Chapter 2
Da Sapiencia antigos amadores, Os Sacerdotes do celeste Nume, Ao sacrosanto Templo alto ornamento, Com seus bustos em porfido formavão Do magestoso altar decóro illustre; Puro, innocente altar, onde a profana Mão despiedada dos mortaes infrenes Nunca pozera victimas de sangue, De que tanto se apraz da guerra o Nume, Que o cego Fanatismo, ah! tão frequente! Nas torpes aras da Ambição degolla. São incensos aqui puros affectos, E o remontado pensamento os votos; São offerendas extases sublimes, Vôos da mente, que s'eleva aos astros, E corre o immenso espaço. Aquella Deosa, Que o berço tem nos Ceos, qu'he dom dos Numes, Que he mãi das Artes, e inventora dellas, De magestade, e de belleza cheia, Taes holocaustos no seu seio acolhe. Vi, (qu'assombro!) de luz cercado o vulto Do primeiro mortal, puro, innocente, Qual já das mãos do Creador dos Mundos Sahio primeiro, e dominou na Terra. Do Divíno saber nasce ensinado, Das cousas conhecia a essencia propria, Impoz o proprio nome aos seres todos. E junto delle fulgurando estavão Em menos viva luz seus tardos netos, Que delle, como herança, alta doutrina N'huma idade de seculos colherão: De labio em labio aos pósteros a mandão Té qu'horroroso, universal Diluvio Fez que de todo agonizasse o Mundo. Via logo a Noé, que intacto surge Do lenho guardador da especie humana: Aos filhos seus dos fulgurantes astros O aspecto, o moto, as posições ensina. Sublime Sapiencia, e douto estudo, Que tão illustres fez, depois da obscura Confusão de Babel, nações diversas, O innocente Caldeo, o Arabe experto, Do Nilo o morador mysterios todo, E o Persa audaz idólatra do fogo. Descubro a Prometheo, e o velho Atlante Em que a verdade a Fabula reveste Da Poesia co'as brilhantes côres. Hum, com fogo dos Ceos, anima o barro; Outro o pezo sustem do excelso Olympo. Vejo o profundo Trimegisto, e vejo. O sublime Cantor harmonioso, Que de Troia a catastrofe nos pinta, Que, em brando verso, imagens lizongeiras, Da Sapiencia os pennetraes nos abre; A idéa em si contém das artes todas. Pelas margens do Indo, e turvo Ganges Meditadores Brâmenes diviso, Que em sombra muito espessa a luz envolvem, E a verdade entre symbolos nos dizem. A Confucio Chinez descubro, admiro, Que a voz escuta á sabia Natureza, E firma o summo bem só na virtude. Tres Zoroastros, que nas sombras plantão Luminoso fanal, que á Persia, e Egypto Das Artes para o Templo a estrada aplaina. Logo dois immortaes cantores vejo, He Lino, e o doce Orfeo, que a Lyra d'ouro Com tanta fez soar maga harmonia, Que doceis se tornou troncos, e penhas, Que do cáhos no escuro horrendo centro, Principio do Universo, Amor plantarão. Pensativo Beroso alli contemplo, A quem de Athenas a famosa escóla Estatua alevantou d'ouro mais puro. A par delle he Chilon, que o dia extremo Sem pena, sem temor contente encára. Do tyrannico sangue alli manchado Pittaco á morte sobranceiro existe. Legislador Solon de brando aspeito, Que com vasto saber enlaça Astréa, E ás leis soube juntar Filosofia; Dos bons Monarchas o modello he este! Depois Zaleuco vi, depois Carondas, Ambos com justas leis Sicilia exaltão. No meio bem do taciturno alvergue De Pythagoras sabio o vulto admiro, No rosto, e ar mysterioso em tudo, Que da Unidade, ou centro aos seres todos, A origem fez sahir, principio, e causa. Cleóbulo descubro, elle a formosa, Sabia filha gentil conserva ao lado, Que da engraçada boca em aureo rio: Eloquente entornou Filosofia: Ah! nunca aos homens se mostrou tão bella! Admiro mais além Biante o sabio, Que digna só julgou de humano estudo Moral, que na virtude a alma levanta, Em sua mesma magestade occulta, Deixando a Natureza, enigma escuro, Indecifravel aos mortaes mesquinhos Em quanto em fragil