Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos

Part 5

Chapter 53,608 wordsPublic domain

Não combati o estudo da mathematica nem combato; cada um estuda o que quer ou o que póde. Peço vista ao meu folhetim que despertou a sua replica. Não aconselhei tambem a leitura da mais edificante novella de preferencia ao mais arido compendio d'arithmetica. O que eu fiz foi penitenciar-me publicamente do meu desamor aos numeros e, como eu sou d'uma sinceridade rude, permitti-me dizer que dormiria mais descansado o somno da morte, se minha filha, em vez de assignalar a minha sepultura com uma lousa numerada, levasse frequentes vezes ao meu cómoro um ramo de flôres. Isto é o que o meu amigo não póde nem deve discutir, apesar da sua vasta intelligencia, que eu aprecio na devida conta. É licito a cada um dizer como quer ser sepultado. O meu testamento, no que respeita a esta disposição, é publico.

Os estudantinhos que o meu amigo conheceu com o espirito derrancado pela leitura de romances de má doutrina e peor linguagem, não são uma creação do seu espirito. Eu tambem os conheci, e ainda conheço muitos, infelizmente. Ora esses nem têem amor á litteratura nem á sciencia. São uns vadios, que andam malbaratando as economias dos paes e pegam no compendio para pretexto de passeio até ao lyceu, e n'um romance para engalharem o somno, espavorido com a excitação da saturnal.

Eu sei que não escureceu o seu animo a idéa de se referir á minha pessoa. Faço-lhe inteira justiça e correspondo á sua amizade. Todavia algum leitor menos benevolo poderia ver n'isso uma allusão encapotada. A esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos litterarios para reivindicar, não estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa que, como homem, me pertence,--o amor ao trabalho. Os meus amigos conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me então contente, e mais ainda quando, ao romper da manhã, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem fumegam as casas visinhas para a refeição matinal, a canceira com que um moinho de vento proximo vai rasgando o nevoeiro com os seus quatro braços alvejantes. A essa hora, quando ainda não martelam as officinas nem estrondea na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores que estão despertos, é o moinho e sou eu. Basta isto.

Uns estudantes ha ahi, e sempre houve, que desestimam as sciencias exactas, mas que são grandes em differentes ramos d'estudo. Esses só sahem incolumes do exame de geometria,--quando sahem--depois de longo soffrimento para domarem temporariamente a inclinação natural do seu espirito d'elles.

Lembra-me citar-lhe um que tenho á conta de grandissimo poeta;--é Gonçalves Crespo, o author das _Miniaturas_.

Bom é que haja sempre aptidões diversas; só assim poderá florescer um estado.

Os que como o meu amigo começaram por poetar gentilmente e acabam «por combater as influencias do romantismo futil e estouvado» são raros.

Felicito-o sinceramente pela perseverança com que procura expurgar os velhos habitos, os quaes se me não afiguram tão nocivos como o meu amigo suppõe, antes, a meu vêr, eram mais um titulo de respeito para a opinião que geralmente se fórma da sua intelligencia.

Alguma cousa porém lhe ficou dos seus passados amores com as letras, a despeito das mathematicas,--foi o estylo que naturalmente resalta da sua penna com estimavel donaire.

Não perdeu tempo nem trabalho, e muito mais se conseguiu, como acredito, alliar as louçanias da phrase aos conhecimentos d'um mathematico estudioso.

Voltemos porém aos mathematicos.

Em duas classes os divido eu; mathematicos-_artistas_ e mathematicos-_operarios_.

Os primeiros, aquelles de que o meu amigo me fallou, são os que entenderam em assumptos de telhas acima, os que procuraram a poesia da mathematica nos mundos que pendem sobre as nossas cabeças e que estão narrando a gloria de Deus, no dizer da escriptura.

Um só defeito tiveram alguns d'elles, a meu vêr. Foi o ensoberbecerem-se tanto com a gloria n'aquelle seu adejar nos páramos do céo, que julgaram Deus uma cousa ociosa e superflua. Subiram tão alto, que se lhes afigurou impossivel haver alguem que os sobrepujasse.

Lalande proclamava que tendo estudado o céo não encontrara por lá vestigios de Deus. Laplace dizia a Napoleão que se no seu systema de mechanica celeste não tinha fallado de Deus, era só porque não urgira d'essa hypothese.

São maneiras de vêr.

