Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos
Part 8
«Dizeis--escreve o snr. D. Antonio da Costa,--que a somma da intelligencia e das qualidades da mulher se acha actualmente perdida para ella e para a sociedade uma vez que lhe fecham as carreiras politicas e scientificas? Vêde que esta razão fundada na capacidade igual dos sexos, exigiria, para haver logica na vossa doutrina, que as funcções hoje especiaes da mulher, educação infantil, governo da casa, costurar e bordar, formação dos costumes publicos pela influencia domestica, devessem tambem pertencer ao homem, aliás seriamos nós as victimas da desigualdade cujo principio combateis.»
Que igualdade querem para a mulher? A igualdade politica e scientifica? Sou contra ella, resolutamente contra ella, pelas razões já expostas. Igualdade civil? Convenho, e conspiro contra a tutella oppressora que soffre a mulher quer seja casada ou viuva. Igualdade moral? Quem lhe disputa essa? que «é verdadeira, como diz Paulo Janet na _Familia_--é evidente, e condição essencial em uma familia completa e feliz.»
Isto é o que eu penso, a convicção que eu tenho adquirido n'uns estudos placidos a que me dou, porque eu estimo os livros serenos e crystallinos, e não se desvirtue a minha opinião, e não se diga que eu quero a mulher analphabeta e só apta para fiar ou coser.
Isto penso eu.
Mas para que discutil-o, Conceição?
Que o discutam philosophos e legisladores, que façam luz no espirito publico, que demonstrem, que provem, que eu então irei após a verdade.
Para questão de tal magnitude não me julgo habilitado.
Poz o meu amigo em duvida as _funcções educativas do esposo_! Pois o pai não educa, não dirige a educação do filho! Sabe que eu não quero a mulher ignorante, mas por não a querer ignorante, não deixo de reconhecer que os pais são, como diz o Garrett no tractado _Da Educação_, «os mentores e educadores naturaes de seus filhos.» Plenamente concordo com Janet, quando expõe que «o pai esboça com firmeza a estatua do homem futuro, e a mãi retoca, aperfeiçoa e alinda-a.» Para isto cumpre não ser ignorante, mas não é indispensavel que seja sabia.
Aqui tem com franqueza as minhas opiniões. Estou firme n'ellas, e estarei sempre, até que os factos sociaes se encarreguem de mostrar-me o erro.
Agora deixe-me dizer-lhe que não tardam nada as andorinhas e que podemos intimidal-as com _estes exercicios de polvora secca_. Vão cantar os rouxinoes e eu, que mercê de Deus não tenho de resolver nenhuma operação arithmetica, folgava de poder ouvil-os por estas tardes de primavera em que o céo é azul e sereno. Combato mal, porque quando me tiram dos meus dilectos remansos vou saudoso de tão socegada obscuridade. No meu lar espera-se a primavera como uma festa, e o que é certo é que tenho descurado as flôres da minha janella por causa d'estes malditos algarismos, que eu suppunha ter afugentado de vez, não obstante a honra que me deu o Conceição em descer até pelejar lealmente commigo.
Aperto-lhe cordealmente a mão.
Creia-me sempre
seu amigo e admirador,
Porto, 14 de março de 1872.
_Alberto Pimentel._
[7] _La cerveau et la pensée._
* * * * *
PHYSIOLOGIA HISTORICA
Beethoven
A biographia é uma nova fórma dada á historia por Plutarcho.
Seguindo o methodo seguro da inducção, caminhamos da biographia para a synthese, do caracter individual para o caracter collectivo, do homem para a _época_. Não concordamos portanto com mr. Paul Albert[8] que vê n'esta evolução historica mais uma decadencia que um progresso.
A biographia é a historia do homem, quer dizer, tem de o estudar na dupla manifestação da sua actividade, e é por isso que ultimamente a critica e a historia não prescindem da alliança da physiologia com a psychologia. Por tal razão foi que o doutor Moreau, de Tours, estudou a _Psychologia morbida nas suas relações com a historia_; que Emilio Deschanel escreveu a _Physiologia dos escriptores e dos artistas_, e que recentemente o doutor Laborde se entregou ás lucubrações medico-psychologicas que originaram o seu livro sobre _Os homens e os actos da insurreição de Paris perante a psychologia morbida_.