barro a alma se prende. Periandro alli vejo, e vejo o Scyta Anacharsis, Filosofo profundo, Cujo nome immortal materia, e fama Deo neste ferreo tempo ao douto escrito, Que a Grecia em si contém, co'a Grecia tudo. Vejo a Misson, que symbolo o destingue? O nobre, e nobre só proficuo arado, Que o seio rasga á terra agradecida: Delle se peja a estólida vaidade; Do Filosofo á vista he mais que hum Ceptro: Na cultura do campo o sabio he grande; Nem pode o estudo ter mais digno objecto; E nunca outro mister, nunca outras artes, Com mais afan buscasse o engenho humano! Celeste Agricultura, oh digno emprego Té do mortal primeiro inda innocente! Eu distinguo Epiménides, que deixa A escondida caverna em que medita, Aos homens vem mostrar da luz os raios Ferécides, Bericio, e aquelle observo, Que a Frygia vio nascer sublime, e douto, Que em lizongeiras fabulas esconde Quantas depois lições do justo, e honesto O Pórtico sublime, a Estóa derão. Thales descubro então, brazão da Jonia, Que he da primeira escóla excelso mestre, Que á Grecia deo lições, deo luz, deo tudo Quanto soube alcançar de Astronomia Do protentoso vidro o olho despido. Elle primeiro do Solsticio o ponto Sobre a Terra observou, e elle primeiro Predisse aos homens pavoroso eclypse, Que rouba a luz á Terra, e a paz ao peito, Deste mysterio assustador ignáro. Elle o principio assignalou do Todo, O humor aquoso que circunda o globo. Vejo Archeláo, Anaximandro admiro; Este infinita julga a Natureza; (Ó Portuguez Hebreo, tal foi teu erro!) Aquelle julga que as primeiras causas Só são da geração calor, e frio. Anaximenes do Orador Romano Sempre admirado, alli contemplo, admiro, No móto eterno da substancia eterna A essencia poz de hum Árbitro supremo, E deo ao Mundo por principio immenso, A substancia do ar, vasto, infinito. O profundo Anaxágoras diviso, De fundos olhos, de enrugado aspeito Prolixa barba, atenuado corpo, Que ardente pedra incombustivel julga O luminoso Sol. Vai branco, e curvo, Calva a rugosa frente, a tez sombria, O protentoso Sócrates, o justo, (Quanto o ser pode a Natureza impura) Attento sempre ao movimento interno Do humano coração, regeita, e mófa Dos vãos systemas fysicos do Mundo, Que á mente dos mortaes ignotos deixa, E s'apraz de deixar Motor Superno. Só da austera moral segue as pizadas, E avezado o mortal ás vans idéas Da vacillante Fysica o procura A estudo reduzir da essencia propria. Só quando o homem se conhece he sabio! Vejo Aristippo, Antísthenes descubro; Hum busca o summo bem no inerte, e baixo Prazer que encanta os corporaes sentidos: (Ó lisongeiro do soberbo Augusto, Teu systema tal foi, teus aureos versos Aristippo sómente, e Amor respirão!) Porém, mais sabio Antísthenes encontra Só d'alma no prazer, ventura extrema; Este o primeiro da assisada turba Do Cynico mordaz. Crates contemplo, Que julga inutil pezo a vã riqueza, E no abysmo do mar com ella esconde O inquieto temor, voraz cuidado. Alli Monîmo admiro, e Zeno, e Hiparco, Vejo a vagante habitação do Sabio Diógenes pasmoso, e alli defronte Em pé contemplo o assolador do Mundo; Da esquerda parte inclina hum pouco a frente, E a fluctuante clámyde lhe arrastra; Pende-lhe ao lado o ferro, e delle em torno Calisthenes contemplo, e mudo, e quedo O grande Efestião. Elle alça o braço De quem Persia se teme, e teme o Ganges, E ao pobre habitador da cuba off'rece Seus thesouros, seus dons; tranquillo, e grande, Só lhe pede que ao Sol não véde as luzes, Nem lhe tolha o calor que ao frio, inerte Corpo negado tem Frugalidade. Se houve grande Filosofo, he só este! Com taes lições, já Menedemo he grande, Que hum só bem conheceo, e he só virtude. Euclides vejo, e Pontico, avezado Á contumaz contradição de tudo. Vejo Estilpon