Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos
Part 6
Quer o meu amigo para a mulher uma instrucção rosada e transparente como uma meditação suspirosa de Lamartine; não lhe quer ensinar da historia senão o sufficiente para que ella se não faça beata, pelo horror aos seus similhantes, ou Lucrecia Borgia, por imitação ou por amor aos envenenamentos; não lhe quer ensinar astronomia porque receia que ella ande pelos bailes a perguntar aos cavalheiros que a comprimentam ou ás amigas que a abraçam, qual seja n'esse momento a declinação austral do planeta Saturno ou em que phase está o quarto satellite de Jupiter! Eu, francamente, não lhe sei responder a isto. Se o meu amigo tivesse dito, clara e cruamente, que quer a mulher como nossa mãi Eva, ignorante como uma barroza de capucha de pardo, entendia-se; era um systema ou uma convicção, a que eu tributaria todos os respeitos que me merecem as convicções sinceras; mas dizer-me que quer para a mulher uma certa meia instrucção, que não vi que désse nunca mais que petulancia, mau senso e bacharelice ás mulheres que a possuem, porque lhes excita a curiosidade sem lh'a satisfazer, porque as não deixa na completa ignorancia, que as obriga á modestia do silencio, nem lhes dá á instrucção regular que produz a sensatez, dizer isto é estar a fazer versos quando se trata de formular claramente um principio, e responder com a _aria final_ da _Traviata_ ao X de uma equação algebrica. Não posso pois acreditar na solidez das suas convicções sobre este ponto, e peço-lhe que, antes de me replicar, se me quizer dar tal prazer, leia o admiravel livro de Ernesto Legouvé--_Histoire morale des femmes_. Se elle o não convencer, eu perco as esperanças de o levar a fazer melhor juizo dos beneficios da instrucção e do espirito da mulher.
Creia-me
muito seu amigo,
Braganca, 7 de fevereiro de 1872.
_Alexandre da Conceição._
* * * * *
Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceição
Meu bom amigo:
Estamos em plena sabbatina e, como em todas as sabbatinas escolares, abundam as palavras e escacêa o methodo, a deducção clara, e a argumentação logica. Escreve o meu amigo que eu li a sua primeira carta um pouco preoccupado, e eu com mais justa razão o poderia accusar de igual desleixo, o que é em si muito mais para sentir attenta a sua intimidade com as formulas mathematicas e os processos de calculo. Vejo-me portanto, obrigado a pôr nos seus verdadeiros termos esta conversa amigavel entre dous rapazes que se estimam. Os periodos que demoveram o meu amigo a quebrar o seu obstinado silencio de ha annos, foram estes:
«O meu pesadelo foi a mathematica, ai! foi a mathematica, sim. O Garrett queixava-se d'um mathematico de Coimbra, o snr. Honorato, que foi causa d'elle se ficar poeta. E o mais é que o snr. Albuquerque, do lyceu, é um homem de intelligencia e d'estudo, duas qualidades que eu respeito e admiro em qualquer homem.
«Mas eu já tinha no corpo a peçonha da poesia; aborreceu-me o Serret, errei um problema, esmoreci, e fiquei como estava. Aconteceu que não pude ser mathematico, e que me deixei ficar litterato. Um mathematico de menos e um litterato de mais,--eis tudo o que aconteceu.
«Em razão d'esta minha inimizade com a mathematica, hei-de recommendar a minha filha, quando ella crescer, que tapete de boninas, e esconda entre plantas o quadrado da minha sepultura. Eu, que não vivi bem com a arithmetica, não quero que ella se vingue de mim, quando me seja impossivel sacudir a lousa com os funebres algarismos que para logo denunciam a milicia dos mortos.
«N'este horror á mathematica sou ainda discipulo de Camillo Castello-Branco que escrevia a Faustino Xavier de Novaes: «Teremos nós sepultura com lagea!? Conta com um cômorosinho de terra, e umas papoulas na primavera, e uma taboa preta com um numero branco. A arithmetica ha-de perseguir-me além da morte!»
