Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos
Part 3
--Eu já nem temperamento tenho! dizia-me elle outro dia. Creio que sou uma degeneração de todos os temperamentos.
Ah! perdão, meu presado mestre, eu que tenho lido os seus ultimos livros e que os estou agora dissecando sobre a minha mesa de physiologista, acho que elles são extremamente eloquentes, sobejamente verdadeiros.
A prodigiosa imaginação de Camillo Castello-Branco augmenta-lhe tambem a gravidade dos seus padecimentos; é ainda o romancista a fazer-se um romance para si mesmo.
D'isto não tem elle culpa, que é tambem uma consequencia do seu mesmo temperamento. A excitabilidade nervosa de certas organisações leva-as muitas vezes a verem os acontecimentos pelo prisma da sua imaginação pessimista. É assim que o snr. Alexandre Herculano que, a meu vêr, tem o mesmo temperamento, escrevia inspirado pela revolução de 1836 umas formosas paginas, esplendidamente exageradas, que fazem lembrar as _Ruinas_ de Volney e o _Livro do povo_ de Lamenais.
Depois de fallarmos de Camillo Castello-Branco parece-nos ocioso estudar o mesmo temperamento em escriptores differentes, um dos quaes seria, se o houvessemos de fazer, o snr. Latino Coelho, cuja feição peninsular resalta dos seus escriptos politicos, cheios de _verve_, de mordacidade, de energia nervosa.
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V
Visconde de Castilho
Estamos tratando do estylo e ainda o não definimos siquer. Emende-se a tempo o descuido, e aproveitemos a definição d'um grande estylista portuguez que nos vai preleccionar com maior clareza do que as regrinhas pretenciosamente concisas d'uns compendios de bem fallar que por ahi apparecem.
O estylo é na opinião de Camillo Castello-Branco «a concepção das idéas, manifestada em formulas visiveis e transmissiveis; é a luz exterior reflectida da luz interna. É ainda, em sentido menos lato, a escolha harmoniosa das palavras, congruentes á elevação ou simplicidade do assumpto. Que e mais o estylo? E a physionomia distincta da obra, do author, do assumpto, do paiz e do seculo. É, finalmente, o que ahi ha menos material na arte de escrever.»
Anda visivelmente por isto a doutrina de Emilio Deschanel, e a verdade, que eu anteponho a todas as philosophias nebulosas, não fica tambem muito longe da definição de Camillo e da these do escriptor francez.
Todo isso é o estylo.
O estylo é o homem na sua dupla existencia. Temol-o provado, pelo que respeita á physiologia, e continuaremos a proval-o. Pelo que prende com a pessoa moral basta ler simplesmente um conto de Antonio de la Trueba, intitulado _O estylo e o homem_.
Fallemos levemente da formosa historieta do contista hespanhol.
Trueba recebe um dia uma carta que o chama urgentemente a Navalcarnero. Dá-se pressa em partir; parte.
Ao chegar a Mósteles, um cabo da guarda civil, commandante do posto, exige-lhe o passaporte.
Não se muníra Trueba de documentos officiaes, e contenta-se com dizer o seu nome.
O cabo, que tem na algibeira os _Contos campesinos_, duvida da identidade do viajante.
Antonio de la Trueba quer sahir-se d'estes apertos, e appella para um expediente extremo.
No correr do dialogo insinuára o cabo que Antonio de la Trueba devia de ser um homem de bem, porque o estylo é o homem; mas que se via obrigado a vedar-lhe a passagem até obter uma prova da sua identidade.
«Pois se o estylo é o homem--replicou Trueba--deixe-me recolher á casa da guarda onde escreverei um conto. Está costumado a lêr os meus livros; reconhecerá o homem no estylo.»
O alvitre foi aceite.
Trueba escreveu o conto, que era simplesmente a historia interessante da sua inesperada jornada, historia admiravel de sentimento e singeleza.
O verdadeiro conto está n'essa narrativa. O guarda ouviu attento, e, terminada a leitura, disse apenas estas palavras:
--D. Antonio de la Trueba, póde partir.
Na opinião do author dos _Contos campesinos_ tres cousas ha que teem uma physionomia unica,--a letra, o rosto e a alma.
