Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos

Part 4

Chapter 43,761 wordsPublic domain

Mas eu já tinha no corpo a peçonha da poesia; aborreceu-me o Serret, errei um problema, esmoreci, e fiquei como estava. Aconteceu que não pude ser mathematico, e que me deixei ficar litterato. Um mathematico de menos e um litterato de mais,--eis tudo o que aconteceu.

Em razão d'esta minha inimizade com a mathematica, hei-de recommendar a minha filha, quando ella crescer, que tapete de boninas e esconda entre plantas o quadrado da minha sepultura. Eu, que não vivi bem com a arithmetica, não quero que ella se vingue de mim, quando me seja impossivel sacudir a lousa com os funebres algarismos que para logo denunciam a milicia dos mortos.

N'este horror á mathematica sou ainda discipulo de Camillo Castello-Branco que escrevia a Faustino Xavier de Novaes: «Teremos nós sepultura com lagea!? Conta com um cômorosinho de terra, e umas papoulas na primavera, e uma taboa preta com um numero branco. A arithmetica ha-de perseguir-me além da morte!»

Agora estou eu reparando que me tenho desmandado em confidencias, e que amanhã ha-de gritar a maledicencia que eu fiz, que aconteci, que me quiz nivelar com Julio Machado. Não ha tal; previno o commentario. Basta dizer-lhes que ha sete annos,--era eu uma creança,--li pela primeira vêz, na Foz, as _Scenas da minha terra_ e que me demorei longo tempo diante da dedicatoria d'esse livro que Julio Machado offerece a sua mãi, não sabendo se havia de applaudir mais o escriptor se o filho. Elle era então já um talento feito e eu, desprovido dos seus valiosos dotes, ainda era uma creança. Applaudi-o então, applaudo-o hoje e applaudil-o-hei sempre.

Mas era d'elle que vinhamos fallando,--era do seu temperamento que queriamos fallar.

Ah! feliz temperamento o seu, que se revela na suavidade dos seus folhetins, na doçura dos seus contos, na tranquillidade do seu animo.

O temperamento de Julio Machado está no _Pedrinho_ dos _Contos ao luar_, na _Marcolina_ das _Scenas da minha terra_, no _Romance d'uma alma_, das _Historias para gente moça_. São tristezas suaves,--deliciosas tristezas!

Elle, que foi o successor de Lopes de Mendonça, deve inquestionavelmente ao seu temperamento o ter arrostado ha longos annos com a improba canceira do folhetim sem desanimar, sem ficar vencido.

Escreve tranquillamente, por isso se não tem gastado. As viagens são uma tendencia do seu espirito. É ainda o folhetim em acção o que elle quer. Mas não vai viajar de afogadilho, não pensem, como se lhe fosse na pista a policia ou o cholera. Nada d'isso. Para ir a Paris e para chegar a Londres gastou dous mezes.

Quando parte, não diz a ninguem onde estão os seus papeis importantes para o caso de não voltar. Nada d'isso. Parte alegremente,--para Italia; cantarolando com o Junca; para Hespanha, em trajo de _touriste_, em communidade de aventuras com o conde d'Obidos.

Nunca se lembrou que lhe ia acontecer desgraça pelo caminho. Ao contrario, pensa que a natureza o espera com um sorriso e um _bouquet_. É elle mesmo quem nol-o diz:

«De mais a mais, não sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes de se proporem a sahir da sua terra, e até cuidam que o barco se ha-de perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que por eu ir n'elle é que o barco se não perderá.»

Accusam-n'o de desleixado na linguagem. É um defeito. Quem o não tem? E muitos dos que lhe atiram a pedra estão tambem no caso de ser apedrejados.

Bem desleixado se deixou ser o Garrett nas _Viagens_, que é o folhetim mais folhetim que se tem feito entre nós, e todavia o Garrett ha-de viver mais tempo do que os seus criticos. O folhetim não se está a pregar e a repregar como as mulheres de trinta annos. Ah! não, o folhetim tem a graça e a desenvoltura de uma donzellinha. Namora-o a flôr; basta-lhe o perfume. Tudo o que faz é «ao acaso, tudo a brincar, tudo para entreter», segundo uma expressão de Julio Machado.