Na sua replica propoz-se o meu amigo demonstrar-me, para usar das suas mesmas palavras, que as chamadas sciencias exactas não eram tão destituidas de riquezas poeticas como eu apregoava e muita gente acredita, mormente a astronomia, sciencia que tem dado homens como Galileu, Newton e Laplace; que a mathematica «é uma atmosphera de verdade onde a alma humana respira a pleno peito o ar da vida»; e finalmente «que esta poesia da sciencia não era só accessivel aos espiritos iniciados n'ella», senão que tambem se lhe afigurava muito para ser entendida e afagada pelas mulheres.
Esta a summa da sua argumentação.
Respondi-lhe eu que a poesia das mathematicas estava de certo nas suas grandes syntheses, nas suas vastas concepções, e que o meu espirito não tinha chegado a este apogeu aonde só podem subir as intelligencias privilegiadas. Bem sabe o meu amigo que para se apreciar o panorama é preciso ascender ao viso da serra d'onde elle se descortina em todo o seu esplendor;--que Newton, Galileu e Laplace me queriam parecer ao mesmo tempo grandes poetas e grandes mathematicos; chegarem aonde os outros não vão era já prova mais que sufficiente de que para elles não havia bellezas ignoradas nos altos segredos da harmonia que rege o universo; disse-lhe outrosim que não negava nem discutia que a mathematica fosse um instrumento de verdade, o que não obstante tinham feito Hobbes, Castel, Buffon e outros, porque assumpto era esse estranho ao meu proposito e competencia; que, finalmente, quanto a ser accessivel a poesia das sciencias exactas a todos os espiritos, se me afigurava que alguns havia que só a despeito d'uma repugnancia natural logravam metter pé nas mathematicas elementares, porque a isso os obrigavam os regulamentos academicos. Quanlo á competencia das mulheres para entenderem os phenomenos meteorologicos, as theorias cosmogonicas e os problemas intrincados da philosophia, respondi-lhe que não era minha opinião dar tamanha latitude á instrucção feminina. Já vê que não fui eu que puz esta questão accidental; foi o meu amigo que a estabeleceu tambem accidentalmente.
Deixemos porém isto para logo, que por enquanto vinha prejudicar a unidade das materias que me proponho tratar.
Insurreccionei-me, como sempre, contra o charlatanismo scientifico, que expunha as mathematicas elementares na _linguagem hirsuta das cadeiras_, na opinião de Garrett, que amontoava explicações confusas, citações nebulosas, o que produzia immediato desgosto no animo do estudante.
A clareza é a primeira condição para nos fazermos entender, e os mathematicos charlatães não a podem ter, porque elles mesmos não digeriram ainda os sobejos indigestos, forrageados sob a mesa olympica em que se banquetearam intellectualmente os primeiros homens da sciencia.
Ora o meu amigo, depois de me observar que eu li a sua carta um pouco preoccupado, diz-me que «ha salvação possivel fóra da sua igreja, e que para divisar uma face á verdade não é absolutamente indispensavel saber dirigir um equatorial para a estrella 2151.ª da _Popa do Navio_.»
Isto e o que eu digo é simplesmente a mesma cousa; o Conceição está portanto commigo.
Se ha salvação possivel fóra da sua igreja, o mesmo é dizer que se póde ser grande litterato, grande estadista e grande politico sem se saber grande mathematica.
A verdade é a côrte das idéas, deixe-me dizer assim, o centro onde ellas se devem grupar ao serviço da intelligencia soberana. A familiaridade com qualquer methodo seguro deve ser indubitavelmente o caminho mais curto para chegar á verdade, e como o meu amigo observa que ha salvação possivel fóra da sua igreja, parece dar a entender que a mathematica não é o unico methodo seguro para conseguir tal fim. Não sei se é ou não, pela simples razão de não saber mathematica.
