Chapter 2
Denso nevoeiro envolvia, como uma gaze alvissima, as altas montanhas que orlam magestosamente a antiga colonia hespanhola.
Ao approximarmo-nos da pequena e elegante cidade de Port-Royal, pedimos pratico o qual nos levou á Kingston.
O brazileiro que, depois de longa ausencia do Brazil, chega á Jamaica sente logo um prazer especial, um fremito de patriotismo, ao contemplar as soberbas montanhas da ilha, tanto ellas lembram a natureza do nosso paiz. A bahia, salpicada de interessantes ilhotas de verduras, verdadeiras ilhas fluctuantes, em cujas aguas immoveis bandos de aves ribeirinhas ostentam sua plumagem garrída e multicolor, voando d'uma margem á outra n'uma contradansa animada, offerece aspectos lindissimos. Jamaica parece um pedaço do Brazil transplantado para as Antilhas, tal a opulencia da sua natureza.
É a maior e a mais florescente das colonias inglezas da America depois de Barbados. Mede approximadamente quarenta leguas de comprimento.
Kingston não é uma cidade como Bridgetown, onde a cada passo depara-se com uma prova de adiantamento material. É, por assim dizer, uma capital morta, quasi sem commercio, mas, em compensação, muito mais pittoresca que a capital de Barbados. Os habitantes são morigerados, e uma paz religiosa parece reinar no seio de cada familia.
Ha mais pobresa, é certo, mas incomparavelmente o povo é mais educado, mais pronunciado o instincto de civilisação.
Muitas estatuas. Vimos as de Lewis Quier Bower Bonk, nascido em 1815, Edward Jordon, um dos principaes fundadores da--_Jamaica Mutual Life Assurance Society_, Sir Charles Theophilus Metcaf, governador em 1845--todas ao redor de um parque. Isso prova quanto respeito infunde ao inglez o nome de um compatriota celebre.
Um brazileiro estabelecido em Kingston disse-nos ser o _Almirante Barroso_ o primeiro navio brazileiro que ahi aportava desde 1871.
Nossa demora em Jamaica foi rapida como em Barbados. Telegrammas officiaes do Rio apressavam-nos cada vez mais. Já se havia inaugurado a Exposição de Nova Orleans; era-nos forçoso assistir ao menos o encerramento. Estavamos convictos de que o cruzador brazileiro ia figurar com brilho no importante certamen americano. Tanto em Bridgetown como em Kingston não lhe faltaram elogios de pessoas competentes.
Todos anceavamos pela chegada ao paiz maravilhoso dos _yankees_, ao berço da electricidade, todos queriamos conhecer _de visu_ o celebrado paiz das descobertas engenhosas.
Desde logo entrámos, de combinação, em «serios» estudos do idioma inglez praticando uns com os outros, compulsando manuaes de conversação, decorando significados, preparando-nos, emfim, da melhor forma, para retribuir gentilezas, captar amizades, responder a todas as perguntas que nos fossem feitas á queima roupa. Sim, porque tudo quanto haviamos aprendido theorica e praticamente na Escola, não era bastante. Faltava-nos a facilidade, o traquejo da palavra extrangeira, que haviamos de adquirir á força de vontade e applicação assidua.
Alguns officiaes, entre os quaes o commandante, riam-se do nosso apuro, e, de vez em quando, atiravam-nos de surpreza uma pergunta em inglez. Quanto disparate, quanta tolice a principio! O certo é que depois, com o tempo, já nos entendiamos soffrivelmente. _Noblesse oblige_...
IV
A hospitaleira sociedade de Jamaica havia-nos conquistado a sympathia. Todos sentimos deixar tão cedo aquella encantadora ilha, cujos habitantes nos tinham prodigalisado tão generoso acolhimento. Lenços ascenavam para bordo ao deixarmos o ancoradouro ás 5 horas da tarde de 21, despedindo-nos talvez para sempre d'essa boa gente.
Durante os dias 22 e 23, mar e vento rebellaram-se contra o navio.
Navegavamos á bolina, sempre á vela e a vapor, amurados por bombordo.
Grandes rajadas frias sopravam do norte, cantando nos cabos da mastreação, sacudindo-os com violencia.
O thermometro baixara sensivelmente, e a columna barometrica punha-nos calefrios...
