Chapter 6
Enfim, uma tarde, à hora do crepúsculo, André atravessou a última aldeia, que o separava de sua casa: os camponeses sentados à soleira das suas portas, as velhas fiando na roca, as crianças semi-nuas, as frescas mocetonas de riso sonoro, acompanharam-no com olhar curioso, perguntando a si mesmos para onde se dirigiria aquele forasteiro, tão pálido e com os pés embranquecidos da poeira.
Uma hora depois, André avistava o seu casebre.
XVIII
Lá estava ainda, mudo, negro e meio-derrocado, ao cimo da colina. O vento da Costa não o derrubara de todo.
Os seus contornos desenhavam-se vigorosamente no acinzentado do céu, com o seu tecto de verde musgo, e as árvores desfolhadas do velho jardim. Uma brisa áspera, precursora do inverno, fazia bater as portas das janelas, arrancadas dos seus gonzos; e aranhas enormes urdiam tranquilamente as suas teias nos buracos dos vidros quebrados.
Mais adiante estendia-se, a perder de vista, o vasto oceano. Balouçava-se pacífico, com o seu monótono e solene murmúrio: da superfície das ondas elevava-se lentamente um intenso nevoeiro, qual gigantesco sudário.
André parou, possuído de religiosa comoção; abriu a porta carunchosa e entrou em casa. Um odor indefinível se exalava daquele recinto, onde ninguém penetrara depois da morte de sua mãe. À luz indecisa do dia, que acabava, André pôde distinguir o grande leito de colunas, com os seus cortinados de ramagens e flores fantásticas, a arca de nogueira, o crucifixo com palmas bentas, os escabelos maciços, e as redes da pesca, herança de seu pai. Sobre a mesa, via-se ainda uma tapeçaria por acabar. Parecia que a obreira saíra de casa... momentos antes.
André beijou aquele pedaço de estofo, que as mãos de sua mãe tinham bordado.
Depois fechou a porta e sentou-se pensativo junto da chaminé. E aí, mergulhado nas trevas, que rapidamente aumentavam, com os olhos fitos na lareira vazia, transportou-se em espírito ao sombrio passado.
O marulhar cadente do oceano acompanhava-o na sua tristeza. Ao menor estalido do vigamento, André comprazia-se em fantasiar que sua mãe estava ali; que, terna e risonha, se aproximava com passos ligeiros; e que ele ia sentir na fronte o doce contacto dos seus lábios...
Entregue completamente às suas recordações, dizia de si para consigo, que, se Deus recompensa o martírio, a pobre mulher devia ser bem feliz no outro mundo.
O pintor não confessara tudo a Rosa.
Filha de um rico rendeiro, cortejada pelos melhores proprietários dos arredores, a mãe de André preferira-lhes Sauvain, um simples pescador da costa. Ao cabo de um ano de vida conjugal, esse homem enfastiara-se dela; maltratou-a, desbaratou em deboches e embriaguez, quanto possuíam, e afinal desapareceu, abandonando à miséria a esposa e o filho recém-nascido.
Três anos depois, soube ela simultaneamente, do seu alistamento a bordo da _Ariana_, e da perda daquele navio com toda a tripulação.
Bela e virtuosa, fácil lhe teria sido tornar a casar. Mas... idolatrava seu filho, e temia impor-lhe um tirano. Além disso, não obstante as brutalidades de Sauvain, não cessara de ama-lo. Dedicou à sua memoria um culto, aliás pouco merecido, e conservou-se viúva.
Então começou para ela uma vida heróica, toda de sacrifícios e abnegação. Privou-se de comer e de dormir, para poder dar a seu filho uma educação conveniente; desejava-lhe uma carreira modesta, um emprego que o fixasse em Granville, a dois passos da sua casa natal, perto de si enfim...
Mas André iludiu aquele plano materno. Atormentava-o uma inquietação incompreensível, tinha sede de movimento e de espaço; começavam a nascer as suas asas de artista... Não tinha ainda doze anos, quando um escultor, passando por ali, o encontrou, e apreciando a sua inteligência precoce, propôs-lhe levá-lo consigo. André bateu as palmas de alegria; e a viúva, engolindo as lágrimas, deixou-o ir.
Alguns meses depois, chamou-o ela a toda a pressa: André veio logo, mas chegou só a tempo de assistir-lhe ao enterro.
