Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos

Part 2

Chapter 23,752 wordsPublic domain

«Guerra de epigramma? Mas diz Pelletan, e diz bem, que os homens de estado devem ser fortes de coração e de cabeça, não ter a sensibilidade de nervos d'uma _petite-maitresse_, e fazer mesmo a epiderme robusta para as affrontas!

«Guerra de calumnia? Mas os governos teem ao seu lado a magistratura judicial e a magistratura popular para afogarem as calumnias nas gargantas dos calumniadores! Fiemo-nos da magistratura e da sua vigilancia. Ella é como a mulher de Cesar; está acima de toda a suspeita. E aproveito a primeira occasião do meu discurso em que posso render a esta classe a minha mais profunda homenagem de respeito e culto. Com a franqueza do meu caracter o digo, senhores; quando desalentadamente atiro com os olhos para tanto rebaixamento moral da minha patria, com orgulho vejo e com orgulho contemplo as togas da nossa magistratura ainda impollutas com os seus sacrarios ao lado!»

Mezes antes, na sessão de 19 de novembro de 1865, o mesmo orador propunha uma mensagem de sentimento ao parlamento inglez pela morte de lord Palmerston, e discursava sobre a proposta:

«Verdadeiros heroes... e perdôe-me a memoria de José Estevão se eu penso que os ha, e perdôe-me ella ainda mais se é exactamente, comparando-os aos rochedos no oceano, que elles me parecem maiores e mais sublimes!

«Penso assim, e quando por muitas vezes hei meditado n'aquella celebrada imagem d'esse grande e inspirado orador, sempre me tem parecido que o mais digno de admiração n'aquelle atrevimento oratorio, é a modestia sublime de José Estevão. É que para mim no confronto dos heroes com os rochedos, não perdem aquelles por nenhuma sombra. Bem sei que se a irregularidade ás vezes monstruosa da sua estructura póde ser um defeito para a arte; é ella tambem, e sempre, o involucro esculptural das almas fadadas para as grandes tempestades, e dos corações baptisados desde o primeiro dia na onda dos grandes martyrios! Os _rochedos_, os _heroes_ topetam com as nuvens que teem por cima; lambem-lhes os pés as vagas da opinião humilhada e abatida, e além cançada de se espedaçar contra elles; e estendem os seus braços, que não vergam nunca, aos naufragos cuspidos já quasi exanimes d'essas vagas, como se fossem elles os destinados pela impassibilidade da sua força, pelo seu contacto com a luz immensa, e pela sua proximidade da praia, a retemperarem a tibieza dos fracos, a reaccenderem o entendimento dos desesperados, e a apontarem o porto de salvação e das novas esperanças aos que a resaca do primeiro commettimento ia prostrando e sorvendo no pégo!

«Tudo isto era tambem José Estevão, e porque se arreceasse aquella sublime modestia de que uma vez lh'o conhecessem, por isso elle dizia mal dos rochedos!

«E depois os rochedos não cahem nunca! E são tambem assim os heroes; nem cahem quando morrem!

«Os heroes morrem de pé!

«Morrem de pé!

«Foi assim que morreu lord Palmerston. E tanto foi assim que elle morreu, que expirando aos oitenta e um annos de idade, a Inglaterra correu desvairada ao seu jazigo, accusando aquella morte de prematura para o seu partido e para o seu paiz.»

Quando o sceptro da eloquencia tribunicia resvalou das mãos inertes de José Estevão, era opinião geral da gente portugueza que tarde, ou talvez nunca, uma nova palavra, de tal modo ardente e scintillante, despertaria os echos adormecidos da camara electiva.

Mais d'uma penna authorisada manifestou publicamente que a phalange gloriosa dos oradores parlamentares portuguezes tinha morrido na pessoa de José Estevão. Tenho sobre a minha banca um livro de Ricardo Guimarães, _Narrativas e episodios da vida politica e parlamentar_, que fornece uma prova do que vimos dizendo.

«Quem lhe herdou--escreve o author do livro citado fallando de José Estevão--o primado da palestra familiar, que elle exercia desaffrontado de rivaes?

«Por ora é elle herança jacente como o é, e será--Deus sabe porque tempo!--o sceptro dourado da eloquencia de que não poderam despojal-o em vida os mais possantes emulos, sceptro que ainda hoje pousa sobre o tumulo do orador, insignia indisputada d'aquella realeza do genio.»