Por isso é que eu tinha dito: «Não nego nem discuto que a mathematica seja um instrumento de verdade,» e mais abaixo:
«Não combati o estudo da mathematica nem combato; cada um estuda o que quer ou o que póde. Peço vista ao meu folhetim que despertou a sua replica. Não aconselhei tambem a leitura da mais edificante novella de preferencia ao mais arido compendio d'arithmetica. O que eu fiz foi penitenciar-me publicamente do meu desamor aos numeros e, como eu sou d'uma sinceridade rude, permitti-me dizer que dormiria mais descançado o somno da morte, se minha filha, em vez de assignalar a minha sepultura com uma lousa numerada, levasse frequentes vezes ao meu cómoro um ramo de flôres. Isto é o que meu amigo não póde nem deve discutir, apesar da sua vasta intelligencia, que eu aprecio na devida conta. É licito a cada um dizer como quer ser sepultado. O meu testamento, no que respeita a esta disposição, é publico.»
Como eu não posso affirmar a primazia da mathematica, assento de mim para mim que ella, em sua qualidade de sciencia, tende a demonstrar a verdade, quantitativa pelo menos, o que de certo é um exercicio de gymnastica intellectual que deve concorrer para o desenvolvimento do espirito. Mas do que eu não posso duvidar é de que as outras sciencias, como a psychologia, a physiologia e a logica, por exemplo, encerram verdades, e que conseguintemente devem tambem exercitar as faculdades intellectuaes. Ora o meu amigo desobriga-se de provar que a mathematica é a unica estrada que leva á Roma da verdade, dizendo que «ha salvação possivel fóra da sua igreja»; mais arraigado fico eu pois ao pensamento de que um homem póde ser grande sem a muleta da mathematica. Não admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo desenvolvimento possivel, está apta para abranger todos os conhecimentos humanos.
Se porém um limitado peculio mathematico não permitte attingir-se esse grau de desenvolvimento, nem pode ser compensado pelas mealhas respigadas em outros thesouros de sciencia, então é muito para duvidar-se do senso artistico do individuo. Se ha «mathematicos seccos de espirito» é que tão pouco se exercitaram n'esse ramo de conhecimentos, que não chegaram á perfectibilidade intellectual relativa ou porque a sua intelligencia d'elles é pequena, rachitica, tacanha, e assimila pouco, não podendo digerir a variedade de conhecimentos pela sua mesma incapacidade natural. Esses taes trabalham com os elementos creados pelos grandes genios, contentam-se com dar alguns passos nas estradas infinitas que elles exploraram e param de affrontados de cansaço e de inepcia porque a cabeça se lhes nega a ir mais longe.
É facto averiguado pela critica physiologica que a intelligencia varia d'homem para homem segundo as mesmas condições physicas do cerebro.
Ora os espiritos privilegiados, que chegaram a ser grandes mathematicos, nasceram predestinados para as conquistas do pensamento, não ha difficuldade que os sustenha, barreira que os inquiete; são como os Alexandre Magno e os Napoleão que não recuam diante da metralha inimiga e vôam no corcel impaciente até que a morte lhes arrefeça o sangue nas vêas. Da theoria dos _mathematicos-artistas_ e dos _mathematicos-executantes_ deduz o meu amigo o seguinte argumento:
«Ha mathematicos seccos de espirito, estereis de imaginação e baldos de todo o senso artistico, logo foi a mathematica que os fez mirrhados e massadores. Se ha grandes mathematicos com imaginação e sentimento, esses são espiritos por tal fórma privilegiados que resistiram ás influencias esterilisadoras do numero e do caloulo.»
Esta maneira de deduzir é que a mim me quer parecer extremamente sophistica. Então o meu amigo acha que se póde sujeitar a influencias materiaes, puramente externas, a intelligencia humana? Ou quer então medil-a pela mesma bitola em todos os homens? Se apenas houvesse um só grau de desenvolvimento intellectual, não teriam hoje menção especial os Newton, os Galileu e os Laplace.
O conhecidissimo Fetis, o maior sabio da musica moderna, venceu pela sua rara intuição todas as difficuldades e devassou os mais reconditos segredos da arte dando ao mundo o _Tractado da harmonia_[6] um verdadeiro monumento que não poderia ser escripto por qualquer executante secundario da orchestra de S. João.