magnanimo, que a intonsa Cabeça traz, e descoberta sempre: Pobre o vestido tem, e os pés descalços, Com elles piza a vaidade, o fausto, E quanto pede o coração lhe nega. Ó grande Preceptor do ingrato Nero, Se isto não foi teu animo sublime, Ah! são por certo teus escritos, isto!! Diofantes, Apolonio, eu bem destinguo, Tem nas mãos o compasso, e tem na terra Immoveis sempre os encovados olhos; Alli descreve as trabalhosas curvas, E além disto não mais surge esta idade; Não foi mais Galileo, nem mais Des-Cartes! De Estoico rigor seguindo a trilha Eu vejo envolto em seus possiveis Zeno. De veneravel rosto accezos olhos Eu descubro a Platão, Platão que o Nume Nos objectos que vê, contempla, adora; Que a novo Amor dá luz, e alegre espera Que a seu astro natal sua alma torne. Ó sublime doutrina, ah tu podeste, Dentro da Escóla de Florença outr'ora, O eloquente escutar Policiano; Se as letras tem na Europa apreço, estima, Se em seu amor se me embranquece a frente, A tão sabio mortal, tão grande o devo! Este o tributo, que meus versos pagão: Que mais te posso dar? Teu nome he tudo. Vejo Espeuzipo imitador da grande Virtude illustre de Platão sublime: Teve commum com elle, o estudo, o sangue; E a baze eterna lança á Academia, A quem deo nome o milagroso Tullio. Da belleza inimigo, e da ternura Xenocrates descubro austero, e triste, Vergonhoso baldão da especie humana, Que, nem ao mago scintilar d'huns olhos Nem ao surrizo de purpureos labios E ás aureas ondas de madeiras d'ouro, Sente no peito a Natureza toda, Q'até do fundo abysmo aos monstros feios, E sanguinario Tigre, amar ensina. O pertinaz Arcesiláo na escola O segue, duvidando, a alma suspensa Entre a diversa opinião conserva. A imagem de Carnéades descubro, Da nova Academia he timbre, he gloria Cuja alma excelsa da verdade indaga, Entre o provavel sempre, a estrada incerta. Pythéas vejo que do antigo Sabio, A quem Samo talvez já déra o berço, Vai seguindo as pizadas, e se julga Continuo habitador de corpos varios. Este aos ceos porporção, este a medida Primeiro assignalou; dos aureos astros Para hum centro commum conhece o móto Naquelle antigo symbolo mostrado Da septicórde auri-sonante Lyra, Que Febo tem nas mãos, q'o Vate inveja; E se lhe antolha, que escutava ao perto Sempiterna, multiplice harmonia, Da Esfera portentosa alto-brilhante; Talvez nelle encontrasse o germe, a fonte De seu systema de attracção, sublime, Infatigado explorador Britano.... Meditador Empédocles já vejo, Que julga (ó fraco dos mortaes discurso!) Suor do terreo globo o vasto Oceano; Se este, se este não foi, Buffon facundo, Esse teu vapor humido, que a Terra, Destacada do Sol, e ardendo em fogo Ao mais subido d'atmosfera exhala, E cahindo de lá se fórma em mares! Do Italico saber brazões sublimes Tidas, e Architas fulgurando admiro; Ambos julgavão cada estrella hum Mundo. Suspenso pelo ar alto infinito, Onde hum astro central preside a muitos Rotantes globos, q'em si mesmo opácos Reverberante luz delle recebem: E no globo gentil da argentea Lua Mares, selvas, montanhas supozerão, E de ser pensador fecundo alvergue. Este nas margens do revolto Sena, Que hoje escravos só vís, só ferros banha, Teu pensamento foi, sublime engenho, Quando d'hum Mundo n'outro Mundo ignóto Levaste a passear matrona ímbelle, Do prazer filosofico em ligeiras Azas de accezo enthuziasmo ouzado. Tal foi a idéa de profundos sabios Que tão soberba opinião vestírão Das côres da razão, qual tu fizeste Nessa pasmosa extatica viagem Com q', ó profundo Képler, te lançaste Por entre os astros aos confins do Todo. Na escura tez Prothagoras conheço, Que entre sophismas envelhece, e nega, Oh! sacrilega audacia! hum Deos ao Mundo. Nem vê na grande architetada mole