Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos
Part 1
Produced by Pedro Saborano
ALBERTO PIMENTEL
NERVOSOS, LYMPHATICOS
E
SANGUINEOS
PORTO TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA 62, Rua da Cancella Velha, 62 1872
NERVOSOS, LYMPHATICOS
E
SANGUINEOS
ALBERTO PIMENTEL
NERVOSOS, LYMPHATICOS
E
SANGUINEOS
PORTO TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA 62, Rua da Cancella Velha, 62 1872
AO EXC.mo SNR.
D. ANTONIO DA COSTA DE SOUSA DE MACEDO
EM TESTEMUNHO DE RESPEITOSA AMIZADE
Offerece
_O author._
PHYSIOLOGIA LITTERARIA
I
«O genio é uma nevrose» proclamou d'uma vez o doutor Moreau, de Tours, aos quatro ventos do universo. Segundo elle, as esplendidas disposições d'espirito que fazem com que um homem suba acima do nivel commum, procedem das mesmas condições physiologicas que as diversas perturbações moraes cuja expressão é a _loucura_ e o _idiotismo_.
Seja isto ou seja que a constante intuscepção dos homens intelligentes os concentra de tal modo que parece viverem exclusivamente para si mesmos, absortos apenas no seu mundo psychologico, o certo é que estes homens se nos afiguram a mais das vezes entrados d'uma melancolia excepcional. Ora o doutor Moreau quer que esta melancolia que Aristoteles notou no seu tempo, seja simplesmente alienação mental, e escreve «que, por constituição melancolica, Aristoteles entendia a disposição do organismo mais favoravel ao desenvolvimento da loucura. Melancolia,--continua o nosso doutor,--era o termo generico, sob o qual os medicos e philosophos da antiguidade designavam todas as fórmas de delirio chronico; corresponde á nossa palavra: alienação mental, loucura.»
Aristoteles escreveu «que não havia um grande espirito que não tivesse um grau de loucura.» O doutor Moreau aproveita-se d'este dito e abona espirituosamente a verdade da sua these com o testemunho da antiguidade letrada. A excitação cerebral que precede e acompanha a inspiração, pareceu ao doutor de Tours o estado que mais analogia offerece com a loucura real, por isso que da accumulação insolita de forças vitaes n'um orgão,--palavras d'elle--duas consequencias são igualmente possiveis: mais energia nas funcções d'esse orgão mas tambem mais probabilidades de aberração e desvio d'essas mesmas funcções.
Emilio Deschanel, author d'um interessante livro que temos aberto diante de nós, _Physiologia dos escriptores e dos artistas_, não deixa sem commentarios as proposições do espirituoso doutor.
«Se se póde, em verdade,--escreve Deschanel--observar alguma cousa d'involuntario nos momentos sagrados da inspiração, esses momentos fugitivos não são tudo: subsiste toda a potencia innata e toda a força adquirida, toda a somma de experiencia humana, de alegrias e dôres, que os precedem: toda a energia de escolha e de vontade que os segue,--se é que não os acompanha--: porque o que ha de involuntario é apenas apparente; e mesmo no enthusiasmo o genio não perde a sua bussola.»
Ainda algumas palavras do doutor Moreau para ouvirmos depois Emilio Deschanel:
«Todas as vezes que as faculdades intellectuaes ultrapassem a bitola ordinaria, especialmente nos casos em que ellas attinjam um grau de energia excepcional, podemos estar certos de que o estado nervopathico, sob uma fórma qualquer, influenciou o orgão do pensamento, quer idiopathicamente, quer por via da hereditariedade. O que é o mesmo que dizer que nos homens excepcionaes se reconhecem as mesmas condições d'origem ou de temperamento que nos alienados ou nos idiotas.»
Modifica Emilio Deschanel:
«O que é verdade, é que um pequeno numero de pessoas, maiores de trinta e cinco annos, goza um estado de saude completa; quasi todas soffrem mais ou menos, quer notoria quer secretamente, com mais razão, os homens de letras e os artistas, cujo estado nervoso hereditario e innato está sobreexcitado incessantemente. A concentração habitual em que vivem, a fermentação quasi contínua do cerebro, inflamma-os, gasta-os, mina-os. Brilham ardendo. São, a certos respeitos, _meio doentes_; isso é incontestavel. Parece que o pensamento lhes aproveita tudo quanto roubam ao corpo. Ao passo que um se estiola, o outro se robustece; arruinam-se physicamente á medida que se constroem moralmente.--Mas se soubessem conservar o equilibrio entre o espirito e o corpo, iriam peor as cousas, e o seu talento d'elles perderia? Não, de certo! Pelo contrario, só tinha a ganhar.»