E porque não poderia? Segundo as suas conclusões, porque a musica os «fez mirrhados e massadores.» Victor Hugo escreveu uma ode magnifica aos quinze annos; logo, ainda segundo as suas conclusões, foi porque resistiu ás influencias esterilisadoras da poetica. Não sophisme, meu amigo; bem sabe que ha aptidões excepcionaes e especiaes, que os Newton e os Victor Hugo são grandes porque não são vulgares.
Agora ha certa affinidade em determinadas sciencias, que o mesmo é ter aptidão natural para umas e para outras, porque em verdade as podemos considerar irmãs gemeas.
Acontece isto, como sabe, com a mathematica e com a physica, com a geographia e com a historia. Todavia esta affinidade não se dá a meu vêr entre a mathematica e a poesia, porque, com quanto mirem ambas á verdade, visto que ambas teem por fim o bello, uma caminha a elle pela sensibilidade, pela imaginação, e a outra pela intelligencia, pela razão. É preciso ser descommunalmente grande, excepcionalmente organisado, para as abranger a ambas: Diz o meu amigo na sua ultima carta:
«Parece-me, pois, senão demonstrado, pelo menos não destruido pela sua argumentação, que, em principio, o estudo das mathematicas não faz nem póde fazer mal algum ao gosto litterario ou á aptidão poetica.»
E na primeira dizia que dessem á França mais arithmetica e menos versos, e que Sedan seria impossivel. Aqui ha contradicção. Então foram os versos que mataram o calculo,--foram as demasias do coração que allucinaram a cabeça. Portanto uma cousa e outra são incompativeis.
Tambem na sua primeira carta dizia o meu amigo que devêra a sua reprovação em mathematica ás influencias nocivas da poesia, e que só combatendo pertinazmente essas influencias conseguira familiarisar-se com os numeros. Isto corrobora ainda o meu argumento.
A mathematica dilata a razão, como a poesia dilata o coração. Uma vai após a razão, a outra após a sensibilidade, e tanto isto é verdade, que os grandes litteratos são achacados ás irritações nervosas, ao _genus irritabile vatum_, como diziam os antigos. O melhor poeta será o que sentir melhor; o maior mathematico será o que calcular melhor. Portanto, é indispensavel uma organisação especialissima para ser tamanho n'uma como na outra. Lopes de Mendonça que tentou passar das amenidades da litteratura para o estudo pesado da economia politica, da administração, de tudo o que era adverso á sua inclinação natural, acabou por se perder para tudo, agonisando longo tempo no carcere da loucura.
A nossa conversa fica n'isto: Não nego que a mathematica forneça processos seguros para a percepção da verdade, nem o meu amigo affirma que só pela mathematica se chegue á verdade, o que é o mesmo que dizer que sem se ser forte em mathematica, se póde ser grande em qualquer outra cousa,--em litteratura por exemplo. Faço entre os mathematicos, como entre todas as sciencias e artes, a distincção natural que offerecem as intelligencias. Opino que a heterogeneidade dos meios de que se servem a mathematica e a poesia produz entre ellas um certo antagonismo natural de modalidade, como se dá por exemplo entre as aves e os peixes cujo fim commum é a vida, com quanto umas vivam no ar e outros na agua; e o meu amigo corrobora esta opinião mostrando que a poesia no seu proprio espirito só cedeu campo á mathematica, depois que a expulsou a ella, a poesia, e que a França não attingiu o _fim_ que devia attingir, porque empregou o _meio_-poesia, em vez de empregar o _meio_-mathematica.
Vamos agora á que o meu amigo chama _magna_ questão da educação da mulher, e antes de mais nada permitta-me que rebata a sua phrase «responder com a _aria_ da _Traviata_ ao X de uma equação algebrica.» Isto ou é gracioso ou serio. Se é gracioso, é improprio d'uma questão de doutrina, e se é serio, colloca-se o meu amigo na posição de não poder continuar uma discussão com um contendor que larga a cantar á desgarrada quando o meu amigo lhe está expondo argumentos, e corre além d'isso o risco de se contradizer porque não se concebe como o Conceição, acreditando que eu estudo, suppõe que eu possa cantarolar quando o meu amigo raciocina.
