Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos

Part 7

Chapter 73,805 wordsPublic domain

Depois d'isto será desnecessario dizer-lhe que eu não chamo aptidão poetica ao geito para fazer versos. Tomo a palavra poesia na sua accepção mais ampla e mais elevada, na altura em que o meu amigo a comprehende e a cultiva. Que o estudo das mathematicas seja avesso á poesia pequenina, lymphatica, entanguida e constitucional que por ahi nos ministram quotidianamente, não serei eu que o duvide, que com as mathematicas me lavei da ridicula monomania de fazer versos ao palôr da lua, ás brisas, á alvura dos lirios, á modestia das violetas e a outras especies similhantemente insipidas; mas que o seja a poesia digna de tal nome, a este lyrismo interior, a este santo enthusiasmo que produz nas almas a sublime loucura do genio, não creio, nem o meu amigo o póde crêr tambem, porque a poesia assim comprehendida é a manifestação da intelligencia no seu estado de graça.

Esta questão por conseguinte, em que eu ganhei os seus folhetins para me compensarem do descredito que me devem ter acarretado os meus, levantada a apparente contradicção que o meu amigo notou nas minhas idéas sobre este assumpto, termina aqui, porque isto vai tomando geitos d'uns _dize tu direi eu_ interminaveis.

Vou pois responder á contradicção que me aponta, e passar a conversar comsigo sobre uns outros pontos do seu folhetim.

Diz o meu amigo que sustentando eu que os estudos mathematicos não são contrarios ao desenvolvimento das faculdades poeticas e do gosto litterario, estou em opposição commigo mesmo quando avanço que se dessem á França mais arithmetica e menos versos Sedan seria impossivel.

Crivei este periodo umas poucas de vezes e, á parte o joio dos meus defeitos grammaticaes--com que já me não afflijo porque estou calejado no peccado--não achei cousa que se parecesse com uma contradicção.

Eu accuso os francezes de futeis; accuso-os de tratarem as questões mais serias com a leviandade que lhes é propria, de fazerem romances quando se trata de escrever historia, de recitarem versos quando se trata de discutir sciencia, de sonharem theorias de governação platonica quando se trata de assentar principios de democracia pratica, de orarem ás turbas em estylo academico e repolhudo quando se trata de pegar em armas e defender a patria.

Foi isto o que eu quiz dizer e que o meu amigo não podia deixar de entender assim.

Que contradicção ha entre isto e a minha these de que o estudo das mathematicas não póde ser prejudicial á aptidão poetica?

Póde acaso entender-se que eu quiz apresentar os francezes como eminentemente aptos para a poesia, e ao mesmo tempo e por isso mesmo rebeldes ao senso pratico e á comprehensão das questões positivas?

Creio que não, porque sendo a litteratura, como não podia deixar de ser, o espelho onde se reflecte em toda a sua verdade o genio d'um povo n'uma dada época, um povo futil ha-de ter uma litteratura futil, e é o que se está vendo em França actualmente, e o que se tem visto sempre e em toda a parte em identicas circumstancias: á falta de tino pratico, de seriedade de espirito, de robustez d'alma e de convicções corresponde o abaixamento litterario filho d'essa depressão de espirito e de caracter.

Menos contradictorio com as minhas opiniões actuaes é o facto que me aponta de eu ter trocado a lyra ferrugenta das minhas _Alvoradas_ pelas contemplações astronomicas; já acima lhe disse que foi com as mathematicas que eu me penitenciei do peccado mofino da poesia _piegas_, e eu nunca dei outra.

Surprendeu-me este periodo do seu ultimo folhetim:

«É facto averiguado pela critica physiologica que a intelligencia varia de homem para homem segundo as mesmas condições physicas do cerebro.»

Se não se offende peço licenca para lhe dizer que eu estou na innocente persuasão de que a physiologia ainda não chegou a averiguar um facto tão importante, a não ser alguma physiologia official _ad usum delplini_.