De hum Ser eterno a mão reguladora! Cheio de assombro, e maravilha fito Na imagem de Demócrito meus olhos; Abdera o vio nascer, e a mente excelsa Na grande esfera da sciencia entranha. Vejo a par delle Heraclito, que chora Ao triste aspecto da miseria humana, Em quanto aquelle no incessante rizo Com soberba indiscreta o Mundo insulta: Ambos no excesso opposto hum erro abrange. Vejo a Pirron que pertinaz duvîda Do que tem da verdade o cunho impresso; Muda sempre de côr, muda de aspecto, He duvidoso, e vacillante sempre; Filosofico orgulho, e quanto, e quanto Se fecundou teu germe em peito humano! Teu scepticismo do erudito Baile Os escritos manchou, q'espalhão sombras N'hum ponto unindo o verdadeiro, o falso! Entre guerreiras machinas envolto, Entre abrazadas náos vejo Archimedes: Cheio de palmas, de laureis lhe chora De Siracuza o vencedor, a morte; Foi esta a vez primeira, ó grão Marcello, Que sobre a Terra fez Heroes o pranto! Illustre pranto, que aligeira ao Mundo O ferreo jugo do Latino Imperio! Eis descubro Epicuro, o vulgo insano Nelle descobre hum ímpio, eu vejo hum sabio Frugal, modesto, taciturno, humilde, Que d'alma no prazer, puro, e sincero Suprema quiz constituir ventura. Entre viçosas arvores se assenta De hum ameno jardim; medita, ou finge Os infinitos átomos no vácuo, D'hum laço casual produz os Mundos. D'alma foi erro, e da vontade engano Não passa ao coração; tranquillo, e puro Ama a virtude. Ó Seneca, foi este Teu pensamento quando instrues Lucilio. Mas erraste; he chimerica a virtude Em quem della não vê n'hum Deos a fonte: Quem no acaso conhece o author do Mundo, Se não erra, e blasfema, então delira! Eis d'Estagira o Genio, eis o prodigio Talvez, talvez maior q' a Grecia vira. Do Mundo he mestre, a Natureza he sua, Não se confunde o Peripáto, e elle: Elle foi luz, o Peripáto he sombra. Não he seu mór brazão ter visto o Mundo Do Mundo o vencedor posto a seu lado, Pois de Alexandre, que conquista a Terra Só devia Aristoteles ser mestre. He seu tymbre maior ter da sciencia Quasi o infinito circulo corrido. Inda em seus livros q' a ignorancia altera (Ignorancia dos Arabes soberba) Saber encyclopedico descubro. Se hoje tudo he Buffon, se Plinio he muito Senão fora Aristoteles, não forão. Bem como hum Nume ao Mundo as bazes lança Quando no instante productivo o manda Sahir do centro do confuso cahos; Assim das artes, das sciencias todas, Quasi no cahos da ignorancia envoltas, Lança o grande Aristoteles as bazes. Quando deixou de perseguir o Mundo A Sapiencia, o merito, a virtude? Tristes aves da noite a luz odêão: D'Athenas Aristoteles se esconde, Em voluntaria morte azylo encontra. Na sublime cadeira então se assenta (E alli brilhando estava) o douto, o grave Da Natureza interpetre Theofrasto; Desgraçado Calísthenes lhe escuta As sublimes lições, e o grande Endemo, E a respeitavel multidão dos Sabios Affeitos sempre a passear pensando. Do Tybre a escravidão, do Tybre os ferros Tornão de Athenas, e Corintho o fasto Em pobre aldêa, ou lastimosas cinzas: Eis se transplanta a Sapiencia a Roma; E, se da Gloria o Templo as armas abrem A seus grandes Heroes, tambem seus Sabios No eterno Templo da sciencia eu vejo. Entre todos mais luz, talvez mais clara, Que a que se espalha dos Argivos bustos, O protentoso Cicero derrama! Nenhum Sabio formou do Eterno Nume, Entre as sombras Pagans, mais alta idéa! Elle incorporeo, immenso o considera De eterna Providencia, Amor eterno. Existente por si, e author do Todo. Por certo entre os mortaes nenhum té agora. Tão profundo saber juntou co'a rica D'aurea eloquencia exuberante vêa! Do Epicurêo Lucrecio então descubro O pensativo, e descarnado aspeito: O centro tira do Universo, e Mundos Infinitos julgou