Procurem disfarçal-as; o observador intelligente ha-de sempre conhecel-as. A mascara ha-de cahir perante a observação,--ou véle o espirito ou cubra as faces, tanto importa. O estylo é o homem,--a alma é o temperamento, o que não se palpa é o que se vê, o _eu_ subjectivo e o _eu_ objectivo. Por isso o estylo é mais perfido do que a onda,--atraiçôa.
A alma é a luz; o corpo a lampada. O estylo é o reflexo que parte da chamma e que ao atravessar o candelabro mostra a transparencia do crystal ou o espelho scintillante do ouro.
Que o estylo era o paiz, o clima, mostramol-o no capitulo antecedente, porque o homem, como os rios, reflecte a côr do céo sob que nasceu.
Diremos tambem, e de passagem, até onde o estylo é o seculo.
A França do seculo XVIII está claramente representada nos romances licenciosos de Duclos e de Crebillon, filho, como nos quadros eroticos de Fragonard e Boucher.
Em Portugal os poetas e os historiadores do seculo XVI eloquentemente revelam a época de maior esplendor que jámais atravessou a patria, assim como os annaes da _Accademia real de historia_ bastam para pregoar, em suas declamações fatuas e vans, a decadencia da litteratura portugueza que veio depois a receber alento do grande espirito do marquez da Pombal.
«_Chaque siècle a son tour d'esprit_», disse Fontenelle, e a historia nos está provando que Fontenelle não mentiu.
Emilio Deschanel ponderou que «se o estylo era o homem, a litteratura era a sociedade.»
Outra verdade profunda, outra illação da historia, que não só se deprehende da litteratura propriamente dita, senão que tambem se está revelando n'essa outra litteratura de pedra chamada architectura.
Para o nosso caso, os monumentos são tão eloquentes como os livros.
Já Victor Hugo notou, no romance _Notre Dame_, que o Paris de Luiz XV estava em Saint-Sulpice, o Paris de Luiz XVI no Pantheon, e o Paris da republica na Escola de Medicina.
Em Portugal, tambem o snr. Alexandre Herculano observou que a Batalha era um poema de pedra e Mafra uma semsaboria de marmore,--que uma era grave como o vulto homerico de D. João I e que a outra representava uma geração effeminada que se fingia gente.
Todavia promettemos logo ao principio ir apontando as excepções que fossem occorrendo, e ao proverbio de que o escriptor encarna o seculo em que viveu,--não nos esqueceremos de contrapôr que as fabulas de Florian são de 1792 e que em 93 Légouvé dava no _Theatro-francez_ uma tragedia pastoril. Offenbach é um exemplo do nosso tempo; depois da guerra com o estrangeiro, depois dos dias sangrentos da communa, recomeça tranquillamente as suas operetas.
Temo-nos desviado por atalhos que partem do nosso caminho, mas que não seguem a direcção que tomamos.
Continuemos o nosso estudo sobre temperamentos, e fallemos hoje d'um escriptor, justamente laureado, poeta d'amenidades e branduras, cantor da natureza e do amor.
É claro que fazemos referencia a Castilho, cujo temperamento exuberantemente se está espelhando nos seus livros.
Escreve o author da _Chave do enigma_ fallando da sua infancia:
«Fadada vinha pois, segundo cuido, aquella creança só para poeta, e poeta unicamente de branduras.»
Vendo-se ainda nas recordações longiquas do passado, continúa:
«Foi a infancia do innocente, que eu ainda me recordo bem de ter conhecido, rosada, chilreada, alegrissima como quasi todas as auroras. Mas os penates do seu berço haviam sido na cidade, e os passaros cantores não se criam e educam bem senão pelas amenidades tranquillas e scismadoras d'esses campos.»
A infancia bucolica de Castilho preparou-lhe a alma para os eternos florecimentos com que ainda hoje toda se expande em cadencias e perfumes. Nem siquer lhe faltou no paraiso dos primeiros annos uma creança amiga que lhe inundasse o coração com os alvores matinaes do santo amor da puericia. A sua indole, dil-o elle, «foi-se compondo com duas religiões que a final se reduzem a uma só: o culto das gemeas e eternas amantes universaes,--a natureza e a mulher.»