Acredito mais que a physiologia em questões de analyse organica, quantitativa e qualitativa, está ainda muito áquem das suas elevadissimas aspirações, e que o ponto que o meu amigo diz _averiguado_ me parece sufficientemente duvidoso para me aconselhar a prudente resolução de ter para com elle uma espectativa benevolente, como se diz em S. Bento.

Isto porém é uma questão incidente, que eu não posso nem sei discutir. Adiante.

Apesar de ter o Legouvé na sua estante, apesar das minhas amigaveis reclamações sobre este ponto, insiste o meu amigo em sustentar que a educação litteraria completa faz mal á mulher e acrescenta:

«Dando-se tão lata instrucção á mulher occasiona-se um desequilibrio na familia, desapparece um dos elementos primordiaes--o pai. Ha um excesso de intelligencia, mas ha uma diminuição de sensibilidade, porque a mulher usurpou as funcções educativas do esposo.»

O meu amigo crê que ha actualmente _equilibrio_ na familia? Mas que qualidade de equilibrio, permanente, estavel ou instavel, e permitta-me, por graça, a caturrice da distincção mathematica? Mas como quer que haja equilibrio se as duas forças que solicitam a familia são desigualissimas e incidentes?... Como ha-de haver equilibrio se o homem, o esposo vive em pleno seculo XIX e a mulher em plena idade media?... Que vê o meu amigo na familia moderna em geral, e não n'esta ou n'aquella familia especial que é honrosa excepção á regra? Marido e mulher são duas creaturas que se não conhecem: o marido trabalha, estuda, pensa, lucta, é funccionario, é politico, é deputado, é escriptor, é poeta, é homem de sciencia; a mulher não sabe em que elle trabalha, não conhece o que elle estuda, não comprehende o que elle pensa, ignora-lhe as ambições, não o coadjuva nas luctas, não o estimula, não o consola, não o anima, por que não póde, por que não sabe, ou melhor, por que nós lhe não damos a força, por que nós lhe não damos educação. O casamento actualmente, em geral, não é a união de dous individuos, de duas forças, de duas almas para a constituição da familia, esta instituição verdadeiramente divina, por que é sublimemente humana, é apenas a juncção de dous corpos, cujas almas ou se desconhecem ou se repellem. D'ahi a desordem ou a indifferença, tomando-se esta muitas vezes por felicidade. D'ahi a crescente desmoralisação dos costumes privados, o celibato commodo e prudente que tem por origem o egoismo; d'ahi o desregramento das ambições politicas e argentarias, como compensação á esterilidade das ambições domesticas legitimas.

Vive-se na rua, por que a casa, o lar só serve para lá ir comer ou dormir, quando se não dorme e come pelas orgias. A mulher não é uma companheira, é um camarada militar, uma creatura que nos escova o fato, que nos arruma o toucador e que nos põe em ordem a mesa do trabalho. D'ahi estes ares ridiculamente protectores que nós nos permittimos com as mulheres; d'ahi estes compadecidos modos cathedraticos com que nós lhes fallamos em letras, em sciencia, em artes, em politica; d'ahi esta nossa insolente superioridade intellectual ganha a custa do isolamento a que as votamos, da ignorancia a que as condemnamos; d'ahi este estado social violento, hypocrita, convencional e esteril em que nos arrastamos sem convicções, sem dignidade, sem enthusiasmo, por que nos vêmos obrigados a estudar a sciencia pelo ganho, a arte pelo lucro, a litteratura por officio, a politica por vaidade; d'ahi esta burguezia de sentimentos, este plebeismo de educação que nos faz tributar uns respeitos hypocritas e convencionaes á mulher, quando a encontramos nos salões de baile, e que nos leva a apedrejal-a quando a encontramos pela rua.

A mulher actualmente ou vive annullada pela ignorancia, ou resignada com o despotismo das leis, ou em guerra aberta com a nossa autocracia conjugal.