no immenso espaço. Alli vejo Epitéto humilde escravo, Mas entre os sabios soberano, e livre; Cuja fragil alampada hum thesouro Entre as joias valeo da antiga Roma. Vejo o vulto de Seneca, seus olhos, De huma luz ardentissima, levanta Meditabundo ao luminoso assento; Piza as salas fataes d'ebano, e d'ouro, Onde o sangue materno hum Nero entorna, Onde jaz de Germanico o cadaver Seneca o monstro louva, e s'entristece: Dependencia d'hum throno a quanto obrigas Pequeno em obras he, grande em sciencia Elle a vida antepoz ao justo, ao pejo Por ella perde de viver as causas: Mas em seu gremio o tem Filosofia, Só porque disse q' ás acções internas He presente hum juiz, presente hum Nume. Roma nelle acabou. Na foz do Nilo Imperial Alexandria surge; Ella produz o Eclético Potámon No Templo veio fulgurar seu rosto. Da bella Hipacia a formozura brilha; Eloquencia, e saber da boca entorna Entre suaves halitos de rozas, Que transportado Origenes lhe escuta. Em sua escola Próculo se exalta, Amónio, Celso, Jamblico, e Porfirio, Que mal sabido Platonismo illude. Vejo n'hum throno, sobranceiro a muitos, O magestoso vulto auri-esplendente Do novo Tullio, o fluido Lactancio, Talvez maior, que o Consular de Arpino. Não era longe delle, em sombra envolto Da prizão melancolica, Boecio; Vai banhando os grilhões d'amargo pranto Té que raiando vio Filosofia, Que as sombras rompe, as lagrimas lhe enchuga. Profunda escuridão, profundo luto No vasto Imperio das sciencias pousa; Onde apparecem Vandalos, acabão. Quaes vemos entre nós do Sena os monstros, Que vem das artes derrubando os Templos; Vem do gelado, tenebroso Arcturo Bando, de morte, e de ignorancia armado, Apenas ficão gárrulas escólas, Que hum só busto não tem no eterno Templo, Té que dos gelos de Sarmacia surge Copérnico immortal, este o primeiro Que alli se manifesta, alli fulgura Entre os astros envolto, entre as esferas: Vio Sol immobil, vio rodar a Terra, E apenas o immortal pasmoso escrito, Ao respeito dos seculos entrega, O templo augusto da sciencia todo De protentosos sabios se povôa. Eis se me amostra Galileo, dos astros O novo Cidadão, tem curva a frente, E descarnadas mãos co'as vís cadêas. Cinge-lhe Jove na enrugada testa As q' elle achára incognitas estrellas. D'antiga Resia veio o alto ornamento, He Bernúlli immortal. Na margem fria Do discordante Baltico diviso O grande author das Mónadas, q' encontra No composto mortal mága harmonia Entre a composta, e simplice substancia. Nascido a meditar, modesto, e mudo, Da nebulosa Hollanda em canto escuso, Do grão Des-Cartes magestoso vulto Entre as sombras, e a luz plantado admiro. Hum globo tinha aos pés nas mãos hum facho Q' ao globo espanca a tréva da ignorancia. Legislador sublime além brilhava, Verulamio infeliz, primeiro as portas Da recatada Natureza abria. O desprezado á cinte, e ignoto a muitos, O frugal Espinosa aqui surgia.[1] Errou que he homem, mas errou com elle Toda a escóla Eleática, e tu mesmo, Ó Seneca immortal, com elle erraste: E Campanéla, e Bruno, e a nós mais perto Contradictorio Mirabaud, deliras. Mas quem, profundo Hebreo, te nega engenho? Em força d'alma hes unico entre todos Dos que além penetrar julgão que he dado Do que foi dado a pensamento humano. Eu te posso impugnar, e outros te insultão. Talvez eu sorte igual no Téjo alcanço Não penetrando da Sciencia o Templo, Porém no ingénuo dom d'ingenuos versos, Que a si por premio tem, por méta a Patria: Béja te deo teus pais, teu berço o Douro: Alguma cousa tens commum comigo. Alli d'Obergio, Mallebranche, e Locke Os aureos bustos luminosos via, Que em transcendente fluido brilhante Para hum Mundo ideal seus passos guião, E, as sombras methafisicas rompendo, Sem fallar ao sentido as almas