Quando elle publicou os _Contos ao luar_, sahiram-lhe ao encontro os grammaticões, os nossos graves grammaticões--que graça!--por haver attentado contra a virtude da syntaxe, começando o seu livro por uma conjuncção copulativa.

Era certo que elle havia escripto--«... E depois, eu não sei bem porque chamei ao meu livro _Contos ao luar_!» Que elle, o phantasioso contista, tivesse aceitado a sequencia d'um sonho interrompido, d'um devaneio cortado pelo fremito d'uma vaga, que quizesse dar aos seus contos o vago do luar, não comprehendiam os grammaticões. Lá estavam as reticencias que substituiam as palavras, mas não eram reticencias o que elles queriam, eram palavras, palavras, unicamente palavras.

Os grammaticões são como os diccionarios;--o que mais têem são palavras. E os defensores da inviolabilidade da grammatica em vão açularam a critica, e os apostolos da conjuncção morderam-se, e o livro teve tres edições, para dizer tudo d'uma vez.

Já que me referi n'outro lugar ao _Romance de uma alma_ quero acrescentar que basta este conto para caracterisar physiologicamente Julio Cesar Machado,--um conto adoravel, dôce e triste, um devaneio de phantasia delicada que faz lembrar as mais formosas tradições do Rheno primorosamente trasladadas a portuguez pelo snr. José Gomes Monteiro.

Ah! meu caro Julio, eu, que sou ainda novo, amo sinceramente a candida mocidade que se respira nos seus livros, delicio-me com as fragancias d'esses gentis _bouquets_ que o seu talento tem enfeixado, e ao terminar estes breves estudos de physiologia, litteraria permitta-me que saude d'aqui a primavera que ainda lhe sorri exuberante de galas e esperanças.

Algum dia dirá de si a historia da litteratura patria que foi um escriptor sempre moço, que sabia com o seu espirito enganar a idade, quando ella the acenava de longe, e que no dia em que lhe nasceu a primeira branca atirou ainda a umas bailarinas que iam passando com um bonito _bouquet_, um adoravel folhetim, de sorte que ellas, apesar d'uma ruga e de uma can igualmente traiçoeiras, tiveram inveja á sua mocidade e ao seu temperamento, como eu, que sinceramente o confesso, e se lembraram de Anacreonte, que morreu a sorrir, coroado de flôres.

Termino esta serie de folhetins com o nome festejado d'um distincto folhetinista. Assim devia ser; é sobre o pedestal que se colloca a estatua.

N'estes rapidos estudos humoristicos, que ahi ficam, procurei fazer em Portugal o que fez Emilio Deschanel em França, com uma unica differença--que elle o fez muito melhor e mais detidamente. Elle me serviu de modelo e incentivo. Gostei do seu livro, e o mais que fiz foi applicar aos nossos escriptores a theoria que elle havia enunciado, não na sua generalidade, o que seria longo, mas em uma das suas ramificações, o estado physico, o que me pareceu curioso. Parti, como elle, da influencia do corpo sobre a alma, e procurei estudal-a n'um certo numero de individuos.

Tentei estudar o temperamento no estylo.

Mais que nunca se me figura opportuna a occasião para trazer em minha defeza as palavras de Deschanel: «Paradoxo! dirão uns. Banalidade! clamarão outros. Que se entendam uns com os outros até chegarem a um accordo. Que importa que uma cousa seja velha, se é verdadeira? E não será sufficientemente nova, para o tempo que corre, se fôr precisa e sincera?» E depois, receioso de que supponham que se dá ares academicos, acode Deschanel denunciando a indole dos seus estudos: «Imaginai que folheaes, por matar o tempo, um album de autographos ou de photographias; é pouco mais ou menos o que vos eu apresento.» Isto escreveu Deschanel; isto devo eu repetir com dobrada razão.