Aquela súbita doença, aquela morte inesperada, fulminaram a criança de surpresa e terror; interrogou os que tinham assistido a sua mãe, mas apenas puderam responder-lhe que um dia, ouvindo em casa da viúva um grito estridente, acudiram e encontraram-na pálida e trémula, com o rosto desfigurado, segurando-se a um móvel para não cair no chão. Por um prodígio de coragem, conseguiu ainda escrever duas linhas a seu filho; deitaram-na na cama, pediu um padre, e expirou no dia seguinte. Não podia duvidar-se de que, mais uma desgraça pousara a sua mão de ferro sobre aquela humilde existência... Que desgraça fora, nunca o soube André.
Quantas vezes, desde então, torturara ele o espírito para penetrar o sinistro enigma?
Naquele momento ainda, decorridos tantos anos, sozinho entre aquelas paredes mudas, ora aglomerava, ora repelia, e logo reconstruía, na sua imaginação ardente, mil hipóteses contraditórias; e as rajadas impetuosas do vento, abalando o tecto, sucediam-se, como gargalhadas de escárnio, mofando de suas loucas conjecturas...
Entretanto adiantava-se a noite, e pelas mil fendas do casebre filtrava-se glacial humidade. André, transido de frio, ergueu-se enfim às apalpadelas, acendeu luz, dirigiu-se a uma pequena carvoeira contígua, e aí ajuntou algumas achas, que dispôs na lareira.
Tentou fazer uma boa fogueira, mas a tarefa não era fácil.
Um montão de cinzas, extintas havia doze anos, obstruía a chaminé. O pintor quis desvia-las; porém, ao enterrar a pá, tocou num objecto duro, resistente, metálico, que não pôde logo adivinhar o que fosse. Tirou-o e limpou-o ao forro da blusa.
Era uma chave ferrugenta, de mui exígua dimensão e de forma particular. Evidentemente só podia pertencer a um pequeno cofre, ou a um indispensável de mulher.
André olhou em volta de si, mas não descobriu nenhum utensílio daquele género. Atirou com a chavinha para cima da mesa e acendeu a lenha, que começou a crepitar.
O velho recinto iluminou-se de alegre claridade. O pintor tentava reatar o fio dos seus pensamentos, mas debalde; a seu pesar, a pequena chave intrigava-o; não sei que vaga intuição lhe segredava ao ouvido que, entre aquela chave e o mistério que procurava desvendar, havia talvez íntima relação...
De repente, à força de a virar e revirar nos dedos. Lembrou-se de haver brincado em criança com uma caixinha, habilmente coberta de conchas multicolores, como muitas que se vendem em certos portos de mar.
Sua mãe apreciava-a muito: fora um presente do marido, que lha comprou na feira de Granville... Conservava-a como uma relíquia, e nela guardava o que tinha de mais precioso. A caixa existiria ainda?
André começou a procurá-la, e, sempre guiado pelas suas recordações, descobriu-a sobre um resto de roupa branca, que ficara a um canto da arca de nogueira. Tomou-a nas mãos e, pelo seu pouco peso, julgou que estava vazia. Contudo meteu a chave na fechadura.
A caixa abriu-se; continha apenas um papel.
Era uma carta aberta. O sobrescrito, matizado pelos selos da posta inglesa, indicava a procedência de Liverpool.
Durante alguns minutos, o pintor ficou imóvel, perplexo, comovido, em frente daquele escrito, que sem dúvida encerrava o segredo da morte de sua mãe.
Contudo sentou-se, aproximou a luz, desdobrou a missiva, e buscou primeiramente a assinatura. Ao vê-la, escapou-se-lhe dos lábios um grito de surpresa.
No fim da terceira página de uma caligrafia incorrecta mas de traços vigorosos, desenhava-se em letras enormes, o nome de Pedro Toucard!
Depois, André leu o que se segue:
«Liverpool, 4 de Maio de 1842.--Minha senhora: O meu nome, embora lhe seja desconhecido, é o de um homem, que a lamenta e lhe dedica sincero interesse. Julga poder provar-lho, e cumprir ao mesmo tempo um dever, informando-a de uma particularidade que, sem isso, ignoraria sempre.
«Há nove anos, que a senhora chora Onésimo Sauvain, seu marido; porém Onésimo Sauvain não morreu.
«Quando a _Ariana_ naufragou, era eu passageiro a bordo daquele navio, do qual ele era marinheiro. Só eu e ele, dentre toda a tripulação, tivemos a boa fortuna de escapar.