Andamos aqui a escrever artigos do fundo sentimentaes e floridos a favor dos escravos do Brazil, e por que não havemos de pedir franca e logicamente a emancipação para a ametade do genero humano? Pois acham utopia ridicula a emancipação da mulher e não acham grotesca a emancipação do escravo? Que maiores direitos tem o negro ignorante e brutalisado pelo chicote á instrucção, á igualdade social, do que a mulher? Utopia! Chamem-lhe utopia embora, mas tenham tambem a franqueza de chamar despotismo e brutalidade ao direito da força. Parece que temos medo do espirito feminino, parece que nos assusta a concorrencia do trabalho intellectual da mulher!...

Dizemo-nos liberaes, e fechamos as portas dos nossos parlamentos á opposição! Parece que nos dóe a consciencia!... Porque não ha-de a mulher collabolar comnosco na obra da civilisação?... Pois a ethnologia nota as profundas differenças de constituição do craneo que caracterisam as diversas raças de homens que povoam o universo, nota ao mesmo tempo a perfeita igualdade d'essa constituição entre o homem e a mulher, e nós, pedindo a brados a igualdade de direitos para todos os homens, sem distincção de raça, pedimos ao mesmo tempo que se neguem esses direitos á mulher porque abusa d'elles? Mas como é que a mulher abusa d'esses direitos, se nunca usou d'elles?... Quem disse que a mulher abusa d'esses direitos?... quem o sabe?... quem o demonstrou? Dil-o a historia?... sabe-o a philosophia?... demonstrou-o a sciencia? Pois démos sempre á mulher a ignorancia pôr dote, e gritamos que lhe faz mal a instrucção? E porque é que a instrucção faz mal á mulher e faz bem ao homem? A muita instrucção embota-lhe a sensibilidade, diz o meu amigo! Perigosa sensibilidade a que prescinde da intelligencia; e é com effeito essa a sensibilidade feminina, sensibilidade desregrada, impetuosa, indomavel muitas vezes, que as martyrisa, que as adoenta, que as exalta, que as perde, porque sentir, na accepção cruamente physiologica do termo, é o unico modo de ser da sua vida interior, vida riquissima de aptidões, mas que nós lhe circumscrevemos aos estreitos limites do trabalho domestico quotidiano, vulgar e quasi mecanico.

A mulher muito instruida é perigosa, diz ainda o Pimentel, por que usurpa as funcções educativas do esposo. Diga-me em que paiz os pais, a não ser os muitos ricos ou os que tenham uma profissão muito especial, educam seus filhos. As funcções educativas do esposo!... Mas então que quer deixar á mulher, se até a esbulha do sublime encargo de primeira preceptora de seus filhos? Nós é que somos e temos sempre sido usurpadores de taes funcções. Eu creio muito pelo contrario que o principal trabalho destinado na familia e na sociedade á mulher é o trabalho da educação, e para educar é preciso saber, e para saber é preciso estudar e pensar, duas cousas que a sociedade prohibe á mulher actualmente.

É convicção minha, e n'isto como em quasi tudo estou com o meu estimavel Legouvé, que a sociedade não chega á solução satisfactoria d'um certo numero de problemas gigantes que assombram o mundo moderno, em quanto a mulher não collaborar com todas as forças de que é capaz na resolução d'essas questões. Por exemplo: as questões de beneficencia, de instituições de caridade, de sociedades cooperativas e de previdencia, com as quaes se prende a magna questão do proletarismo e da miseria, só o concurso do espirito feminino as póde encaminhar para uma solução completa. Depois, e prendendo-se ainda com estas, vem a questão do ensino, em que a mulher póde e deve prestar grandissimos serviços. Depois ainda, ou talvez antes de todas estas, vem a questão religiosa, esta mole gigante que traz ahi a sociedade vergada sob o peso da hypocrisia, da duplicidade, da indifferença da tibieza de caracter, da frouxidão de convicções, do cynismo; esta sphynge esculpida na frente de todas as questões sociaes e para a qual não ha Edipo possivel emquanto a sociedade beber com o leite todos os preconceitos, todos os sonhos, todas as phantasias, todos os absurdos de que se nutre o espirito da mulher contemporanea.