Eu chamo _impiedade_, no nosso caso, ao desprezo pela religião e portanto á incredulidade religiosa. Ora o seculo XVIII instruiu de mais a mulher, roubou-lhe a meu vêr a timidez que lhe é natural, e portanto a candura que a caracterisa. Roselli de Lorgues trata bem esta questão no _Jesus Christo perante o seculo_. Na minha opinião a mulher deve ter a instrucção da preceptora, não a erudição de uma academia. Já vê que não quero a mulher ignorante mas que tambem a não quero sabia.
O Legouvé, cuja leitura me recommenda, já era meu conhecido,--estava na minha estante.
Acho a _Histoire morale des femmes_ um bonito livro, mas não um livro irrespondivel, irrefutavel.
Vejamos o capitulo _Educação_ que friza ao nosso caso, e permitta-me que lhe riposte o golpe com as suas mesmas armas.
Cita Legouvé o caso d'um rapaz e d'uma rapariga que estavam aprendendo astronomia. Elle immovel, concentrado, meditativo. Ella exaltada, enthusiasmada, em extasi. Isto que prova? Que ella sentia mais, o que não é o mesmo que comprehender melhor.
N'outro relanço diz Legouvé: «Ser esposa e mãi é simplesmente dirigir um jantar, governar os criados, velar pelo bem-estar material e pela saude de todos, que sei eu, é simplesmente amar, orar, consolar? Não! É tudo isso; mas é mais ainda; é guiar e educar, por consequencia é saber.» Ora guiar e educar é saber, mas saber astronomia não é guiar e educar. Dando-se tão lata instrucção á mulher, occasiona-se um desequilibrio na familia, desapparece um dos elementos primordiaes,--o pai. Ha um excesso de intelligencia, mas ha uma diminuição de sensibilidade, porque a mulher usurpou as funcções educativas do esposo.
Tinha muito que lhe dizer, mas nós tratamos tantos pontos ao mesmo tempo, que é impossivel continuarmos assim.
Resta-me dizer-lhe como eu explico o desamor da sociedade pela poesia.
A Europa está n'uma verdadeira época de transição. Tudo é fluctuante, incerto. Não tarda, segundo penso, uma evolução geral, que se presente através dos acontecimentos presentes. A sociedade está em ebullição e por conseguinte falta de instrucção; a litteratura resente-se d'este estado geral, e por isso produz pouco e mal.
Ha seculo e meio que estamos a traduzir, disse-o Garrett. Temos perdido os nossos grandes homens, uns porque morreram, outros porque se retiraram da arena, e nem a sociedade lê, porque não entende, nem a poesia canta, porque não tem voz.
O que se dá entre nós esta-se dando actualmente em França onde o theatro vai na extrema decadencia como em Portugal, e onde os ultimos livros são apenas inspirados pelos ultimos acontecimentos da sociedade franceza. Sedan parece-me que não é um facto sem proximas consequencias europêas. A litteratura e a politica estão n'uma indolencia esterilisadora, e isto assim não póde continuar.
A respeito de Portugal, escrevia Lopes de Mendonça: «A nossa decadencia litteraria retrata-se com a mais severa exactidão nos factos da nossa historia politica.» O mesmo é em todos os outros paizes.
Estas evoluções são fataes em todos os povos. Os grandes e os pequenos corpos não podem subsistir sem a renovação incessante da materia. As nações são corpos collectivos, e estão sujeitas a esta lei de renovação perpetua. A poesia está defecada porque respira no meio d'uma sociedade igualmente defecada;--d'aqui o queixarem-se uma da outra. Isto é o que me parece.
Deixe-me,--e já me ia esquecendo,--levantar uma phrase sua a respeito de Chateaubriand, o qual «se esqueceu de metrificar o _Genio do Christianismo_, unica qualidade que falta ao livro para poder ser recitado ao piano.»
Eu não esperava isto de si, meu caro Conceição. O _Genio do Christianismo_ afigura-se-me um livro pensado, formoso e concludente.