Á segunda classe dos mathematicos, taes como eu os distingo, pertencem os executantes, os que não sabem da sciencia mais do que o que está n'uns compendios sobremodo aborrecidos; d'uns que não dispensam a esponja para os seus calculos, porque a esponja lhes absorve os erros frequentes; que se apresentam com a vã magestade de regulos em sciencia e fazem do radio uma especie de ferula com que martelam na lousa para intimidar os alumnos que andam perdidos na abstrusidade da explicação do professor; finalmente d'uns que zombam de todos e de tudo o que não fôr a mathematica que elles versam, e que nada acham prestadio tirante a sciencia dos numeros. Estes são os que eu detesto, porque matam muita aptidão nascente com grandes doses de pastelão algebrico, como ia acontecendo ao Garrett, se elle não tivesse o bom senso de lhes fugir com o seu talento.

Estes taes podem ser equiparados na profundidade da sciencia, não pelo que toca a extensão, a uns homens obscuros, mais prestimosos e menos inchados que elles,--os guarda-livros. Uns praticam a mathematica dos lyceus, os outros a das casas bancarias. Praticam-n'a todos os dias; por isso desempenham correntemente as operações arithmeticas que lhes commettem. Mais nada.

«A algebra, disse o adoravel Garrett, é bom contraveneno para os empeçonhados de poesia; mas hade ser dado com geito e tento. Quiz-me fazer engulir doses muito grandes, não me pôde o estomago com ellas.»

Ora eu estava empeçonhado, mas não me pôde o estomago com as doses do contraveneno, e como para chegar á poesia da mathematica era preciso desbravar a semsaboria dos prologomenos, fiquei sem conhecer os mathematicos do quinto andar e desandei pela porta fóra. Esta distincção que eu faço entre mathematicos, parece que tambem a fazia o Chateaubriand. Sempre é bom valer-se a gente de authoridades. Dizia elle no _Genio do Christianismo_:

«Todavia não será talvez difficil pôr d'accordo os que declamam contra as mathematicas e os que as preferem a tudo o mais. Esta differença d'opiniões vem do erro commum, que confunde um _grande_ com um _habil_ mathematico. Ha uma geometria material que se compete de linhas, de pontos, de A+B; com tempo e perseverança, um vulgarissimo espirito póde entrar por ella dentro com galhardia.

«É então uma especie de machina geometrica que executa de per si operações complicadas, como a machina arithmetica de Pascal. Nas sciencias, o ultimo que chega é o que melhor se instrue; eis-aqui porque qualquer collegial do nosso tempo esta mais adiantado que Newton em mathematicas; esta é a razão, porque tal que hoje é tido á conta de sabio será acoimado de ignorante pela geração futura. Azoinados com os seus calculos, os geometras-machinas teem um desprezo ridiculo pelas artes de imaginação; sorriem de compaixão quando se lhes falla de litteratura, de moral, de religião; _conhecem_, dizem elles, a natureza. Não será para adorar-se a _ignorancia_ de Platão, que chama á natureza uma _poesia mysteriosa_?»

Ha uma applicação da mathematica, que, com quanto se me não afigure poetica, não merece que se maldiga, porque é util: a geodesia. Essa professa o meu amigo, e tanto não me parece poetica a convivencia com o jalão e a fita metrica, que foi capaz de emmudecer a lyra das suas _Alvoradas_. Um tio meu, que passa por engenheiro distincto, Frederico Augusto Pimentel, conserva na sua bibliotheca muitos volumes de boa litteratura, que adquirira em estudante, mas eu quando o visito em Braga ou o encontro a braços com o pantómetro ou annotando o seu livro _Manual do apontador_.

Com referencia a mathematicos disse o que tinha a dizer.

Reportemo-nos agora a outro ponto da sua carta.

Deus me livrara, ainda que me fosse possivel, de fazer leituras d'astronomia a mulheres.

Estou d'accordo com Rossely de Lorgues, que fixa a origem da impiedade no reinado em que as mulheres, a conselho de Fontenelle, estudavam Euclides e discutiara Newton e Leibnitz, á roda de Maupertuis, no jardim das Tulherias.

Ora estas sabenças d'alto cothurno, que se conversavam nas cêas do barão d'Holbach e nos jantares de madame de Tencin, levaram a mulher franceza ao desvergonhamento, a que só póde ser cauterio a verdadeira religião; não a religião das missões e dos missionarios, mas a religião de Deus.

O proverbio popular desconfia da mulher que sabe latim; eu desconfio da mulher que sabe mais do que latim. Quero instrucção para a mulher, grito por ella; mas ha-de ser uma instrucção rosada, loura, como as mais formosas tranças, casta, pura, limpida.

