Newton: Poema

Chapter 4

Chapter 44,940 wordsPublic domain

Da luz que o Templo magestoso enchia Nunca a meus olhos o clarão s'extingue, Com elle vejo d' outra sorte a Terra: S'era envolta até alli na sombra escura Do cáhos da ignorancia, eis fulge, eis brilha De novos astros, nova luz banhada. Era tréva até alli quanto pousara, Em Athenas outr'ora, outr'ora em Roma. Era frouxa a impulsão de sabios tantos, Que, mestres do Universo, aos homens davão Lições de sapiencia. Ah! nunca o Templo Aos miseros mortaes se abrio de todo! Quando a barbarie Góthica domina Por tantos, tantos seculos no Mundo, Dos continuos fenomenos a causa Sempre ignorada foi. De espaço a espaço Surgía hum Genio, forcejando apenas Por quebrar os grilhões. Baldado intento! Hia o volume universal fechado, Com sellos de Diamante, á força humana; Qual no tristonho tenebroso Inverno, Quando a densa, importuna, e grossa neve, Abafa em torno o ar; se o Sol brilhante Rasga c'o vivo raio o manto espesso, Subito foge; subito o negrume Tapa de novo o fulgurante aspecto, O Imperio estende da imperfeita noite. Tal da Verdade, e Natureza estava Envolto sempre o rosto em véo sombrio; E, se hum frouxo vislumbre hum pouco a treva Tentava dividir, mais carregada Vinha cahindo a sombra da ignorancia: Ou porque o cego Fanatismo as luzes Demorava continuo, ou porque ainda O marcado periodo não vinha Na vasta, immensa successão dos tempos, Que a mão que rege o todo ás artes marca, Quaes os Imperios são que nascem quando Do nada á vida a Providencia os chama. Quantos Genios nutrio no seio a Italia Antes que Newton fulgurasse ao Mundo? Tilesio, Cisalpino, e Bruno, aquelle Que entre chammas fataes seu crime expia! E Cardano, que entr'Arabes idéas Tantas centelhas luminosas lança! Mas nunca rompe o dia, e o Mundo aclara. Tu mesmo ó Galileo, teu passo apenas, Ao Peristillo do grão Templo levas: Não te foi dado os porticos de todo Aos homens franquear. Germania hum Sabio Produz, q' aos Ceos se lance, os astros peze, E ouse fallar de perto á Natureza; Kepler as leis universaes sentia, Que seguem na carreira ethereos corpos. E Gallia, então n'Aurora, então no berço, Ou não escuta, ou não conhece o Sabio, Que entre os gelos da Hollanda hum mundo finge De turbilhões, de vortices sonhados: E de Epicuro nos jardins se assenta Renovador dos átomos errantes Pensativo Gassendi, e em tréva envolto, Corpuscular Filosofia ensina, Onde engenho só brilha, e nunca hum passo A sempre douta experiencia avança. Ah! se mais á razão, que á fantazia Desse o Germano illustre a quem patente O vasto Imperio foi das artes todas, Se as primitivas mónadas, se aquella Pré-existente enfática harmonia Hum pouco s'esquecesse, e a voz ouvisse Da contumaz observação das causas, Mais cedo, e mais brilhante a luz raiára! Do immenso livro do Universo os sellos Aos olhos dos mortaes s'espedaçárão! Mas Newton existio, e a Terra he outra; O que era só mysterio, o que era sombra, Foi tudo luz, e sapiencia tudo, Bem como he todo luz, e he dia o Mundo Quando o disco do Sol do Ganges rompe, De arcanos naturaes expoz a cifra Rasgou-se o manto a toda a Natureza! Eis do infinito o calculo profundo Pôde abrir, e forçar cerradas portas Da Sapiencia o recatado Templo Visto apenas ao longe entre inaccessas Róchas quebradas de escarpados montes Se abrio de todo, e se mostrou qual era. Oh! que scena espantosa, oh quadro augusto! Enthusiasmo que minha alma agita Te abrange todo, te contempla, e pinta. Em teu claro vastissimo horizonte As gradações da luz, da sombra eu sigo, Empreza digna de espantar por certo A rica fantazia, o fogo, a força De Tintoreto, ou