Chapter 1
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Rita Farinha (Jan. 2008)
ADOLPHO CAMINHA
NO PAIZ DOS YANKEES
DOMINGOS DE MAGALHÃES--EDITOR 54 RUA DO OUVIDOR 54 LIVRARIA MODERNA
RIO DE JANEIRO
*1894*
NO PAIZ DOS YANKEES
[Figura: CRUZADOR "ALMIRANTE BARROSO"]
ADOLPHO CAMINHA
NO PAIZ DOS YANKEES
RIO DE JANEIRO Domingos de Magalhães--editor 54 Rua do Ouvidor 54 LIVRARIA MODERNA
*1894*
DO MESMO AUTOR:
*A NORMALISTA*
I vol. broc. 3$. cnc. 5000
EM PREPARAÇÃO:
BOM--CRIOULO
Typ. da Empreza Democratica Editora--Rua do Hospicio n. 11
Taine, o glorioso Taine, o querido philosopho, cuja obra admiravel tem sido uma especie de bussola para os que se iniciam na complicada arte da palavra; Taine, o mestre, aconselhava sabiamente, com aquella profundeza de vista e com aquelle raro e superior criterio de artista e pensador:--«Que chacun dise ce qu'il a vu, et seulement ce qu'il a vu; les observations, pourvu qu'elles soient personnelles et faites de bonne foi, sont toujours utiles.»
Devo a estas palavras a lembrança de escrever as multiplas impressões, os successivos transportes de admiração, de jubilo e tristeza por que passou meu espirito durante alguns mezes de viagem nos Estados-Unídos.
A principio afigurou-se-me obra de alevantado alcance e de extrema coragem traçar, ainda que ligeiramente, o plano de um livro sobre a grande nação americana, tão singular em seus costumes, em sua vida agitada e tumultuosa, em seus variadissimos aspectos...
E de facto, esse trabalho, essa difficil tarefa demandaria, incontestavelmente, muito mais que uma somma de notas mais ou menos verdadeiras e algum estylo. Era preciso, antes de tudo, um elevado criterio historico e scientifico, grande cópia de conhecimentos e profundo espirito analytico.
Não se escreve a historia de um paiz,--a vida inteira de um povo--sem demorar-se em largo e paciente estudo sobre as suas origens, seus habitantes primitivos, sua evolução politica e social, suas luctas intestinas e sobre os elementos que mais directamente influíram para sua independencia.
A elles, os historiadores e analystas da sciencia, tão arriscada empreza.
Os poucos mezes que passei nos Estados-Unidos apenas me proporcionaram ensejo de admirar, atravéz de um prisma todo pessoal, o progresso assombroso d'esse extraordinario paíz.
Comprehendem-se, pois, os meus intuitos: nada mais que reproduzir, com a possível exactidão, _o que vi_, somente _o que vi_ nessa interessante viagem ao paiz dos _yankees_.
Procurei ser espontaneo e simples, natural e logico, evitando exageros de observação e o estylo rebuscado e palavroso dos que, á fina força, pretendem transformar a litteratura n'uma simples arte mecanica de construir phrases ôcas e coloridas.
Escriptas em 1890, as paginas que se vão ler podem não ter a importancia de um estudo completo, mas de algum modo têm seu valor intrinseco.
Rio, 1^o de Agosto de 1893.
_Ad. Caminha_
NO PAIZ DOS YANKEES
I
...Tinha cessado a faina geral de suspender ancora. Os marinheiros estavam todos em seus postos, alerta á primeira voz, silenciosos, enfileirados a bombordo e á boréste, alguns convenientemente distribuidos na pôpa, na prôa e nas cobertas do cruzador.
Noite escura e chuvosa, cheia de nevoeiro e tristeza, fria, sem estrellas, cortada de clarões longinquos. Tão escura que se não distinguia um palmo diante do nariz, tão feia que os bicos de gaz da cidade, soturna e quieta, bruxoleavam pallidamente com a sua luz tremula e vacillante...
E comtudo estavamos a 19 de Fevereiro, em plena estação calmosa, no rigor do verão.
Chuvera todo o dia. O céo conservava-se coberto de nuvens bojudas e côr de chumbo, velando uns restos de lua.
Um grande silencio de alto mar alastrava-se por toda a bahia do Rio de Janeiro. Sómente ao longe, para os lados da cidade, badalava o sino d'uma egreja, compassado e lugubre.
