psychologico do individuo.

Eu de mim só sei que o patriotismo, longe da patria, dupplica.

E fechemos esta especie de parenthesis.

Uma commissão de cavalheiros, competentemente encasacados, veio receber-nos ao desembarque.

Entrámos. Nossa entrada foi verdadeiramente triumphal.

Dentro e fóra do edificio era grande a agitação. Ondas de povo entravam e sahiam percorrendo o pittoresco _Upper City Park_.

Felizmente «levantou o tempo», como se costuma dizer.

Ao assomar á porta do grande salão de honra o primeiro official brazileiro, o commandante do _Barroso_, ao lado do consul e do presidente da Exposição, a orchestra de professores, brilhantemente organisada, rompeu lá dentro o hymno nacional americano (não conheciam o nosso hymno aliás tão vulgarisado), os espectadores que enchiam o vasto recinto ergueram-se, e uma salva estrepitosa de palmas acolheu o resto da officialidade.

Houve um momento de verdadeiro delirio, em que todos batiam palmas sem interrupção levantando vivas ao Brazil.

Serenado o enthusiasmo, um enthusiasmo indescriptivel, apopletico, tomou a palavra Mr. Richardson, que proferio o discurso de encerramento, saudando a armada brazileira.

Seguiu-se na tribuna o orador official, que, n'um improviso eloquentissimo, patenteou a necessidade de uma união entre todas as nações americanas, desenvolvendo largamente as vantagens que d'ahi proveriam a todas elas.

Falou tambem o governador da Luiziania, e, finalmente, os Srs. Salvador de Mendonça e Saldanha da Gama, cujas palavras foram cobertas dos mais significativos applausos.

Terminada a ceremonia oratoria, foi-nos franqueado o edificio da Exposição, que percorremos examinando com interesse os differentes pavilhões industriaes.

O Brazil--é triste dizel-o--fizera-se representar de modo bem insignificante.

Brilhariamos pela ausencia, si o Governo não tivesse a lembrança de mandar o _Almirante Barroso_.

Amostras de madeiras, café em grão, fumo, artigos de borracha, constituiam os principaes productos brazileiros expostos á curiosidade dos visitantes de quasi todas as partes do mundo civilisado. O pavilhão do Brazil deixava-se ficar em plano inferior aos das outras nações, como si fossemos um pobre paiz, cujos productos não valessem a pena de ser expostos n'um certamen internacional!

D'ahi, talvez, o assombro dos americanos ao verem o _Almirante Barroso_, esse esplendido vaso de guerra de envergadura possante, capaz de resistir aos mais fortes temporaes e que elles, os extrangeiros, duvidavam fosse obra nossa.

--Como? Pois no Brazil tambem se fabricam navios de guerra? Está muito adiantado o Brazil!

E repetiam com um ar de duvida e de ironia medindo d'alto a baixo e de pôpa á prôa o magestoso cruzador, que balouçava de leve sobre o Mississipe:

--Está muito adiantado o Brazil!

Entretanto o Mexico, a America Central e as republicas sul-americanas, sem os recursos invejaveis da grande nação, sobresahiam admiravelmente. O pavilhão do Mexico, sobretudo, desafiava a maior parte dos outros não só em abundancia de artigos, mas, principalmente, em belleza e bom gosto, em elegancia e riqueza.

Escusado, parece, falar do importante logar que coube aos Estados-Unidos. Que profusão de machinas e instrumentos industriaes de invenção puramente americana! Ali mesmo, á vista do observador, fabricavam-se os mais curiosos objectos de fantasia e de uso domestico; o linho, o algodão, a sêda--eram tecidos rapidamente aos olhos de todos.

Imagine-se agora o ruido, a algazarra, a movimentação que devia reinar ali dentro d'aquelle immenso edificio, certamente muito longe de ser comparado aos palacios de exposições universaes, mas ainda assim um dos maiores que se tem levantado n'esse genero.

Para dar uma idéa de suas dimensões--não o chamaremos vaticano da industria para não exagerar--basta dizer que o salão de musica--_music hall_--accommodava 11.000 pessoas, inclusive uma vasta área para 600 figuras.

Impossivel descrever as amabilidades, as gentilezas que nos foram prodigalisadas largamente pelas adoraveis americanas de Nova Orleans nessa festa democratica de confraternisação internacional; recordar as phrases deliciosas, os galanteios irresistiveis...