O mar quebrava-se de encontro ás bochechas do cruzador desafiando-lhe a resistencia colossal.
Sabiamos que a latitude em que navegavamos, nas Antilhas, era muito frequentada pelos cyclones, esses terriveis inimigos dos navegantes, que arrastam em sua cauda milhares de vidas. Receiavamos esses phenomenos tanto mais porque os seus effeitos fazem-se sentir a grandes distancias.
Os symptomas visiveis, si não eram evidentes, approximavam-se das descripções de navegantes experimentados. O céo estendia-se limpo, como um largo pallio azul esbranquiçado; apenas no horisonte fluctuavam pequenos _stratus_ em fórma de rabo de gallo e algumas estrias avermelhadas, escarlates, despertavam-nos a attenção.
Ao meio-dia o sol tinha uma côr baça, com um disco azulado ao redor.
E crescia o mar em vagalhões medonhos e esfusiava o vento no cordame.
O navio caturrava e arfava morosamente; ouvia-se o barulho do helice trabalhando fóra d'agua.
Pela madrugada de 24 lobrigámos por boréste o pharol da ilha de Cuba, de luz muito branca, e no dia seguinte sulcavamos o golfo do Mexico.
Poucos dias restavam para alcançarmos Nova-Orleans.
E nada do supposto cyclone!
Por via de duvidas, como o tempo continuasse borrascoso, ferrámos a maior parte do panno, conservando apenas as gaveas risadas nos _terceiros_ e a mezena de capa.
Capeámos tres dias consecutivos, sem que apparecesse o medonho visitante.
No quinto dia o vento amainou rondando para nordeste e o mar, por força das circumstancias, tambem acalmou-se. Ferrámos o resto do panno, navegando só a vapor.
A idéa da chegada preoccupava todos os espiritos. Os Estados-Unidos eram o assumpto de todas as conversações.
Cedo tratou-se da limpeza do navio.
Cada qual tratou de si, de sua roupa, de seus objectos que o mar sacudira de um lado a outro dos camarotes. Os alojamentos apresentavam o curioso aspecto de um campo de batalha; malas confundiam-se umas sobre outras formando empilhamentos, a roupa branca usada andava de mixtura com os fatos novos de panno; livros, papeis--tudo quanto era de uso quotidiano estava espalhado no convéz, como si andasse por ali alguma creança traquinas.
Guerra ao môfo! Roupas ao sol! Ninguem se fez esperar. Começaram as arrumações, uma faina açodada, durante a qual soaram boas gargalhadas filhas de inalteravel bom humor.
Os guardas-marinha alojavam-se á pôpa n'um acanhadissimo compartimento que mal os comportava. Ahi tinham suas camas, suas malas, seus livros.
Quantos prejuizos! Quantas decepções!
E todos acocorados, arrumando e desarrumando, n'uma confusão burlesca, maldiziam o mar e apostrophavam o vento. Neptuno e Eolo nunca receberam tantas manifestações desairosas. Pois não! Ninguem tem suas cousas para vel-as de um dia para outro arruinadas, inutilisadas pelos caprichos incoerciveis do mar e do vento.
Finalmente, como nada ha melhor que um dia depois de outro, veio o dia 29 de Março em que dos váos do joanete de prôa o gageiro annunciou--terra!
Continuava, entretanto, incessantemente, a asáfama. A guarnição da bateria occupava-se da limpeza das peças, collocando-as em posição, abrindo e fechando culatras, lixando-as, lubrificando-as emquanto o fiel ia distribuindo o cartuxame.
Havia uma alegria geral a bordo e sentia-se um vago odor de tintas, como ao entrar-se n'uma casa nova, pintada de fresco.
Já era tempo de repousarmos das fadigas da viagem.
V
Ninguem póde imaginar o que é a chegada de um navio de guerra a porto extrangeiro depois de uma tempestade ou mesmo depois d'uma ameaça de temporal. A faina tor-na-se geral e o ruido inevitavel. É de ver-se a promptidão, a rapidez com que se executam as ordens. Como que ha mais vontade para o trabalho, desenvolve-se logo um contagioso bem estar, ninguem foge ao serviço.
Tezar cabos de laborar, baldear o convez a ficar alvo e polido, como uma sala de visitas, limpar, areiar os metaes amarellos até ficarem relusentes como ouro de lei, ferrar o panno a capricho, cuidadosamente, de modo a confundil-o com as vergas e os mastros, preparar os escaleres--tudo isso é cousa d'um abrir e fechar d'olhos.