* * * * *

EM ADDITAMENTO A PHYSIOLOGIA LITTERARIA

Carta do snr. Alexandre da Conceição ao author

_Ill.mo amigo._

Na ultima das suas _Cartas do Inverno_[5], nas quaes o meu amigo tratou, com a sua habitual delicadesa d'estylo, a interessante questão do temperamento d'alguns dos nossos mais populares escriptores, vem lá uns piparotes á mathematica e aos mathematicos que eu não posso deixar passar sem reparos.

Saio pela honra do meu convento. Proponho-me demonstrar-lhe que as chamadas sciencias exactas não são tão destituidas de riquezas poeticas como o meu amigo apregôa e muita gente acredita, e que nas litteraturas de todos os tempos e de todos os paizes--veja que ambições de erudição as minhas!--não ha concepções nem mais grandiosas nem mais sublimes do que nas mathematicas.

Combatendo-lhe a sua antipathia pela sciencia das quantidades, tenho ainda em vista atacar o preconceito, entre nós infelizmente vulgarissimo, de que o estudo das mathematicas esterilisa a imaginação, mata o sentimento artistico e torna o espirito pesado e sorna como a quarta pagina do _Times_.

Não ha com effeito estudantinho de lyceo que tenha lido, em traducção mascavada, os _Tres Mosqueteiros_ ou a _Menina do 4.º andar_, que se não julgue victima da mais cruel das tyrannias paternas quando se lhe impôe a obrigação de estudar um poucochinho do Manso Preto ou do Sousa Pinto.

Conheci no meu tempo d'estas victimas imberbes do romantismo fazerem gala de serem reprovados em mathematicas elementares, para se darem ares de Esproncedas em promessas, de Byrons em projectos, de rapazes esperançosos, de moços cujo talento se não podia amoldar, pela grandeza e pela impetuosidade, aos estreitos limites da arithmetica, da algebra ou da geometria.

É verdade que depois estes interessantes mocinhos demonstraram ter na mesma conta da arithmetica tudo o que os obrigasse a duas horas de trabalho sério, e iam a final, cobertos de rapozas e inutilisados physica e moralmente pela devassidão e pela ociosidade, parar aos corredores das secretarias d'estado, ás ante-camaras dos ministros ou ás salas de espera dos influentes eleitoraes mendigando um emprego publico, onde podessem emfim applicar a sua actividade gasta nos prostibulos, nos cafes e nos passeios publicos.

Assim como ha porém intelligencias com aptidão singular e admiravel para a comprehensão das sciencias exactas, ha tambem boas e prestadias intelligencias, e d'esse numero é a do meu amigo, que tomam á conta de repugnancia invencivel pela mathematica o que n'essas intelligencias é apenas amor e enthusiasmo por outra ordem de verdades. O Julio de Castilho dizia-me em Lisboa, com aquelles seus ares candidos e virginaes de pintor biblico da renascença, que não comprehendia como eu, que fazia versos, conseguira encarar nas mathematicas sem ficar logo alli empedrado de horror. Elle, como o meu amigo, quando lhe disseram que havia de estudar arithmetica, parece que escreveu uma apologia apocalyptica do suicidio e que esteve meio resolvido a ir esconder o seu asco aos numeros no fundo do Tejo. Deixe-me fallar-lhe ainda de mim para demonstração d'uma verdade acima enunciada. Eu quando principiei a estudar mathematicas tinha o espirito azedo e derrancado com a leitura d'uns detestaveis romances francezes que por ahi andam na mão de todos os meninos e meninas. Aterrado com o desimaginoso estylo do 1.º tomo do _Francoeur_ disse de mim para mim, para me desculpar da propria mandriice, que o meu talento não nascera para digerir taes bagatelas e alistei-me galhardamente na numerosa ala dos _mergulhadores_, meus condiscipulos e consocios na guerra ao estylo do filho espurio da grande actriz Lecouvreur, segundo contam as más linguas. O resultado d'este meu incipiente mau gosto litterario foi perder o anno, poupando assim o snr. Pinto d'Aguiar ao trabalho de me premiar a _loureirice_ com tres rapozas, vêr com muita inveja e muito desgosto de mim proprio parte dos meus condiscipulos alcançar com a approvação o premio dos seus esforços, ir para ferias grandes com uma cara tola de homem que se reconhece inutil e mandrião aos proprios olhos, e, por sobre tudo, apresentar-me a meu pai, que tanto me estremecia, com a consciencia de lhe ter roubado perto de trezentos mil reis, que fui tirar ao patrimonio sagrado de minhas irmãs, sem receber d'elle uma reprehensão, o que era o peor de todos os castigos.