De vez em quando passava rente com a pôpa do _Barrozo_ o vulto sombrio e largo de uma barca Ferry, com o seu pharól de côr, dezerta, indistincta, e que desapparecia logo na escuridão.
Seria meia noite quando o navio começou a mover-se lentamente, caminho da barra, cheio da silenciosa melancolia dos que partiam, e uma hora depois a cidade, as praias, e as montanhas sumiam-se na distancia, como si o mar as fosse engolindo com a voracidade de um monstro.
Restava apenas um ponto luminoso, uma visão microscopica da terra fluminense; era o pharol da ilha Rasa tremeluzindo, como palpebra somnolenta, atravéz da noite.
E todos a bordo, todos silenciosamente, egoistas na sua dôr concentrada e incommunicavel, mandaram ainda um--adeus--profundamente saudoso á vida alegre e ruidosa do Rio.
Dizem que o homem do mar é insensivel aquelles que nunca viram esta realidade: a lagryma da saudade brilhar na face de um marinheiro.
Lá fomos mar afóra...
Pernambuco foi o primeiro porto da nossa escala.
Viagem monotona, sem accidentes notaveis, essa do Rio ao Recife. As horas succediam-se n'uma uniformidade tediosa e imperturbavel. Sempre o mar, sempre o céo, ora sombrios, ora azues...
Durante o dia 21 avistámos, e isso nos consolou, uma vela que bordejava, muito branca, triste garça erradia no horisonte luminoso.
Para quem viaja no mar uma vela que se avista é sempre motivo de innocente alegria O marinheiro com especialidade gosta de seguil-a com o olhar nostalgico até perdel-a completamente. É como ao avistar-se terra depois de longa travessia: sente-se a mesma impressão bôa e indefinivel.
Na manhã de 26--léste-oeste com o pharol de S. Agostinho, e ás onze horas recebiamos o pratico.
Impossivel entrar nesse dia, por falta de maré: passámos a noite fóra, no Lamarão, aos solavancos, vendo, por um oculo, a cidade do Recife, illuminada e bella, hombro a hombro com a legendaria Olinda dos hollandezes e dos banhos de mar.
Na falta de outro assumpto falou se de historia patria.
Pela manhã de 27 o _Barrozo_ sulcava as aguas do Lamarão, lento e magestoso, crivado de olhares. O povo saudava-o do cáes da Lingueta. Espalhou-se logo que o principe D. Augusto, neto do imperador, vinha a bordo, e toda a gente correu a recebel-o com essa avidez instinctiva das massas populares. O povo pernambucano, tradicionalmente inimigo dos imperadores, lembrava-se do tempo em que o Sr. D. Pedro de Alcantara dava-se ao luxo de visitar o norte.
Mais tarde, ao desembarcar a turma de guardas-marinha, de que fazia parte o principe, subiu de ponto a curiosidade publica.
--Oh! o principe!--Que é d'elle?--É um ruivo?--É aquelle barbado?
O pobre moço viu-se em apuros, e mudava de côres, e fazia-se escarlate, e vociferava contra a plebe, occultando-se entre os collegas, desapontado. Um preto velho teve a lembrança de ajoelhar-se aos pés de S. A. e supplicar-lhe uma esmola. Aconteceu, porém, que errou o alvo e foi direito a um outro rapaz, louro e rubro, como o principe, que se apressou em desfazer o engano.
O imperial senhor achava-se ridiculo no meio de toda aquella multidão servil e anonyma que o acompanhava, «como si visse n'elle um animal selvagem...»
É assim o povo--ingenuo, pueril.
Visitámos, em romaria, os principaes edificios publicos: a Penitenciaria, a Assembléa Provincial, o Gymnasio, o Theatro.
A nova Penitenciaria do Recife é um bello edificio no genero.
Impressiona tristemente esse casarão sombrio com escadarias de ferro, onde mal penetra a claridade meridiana.
Ha criminosos de toda a especie, em cujos semblantes retratam-se delictos tenebrosos. Nada, porém, nos commoveu tanto como a historia do preso Gustavo Adolpho, que, ha quasi vinte annos, cumpria a terrivel sentença a que fôra condemnado. Era um d'esses sentenciados sympathicos que inspiram compaixão a quem os observa de perto.