Já vê a importancia que eu dou á educação da mulher; quero essa educação amplissima e tão completa quanto o requeira a aptidão especial que cada mulher revelar. Quero a sua emancipação intellectual, moral, civil e politica... e politica, creia n'isto, por que não sei recuar nem me assustam as consequencias legitimas de principios que considero verdadeiros, embora o mundo, e o meu amigo com o mundo, me taxem de utopista, de exaltado e de revolucionario.

Apresento-me bem a descoberto e francamente n'esta questão, para que o meu amigo ataque tambem francamente os pontos que julgar vulneraveis. Espero-o com o respeito que me impõe a sua superioridade, mas com a coragem que me dão as minhas profundas convicções.

Vou terminar por hoje.

O Garrett, o Lopes de Mendonça e outra gente de cothurno disseram cousas muito boas é muito bonitas ácerca do _Genio do Christianismo_ de Chateaubriand. Sei isso e pouco mais saberei do que isso; mas ou por ignorancia, ou por falta de gosto, ou por caturrice é certo que, apesar de todas essas authoridades, eu considero o _Genio do Christianismo_ um bom livro apenas como producção meramente litteraria, e n'este caso tenho só a observar que o titulo me parece um pouco ambicioso. Como livro de historia porém, e elle tem pretenções a isso, permitta-me dizer-lhe que o julgo deploravel, e como livro de philosophia por que se quer fazer passar, acho-o simplesmente piegas e lamuriante, e olhe que não faço ao livro grande injustiça, creio eu. O meu amigo pensa porém d'outro modo, e eu não lhe quero mal por isso, comtanto que me creia sempre

seu amigo e admirador,

Bragança, 3 de março de 1872.

_Alexandre da Conceição._

* * * * *

Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceição

_Meu bom amigo:_

Conservo-me impenitente.

Não me confesso convencido, nem siquer vencido, apesar do Conceição ter já começado a cantar-me piedosamente o _De profundis_.

Quero ainda enviar-lhe um grito de vida e rebellião da margem do imaginario sepulchro para o fundo da qual o meu amigo julgou arrojar-me com a sua argumentação um pouco sophistica, é certo, mas sempre habil e benevola. Não acabou esta amigavel pendencia pela morte d'um dos contendores, como vê; ella é que de per si mesma, como o meu amigo deu a entender com a sua phrase do _dize tu, direi eu_, se está contorcendo nos derradeiros paroxismos, porque realmente não tem vida para mais.

Deixe-me dizer-lhe pela ultima vez a minha opinião, que se me afigura sempre a mesma. Supponho eu que me tenho conservado no terreno onde comecei a pugnar.

A mathematica é uma sciencia positiva, em que a razão caminha de demonstração em demonstração até chegar á verdade final,--a conclusão. Por conseguinte póde-se ter á conta de gymnastica intellectual, que, á força de evoluções trabalhosas, chega a descortinar ao espirito por ella cultivado as eminencias olympicas, defesas á vulgaridade chata.

A litteratura é caprichosa como a borboleta, adeja, volteia, sobe, desce, doudeja, vive da imaginação, por ella e só para ella, porque muitas vezes, poderia dizer quasi sempre, o ideal a que aspira é uma ficção, uma utopia, um ponto vago, emfim. É por isso que os grandes poetas, e os grandes artistas tambem, são uns doudos sublimes, que pensam umas chimeras côr de rosa que a multidão não entende; e é por isso que antes querem morrer abraçados ao seu ideal do que transigir com a realidade das cousas e dos homens. Ora o mathematico não phantasia, não devaneia, não sonha,--raciocina. Segue um methodo, um processo, um calculo. O poeta é livre, póde escolher voluntariamente o seu norte, póde amarar a gondola da sua imaginação por aparcellados pégos, como Byron, ou deixal-a deslisar mansamente pelos lagos serenos da Italia, como Lamartine.

