Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos
Part 9
Dante, como diz Charles Clement, resuscita a poesia, Giotto a pintura; Brunelleschi levanta o zimborio de _Santa-Maria-del-Fiore_; Colombo descobre um mundo; Copernico as leis do universo; Guttemberg espanca as trevas profundas da ignorancia; Savonarola e Luthero despertam a consciencia individual;--Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci rematam a corôa da renascença artistica. Começa o dia da gloria depois d'uma longa noite de dez seculos. Do attrito da antiguidade com a idade media resalta a centelha que devia animar a litteratura, a historia e a arte.
Os iniciadores d'este movimento revolucionario sahiram da raça latina, e portanto eram pagãos. Assim se explica como o paganismo resuscita no catholicismo, como Jupiter se transforma em Christo, e Venus em Magdalena e na Virgem. Da religião catholica nasce a poesia moderna. É um papa, Julio II, que reune em Roma os maiores pintores e os maiores architectos.
As madonas de Raphael teem uma belleza pagã.
A renascença conspira contra o ascetismo primitivo, e assim se inaugura a pintura da historia, porque, como reflectidamente pondera Louis Pfau, a renascença não viu na religião mais que a historia sagrada, e na historia sagrada mais que a historia da humanidade.
Ao tempo que o talento de Raphael começava a assombrar a Italia inteira, um opulento negociante de Sienna, Agostino Chigi, confiou do seu pincel a decoração d'um palacio que mandára construir nas margens do Tibre. Raphael quiz ainda dizer o derradeiro adeus á antiguidade, e, antes de voltar ao Vaticano, pinta para o palacio de Agostino dous quadros notabilissimos--_Galathea_ e _Psyché_.
Era então um rapaz que se atirava ao turbilhão da mocidade, ebrio d'esperança e gloria. Sobre o seu temperamento divergem todavia as opiniões; o doutor Macedo Pinto[10] cita-o como sanguineo, e Emilio Deschanel attribue-lhe uma organisação essencialmente nervosa, como a de Bellini e Beethoven.
Todavia o maior numero d'historiadores revela-nos que era de melindrosa compleição, e nós, estudando vagarosamente a sua biographia, cuidamos vêr n'elle um nervoso-sanguineo, dotado d'um espirito brilhante, d'estes que parece viverem em incessante combustão, como a salamandra dos antigos vivia nas labaredas fabulosas, e naturalmente propenso aos prazeres desregrados e ás expansões vehementes.
Era gentil, tinha uns bellos olhos, rasgados, dôces e meigos, e os seus cabellos pretos, que elle tantas vezes reproduzia em seus quadros, davam-lhe ás faces morenas uma expressão de encantadora doçura.
Foi em Roma, que elle amou uma rapariga do povo, _fornarina_, a filha do padeiro.
Muitas vezes, emquanto pintava a _Galathea_, abandonava a paleta para ir vêr _fornarina_, cujo retrato se reproduz em quasi todas as obras da segunda metade da vida de Raphael.
Por uma d'aquellas manhãs formosas da Italia, em que todo o céo se esbate n'um azul delicioso, _fornarina_, que estava cuidando d'umas flôres dispostas na janella, levantára de golpe a cabeça, ao sentir passos conhecidos. Se visseis afoguearem-se-lhe as faces no suave carmim das rosas que desabrocham, e brilhar-lhe nos olhos a luz delicada das estrellas que palpitam, dirieis que chegava Raphael.
--Raffaelo! exclamára a _fornarina_.
--Querida! suspirára Raphael. Não ames tanto as tuas flôres, que eu tenho ciumes d'ellas.
--Que remedio! Se é preciso amar as flôres para merecer o teu amor! Já te não lembras de Florença?...
--Ah! sempre cruel e formosa!
--Quero vêr se, á força de cuidar nas flôres, chego a adquirir os encantos da _fioraia_.
--Por Deus, querida, que me despedaças o coração! Por Deus te juro, que o meu amor é só teu. Não falles da _fioraia_, que é apenas uma recordação. Todas as flôres de Florença não valem essa poeira branca que te cobre as tranças e faz lembrar a neve da manhã que polvilha a rosa. Querida, se tu soubesses com que vertiginoso enthusiasmo eu vou copiando nas faces da _Galathea_ o colorido da _fornarina_! Quero deixar o teu retrato no palacio de Agostino; preciso que todos saibam que te amei. Se visses a _Galathea_, conhecias-te. És tu mesma, é a tua formosura animada pelo meu amor.