Um dos nossos companheiros desejou saber a historia do seu crime e pediu ao infeliz que lh'a contasse elle proprio.
--Não queira, disse o condemnado, não queira obrigar-me a fazer minha propria autopsia moral... Narral-a, essa historia, seria um supplicio muito maior do que estar eu aqui, n'este carcere, ha vinte annos...
Gustavo Adolpho parecia-nos um regenedo, tal o aspecto humilde de sua physionomia e o tom commovente de sua voz. O isolamento transformara-lhe a alma. A dôr tem isto de bom--purifica o espirito, é como um crysol. Esse infame, esse assassino, Gustavo Adolpho, era um martyr. Aquelle semblante abatido pelas insomnias, aquelle rosto descarnado, aquelles olhos cansados de chorar, aquelles labios lividos de defunto, cansados de repetir a palavra--perdão, lembravam a figura resignada de um moribundo que nada mais espera senão a eterna liberdade--a morte...
Vimol-o na casa dos condemnados, entre as quatro paredes de um miseravel cubiculo, vestido de preto, barba crescida, macilento, arrependido e só.
Poucos iam incommodal-o ali, n'aquella pavorosa solidão, e no emtanto elle não odiava ninguem e desejava falar a todos.
Tinha dezenove annos quando a fatalidade o arremessou a Fernando de Noronha. A justiça humana o havia condemnado a esta pena infamante--galés perpetuas.
Perdoar a um arrependido nas condições de Gustavo Adolpho, me parece a mais nobre acção de um rei. Todavia elle continuava, mendigo de liberdade, a pedir, a pedir...
Por diversas vezes a academia de direito, pelo orgão de seus representantes, exorara a piedade imperial, mas o imperador nunca estendeu o seu _magnanimo_ olhar até aos carceres senão em certos dias de gala natalicia para indultar os escolhidos da politica dominante.
--Console-se, disse eu ao desventurado moço. E citei Lamartine:--_Vivre c'est attendre..._
Retirámo-nos commentando aquella catastrophe desastrada.
A historia tragica d'esse preso foi-nos contada por um empregado do estabelecimento. Eu podia resumil-a em duas palavras:--_cherchez la femme_, si não fosse o prurido de registrar, ainda que brevemente, um caso curioso de processo crime. Cada um tire as illações que lhe aprouverem.
Gustavo Adolpho nasceu no Pará onde iniciou seus estudos como seminarista.
Muito cedo seu espirito mostrou-se refractario á educação ecclesiastica, e desviou-se dos livros sagrados para outro genero de leituras e estudos mais concentaneos com as suas aspirações.
Os paes do nubil seminarista desgostaram-se com o procedimento do filho revolucionario e ardente apologista de Martinho Luthero, que não occultava-lhes suas tendencias anti-catholicas. Elle, porém, o apostata, o hereje, sentia-se instinctivamente arrebatado pelas idéas do seculo e tratou de trocar a sotaina de noviço pelo frak á ultima moda. Ninguem põe peias á fatalidade. Não contente com ir de encontro á vontade de seus paes e preceptores, o ex-seminarista tomou o primeiro vapor, e, subito, vio-se na capital do Brazil, sem um amigo que o guiasse n'esse labyrintho de ruas suspeitas onde o vicio assentou praça. A rua do Ouvidor e os theatros sempre eram mais agradaveis que o claustro e as impertinencias do reitor,--muito mais...
Pobre Gustavo Adolpho! Salvara-se de um abysmo para precipitar-se imprudentemente, como creança inexperta, n'outro abysmo talvez mais perigoso.
Sem amigos, sem protecção, longe de sua terra e de seus paes,--que podia esperar o joven desconhecido n'aquelle turbilhão de vis interesses?
Imbert-Galloix, um italiano, tambem adolescente e cheio de esperanças, intelligente e trabalhador, morreu de miseria n'uma rua de Pariz, por ter trocado sua patria natal por um paiz que só conhecia de nome. Fôra em busca de glorias e encontrou a miseria, o frio, a fome, e a morte por fim.
Esses sonhadores como Imbert-Galloix são sempre victimas da propria imaginação.
A sorte de Gustavo Adolpho foi mais cruel.
Custa a crêr que um insignificante par de brincos leve um homem á cadeia e depois ao exilio perpetuo!