Senti-me deveras e profundamente abjecto diante de mim mesmo.

Em outubro voltei ao Porto e comecei a estudar regularmente n'esse anno e nos que se seguiram, até completar a minha educação profissional. Nunca porém me pude vêr livre completamente dos maus habitos adquiridos na convivencia da mocidade imaginosa e revolucionaria, que me fôra companheira das tolices do primeiro anno. Ainda hoje estou combatendo essas influencias de romantismo futil e estouvado que nos tem para cá vindo nos enxurros da litteratura franceza.

O precioso tempo que gastei a fazer versos e folhetins, com que nem eu nem as letras ganhamos pouco nem muito, podia tel-o empregado bem melhor a estudar conscienciosamente o que hoje me vejo obrigado a compulsar de novo, para não exercer a minha profissão do mesmo modo que fiz o papel de poeta e de folhetinista.

Com a propria experiencia pois lhe afianço que o estudo das mathematicas nem esterilisa a imaginação nem atrophia o sentimento artistico. Deixe-me dizer-lhe mais: Das grandes manifestações do espirito humano só a musica me tem causado tão intimas sensações de contentamento, de felicidade interior e de enthusiasmo como as que experimentei com as mathematicas, apesar de as haver estudado superficialmente e de apenas lhes ter entrevisto a sublimidade e a elevação. Lastimo-o se nunca sentiu os jubilos intimos, o puro contentamento que se apodera de nós quando chegamos á posse plena d'uma verdade mathematica. É então que se comprehende bem que o homem não vive sómente de pão mas de verdade. Sente-se a gente orgulhoso d'este orgulho fidalgo de pertencer á nobre familia dos seres que tirou do fundo do seu espirito taes sublimidades.

E depois, meu amigo, que idéa se ha-de fazer da arte, se fôrmos apregoar que as sciencias exactas, que é onde a verdade mais luminosa se apresenta, são inimigas irreconciliaveis da poesia? Em que conceito se ha-de ter a litteratura, se se acreditar que ella odeia o rigor logico dos raciocinios, a actividade energica e regalada do espirito, os exercicios olympicos da intelligencia? Victor Hugo diz no prefacio de não sei qual dos seus livros que a algebra é uma poesia. É um acerto isto. Diz-se tambem que as mulheres da Africa dão a comer aos filhos coração de leão para os tornar robustos e corajosos. O coração do leão para o espirito é o estudo das mathematicas. Não ha nada mais sadio nem mais nutritivo.

É uma atmosphera de verdade onde a alma humana respira a pleno peito o ar da vida. É a agua lustral que nos lava dos preconceitos da educação, e que nos levanta o entendimento áquella altura d'onde se não podem já enxergar umas certas cousas mesquinhas e tolas que ahi andam ataviadas com os ouropeis da phantasia, e que são tão futeis e tão ridiculas, como os interesses que sustentam.

Nas sciencias mathematicas ha sobre todos um ramo, com o qual, no meu entender, não póde competir nem em grandeza nem em sublimidade poetica nenhuma outra ordem de conhecimentos humanos; é a Astronomia. Galileu, Kepler, Newton e Laplace são poetas de mais alto cothurno que Homero e Shakspeare e Goethe e Victor Hugo. Não grite á d'el-rei contra a blasphemia litteraria; olhe que é verdade isto que lhe digo. Se tirar aquelles grandes vultos da sciencia a imaginação, o enthusiasmo, a intuição prophetica da verdade, as allucinações do ideal, este exaltado lyrismo que o amor sofrego da verdade produz nas intelligencias privilegiadas, se lhes tirar todas estas qualidades de espirito que fazem os grandes poetas, reduz-me aquelles homens á craveira vulgar de quatro mathematicos mais ou menos obscuros, mas não m'os eleva nunca á altura de espiritos creadores, de genios, de poetas finalmente.