Estas ultimas palavras d'Emilio Deschanel parece deixarem brecha aberta á contestação, se acreditarmos que elle se propõe refutar completamente a these do doutor Moreau. Não. Deschanel protesta contra a exageração do doutor de Tours, mas aceita o _estado-mixto_, quer dizer, um estado que ao mesmo tempo participa da saude e da doença.
Emilio Deschanel compartilha pois da opinião d'outro medico francez, o doutor Bouchut, segundo o qual o _nervosismo_ é a molestia ordinaria dos homens de letras e dos artistas.
A antiguidade chamava-lhe _genus imbecille, genus irritabile vatum_. A sciencia moderna foi mais longe, muito mais longe:--adoptou uma palavra, e eis tudo,--_O nervoso._
_Nervosismo, estado-mixto_, seja como fôr, tenha a denominação que tiver, o que é certo é que parece ser apanagio das pessoas cujo exercicio intellectual está em flagrante desproporção com a despeza d'actividade physica.
Os homens de letras estão por via de regra costumados á reclusão do estudo e á vida sedentaria do gabinete. N'essas longas horas do continuado labutar, toda a vida se concentra no cerebro, para assim dizer;--d'aqui a excitação nervosa, um excesso d'actividade intellectual que não é equilibrado pelo exercicio muscular, pelo desenvolvimento do corpo.
A falta de saude, a debilidade, o _estado-mixto_ afigura-se-nos uma consequencia inevitavel. Toda a vida organica tem por base a renovação incessante da materia. A natureza quer expulsar de si o que é velho e morbido. A moderada actividade das fibras musculares tende pois a favorecer a transformação da materia, a regeneração da massa do sangue, e a dar um impulso benefico ao acto vital.
Os homens de letras descuram porém as conveniencias do organismo. Para elles a vida intellectual é tudo e,--dissipadores inconscientes!--vão-se atirando para o tumulo com uma pressa que o seu estado de continua excitabilidade lhes não permitte domar.
Abundam n'estas desafinações do systema nervoso os caprichos, as velleidades, os habitos exquisitos e bizarros, as idiosyncrasias.
Michelet, por exemplo, trabalha de manhã, tomando café em larga cópia. Balzac escrevia de noite e, como Michelet, ia esvasiando chavenas sem conto d'um café negro, carregado, nauseabundo. Bossuet escrevia n'um quarto frio com a cabeça coberta; de Schiller conta-se que mettia os pés em gelo para ter uma inspiração feliz.
Mozart, a sensitiva da musica, organisação extremamente nervosa, era victima de profunda melancolia. Procurava vencel-a com o trabalho, com o trabalho louco e desregrado, a ponto de se levantar do piano para cahir no leito, exhausto de forças.
Paulo Janet, refutando n'um capitulo do seu livro _Le cerveau et la pensée_ a theoria do doutor Moreau, procura demonstrar que estas excentricidades não são provenientes da loucura sublime do genio. Quer-nos parecer porém que tanto exorbita Paulo Janet como o celebre medico de Tours. Os extremos são por via de regra viciosos, e, n'esta questão especialmente, afigura-se-nos que o meio termo é sobremodo aceitavel. Por tal razão propendemos para as modificações sensatas de Emilio Deschanel. Não se estabelece uma lei fatal, não nos referimos á totalidade absoluta; falla-se do _maior numero_, o que é incontestavel, como demonstra a longa experiencia dos factos. Cumpre notar que não fazemos propaganda scientifica, senão que estamos lançando ao papel uns estudos humoristicos para correrem em folhetim.
Prosigamos finalmente, deixando para academias e academicos esta grande questão do genio e da loucura. O nosso proposito é outro;--vejamos.
Emilio Deschanel, não menos espirituoso humorista que o doutor Moreau, procura demonstrar que o estylo revela o temperamento do escriptor.