de Jordão pintando! Eu não sei que ardimento interno eu sinto, Irresistivel violencia aos versos Me leva todo, e da memoria eu tiro Thesouros cuja posse eu mesmo ignóro: Sobre mim me levanto, e alheio aos males, Que outra vez tão de perto, em copia tanta Terrivelmente minha Patria assombrão, A Lyra Filosofica tactêo, E onde não chega estrepito da guerra Eu vejo a luz que a Terra a Newton deve, De antigos évos óptica ignorada De Sarpi, e Porta aos immortaes cuidados, Ah! por certo deveo primeiros passos! Porém co' Prisma, a calculos de Newton Pode formar a analyse das côres: Do Genio, tymbre d'Anglicos triunfos, O volume doutissimo propaga A luz que em só vista, e ignota sempre. Vãos systemas té alli que o throno occupão Cahem sem força, e vigor no abysmo, e nada A Experiencia só, corrige, emenda Quanto á moderna observação se oppunha; E a nova escóla Eclectica se eleva Sobre a verdade, e calculo sómente. Eis-Eulér, e Clairault, profundos genios, Sobre o problema dos tres corpos lanção A baze ao grão saber, e altos progressos Do magestoso simplice systema, Que La Place immortal do Mundo off'rece. Quão gloriosas consequencias vejo De teus principios, ó Britanno illustre! A nutação do eixo em que se firma, Em que rodando vai pezada Terra: Do mar a exaltação, do mar a fuga, (Que fluxo, e que refluxo a proza chama): D'astros primarios movimento eterno, Dos satélites seus que ao centro tendem; Dos cometas excentricos, que o moto, E sempre incerto, irregular conservão, Os constantes periodos se marcão. A libração da prateada Lua, Astro proximo a nós, mas sempre ignóto, E a causa achada dos bramosos ventos, Do ar sonoro oscilações pasmosas; Tudo he patente já. Methodo exacto, E de integrar, de aproximar se abraça, E tudo, ó grande Inglez, tua gloria augmenta! A longa duração de quasi um cento D'annuas revoluções da Terra inerte De teus principios á cultura entrega Fontenelle dulcissimo, que Mundos Vio mais no espaço, e aridas sciencias De nova graça e formosura enfeita. Da Germania, que hum tempo, e núa, e simples A' Historiador Filosofo se mostra, Surge o grão Wolfio, e se offerece ao Mundo; Segue o trilho de calculos profundos: Mathematica luz lança no campo De quanta a Terra vio Filosofia. De ti, grão Newton, os vestigios piza, E da exacta sciencia entra o Sacrario, Em sombras methafysicas s'entranha; Quadro bem digno da attenção do sabio, Nunca em meus versos ficarás inglorio! A Inveja perseguio genio tão raro; Entre agitadas borrascosas ondas Em seu peito existio tranquilidade, E a cada tiro venenoso dava A grão resposta de hum volume douto Com que da sapiencia o erario augmenta. Do Lycêo de Berlin lá foge expulso Vai com elle a Virtude, e vai Sciencia. Da Hollanda nebulosa os sabios surgem. Ah! porque foge á magica harmonia De meus versos seu nome! As Musas fogem, E os alpes vendo, os Pyreneos não passam. Só do Tibre, ou do Téjo as aguas gostão Depois que o Trace barbaro, e que o Scytha Do Eurotas, de Hypocrene a margem pizão! Mosckembroêke, Sgravesande illustrão Da Fysica os confins. Conspicua em tudo, Antes que ao jugo Vandalo dobrasse O tão nobre até alli livre pescoço, Nevosa Helvecia n'huma só familia Da sciencia o deposito conserva. Fadada para as letras Baziléa Tantos Bernullis dá, quantos os sábios. Claro ornamento da sciencia exacta, Onde hum tempo foi Grecia, e Roma outr'ora Onde em Sena mudado, eu via o Tibre, Quanto a Fysica val, quanto se avança! Á Luz de Newton nova luz empresta, E não deixou que dezejar á Terra. Da grande Academia o Templo eu vejo, Alcaçar da sciencia ao Mundo aberto Do grande Newton a memoria, o nome, Alli qual