O que posso affirmar é que o _brazilian day_ ha de perdurar por muito tempo no coração d'aquelles que tiveram a felicidade de assistir essa bellissima festa.

Dias depois voltei ao palacio da Exposição, sosinho, como simples curioso que não tivera tempo bastante para examinar tudo no pequeno espaço de doze horas.

Nada mais restava senão o esqueleto nú do edificio em via de demolição. Todos os objectos tinham sido retirados com assombrosa rapidez. Operarios em mangas de camisa martellavam grandes caixões, assobiando monotonamente, emquanto outros carregavam pesados volumes contendo os ultimos especimens da industria americana.

Voltei immediatamente com um ar compungido de quem acaba de acompanhar um enterro, lamentando o tempo perdido e exclamando de mim para mim:

--Ah! americanos d'uma figa, sois um povo excepcional!

Agora uma pergunta ingenua: Porque é que o Brazil, com os numerosos recursos que tem á mão, timbra em occupar logar segundario em quasi todas as Exposições a que concorre?

Indifferença, talvez, simples indifferença de nossos governos.

Na celebre Exposição de Philadelphia não sabiamos á ultima hora como e onde accomodar os productos deste paiz, em consequencia de não ter o governo mandado construir um pavilhão especial.

Contentamo-nos em enviar objectos bastante conhecidos, não fazemos selecção na escolha d'elles, não nos importa o modo como devam ser acondicionados.

Na Exposição de Vienna ainda o Brazil teve de occupar logar pouco lisongeiro, e si alguns de seus productos principaes tiveram a felicidade de ser premiados foi isso devido, não ao governo, mas tão somente a esforços de muitos negociantes do Rio de Janeiro e do Pará.

Annuncia-se para o anno vindouro uma _Universal Great Exhibition_, nos Estados-Unidos, cujo successo irá rivalisar, talvez, com o da Exposição Universal realisada ha mezes em Pariz e notavel pela colossal e tão celebre torre Eiffel. Nenhuma razão assiste para que a grande nação da America do Sul, o Brazil, não se faça representar com todo o brilho de sua incontestavel riqueza.

Agora que somos republica, torna-se dupplamente preciso que patenteemos ao mundo inteiro a infinita variedade de nossas produções agricolas, a opulencia invejavel da flora brazileira e da industria já bastante adiantada d'este bellissimo paiz, cuja natureza extasiou Humboldt, Agassiz e tantos outros sabios da Europa.

Si cada Estado souber cumprir seu dever não poupando esforços para esse nobilissimo fim, certo d'esta vez não teremos que corar perante as outras nações como nos tempos do anachronico imperio do Sr. D. Pedro II.

VIII

A grande Exposição Industrial de Nova Orleans prolongou-se até ao _Almirante Barroso_. O bello cruzador brazileiro começou desde logo a ser o alvo dos curiosos de todas as nações ali representadas.

Comprehende-se o vivo interesse do povo em assumptos d'esta ordem.

Não havia na cidade quem não soubesse que estava no porto um navio de guerra do Brazil, e este facto por si só era bastante para que toda a gente ardesse em desejo de vel-o de perto, de o percorrer d'um extremo a outro.

--Quantos canhões traz? perguntava-se. A machina quantas milhas vence por hora? Quantas rotações por minuto?

E quando affirmavamos que a machina do _Barroso_ era de ferro Ipanema e d'outros metaes brazileiros, que todo o navio, da pôpa á prôa, era construcção inteiramente nacional, subia de ponto a surpreza dos nossos visinhos.

O quê! No Brazil já se constroem navios de guerra?--_It is impossible!..._ E toda a população, tomada de um quasi espanto, duvidando, talvez, da nossa habilidade, affluía ao caes.

Todo o cruzador, desde a camara do commandante até ao alojamento dos marinheiros, desde o tombadilho até ao porão, foi exposto á curiosidade publica.

O sexo gentil, com especialidade, repetia suas visitas.

Desde ás oito horas da manhã, ao içar-se a bandeira, começavam a atracar lanchas a vapor e escaleres cheios de visitantes de ambos os sexos.

Grandes lanchas iam e vinham do caes para o cruzador e do cruzador para o caes, continuamente, incessantemente, apinhadas de passageiros, que pagavam 5 centimos de ida e volta. Cada uma trazia á prôa, em letras esparramadas e vivas, a senha:--_Brazilian man of war_.