É verdadeiramente a physiologia applicada á critica.
Através da eloquencia fogosa de Bossuet descobre Emilio Deschanel um temperamento nervoso-sanguineo. Pascal era nervoso-bilioso; é o seu estylo que nol-o diz.
Basta lêr Voltaire para comprehender o doutor Raspail:
«Voltaire é o systema nervoso levado á suprema potencia.»
O marquez d'Argensou costumava definir Voltaire em poucas palavras:
«Todo nervos e todo fogo, era sensivel ás moscas.»
As _Maximas_ de La Rochefoucauld denunciam um nervoso-bilioso; João Jacques Rosseau é bilioso-melancolico.
N'este ultimo escriptor a educação influiu de certo muito sobre o temperamento. Rosseau foi creado com seu pai em cujo coração jámais cicatrisou a ferida dolorosa da viuvez. Escreve Rosseau fallando do pai:
«Quando elle me dizia:--João Jacques, fallemos de tua mãi; eu respondia-lhe:--Ah! meu pai, então vamos chorar? E só estas palavras lhe arrancavam lagrimas.»
Vem a proposito algumas palavras de Lamartine: «Rosseau foi educado pelas arvores, pelas aguas, pelos ventos, pelo céo, pelo sol, pelas estrellas; carecia ao mesmo tempo da educação de uma terna mãi e d'um pai laborioso: tudo isso lhe faltou[1].»
A solidão predispõe para a meditação, para a melancolia, e Rosseau foi creado pela natureza.
Temos visto como Emilio Deschanel desenvolveu galhardamente a these de Buffon,--_O estylo é o homem_, encarregando-se de demonstrar que o seculo, o clima, o solo, a raça, o sexo, a idade, o temperamento, o caracter, a profissão, a hereditariedade physica e moral, a saude, o regimen e os costumes,--tudo isso se espelha na superficie ora limpida ora revolta do estylo.
É impossivel ir mais longe.
É impossivel saber aproveitar melhor o reflexo interior para fazer resaltar do prisma fornecido por Buffon scintillações de tal modo deslumbrantes e magicas.
A _Physiologia dos escriptores e dos artistas_ é um espirituoso livro, e Emilio Deschanel um espirituoso escriptor que eu tenho conversado nos ultimos serões d'inverno.
Procuremos nós n'esta linguagem facil do folhetim, nortear a penna, a despeito de Paulo Janet, segundo o rumo dos trabalhos de critica natural de Emilio Deschanel.
Não podemos aventurar-nos, como elle, á vasta amplidão das aguas.
Navegaremos terra a terra, modestamente, velejando ao sabor da phantasia. Appliquemos tambem a physiologia á critica, e estudemos em alguns livros portuguezes a organisação d'alguns escriptores nacionaes.
Algumas vezes, é possivel, teremos de abrir excepção para um escriptor que n'um ou n'outro relance, mesmo n'um ou n'outro livro, quiz ou pôde dissimular a sua organisação, o seu temperamento, a sua predisposição. Toda a regra tem excepções; esta ha-de tel-as tambem. O que é certo porém é que o homem, na sua dupla existencia, moral e physica, não póde encobrir-se por tanto tempo, que o physiologista litterario não chegue a encontrar a verdade com o escalpello da critica.
Estão-nos já acudindo á memoria algumas excepções. Aproveitemos uma.
O snr. visconde de Castilho cuja indole amena e suavissima se espraia em recamos scintillantes por todas as paginas dos seus formosos livros, escreveu d'uma vez um poema onde se agita tempestuosamente o sentimento mais violento que póde escandecer o coração do homem,--o ciume.
A sua bibliotheca tem porém só um livro de tempestades e luctas; todos os outros refulgem serenos como os lagos na primavera.
O _estado-mixto_ dos escriptores e dos artistas soffre tambem excepções, e n'ellas deve ter grande parte a hereditariedade.
Agora nos occorrem tres:
Um escriptor robusto, bem humorado, infatigavel--Alexandre Dumas, pai.
Um maestro todo alegria e saude,--Rossini.
Um pintor, cheio d'animação e de vida, em cujos quadros tudo é louro e rosado,--Rubens.
Se estas excepções prejudicam por um lado a regra geral do _estado-mixto_, por outro tendem a provar que o estylo é a organisação--a doença ou a saude.