genio tutelar preside No vasto erario de immortaes volumes Encerra, e fêcha a Natureza toda, E a Natureza toda aos olhos abre. De luz tão clara não carece Italia; Paiz tão caro ao Ceo, tão grato aos sabios, Ah! nunca os Brennos te pisassem, nunca! Devera em Cima de teus Alpes vêr-se A gráo Minerva sobraçando a Egyde Co'a angui-crinita frente de Medusa Onde os Hydros fataes s'enroscão, silvão, Petrificar as Vandalas Cohortes, Qual já Perseo c'o diamantino escudo As iras suspendeo do equoreo monstro, E Andromeda livrou. Italia, Italia, Belligeranres torreões nos mares De contrarias nações, a Hesperia, a Gallia, E a soberba Albion, respeitão, guardão Lenho que leva La Peyrouse, e marcha Co'as raras produções do opposto Mundo A enriquecer a Europa armi-potente: Não he de huma nação, da Terra he todo O sabio que a riqueza augmenta ás artes. Tal acatáda ser, tal tu devias, Ó domicilio do saber immenso, E não hirem turvar profanas armas Teus sabios immortaes, teus monumentos; Tudo em ti tinha o Mundo, e as Musas todas Tinhão firmado em ti seu Templo, e throno. De hum vate acceita o pranto, acceita os votos, Sabe que o Téjo te conhece toda Entre as cultas nações, tu só me illustras, Eu nada tenho que invejar ao Mundo, Quando em viva abstracção te roubo ao Globo; Sem Filicasa, eu Lyrico me acclamo, Ah! sem Tasso, o Cantor do acceso Oriente Cedera a nenhum outro Epica tuba; E meditando harmoniosamente Eu só fôra o Pintor da Natureza Se Arrighi, e Conti co'os pincéis não dérão A tão grande painel mais alma, e vida. A accesa fantasia hum pouco, hu' pouco Das Musas se lembrou deixando as linhas, Os cubos, e os triangulos de Newton, E a regua de marfim, compasso d'ouro Com que elle mede a Natureza toda. Com quanta gloria te serviste delle, Tu, que a tudo primeiro o exemplo deste! Não cede, não, Bolonha ao grão Tamisa Menos Florença, que, em jardins envolta, Da Fysica sciencia o Imperio estende; De Newton ao clarão marcha Zanotti: Curvo, e velho Ricatti, abstracto, e mudo A seu sacrario te conduz, Urania; De Newton nas fluxões tu luz derramas. Se teve crime a Sociedade extincta Aos olhos da razáo, tu lho disculpas, E tu pedes por ella o pranto ao Mundo. Manfredi, e Grandi, e Nicolai, de assombro Enche do Neva, e do Danubio os sabios; Não mais, não mais a progredir se atreve O grande Imperio da sciencia exacta. Onde o claro Sebéto as aguas volve, E ao perto ouve bramir, troar escuta Do medonho Vesuvio o seio horrendo, Chega de Newton a sciencia, e chega O desejo de abrir com aureas chaves Da recatada Natureza o Templo, Orlandi, e Galiani aos astros sobem, O grão Maraldi lhes franqueia a estrada; Com Cassini outra vez s'exalta o Mundo. Se muito a Galileo deveste, ó Newton, Mais a Italia te deve, as Artes devem, Na Hesperia á perfeição levadas sempre. Mecanica, aos mortaes proficuo estudo, Depois de Newton teu sacrario aberto Eu vejo pela Europa, e mais se apura Do maquinista Siculo o talento, Que atalha os vôos das Romanas Aguias; A força cede a força ás artes sabias! Quasi vejo surgir Numes na Terra, A Cujo aceno os corpos obedecem; Não he a Lyra de Anfião que os montes Manda a Thebas chegar, são leis profundas, Que ás sombras arrancou da Natureza O estudo da Mecanica pasmoso Náos se suspendem, diques s'apresentão Á furia sempre indómita dos mares. Sobe hum rio em Marly, corre hum penhasco Á ribeira do Neva, e a baze fórma Da colossal, prodigiosa móle, Que representa o creador de Imperio, Que hoje a razão defende, o crime insulta. Sem a Italia meu canto erguer não posso; Se Imperio Mathematico contemplo, Musckembroêcke, e Belidoro a guerra (Guerra dos sabios