Esboçando na tela do folhetim alguns perfis historicos, tivemos sempre em vista a noção de temperamento, ou antes, e melhor, o dualismo de Platão, que definiu o homem na expressão «d'uma alma que se serve d'um corpo», e porque, segundo uma expressão feliz de Emilio Deschanel, para conhecer o fructo é preciso conhecer a arvore.
Posto isto como exordio já demasiadamente longo, fallemos d'um grande genio que enche de esplendor a historia da musica, d'um compositor nervoso, hypocondriaco, melancolico,--Beethoven.
Antes de escrevermos do artista, saudemos a arte, esta linguagem sublime, que parece revelar-nos o infinito, d'origem divina, porque se nos remontarmos ao pantheismo oriental teremos de vêr a musica considerada como imperfeita imitação da harmonia que produzem os movimentos dos corpos celestes.
Na tradição asiatica, devemos procurar a origem da musica na organisação do universo. As sete nymphas _Swaras_ são a personificação das sete notas. _Saraswati_, filha, mulher e irmã de _Brahma_, representa a primeira nota da escala dos sons[9].
Pythagoras acreditava na harmonia como alma do mundo, e era d'esta grande alma collectiva que dimanava a substancia harmonica das almas particulares.
Seja o que fôr a musica, venha ella do céo ou da terra, dos astros ou dos homens, bemdita seja, que nos leva após si a umas paragens ethereas de um paraiso desconhecido. Abençoados sejaes, sacerdotes do bello, que lançaes para dentro da nossa alma a esmola valiosa da harmonia.
Entre os maximos sacerdotes da arte divina, avulta o perfil venerando de Beethoven.
Este nome é per si só uma epopêa.
Tem a grandeza do mar, e a irradiação do sol.
Em torno do berço d'este homem sublime quer a nossa imaginação que volitassem as particulas sonoras, exhaladas da grande alma harmonica da terra, na philosophia devaneadora de Pythagoras, e que perpassando em revoltos enxames no espirito do futuro maestro o afinassem pelas mais dôces harmonias da musica universal e pelas mais dôces gravitações dos astros melodiosos.
Todavia a historia é que não admitte hypotheses romanescas e devaneios poeticos; e á historia pertence o testemunho de Baden, companheiro da infancia de Beethoven, pelo qual sabemos que os primeiros rudimentos de musica os aprendera elle com violencia, e que só abancava ao piano quando a voz paterna trovejava ameaçadora.
O grande genio de Beethoven faz lembrar o oceano velado pela neblina.
É um abysmo que se não póde abranger com a vista através do vaporoso involucro. Mas ao primeiro raio de sol vôa desfeito o véo, e arqueiam-se as vagas, e doudejam as espumas, e scintillam as escamas crystallinas, e tudo são fremitos, movimentos, prodigios,--e apparece finalmente o mar, pregoando Deus e assombrando os homens.
O véo que resguardava o genio colossal de Beethoven voou todavia em fragmentos, volvidos os primeiros annos da vida, como a neblina se rarefaz ao primeiro raio da aurora.
Muito moço ainda, improvisou em Colonia, diante do compositor Junker, e em Vienna, na presença de Mozart. Beethoven executou brilhantemente, o que todavia não impediu Mozart de suppôr que elle reproduzia de memoria. Então Beethoven pediu um thema, e devaneiou ao piano longo tempo. Este prodigio arrancou a Mozart uma prophecia: «Escutai-o com attenção; dentro em pouco ouvireis fallar d'elle.»
Luctar é o condão do genio; o mar creou-o Deus para a ebullição eterna.
Por mais d'uma vez se bateu Beethoven ao piano, em duello artistico, com o compositor Woelff.
Essas noites de calorosa porfia foram ruidosas e agitadas, porque o partido de Beethoven era capitaneado pelo principe de Lichnosky, e o de Woelff presidido pelo barão Raymundo de Wezslar. Uma deliciosa _villa_ do barão, em Grunberg, era o theatro d'estas luctas homericas, onde o genio fecundo de Beethoven revelava uma prodigiosa faculdade de concepção, e uma imaginação estupenda, que tinha alguma cousa das noites sombrias e mysteriosas das florestas.