«Arrojados a uma praia pouco hospitaleira, igualmente esfaimados, igualmente desprovidos de recursos, associámos os nossos destinos. Seu marido é um malandro, mas inteligente e resoluto. Ajudou-me nas minhas empresas, e, navegando de conserva, levámos a cabo não poucas especulações lucrativas.
«Desde o princípio, e sem dizer-me a razão, manifestava ele o desejo de passar por morto; anunciou-se por toda a parte como meu irmão, e de Onésimo Sauvain, que era, transformou-se em Onésimo Toucard. Ora eu, que não sou tolo, não tardei em fazê-lo dar à língua. Confessou-me que deixara por aí... a qualquer canto; uma mulher e um filho, e que não tinha grande empenho em tornar a vê-los. A coisa pareceu-me ignóbil; disse-lho claramente, porém ele mandou-me para o diabo. Entretanto persegui-o com tais instâncias e ameaças de desmentir o boato da sua morte, que me prometeu, não sem repugnância, escrever-lhe logo que tivesse adquirido meios suficientes para viverem cómoda e honradamente.
«Hoje, minha senhora, decorridos nove anos de alternativas de boa e má fortuna, depois de uma viagem feliz, liquidámos as nossas contas. A parte de Onésimo eleva-se a perto de dez mil francos; a nossa sociedade dissolveu-se; ele renuncia ao comércio, e quer, segundo diz, gozar em paz da sua modesta abastança. Quanto a mim, que não me contento com tão exíguo capital, reembarco para a Índia, daqui a três dias, e vou de novo tentar fortuna.
«Onésimo volta para França, e jurou-me reintegrar o domicílio conjugal; mas, como depois me pediu que lhe dirigisse provisoriamente as minhas cartas para Versailles, posta restante, e sob certas iniciais, inclino-me a crer que ele roerá a palavra a este seu criado, continuando a deixar a esposa em viuvez, e que dissipará em orgias o capital, que pertence legitimamente a seu filho.
«Previno-a pois, minha senhora, para que, pelos meios que julgar convenientes, impeça seu marido de cometer novas loucuras, imperdoáveis na sua idade, e também para que procure restituir o pai a seu filho.
«Talvez esta advertência vá demasiado tarde; porventura estará morta, ou tornaria a casar a mulher de Onésimo... Em todo o caso, obedeço às ordens que me dita a consciência.
«Onésimo partiu ontem, 3; segundo todas as probabilidades deve chegar a Paris no dia 6, e a Versailles, de 7 a 10. Ignoro o segundo pseudónimo que adoptará; mas, indicando-lhe a terra onde tenciona esconder-se, não me parece difícil que consiga descobri-lo.
«Queira aceitar, minha senhora, as expressões do profundo respeito de==_Pedro Toucard_.»
Quando André voltou a si do espanto, que lhe causara aquela carta, estremeceu ao pensar na impressão dolorosíssima, que ela devia ter produzido em sua mãe.
Saber que seu marido vivia, e a detestava a ponto de preferir a morte civil à vida de família!... Saber que esse homem era relativamente rico, e não lhe importava sequer se seu filho tinha pão!...
Sem dúvida, aquelas terríveis decepções, as suas ilusões violentamente arrancadas, tinham morto a pobre mulher, sem dar-lhe tempo, nem forças, para comunicar a André a noticia, que tivera.
Depois, o pintor tentou reunir as suas ideias, porém elas dançavam em vertiginoso galope, e com grande custo conseguiu desembaraçar a meada dos acontecimentos, que o acaso enredara em tão extraordinárias complicações.
Então... aquele viajante, vitima da catástrofe de 8 de Maio, era seu pai!
Então... os noventa e dois mil francos, depositados pelo moribundo nas mãos de um estranho, pertenciam-lhe!
Então... o senhor Germinal, que durante doze anos procurara, e receara encontrar, o herdeiro de Onésimo, morou defronte dele todo esse tempo!
Então... desposando Rosa, e aceitando o dote que o velho lhe oferecera, era André quem enriquecia a mulher que amava!
Então... Pedro Toucard, levado ali por essa série de singulares coincidências, abusou do seu falso parentesco com Onésimo para apossar-se de uma soma, a qual todavia tentara em tempos fazer reverter para os seus legítimos donos!