são, que o sangue ignorão) Accendem entre, si, disputão doutos Do movimento de impelidos corpos, Que a força perdem gradativamente, Até que a resistencia o móto acabe. Do Sena, e do Tamiza os sabios todos De Newton, de Amontons nas leis insistem; Eis surge, eis brilha o Bolonhez Palcani, E onde co'as doutas maquinas não chega, Mysterios da razão co'a força abrange; Traça hum ramo hyperbolico engenhoso, Assintótico o diz, com elle explica, Com elle aclara o disputado arcano. Se as leis dos corpos sólidos se mostrão Em soberana luz, quanto escondida Guardava a Natureza a lei constante, Que pôz desde o começo ao rio undoso, Que elle na marcha accelerada observa! Mil equações algebricas a escondem; Vencem-se em fim mysteriosas sombras. Depois de quanto afan, de quanto estudo Tu, Saladini, a theoria expunhas, Que escólho da mecanica tu chamas, Não superavel quasi a engenho humano! Tu deste a Hydrodinamica pasmosa; Teu hemisferio hydraulico os louvores Do taciturno pensador La-Grange Te soube merecer. Ricatti o grande Te abraça terno com silencio augusto, Sobre teu rosto lagrimas derrama; Do Sabio velho a candida ternura Mais te explica, e te diz, que o louro, o premio Que Berlin te mandou, promette o Sena. Mas teus cuidados, as vigilias tuas, Ó tu de Urania Sacerdote, e filho, Á sciencia dão luz, que os ceos abrange, Por ti seu Reino estende a Astronomia; Desde o culto Caldeo, do douto Egypcio Té quasi ao berço teu jazia em sombras; Nada avançado tinha Árabe estudo, Guardador do deposito das letras, Que á furia se evadio do Turco indouto Depois que a sabia Grecia he cinza, ou nada: Nem mesmo entre os de Dánia agrestes montes, Onde Ticho elevou seu tubo aos astros, Solar systema se aclarou de todo. Mas apenas os Ceos co'a mente excelsa, Sem te assustar o espaço indefinito, Ousaste passear, como vencida Da douta audacia a Madre Natureza, Ou fez que o Ceo, se aproximasse á Terra, Ou que a Terra de perto os astros visse. Leis occultas té alli se patenteão E o que Newton expoz, Cassini indaga. Seguindo a piza ao fundador, ao mestre Da sciencia astronomica, empunhava O Telescopio do subtil Campani; De Saturno os satellites descobre Quasi todos então; busca as estrellas, Que immortal Galileo Primeiro achára, Luas de Jove são; fanal aos nautas; O espantoso fenomeno nos mostra Da luz Zodiacal, co'a parallaxe Do sanguineo, medonho, accezo Marte A distancia marcou do Sol á Terra, Distancia que confunde a mente humana, E que a luz n'hum momento abrange, e corre; Sabio traçou Meridiana linha, E por ella nos mostra o variante Moto veloz da Terra ao Sol em torno. Então mais claro no volume immenso, Dos Ceos, já quasi aberto, os homens lêrão. Foi-lhe sugeita a abobeda brilhante A radío mathemático, qual era O mortal domicilio aos homens dado: Parallaxe annual d'altas estrellas, Que engastadas nos Ceos fixas se amostrão; Idéa falsa se aniquila, e foge, E a lei da aberração mostra a verdade. Peregrinando pelos Ceos supremos Vão sabios indagar da Terra a fórma Co'a sciencia astronomica se marca Da nossa habitação figura, e termo. Quasi se amostra a longitude ignóta Sobre inconstante mar, onde em cavado Pinho, avaro mortal circunda o globo. Incessante fadiga a luz derrama No arcano presentido, e ignóto ainda Da obliquidade do angulo, que hum pouco Em cem annos na Ecliptica decresce! Quasi deixão seu tom da Lyra as cordas Quando dest'arte nos umbraes me entranho Da linguagem dos calculos, que he sombra, Que estrema immensamente, e que divide O frio Euclides do fervente Milton. Ah! de Ariosto aos extases divinos Calculador pousado em vão se ajusta. Como indignado das prescriptas