Para isso era preciso fazer compendios especiaes, delicados e prudentes. Da historia de Portugal, por exemplo, seria conveniente dramatisar as legendas dos heroes que se sacrificaram pela patria. Teem as mulheres imperiosa necessidade de conhecel-os, para soprarem ao animo dos filhos as primeiras sementes do amor nacional. Agora as negruras d'umas rainhas e d'uns principes, que mancharam a nossa historia, bom seria que ellas as não soubessem nunca. De mathematica desejo eu que as mulheres saibam correntemente as quatro operações elementares. É o que minha filha ha-de saber, e afigura-se-me que o marido de minha filha abençoará algum dia a discrição com que eu a hei-de educar.

É debalde que o meu amigo me aconselha n'este ponto. Cada um governa o que é seu, e eu, a despeito do seu claro entendimento, meu caro Conceição, não lhe hei-de ensinar a ella a «historia, que é a epopêa da humanidade», mas unicamente da historia o preciso para ella não aborrecer a humanidade.

Não quero que a pobresinha entre no mundo pela porta do tedio.

Eu não entrei, porque, quando examinei os quadros negros, tinha a alma educada para o sentimento do bem pelos amorosos conselhos de minha mãi. Isto não é dizer que a maxima erudição seja a maxima desmoralidade. Não; eu quero que a instrucção seja para quem a póde professar, e que se estude quando se deve estudar.

É meu proposito que minha filha não ande pelas salas a fazer discursos de varia historia ás meninas da sua idade.

Os livros que eu escrevo, como ella os ha-de lêr um dia, não levam doutrina que a faça corar de pejo, por usar o nome que lhe lega o author d'aquellas novellas.

Não fallemos mais de minha filha, que dorme no berço os sonhos auriluzentes da primeira infancia. Não quero passeal-a na imprensa, depois de a ter roubado ás caricias de sua mãi.

Aqui tem, meu caro Conceição, o que se me offerece dizer-lhe.

Peço-lhe que me releve uma ou outra falta que tenha commettido, e creia-me sempre,

amigo dedicado e sincero discipulo,

Porto, 1 de fevereiro de 1872.

_Alberto Pimentel._

* * * * *

Segunda carta do snr. Alexandre da Conceição ao author

_Ill.mo amigo._

Uma declaração antes de mais nada: Agradeço ao seu bom senso e á sua lealdade o ter-me feito a justiça de não vêr uma allusão pessoal e indelicada no esboço que fiz do estudantinho ocioso e devasso, que detesta a geometria, com o falso pretexto de que os talentos _originaes_ e impetuosos se não podem sujeitar ao jugo affrontoso do calculo. Não podia lembrar-me de si quando tentava aquelle esboço, primeiro: porque seria isso uma grosseria incompativel com a minha educação; segundo: porque o aprecio muito como escriptor e como poeta; terceiro: porque o estimo deveras como amigo e como homem, pois que lhe reconheço o talento, a elevação do caracter, o amor ao estudo e a dedicação ao trabalho.

Posto isto como mordaça aos malevolos ou aos futeis, e não como elogio com que eu queira pagar-lhe as finezas que me dirigiu na sua carta e que eu lhe agradeço com a plena consciencia de que as não mereço senão á sua amizade e não á sua critica esclarecida, entro na replica ao seu folhetim, sobre o qual temos muito que conversar.

Com o seu espirito alado e inquieto de folhetinista toca o meu amigo na sua ultima carta n'umas poucas de questões, qual d'ellas mais importante, que eu lhe não posso levantar todas, porque me não sinto com competencia para tanto, porque me não sobra tempo e porque isso tomaria proporções assustadoras para a redacção e para os leitores d'este jornal, que não póde ser condescendente commigo até ao ponto de arriscar a sua boa reputação.

Creio que o meu amigo leu a minha primeira carta um pouco preoccupado, ou que eu, por falta de aptidão e uso, expuz confusa e desastradamente o que tinha na mente dizer-lhe. Opto pela segunda hypothese, por me parecer a mais racional e por estar mais de accordo com os factos e com o conceito em que eu tenho os meus merecimentos litterarios, cuja pequenez no entanto recommendo a commiseração do seu espirito ás vezes tão finamente epigrammatica. Assignar-se _meu discipulo_!... Eu, seu mestre!... Em que? Não lhe perdôo a graça e obriga-me a praticar alguma inconveniencia, se a repete: envio-lhe o Serret pelo correio, pois que não tenho a consciencia de poder ensinar-lhe regularmente mais cousa alguma; e não me discuta isto, que não soffre discussão seria.

Vou pois vêr se condenso em dous ou tres periodos umas idéas mal expostas no meu primeiro folhetim e que o meu amigo ataca, porque as tomou pelo que ellas não são, mal entrajadas como ellas se lhe apresentaram.