Uma vez sem meios de subsistencia, luctando com a má vontade de uns e a indifferença de outros, Gustavo Adolpho, que tinha certa dóse de espirito, d'esse espirito fino que caracterisa o homem de talento, fez-se _bohemio_, isto é, indifferente á vida, nomade a quem tanto faz dormir sobre flacido colxão, como ao relento e sobre a lage das calçadas. Ora, os bohemios são umas creaturas sympathicas. Quando um bohemio tem espirito acha sempre quem lhe estenda a mão. Gustavo Adolpho preferiu a mão leve, alva e setinosa, de uma cortezã pela qual apaixonou-se devéras.
A mulher, sempre essa creatura profundamente seductora e mysteriosa!
E, parece incrivel! quando na primeira noite, após as ineffaveis caricias do amor, a misera Manon, adormecida ao lado do amante, sonhava, talvez, n'algum banquete sumptuoso, á sombra d'alamos frondosos, talvez n'alguma de suas passadas orgias, á luz de candelabros deslumbrantes, elle, o malaventurado moço, cujo olhar fitava na meia sombra da alcova o rosto sereno de sua amante, antepensava um crime e um crime excepcional, monstruoso, inqualificavel.
--Estes brincos, estes brincos... pensava elle fitando as joias, duas grandes lagrimas de diamante pendentes das orelhas da rapariga. Seu espirito oscillava como um pendulo na duvida terrivel, aguçado por um desejo louco.
Eil-o que se levanta de um impeto, pisando devagar, surrateiramente, tão de leve que dir-se-ia uma sombra; eil-o que se encaminha para a porta da rua, tacteando, encostando-se as paredes, pé ante pé, sem respirar, olhando sempre para traz, para o leito da amante (lembra-me a scena da «Cymbelina» de Shakspeare).
Meia noite... Eil-o ainda que volta e se approxima do leito onde ha pouco boiara em mar de volupia. Traz na mão um objecto reluzente, uma cousa disforme... uma machadinha.
Que irá elle fazer?!...
Approxima-se mais, rastejando quasi, mansamente, subtilmente.
De repente sôa uma pancada surda, e um grito estrangulado:--Soc...corro! Sôa outra pancada surda, outra, outra, muitas pancadas, e sobre os brancos lençóes d'aquelle malfadado leito palpitam as carnes sangrentas, moribundas, de um corpo de mulher que ainda ha pouco sentia e pensava...
Obseccado pela idéa do roubo, o assassino arranca brutalmente as joias do cadaver, e, á luz do combustor de crystal, reconhece que são falsas!
Foge rua fóra, como um possesso, enfia num becco, sae por outra rua, e desapparece na escuridão da noite.
No dia seguinte seu nome lá estava estampado em letras garrafaes no livro dos réos: «Gustavo Adolpho... preso pelo duplo crime de assassinato e roubo.»
Mais tarde, annos depois, o joven criminoso tentou fugir de Fernando de Noronha onde fôra recolhido. Prenderam-no em flagrante. E ha poucos mezes, no anno passado, a princeza Isabel, então regente do Brazil, abriu-lhe as portas da prisão.
Gustavo Adolpho publicou, no degredo, um livro de versos intitulado _Risos e Lagrimas_, uma collecção de poesias sentimentaes e amorosos que pouco valem pela fórma e onde se acham crystalisadas as dôres do infeliz poeta, cuja imaginação cantava entre lagrimas.
Penalisou-nos a sorte d'esse rapaz sympathico e intelligente.
Havia, alem de Gustavo Adolpho, outro preso não menos interessante e que nos excitou a curiosidade. Indigitado autor de não sei que roubo, fôra condemnado igualmente a galés perpetuas.
Interrogado, disse-nos contar oitenta (!) annos de idade e possuir familia numerosa:--mulher e 30 filhos!
--Qual foi o seu crime? perguntámos.
O velhinho todo tremulo, a cabeça muito branca; uma nevoa humida no olhar, sem forças quasi para dar um passo, murmurou tristemente:
--Nenhum, meus caros senhores... Supponho que houve engano da justiça...
--E si lhe dessem liberdade agora?...
--De que me servia? Mal me tenho em pé e já não sei de minha mulher e de meus filhos, Estou muito velho, preciso morrer descansado aqui mesmo na prisão.