Isto escrevia e publicava em 1863 Ricardo Guimarães; em 1865 entrava no parlamento José Cardoso Vieira de Castro.

Não é intento nosso fazer apreciações ou discutir personalidades. Todavia cumpre dizer que a entrada de Vieira de Castro nas lides parlamentares desabrochou no horisonte politico os primeiros alvores d'uma esperança. Vieira de Castro não era ainda o successor de José Estevão; promettia sel-o, depois d'um longo tirocinio parlamentar que lhe proporcionasse um pleno conhecimento dos mais reconditos segredos da eloquencia tribunicia. Vieira de Castro, ebrio dos triumphos que lograra na carreira universitaria, vinha cheio de mocidade e de inexperiencia, e abandonava-se aprazivelmente aos arrebatamentos da sua organisação e da sua idade, julgando de si para si que a melhor lente para estudar os intrincados problemas da administração era o prisma dourado da sua phantasia ardente.

Palavra facil, copiosa, scintillante, ageitando-se ás sinuosidades da replica, sem se desviar do curso natural das idéas, tinha-a elle, como José Estevão.

A vida academica de Vieira de Castro, repleta de episodios pittorescos, aos quaes a opinião publica do paiz, mormente a dos homens de letras[4] não foi indifferente, inoculou nova seiva no espirito já de natural fogoso e opulento do author da _Pagina da Universidade_. D'aqui, aquelle desabotoar incessante de vigorosos florecimentos na alma do futuro orador parlamentar, aquelle espanejar incessante de flôres variegadas e mimosas que elle espalhou ás rebatinhas nas paginas da _Biographia de Camillo Castello-Branco_.

N'este livro a imaginação de Vieira de Castro levantou-se em vôos alterosos e successivos. Era o phrenesi da aguia que pela primeira vez bate as azas nos páramos infinitos.

Cada pagina é um jardim; todo o livro é uma primavera. Mas o que é verdade é que a biographia de Camillo Castello-Branco está por fazer, apesar de elle mesmo nos ter dado em muitas das paginas dos seus preciosos livros, como as _Memorias do carcere_, _No Bom Jesus-do Monte_, e outros, á similhanca de Garrett, copiosos apontamentos para se escrever a verdadeira noticia de sua vida.

Este defeito, que a maioria da opinião notou na Biographia de _Camillo Castello-Branco_, era ainda o senão que o mesmo tribunal encontrava nos seus formosos discursos de estreia parlamentar. A opa tribunicia não logrou abafar os impetos da eloquencia asiatica de Vieira de Castro. Os seus discursos todos se emmaranhavam em ramagens phantasiosas, em filagranas de caprichoso labor, ora alongando-se para cima como os leques ondulantes da palmeira, ora escondendo as violetas gentis da eloquencia nos taboleiros relvosos de um jardim oratoriano.

Era preciso desbravar trabalhosamente estes apertados labyrinthos de vegetação esplendida, para se encontrar a idéa que se estava affrontando sob os innumeros recamos d'uma chlamyde roçagante.

Eis-aqui a razão porque Vieira de Castro se não podia medir ainda com a estatua gigantesca de José Estevão.

Os outonos da idade haviam de ir pouco e pouco mondando aquellas exuberancias de vegetação litteraria, e então appareceria o pensamento com toda a sua lucidez no meio d'uma delicada moldura como apparece uma paisagem entre duas arvores em flôr, no alto d'uma estrada.

É esta a meu vêr a grande distancia que temporariamente separava Vieira de Castro de José Estevão. De resto era congenere a eloquencia,--o temperamento o mesmo.

Na sessão do dia 4 de abril de 1865 procurava Vieira de Castro defender-se da censura que um deputado imputára á camara por se comprazer a cada momento em frequentes e estereis luctas de palavra.

O claro entendimento do novo deputado segredou-lhe que era elle mesmo o verdadeiro alvo de similhante accusação, e levantou-se para declamar.

São logo do principio do seu discurso estes periodos. «Demasias da palavra? Demasias da palavra tinha-as tambem o padre Antonio Vieira, no pulpito da igreja de Nossa Senhora da Bahia, quando interrogava a Deus; e as nações pasmadas diante das prodigiosas catadupas da eloquencia do oratoriano, hesitavam em pensar se fallava pelo seu verbo um inspirado do céo, ou um desvairado da terra.