A guarnição do _Almirante Barroso_, disciplinada e obediente como todas as que serviam sob as ordens do commandante Saldanha, primava pelo aceio, pela ordem, pela destreza e pela actividade. Não se lhe póde fazer maior elogio. Cada marinheiro era como uma machina prompta sempre ao menor impulso.
A chibata era n'esse tempo, como ainda hoje o terror das guarnições da armada.
Sempre manifestei-me contra esse barbaro castigo que avilta e corrompe em vez de corrigir. Um castigo de chibata é a cousa mais revoltante que já tenho visto, mormente quando é mandado applicar por authoridade deshumana, sem noções do legitimo direito que a cada homem assiste, quem quer que elle seja soldado ou pariá.
O meu primeiro passo ao deixar a Escola e envergar a farda de guarda-marinha foi publicar um protesto contra essa pena infamante, e fil-o desassombradamente, convicto mesmo de que sobre mim ia cahir a odiosidade de meus superiores em geral apologistas da chibata.
A primeira vez que minha posição official obrigou-me a assistir um desses castigos, tive impetos de bradar com toda a força dos pulmões contra semelhante attentado á natureza humana.
Quem já assistiu uma d'essas pavorosas scenas do eito, magistralmente descriptas por Julio Ribeiro na sua obra _A Carne_, póde fazer idéa do que seja o castigo da chibata.
Despir-se a meio corpo um pobre homem, um servidor da patria, pés e mãos algemados, muita vez depois de trez dias de _solitaria_ a pão e agua, e descarregar-se-lhe sobre a espinha, sobre as espaduas, sobre o peito, sobre o ventre, na cara mesmo, em todo o corpo cincoenta, cem, duzentas chibatadas, em presença de todos os seus companheiros, me parece indigno d'uma geração que se préza, de uma sociedade de homens civilisados, de cidadãos, de cavalheiros que ostentam triumphalmente galões dourados na farda--na farda, que significa a nobreza, a coragem, o patriotismo e a honra d'uma nação.
Revoltei-me contra semelhante barbaridade inquisitorial, como quem tem consciencia de que está praticando uma acção justa e honrosa. Doía-me por um lado pertencer a uma classe nobre por tantos titulos, é certo, mas em cujo seio era permittido a chibata e, o que é mais, o seu abuso.
A esse tempo a _Gazeta de Noticias_ do Rio de Janeiro publicava semanalmente um boletim litterario no louvavel intuito de estimular os incipientes das letras. Offerecia-se-me opportunidade para um conto maritimo, cujo assumpto fosse a chibata.
Escusado é dizer que o meu artigo provocou o despeito dos culpados indirectamente feridos no seu amor proprio. Embora! Fiquei satisfeito, como si tivesse sacudido para longe um fardo pesadissimo; e, é preciso dizer, não hesitei em declarar-me autor do conto que vinha firmado por meu nome, então desconhecido na armada.
Alguns de meus companheiros taxaram-me de imprudente e «indiscreto». Outros levaram seus conselhos até á minha _inexperiencia de adolescente indisciplinado_.
Todo o mundo julgou-se com direito a censurar meu procedimento: «que roupa suja deixa-se ficar em casa; que a chibata era um castigo imprescindivel», e outros arrasoados soffrivelmente banaes.
Meu consolo é que d'entre aquelles que preconisavam os effeitos prodigiosos da chibata n'outros tempos, muitos concorreram em demasia para a sua extincção.
Dei parabens á patria e á humanidade.
VI
Como militar e disciplinador o commandante Saldanha da Gama distinguia-se por sua inflexibilidade porventura exagerada, especialmente para com as guarnições sob seu zeloso commando. Temperamento atrabiliario, sanguineo-nervoso, sujeito a transições bruscas, inesperadas, impetuosas e violentas, o illustre marinheiro, espirito eminentemente illustrado, não sabia, entretanto, guardar a necessaria calma quando devia applicar as penas do codigo. Essas penas, como se sabe, acham-se perfeitamente explicitas, precisamente formuladas de modo a não deixar duvida nos espiritos rectos e amigos da lei. Entre os artigos que constituem o codigo penal militar existe um que limita o numero de chibatadas, o qual não deve, em caso algum, exceder de vinte e cinco por dia.