Um dia appareceu n'este céo azulado e crystallino d'uma infancia suavemente idyllica, a primeira nuvem presaga de tempestade. O que aconteceu elle vol-o dirá, que ninguem melhor o pode dizer: «De repente outra doença, mais terrivel que a primeira, e menos esconjuravel do que ella, não paga com martyrisar-me, não contente de balançar-me por um fio largos mezes entre a vida e a morte, me atira vivo para um sepulchro. Eu respirava: mas os bellos olhos, idolatras das flôres e de Amalia, e vangloria de minha mãi, não sabiam se ainda havia no céo o sol de Deus!»
Privado de contemplar as paisagens dos seus primeiros amores, começou a saudade a reproduzir-lh'as na visão interior, a rememoral-as a toda a hora, a contornal-as no horisonte infinitamente suave d'um paraiso perdido.
A fatalidade tinha-o atirado para um sepulchro, é certo, mas o sepulchro d'um poeta tem sempre flôres.
Era recendente a urna espessa em que lhe ficava cerrada a infancia. Mas pelas estrophes perfumadas do passado recompoz Castilho os poemas inebriantes do futuro; pelos aromas da infancia adivinhou a primavera invisivel da mocidade.
Pouco era o que tinha aprendido, mas de muito lhe serviu para o que viria saber. Onde lhe faltava a visão, porque as palpebras tinha-as para sempre fechadas, ahi lhe acudiam os olhos de seus irmãos, que viam por elle, ahi o soccorria a lição dos poetas bucolicos com que foi creado, ahi lhe entrava a flux pela alma e pelos ouvidos o dulcissimo conhecimento da natureza que idolatrava. Assim se fez e educou poeta ao murmurio placido do Mondego e do Tibre, de que não estava menos proximo. O rouxinol, privado de vista, tambem canta, como sinta os perfumes da primavera e a melopêa da corrente suspirosa. De musicas e aromas se formou a sua alma, por isso não ha ahi melhor poeta do amor, da melancolia, das flôres, das aves e das creanças.
O livro _Primavera_ caracterisa-o perfeitamente; estão n'elle todas as branduras lymphaticas do seu teraperamento, todas as doçuras ineffaveis da sua alma. Uma vez só, como já dissemos em outro lugar, cahiram as boninas da sua lyra campestre sacudidas pela rajada violenta das paixões. Os _Ciumes do bardo_ e a _Noite do castello_ representavam um esforço ao qual se devia seguir, como a claridade da manhã após a negrura da tormenta, todos os idyllios suavemente elegiacos que dedilhou depois. Ha d'estas contradicções na vida dos escriptores, e nós, que voluntariamente nos obrigamos a apontar as excepções, não podemos deixar em silencio a seguinte, que é flagrante.
Gomes Goelho, já gravemente doente, escrevia, n'uma hora de dolorosos soffrimentos, uns versos scintillantes de _verve_ peninsular, que desmentem completamente o genero caracteristico do finado escriptor.
A poesia de que venho fallando destina-se á _Grinalda_ e, por obsequio de Nogueira Lima, transcrevo as tres primeiras quadras:
Ai, quem me dera em Sevilha, Onde a travessa hespanhola Sob a elegante mantilha As negras tranças enrola.
Na arcada da sé formosa Vêl-a entrar, tal como a sonho; Entre _coquette_ e piedosa, Rosto, entre grave e risonho.
Mergulhar na agua benzida A mão pequena e elegante E entre a turba, alli reunida, Distinguir o olhar do amante.
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A vida de Castilho tem sido o caminhar empós idéas generosas, principios nobres e santos, quaesquer que sejam, com o peito cheio de serenidade, ou o recebam hymnos ou chufas, ou o acclamem «Poeta» ou lhe gritem «Utopista». Não ha presentemente em Portugal homem que mais tenha sido aggredido e que mais razões tenha para ser respeitado. As vagas que se levantam no esforço de quererem submergir a sua corôa litteraria, batem d'encontro ao throno em que a patria já collocou, e para sempre, o cantor da _Primavera_, e refervem, e espumam e, finalmente, desfazem-se.
Elle, a cujos ouvidos resoam incessantemente as musicas da alma, não ouve siquer o acachoar das aguas impuras que não chegam a macular-lhe as plantas. Está embevecido na sua poesia, no seu sonhar perpetuo, nas suas dôces affeições.
