Nas trevas: Sonetos sentimentaes e humoristicos

Part 2

Chapter 2723 wordsPublic domain

Mettidas n'esses fetidos cenobios, Depois de incalculaveis soffrimentos, Voltam do campo cheias de microbios.

XXVI

A outra metade

Quando este corpo meu esfacellado Baixar á leiva humida da cova, Hão-de os jornaes carpir a infausta nova, Taxando-me de sabio consumado.

Estalará na imprensa enorme brado, Pedindo a resurgencia d'um Canova, Que a morta face em marmore renova Para insculpir meu busto laureado.

E algum dos imbecis necrologistas, Com soluçantes vozes de saudade, Dirá em ricas phrases nunca vistas:

«Esse genio immortal, rei dos artistas, «No ceu pede ao Senhor que a _outra metade_ «Reparta por vossês, ó jornalistas!»

XXVII

Comedia humana

Litteratos! chorai-me, que eu sou digno Da vossa gemebunda e velha tactica! Se acaso tendes crimes em grammatica, Farei que vos perdoe o Deus benigno.

Demais conheço a proza inflada, emphatica, Com que choraes os mortos; e o maligno Desaffecto aos que vivem... Não me indigno... Sei o que sois em theoria e em practica.

Quando o avô d'esta vã litteratura Garrett, era levado á sepultura, Viu-se a imprensa verter prantos sem fim...

Pois seis dos litteratos mais magoados, Sahiram, n'essa noite embriagados, Da crapulosa tasca do Penim.

XXVIII

(Recordação dos 9 annos)

Ao visconde d'Ouguella

Nós aprendemos juntos a grammatica Do insigne e facundissimo Lobato. O nosso pedagogo intemerato Nos _Calafates_ fez resurgir Attica.

Afora esta funcção assaz sympathica O mestre era guerreiro; e o desbarato Que fez nos miguelistas, não relato, Que eu da guerra civil detesto a tactica.

Devemos-lhe os segredos do _dativo_ E os mysterios do occulto _adjectivo_ E os do _supino_, e mais coisas supinas.

Visconde, é gratidão dizer ao mundo Que quem nos deu o litterario fundo Foi mestre João Ignacio Luiz Minas.

XXIX

Triumphos da eloquencia

Se o bruto (_b_ pequeno) desalforja, Desbragadas injurias nos comicios, Contra argentarios, padres e patricios, Explue nos olhos crispações de forja.

Esmurra o peito e jura pela gorja, Que o Vaticano cai podre de vicios. Se pede para os reis forcas, supplicios, _Hurrahs_ sanguineos vocifera a corja.

Este luso Rigault é petrolista; Na lingua tem navalha de fadista; De resto, faz pagode e rija pandega.

Está compondo agora outro discurso Com que espera alcançar, mas sem concurso, Ser despachado capataz d'Alfandega!

XXX

Derrocada

Ao passo que vasqueja e expira a luz Do Templo onde, algum dia, celebraram O Passos, e o Mousinho e os que arrastaram Em terra estranha a esmagadora cruz,

Na imprensa, uns pugilistas, braços nus, Uns contra os outros, rábidos, disparam Sarcasmos, que ao diabo não lembraram... Que linguas, sancto nome de Jesus!

O Deus dos seis Affonsos e das Quinas! Se um vil desabamento nos destinas, Escuta o meu sincero e ardente voto:

Faz pena este acabar quasi indecente... Concede-nos morrer mais seriamente: Transmitte-nos, Senhor, um terramoto.

XXXI

O ultimo romantico

O extravagante Arthur, em Compostella, Viu desnalgar-se uma gitana Lola, Que tocava pandeiro e castanhola, E jurava que nunca foi donzella.

Chamava-lhe _Esmeralda_, ou _Graziela_ O romantico Arthur da velha escola; Mas tanto na paixão carnal se atola, Que os bens que tinha dissipou com ella.

Assim que empobreceu, Lola safou-se; E Arthur a pouco e pouco definhou-se Até se evaporar sem ter vintem,

A ti, que foste o ultimo romantico, Dedico o meu, talvez, ultimo cantico... E adeus! Se estás no ceu, porta-te bem.

EPILOGO

XXXII

Epilogo

Paroxismos da luz! tristes cantares! Sahis da treva, em treva esquecereis! Romanticos leitores não choreis; Poupai-vos para os vossos máos azares.

Se navegaes por bonançosos mares, De subito, no azul do ceu vereis A nuvem que se rompe nos parceis De imprevistas borrascas de pezares.

Disse Henry Heine, o cego: «Não lastimem «As lancinantes magoas que me opprimem... «Espere cada qual chorar por fim.»

E eu, que tanto carpi os condemnados, Os cegos--os supremos desgraçados!-- Já lagrimas não tenho para mim!

INDICE

Pag.

Nota Illustrativa 7

O Conde de S. Salvador de Mattosinhos 21

Visconde de Benalcanfor 23

A maior dor humana 25

Luiz--O Bom 27

Lagrimas 29

Corôa de espinhos 31

Velhos problemas sagrados 33

Rachel 35

Alexandre da Conceição 37

Paciencia 39

Veterano 41

Scena trivial 43

Alcacer Kibir 45

Jorge 47

Critica do auctor 51

Thomaz Ribeiro 53

Remorso 55

Te-Deum laudamus 57

7:500 contos 59

Lua de mel 61

Messias 63

Portugal Contemporaneo 65

Logica de ferro 67

Aromas 69

Lisboa bucolica 71

A outra metade 73

Comedia humana 75

Ao Visconde d'Ouguella 77

Triumphos da eloquencia 79

Derrocada 81

O ultimo romantico 83

Epilogo 87