O vigoroso estomago de Alexandre Dumas, de cuja propriedade elle tantas vezes se ufanava, está, deixem-me dizel-o, nos seus livros.
A _charis phytalmos_, de Pindaro, revela-se no _Guilherme Tell_ de Rossini.
De Raphael basta citar as _Virgens_, que mereceram a Michelet estas palavras: «Virgens enormes, rosadas, refeitas, escandalosamente bellas.»
Ponhamos ponto, para comecarmos a fallar de escriptores portuguezes. Principiemos por um que tem um triste direito a ser o primeiro--porque morreu doudo.
[1] _J. J. Rousseau_ por A. Lamartine.
* * * * *
II
A. P. Lopes de Mendonça
Ha phrases que envolvem uma prophecia, conceitos despretenciosos que parecem sahir do intimo da alma como um presentimento que de repente assalta o escriptor no remanso do gabinete.
A pag. 324 das _Memorias de litteratura contemporanea_, de Lopes de Mendonça, encontro eu estas palavras:
«Ha vocações, que reproduzem os prodigios das sibyllas antigas. Prophetisam involuntariamente sobre a tripode, e deixam-se arrastrar pelo enthusiasmo das suas proprias palavras. O joven poeta não cantava, sómente para que as turbas se deixassem commover pela harmonia dos seus cantos: cantava porque lhe ardia no peito um fogo devorador, porque a sua alma ébria e palpitante, lhe accendia a imaginação, e como lhe intimava que traduzisse aos outros a magia dos seus sonhos, o fervor dos seus desejos, o esplendido irradiar da sua esperança.»
É certo que os verdadeiros talentos, as almas privilegiadas para a gloria e para o martyrio, _reproduzem os prodigios das sibyllas e prophetisam involuntariamente_.
Lopes de Mendonça escrevendo as _Memorias d'um doido_ prophetisava tambem.
Aquelle immenso talento, febril, audaz, infatigavel, sabia que as organisações como a sua resistem corajosamente a lucta social até perderem a vida ou a razão.
Mauricio, o seu heroe, é o que geralmente se chama um doudo sublime,--que pensa, que joga, que ama, que aborrece, que porfia, que se sacrifica, que obedece fatalmente á excitabilidade do seu temperamento.
«Arremessado aos quatorze annos no tumulto da capital,--escreve Lopes de Mendonça--tivera de se sustentar, como Rousseau, do trabalho machinal do copista, e na estreiteza e improbas fadigas de tal profissão, póde entregar-se ao estudo. Lendo avidamente a historia, sobretudo a historia moderna, já a sua intelligencia penetrára em todos os problemas da politica, e a acção dos acontecimentos que se succediam com uma variedade propria das quadras revolucionarias, amadureceu a sua precoce experiencia.»
Tal era Mauricio, tal era Lopes de Mendonça. O verdadeiro artista tanto quer á sua obra, que procura animal-a com a parte psychologica da propria individualidade.
D'aqui o encontrar-se frequentemente o author reproduzido no heroe.
A politica, a idéa fixa e a maxima aspiração de Lopes de Mendonça, que transpirava sempre nos seus livros e nos seus folhetins, não podia ser indifferente a Mauricio.
«Mostrára a sua vocação,--continúa Lopes de Mendonça--escrevendo alguns pamphletos, cheios de energia, e de vivacidade pittoresca. Lançára-se na critica implacavel de medidas que elle suppunha timidas e incompletas, porque reconhecera a distancia que o separava dos mediocres vultos, que dirigiam os negocios publicos.
«Apreciando, pelo que lêra, o que devia ser um homem d'estado, via os que governavam desperdiçando as fôrças d'uma situação excepcional em questões de mesquinha influencia, e nas intrigas, que manchavam todas as obras, grandes ou pequenas, da politica.»
Está claramente photographada n'estes periodos a ancia, a febre, a aspiração, o espirito de justiça e verdade, a coragem, o esforço, a persistencia de Lopes de Mendonça.
Queria elle,--aquelle espirito poderoso--que sahisse da espuma da revolução a verdadeira liberdade politica como tinha sahido--Venus moderna,--a verdadeira liberdade litteraria.