metas, Achadas até alli no espaço immenso Herschell sobe mais alto, além das tardas, Luas, que escoltão frigido Saturno. Lá corre a suspender na marcha Urano, Leva comsigo a Carolina, e ambos Revolução continua, e varia encontrão, No luminoso annel que o globo cinge, Do nem remóto, ou ultimo Saturno; Quando com elle hum Hercules comparo, Q' Olbers descobre, que a carreira immensa, No gyro de dois seculos absolve. De mais perto se observa a argentea Lua, Gelados montes tem, gelados mares, E tem Vesuvios que vomitão chammas. He cidadão, e morador he quasi Na Terra inda o mortal do ethereo assento. Desgraçado Bailly, fuma o teu sangue No cadafalso vil: tua alma agora, Já solta das prizões, lá vê nos astros Se o grão discurso teu, falhou no Mundo. Se a Terra, dizes tu, se outros Planetas Por centro do seu gyro o Sol conhecem, Talvez, que o nosso Sol, que os Soes, que fixos Parecem ser na abobeda azulada? Tenhão centro commum n'hum Sol mais puro, Mais vasto, e luminoso, e que descrevão Em roda delle, essa orbita assombrosa, Que mais remotos tem limite, e termo, Que a fantasia fervida d'hum Váte! La-Lande a imaginou, La-Lande a sente; Mas, foge, foge aos calculos, ás cifras. Virá talvez hum tempo... ah! se na Terra Não tiver duração Vandalo Imperio! Em que outros vidros, outros tubos mostrem, Que foi verdade, e luz tão grande idéa! Depositada está no aureo volume, Que sobranceiro ao cadafalso, ao sangue, Não ferio com Bailly furor de Tigres, Que ao Sena derão leis, e as dão na Europa, Que os ferros beija voluntaria escrava: Vileza, e corrupção, chegaste a tanto! Não foi sem fructo, não, ou foi deleite A sciencia Astronomica entre os homens! Ah! quanta, e quanta luz se deve a Newton! Só são dignas de apreço as artes uteis. Quão proficuo aos mortaes he nauta ousado! Se tu, Lysia, tens gloria, ao nauta o deves, Que abrio primeiro do Oriente as portas: E teu nome immortal soou na Terra, Porque teu lenho undívago a cercára, Nas Ilhas do Oceano, e mares todos, Dos Lusos se conserva o nome, e a fama. Muito pôde o valor, pouco a sciencia No seculo inda rude, alheio ás artes! Por que inda hum Newton não subira aos astros, Newton, sciencia, calculos, systemas Só Magalhães não necessita; basta Que ao lado delle vão, vingança e honra; Eis todo o Globo rodeado; he esta A façanha maior da especie humana. Era extincto o fervor nos Lusos peitos Depois que estranhas leis o Tejo ouvira, Do mar o senhorio então transfere Ás mãos Britannas o Senhor dos Mundos. De Vatennio a fadiga illustra hum Newton, Correm Bretões o mar, e o globo cercão, Não levados do sordido, e terreno Insaciavel interesse de ouro; Mas só por illustrar, dar mór grandeza Á esfera immensa das sciencias todas. Vai Cook, e vai Byron cercando o Globo Por inda não tentada, incerta via Então suspendem generosa marcha Quando em gelado mar, gelada terra Da Natureza no decreto attentão, Que atraz lhes manda bracear as vélas; Que onde a Terra acabou, findar se deve O trabalho mortal, o amor da gloria. Ó nome Lusitano, ó Patria minha, Eu culpo o teu silencio, a huma virtude, Que se apraz de esconder-se, eu chamo inercia. Descreve Newton c'o compasso d'ouro O globo que Varennio exposto havia; Foi Cook, e foi Byron, foi Bougainville, Qual Anson foi guerreiro, e os mares gyrão. Do Continente austral foge o fantasma, Que avarento Hollandez (nem hoje avaro; Nem já por crimes se conhece a Hollanda) Julgou grande porção do globo, e sua. Assombrado do gelo atraz voltárão, Mas nunca hum passo além co' lenho óvante Da Terra forão que tocára hum Luso; Magnanimo Queiroz, déste-lhe hum nome Para ti foi brazão, e he meta