Não obstante, o demonio da melancolia havia empolgado o espirito de Beethoven desde os primeiros annos.
Era uma consequencia do seu temperamento, aggravado pelos primeiros signaes de surdez, em plena mocidade.
Aos vinte e nove annos escrevia Beethoven a um amigo da adolescencia, lamentando-se amargamente da perda imminente do ouvido, e pedindo-lhe que não transmittisse a confidencia a ninguem, nem mesmo a Leonor de Breuning, outra companheira da adolescencia, que fôra de certo a mulher amada de toda a vida. A unica opera que Beethoven escreveu, movido por instancias de amigos, tomou o nome de _Leonora_, sendo que depois de reprovada pelo publico de Vienna reappareceu em scena com a denominação de _Fidelio_.
Gustave Bertrand, no seu livro _Les nationalités musicales_, diz que a opera fôra cantada n'uma época politicamente calamitosa, que o libreto era deploravel, e que o desempenho orçára pelo libreto, com quanto os mesmos partidarios de Beethoven, reunidos em congresso, lamentassem ter de accusar o _maestro_ de certa culpabilidade no desastre. Quatro annos depois voltou á scena a opera, mudado o nome, e foi igualmente rejeitada.
Então começou a cerrar-se uma noite profundissima na alma de Beethoven. Minguado de recursos, ameaçado de completa surdez, agitado pelas nevroses continuas do seu temperamento, escondendo talvez no peito uma dôr mais que todas dilacerante, porque Leonor de Breuning havia desposado Wegeler, o amigo do _maestro_, a quem primeiro fizera a confidencia das suas apprehensões, viu-se Beethoven compellido a aceitar o lugar de mestre de capella do rei de Westphalia, Jeronymo Napoleão. Quasi ao mesmo tempo, o archiduque Rodolpho, o principe Lobkowitz e o conde de Kinsky resolveram obrigal-o por um contracto, mediante a renda annual de quatro mil florins, a não sahir do territorio austriaco. Beethoven, grato a esta consideração já então muito para estranhar, e hoje impossivel, fixou residencia em Vienna.
Era em Baden, a cinco leguas da capital, que elle vivia a maior parte do anno.
Cortadas as suas relações com o mundo exterior, doente, melancolico, quasi surdo, concentrava-se todo nos seus arroubos artisticos. Passeava pelos campos, horas seguidas, e era, passeando, que elle compunha, a despeito da opinião geral de que a posição perpendicular é a que menos favorece os actos do espirito, e a mais adversa á inspiração.
Vem de geito arrancar, n'este ponto, uma pagina dos _Grotesques de la musique_, de Hector Berlioz, porque frisa ao nosso caso:
«A posição horisontal é evidentemente a mais favoravel ao trabalho da intelligencia, á expansão do espirito, e isso concebe-se. O nosso cerebro é a caldeira onde se formam os vapores conhecidos pelo nome de idéas, que fazem marchar e muitas vezes desencarrilhar a trem das cousas humanas; o sangue e a agua ebulliente que ahi se transforma em vapor; todos os physiologistas vol-o dirão. Quanto mais este liquido affluir facilmente á caldeira, tanto mais, e necessariamente, deve produzir idéas ou vapores.
«Voltaire doente, e por conseguinte, deitado quando escreveu a _Candida_, gozava de vigorosa saude quando poz mão na _Henrieida_. Bernardin de Saint-Pierre trouxe das Indias, segundo dizem, uma rede onde gostava de se deitar para compôr; foi onde elle pensou as suas deliciosas obras primas, _Paul et Virginie_ e a _Chauniére de la Nature_. Quando em seguida compoz as _Harmonies de la Nature_ e quiz explicar o phenomeno das mares pela liquidação dos gelos polares, já a rede estava velha, e não pôde servir-se d'ella.».
Quando o povo de Baden ou de Vienna via passar Beethoven, rapido como a sombra, mas triste, melancolico, concentrado, sentia-se tornado de subito respeito, e crianças, velhos e mulheres não o deixavam de saudar com estas palavras: «_Alli vai Beethoven!_» saudação que o _maestro_ não podia ouvir, mas que era um preito espontaneo de admiração.