--Raffaelo, e as flôres que trouxeste de Florença?
--Seccaram. É o destino das rosas que vivem um só dia.
--Ah! E o amor da _fornarina_ ha-de extinguir-se um dia como as flôres da _fioraia_. De mim, só ficará no teu coração o orgulho de haveres pintado a _Galathea_. O quadro, porque é d'um grande artista, ha-de subsistir; mas a lembrança do modêlo ha-de apagar-se primeiro que a tua vida. Que resta da _fioraia_? A _Bella-Jardineira_. Que ha-de ficar da _fornarina_? A _Galathea_. Ella era mulher do povo; eu tambem sou. Cabe-nos a mesma sorte;--o esquecimento. O teu amor é um capricho de artista; é mais um devaneio da tua phantasia, que uma necessidade do teu coração. O artista copia, mas o homem não ama.
--Ah! que me offendes. Cala-te, por Deus. Eu não quero que me fira o espinho do resentimento quando encostar a cabeça ao teu regaço no lance extremo. Estou doente, se estou! Tenho vivido só, de sonho em sonho, de esperança em esperança. Sinto que a febre me incendeia o cerebro. É o cansaço. Eu só tenho espirito, e o espirito ama, delira, ensoberbece-se. O espirito dos artistas é lava;--queima, escalda, por isso o corpo succumbe. Restas-me tu, querida. Quero morrer encostado ao teu seio; que os teus labios recolham o ultimo suspiro da minha vida...
--Raffaelo, como estás triste, como és apprehensivel! Oh! se te amo perdidamente, loucamente! O ciume é irmão gemeo do amor; não andam um sem o outro. Perdôa-me os desvarios do coração. Culpa é de te amar tanto... Está formoso o dia, o sol é italiano como tu e como eu. Não falles em tristezas, em soffrimentos. Tu, que tens vivido a luctar, não succumbas a ti mesmo. Levantei-me alegre, quando a luz da manhã entrou pela casa dentro. Vim cuidar das minhas flôres, que são tuas. Olha que bonita rosa esta! Sabia que para ti nascia, desabrochou para fazer inveja ao teu pincel. Não ha mais dôce carmim! Olha... Como é formosa!
Raphael levou a rosa subitamente aos labios e depois deixou-a cahir no seio.
D'outra vez tinha elle acabado um quadro primoroso destinado ao convento do Monte-Oliveto, em Palermo. Correu voz em Roma de ter sossobrado o navio que transportava o quadro. Raphael, como se o seu talento precisasse de novos titulos de gloria, sentiu-se profundamente triste ao saber que perdera uma das suas primeiras obras. Foi nos braços de Fornarina que elle despeitorou as suas tristezas d'artista.
--Ah! dizia-lhe elle, era uma formosa cabeça de Christo, em que eu pozera extremo cuidado. E tinha sido feliz na expressão de soffrimento, na pallidez dolorida das faces, na suave tristeza que desabrochava em sorrisos...
--Tenho ciumes, Raffaelo. De quem é o teu amor? Meu ou da tua gloria? Fallas d'um quadro que perdeste! E a _Disputa do Santo Sacramento_? E a _Escola de Athenas_? E _Psyché_? E _Galathea_?--a _Galathea_ que sou eu, que deve ser o teu quadro dilecto, por que te ama, por que corresponde ao teu amor d'artista! E o Vaticano, Raffaelo? O Vaticano onde o teu nome fica para sempre escripto, para sempre coroado pela maior das realezas do mundo--a gloria!
Volvidos dias, chegava noticia a Roma de ter abordado ás praias de Genova a caixa que encerrava o quadro destinado ao mosteiro de Palermo. Perdera-se o navio, a tripolação e as mercadorias, mas o mar respeitára o quadro de Raphael e restituira-o, depondo-o cautelosamente n'uma praia italiana... A magestade do mar tinha respeitado a magestade do genio.