fallão, Abrindo o geometrico compasso Quantos talentos assombrosos vejo! Entre o Germano agudo, e ameno Franco Do Italico saber vejo os milagres. O que Diofante, o que Apolonio excede, Do grão Toscano a par, brilha Viviani. Sexo, sexo gentil, na Italia hes grande; Nos Labyrinthos do profundo Euclides A formosa Ardighelli, e Agnezzi entrarão Outra Laura maior, q' essa, que outr'ora Do vate, todo amor, deo força á Lyra, Nos penetraes da Natureza entrando, A Spalanzani explica altos mysterios. Com ella Boscovich subiste aos astros. Não te vence hum Maraldi, e nem Cassini: Talvez, talvez, que a formosura as graças Me pareça que dão luz ás sciencias. Algaroti, teu vulto alli contemplo, Tão grato foste ao Salomão do Norte; Porém mais grato a mim, e ás artes foste; Entre o fulgor da purpura mais brilha Do grande Passionei a excelsa imagem; Issocrates te cede, inda que venha Do grão pezo dos seculos seguido; Não tem que oppôr-te, ou q' igualar-te o Sena, E menos tem q' equiparar-te o Mundo Encanto omniscio, universal Roberti: Não me cega a paixão, q' ao Tibre eu guardo, Nem o clarão de Italica sciencia Tanto me cega, e me deslumbra tanto, Que não veja raiar no Templo augusto D'Anglia, e Germania os protentosos sabios. Alli d'Hobbes descubro a imagem triste; Alli vejo Stanley das Artes Livio; E o que nasceo para illustrar o Mundo Desde o frio Danubio, o grão Bruckéro; E Kant, a si clarão, e enigma a todos. Alli brilhava Degerando illustre, Que em mui douto suor banha os escritos, Que eterno fazem nos umbraes da Gloria De ti, Filosofia, ávido amante. Meigos olhos lançou tambem no Téjo (Quando ha de, ó Téjo, conhecer-te o Mundo?) E, entre inda sombras Arabes descobre O profundo Vernei, o ameno, o rico: E, que dissera se encontrára hum Nunes; Astros, astros do Ceo, prendeo-vos elle E, o subtil instrumento ao nauta entrega, Ao nauta Portuguez, senhor dos mares: Sem elle Cook o globo ah! não cortára! Mas lá foi Magalhães sem elle, e cerca, Porque a si se levava, o mar, e o Mundo! Tu nos meus versos mofarás do Lethes, E a gloria que te nega a Patria ingrata Em suaves canções te outorga hum vate. Ah! permittira o Ceo, q' o preço humano Á morte não pagára alma tão grande! Eu não deprimo o merito, o talento; Naquelle alcáçar resplendente estava (Deposto hum pouco o Tragico cothurno,) O florido Voltaire, Sceptico illustre, Emilia tinha ao lado, Emilia o tymbre Talvez maior do feminil engenho; Com ella corre a passear nos astros. Eu lá vejo Nollet, Brisson descubro. Salpicado Bailly de fresco sangue, Indagador Sonnini a quem Fortuna Se honras na vida deo, na morte as néga; Vive em sciencias, na pobreza expira. Além dos mares a Franklîn descubro, Que o raio foi prender nas mãos de Jove. De Prussos vejo o busto; o nome ignoro, Ou barbaro talvez não cabe em versos; Aurea lingoa do Téjo em vão procura, Em seus cadentes numeros suaves, E na Lira ajustar, que a Grega imita, Os acres sons dos Hyperboreos nomes: Mas não faz dura a metrica harmonia O teu nome ó Linneo, tu sacerdote Do Sanctuario d'alma Natureza; Alli vejo teu busto, alli cercada A frente tens de peregrinas plantas, E tu, qual novo Adão, dás nome a todas. Hum ramalhete de purpureas flores A Europa, a Lybia, a America t'off'rece; A Asia de tantas maravilhas chêa Das margens do Mecón, do Ganges, do Indo Grinaldas te prepara, e lá tas manda, Tão bellas quaes as pinta o China astuto: Ceilão entre seus balsamos as tece. E o suave vapor, q' a Aurora exhala, Lá no berço onde nasce, e espalha rozas, Em dourados túribulos te invia. Não tiverão os Reis, tributos destes! Ao poder se negou, dá-se á sciencia. Maior gloria me chama, hum novo busto Que entre todos maior, mais luz derrama. Este he Buffon, que não mortal