Como n'essas longas horas de excursão campestre ou urbana redemoinhariam na alma de Beethoven as recordações dolorosas de melhores tempos! A imagem de Leonor, da querida confidente dos primeiros annos, devia de apparecer-lhe desenhada no horisonte longiquo do passado, colorida com aquellas meias tintas que a saudade sabe dar. Ter-se-iam amado? A menor observação dos factos parece demonstral-o. D'uma carta escripta a Leonor de Breuning em novembro de 1793 claramente se deprehende que foram dissenções de familia que separaram para o resto da vida os dous amigos de outr'ora. Todavia a distancia não pôde endurecer o coração, porque, na mesma carta, dizia Beethoven em tom de meio segredo:
«Para terminar, arrisco-me a fazer um pedido: julgar-me-ia feliz, se possuisse um collete de pêllo de coelho, costurado pelas vossas mãos, minha cara amiga. Perdoai ao vosso amigo este pedido indiscreto. Culpa é do muito valor que eu ligo a tudo o que vos sahe das mãos, e depois tambem posso dizer que ha no fundo de tudo isso uma pequena vaidade: é poder dizer que possuo alguma cousa da melhor e da mais estimavel filha de Bonn.
Conservo ainda o primeiro collete que tivestes a bondade de me dar, em Bonn; mas a moda proscreveu-o e agora só me resta conserval-o n'um guarda-roupa, como um objecto que me é muito caro porque vem de vós...»
Ah! o coração namorado palpita ainda sob estas formulas respeitosas da epistolographia. É manifesto. O collete, costurado pelas mãos de Leonor, queria-o Beethoven para que o peito lhe estivesse hora a hora segredando umas recordações sempre vivas.
Foi satisfeito o pedido? Foi e não foi. Em vez d'um collete, recebeu Beethoven uma gravata, o que não é menos significativo, porque uma gravata, dada por uma mulher, é o mesmo que dizer-nos ella: «Com este delicado esparto estrangula tu todas as palavras que não sejam para mim.»
Beethoven agradeceu epistolarmente: «A bella gravata, obra de vossas mãos, causou-me a mais viva surpreza. Despertou em mim um sentimento bem doloroso, apesar do mimo do presente: fez-me renascer a recordação do tempo passado, e a vergonha, que me cabe, ao vêr como sois generosa para commigo...»
Em 1806 o nome de Leonor é substituido pelo de Julieta, em tres cartas, das quaes se deprehende que o destino havia cavado um abysmo profundo entre as duas almas. As conveniencias, mais talvez que as conveniencias, as circumstancias, obrigaram Beethoven a lançar este véo transparente sobre a imagem de Leonor. O segredo desvenda-se, e a historia não póde duvidar.
Os ultimos annos da vida de Beethoven foram o declinar d'um nervoso, que sente accumularem-se as sombras da melancolia sobre a lampada interior, já bruxoleante.
De longe a longe descia um raio de sol aos carceres d'aquella alma. Os nervos, fatigados de continuas descargas electricas, descançavam por momentos. N'essas raras intermittencias de paz, lia Homero, o seu poeta favorito, e as novellas de Walter Scott, o seu romancista dilecto.
Á surdez sobreveio a hydropesia, e Beethoven acamou durante quatro mezes, findos os quaes foi transportado ao sepulchro.
O catre onde agonisou cento e vinte dias realisou as angustias do leito de Procusto. A alma, mortalmente entenebrecida, gemia dentro do ergastulo dos nervos, cada vez mais excitados.
Uma atmosphera de melancolia enchia a camara, e as poucas palavras do maestro ressumbravam o fel do sarcasmo ou a lava do desespero. Nem o governo, nas suas espheras mais elevadas, escapava ás verberações de Beethoven. «Escrevei uma collecção de psalmos de penitencia,--dizia elle a Hummel--e dedicai-os á imperatriz.» Era ainda a Hummel que elle confidenciava entre afflicto e pensativo: «Sois feliz, porque não vos falta uma mulher que vele por vós. Mas eu, ai de mim, _povero_ que sou!»
N'uma das poucas horas de tranquillidade, esboçou no papel a casa onde nascera Haydn; pendurou o desenho á beira do catre, e por mais de uma vez revelou que lhe era consolação estar contemplando as paredes dentro das quaes viera á luz do mundo um grande homem.