A _Transfiguração_, quadro encommendado pelo cardeal Julio de Médicis, foi o ultimo, se bem que se possa dizer o primeiro de Raphael. «Ha n'esta composição--escreve Valentin no seu livro _Les peintres celébres_--figuras tão bellas, cabeças de um estylo e d'um caracter tão novos e tão variados, que tem sido olhada, e com razão, por todos os artistas, como a obra mais admiravel que produziu o pincel de Raphael.»
Havia pouco tempo que estava concluido o quadro da _Transfiguração_, quando, habitando em Farneto, recebeu ordem para vir a Roma. Deu-se pressa em obedecer, e chegou coberto de suor ao Vaticano onde se demorára n'uma das vastas salas fallando largamente da fabrica de S. Pedro. Resfriou e, poucas horas depois, entrava em casa subitamente atacado d'uma febre perniciosa, que o arrastou ao tumulo.
Quando Fornarina se abeirou do leito, turbaram-se de lagrimas os olhos de Raphael.
--Parte, disse-lhe elle. Esperava morrer nos teus braços, mas não posso. Falta-me a coragem. Sempre ha-de haver quem me feche os olhos. Deixa esse triste encargo a Julio Romano que é mais que discipulo do amigo,--é amigo do mestre. Deixa-me vêr bem os teus olhos; quero recordar-me da _Glycera_. Como me estou lembrando das minhas horas de arroubado trabalho no palacio de Agostino! É o ultimo clarão da memoria que se extingue. Ah! parte, querida, parte. Quero poupar-te ao doloroso espectaculo d'um cadaver alumiado por quatro cirios...
N'este momento entrava Julio Romano.
Instantes depois, Raphael cahia prostrado no leito, e o discipulo amado colhia nos braços Fornarina para a tirar da camara onde ella sentia os pés chumbados ao pavimento.
Quatro pessoas dividiram o espolio do grande artista: Fornarina, Julio Romano, um padre, tio de Raphael, e o cardeal Bibiena, a quem legou uma propriedade que possuia perto do Vaticano.
Na sexta-feira santa do anno de 1520, dia em que tinha nascido, rendeu ao Creador a grande alma.
O seu cadaver foi collocado n'uma das salas do Vaticano, onde de preferencia costumava trabalhar. Á cabeceira, erguia-se o quadro da _Transfiguração_.
Os olhos dos muitos admiradores que por um momento pousavam no feretro, alteavam-se depois á tela onde o pincel do artista havia traçado a epopêa da sua gloria...
[10] Medicina administrativa e legislativa, primeira parte.
* * * * *
Luiz Rossel
Quasi á mesma hora em que o sopro devastador do inverno de 1871 começava a desfolhar a verdura das arvores, as balas de Satory arrancaram do tronco venerando da terceira republica franceza as ultimas folhas denegridas pela polvorada da communa.
Havia seis mezes que tres condemnados vacillaram entre a vida e a morte, na mais cruel e dolorosa incerteza com que se póde opprimir um homem dentro das quatro paredes do carcere. O conselho de guerra, presidido pelo coronel Merlin, havia sentenciado á pena ultima os communistas Rossel, Ferré e Bourgeois. Os processos foram enviados á commissão de indultos e desde então começou a ancia, a duvida, o maximo supplicio. E a commissão não se lembrava talvez de que per si mesma impunha uma nova pena, cruciante e horrivel, a tres presos cuja sorte ella podia melhorar, confirmando a sentença, sem tão deshumanas delongas! Grandes criminosos deviam de ser estes homens, que anteprovaram as agonias da morte durante cento e oitenta dias de carcere!
Um d'elles, Luiz Rossel, despertára profundas e geraes sympathias.
Durante esses seis mezes de suprema tribulação, era-lhe consolo extremo a dôce companhia de um padre. Os seus olhos marejavam-se de lagrimas quando a saudade da familia acudia intensa a despedaçar-lhe o coração. Com que dolorido enthusiasmo não fallava elle de seu pai, de sua mãi, das suas pequenas irmãs, Bella e Sara!
O sacerdote protestante que lhe assistia pôde sondar-lhe vagarosamente as serenas profundezas da sua alma, e o resultado d'esta longa e piedosa observação foi o demover-se voluntariamente a pedir misericordia á commissão d'indultos e ao presidente da republica franceza.
«De todos os pontos da França--escrevia o padre Passa--vos dirigem esta supplica. Soffrei que vos seja tambem enviada do quarto onde, ha seis mezes, o sentenciado e o padre se encontram, debaixo das vistas de Deus, para se preparar para a morte.»