A minha sincera admiração pelas mathematicas nunca me cegou o entendimento até ao ponto de eu não vêr mais nada fora d'ellas, de suppôr que abaixo das mathematicas tudo é futil e inconsistente e acima d'ellas tudo sonhos e illusões. Creio que ha salvação possivel fóra da minha igreja, e que para divisar uma face á verdade não e absolutamente indispensavel saber dirigir um equatorial para a estrella 2151.ª da _Popa do Navio_ ou para a _alpha do Centauro_. O que digo e sustento, em quanto o meu amigo me não convencer do contrario, é que o estudo das mathematicas e a familiaridade com os seus methodos seguros, ou pelo menos cautelosos, de raciocinio, não póde por fórma alguma ser prejudicial ao desenvolvimento de qualquer das nossas aptidões intellectuaes, e que sendo a litteratura e em geral a arte um dos muitos caminhos que levam o espirito humano ás atlantides do ideal, é licito acreditar que tudo o que tenda a elevar-nos o espirito, a robustecer-nos a alma e a esclarecer-nos o entendimento ha-de tambem desenvolver-nos as faculdades poeticas e o sentimento artistico. Este o argumento _à priori_, como se diz na logica. O argumento _à posteriori_ está nos exemplos, que lhe citei na minha primeira carta, de grandes mathematicos que foram tambem homens de muita imaginação e de muito enthusiasmo, sendo estas mesmas qualidades as que os tornaram grandes mathematicos. Responde a isto o meu amigo com a sua theoria dos _mathematicos-artistas_ e dos _mathematicos-executantes_, theoria que, a meu vêr, se póde formular do seguinte modo: Ha mathematicos seccos de espirito, estereis de imaginação e baldos de todo o senso artistico, logo foi a mathematica que os fez mirrhados e massadores. Se ha grandes mathematicos com imaginação e sentimento, esses são espiritos por tal fórma privilegiados que resistiram ás influencias esterilisadoras dos numeros e do calculo.

Afigura-se-me sophistica esta sua argumentação, porque a ser verdadeira teremos de classificar de esterilisadora a influencia de todas as outras sciencias, incluindo a litteratura, e de massadores todos os primeiros litteratos do mundo, todos os nossos escriptores de mais segura e duradoura reputação; por exemplo: Garrett, que para manejar a lingua patria com aquella graça, facilidade e atticismo, que nós todos lhe admiramos, havia de folhear e compulsar muito bacamarte classico e soporifero; Alexandre Herculano, que para escrever aquelle poema do _Eurico_ teve forçosamente de deletrear muita somma de pergaminho safado e roido, muita chronica bolorenta, muito livro indigesto; Antonio Feliciano de Castilho, Camillo Castello-Branco, Theophilo Braga e alguns outros, que para subirem ás alturas, onde nós hoje os contemplamos com admiração, tiveram indispensavelmente de estudar e de meditar muito livro somnolento, e nem por isso lhes ficou lá o espirito, nem o talento, nem a graça, nem a espontaneidade; muito pelo contrario, foi ahi, n'essas monumentaes semsaborias da nossa litteratura classica que elles se robusteceram em graça, em talento e em originalidade.

Um mathematico cabeçudo e massador é tão massador como um jurisconsulto caturra e formalista, como um medico charlatão e pretencioso, como um padre fanatico e obscurante, como um professor ignorante e embirrento.

As caturrices dos jurisconsultos, o charlatanismo dos medicos e a ignorancia dos padres não podem provar nada contra a poesia da jurisprudencia, contra a grandeza da medicina ou contra a sublimidade da religião.

Parece-me, pois, senão demonstrado, pelo menos não destruido pela sua argumentação, que, em principio, o estudo das mathematicas não faz nem póde fazer mal algum ao gosto litterario ou á aptidão poetica.

Deixe-me dizer-lhe ainda: É convicção minha, e creio que de muito boa gente, que o espirito moderno deve á vulgarisação dos estudos mathematicos as mais solidas e as mais brilhantes das suas conquistas.