Dous dias antes de morrer, sentado no leito, apostrophava a duas pessoas que acabavam de entrar no seu quarto: _Plaudite, amici, comoedia finita est._ Nas horas que lhe restaram de vida parece que não mais referveu nos seus labios a espuma da ironia. Assim partiu da terra, angustiada por um soffrimento inexplicavel, a grande aima do Goethe da musica, como lhe chama Deschanel. E é certo que os livros de Goethe e as partituras de Beethoven resumem o que ha de mais profundo no pensamento humano. São como os grandes lagos, que ora se anilam sob um céo transparente, ora se revolvem e entenebrecem agitados por mysteriosas correntes.
Perto de Schoenbrunn ha ainda dous carvalhos vetustos, entre os quaes Beethoven costumava sentar-se para descançar dos seus longos passeios, mas as frondes annosas, que deixam cahir uma sombra espessa sobre o pouso devoluto, não contam ás gerações os monologos do _maestro_, nem quantas vezes lhe ouviram ciciar nos labios o nome de Leonor...
[8] _La Prose, leçons faites a la Sorbonne._
[9] _Traité complet de la theorie et de la pratique de l'harmonie, par Fetis._
* * * * *
Raphael
A MR. PELLEREAU
Era um talento enorme.
O pai, artista mediocre mas de juizo claro, ensinou-lhe a dar os primeiros traços, a lançar as primeiras tintas na tela.
Mas é ninho d'Urbino, escondido n'uma das mais graciosas paragens dos Apeninos, era pequeno para tamanha aguia.
O céo d'Italia desdobrava-se n'um azul suavissimo e espelhava-se sobre as aguas tranquillas desde os canaes de Veneza até á bahia de Napoles.
Adivinhava-se que em qualquer parte da Italia sorria a natureza, com todo o esplendor das suas galas, e o amor com a sua infinita doçura.
Elle era moço e artista. O pai adivinhou a gloria d'aquelle destino, e disse-lhe:--Parte.
E partiu, alegre, descuidoso, pensando um pouco na gloria, alguma cousa no amor, e namorando-se mais que do amor e da gloria d'aquella Italia formosissima em que nascera e em que primeiro devia amar.
Dias depois entrava no _atelier_ de Perugino, em Perugia. Um artista hospedava outro.
A recepção foi cordial. Todavia Raphael, porque era elle, queria ser mais alguma cousa do que um simples hospede,--ambicionava ser discipulo.
Esboçou os primeiros quadros, coloriu os primeiros contornos, e o mestre inclinado sobre o hombro do moço pintor já o não queria só como hospede nem o quereria já como rival.
Tinha dezesete annos.
Sorria-lhe a vida e a gloria. Começára pelos retratos, adestrára-se a mão, e Perugino ficára vencido.
Um dia o discipulo quiz voar mais longe, e começou um quadro de largas dimensões, o celebre _Sposalizio_, cujo assumpto delicado e formoso é o _Casamento da Virgem_.
O artista queria emancipar-se da tutela de Perugino, mas o discipulo, respeitoso e grato, afogava a sua individualidade na _maneira_ do mestre.
Aos vinte annos, todo o talento, que tem balbuciado até ahi, procura quebrar as gramalheiras da imitação.
É a época da liberdade.
Raphael foi encarregado de coadjuvar o seu condiscipulo Pinturricchio na reforma artistica por que ia passar a cathedral de Sienna. Mas Raphael foi mais de que um obscuro collaborador n'aquelle maravilhoso poema da pintura.
Do seu pincel desabrocharam os graciosos frescos, cheios de vida e mocidade, que ainda hoje se conservam em todo o esplendor da belleza.
Um talento assim é tambem athleta; quer luctar. Florença era então a arena dos grandes artistas. Miguel Angelo e Leonardo de Vinci estavam em campo. Perugia era já pequena para Raphael. Partiu para Florença onde podia justar com os dous maiores pintores da Italia. A esperança era o seu anjo da guarda;--a gloria o sonho de todas as horas.
Ah! Florença! Como elle se sentia bem alli, pensando, executando, e dividindo o tempo com a arte e com o amor!
