Chapter 8
--Isso é consigo, minha menina. É o presente de noivado do senhor Nuavias... Procure mais...
--Mas enfim, disse o senhor Germinal, suando em bagas, esse Nuavias é o senhor, ou é o diabo?...
--Nem um, nem outro... Querem conhecê-lo?
--Quero... quero... quero... gritaram três vozes ansiosas.
--Pois bem! Esse jovem e belo senhor Nuavias, esse feliz senhor Nuavias, que dentro em quinze dias vai desposar uma encantadora menina; esse afortunado senhor Nuavias, de quem somos hospedes, é...
--É... quem?
--André.
--Eu!...
--Sim? sem a menor dúvida! Nuavias é apenas o anagrama de Sauvain.
--Porém, esta casa...
--Ah! tem razão... Esta casa... Ora queira procurar novamente na caixa, senhora noiva...
Na caixa havia ainda outros papeis; mas esses eram espessos, pesados, com selo, cobertos de maçuda escrita, e rubricados por dois tabeliães. Continham um acto legal e autêntico, assegurando a André Sauvain a propriedade de uma casa, situada em Audily (Seine-et-Oise).
--Senhor!... exclamou o pintor fora de si, é demais!... É demais!... Não posso aceitar...
Pedro interrompeu-o com gesto suplicante; a sua fisionomia tornara-se grave e sisuda.
--Meu querido amigo, disse ele com voz comovida, permita-me que resgate, a meu modo os erros passados... Talvez devesse te-lo feito mais cedo... Mas, se prolonguei por alguns dias as suas mágoas, se me apresentei em sua casa sob farrapos mentirosos, foi porque ainda não tinha encontrado Rosa, e queria entregar-lha juntamente com o seu património. Dessa experiência, saiu o senhor vitorioso; outro qualquer ter-me-ia morto, porém o senhor... coração nobilíssimo!... para o homem, que lhe despedaçara a vida, teve ainda uma última e sublime esmola!... Pois bem! seja generoso até ao fim... não recuse os meus dons... não me deixe remorsos...
--Cumpra-se o seu desejo, respondeu Sauvain. Aceito este oásis encantador... com a condição, porém, de restituir-lho quando a fortuna o houver atraiçoado.
--Com mil amarras!... Espere por isso! Graças a Deus, estou curado da febre de traficar; viverei como um bom burguês; o meu amigo Germinal ensinar-me-á o gamão; e nunca mais especularei, senão em sonhos.
--Pelo amor de Deus, murmurou o pai de Rosa, expliquem-me de que se trata!... Que diabo está o senhor para aí a falar em erros, remorsos, e património?... Que significa todo esse aranzel?...
--Significa, respondeu o aventureiro, que encontrei no meu caminho duas virtudes raras, e tão raras que me converteram...
--E quais são essas virtudes?...
--O perdão das injúrias, disse Pedro, apertando a mão a André... e a inteira probidade, acrescentou, estendendo a outra ao senhor Germinal.
Este esfregou desesperadamente o seu ferruginoso crânio.
--Tudo isso para mim é hebraico, replicou o pai de Rosa. A única coisa, que pude coligir, foi que o senhor está milionário!...
--É verdade, meu bom amigo. A sorte favorece os doidos. Esse depósito sagrado, pelo qual velou durante doze anos, como homem probo, que é, arrisquei-o eu, sem reflectir, num lance de dados... Ganhei... Sou portanto um grande especulador. Mas... se tivesse perdido?... Quando penso nisso, sobe-me o coração à garganta, e sinto-me tremer como... como o seu _Faust au sabbat_, André!... um quadro admirável! que, entre parêntesis, possuo em Paris no meu palacete, e pelo qual me ofereceram já o seu peso em oiro?
--De modo que, disse o pintor, o meu mercador de quadros entrava na conspiração?... Traidor!...
--Ora!... e também a modista, para quem fazia flores a menina Rosa, os criados desta casa, e até o pateta do Jacinto, antigo marinheiro, que eu elevei à categoria de guarda-portão, e que hoje tomo a liberdade de recomendar à sua benevolência.
--Oh! quanto a esse, disse Sauvain rindo, é possível que tentassem inicia-lo no segredo, mas assevero-lhe que nada percebeu!
--Nem eu tão pouco, palavra de honra! replicou sinceramente o senhor Germinal, e por isso... meto a viola no saco. Toque nestes ossos, meu genro!
--Com mil vontades! exclamou alegremente o pintor, apertando nas mãos a garra descarnada do pai da sua noiva. Estava escrito que, riqueza, gloria e felicidade, tudo encontraria...
--NAS CINZAS, concluiu Pedro Toucard.
FIM
[1] Reunião de três números, cuja extracção simultânea era uma sorte feliz.
[2] Hospital de alienados.
OBRAS PUBLICADAS
PELA
EMPRESA EDITORA CARVALHO & C.ª
TEATRO
Os sabichões--Comédia original em 4 actos, por E. Biester, 250
Ao calçar das luvas--Comédia original em 1 acto, por Rangel de Lima, 100
O afilhado de Pompignac--Comédia (tradução) em 4 actos, por L. C. M., 200
Um homem político--Comédia (imitação) em 3 actos por Aristides Abranches, 200
O fidalguinho--Comédia original em 3 actos, por Ferreira de Mesquita, 200
Abençoado progresso--Comédia original em 1 acto, por Rangel de Lima, 100
As campainhas--Comédia (tradução) em 1 acto, por Pinheiro Chagas, 100
João o britador--Drama (tradução) em 5 actos, por L. C. M., 250
As três rocas de cristal--Mágica em 3 actos e 17 quadros, por Aristides Abranches, 300
A família--Drama original em 5 actos, por J. R. Cordeiro, 300
Quem desdenha--Comédia original em 1 acto, por Pinheiro Chagas, 100
Caso de consciência--Comédia (tradução) em 1 acto, por Pinheiro Chagas, 100
Luís XI e o poeta--Comédia (tradução) em 1 acto Ferreira de Mesquita, 160
A mosca branca--Comédia (imitação) em 3 actos, por Duarte Santos, 200
A cruz de prata--Drama (tradução) em 5 actos, por L. C. M., 300
N. B. A quem comprar a colecção completa (15 peças) 40 por cento de abatimento.
ROMANCES
As duas flores de sangue--Original, por Pinheiro Chagas (1 volume), 500
As doze espadas do diabo--Tradução de Guilherme Celestino (2 volumes), 800
Cláudio--Original, por Júlio César Machado (1 volume), 500
Nas cinzas--Tradução por L. C. M. (1 volume), 300
NO PRELO
Uma noite em Florença--Tradução de Guilherme Celestino (1 volume), 400
Remetem-se, francos de porte, a quem enviar a sua importância em estampilhas ao escritório da empresa, rua larga de S. Roque, n.º 100, 1.º andar.
Imprensa Nacional--1875