«De todos os pontos da França!» escrevia o assistente espiritual de Rossel. Que crime tinha então commettido elle que inspirava tamanha compaixão? Rossel desertára das tropas de Versailles para as tropas da communa.
Fôra julgado desertor e condemnado á morte. Henrique Rochefort, que desertára tambem da republica para a communa, fôra simplesmente condemnado a deportação para uma fortaleza. Quer dizer, a Rochefort, espirito ambicioso e fluctuante, ficava com a vida a esperança da amnistia. Rossel, que, por um impeto de louca mocidade, tomára parte na revolução de 18 de março, era condemnado sem appellação nem aggravo.
Porque desertára Rossel? Expliquemos. Rossel não era d'estes lymphaticos que transigem com os peores homens e com as peores cousas, esperançados em que tudo será pelo melhor,--embora o melhor venha longe. Era um nervoso, d'estes que sacrificam a vida aos acontecimentos, no intuito de susterem audazmente a machina incansavel das fatalidades terrenas e humanas.
Em dezembro de 1870 escrevia elle a Gambetta, então ministro da guerra na republica:
«Eu esperava que as noticias favoraveis que recebestes ácerca do meu comportamento em Metz, e a boa vontade, de que eu tenho dado provas, para a defeza do meu paiz, forneceriam occasião de vos elucidar sobre a guerra actual, de vos notar as faltas de organisação e de estrategia que se commettiam diariamente, e que vos conduziam a uma derrota.»
E mais abaixo, desconfortado pela inhabilidade dos generaes republicanos, acrescentava:
«Em nome da nossa fé commum na patria e na liberdade, concedei-me um cargo importante, dai-me o meio de vos provar que eu sei a guerra, de vos expôr as razões das vossas derrotas passadas e dos desastres que vós vos preparaes.»
Afigura-se-vos isto a febre do orgulho? Não. Isto é a expansibilidade da nevrose, a consciencia de se valer alguma cousa, embora os meticulosos ateimem que as flôres da mocidade não chegam a ser fructo porque as desfolham sempre os vendavaes da paixão. Não. Rossel não estava obcecado pela amaurose da exaltação partidaria, e tanto não estava que começava a desacoroçoar da republica e dos republicanos, e escrevia ainda a Gambetta estas palavras:
Não comprehendi nunca o que vós fazieis no vosso gabinete. Quando me lembro que Napoleão resumia em algumas horas por semana esse trabalho de contencioso a que vos reduziram, tomo o partido do despota contra vós. Elle fazia a guerra, e vós, vós, deixastes fazel-a. O vosso governo não foi um governo de combate; pareceu-se muito com o que o precedeu: muitas secretarías,--e muito pouca policia.»
O desalento lavrou fundo no coração de Rossel. Em 19 de março de 1871 escrevia do campo de Nevers ao general ministro da guerra em Versailles:
«Meu general:
Tenho a honra de vos informar de que me dirijo a Pariz para me pôr á disposição das fôrças governamentaes que se possam constituir. Instruido por um despacho de Versailles tornado publico hoje, de que ha dous partidos em lucta no paiz, _colloco-me sem hesitação do lado d'aquelle que não assignou a paz e que não conta nas suas fileiras generaes culpados das capitulações_.
Tomando uma tão grave e tão dolorosa resolução, sinto deixar em suspensão o serviço de engenharia do campo de Nevers, que me tinha confiado o governo de 4 de setembro.
Entrego este serviço, que apenas consiste em assentos d'artigos de despezas e escripta de contabilidade, a M. F., tenente de engenharia auxiliar, homem recto e experimentado, que ficou ás minhas ordens por determinação de mr. o general Vergne, em virtude do vosso despacho datado de 5 do mez corrente.
Eu vos informo summariamente, por carta dirigida á repartição do material, do estado em que deixo o serviço.