«E já que estou na igreja, abro o livro que encontro sobre o altar. Aqui sim, aqui, na primeira pagina, não ha demasias de palavra, porque este primeiro versiculo soube dizer na mais bella e sublime de todas as phrases escriptas o maior e o mais estupendo de todos os milagres creados: _Dixit Deus: fiat lux, et lux facta est._

«Santas demasias da palavra, que são como as demasias do sangue, ou no corpo de Catão, ou na liteira de Cicero, ou no sudario do Salvador!»

E aqui estava o seu espirito a trahil-o e a arremessar para o ambito da camara abadas de flôres que ao mesmo tempo lhe serviam de imputação e de gloria. E aqui estava a primavera a bracejar frondes e a engrinaldar-se de festões quando mais a accusavam de perdularia e formosa.

O orador havia porém de modificar-se como o escriptor se modificou. Nos ultimos opusculos de Vieira de Castro o estylo não se enredava já nos antigos dedalos, mas era formoso, gentil e magistralmente modelado; a linguagem derivava fluente, correcta e portugueza de lei. Todavia o temperamento do escriptor estava patente. Todos os seus livros, todos os seus escriptos, antigos e modernos, dão testemunho da exaltação cerebral das organisações nervosas e da extrema actividade dos vasos sanguineos no colorido vivo, animado e brilhante da sua penna.

Mas infelizmente o orador não teve ensejo de se modificar.

Uma grande catastrophe ainda recente despenhou este homem do alto das suas esperanças e dos seus triumphos. Foi ainda uma dolorosa consequencia do seu temperamento como denunciam estas palavras de Julio Machado, escriptas horas depois da catastrophe:

«Temperamento ardente, caracter inquieto e febril, denunciára muitas vezes, logo ao entrar da vida, a violencia das suas paixões e o enthusiasmo exaltado d'ellas. Magoas de coração, ambições quebradas, feridas do orgulho, esperanças illudidas, fortuna exhausta, crenças mortas, figuravam-se-lhe ser doenças da alma a que não era dado resistir, e não podia tolerar os miseraveis que se sujeitavam a ir vivendo cada um com o seu mal.»

Ou ainda estas:

«Todavia, não sei dizer-lhes como, não sei dizer-lhes porque, elle proprio o não sabe talvez, perdeu tudo e principiou a desmoronar o castello que erguera. Caracter fugaz, e sempre um pouco louco, parecia ter gosto ás vezes em vêr desabar o edificio da sua felicidade e da sua gloria. Não era resultado do acaso nem carencia de habilidade, era falta de paciencia, phrenesi nervoso, estonteamento febril.»

O temperamento de Lopes de Mendonça levara-o á loucura e da loucura á morte; o temperamento de Vieira de Castro arrastára-o ao carcere e do carcere ao desterro.

Ambos sobreviveram á sua ruina, ambos viram escrever-se o epitaphio que a posteridade lhes destinava, ambos sonharam os sonhos côr de rosa das imaginações ardentes, ambos dormiram nos braços da gloria as dôces horas da embriaguez terrena, ambos entraram nos salões luxuosos da vida aristocratica, e ambos cahiram, quando o horisonte se lhes afigurava dilatar-se para os deixar respirar mais livremente.

Ambos viveram finalmente, porque um está no tumulo e outro no exilio.

Eu conheci Vieira de Castro n'uma noite de festa.

Era ainda feliz.

Dous annos depois d'essa noite, despenhou-se. Emquanto o processo estava affecto aos tribunaes, não fallaria d'elle, mas hoje, que já a posteridade começou para o homem d'outr'ora, não duvidei aproveitar o seu nome que pertence á historia do passado, e a historia é indefesa para todos.

Não offendi a sua memoria, não ri da sua desgraça. Inscrevi o seu nome n'este pequeno catalogo de escriptores nacionaes, que estamos estudando physiologicamente.

Dos nervosos-sanguineos temos fallado que farte; occupar-nos-hemos d'outros temperamentos que estão convidando a nossa analyse.