parece. He seu louvor, universal silencio: Nem lingoa humana diz, nem mente abrange Tudo o que foi Buffon; contemplo, e calo. Se he mais q' a Poezia, he mais que humano Rafael co'os pinceis, Buffon co'a lingoa.... Só Natureza he mais, porq' elles morrem, Morre, não ella, taes rivaes supplanta. Só Newton he maior; que entrego a palma. Não ao que pinta, ao que conhece as causas; Se este he só venturoso, este he só grande. Com tanta luz atonito, e suspenso Volvo os olhos de hum lado, e bem no meio Do magestoso Templo o altar estava. Por argenteos degráos se avança e sobe, Mas com trabalho, á baze alabastrina. Alli sentada--Experiencia--estava. Eu prompto a conheci no rosto antigo Na longa veste, e diamantina tarja, Em q' esta li gravada, aurea sentença: "Das cousas mestra eu sou, dos homens mestra" N'hum quadrado Geometrico se assenta O sacrosanto altar, e em cima posto Vi como hum vaso de alabastro puro, Que não de Fídias o cinzel abrira; Teve artífices dois, Estudo, e Tempo. Do seio lhe rompia etherea chamma, Q' ante o Nume brilhando aos Ceos subia Inextinguivel lampada, que os annos Vão augmentando progressivamente. Formão á Deosa os seculos hum throno Mais que os rubins precioso, e mais segura Materia tem, que o sólido diamante. Tem cheio o rosto de Viveza, e graça, Que amor no humano coração desperta, Que encadêa a vontade, a alma levanta. D'estatura commum se me antolhava; Mas logo a vi subida até co'a frente Ir topetar na abóbada do Templo. De fios subtilissimos tecidas, Mas de materia indissoluvel, erão As vestes q' ella traja, e que formadas Forão por ella mesma, obra pasmosa, Que do candido pé, ao collo eburneo Forma diversos gráos: hum véo sombrio (Por mão proterva lacerado em parte) De negra antiguidade a envolve toda Nas mãos tem livros de diversas lingoas, Onde eleva tambem dourado sceptro. Pasmado, á quasi omnipotente Deosa Todo me inclino, a magestade acato. Titubeante, e tremulo dest'arte, Soltando a voz hum pouco, á Deosa fallo: "Ó tu do estudo emprego, ó Madre excelsa Da intelligencia dos arcanos todos De que he fecundo o Ceo, fecunda a Terra; Tu da verdade indagadora, e facho Luminoso da vida. Ó tu do vicio, Tu da ignorancia rispido flagello, Tu, q' hes tudo ao mortal, q' hes luz, q' hes vida, Ante os teus olhos me conduz Fadiga: Misero Vate eu sou, no peito acôlho Desejo de saber: sempre afanoso Apoz a imagem da verdade eu corro; Mas a alma envolta em sombra, em sombra os olhos, Enigmas vejo só, eu palpo enigmas: Sentir, gozar, não perceber, he esta Da existencia mortal partilha, e obra.... Mas qual te vejo, ó Deosa, e q' orgulhosos Amadores te cercão! Que ignorantes Do acatamento q' a teu lume immenso, Deveo sempre guardar o engenho humano! Deve, qual pobre, pequenino rio, A quem agua não deo caudal torrente, Correr tranquillo, e murmurar nas pedras, Ao Pastor innocente, á Ninfa ingenua Objectos de prazer offerecendo. Mas o desejo audaz, e o louco orgulho O torna rio impetuoso, e bravo Soberbo, ufano vai d'agua não sua. Eis se despenha, qual torrente Alpina, E os campos cobre furioso, e turvo; Leva comsigo os troncos, leva os gados, Leva o Pastor, e a misera choupana, Té que cesse do ar fecunda chuva: E, serenado o ceo primeiro orgulho Então depõe deixando a marge enchuta." Mais quizera dizer eis q' o grão Nume, Fitos em cuja frente eu tinha os olhos, Soltou dos labios divinal surriso, E, doce voz alevantando, exclama: "Podem, meu filho, eternizar no Mundo O mesquinho mortal meus dons sublimes, E as idéas altissimas, e claras, Q' eu co' mão destra na sua alma imprimo; Comigo, e o sentes tu, do pezo humano Se livra, se desfaz o entendimento; Ao alto sóbe, e se remonta, e chega Comigo aos claros Ceos, comigo entende Mysterios profundissimos, e