Guizot escreveu algures palavras de respeito ao author e ao livro; Lopes de Mendonça tambem, e Garrett escreveu simplesmente no _Tractado da educação_: «Mr. de Chateaubriand diz em sua obra _immortal_ do _Genie du Christianisme_, etc.»
O meu amigo dir-me-ha agora se Guizot, Garrett e Lopes de Mendonça são uns futeis.
Visto que me não permitte que publicamente confesse que tenho muito a aprender da sua intelligencia, consinta ao menos que me assigne
seu admirador,
Porto, 20 de fevereiro de 1872.
_Alberto Pimentel._
[6] Nós vêmos, por exemplo, um musico mediocre produzir um effeito mediocre com um excellente instrumento, e pelo contrario um excellente musico produzir um admiravel effeito com um instrumento mediocre. Aqui o genio não se póde medir pelo instrumento material. Vêmos as lesões do instrumento compensadas pelo _genio_ do executante, tal instrumento doente e maltratado tornar-se uma origem de maravilhosa emoção nas mãos d'um _artista_ arroubado e sublime. Vêmos um Paganini obter sobre a corda unica d'um violino effeitos que um artista vulgar procuraria em vão n'um instrumento completo, ainda que fosse obra do mais habil fabricante; vêmos Duprez sem vos sobrepujar pela alma todos os seus successores. Em todos estes factos, é indubitavel que o genio não se mede, como ha pouco vimos, pelo valor e integridade do instrumento de que se serve.»
PAULO JANET--_Le cerveau et la pensée._
O snr. Alexandre Herculano escreveu tambem em nota ao _Eurico_:
«Se a arte fôra facil para todos os que tentam possuil-a, não nos faltariam artistas!»
* * * * *
Terceira carta do snr. Alexandre da Conceição ao author
_Ill.mo amigo._
Este nosso palestrear leva geitos de não terminar este anno, e estamos apenas em principios de março. Em cada folhetim seu surgem a par da primitiva questão, que me traz aqui representando o papel de cavalleiro da _triste figura_, outras questões qual d'ellas mais grave e mais complicada. Vamos mais uma vez á primeira questão, a vêr se conseguimos entender-nos no meio do estrondo d'estes exercicios de polvora secca.
É ou não verdade que o Pimentel, no periodo que deu origem a esta amigavel correspondencia e que vem transcripto no seu ultimo folhetim, revela manifestamente a opinião de que o estudo das mathematicas é inimigo inconciliavel da aptidão poetica, pois que muitas das nossas melhores reputações litterarias, como Garrett, Camillo Castello-Branco, etc., mostraram com o seu muito amor ás letras e ás musas horror igual pelos numeros e pela algebra? Creio que é verdade, e esta opinião já o meu amigo concordou que não é segura, pois que me diz na sua ultima carta:
«Não admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo grau de desenvolvimento, está apta para abranger todos os conhecimentos humanos.»
Confessa o meu amigo pois que pelo estudo das mathematicas se _póde_ attingir o maximo grau de desenvolvimento intellectual--o que não implica que esse grau de desenvolvimento se não possa attingir com outra qualquer ordem de estudos--e confessa mais que uma intelligencia chegada a essas luminosas alturas está apta para a comprehensão de todas as verdades scientificas, litterarias e artisticas. Ora é isto exactamente o que eu me tinha proposto demonstrar-lhe desde todo o começo, pois que se o estudo das mathematicas robustece e eleva a intelligencia, e o maximo grau de desenvolvimento intellectual não é incompativel com o desenvolvimento da aptidão poetica, é claro que, _em principio_--que, como todos os principios, tem as suas excepções--o estudo das mathematicas não faz nem póde fazer mal algum ao gosto litterario ou á inspiração artistica. Permitta-me pois dizer-lhe que não sou eu que estou de accordo comsigo, mas que é o Pimentel que se pôz de accordo commigo, não pela força dos meus argumentos, que são d'uma debilidade lastimosa, mas pelo esplendor proprio da verdade, na qual eu o convidei a attentar.