Agora pegue d'uma alma poeta de vinte annos, essencialmente livre e essencialmente sonhadora, e em vez de a educar em Homero, em Virgilio, em Dante, em Camões, em Garrett, metta-a no carcere do positivismo mathematico, a rações de Serrett ou quejandos, entre um compendio arido e uma lousa funebre. Não quer sujeitar-se, resiste, lucta, e o mais das vezes o que lhe acontece é renunciar á gloria d'um pergaminho academico para ficar em plena posse da sua liberdade intellectual. É como se transportassem subitamente um viajante, que vai atravessando uma campina florida, a uma charneca solitaria, coberta por um céo plumbeo. E resiste, e lucta este poeta de vinte annos porque nasceu fadado para outros destinos, e aborrece a mathematica, e detesta-a, porque uma voz intima lhe diz que a sua missão é cantar como os rouxinoes dos salgueiraes, viver devaneiando como elles, e morrer de cansaço modulando á porfia com o echo melodioso do seu ideal...

Note que eu fallo, e sempre fallei, dos que nascem predestinados para a gloria, dos grandes poetas e dos grandes mathematicos, porque um poeta mediocre e um mathematico igualmente mediocre fazem-se, conseguem fazer-se com o auxilio d'uma paciencia evangelica.

Disse eu e repito-o:

«Não admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo grau de desenvolvimento, está apta para abranger todos os conhecimentos humanos.»

Então um homem que tem uma intelligencia acima do vulgar, que atravessou uma longa educação scientifica, que sujeitou a razão a uma trabalhosa gymnastica intellectual, não estará mais habilitado para comprehender toda a casta de bellezas artisticas, do que um sugeito que não sabe analysar grammaticalmente uma oração? De certo que sim; isto é intuitivo a meu vêr. Ora o grande mathematico póde comprehender Homero, tel-o á cabeceira como Alexandre, mas o que não póde conseguir de certo, salva uma ou outra rarissima excepção, é escrever a _Illiada_, e ser Homero. Um grande poeta, Lamartine ou Byron, pouco importa, não comprehenderá melhor que outro qualquer homem a alma sublime de Herschell ou Newton, apesar de reconhecer comsigo mesmo que não nasceu para se nivelar com Newton ou Herschell? Tambem creio que sim; tambem creio que isto é intuitivo.

O meu amigo accusa os francezes de devaneiadores e por isso mesmo de pouco analyticos, de pouco mathematicos. Quer dizer, accusa-os de viverem para o amor e para a alegria, de amarem as flôres, os versos e as mulheres, e de não preverem as funestas consequencias, já realisadas, da ultima crise sociologica.

É tambem certo que quando a França dava ao mundo um grande mathematico, primeiro havia gerado uma duzia de grandes poetas. Porque é então? Porque _isto_ mata _aquillo_, porque a mathematica, que é a razão, mata aquillo, a poesia, que é a verdadeira liberdade da phantasia e do coração.

O meu amigo, que era mavioso poeta,--sinceramente lh'o digo,--teve de suffocar em si a chamma vivaz da inspiração com os gelados orvalhos das sciencias exactas. D'outro modo, teve de esmigalhar a sua alma, por amor aos cabellos brancos de seu pai, que lhe queria dar uma posição social, para poder regressar ao lar paterno com uma carta de bacharel em mathematica. A inspiração de que brotaram as _Alvoradas_ era dôce, gentil e donairosa. Todavia o Conceição quiz abafal-a, apagar a chamma, desfolhar no altar da sua mocidade as flôres candidas e perfumadas da poesia. Teve de andar nos campos a medir terrenos, a rasgar estradas, a levantar plantas.

Tranquillisou a velhice de seu pai, e como elle já não podia receiar pelo destino do filho estremecido, e o meu amigo tivesse em horas de melancolia umas secretas saudades dos seus tempos de poeta, porque para isso nascera, esboçou no seu gabinete um quadro, cuja idéa é formosa, mas que não tem, a meu vêr, o colorido mimoso e delicado dos seus primeiros versos. Refiro-me ao seu poemeto--_Abençoada esmola_--e desculpe-me esta franqueza, que a nossa amizade authorisa de certo, e que eu tenho comsigo, porque sei que é franco, leal e cavalheiro.

Conhecia-se que o poeta se havia secularisado. Infelizmente era assim.