aos outros Do nebuloso Sul prescrutadores: E a gloria de buscar no Mundo hum Mundo, Se ao pensativo Bátavo pertence, E ao pertinaz navegador Britanno, No Tejo as bazes tem, no Tejo a fonte, Mais além de Queiroz nenhum se avança. Foi entre tantos Magalhães primeiro, Todos de hum centro os raios se derramão, Que vem tocar d'hum circulo os extremos, Tal do centro de luz, que accende hum Newton Se derrama ao grão circulo das artes O perpetuo clarão com que hoje medrão. Quanto a vetusta Fysica ignorava, Sobre a essencia do ar se mostra aos olhos; Piza-se a immensa fluida substancia; E já senhor do mar n'hum curvo lenho Não lhe basta do Globo o Imperio inteiro, Se o dominio o mortal não tem dos ares; Lá sóbe, la passêa, e vê seguro Debaixo de seus pés cruzando os raios. Do antigo Architas se escureça a Pomba; Maior prodigio guarda a idade nossa. Eu vejo pelo ar volantes carros, Quaes vão nas ondas os baixeis arfando; E nelles os mortaes tranquillos vejo Sem temer o despenho, e não lhes lembra, Que afrontada dest'arte a Natureza, Tire vingança da famosa injuria. Eu vejo o golpe, e a victima primeira Em Rosier intrepido, que sobe; Elle o primeiro foi, mas prestes passa, Do regaço da gloria ás mãos da morte. Porém mais uteis os trabalhos vejo Dos sabios, que o caminho a Newton seguem; Eis a fonte de incognitos arcanos Aberta aos olhos dos mortaes absortos; Eis o electrico fluido pasmoso De fenomenos mil já causa ignóta; Do raio a patria se conhece, e teme, He das nuvens a electrica peleja. Se trôa, se rebrama o escuro Inferno Dentro do bojo de Vesuvio, e exhala O fumo que se expande, e o Ceo nos rouba, E traz ao dia de repente a noite, E aquella chamma, que entre estragos tanto, Chora o Mundo o maior, de Plinio a morte; Aqui descobre electricismo o Sabio. Sabios illustres, que mysterios tantos Descortinar, e conhecer podestes; Legislador Americano, os évos Teo nome guardarão; Nollet, teu nome Da sapiencia nos annaes gravado Eternamente vivirá; se as artes Barbaridade, que extermina tudo, Quizer poupar da aluvião de ultrages, Que ás leis, á Natureza, e aos Ceos tem feito. Da multi-forme Boreal Aurora Mairan, seguindo os calculos de Newton, Expoz a causa aos seculos ignota. Da atmosféra solar porção tirada Por veloz rotação do terreo globo. Ao ar então se communica espesso, Que as tristes regiões do Polo abafa. Tu, de Bérgamo o tymbre, sabio illustre, Tu, Savióli, que na Lyra d'ouro, Cantaste os dons de Eráto, os dons d'Urania, Do Volga, e do Boristhenes ás margens Foste observar de perto o accezo quadro, Do Boreal Fenomeno, tu viste Nos gelos que c'os Ceos quasi confinão A reflexão dos luminosos raios, E tantos, taes listões formar nos ares, Que pelas vastas regiões das sombras, Ou da morte talvez, suprem hum dia. Das Artes no progresso a gloria vejo Da indagadora Chimica, que tanto Da Europa pelos angulos se acclama (Com tanto ardor, que enthusiasmo he, certo!) Interpetre fiel se diz da vasta, Té agora occulta Natureza toda. Já de antigos delirios despojada, Se ella analyza os simplices, não busca, Lisongeando sordida avareza, As pedras converter, (que insania!) em ouro! Té mãos Imperiaes viste, ó Florença, Depondo o sceptro, tactear cadinhos, Tanto o prestigio de tal arte póde! Mas se delles a Purpura não foge, Fogem por certo as Musas d'espantadas: Nega-se a Lyra a barbaros, e escuros Termos, que jurão sanguinosa guerra Do metro Luso á mágica harmonia. Morre-me a chamma, que me ferve n'alma, Se hydrogenio, se azóte, ou se oxigenio, Ousados vem barbarizar meus versos. Não te negão porém lugar, nem gloria, Lavoisier illustre, que hum momento Inda pediste