Pois bem, o commandante Saldanha pouquissimas vezes castigava conforme a lei. Collocava acima d'ella seus caprichos inexplicaveis, sua natureza rancorosa, sua vontade suprema. Nao trepidava, e isto é sabido, em mandar açoitar com duzentas chibatadas uma praça qualquer, tal fosse o delicto commettido. A um simples olhar seu as guarnições tremiam como caniços. A qualidade caracteristica d'esse illustre official era ser arbitrario e prepotente. Por isso a guarnição do _Almirante Barroso_ corria a seus postos, em occasião de manobra, com a velocidade d'uma setta.
Estavamos quasi á entrada do Mississipe, a grande arteria fluvial da America do Norte, que nós imaginavamos um colosso talvez superior em volume d'agua ao Amazonas,--o Mississipe, decantado pelo autor dos _Natchez_, e em cujas margens fica a cidade de Nova Orleans nosso ponto de chegada.
Ninguem pensava mais no Rio de Janeiro para só se lembrar de Nova Orleans, a _Cidade Crescente_, como a denominam os americanos.
Trez horas da tarde, mais ou menos. Embarcações á vela e vapores bordejavam fóra da barra á espera de pratico, sem o qual era impossivel a entrada. Mar calmo, com uma côr esbranquiçada, lembrando na sua quietação dormente um vasto lago estagnado. Em frente, muito longe ainda, mal distinguiamos com o binoculo o pharol, microscopica torre branca, invisivel quasi.
Envolvidos em grossas capas de lã, abotoados até o pescoço ao abrigo do frio que se tornava insupportavel para nós da zona torrida, de pé no tombadilho, machina a um quarto de força, bandeira nacional desfraldada na carangueja do mastro de ré, esperavamos tambem o _pilot_ que nos devia conduzir á Nova Orleans, 110 milhas da foz do Mississipe.
O Mississipe! Dentro em pouco sulcavamos a grande corrente.
Não tardou muito o pratico, por cujo intermedio tivemos noticia da estrondosa manifestação com que os habitantes da cidade americana aguardavam a chegada do cruzador brazileiro.
Bella surpreza essa! Cresceu o enthusiasmo entre os noveis officiaes.
Entrámos. Durante o nosso trajecto pelo Mississipe a anciedade a bordo tocou o seu auge. Queriamos, todos a um tempo, avistar as embarcações que, dizia-se, vinham nos receber.
O autor d'estas simples notas de viagem, que admira os Estados-Unidos como uma segunda patria, porque ali moram juntas todas as liberdades e florescem prodigiosamente todas as nobres idéas civilisadas, de braços cruzados estendia o olhar cheio de admiração, cheio de deslumbramento por cima das extensas planicies das margens do grande rio.
O pôr do sol entre a neblina que cobria os horisontes fazia lembrar as paginas de Chateaubriand na sua _Voyage en Amérique_, paginas esculpturaes e cheias da commovida nostalgia dos que se vão da patria...
Quanta verdade nas sumptuosas descripções do poeta! Quanta poesia n'aquellas paragens desertas da foz do Mississipe,--Sahara de neve estendendo-se a perder de vista nos horisontes sem fim! Que de maravilhas occultavam-se por traz d'aquellas planicies, lá onde o olhar não attingia!
Eram Ave-Marias. Lembrei-me do Brazil, dos sertões de minha terra natal, da torresinha branca do Senhor do Bomfim badalando o _terço_ das almas, justamente aquella hora, quando as boiadas recolhiam mugindo, pesadas e melancolicas...
Ave-Marias!... Mesmo quando não se é crente, áquella hora da tarde o coração fica cheio de não sei que terna e piedosa uncção mystica...
Fundeámos no ponto em que o rio se divide em dois braços ou pequenos confluentes, e ahi passámos a noite inteira, essa longa e tristissima noite de inverno.
Frio de rachar. As aguas do rio, pardas e barrentas, estavam quasi geladas.
As margens do Mississipe, em varios pontos, são, no inverno, verdadeiras planicies, onde apenas medra a herva rasteira. Á distancia, pobre alma perdida no descampado, ergue-se ás vezes uma arvore muito esguia, como um phantasma de braços abertos para o céo. De quando em quando atravessa a solidão uma ave desconhecida batendo as azas, como um agouro.