[4] Vêr--_José Cardoso Vieira de Castro, antes e depois do seu julgamento_, por seu irmão Antonio Manoel Lopes Vieira de Castro, pag. 19 e seguintes.

* * * * *

IV

Camillo Castello-Branco

«O verdadeiro talento, como o vismara, borboleta das Indias, toma a côr da planta sobre que vive», escreveu Stendhal. Seria difficil resumir tão profunda verdade em mais formoso conceito.

É conhecido até onde a critica moderna tem estudado a influencia do clima sobre o espirito do homem. Montesquieu e Herder levaram ao exagero a theoria climatologica. Proudhon contrapõe reflectidamente á doutrina de Herder: «Todo o systema descança sobre o fatalismo geographico, chimico e organico; sol, clima; planicies e montanhas; rios, lagos e mares; d'onde se deduzem successivamente, por cada latitude e meridiano, a flora e a fauna, depois o homem; finalmente, a sociedade e sua historia. Nada temos a censurar; sómente perguntaremos o para que servem então a liberdade e o progresso, e o para que nos aproveita a intelligencia?»

A objecção é sensata. Emilio Deschanel não vai tão longe como Herder, sem todavia rejeitar a theoria, e tanto não vai tão longe, que escreve estas palavras: «Esta doutrina de Hippocrates, de Platão, de Aristoteles, d'Eratosthenes, de Varrão, de Montesquieu, de Voltaire, de Rousseau, de Herder, tem sido aceite e continuada em nossos dias com muita distincção. Tornou-se a base da critica _naturista_, que é a critica natural levada ao extremo. A terra, segundo esta doutrina, é a prophecia da historia. Dize-me d'onde vieste, dir-te-hei quem és. E reciprocamente, sabendo quem tu és, dir-te-hei d'onde vieste.»

Caminhando mais terra a terra, ser-nos-ha facil reconhecer que ha no homem, na lingua, na litteratura, na arte, e até na religião um reflexo da natureza que lhes foi berço,--reflexo que a ausencia do torrão natal e a identificação com um novo clima póde attenuar, no homem, consideravelmente. O que é certo, e tem sido muitas rezes notado, é que, por exemplo, as linguas do Norte se distinguem pela rudeza das articulações das linguas do Meio-dia incomparavelmente melodiosas; que as litteraturas septentrionaes teem uma riqueza de pensamento que se póde contrapôr á riqueza de sensibilidade das linguas meridionaes; que a musica do Norte é magestosa, grave, solemne, ao passo que a musica do Meio-dia é caracterisada pela variedade das inflexões, pela harmonia, e pelo sentimentalismo.

Cumpre notar,--aproveitando uma observação de Deschanel,--que umas vezes e pela similhança e outras pelo contraste que o clima se reproduz na litteratura. «Ideal de belleza,--diz elle,--ideal de fealdade, que importa! Na religião dos negros, o diabo, dizem, é branco. E isto, pela mesma razão que na religião dos brancos--dos brancos que acreditam no diabo--o diabo é preto. Porque é que os poetas latinos, quando querem pintar a graça e a belleza das mulheres, lhes dão mais vezes cabellos louros do que cabellos pretos? É porque entre elles, em Italia, quasi todas as mulheres teem cabellos negros.--Reciprocamente, quando os poetas celebram a miudo as bellezas morenas, logo se adivinha que são do Norte, clima das bellezas louras.»

Isto é realmente verdade. Diz o proloquio: «Só se deseja o que só se não tem.»

Já deixamos dito que Emilio Deschanel não leva a influencia do clima até ao fatalismo geographico. A sua _Physiologia_ não é uma theoria absoluta, uma demonstração didactica, como elle mesmo diz, mas simplesmente uma _causerie_ sobre a litteratura e sobre a arte. Nós, que procuramos seguir o caminho de Deschanel, não podemos acreditar que seja a terra a _prophecia da historia_, mas firmemente cremos que todo o homem tem muito do seu paiz como a flôr tem muito do sitio onde desabrochou. E depois o homem,--como notou Lamartine--é planta até certa idade, e a alma tem as raizes no solo, no ar e no céo que lhe formaram os sentidos. D'aqui a absorpção dos fluidos que andavam espalhados no ambiente da patria.

