Nas Cinzas

Chapter 5

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O provençal saltou por cima da sebe de murta, e achou-se em face de André, que mediu com olhar inflamado.

--Sauvain!... Pois o senhor chama-se Sauvain?

--Certamente!...

--Nasceu perto de Granville?

--É exacto.

--E seu pai era marinheiro?

--Era.

--A bordo da _Ariana_, que se perdeu com a carga e tripulação... há vinte anos?

--Sim, mas porque acaso?...

--Com mil amarras! com mil bombas! com mil raios! gritou Toucard, tornando-se carmesim.

E como sufocasse, arrancou a gravata, rasgou o colete e atirou fora o chapéu.

--E sua mãe? continuou ele ofegante.

--Minha mãe...

--Não receberia ela?...

--O quê?

--Quero dizer... sua mãe... Onde está sua mãe, senhor?

--Minha mãe morreu. Conheceu-a, porventura?

--Eu! exclamou o provençal, nunca a vi.

--Entretanto...

--Não, já lho disse; nunca a vi na minha vida!

--Então teve relações com meu pai?

Toucard não respondeu. A sua agitação atingiu proporções assustadoras.

--Não! não! mil vezes não! balbuciou ele, tropeçando no chapéu sem reparar; tenho de fazer fortuna... c'os diabos! Mais tarde não digo que... mas presentemente...

Interrompeu-se, e vendo ali perto um balde com água, destinada provavelmente à rega do jardim, mergulhou dentro dele, por muitas vezes, o seu crânio calvo, que ficou vermelho e fumegante.

Depois de refrescado pela imersão, sacudiu-se como um cão molhado, e sentou-se num banco para tomar alento.

O senhor Germinal e André observavam-no com crescente estupefacção.

--Que é isso? que tem?... perguntou-lhes Pedro. Porque olham para mim assim? Que disse eu, que tanto os espante?

--Nada disse por ora, respondeu André, mas peço-lhe que me explique...

--A explicação será curta, meu rapaz. Encontrei nas minhas viagens um marinheiro chamado Sauvain... seu pai, ao que parece... Soube depois que morrera num naufrágio: eis o motivo por que o seu nome me abalou. Demais... sou propenso à apoplexia... a menor comoção faz-me subir o sangue à cabeça! Mas não façam caso... já passou.

O provençal falava com dificuldade, procurando as palavras e pensando noutra coisa. As suas feições expressivas revelavam a maior irresolução.

Apesar do banho que se aplicara, corria-lhe o suor da fronte.

André Sauvain não se contentou com tão sucinto esclarecimento.

--Mancebo, lhe disse Pedro Toucard, venha comigo a três passos daqui, quero dar-lhe duas palavras.

O pintor seguiu-o, assaz intrigado.

--Escute-me, meu caro: entrei na posse de fundos com que não contava. O senhor vai pôr casa... Se duas ou três notas de mil francos... ou mesmo quatro... Sim, se quatro, ou cinco mil francos, lhe podem ser úteis nesta ocasião, não faça cerimonia... Hei-los!

E Pedro folheava com mão trémula o maço das notas.

André corou muito, e endireitou-se quanto a sua estatura lho permitia.

--A que título me faz esse oferecimento? perguntou ele.

--A título de amigo.

--Vimos-nos apenas duas vezes!...

--A título... de antigo amigo de seu pai.

--Conhecia-o de leve, segundo disse.

--Então... a título de gratidão. Fez-me um favor, quando eu precisava... É a minha vez agora. Que diabo!...

--Agradeço-lhe a intenção, mas recuso.

--Porquê?

--Por muitos motivos, e eis o principal: Sou demasiado pobre para aceitar qualquer empréstimo, não sabendo quando poderei pagá-lo.

--Ora? que importa isso?...

--Importa-me muitíssimo!

--Com mil bombas! que esquisitices! e que demónio de casa esta, onde se recusa aceitar o que tantos outros...

Um relógio da vizinhança vibrou no espaço.

--Uma hora! exclamou Pedro, cujas ventas se dilataram, e cujo olhar faiscou. A hora da Bolsa! Vamos, Pedro Toucard! em campo, meu velho! Vais aventurar-te sobre um terreno movediço... Prova a essa súcia de imbecis que lhe és superior no artigo _inteligência_.

--Um momento, senhor, disse André; rogo-lhe que me explique...

--Coisa nenhuma, neste momento!...

--Aonde vai a correr?

Pedro apanhou do chão o chapéu, amolgado em dez partes, brandiu-o com gesto majestoso, e partiu exclamando:

--A casa do meu banqueiro!

E desapareceu.