Do Alexandre da Congeição, o academico sempre apercebido para celebrar as grandes iniciativas e as grandes glorias, restava o poeta esmagado pela pressão da mathematica. Creio que a sua propria consciencia lhe ha-de dizer isto mesmo.

Ah! meu amigo, como eu quizera vêr o seu espirito a espannejar-se ainda, livre, alado, inquieto, deixando vêr aqui e acolá a dôce melancolia das suas estrophes! Perdemol-o, confessa o meu amigo que se secularisou, e eu sinceramente sinto que tenha de _sahir pela honra do seu convento_ mathematico para digladiar com o mais obscuro soldado das suas antigas fileiras.

Ponho aqui ponto para que isto não enfade mais o bom publico que nos escuta, e que por fim de contas não nos quer mal. Não é meu proposito, entenda-se, mostrar que o meu amigo vai succumbir a este golpe final. Eu conheço a qualidade das minhas armas, e os recursos da sua vasta intelligencia. Confesso-me não convencido nem siquer vencido, e sou eu mesmo que declaro ao publico que o meu amigo dispõe de meios que lhe permittem resistir á minha lastimavel dialectica.

Tratarei de passagem os demais pontos da sua terceira carta.

Quanto ás relaçõs physiologicas da intelligencia com o cerebro, julgo-me obrigado a transcrever, para me fazer comprehender melhor, estas palavras de Paulo Janet:[7]

«A experiencia nos ensina, é certo, que o cerebro entra por uma certa parte, por uma grandissima parte no exercicio do pensamento; mas qual seja a causa unica e rigorosa medida, é o que não está demonstrado.» É a massa cerebral, a composição chimica, a electricidade, o phosphoro? Não está _averiguado_, tem razão, e a isso não era eu estranho.

Todavia era meu proposito referir-me ao que a experiencia nos mostra, e Paulo Janet corrobora, que o cerebro entra por muito no exercicio do pensamento.

Creio que a maxima parte da gente assim o havia de entender.

Adiante.

Com relação á educação da mulher sou a dizer-lhe que tenho certas convicções adquiridas no tranquillo silencio do meu gabinete, uma das quaes, e das não menos profundas, diz respeito ao assumpto que vou tratar. Posso estar em erro, mas por ora ainda não tenho razões para me demover. Quando tiver, confessarei a minha abjuração solemnemente. Se estou em erro, redunda apenas em detrimento meu, por isso que os homens que teem restricta obrigação de estudar pausadamente esta questão são os philosophos e os legisladores.

Ora eu nem quero ser uma nem outra cousa.

Na questão da educação da mulher aceito inteiramente as idéas do snr. D. Antonio da Costa no seu livro--_A instrucção nacional_. Permitta-me, pois, que me soccorra da respeitosa amizade que me liga a tão sympathico escriptor, e que me defenda com elle.

É preciso, é indispensavel, é urgente promover a instrucção da mulher, que está em Portugal na proporção d'uma escóla para 6:000 habitantes, sendo que dos 146:000$000 réis votados para as escólas primarias, apenas 18 revertem em favor das creanças do sexo feminino.

Isto está d'accordo com o que eu expuz previamente, porque me lembro de dizer que se não queria a mulher sabia tambem não a queria ignorante.

Urge pois educar a mulher, porque nasceu para mãi, e da mãi é que brota a humanidade, da mãi é que deriva a felicidade social. Mas note-se, entenda-se bem, quero a mulher educada para as funcções pedagogicas que possa exercer na escóla ou no collegio, para as attribuições industriaes que precise desempenhar, para as occupações artisticas que lhe possam caber, e especialmente, e primeiro que tudo, para mãi, para directora, não só destinada a versar negocios de economia domestica, mas tambem para ser espelho na sociedade, divindade na familia,--para ser mãi e esposa.

Deverá defender-se e favorecer-se a absoluta emancipação da mulher?

Digo que não,--convictamente digo que não.

Eu quero que a familia se condense, se unifique, se levante, não desejo portanto roubar-lhe o unico meio de rehabilitação que ella tem,--a mulher. Não quero que a mulher se masculinise para a sociedade, porque não desejo desmembrar a familia.