Não será difficil estudar-se na nossa litteratura o temperamento predominante dos portuguezes. Dous livros nos caracterisam perfeitamente,--_Os Lusiadas_ e a _Menina e moça_. Fomos sempre o povo das saudades e da vida concentrada do mar, que o mesmo é dizer tambem da saudade.

Longe, por esse azul dos vastos mares, Na soidão melancolica das aguas Ouvi gemer a lamentosa Alcyone, E com ella gemeu minha saudade.

Muita da nossa melhor litteratura são chronicas de viagem e poemas d'amor. Nós, a nação que formamos a monarchia á sombra da cruz, herdamos, no vasto espolio que recebemos de Roma, a lyra melancolica de Virgilio, que foi o poeta mais christão do paganismo e de quem disse Victor Hugo

_Il chantait presque á l'heure ou Jèsus vagissait._

Depois a mesma indole da lingua, cujos numeros são d'uma saudosa melancolia, como notou Garrett, as perturbações subitas da atmosphera, o aspecto suavemente triste da natureza, a solidão do navio, do bivaque e do claustro, deram-nos este caracter sombrio que nos distingue, predispozeram-nos para o temperamento nervoso-melancolico que é o predominante.

O nosso clima favorece as molestias intestinaes--d'aqui o mau humor, a hypocondria, o azedume, a satyra, que está perfeitamente representada em Bocage.

Ao contrario, os gregos, cujo céo era todo alegria e esplendores, tinham uma palavra propria para designarem o seu estado normal--_Eucolos_, o que diz simplesmente,--_ter bons intestinos_.

A França representa na civilisação moderna o papel de mediadora e interprete; notou-o Edgar Quinet.

Pela sua posição topographica communica com a Italia e com a Allemanha, e creou tambem uma phrase para designar as influencias beneficas que recebe d'esta communicação--_en belle humeur_; por outro lado está ligada aos paizes de Calderon e Camões, d'onde lhe sopram as auras murmurosas que pozeram em vibrato a lyra plangente de Lamartine.

A meu vêr, um dos maiores escriptores da Europa, que mais salientemente deixa vêr a influencia do seu clima natal,--é Camillo Castello-Branco. Basta lêl-o, nos seus numerosos volumes, para se conhecer o temperamento portuguez.

É que Camillo Castello-Branco é primeiro que tudo um escriptor nacional. Nos seus romances anda o idylio triste, suave, sublime de doçura e pungimento a par da satyra envenenada, da critica mordaz, do epigramma lacerante. Os seus livros, como os quadros de Rembrand, teem a magia do claro-escuro que caracterisa a escóla hollandeza.

É facil encontrar n'elles Moliere a par de Millevoye.

A educação de Camillo Castello-Branco devia influir gravemente no seu temperamento como aconteceu com Rousseau. São do livro _No Bom Jesus do Monte_ estes pequenos quadros retrospectivos da sua primeira vida:

«Tinha eu nove annos e era orphão.

«Dous mezes depois d'este desamparo, com o tenro coração fistulado de saudade, a desbordar de lagrimas, e os ouvidos ainda resoando-me á alma o estertor da agonia de meu pai, é que eu, pela primeira vez, entrei no sanctuario do Bom Jesus.»

Ainda do mesmo livro:

«Devo ajuizar da minha precoce sensibilidade, recordando que, dous mezes antes, entrei, por noite alta, na sala onde meu pai estava amortalhado, sem mais companhia que quatro cirios de chamma azulada. Ajoelhei sem orar. Afastei da fronte do cadaver o capuz do habito, e beijei-lh'a. Puz tambem a bocca nas mãos glaciaes; senti um frio de que ainda o coração me guarda a memoria: o frio do ambiente dos mortos. A meu lado, ninguem. A irmã que eu tinha, alguns annos mais velha, encerrara-se com a sua dôr e com o seu terror de cadaveres. E eu estava alli, destemeroso das sombras que desciam dos angulos do tecto á penumbra do clarão oscillatorio das tochas.»

Camillo Castello-Branco trabalha como trabalhava Mozart,--para vencer as rebeldias do seu temperamento. O trabalho é, para elle, ao mesmo tempo, toxico e remedio.

D'aqui o numero prodigioso das suas obras. N'estes ultimos tempos teem-se aggravado os padecimentos habituaes de Camillo Castello-Branco. Mas ainda assim que prodigiosa fecundidade a sua!