Que litteratura ha no universo que possa sustentar as pretenções de possuir uma obra litteraria capaz de se medir em grandeza de concepção e em sublimidade de idéas com a theoria da attracção universal de Newton ou com a hypothese sobre a formação dos mundos de Laplace?

Que nome senão o de poeta quer o meu amigo dar a um homem como Leverrier que encontra um planeta desconhecido e nunca visto por olhos humano na ponta da sua penna, fechado no seu gabinete de trabalho? Diga-me: se fosse millionario não pagaria por bem maior preço os calculos originaes de Leverrier do que o autographo mais precioso do Dante?

E não me diga que esta poesia da sciencia só é accessivel aos espiritos iniciados n'ella. Reuna em volta de si duas ou tres mulheres de talento e de gosto litterario, lêa-lhes o melhor trecho do _Hamlet_, o melhor canto do _Inferno_, a melhor composição da _Lenda dos Seculos_, e depois faça-lhes uma exposição singela do systema dos mundos, narre-lhes a historia da descoberta da velocidade da luz ou conte-lhes o prodigioso romance do apparecimento no mundo da sciencia do planeta Neptuno, e verá qual das cousas as deixou mais allucinadas, se a poesia dos versos ou da palavra, se a poesia dos mundos ou da sciencia.

Em si, que é um espirito serio e estudioso, não quero eu vêr no seu horror as mathematicas mais do que um gracejo de folhetinista; mas é que nós padecemos d'uma profunda doença social que se revela muito n'esse desprezo pelos estudos serios, n'esse fastio pela verdade singela, pela logica vigorosa e pelos methodos de raciocinio verdadeiramente scientificos. Nutra-me o espirito publico de conhecimentos exactos, de methodos seguros de raciocinio, e ha-de vel-o não se contentar tão facilmente com os sonhos com que o andam por ahi embalando os especuladores da causa publica, todos estes prudentes da occasião que trazem os principios chumbados ao marmore da rotina, que teem a consciencia adstricta á gleba dos empregos publicos, e toda a alma enfeudada aos preconceitos da opinião do maior numero. Olhe que é seria esta questão. Dê-me á França mais mathematicos e menos romancistas, mais arithmetica e menos versos, e Sedan é impossivel e os incendios de Paris serão irrealisaveis. A victoria é o resultado da superioridade dos vencedores; mas a superioridade dos vencedores suppõe a inferioridade dos vencidos.

O espirito serio e pratico da nova Allemanha havia de mais tarde ou mais cedo derrotar o genio romantico e futil da França contemporanea. Era uma guerra fatal aquella com um resultado previsto ha muito. Pergunte por isto ao snr. Pedro d'Amorim Vianna, que talvez o encontre disporto a dizer-lhe umas cousas sublimes que elle sabe, _apesar_ de saber tambem mathematica como poucos.

E, já que tem a felicidade de ter uma filha, meu amigo, ensine-lhe a admirar Soares de Passos, e em Soares de Passos a poesia _O Firmamento_, cuja inspiração elle foi beber a um dos ramos d'essa vasta sciencia dos numeros, que muita gente suppõe arida e esterilisadora como um livro de conta corrente. Depois nutra-lhe o espirito com o alimento sadio e robusto das verdades scientificas; leve-a pela mão aos grandes templos da vida moral; ensine-lhe a historia, que é a epopêa da humanidade; ensine-lhe a geologia, que é a historia da terra; ensine-lhe a astronomia, que é o poema heroico do universo. Diga-lhe que por baixo da lousa fria do tumulo, onde lhe mandar esparzir rosas de saudade, ha apenas os restos inertes d'uma cousa grande, que é o homem; a alma d'esse homem, essa, que a não procure n'esses restos, mas no proprio espirito d'ella, na memoria das suas boas acções, na recordação, que ella deve ter sempre viva da sua dedicação á familia, do seu amor ao trabalho, da sua paixão pelo estudo, da sua coragem nos revezes, da sua modestia nas alegrias, do seu respeito á virtude, da sua aspiração ao bem, do seu culto ao bello, das suas qualidades como esposo, como pai e como cidadão, pois que n'essa recordação na alma ingenua d'uma filha vai a melhor immortalidade a que um homem honrado pode aspirar.