ao barbaro Tyranno, Da vida, ai dor! que despiedado córta, Em que inda mais á Natureza abrisses, Nunca de todo, o sanctuario, aberto! Mas hum Tigre quer sangue, e não sciencia; Tu não choras a vida, a perda choras, De huma verdade, que comtigo em sombra Perpetuamente no sepulcro he posta. Nem do globo as reconditas entranhas Da vista ao sabio indagador se occultão; Tal he o Imperio do brilhante facho, Que Newton accendeu! Henckel, Bomare Então das minas pela tréva espessa Perdem de vista o Sol, da vista o dia, E á debil luz de palida lanterna O profundo vão ver Laboratorio, Em que os metaes prepara a Natureza: Dos homens os quiz pôr, tão longe, e longe! Vio que do ferro só, não curvo arado, Mas liza espada fabricar devião, E do bronze os canhões, que o raio imitão, A tanta assolação chamando gloria. Mais o ouro escondeu no abysmo, e sombra, Devendo ser do mérito a corôa, Quasi sempre he do crime o premio, e causa. Mas eu duros metaes deixo nas sombras: Distem pouco do Inferno, eu busco o quadro, Que em sua face a Natureza mostra. Estudo immenso, dos mortaes só digno, Perenne fonte das sciencias todas, Das mesmas Artes mãi que estende o Imperio Por quanto abraça o ar, a terra, os mares Desde o vasto Elefante, á vaga, e bella Borboleta gentil, que beija as flores: Da gigantesca, ou colossal Balêa Ao pequenino lucido testaceo, Que, igual ao grão de arêa, á vista foge: Desde o cedro soberbo, á relva humilde, Que os gados tózão, que tapiza os prados. Estudo liberal, que engenho humano Descobre vasto, interminavel campo, Que o orgulho scientifico confunde Com tanto, vario, e differente objecto, Que imperceptiveis relações conservão; Quaes anneis entre si ligados sempre, Interminavel a cadêa formão, Que prende, e tem principio em Ser Eterno. Tão vasto estudo, glorioso, e bello, Tanto mais se cultiva, e mais florece, Quanto é menos pezada, e menos densa Nuvem que assombra o social estado De Antiquario pedante, ou Vate inerte, Vadio adorador d'alta belleza, Cuja vida he desprezo, a morte he fome: De hebdomadal efémera caterva, Que do nada surgio, e ao nada torna Depois que o povo no momento d'ocio Escarneceo profeticas promessas. Estudo augusto, que propaga e cresce Onde menos o estólido Forense, E impertinente Puritano existe, Rico de frases só, de cousas pobre; Onde menos a enfática Impostura Precursora da morte, a morte apressa; E o Quinhentista moedor, mysterios Nos parece mostrar, se mudo, e triste Pulverulento códice idolátra, Que he rico só de antiguidade, e traça. De insectos taes em ti não viste a praga, Aviltada Germania, ah! quando ao Mundo O grande author das mónadas off'rece A Prothogea. Nem Britannia a sente Quando Johnston, Derrham, e hum Lister dava. Nem com elles, Italia, então gemeste Quando dava a Botanica Zanoni: Quando hum Morgagni teu, quando hum Borelli, Nos penetraes da Natureza entravão: Equando Valisnéri a expunha toda; Já limpa, e livre de pedantes eras, Quando a tócha accendia Spalanzani, E arranca de seu seio altos arcanos, Quaes desde o grande Peripáto os evos, Nunca atélli descortinar podérão. Nem Gallia (agora escrava em sangue, e ferros, Qual de Piratas viz n'Africa Emporio, Que o mar Tirreno co'as Galés infesta;) E de rapina, e violencia existe, De Novellistas oppremida estava Quando o grande Buffon n'hum quadro immenso A Natureza á Natureza mostra. Se a tempestade das Novellas surge, Se os Jornaes a si mesmo, e os homens matão, Se a militar, politica mania Começa de deixar tão ermo o Globo, He pastor Daubenton, Sonnini expira (Inda feliz que ao cadafalso escapa) Do esquecimento, e da penuria em braços. Da Natureza não