O edificio da Penitenciaria tem, logo á entrada, a seguinte inscripção em marmore:
No dia 23 de abril de 1885 sendo presidente da provincia o Illm. Sr. Conselheiro Dr. José Bento da C. Figueiredo foram removidos os presos para este edificio organisado sob a direcção do engenheiro José Mamede Alves Pereira.
Contava, portanto, trinta e cinco annos.
Foi a mais interessante de todas as nossas visitas em Pernambuco.
II
No dia 27 deixámos o Recife em direcção ás Antilhas.
Como até ahi, a viagem continuou a vapor,--uma verdadeira viagem de recreio si não fosse a exiguidade dos commodos a bordo do cruzador.
O commandante levava ordem para chegar a Nova Orleans em tempo de assistirmos a abertura da exposição internacional americana, onde o _Almirante Barroso_ devia figurar como legitimo e admiravel producto da industria naval brazileira tão pouco conhecida no extrangeiro.
Adoptavamos, sempre que o vento permittia, a navegação mixta, e deste modo, á vela e a vapor, arrastados pelas correntes maritimas que puxam para o norte, alcançámos, a 2 de Março, a linha equatorial, onde apanhámos alguns chuviscos debaixo d'uma athmosphera ardentissima.
Reinava «calmaria pôdre». Ferraram-se as velas á mingua da mais leve aragem, armaram-se os toldos para que podessemos supportar o calor na tólda, e os banhos salgados de ducha foram recebidos com especialissimo agrado. Suava-se a valer. Imagine-se: embaixo, no porão, as fornalhas accesas, e em cima o sol ardente, o medonho sol do equador, cahindo como um caustico sobre o navio.
Á tardinha incendiavam-se os horisontes de um colorido rubro, ensanguentado, de magica, reflectindo-se no espelho do mar tranquillo como num grande lago de crystal...
Demos graças a Deus quando nos vimos fóra de tão desagradaveis regiões.
No dia 11 avistámos terra de Barbados, uma das mais prosperas colonias inglezas das Antilhas. Era o primeiro porto extrangeiro do intinerario.
O Capitão do Porto foi o primeiro personagem que pisou a bordo: um inglez de aspecto duro como em geral o de todo inglez, olhando atravéz de uns grandes oculos azues e ostentando fleugmaticamente um par de soiças ruivas. Trajava _dolman_ branco, muito justo ao corpo, calças de panno preto e chapéo de cortiça branco, de grandes abas, tombado para a nuca.
Fez a visita sacramental e poz-se ao fresco em menos de dois minutos, depois de um fortissimo _shake-hand_.
A ilha de Barbados vista de bordo é de uma nudez quasi completa: nenhuma vegetação cobre as vastas planicies que primeiro ferem a retina do observador. Ao approximar-se-lhe, porém, novas paisagens de effeitos cambiantes vão-se desenrolando á maneira de cosmorama. Moinhos rodam ao sopro do vento que ordinariamente é fresco ahi, casas de campo confortaveis, arvores, chaminés fumegantes, tudo isso vai apparecendo á medida que nos approximamos, até que, com verdadeira surpresa, surge-nos toda a cidade de Bridgetown e então basta um golpe de vista largo para abrangel-a.
Á distancia Bridgetown semelha uma pobre cidade deshabitada, sem indicio de civilisação. A surpreza que experimenta o viajante é completa depois. Alguem que ahi esteve annos antes admirou-se da enorme quantidade de embarcações inglezas surtas no porto. Entre estas contavam-se quatro encouraçados, bonitos vasos que honram a Inglaterra affirmando o grande poder maritimo desse paiz, cuja esquadra ainda hoje não tem rival no mundo.
Um dia e meio--eis todo o tempo de nossa demora em Barbados, tempo sufficiente para conhecermos a ilha a _vol d'oiseau_.
A população, na maior parte negra, é composta de gente de baixa classe e geralmente intratavel.
Abundam os _ciceroni_, especie curiosissima de especuladores, que perseguem os viajantes de uma maneira barbara. Querem, á fina força, ensinar-lhes as ruas, os hoteis, e não os largam emquanto não satisfazem a sua ambição, cobrando, no fim de contas, certo numero de _shillings_.