Não lhe fallo já da civilização material do nosso seculo, para cujas maravilhas a mathematica cooperou com a melhor parte: quero fazer-lhe notar sómente a benefica influencia dos estudos mathematicos no espirito scientifico do nosso tempo. A mathematica não inventou por certo nenhuma theoria physiologica, não ditou nenhum tratado de direito publico, não descobriu um unico corpo simples ou a composição de qualquer corpo composto, não acrescentou um só versete aos Evangelhos; mas tem, pela benefica influencia dos seus methodos, do seu genio rigoroso e justo, do seu espirito verdadeiramente scientifico ajudado a expulsar das outras sciencias muito espantalho com fóros de verdade; muitas tolices com ambições de acertos, muitas hypotheses absurdas e lorpas com reputação de principios incontestaveis. E com isto tem ganhado todas as sciencias, incluindo a moral, que deve ao espirito logico e robusto das sciencias exactas, aquella austeridade de principios, aquelle stoictsmo de conclusões, que são as feições caracteristicas da philosophia contemporanea; com isto tem ganhado a litteratura, que se despe d'aquelles modos scismadores e langorosos, d'aquelles ares meditativos e lunaticos de virgem pallida e incomprehendida para se tornar em esposa forte e affectuosa, que nos consola nas amarguras, que nos alegra nas tristezas e que nos robustece nos desalentos, que nos melhora, que nos eleva, e que nos instrue. É porque a poesia ainda se não compenetrou bem d'estas verdades, que ella está representando na sociedade o papel secundario que representa. Como explica o meu amigo este palpavel desamor da opinião publica pela poesia? Não nota que a sociedade contemporanea não quer que lhe fallem em versos; e que os não lê e que vira a pagina do jornal ou do livro onde os versos lhe appareçam? A culpa d'este desamor deve imputar-se por inteiro á sociedade ou aos versos?... É a sociedade que está acima dos versos, ou a poesia acima da sociedade? Ha depressão no sentimento moral e artistico da sociedade ou ha abaixamento no nivel intelectual da poesia? Eu creio que a culpa, posto que lhe caiba em parte, cabe menos á sociedade do que á poesia. Isto porém é uma questão para largos desenvolvimentos, e eu não quero terminar esta minha carta, que já vai escandalosamente massadora, sem lhe levantar outras duas questões que o meu amigo toca no seu folhetim.

A que chama o meu amigo _impiedade_?... Ás conquistas do espirito analytico do mundo moderno, á reforma, á revolução de 93? Á philosophia raccionalista, ao livre exame, aos direitos do homem? Á critica historica, á exagese biblica, a toda esta febre de investigações que trabalha a alma do seculo XIX e que lhe faz bater apressado no pulso o sangue riquissimo da vida? Chama a isto impiedade, ou entende por impiedade uns ralhos de sachristia em que andam ahi envolvidos os irmãos das confrarias? Chama impio ao catholico mr. Thiers, que deixa ir pela agua abaixo o poder temporal de sua santidade, e orthodoxo ao actual bispo de Orleans que se arreda de mr. Littré como de um leproso? Diga-me o que seja para si impiedade, que eu tenho visto abusar-se tanto da palavra e da idéa que ella representa, que me não admira vêr appellidar de impio qualquer dia o proprio cardeal Antonelli ou até o snr. marquez d'Avila e Bolama.

O meu amigo parece tambem pensar que o seculo XVIII foi immoral por excesso de sciencia nas mulheres, e impio--volta a terrivel palavra!--por excesso de philosophia nos homens. Mas onde é que está isto demonstrado? Em Chateaubriand, que se esqueceu de metrificar o _Genio do Christianismo_, unica qualidade que falta ao livro para poder ser recitado ao piano? Mas quando e onde é que a sciencia e a philosophia fez mal a alguem e principalmente a uma sociedade? Quando e onde é que fez bem e elevou e moralisou e instruiu a ignorancia, o absurdo, o preconceito, a _rèvèrie_? Mas então voltemos aos cilicios, aos jejuns, aos conventos, á inquisição, á idade media. Nego com toda a força das minhas convicções, nego com todos os insignificantes recursos da minha intelligencia que a immoralidade tão apregoada da sociedade franceza do seculo XVIII tenha nascido no palacio de Rambouillet; nego que a impiedade--não me deixa esta maldita palavra!--do tempo dos encyclopedistas, seja o resultado do amor pela philosophia. São absurdas taes supposições perante os principios, são illegitimas perante os factos, são calumniosas perante o meu pouquissimo conhecimento da historia.

Agora a questão magna do seu folhetim, a educação da mulher. Sobre este ponto sinto dizer-lhe que nem comprehendo como o meu amigo, cujo bom senso e intelligencia eu tanto aprecio, não quer para a mulher a maxima instrucção, que dá em regra, a maxima elevação moral; não, para todas as mulheres, a instrucção professional de que precisa o medico, o jurisconsulto, o estadista, o engenheiro, o professor de universidade, mas esta instrucção geral, completa e solida, que dá aos espiritos a maxima amplitude de vistas, ao entendimento a maxima robustez, á alma a maxima grandeza moral, ao coração a maxima bondade, pela comprehensão do direito, pelo sentimento profundo do dever.