Um dia, desceu do solio litterario e entrou á escóla, levando comsigo a alegria, a musica, o amor pelo estudo. Cercaram-no umas creanças pallidas e concentradas, que lhe faziam dó, e essas creanças, volvidos dias, amavam-se entre si, estimavam o mestre, já não riscavam os seus livros, e do intimo de suas almas immaculadas abençoavam o poeta cego e velho que lhes enchera de poesia o recesso humido e soturno da escóla. Mas levantaram-se as vagas, e referveram, e espumaram. Castilho recolheu-se ao ninho querido onde o estavam convidando as amenidades de todos os dias. As multidões gritavam «Utopista» e as vozes esmoreciam no ar. Não lhe deixaram fazer da escóla-cemiterio, cheia de escuridade e tristeza, a escóla-floresta gorgeada, alegre e festiva. Conseguiram que elle depozesse o livro da primeira communhão espiritual, mas não lhe poderam arrancar do peito o amor que elle ainda conserva á escóla, ás creanças e á legião dos seus poetas romanos com os quaes se entende muito melhor que com os impertinentes conservadores do velho ensino. Arrancaram-lhe das mãos o cathecismo preceptor, é certo, mas não lhe poderam empolgar a lyra das branduras predilectas. E recomeçou a cantar os seus idyllios, a suspirar as suas dôces elegias, pedindo aos seus amigos que o deixassem morrer com as mãos postas sobre as cabeças de seus filhos e com a lyra encostada ao coração.
Não quer outra indemnisação em quanto fôr do mundo; depois que a morte arrefecer a escuridão dos seus olhos, pouco é, e de poeta, o que elle deseja para si:
«Depois que entre os abraços delirantes De todos os que amei, findar meus dias, Sepultai-me n'um valle ignoto e fertil. Para marcar da sepultura o sitio, Sobre o cadaver, que vos foi tão caro, Mangeronas plantai, cuja verdura Em roda fechem variados lirios. Na raiz funda de soberba olaia Pouse a minha cabeça, e o tronco amigo Sobre mim curve a copa florecente. Mil piteiras unidas, ostentando Na hastea vaidosa as flôres amarellas, Em quadrado não grande me defendam Das incursões das cabras roedoras. Em meu tronco se escreva este epitaphio:
_Foi poeta amador da natureza: D'entre as sombras ancioso a procurava, Qual terno amante a bella fugitiva._
Sobre isto pendurai sonora flauta, Que se revolva á discrição do vento. Não cerque os ossos meus, não mos ensombre Nem teixo nem cypreste; arvores quatro Quizera só no meu jardim de morte. N'um canto a laranjeira graciosa, Que mescla util e dôce, a flôr e o fructo: N'outro a figueira sob as amplas folhas Modesta occulte seus nectareos mimos: Defronte um pecegueiro em fructos mostre Que amavel é pudor, quando enche faces De pennugem subtil inda cobertas: No ultimo canto... (a escolha me confunde) Plantai no ultimo canto uma ginjeira, É a arvore da infancia até na altura; D'esta por sua mão colhe um menino A mui ridente baga, e ri de ufano. Alguns tempos depois que a fria terra Meus restos encerrar, á minha olaia Vós, meus amigos, vós dareis meu nome, Pois de mim se nutriu, e eu serei n'ella.»
Envelhece o homem mas sobrevive o poeta. O seu temperamento tem prevalecido o mesmo e já se tornaram em sazonados pomos de abundante outomno as flôres odorosas da septuagesima primavera. A sua alma conserva-se tranquilla, cheia de luz como o céo da Grecia, sob o qual poetou o seu Anacreonte, perfumada como os pomares tiburtinos do seu Horacio.
O temperamento de Lopes de Mendonça era prophecia da fatalidade a que devia succumbir; o temperamento de Castilho assegura-lhe viver poeta e morrer, como o cysne da tradição fabulosa, ainda poeta.