Ha um anno tem publicado quatro livros, e já estão traçados tres novos romances que são _Celestina_, _Scenas da tragedia humana_ e _Infanta capellista_.

É condão dos homens de letras o desentranharem-se em flôres do espirito quando o corpo mais se nega por enfermiço. Assim foi tambem Garrett, que já em 20 de setembro de 1838 escrevia para o Porto, a seu irmão:

«Ha muito que devo resposta á tua de 13 de agosto e terás attribuido a demora talvez a outros motivos, sendo unicamente que não tenho saude para nada, e que o escrever sobre tudo me mata. Não tanto em cousas de meu gosto, e em correspondencias com os meus amigos,--mas tendo de roubar aos padecimentos corporaes e amofinações d'espirito os proprios momentos que a natureza exhausta pedia para socego,--fico incapaz até para o que aliás me daria gosto e ainda allivio.»

Era-lhe rebelde a saude, fatigava-o o escrever, e aquelle grande espirito estava sempre moço, sempre acordado, e publicava, depois da data d'esta carta, o _Frei Luiz de Sousa_ em 1844; em 1845 as _Flores sem fructo_ e o _Arco de Sant'Anna_; em 1846 a _Philippa de Vilhena_ e as _Viagens na minha terra_; em 1848 a _Sobrinha do marquez_ e, para dizer tudo, foi depois de 1838 que nos deu os mais delicados livros da sua gentil bibliotheca.

Camillo Castello-Branco sente-se tambem doente, e ainda assim vou jurar que renunciaria á vida se o privassem de escrever os seus romances admiraveis de verdade, de analyse, de _côr local_, o que é, a meu vêr, um dos quilates mais preciosos do seu talento.

Lê-o a gente, e acredita-o, e commove-se por mais que se lembre que está lendo uma novella.

O segredo d'este prodigio ha-de morrer com Camillo Castello-Branco. Só elle sabe temperar a verdade com a ficção de modo que não offenda, por falta de naturalidade, os mais exquisitos paladares. É que a verdade, como sabem, nem sempre é verosimil.

Ouçamol-o a este proposito:

«Um meu amigo, que tinha conhecido muitos amigos infelizes, e tinha lido as minhas novellas, disse-me assim uma vez:

«--Tenho observado que vossê inculca verdadeiras todas as suas historias.

«--E vossê duvída?

«--Duvido porque as acho verosimeis de mais.

«--Isso é um absurdo, com o devido respeito. Pois, se as minhas historias fossem impossiveis, seriam mais possiveis?

«--A pergunta formulada d'esse modo é irrespondivel; mas o que eu queria dizer não é o que vossê entendeu.

«--Faça favor de se explicar.

«--Lá vou. A verdade é ás vezes mais inverosimil que a ficção. O engenho do romancista concatena os successos com tanta logica e coherencia que o espirito não póde negar-lhes a naturalidade. As occorrencias advem tão harmoniosas, os successos filiam-se e reproduzem-se tão espontaneamente, que o leitor póde, sem desaire da sua critica, pensar que o romancista é muitissimo mais correcto que a natureza. Ora agora, o modo como as cousas reaes se passam, os disparates que a gente observa, o desconcerto em que anda a previdencia do homem com o resultado phenomenico e sempre ordinario das realidades, isso, meu amigo, é o que os torna inverosimeis e inacreditaveis, se vossê ou eu as contarmos com a simplicidade e nudez de que ellas se vestiram aos nossos olhos. Sei eu acontecimentos que relatados, como eu os presenciei, seriam incriveis, e compostos com a mentira da arte seriam as delicias do leitor, que julga só verdadeiro o que é possivel ter acontecido. D'onde eu concluo que a arte é muito mais verosimil que a natureza, e que os seus romances são inacreditaveis por isso que são verosimeis.»

É este inquestionavelmente o grande segredo dos romances de Camillo Castello-Branco, o serem muitas vezes, para não dizer quasi sempre, mais verosimeis que a verdade.

O que é certo é que não ha ahi author que seja mais lido, mais gostado, mais popular até. A razão d'isto já fica acima apontada,--é que Camillo Castello-Branco é, pelo seu temperamento, um romancista verdadeiramente nacional.