entra Da Natureza nos occultos seios. Essa Eterna Razão por mim conhece, Que se difunde n'Universo inteiro, A, que mora no germe, occulta força, A que a tudo dá forma, e dá figura. Por mim, por mim conhece a origem d'alma, Qual tenha em corpo humano assento, e throno; A que fim s'encaminhe, e quaes s'encontrem Ou desgraças, ou bens, na vida, e morte. Eu torno bello o Mundo, os homens sabios Se ingenuos querem vir seguir meus passos, E contemplão por mim o alto principio Das cousas em si mesmo, os gráos, e os tempos, Que a tudo tem prescripto a mão do Eterno. Eu os levanto a conhecer hum Nume, Obedecer-lhe, e venerallo sempre: Delle, só delle a pressentirem tudo A lei, e ordenação; eu só lhe ensino A dar justo valor, dar justo apreço, Ao que se mostra ou verdadeiro, ou falso. Se o prazer, a que he misto o pranto, a magoa, E o pungente pezar, que he tardo sempre, Os homens sabem condemnar, eu mesma Seu peito aclaro, o coração lhe inflammo; He meu proprio este dom. Por mim descobrem Que he só feliz na Terra, he só potente Quem se domina a si: Guia incorrupta São minhas luzes ao mortal na vida. Eu primeiro lhe aceno, eu lhe preparo, (Depois Religião, que he só, que he tudo) Séde no Ceo, qu'eternamente he bella. Do Christianismo h[~u] mestre, h[~u] sabio, h[~u] grande, De Alexandria nas escolas doutas, D'alta verdade, que dos Ceos foi dada, Pedagoga me chama, eu sou por certo Quem da luz da Razão, da Natureza Leva os mortaes a accreditar mysterios Qu'á razão não se oppõe, mas são mais altos. Mas eu desço comtigo ao Templo augusto; Q' inda que erguido o vêz, não he distante Da terrea habitação do engano, e minha. Olha, admira, contempla a excelsa móle Premio d'hum Grande que he brazão do Mundo: Este he d'honra immortal o alto ornamento, Que eu mesma á Gloria consagrei, com elle De hum Pontifice meu premeio as obras, Elle as minhas expoz, dou premio ás suas." A Deosa emudeceo, á dextra eu volvo (Nunca confuso assim) trementes olhos; E no meio da luz brilhante, e pura Soberbo alçar-se Mausoléo descubro. De Newton vi gravado o nome excelso N'hum pórfido immortal, que nem d'Augusto; Ou no Tybre cobrio geladas cinzas, Ou do Grande Pompeo fechou no Nilo Restos chorados do implacavel Julio. Depois que vezes mil no estranho, e grande, Monumento fitei pasmados olhos, Por longo tempo contemplando absorto Aquella d'alto engenho obra estupenda, Ao Britanno immortal sagrei com votos Inteiro o coração, minha alma inteira; D'estima este o tributo, o feudo he este, Que eu primeiro paguei, Nação pasmosa De quem o mar he todo, a Terra he quasi. Mas eu sou Portuguez, e armas não podem Alhêas deslumbrar-me; eu vejo as Lusas, Cuja gloria tu vêz no vasto Oriente, E, onde levantas triplice bandeira, Primeiro o nome Portuguez encontras. Eu não te invejo a gloria, nem thesouros; Se de Safyras atulhados cofres, Fios de brancas Pérolas, se finos Luminosos Rubins d'Asia recebes; Já d'Asia hum Portuguez trouxe mais qu'isso: Do Indo, Hydaspe, e Gange as aguas trouxe Dentro em barro Chinez; e era Atayde. Será maior teu Rodney, ou teu Nelson? Nem teu Monk he maior, se o Sceptro engeita, Em Regia frente o Diadema pondo. Hes grande para mim porque em teu seio Bolingbrocke apparece, Adisson, Pope; Apparece Bacon, Milton tactêa Arpa tocada só d'Hebreo Monarcha; Em ti tiverão berço, e Locke, e Tompson, E o que os povos do Mundo inda baralha, E a Gallia fez tremer, Pitt, he teu filho. Hes grande para mim, porque hum Senado De Reis, mais que o de Roma em ti conservas, Onde tantos Demosthenes, e tantos Tullios sabem surgir, salvar a Patria. He esta a fonte do respeito, e estima; Que eu Vate, que eu Filosofo consagro A ti grande Nação, da Europa asylo.
_Fim do II. Canto._
NEWTON, POEMA.