Fóra do _atelier_, esperavam-n'o os sorrisos da ramilheteira, a _fioraia_; quando estava trabalhando, tinha perto de si as flôres d'ella. E tanto a amava, e tanto a tinha presente quando não a via, que o seu pincel a reproduziu espontaneamente na _Bella Jardineira_, a primeira Virgem de Raphael, quadro admiravel conservado ainda hoje na galeria do Louvre.
Era o cartel atirado a Miguel Angelo e a Leonardo de Vinci. Estava travada a lucta entre os poderosos athletas.
Occupava n'esse tempo o throno pontificio o papa Julio II. Roma ia envolver-se n'um manto de roçagante magestade.
Levantavam-se templos, erigiam-se palacios, encommendavam-se quadros. O torneio das artes mudava-se de Florença para Roma. Alli era a capital do mundo, alli pulsava o coração da Italia; grandeza, esplendor, deslumbramentos olympicos, tudo havia alli.
O architecto encarregado de velar por todas essas maravilhas da arte era Bramante, tio de Raphael.
O amor foi vencido pela gloria. Veio de Roma um convite. Raphael despediu-se da _fioraia_ e aceitou, entre triste e distrahido, umas flôres que ella lhe dera orvalhadas de lagrimas. A florista de Florença ficava com a immortalidade que lhe dera o seu amante; Raphael partia lendo na vastidão do horisonte a epopêa do seu destino...
Roma foi em todos os tempos a fascinação dos artistas. Tudo lá tem voz para cantar as grandezas do passado, e os monumentos arruinados rumorejam ainda hoje as legendas dos maiores artistas do mundo.
Apresentado ao papa Julio II, sentiu-se maior que nunca; o seu pincel era a vara de condão que devia desencantar as maravilhas do Vaticano. Começou pela sala de la Segnatura. O grande pintor mostrou a valentia do seu pulso em quatro quadros differentes que decoram a sala:--a Theologia, a Philosophia, a Poesia e a Justiça.
O papa entrou um dia á sala onde Raphael trabalhava. Extasiou-se diante do prodigio; chamou quatro operarios e mandou desfazer a martello os _frescos_ que os predecessores de Raphael haviam pintado. Já era muito e ainda não era tudo;--começava a realisação do sonho.
E todavia nos jubilos de Raphael perpassava, de momento a momento, uma sombra; era o pincel de Miguel Angelo. Ambos tinham sido chamados a Roma, collaboravam ambos n'aquella immensa epopêa da renascença artistica da Italia, e todavia não fraternisavam em amiga communhão, nem siquer se tinham permittido a mutua contemplação dos seus quadros. Trabalhava um na capella Sixtina; o outro nas salas do Vaticano. Sempre que vinha a geito o confidenciar com seu tio, ahi lhe segredava Raphael o immenso desejo de conhecer as obras primas de Miguel Angelo. O velho artista ouvia-lhe as confidencias e sorria-se. Mas um dia, Bramante, aproveitando a ausencia de Miguel Angelo, que trazia entre mãos o _Juizo Final_, abusou da sua qualidade de architecto e entrou com o sobrinho á capella. O mesmo foi pascer Raphael os olhos nas telas de Miguel Angelo e deletrear os segredos artisticos que deviam operar a rapida transformação porque passou o seu talento audaz e gigantesco. A historia consigna muitos d'estes factos, em que um artista que começa parece aquecer-se para uma vida nova nas labaredas que illuminam a alma de outro artista já feito. Corregio, ao relancear os olhos á _Santa Cecilia_ de Raphael, exclama arrebatado: «_Anch' io son pittor!_»--La Fontaine, ouvindo uma ode de Malherbe, sente incendiar-se-lhe a alma no fogo da inspiração.
Passados dias, Miguel Angelo entra ás salas do Vaticano e não póde conter um grito de admiração. «Ah! disse elle, Raphael imita-me; Raphael estudou-me; Raphael viu o que eu tenho feito!»
E n'esta apostrophe em que espontaneamente rebenta o sincero orgulho d'um grande artista, Miguel Angelo prophetisa, sem o desejar talvez, a gloria que esperava Raphael, como Mozart prophetisa por uma intuição artistica o destino esplendido de Beethoven, e Haydn os triumphos ruidosos de Mozart.
Eram tres homens, Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci que deviam coroar o assombroso monumento do espirito humano começado por Dante e Giotto.