Tenho a honra de ser,
Meu general,
Vosso muito obediente e dedicado servo
_L. Rossel._»
Data da expedição d'esta carta a deserção de Rossel. Chegado a Pariz, não sentiu revigorar-lhe o coração enfermo de desalento uma esperança vivificadora. Ao lêr nos editaes affixados nas ruas os nomes de Lullier e Assi, sentiu recrudescer o desgosto que lhe enervava a alma. Ainda assim quiz justificar o seu procedimento perante a sua mesma consciencia, e aceitou o cargo que o Hotel de Ville lhe conferiu. Então foi o succederem-se as intermittencias de esperança e desconforto, e por mais d'uma vez o assaltou a idéa de abandonar Pariz. As tropas estavam indisciplinadas, os generaes eram ineptos, e elle, pobre louco! já não acreditava na communa para confiar unicamente na propria coragem e na propria dedicação. N'esta conjunctura organisou-se a _cour martiale_, cujo presidente era. «O aceitar as funcções de presidente d'este tribunal,--escreveu elle--é o maior sacrificio que eu tenho feito e que eu podia fazer á causa da Revolução. Inimigo das revoluções, as circumstancias me lançaram n'uma revolução; aborrecendo a guerra civil, estava mettido na guerra civil. Tratava-se agora de presidir a um tribunal revolucionario, um tribunal que só pronunciaria sentenças de morte.
Se eu tivesse a defender-me da accusação d'ambição, o aceitar dolorosamente este cargo seria talvez o argumento mais forte que eu poderia produzir. Que interesse tem um ambicioso em manchar as mãos? Seria um ambicioso bem louco, ou bem desprovido de estudo para ir ensanguentar o meu nome em funcções subalternas. Ha apenas uma explicação razoavel para o meu procedimento,--é que eu me sacrifiquei á Revolução. Não tinha escolhido nenhuma das funcções de que fui successivamente encarregado, mas não recusei nenhuma. N'estes momentos de similhantes crises é preciso ter a dedicação d'um sectario.» Mal entrou no ministerio, no dia 30 d'abril, occupou-se Rossel de tomar as medidas mais urgentes, que vinham a ser o soldo, a disciplina e a organisação de forças activas. Então começaram a empecer a sua boa vontade as intrigas e complicações que elle não podia desviar com o pé por serem numerosas e constantes.
«A recordação de todos estes revolucionarios presumpçosos,--diz elle--mas desprovidos d'estudos e d'energia, capazes de ordenar um assalto talvez, mas não d'uma vontade e d'um proposito firme, esta recordação, digo eu, é para mim um pesadelo.»
Não obstante estes dissabores que soffria silencioso, empenhava-se na organisação de tropas activas, medida que era sempre contrariada por obstaculos cada vez maiores.
A designação de--regimentos,--que elle adoptára, em vez de--brigadas--, para não augmentar o numero de generaes «fez sombra aos chefes de legião, que receiavam vêr-se desapossados da sua authoridade por esta combinação», escrevia Rossel de proprio punho.
A defeza do forte de Issy era o alvo dos seus mais ardentes cuidados, sendo que o general La Cecilia havia retirado as tropas que defendiam a aldêa e o forte d'aquelle nome. Em vão tentou Rossel reunil-as de novo, e procurou organisar forças para fazer rosto ao violento bombardeamento do inimigo. Este era o seu empenho maximo. N'esta conjunctura reuniram-se os chefes de legião para protestar contra a formação dos regimentos, e muitos procuraram Rossel para lhe fazer sentir que a sua authoridade d'elles era sufficiente para mobilisar as tropas immediatamente. O certo é que na noite d'esse mesmo dia o avisaram de que não podiam pôr em movimento as tropas que tinham promettido.
Rossel, inteiramente desacoroçoado, demittiu-se, e poucas horas depois fluctuava a bandeira tricolor no forte d'Issy, abandonado na vespera pela guarnição, sem que lhe fosse possivel fazel-o reoccupar. Não obstante as instancias com que foi solicitado para retirar a demissão, accusaram-n'o de haver contribuido para a perda do forte, de haver aspirado a tyrannia, e de ter recebido quinhentos mil francos para realisar a traição.
Não é pois sem fidelidade historica que Pinheiro Chagas escrevia, ha pouco tempo, no _Diario de Noticias_:
«E não foi uma desgraça para a França a morte de Rossel? Foi, era uma cabeça energica, cheia de vida, de talento e de patriotismo, e, o que é mais ainda, cheia de profundissimo desprezo por aquella gente da communa, com a qual a sua ambição e o acaso das circumstancias o tinham obrigado a pactuar. E elles sabiam-n'o, tanto que Rossel esteve umas poucas de vezes para ser fuzilado por elles. A assembléa entendeu que devia cumprir as ultimas vontades da communa, e fuzilou Rossel. Confundiu a causa d'este nobre revolucionario com a dos homens, que lhe causavam a elle repugnancia, quiz dar emfim um martyr á communa! Santa gente!»