E propunha-se os graves problemas da administração, e planeava as grandes medidas que correspondem ás grandes necessidades d'um paiz, e queria levantar sobre as bases da justiça e da moralidade todo o edificio do regimen liberal, e queria realisar em si o ideal perfeito e quasi impossivel d'um homem d'estado, e queria apartar do centro da acção politica as pequenas individualidades que prejudicam a marcha dos acontecimentos no interesse da patria, e ao mesmo tempo mantinha digna e corajosamente a revolução litteraria que se havia iniciado, e escrevia os seus livros, e sustentava durante onze annos o folhetim da _Revolução de Setembro_, e cumpria os encargos litterarios da academia real das sciencias de que era socio e bibliothecario, e versava os trabalhos parlamentares na legislatura de 1855, e desempenhava o magisterio, e queria saber, precipitar o tempo para adquirir o que só o futuro lhe podia ensinar, e lidava, pensava, trabalhava, para ter de sobreviver á ruina da propria intelligencia.
Cavou a si mesmo o tumulo, onde o contemplamos alguns annos meio vivo, meio cadaver.
«Lia, annotava,--escreve Julio Machado--commentava todos os livros, lidando desde o romper da manhã, dormindo duas horas apenas, e lastimando essas duas horas perdidas.
«Andava preoccupado, andava triste e inquieto. Haviam-lhe mentido todos os seus oraculos d'outr'ora, e já não acreditava mesmo em si proprio. Tornou-se-lhe tudo escuro em redor. Não tinha uma venda nos olhos, mas principiou a tel-a na alma. Os seus amigos inquietaram-se do estado em que o viram. A extrema actividade de espirito perturbou-lhe a acção cerebral, mas a lealdade do seu caracter generoso nem então se desmentiu; imaginava-se rico, altamente collocado, offerecia-nos dos seus haveres, e instava para que aceitassemos.
«No breve intervallo que mediou da revelação d'esse estado á sua reclusão, comprou livros por toda a parte, muitos livros, todos os livros que encontrou. Mas, a essa hora já estava perdido.
«As faculdades da sua intelligencia haviam-se adulterado e estalaram como as cordas d'um instrumento[2].»
Estava irremediavelmente perdido,--estava louco; tinha morrido para a familia, para a sociedade, para a patria, e todavia vivia ainda em Rilhafolles. O seu estylo cadente, cheio, fogoso, elegante, a par da sua linguagem ás vezes incorrecta, denunciava para logo um temperamento nervoso-sanguineo.
A exaltação dos pensamentos, as scintillações differentes e successivas, a variedade febril dos tons, a riqueza caprichosa do colorido, a escolha variada dos assumptos, e até as mesmas imperfeições revelavam ao physiologista litterario a organisação de A. P. Lopes de Mendonça.
Nas _Memorias d'um doudo_, tudo é febril, tudo escalda, tudo denuncia o homem.
Lopes de Mendonça era realmente uma organisação de artista que participava da vivacidade cerebral do temperamento nervoso e da animação caracteristica do temperamento sanguineo. Era um escriptor modelado pela definição em que Emilio Deschanel procura daguerreotypar o artista: «Temperamento rico, sensibilidade ardente, imaginação fecunda, ao serviço d'um coração generoso, d'um bom senso delicado e d'uma razão elevada.»
Elle mesmo, o infeliz Lopes de Mendonça, apreciando um escriptor contemporaneo, definia o artista:
«Todo o segredo d'esta excitabilidade intellectual reside, não nos poupamos a repetil-o, em que é artista, completa e essencialmente artista. A sua razão philosophica, é mais d'uma vez desvairada pelos caprichos da sua phantasia. E todavia, o escriptor é logico, é racional e concludente, em cada uma das posições que alternativamente occupa. Hoje, reflectido e maduro, elevado ás austeras e mornas regiões do homem de estado, apresenta os mais sensatos alvitres, expõe os problemas com a mais fina e lucida critica, e corta os obstaculos, resguardando e salvando os interesses, percebendo todas as conveniencias, pesando todos os conflictos da opinião, e apalpando o terreno social como dextro e instruido estrategico.