André compreendia agora a extraordinária comoção do provençal ao ouvir o nome de Sauvain. A consciência do aventureiro era elástica, mas ainda não estava gangrenada; apesar dos seus escrúpulos, não pudera vencer o seu frenesim de especulação, nem deixar fugir a ocasião de traficar mais uma vez.
Entretanto tinha, sem o saber, despedaçado a felicidade futura de Rosa e de André!
«Pela memoria de minha mãe! exclamou o pintor, juro que lhe farei restituir o dinheiro!»
E logo um clarão de alegria lhe iluminou e reanimou o espírito. Reflectiu em que, uma vez na posse daquela soma, disporia de meios enérgicos para descobrir o senhor Germinal, e que o velho teimoso não teria então mais nenhum obstáculo, que opor ao seu casamento com Rosa.
Passou grande parte da noite a passear pela casa, como um louco. Depois, prostrado de fadiga, deitou-se, adormeceu com a cabeça escandecida, e teve um pesadelo.
Sonhou que Pedro Toucard, trajando um fato recamado de oiro e pedras preciosas, pendendo-lhe do rosto uma barba em duas pontas, de prata maciça, galopava, ao longo dos _boulevards_, numa carruagem puxada por doze cavalos... André perseguia-o, correndo a bom correr... Queria gritar: «Agarra, que é ladrão!» mas a sua garganta não soltava o menor som... E Pedro fugia sempre, semeando às mãos cheias, por sobre a multidão, noventa e duas mil notas do banco, carimbadas com o nome de Sauvain...
XIX
Quando o pintor acordou, estava transfigurado. Do mesmo modo que, em face dele, o sol se alevantava majestosamente por cima do mar, rompendo as névoas pardacentas, enrolando-as como um manto, e descobrindo a imensidade líquida, sobre a qual espargia milhares de gotas de oiro; assim, no coração de André, a tristeza, o abatimento, o desanimo, tudo se evaporara ao sol da esperança.
Uma resolução firme substituíra todas as suas indecisões. O seu programa era:
1.º--Encontrar Pedro Toucard: o que devia ser fácil, vista a excentricidade da sua pessoa, e a atenção que não podia deixar de atrair sobre si.
2.º--Fazer-lhe restituir o dinheiro, que levara.
3.º--Lançar uma matilha inteira, se preciso fosse, na pista do senhor Germinal; ir ter com ele, ainda que estivesse na Gronelândia, agarra-lo à viva força, desposar Rosa, e ser feliz.
Nada mais simples!
André saiu, portanto, alegre e despreocupado; aspirou deliciosamente os perfumes do ar salino da costa, enviou um olhar reconhecido ao céu de azul-turquesa, e descendo por atalhos desertos, entrou no cemitério da aldeia, cujas campas, abrigadas pela igreja musgosa, alvejavam ao romper do sol.
Ali, num canto isolado, parou, mais por instinto do que por fiel recordação, ante um montículo invadido por ervas parasitas e por parietárias. Uma cruz de madeira, negra e carunchosa, jazia quebrada entre as plantas incultas; o nome, outrora gravado nos braços dessa cruz, já não se distinguia.
André ajoelhou na relva húmida, e ficou assim por muito tempo. Só quando rumores longínquos lhe anunciaram o despertar da aldeia, afastou-se tranquilo, mas em profundo recolhimento.
No mesmo dia, encomendou uma lápide tumular, que pagou adiantada, e entendeu-se com um arquitecto para as reparações do seu pardieiro e do velho jardim. Empenhava-se tanto em dar-lhes um aspecto risonho, porque decidira passar ali com Rosa as horas encantadas da lua de mel.
Cumpridos estes deveres, meteu no bolso a carta de Pedro Toucard, tornou a pôr na arca a caixa de conchinhas, confiou a chave da casa ao empreiteiro encarregado das obras, e, nessa mesma tarde, partiu para Paris no último comboio do caminho de ferro, pois que, desta feita, não tinha tempo a perder.
No dia seguinte, ao meio dia, estava ele de pé no seu _atelier_, escovando o chapéu para correr em busca do provençal.
--Por onde começarei? perguntava a si próprio; onde poderei mais facilmente encontra-lo?... Ora... já sei! na Bolsa! Foi para lá, que ele transportou a sua tenda de campanha, e tenho quase a certeza de o ir apanhar, entre uma compra e uma venda de fundos.
Quando acabava de proferir estas palavras, abriu-se a porta, e André, petrificado de espanto, recuou três passos.