A nobre alma de Rossel nada perdeu da sua grandeza epica dentro das quatro paredes do carcere.
A mocidade e o temperamento, duas correntes fataes para o homem, desvairaram-n'o.
«Quando me juntei á insurreição--escrevia Rossel do caderno das suas notas intimas--não contava com o successo, não esperava chegar a uma das primeiras posições. Obedeci a um dever politico; quando rebenta a guerra civil, cada cidadão deve sustentar o seu partido. Republicano, meu lugar era em Paris.»
Que não era ambicioso, especulador e ignobil claramente o evidenceiam estas palavras, escriptas entre ferros, com os olhos postos no tumulo.
Podemos afoutamente acredital-as, porque, como escrevia o padre Passa á commissão d'indultos--sempre se é sincero em presença da morte.» Rossel, antes da deserção, era geralmente estimado pelos seus merecimentos. Até no momento em que mais refervia a onda vermelha da communa, o consideraram os insurgentes dando-lhe um dos primeiros lugares. Mataram-n'o, perderam-n'o. Embriagou-se com o successo que não esperava. Collocaram-n'o na primeira plana da revolução. Era chefe; não quiz recuar. Simples soldado, teria talvez reflectido, teria talvez retrocedido á voz de seu pai para offerecer mais um braço á causa da ordem, que era a causa da patria.
Os estudantes de Pariz foram a Versailles pedir o perdão de Rossel. A manifestação foi ruidosa, compacta, mas prudente. Era a derradeira esperança. Todavia o tronco venerando da republica queria sacudir de si as ultimas folhas denegridas pela polvorada da communa. Sibilaram as balas,--as folhas cahiram. A republica deixava passeiar impunemente em França os mais respeitados amigos da communa, a republica deixava resfolegar a Internacional, mas mandava fuzilar Rossel.
Ferré e Bourgeois não mereciam a camaradagem de Rossel, ainda quando os comecemos a estudar no carcere. Todos os que visinharam de Rossel se sentiram commovidos: Cassel, carcereiro; Alberto Joly, seu advogado; o padre Passa, seu director especial.
Momentos depois de commungar, escrevia Rossel esta carta a uma das mais queridas pessoas da sua familia,--sua avó:
«A mistress Isabella Campbell:
Adeus, madrinha, amo-te.
28 de novembro de 1871.
Acabamos de commungar, mr. Passa e eu, e Deus abençoou a nossa communhão.
Posso dizer que é a primeira vez que commungo, e estou extremamente agradecido a Jesus Christo, que nos deixou este symbolo.»
Sentindo nas veias o frio do tumulo, momentos depois de ter recebido a particula sagrada, um dos mais commoventes e sublimes actos da religião christã, perante o qual se sentem impressionados os mais duros corações, ao qual ninguem póde assistir sem chorar,--Rossel não mentia.
Depois da patria, como elle amava a familia!
«Não posso supportar--escrevia no carcere--que se faça soffrer meus paes. Pelo que me respeita, tenho a epiderme dura, e estou tão pouco preoccupado com a eventualidade d'uma morte imminente, que a mim mesmo pergunto muitas vezes se não será uma insensibilidade doentia da minha parte. Mas o que não concebo, é que differindo sempre uma resolução, dissimulando a decisão que já esta tomada, façam soffrer uma longa agonia a meus paes, que não commetteram outro crime que não fosse o de me ensinarem a amar o meu paiz.»
São docemente dolorosas estas palavras:
«A vista de meus paes magoa-me. Hontem contava-me minha mãi os passos que deu na vespera; de repente interrompe-se: «Não posso mais! já nem me lembro! estou douda, vês tu!» Minha irmã, que estava mais serena, continuou a narração, que eu não pude ouvir. Eu via-os, eu ouvia-os; eis tudo; pouco me importava o resto. Hoje era minha mãi que estava serena e minha irmã que parecia louca. Todavia nós estavamos tranquillos hontem á noite. Mr. Passa havia-nos socegado!