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VI
Julio Cesar Machado
A photographia é o folhetim da optica, assim, como o folhetim é a photographia da litteratura. Depois que se accendeu a febre dos jornaes, introduziu-se a moda já agora generalisada dos albuns, e a photographia e o folhetim invadiram o mundo, correram de mãos dadas, de polo a polo, porque se o folhetim é a reproducção dos acontecimentos, começada e concluida n'um instante, a photographia é a copia ligeira das pessoas, consummada em cinco minutos, n'um _atelier_ elegante. Quem tem pretenções a fazer-se conhecido e respeitado das immensas ramificações de seus descendentes, retrata-se a oleo e deixa-se exhibir na sala nobre da familia, pendente d'uma lona, de casaca ou de farda, como se estivesse em perpetuo baile.
Quem deseja escrever um livro para a posteridade segue o moroso processo dos retratos a oleo, senta-se pacientemente á banca todos os dias, corrige, emenda, annota, do mesmo modo que o pintor se inclina para a tela, aperfeiçoando um traço, avivando o colorido, corrigindo o contorno, trabalhando para o futuro, n'uma palavra. Mas quem se vai retratar para satisfazer um pedido, para brindar um amigo, para estar presente a uns olhos queridos com a firme tenção de mais tarde substituir o cartão pela propria pessoa, contenta-se com a photographia, que é um retrato incompleto, mas que é todavia um retrato.
Do mesmo modo, quem se senta á mesa de trabalho para traçar um esboço dos acontecimentos, para consignar as impressões do espectaculo d'hontem em quanto se faz horas para o baile d'hoje, e se pensa no passeio d'ámanhã, quem não quer historiar os factos mas unicamente estenographal-os, deixa fluctuar a penna na corrente do folhetim, dando um sorriso á bailarina nova, atirando um punhado de flôres ás alegrias do povo, orvalhando de lagrimas a saudade d'um athleta que cahiu, e sahe depois, de casaca e luva côr de perola, quando chega a carruagem, sem pensar siquer em que, procedendo d'outro modo, poderia ir ao capitolio mais depressa do que á sala esplendida e perfumada que o espera.
A missão do folhetim é pois photographar, apanhar os acontecimentos d'um só jacto e coloril-os com a luz que resalta do foco interior. Camillo Castello-Branco escrevia uma vez a respeito de Julio Cesar Machado: «Bem sabe elle como é rapido o photographar, e bem sabemos nós que não devemos pedir-lhe mais que o esboço das cousas, aperfeiçoado depois pelo sexto sentido do talento.»
Em Portugal, o folhetim começou grosseiramente no «Almocreve das petas» e no «Barco da carreira dos tolos» como notou Rebello da Silva. José Daniel, que comprehendeu o espirito proeminente da época, procurou fazer a critica dos acontecimentos e das pessoas do seu tempo, provocando o riso, com a graça saloia e com a chufa grosseira, que era muita vez um respiraculo intencionalmente aberto ás combustões da inveja e do odio.
Era o embryão do folhetim, preparado á portugueza velha e pautado pelos modêlos da _Eufrosina_ de Sá de Miranda e do _Fidalgo aprendiz_ de Francisco Manoel de Mello. O verdadeiro folhetim, tal como nós hoje o conhecemos, «a critica ligeira, risonha e fugitiva que borboleteia ao de leve por cima das flôres» como disse tambem Rebello da Silva, veio de França junto com os primeiros albuns que de lá recebemos, ao tempo que Julio Janin era moço, e de Hespanha dentro de uma caixa de charutos, expedidos pelo dono do estanco onde Marianno Larra os costumava comprar.
Garrett, que estudou lá fóra as mais notaveis evoluções da litteratura moderna, foi o primeiro que trouxe para Portugal o folhetim francez, amaneirado, elegante, _chic_. O mesmo não aconteceu ao snr. Alexandre Herculano, que estudou tambem na escóla do estrangeiro durante o tempo da emigração, mas cujo temperamento era adverso ás amenidades da litteratura ligeira. Á hora em que o snr. Herculano trabalhava na mente o plano das suas lucubrações historicas, descia o futuro visconde d'Almeida Garrett do seu cubiculo de Ingouville, onde escrevera o _Camões_, e _flanava_ distrahidamente pelas margens do Sena.
Era isto--Garrett, o _flaneur_; Herculano, o philosopho.