Falam um _patois_ detestavel; ninguem os entende com facilidade. Imagine-se um pobre diabo acompanhado d'uma multidão que grita e fala idioma desconhecido a repetir-lhe alto aos ouvidos:--_Came hear! came hear!_ discutindo, altercando-se de cacete em punho. O misero julga-se por um momento transportado, como por encanto, ás costas d'Africa, fecha ouvidos á grita dos importunos _ciceroni_, brada mil vezes _no, no, no_..., e não tem remedio senão deitar a correr como um possesso, perseguido sempre pela turba multa de vadios, até que, depois de uma lucta incrivel, esguedelhado, offegante, pallido, embarafusta pela porta d'um hotel escorrendo suor, esfalfado, morto de cansaço!
E ainda por cima vociféra a legião faminta dos negros!
Nao exagéro. Parece realmente um paiz semi-barbaro aquelle, e ai! de nós si não fossem os _policemen_, activos e energicos guardas da vigilancia publica, que a um simples franzir de sobr'olhos fazem desapparecer a medonha horda de capadocios, ou que melhor nome tenham esses turbulentos demonios.
É espantosa a ambição do povo por dinheiro.
Ao tilintar do _money_ surgem de repente vinte, trinta cabeças negras, cada qual mais negra, disputando a posse do precioso metal.
Basta dizer que ainda não tinhamos fundeado e já grande numero de pequenas embarcações á vela e a remos,--_fly boats_,--approximavam-se do navio, cortando-lhe a prôa com risco de serem espedaçadas. Ouvia-se, então, de todos os lados vozes que gritavam:--_I am pilot! I am pilot!_
Embalde procuravamos persuadir áquelles esfaimados de dinheiro que não precisavamos de pratico, pois a bahia de Bridgetown é bastante espaçosa e offerece entrada franca.
Davamos com o lenço, mandando-os embóra--que não! mas os gritos repetiam-se:--_I am pilot! I am pilot!_
Todos queriam, a troco de dinheiro, conduzir o navio extrangeiro ao ancoradouro e para isso exigiam um preço fabuloso.
Formidaveis importunos os taes negros de Barbados!
A edificação de Bridgetown, puramente ingleza, é curiosa, pittoresca mesmo, si bem que uniforme.
As casas, baixas quasi todas, geometricamente dispostas, alpendradas na frente, simples e elegantes na sua architectura, são confortaveis e convidam ao _far-niente_.
As ruas, porém, estreitas e mal calçadas, são, por assim dizer, intransitaveis, em consequencia do poeiral que sobe, como fumaça, ao rosto dos transeuntes.
No que respeita a estabelecimentos importantes, vimos a--_St. Leonard's School_ e uma igreja-cemiterio.
A estatua de Nelson, o heroe de Trafalgar, ergue-se, em bronze massiço, n'uma das melhores praças do logar--_Nelson's square_, si me não engano.
Os poucos hoteis que existem na ilha são vastos e offerecem o necessario conforto ao viajante: boa mesa, bons petiscos, magnifico vinho, deliciosos sorvetes--_ice-cream_--e, finalmente, boas camas e muito aceio.
O brazileiro que viaja, com raras excepções, tem necessidade imprescindivel de duas cousas que elle julga essenciaes ao seu bem estar: café e cigarros.
_Spleen_ e charutos--são cousas inseparaveis de um inglez da Inglaterra; café e cigarros--eis o que um brazileiro não dispensa.
Infelizmente para nós, o café, tal qual se prepara em Barbados, é um licor detestavel composto de muito pó e pouca agua, que os naturaes mixturam á guisa de chocolate, mas de um sabor desagradavel, repugnante.
Duas linhas de bonds percorrem a capital d'um extremo a outro.
A ilha é circumdada por uma via-ferrea.
De resto, é admiravel senão assombroso o progresso d'essa colonia, relativamente pequena e tão longe da metropole.
E, note-se, de vez em quando atravessam aquellas regiões terriveis cyclones produzindo estragos incalculaveis em toda a extensão da ilha. Innumeras embarcações, algumas de grande porte, têm sido arrojadas á costa por esses formidaveis meteóros. O ultimo cahiu em 1851 e figura nos annaes da navegação como um dos grandes desastres maritimos do Atlantico.
III
Na manhã do dia 13 suspendemos ancora em direcção á ilha da Jamaica, fundeando no mesmo dia na bahia de Port-Royal.