Entrou Pedro Toucard... Pedro Toucard, em carne e osso!
--O senhor!... exclamou Sauvain.
--Eu mesmo, respondeu o aventureiro com o seu habitual desembaraço. Bons dias, caro amigo!...
E, como André lhe não estendesse a mão, agarrou-a ele quase à força, estreitando-a nas suas.
Depois continuou, escarranchando-se numa cadeira:
--Então, como vai isso?... bem?... Folgo deveras. Acho-o um pouco mudado... um tanto pálido... mais magro... mas bem disposto e animado, o que me causa imenso prazer.
--É muita bondade!... lhe tornou André, com voz ironicamente ameaçadora.
--Dá-me prazer, palavra de honra! porque não foi sem uma tal ou qual inquietação, que embarquei esta manhã para a rua dos Mártires...
--E por que motivo? perguntou o pintor, curioso de ver até que ponto chegava semelhante impudência.
--Primeiramente, porque há muito que o não vejo... Lembra-se de que a minha última visita data de há quatro meses?
--Lembra-me muito bem!... resmungou André com os dentes cerrados.
--Em segundo lugar... sim... é porque tenho uma confidência... um pouco difícil, para fazer-lhe.
--Uma confidência!
--Ou, mais propriamente, uma confissão... Ora, imagine o senhor que tem suas razões de queixa contra mim... graves razões de queixa!...
--Realmente?
--É exacto... Podia ocultar-lhas sempre, mas a minha consciência tem andado opressa: hoje transborda e impele-me às confissões...
Perante este arrependimento, real ou fingido, a cólera de André esvaiu-se quase de súbito.
--Ora vamos!... pensou o pintor, este homem ainda tem bons sentimentos; e visto que se emenda, não tenho coragem para lhe querer mal. Para todo o arrependimento, misericórdia!...
--Estou pronto a escutá-lo? disse ele a Pedro em tom mais brando.
O provençal torceu os cabelos grisalhos da barba e coçou a orelha.
--Custa a contar!... murmurou este. Se me dessem a escolher, preferiria trepar ao cimo do Himalaia... A coisa é dura, que tem diabo!...
--Então, disse-lhe André sorrindo, não diga nada, meu bravo! E inútil, porque eu sei tudo.
--Ora essa!... exclamou Pedro, erguendo-se aterrado!
--Trata-se dos meus noventa e dois mil francos, não é assim?
--Dos seus... Ai, com mil bombardas! é certo que sabe tudo!... Mas quem diabo podia instruí-lo de uma coisa, que ninguém neste mundo...
--Foi o senhor mesmo, interrompeu o pintor.
--Eu!...
--Ora leia.
E Sauvain colocou-lhe debaixo dos olhos a carta datada de Liverpool.
Pedro Toucard, atentando na carta aberta, corou ligeiramente.
--Reconheço a letra, disse ele, posto seja mais nova do que eu... doze anos. Mas juraria que essa carta não tinha chegado ao seu destino!
--Enganava-se.
--Convenço-me porém de que, há quatro meses, quando embolsei este dinheiro...
--O meu dinheiro, quer dizer?
--Seja... Convenço-me de que o senhor ignorava o conteúdo dela?
--Ignorava-o ainda há quarenta e oito horas.
E André contou como, por acaso, ao remexer as cinzas do lar, desenterrara a chave da caixa, a qual era ao mesmo tempo a chave de tantos mistérios!
--É indubitável que existe uma Providência! disse Pedro abanando a cabeça. Tudo se descobre, mais cedo ou mais tarde! Ora vejam com que cara ficaria diante de si, se, confiando na impunidade, não fosse eu o primeiro a confessar a minha culpa, porque... enfim... eu roubei-o!
--Ai! suspirou André, não é do dinheiro que eu mais tenho lamentado a falta!
--Sim, sim, adivinho!... e é isso o que torna o meu crime imperdoável! Informei-me, e soube da ruptura do casamento, assim como da desaparição de Rosa, levada por seu pai, não se sabe para onde. Pobre rapaz!... e fui eu... eu!...
--Ora!... disse alegremente o pintor, havemos de dar com ela.
Os olhos cintilantes do provençal fixaram-se em André com inquieta surpresa.
--Com a fortuna! exclamou ele, o senhor é um filosofo às direitas!
--Porquê?