Garrett foi na litteratura, como na sociedade, o verdadeiro _flaneur_. Borboleteou de genero em genero, dramatisou, romanceou, poetou, folhetinisou n'uma palavra, mas folhetinisou soberba, esplendida, admiravelmente. Garrett era porém o folhetinista do livro; faltava em Portugal o folhetinista do periodico. O temperamento de Garrett vedava-lhe o acompanhar quasi diariamente as lucubrações jornalisticas. Gostava de folhetinisar no seu gabinete, entre flôres e crystaes. Estava-se pedindo um homem robusto, febril, enthusiasta, que escrevesse os seus folhetins sobre a banca d'um escriptorio, nú de moveis e ornatos, com infatigavel energia, em quanto esperava o prélo impaciente. Esse homem appareceu,--foi Lopes de Mendonça. Durante muitos annos exerceu elle brilhantemente o folhetim,--o folhetim que se compromette a apparecer todas as semanas, a fallar de tudo embora haja completa escacez de assumptos, a ser alegre, espirituoso e profundo, apesar de se dar ares de leviano. O incendio d'aquella poderosa imaginação crepitou, deslumbrou e finalmente extinguiu-se. Então appareceu em Lisboa um rapazinho da provincia, cheio de mocidade e esperança, que se estreou na litteratura offerecendo-se para traductor do Gymnasio. Os horisontes que elle sonhava eram lucidos como o céo da primavera. Em redor de Julio Cesar Machado tudo eram sombras, difficuldades, obstaculos. Mas elle era feliz porque sonhava com a esperança. Não basta ser feliz para o ser verdadeiramente. É preciso, e n'isto está tudo, amar a felicidade.
Se elle quizesse vencer d'um impeto todos os estorvos, enlouqueceria. Mas o seu temperamento lymphatico permittia-lhe esperar, e saber esperar é inquestionavelmente a primeira condição para vencer. Os seus nervos eram de natural submissos; impaciencia não a teve nunca. Por isso foi feliz. Soube namorar a felicidade. Quando a critica invejosa e proterva lhe sahia ao caminho, lá lhe vinha uma sombra á alma, mas as tristezas d'estes temperamentos são dolorosamente suaves. Passava a nuvem;--sonhava de novo com a esperança.
Eu sou realmente amigo de Julio Machado, e sei que elle me estima deveras. Quando penso na vida d'elle, lembro-me de mim, e perdôem-me este orgulho.
O author dos _Contos ao luar_ entrou no mundo sósinho; seu pai deixou-o muito novo quando desceu ao tumulo. Eu fui um pouco mais feliz, mas o braço de meu pai, cansado de trabalhar toda a vida, só com extrema difficuldade poderia nortear a minha educação pelos mares que a sua alma affectiva me queria aplanar. Os mestres de Julio Machado foram os seus primeiros amigos. Eu tambem me quero lisongear d'essa honra. Foi a amizade de José Estevão que lhe franqueou as columnas da _Revolução de Setembro_. Eu encontrei tambem no principio da minha carreira um jornalista sobremodo honrado, o snr. Cruz Coutinho, que recebeu os meus primeiros ensaios nas columnas do _Jornal do Porto_, e me animou a proseguir. Ambos ganhamos pela penna o primeiro pão da vida. Do meu passado, conservo saudosas lembranças; Julio Machado compraz-se tambem em rememorar os seus primeiros annos que lhe sorriem ainda gratos através da penumbra do passado. Ambos nos destinavamos a um curso superior, e ambos ficamos no mundo sem carta de bachareis. Foi realmente uma pena; eu se fosse doutor era com certeza mais gordo,--mais feliz, pelo menos.
Qual seria a barreira litteraria diante da qual empedrou o estudantinho da Durruivos? Não sei; o latim de certo não foi, que esse ensinou-lh'o o padre Paulo, de quem elle falla nos _Quadros do campo e da cidade_.
A esphynge da latinidade tambem me não amedrontou a mim; conservo ainda saudades do Virgilio e do Horacio, e estimo sinceramente o snr. Dantas que foi meu mestre.
O meu pesadelo foi a mathematica, ah! foi a mathematica sim. O Garrett queixava-se d'um mathematico de Coimbra, o snr. Honorato, que foi causa d'elle se ficar poeta. E o mais é que o snr. Albuquerque, do lyceu, é um homem de intelligencia e d'estado, duas qualidades que eu respeito e admiro em qualquer homem.