N'outros logares, porém, vêm-se rebanhos pastando silenciosamente, plantações verdejantes, casas de campo, postes de correio, em cujas portas destacam-se em caracteres maiusculos as palavras--_Post office_.
O povo parece viver satisfeito no meio de suas plantações e de seu gado, entregue á cultura e á creação.
Nuvens de mosquitos atordoaram-nos toda a noite. «--Caramba! exclamava o barbeiro de bordo, um estimavel hespanhol que traziamos do Rio de Janeiro. Caramba! Mosquitos por mosquitos me gustam mas los del Brasil!» E tinha razão o nosso companheiro. Os mosquitos do Mississipe são muito capazes de dar cabo d'um pobre homem. E que medonha orchestração nos ouvidos da gente?
Felizmente na manhã do dia seguinte levantámos ferro.
O navio estava completamente prompto a fazer sua entrada em Nova Orleans. Durante quasi toda a noite a guarnição occupara-se em colher cabos, esfregar a amurada e baldear o costado.
Como passatempo liamos os jornaes que o pratico trouxera, os quaes noticiavam a recepção popular e official que se nos preparava.
Dois hiates a vapor--o _Cora_ e o _Pansy_--propriedade de Mr. Morris, largariam de Nova Orleans a nosso encontro, embandeirados, com bandas de musica, commissões de senhoras, representantes do commercio e d'outras classes sociaes.
Ou fosse a natural affinidade que existe entre as duas nações americanas, ou fosse o facto de ir a bordo do cruzador brazileiro um representante da familia imperial do Brazil, o certo é que durante nossa travessia da foz do Mississipe á cidade fomos constantemente saudados de ambas as margens do rio a tiros de espingarda e a lenços que nos acenavam de longe.
E o _Almirante_ seguia devagar, alvo de mil olhares curiosos.
Ao meio-dia ouvimos as notas de uma musica alegre que se approximava, e em breve surgiram n'uma curva do rio os dois magnificos hiates--o _Cora_ e o _Pancy_--apinhados de gente, enfeitados de galhardetes de côres variadas, em cujos mastros tremulavam as duas bandeiras amigas.
De ambos os lados, no cruzador e nos hiates, hurrahs confundiam-se no ar.
Em viva effusão de inexprimivel jubilo patriotico estreitavam-se as duas grandes potencias da America; a mesma brisa balouçava simultaneamente os dois gloriosos pavilhões.
A gente do _Barroso_ subiu ás vergas accelerada, e, acenando com os lenços e os bonés, saudava com vivas estrepitosos e delirantes acclamações aos Estados-Unidos, ao mesmo tempo que das duas embarcações partiam ruidosas manifestações ao Brazil.
Fardada em segundo uniforme, espada e dragonas, a officialidade do cruzador brazileiro, em pé no tombadilho, vivamente commovida, descobria-se a todo instante risonha e feliz.
Sentiamos a falta de uma banda de musica bem organisada, que n'aquelle momento, verdadeiramente solemne, entoasse o hymno da republica a bordo.
Passado o primeiro momento de delirio, approximaram-se os dois hiates que nos acompanhavam e o cruzador diminuiu a marcha. Ficámos borda á borda. N'um instante toda aquella gente que vinha nos vaporesinhos, passou para o _Barroso_.
Houve um silencio respeitoso de parte a parte e começaram os abraços.
O consul geral brazileiro, Sr. Dr. Salvador de Mendonça, tão conhecido entre nós por seu talento e por sua illustração, como homem de letras e diplomata, juntamente com Mr. Eustis, consul em Nova-Orleans, foram recebidos no portaló pelo commandante e officiaes com todas as honras que lhes eram devidas. Seguiram-se os representantes da imprensa, do commercio, etc.
Conduzidos á camara, desde logo estabeleceu-se entre brazileiros e americanos uma camaradagem franca, uma corrente communicativa de affabilidades, como si já fossemos conhecidos velhos. As taças de _champagne_ chocavam-se, vivas succediam-se, levantavam-se _toasts_ ás duas nações, trocavam-se os mais espontaneos comprimentos.
A viagem continuou ao som da musica do _Cora_ e do _Pansy_.
Ás 4 horas da tarde largámos ferro defronte da antiga capital da Luiziania.
VII
Nova-Orleans é, talvez, a cidade mais importante do sul dos Estados-Unidos.