--Pois, um homem rouba-lhe uma soma avultada, destrói as suas esperanças de amor e de casamento; e o senhor, em vez de sova-lo com um cacete, conversa tranquilamente com ele!...
--A falar a verdade, meu caro senhor, disse Sauvain rindo, se o tivesse encontrado de improviso esta manhã, não responderia pelos meus gestos. Mas o passo, que acaba de dar, desarmou-me, e como concorda em que fez mal... sim... visto estar pronto a restituir...
--Restituir! interrompeu Pedro. Com mil bombas! já não nos entendemos!...
André deu um pulo, com os lábios a tremer-lhe de raiva.
--Olá! mestre Toucard, dar-se-á acaso que pretenda conservar?...
--Não pretendo nada, com mil raios!... Não olhou para mim? Ora examine o meu exterior!... É esta porventura a aparência de um capitalista? Terei ares de um feliz mortal, que lhe trouxesse no bolso noventa e dois mil francos?
Efectivamente, Pedro Toucard estava a cem léguas de possuir semelhantes ares.
Envolto em sórdidos farrapos, enlameado até ao pescoço, ter-lhe-iam oferecido dois soldos à esquina da rua. Luzia-lhe a pele através dos buracos do fato, e as botas arrebentadas vomitavam jorros de lama.
O artista sentiu um choque violento quando reparou naquela libré da miséria. Uma ideia horrível lhe descompôs as feições.
--Olá!... que é isso? disse o provençal, assustado com a palidez dele; agora olha demais para mim!... Sossegue, meu rapaz, e beba um copo de água. Feridas de dinheiro não são mortais.
--Oh! articulou o pintor angustiado, é então verdade?
--O quê?
--O que eu suponho...
--Não sei o que supõe, mancebo. O facto é que estive na alta, e depois... veio a baixa.
--Portanto está tudo perdido!
--Fundido, destruído, evaporado!
--Não resta coisa alguma?
--Restam-me... dívidas.
--E a herança de meu pai?
--Foi para casa de seiscentos diabos.
--Infame! rugiu Sauvain, agarrando Pedro pela gola da velha sobre-casaca, e sacudindo-o rudemente.
O aventureiro deixou-se sacudir. Meteu sossegadamente as mãos nas algibeiras das calças despedaçadas, e poderia mesmo jurar-se que um vago sorriso de infernal satisfação lhe assomara aos lábios.
--Vamos, mancebo!... disse ele. Não hesite: bata-me, estropie-me, mate-me. Sou um tratante, um canalha, um ladrão; nem valho a corda com que me enforcarem!...
André largou-o; repugnava-lhe maltratar um velho.
Cego pelas lágrimas, sufocado pela indignação, aniquilado pelo desespero, caiu prostrado numa cadeira e só pôde balbuciar estas palavras:
«Rosa!... Rosa!... minha pobre Rosa!...»
Pedro pareceu sinceramente comovido.
--Ah!... resmoneou ele, procurando em vão no crânio calvo um punhado de cabelos para arrancar; eu devera-o ter previsto!... O desgraçado contava com o seu dinheiro para desposar a pequena... e tu, grande bandido, velho celerado, devoraste tudo, deitaste-lhe abaixo a igrejinha!
E nisto, infligindo a si próprio as maiores injúrias, desenfiava um rosário de pragas.
Entretanto a dor de André atingia o seu paroxismo. Encostado à mesa, com o rosto esmagado entre os punhos contraídos, fazia esforços incríveis para recalcar no peito os gemidos e gritos de raiva... mas debalde.
--Ora vamos!... vamos! continuou Toucard; que não haja, sobre queda, coice! O enguiço triunfa hoje, de acordo! mas eu sou um espertalhão, bem o sabe... Dentro em pouco tirarei a desforra, e reembolsa-lo-hei então do capital e juros. Quer que lhe assine uma obrigação de cem mil francos, pagável na minha primeira veia de fortuna?
André ergueu-se bruscamente, deixando ver o rosto afogueado e banhado em pranto.
--Fora daqui, miserável! exclamou ele. Não tente a minha desesperação com as suas covardes zombarias!... Saia!
--Não estou zombando, disse o provençal; e juro-lhe pela minha honra...
--Pela sua honra!... interrompeu amargamente o pintor.
--Seja pelo que for... Enfim... juro-lhe que o meu desejo mais veemente seria vê-lo rico e satisfeito.
--E por isso me roubou o meu património, não é assim?