prospéra o estudo, Nem se conhece hum Newton, se estes vermes Da sciencia os alcaçares maculão: Nunca do Tejo ás margens se aproximem, Terá throno a sciencia, as Artes preço: Lusitania terá Buffons, e Plinios; E Vates, que estudando a Natureza, Saibão dar justo emprego ao dom das Musas, Se tem tal nome, o ingenito talento, Que alta facundia a numeros sugeita, Que em grande tudo vê, que imagens falla, E que, a razão ligando á fantazia, Dá força, dá calor, dá vida a tudo. Mas de tristeza hum véo me envolve, e fecha Tudo o que palpo, e que diviso, he sombra! Della vejo romper Fantasma horrendo; Ao rosto atroz, ás Sanguinosas vestes Eu conheci, (que dor!) Barbaridade! De Omar a ferrea Simitarra empunha, Na esquerda, e negra mão fulgura a tócha, E se me antolha já q' hum vasto incendio Das Artes o deposito consume: Que já são pasto da estridente chamma Das Musas todas as vigilias doutas! Nem teu mesmo volume escapa, ó Newton. Oh perda!...Oh Albion, manda os teus raios Elles podem vedar barbaro incendio. Corre, e na Hespanha pulveriza os monstros, Que onde quer que do corpo a sombra espalhão, Turva se o ar, se esteriliza a terra, Da vida, e da sciencia amor expira. Em quanto além do Vistula rompendo D'honra, e valor o sufocado incendio Desfeicha o raio, que talvez da Europa De huma vez para sempre a injuria vingue. Então do cáhos recuando o Imperio, Hum dia assomará que traga ao Mundo A luz que a Grecia vio, quando na escóla O Genio de Estagira absorta ouvia; Quando acceso Demosthenes da boca D'aurea elequencia as ondas entornava, E além das nuvens Pindaro subia; A luz já vista fulgurar em Roma Quando Augusto a seu lado assenta Horacio, Ou Tullio a dubia liberdade escóra: Qual seculos depois raiou mais clara Do Decimo Leão no Imperio eximio, Quando o Segundo Julio ás Artes abre O Templo, que até alli fechara o Godo: A luz que a França mais ditosa vira Do tão Grande Luiz brilhar nos dias. Então dos Ceos descendo a Paz serena, Da porficua Oliveira ao lado os Louros Fará brotar, reverdecer, c'roar-se Com sua rama a magestosa frente Do profundo Filosofo, e do Vate.

_Fim do IV. e ultimo Canto._

[1] Deve entender-se o termo--frugal--no sentido proprio de sustento parco; pois diz Collero, que se sustentava de sopas de leite, e passas, e era tão modesto nos vestidos, que trajou sempre de preto, e de mui grosseiro panno; respondendo ao Gran Pensionario da Hollanda, que lho estranhou--Que o edificio humano escusava ricas armações.

[2] Contra os meus propositos a respeito de notas, me vejo obrigado a esta, talvez que em hum passo escuro para muitos eruditos: Cicero entre seus escravos tinha dois, ambos Gregos, hum chamado Tyro, que era seu leitor, e a quem Cicero escreveo muitas cartas; outro chamado Posidonio, inventor da machina a que chamamos--Planetario--; ainda que não tão perfeita como a vemos. Isto diz o mesmo Cicero, a Attico, fallando da machina "_Quem nuper Possidonius noster ut venit._"

[3] Collero na Vida de Espinosa diz, que seus paes erão de Beja, e que elle nascêra no Porto, donde fora levado para Amsterdão de dois annos de idade, hindo tambem com seus pais o célebre Jacob Murteira, que depois foi seu Mestre: este foi o que depois se rio do desafio de Antonio Vieira.

Notas de transcrição.

No texto original existem alguns caracteres que não têm representação no sistema iso-8859-1 e que foram substituidos por marcadores especiais. Os marcadores usados nesta versão electrónica foram os seguintes:

[~u] Resprenta um u com um til(~) por cima e que parece ser uma abreviatura dos caracteres "um".

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