Á tarde, depois d'uma faina acabrunhadora de receber familias e percorrer duas, tres e mais vezes o navio, dando explicações, descrevendo apparelhos e machinismos com uma paciencia de pedagogos, iamos á terra, distrahir nos cafés, nos theatros, nos bailes, tanto mais quanto multiplicavam-se os convites para todas as diversões publicas e familiares.

As familias com que iamos entretendo relações de amizade exigiam que fossemos quotidianamente a suas casas, como si nos sobrasse tempo para isso; e, força é confessar, dispensavam-nos um tratamento quasi paternal.

A melhor de todas as recepções que tivemos, não obstante o caracter official que a revestia, foi a do Governador da Luiziania, esplendido baile no _Royal Hotel_, no dia 8 de Abril, ao qual compareceram todas as autoridades civis e militares da cidade em uniforme de gala.

A casaca, o clak, a gravata de sêda branca, o vestido decotado até aonde permitte a decencia, confundiam-se nos salões do hotel ricamente adornados, cheios de luz, escancarados de par em par como um palacio em festa.

A joven officialidade brazileira, eximia em _cotillons_, expandiu-se a valer n'essa magnifica _soirée_ de inverno, fria e clara, constellada de botões d'ouro e brilhante, longe da patria, longe de suas familias, mas no seio d'um povo que nos amava devéras.

Saráo principesco esse de que ainda sinto o saibo exquisito ao traçar as reminiscencias da minha primeira ausencia do Brazil.

Mesa abundantissima e franca, desde a deliciosa sôpa d'ostras com molho inglez á mais fina champagne Clicot, com escala pela _mayonnaise_ de lagosta, fresca e picante, pelo succulento _poisson à l'itallienne_, rubro e apettitoso... e tantos, meu Deus, e tantissimos outros pratos maravilhosos inventados pela gula epicurista de todas as gerações desde Luculo até á nossa.

Volvemos para bordo seria madrugadinha, tropegos, cansados e somnolentos, palpebras cahidas, supplicando a frescura d'um travesseiro, dentro de nossas inviolaveis capas da Bretanha.

Uma noite brazileira com todos os excessos da nossa educação e do nosso caracter; saudosa noite, a primeira de minha vida em que me enfronhei n'uma casaca irreprehensivelmente bem feita...

O _Barroso_, diluído na escuridão da noite, aproado á correnteza que descia rio abaixo cantando uma melopéa de lenda, o _Barroso_--pedaço da patria longinqua--acenava-nos com a sua luzinha amarella palpitando ás rajadas do vento frio.

... E os bailes repetiam-se e nós viviamos cercados da alegria communicativa d'esse povo americano eternamente jovial!

Falemos ainda das mulheres de Nova Orleans.

Bellas quasi todas, amaveis e insinuantes, cheias d'uma inexcedivel graça que arrebata e seduz voluptuosamente.

As _créoles_, ah! as _créoles_... ninguem as vê que não as fique desejando.

Caracteres principaes: tez morena, com uns tons de rosa na face, olhos muito negros, criminosos até ao homicidio flagrante, pequenas, delicadas, flexiveis, aereas quasi, conjuncto meigo e melancolico, muito sensiveis... A vaga expressão de seu olhar avelludado derrama não sei que mysterioso fluido, cujos effeitos traduzem-se em voluptuosas sensações, secretos desejos de posse absoluta...

Como differem as chamadas _créoles_ das verdadeiras americanas!

Estas--muito rubras, cabello côr de ouro, olhos azues--são frias, quasi indifferentes ao amor, egoistas de sua belleza de estatua, vivendo para o trabalho e para a familia; aquellas--adoraveis com as suas linhas ideaes, com a vaga e communicativa melancolia de seu olhar voluptuoso--fazem lembrar um povo mystico e cheio de bondade d'algum paiz nebuloso e desconhecido...

É curiosa a origem da população _créole_ de Nova Orleans. Ella descende na maior parte de aventureiros canadaenses e _courreurs des bois_--gente ousada e valente, que emigrou do norte para o sul da America septentrional, por terra, atravéz de inhospitos desertos povoados de selvagens perigosissimos. Esses aventureiros chegaram a Luiziania sem familias, depois de uma viagem cheia de trabalhos e fadigas, descansando, por fim, ás margens do Mississipe. A Luiziania era então colonia franceza, e o rei, apiedando-se da sorte dos infelizes immigrantes, que viviam solteiros, longe de sua patria natal, sujeitos a uma castidade quasi absoluta, quiz aproveital-os para a colonisação. N'esse intuito mandou vir de Paris um _carregamento_ de mulheres, prisioneiras da Salpetrière, que chegaram a Nova-Orleans em ferros, e onde foram postas em liberdade e entregues á concupiscencia da população masculina.