Creio que abusei muito da sua paciencia, não abusei? Que quer?... custou-me ouvir-lhe dizer mal das mathematicas.

Não torne, olhe que eu estou de atalaia, e então ai da sua paciencia.

Até lá e sempre creia-me

seu amigo e admirador,

Bragança, 22 de Janeiro de 1871.

_Alexandre da Conceição._

[5] As paginas antecedentes sahiram com este titulo em folhetins do _Jornal do Porto_, de dezembro de 1871 a março de 1872.

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Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceição

_Meu bom amigo:_

Fez-me a honra de replicar amavelmente ao ultimo d'estes despretenciosos folhetins que tenho publicado no _Jornal do Porto_ sob o titulo de _Cartas do Inverno_, e eu apresso-me a responder-lhe para inteira conservação das nossas relações amigaveis e litterarias.

Sahiu o meu amigo _pela honra do seu convento_, levantando umas ligeiras insinuações com que eu não esperava offender a mathematica e muito menos melindrar um só mathematico.

Enganei-me, e em boa hora me enganei, porque a sua carta significa para mim uma honra, posto que immerecida, bem vinda, e porque me apraz digladiar com luctador assim digno como leal.

Foi seu proposito mostrar que a mathematica não póde deixar de ministrar á litteratura o vigor logico do raciocinio, quer dizer, o machinismo scientifico de que se serve o homem para chegar ás convicções profundas. E cita o meu amigo uma pleiade d'homens illustres que foram ao mesmo tempo grandes mathematicos e grandes poetas, uns titães celeberrimos que se levantaram a uma altura a que não poderam chegar os gigantes da fabula.

Falla-me de Galileu, de Kepler e de Laplace. Não me falle d'esses, que foram os poetas da mathematica, que viveram embriagados no lyrismo da sciencia, e que por uma privilegiada intuição souberam deletrear as bellezas infinitas da epopêa dos astros. Não me falle dos grandes genios da astronomia, sciencia quasi divina, porque estuda o céo.

Herschell, cuja vasta intelligencia passou pelo baptismo da musica, antes de se remontar ás eminencias olympicas, tem no firmamento um epitaphio eterno para o qual não ha honras nem grandezas comparaveis. O rei Jorge III, que lhe fez mercê d'uma pensão da trezentos guineus e de uma vivenda no burgo de Slough, quasi concedeu um galardão irrisorio ao homem que devia ter o céo por tumulo e Uranus por epitaphio. Estas são as aguias audazes que roçaram as azas pela tela azul do firmamento, visitando os archipelagos de mundos, que, na phrase do materialista Buchner, infinitamente distantes uns dos outros, povoam o immenso deserto das alturas. D'esses não fallava eu, porque os respeito tanto, quanto me é vedado conhecel-os. Fiquem estes e outros mathematicos para logo; fallemos por agora da mathematica.

Eu não nego nem discuto que a mathematica seja um instrumento da verdade; assumpto é esse estranho á minha competencia e ao meu intento. Se o fizesse, poder-me-hia encostar a talentos sobremodo abalisados;--a Hobbes que escreveu contra a certeza da sciencia que se tinha á conta de mais certa; ao padre Castel que falla n'este diapasão: «Em geral estimam-se muito ás mathematicas. A geometria tem verdades nebulosas, objectos vagos, pontos de vista vaporosos. Por que dissimulal-o? Tem paradoxos; apparencias de contradicção, conclusões de systema e de concessão, opiniões de seitas, conjecturas e paralogismos»; a Buffon, finalmente, que ponderou que as verdades mathematicas se reduziam a entidades d'idéas, e eram baldas de realidade. Se eu lançasse mão d'esta arma, movido de proposito ou convicção, responder-me-hia o meu amigo com numerosas e respeitabilissimas opiniões tendentes a encarecerem a verdade mathematica. Alardeariamos sciencia, mas não passaria a cousa d'uma cegarrega causticante para o leitor e para nós.