Nosso primeiro cuidado, como era natural foi desembarcar, «ir á terra», ceiar bem e dormir tranquillamente um somno bom e reparador. Nao nos faltariam esplendidos hoteis e magnificos _rooms_ onde podessemos, á vontade, descansar dos trabalhos da viagem.
Nossa demora devia prolongar-se ahi mais do que em qualquer outro porto, por causa da Exposição e a instancias dos habitantes da cidade, que nos preparavam deliciosas surprezas.
Tinhamos tempo bastante para ver Nova-Orleans, para observar os costumes americanos e fazer um juizo mais ou menos approximado d'aquelle bello povo.
O porto estava atulhado de barcas de commercio--vastas embarcações de dois e trez pavimentos, duas e trez chaminés negras a deitar fumaça n'uma actividade constante, rodas na pôpa, muito mais amplas que as nossas barcas Ferry do Rio de Janeiro. Atopetadas de saccas de algodão e outros generos do paiz, esperavam o momento preciso e regulamentar de se fazerem ao largo.
Emquanto esperavamos, vivamente anciosos, o escaler que nos devia conduzir ao caes, assestavamos o oculo para a cidade quasi silenciosa áquella hora, e cujas ruas não tardariamos a conhecer. Accendiam-se os primeiros bicos de gaz. Ao longe, n'alguma egreja remota, badalava um sino triste. Já não se ouvia quasi o brouhaha quotidiano. Numerosas embarcações cruzavam-se no rio. Ouviamos guinchos de locomotivas e o surdo ruido de carros que ainda labutavam.
Alguns officiaes deixaram-se ficar aguardando o dia immediato para mais commodamente satisfazerem sua curiosidade de viajantes em terra extrangeira.
[Figura: ENTRADA DE NOVA-ORLÉANS]
Era fim de inverno. Ameaçava chover. O frio continuava bastante forte ainda e os camarotes do _Barroso_ offereciam, nessas condições, agasalho confortavel aos mais friorentos.
Na manhã seguinte, grupos de officiaes brazileiros, uns fardados, outros á paisana, percorriam Nova-Orleans.
O _St. Charles Hotel_, um dos melhores estabelecimentos da cidade, e o _Royal Hotel_--primeiro em luxo e ornamentação--eram procurados avidamente.
Os jornaes davam noticias circumstanciadas de nossa chegada e annunciavam festas em homenagem ao Brazil.
Uma vez installados nos hoteis, cada um de nós em seu vasto aposento, onde nada faltava, tão differente dos estreitos camarotes de bordo, dividimo-nos em grupos.
Quanto a mim, o meu primeiro cuidado foi munir-me de um guia da cidade, especie de _pocket-book_ muito commodo, registrando indicações uteis de estabelecimentos e logares principaes.
Meu quarto ficava no segundo andar do _St. Charles Hotel_ com frente para a rua do mesmo nome--uma saleta mobiliada com a maxima sobriedade, sem luxuosas decorações, contendo apenas os moveis indispensaveis a um rapaz solteiro, e o fogão a um canto.
Depois de magnifico banho morno em bacia de marmore (perdôem-se-me estas innocentes confidencias, aliás de bom gosto) seguido de um valente almoço de ostras crúas, as melhores que eu tenho provado, regadas á Sauterne, mastigando (é o termo, porque não sou lá muito admirador de charutos) mastigando um charuto, que não sei bem si era de Havana, sahi a fazer meu primeiro passeio, minha _promenade_ matinal, começando pela Canal Street, a rua mais importante de Nova Orleans, que a divide em dois grandes bairros--o francez e o hespanhol.
No cruzamento das ruas de St. Charles e Canal erguia-se a estatua de Clay. É esse o ponto principal da cidade e o de maior movimento nos dias uteis.
Parei defronte do monumento e consultei meu alcorão, quero dizer meu guia manual.
«_Estatua de Clay_--Inaugurada solemnemente no dia 12 de Abril de 1860. Joêl T. Harl, de Kentucky, o artista que deu forma e proporções á estatua, assistiu ao acto. O orador official foi Wen H. Hemt.».
Maldito laconismo! Pouco adiantei com as explicações do livrinho.
A estatua é de bronze, sobre pedestal de marmore, e mede, approximadamente, quinze pés inglezes de altura.