Isso, porem, não trazia vantagens á colonia, que precisava de gente. Os canadaenses satisfaziam seus apetites carnaes sem que augmentasse o numero de habitantes--facto este que não passou despercebido ao directorio da Companhia da Luiziania, cujo principal interesse era a multiplicação das almas.

N'estas condições foram dadas outras providencias, e, em 1728, chegou a Nova-Orleans um grupo de raparigas, conhecidas na Luiziania historica pelas _filles de la cassette_ ou _casket girls_, mandadas pelo rei para o convento das Ursulinas afim de se casarem licitamente. A experiencia foi coroada de successos. Em breve tempo começou a crescer a colonia e os descendentes da _cassette_ tinham orgulho em o serem.

Tal foi a origem humilde dos primeiros filhos nativos da Luiziania.

Seu sangue é uma mixtura de sangue canadaense e sangue francez.

A mulher americana do norte é geralmente bem educada. Muitas vimos em Nova-Orleans, que conheciam e falavam dois, tres idiomas, alem do vernaculo.

Preoccupam-se pouco com bailes e modas, trajam com simplicidade e elegancia, sem affectação, sem a natural _coquetterie_ da mulher parisiense. Seu divertimento predilecto é a musica.

O proverbial desembaraço das americanas manifesta-se a todo instante. Promptas sempre a repellir com dignidade um ataque á sua honestidade, ellas se dirigem aos homens em qualquer parte, na rua ou nos salões, com a mesma simplicidade com que o fazem ás amigas. O respeito entre os dois sexos, nas classes superiores, é um dos principaes caracteres do povo americano. Habituados, homens e mulheres, a uma educação livre, vivendo uns e outros em commun desde creança, as americanas não se confundem nunca diante dos homens.

Nos Estados-Unidos o bello sexo é respeitado como em parte alguma.

Os paes depositam confiança illimitada nas filhas. Deixam, sem escrupulo, que ellas saiam a passeio, de carro ou a pé, só ou em companhia de um amigo da casa, na certeza de que ellas saberão zelar a sua castidade.

Os raptos e os defloramentos são raros, não sei si devido ao temperamento da raça ou si á inflexibilidade da Lei. O que sei é que, si um rapaz gosta de uma rapariga de familia reconhecidamente honesta, não tem mais do que namoral-a escandalosamente ás barbas de quem quer que seja, á vista do mundo inteiro, beijal-a sem ceremonia, como si fossem irmãos, e, d'ahi a pouco, eil-os casadinhos de fresco, _bras dessus, bras dessous_.

E ai! d'aquelle que violar os preceitos decretados pelo governo! Immediatamente vê-se dentro d'este triangulo medonho: o casamento, o dote, ou a cadeia. A Lei é inexoravel e a policia exerce uma vigilancia sem igual.

Informados de taes particularidades do caracter americano, nós, brazileiros, pusemos um dique ao nosso temperamento de meridionaes, evitando o mais possivel os compromissos amorosos, as manifestações de sympathia por essas adoraveis _ladies_, que, a falar verdade, inflingiam-nos os maiores supplicios com o maravilhoso poder de suas qualidades physicas.

Tantalos do coração, eramos obrigados a conter os impetos ferozes da carne que nos aguilhoava implacavelmente no delicioso convivio das louras _miss_ e das ternas _créoles_.

_Estão verdes, não prestam_--era a nossa divisa e d'est'arte escapavamos sempre aos ataques de tão perigoso inimigo...

IX

O dia 14 de Abril (deixem passar a precisão chronologica) estava destinado pelo commandante do _Barroso_ para uma excursão fluvial, scientifica, á foz do Mississipe, onde iriamos observar _de visu_ os importantes trabalhos hydraulicos, que ahi se procediam sob a intelligente direcção do notavel engenheiro americano Mr. Jas. B. Eads, um velho respeitavel, encanecido no serviço da engenharia, e cujo nome está ligado a muitas obras notaveis de seu paiz.