«Ámanhã, desempedido e solto n'uma questão puramente litteraria, n'um ponto moral ou metaphysico, vê-o-heis enthusiasta d'um brilhante paradoxo, comprazer-se em destruir as idéas recebidas, em ferir as convicções consagradas, e fazendo _taboa rasa_ do _criterium_ publico, pôr os recursos do seu talento ao serviço da sua impressão instantanea[3].»
Eis-aqui Lopes de Mendonça, segundo as suas mesmas palavras; eis aqui o artista. A sua vida foi uma serie de congestões, um incendiar-se lentamente nas labaredas que lhe requeimavam o coração e o cerebro. Tinha sonhado com a gloria, algumas vezes a entrevira, era festejado, era querido, tinha ganhado os primeiros lugares, tinha entrado nas primeiras salas, e elle, que tinha resistido á lucta, á insomnia, ao trabalho, sentiu-se desfallecer quando a lava da ultima congestão seccou, e para sempre, os louros da sua corôa.
Em toda a sua vida houve apenas um momento de tranquillo repouso,--foi o ultimo. Julio Machado, fallando da extrema dedicação da esposa de Lopes de Mendonça, escreve com a mimosa delicadesa que lhe é peculiar: «Um dia, ultimamente, elle sorriu-lhe. Os medicos disseram que ia salvar-se talvez. Ia salvar-se, ia. Ia morrer!»
Não havia já o crepitar das chammas, porque d'aquella volcanica combustão restavam apenas as cinzas d'um cerebro; o sopro da morte espalhou-as.
Acabou-se tudo.
Alli agonisou nos braços da esposa carinhosa, esquecido da sociedade que mais d'uma vez o acclamára festivamente e que mais d'uma vez o apunhalára na couraça onde resvalaram todos os golpes dos detractores impotentes.
Julio Machado escreve ainda no seu ultimo e interessante livro--_Da loucura e das manias em Portugal_, fallando dos doudos de Rilhafolles:
«Lá esteve um, famoso e illustre, o mestre do folhetim em Portugal, e sua esposa alli foi todos os dias vêl-o e fazer-lhe companhia,--colhendo no céo a palma do combate terrestre e vendo sorrir-se para ella e abraçal-a meigamente aquelle ente querido, que havia representado um dos primeiros talentos d'esta terra, e que parecia, lucidamente, dizer-lhe com a vista que deve um dia ser feliz na eternidade a alma que n'esta vida teve dedicação pelo infortunio!»
Do homem que a fatalidade arrojou para os abysmos da loucura resta apenas um epitaphio;--pouco é, e transitorio. Mas de Lopes de Mendonça, do escriptor todo fogo e todo alma, todo colorido e sentimento, resta alguma cousa mais duradoura que o seu epitaphio,--os seus livros, nos quaes o physiologista poderá estudar largamente a vida impetupsa d'um temperamento nervoso-sanguineo.
[2] _Trechos de folhetim_, pag. 128.
[3] _Memorias de litteratura contemporanea_, pag. 328-329.
* * * * *
III
J. C. Vieira de Castro
Se o leitor entrasse na sala do parlamento portuguez durante as mais animadas sessões da legislatura de 1865 a 1866 e ouvisse trovejar do alto da tribuna uma voz sonora, cheia, precipitando-se em inflexões caprichosas e febris, que para logo denunciavam certa irritabilidade fogosa e violenta, facilmente adivinharia, sem o descortinar, um orador de temperamento nervoso-sanguineo, em plena virilidade, ebrio da gloria, que, de triumpho em triumpho, o impellira até ás regiões do olympo parlamentar.
Na sessão do dia 13 de Janeiro de 1866, por exemplo, em que se discutia o projecto de lei sobre a liberdade de imprensa, apostrophava o orador a que nos referimos:
«É licito perguntar com um notavel estylista da França: «Que temem os governos da imprensa livre?»
«A guerra da discussão? Mas ao contrario lhes deve lisongear o seu amor proprio, e a sua dedicação patriotica, porque lhes rasga vastos plainos ás victorias de suas doutrinas e de seus principios!
«Guerra de injuria? Pois soffram-n'a, que é para isso que são homens publicos. Se pelas eminencias do poder não houvesse senão estradas de flôres, de triumphos e de victorias, aonde estariam as provas da sua abnegação e do seu merito? E tanto lhes havia de doer a injuria que lhes arrancasse um grito contra a liberdade?