XVI

--É fora de dúvida, disse o pintor, que este aventureiro teve relações com a minha família. Mas, porque fará mistério disso? É, na verdade, um homem surpreendente! Que impaciência, que febre de agiotagem! Veja como corre!... É um furacão!

--Sim... um furacão, murmurou Germinal, passando amigavelmente o braço pelo de Sauvain, um furacão que derrubou os nossos _castelos no ar_! Entremos em sua casa: preciso de falar-lhe. André obedeceu, cerrando os punhos de raiva.

Adivinhava o fim da conferência, que iam ter, e, já ardendo em indignação, revestia-se de uma tríplice couraça para entrar na luta.

Pela sua parte, o senhor Germinal também não se sentia em leito de rosas. Assentou-se, tossiu, esfregou as mãos, piscou os seus olhos de peixe cozido, e antes de tomar a palavra, suspirou cinco ou seis vezes, com intervalos.

Dava-lhe em cheio a luz no crânio, cor de ferrugem, e essa circunstância fez notar a André, não sem terror, que aquela caixa ossuda, estreita e deprimida, tinha bem característica a bossa da teima invencível.

O senhor Germinal começou pela narração do seu triste encontro com Onésimo Toucard; contou a vida que levara durante onze anos, as suas más tentações reprimidas, as suas esperanças, os seus receios e os seus desalentos.

Quando acabou, André disse-lhe friamente:

--Muito bem: o dinheiro foi reembolsado, a sua consciência ficou em repouso; está tudo o melhor possível. Porém devia ter a certeza de que nós, mesmo depois de casados e em posse dessa fortuna, a entregaríamos sem hesitação ao seu legítimo proprietário.

--Não tenho a menor dúvida, retrucou o senhor Germinal; sei que é um mancebo digno. Quanto melhor o conheço, mais o aprecio... Teria orgulho em chamar-lhe meu filho...

André tornou-se pálido, mas fingiu não ter ouvido aquele condicional.

--Agora, senhor, disse ele sorrindo, conversêmos um pouco sobre coisas mais importantes; voltemos ao que esta manhã se combinou...

--Que foi o que se combinou? disse o viúvo, corando.

--Que hoje mesmo se fixaria a época do meu casamento com Rosa.

O senhor Germinal levantou-se bruscamente.

--Não me entendeu, pelo que vejo?

--Peço perdão: entendi perfeitamente que lhe confiaram um depósito, e que o restituiu. Mas, que tem de comum uma acção tão simples com o facto, muito mais importante, de que dependerá o nosso futuro?

--Não há surdos piores do que os que não querem ouvir! replicou asperamente o senhor Germinal. Aquela soma garantia-me a felicidade material de minha filha...

--Não, senhor, porque bem sabia que, de um momento para o outro, a podiam reclamar. Para quando prefixa a bênção nupcial?

--Para as calendas gregas! gritou o senhor Germinal, exasperado por aquela obstinação sistemática. Como ousa o senhor pretender associar à sua a sorte de Rosa? Onde estão os seus meios de subsistência? Há-de ela viver neste cacifo? Virão os filhos, e com eles as dificuldades, os expedientes, as dívidas, os cuidados, a doença... a morte!

--Nego-o energicamente! retorquiu André, não menos furioso. Mas, embora o senhor tivesse carradas de razão, era tarde para desdizer-se. Se este consorcio lhe desagradava, para que veio, há quatro meses, procurar-me ao fundo deste cacifo, como acaba de chamar-lhe?... Porque incitou um amor, que, entregue a si mesmo, talvez houvesse sido sufocado?

--Rosa assim o exigia... Rosa amava-o...

--E pensa que deixará de amar-me por lho ordenar?

--Ignoro-o, mas não casará consigo.

--Ora, senhor!... se o casamento fosse só permitido às pessoas ricas, extinguir-se-ia o sol.

--Pois que se extinga. Não casará com minha filha; é escusado pensar mais nisso.

--Não pensar mais nisso!... Imagina que um sentimento, igual ao meu, se aniquila à vontade, como a chama de uma vela! Rosa é o sangue das minhas artérias, a seiva da minha mocidade, o paraíso da minha alma, a primavera do meu coração!... Peça-me que viva sem respirar, mas não ouse pedir-me que esqueça Rosa!

--Peço-lho, e, sendo preciso, ordeno-lho!... Nunca consentirei em vê-la miserável! A imagem de sua mãe... tenho-a sempre diante dos olhos! Não casará com minha filha!

--Homem teimoso! Quem lhe disse que, mesmo no seio da abundância e do luxo, sua mulher teria vivido? Quem lhe disse que ela não encerrava no peito o gérmen de uma doença mortal? E com que direito aquilata pelo seu passado o meu futuro? Por ventura os recursos de um amanuense, acorrentado a um trabalho estúpido, e cujo ínfimo salário nunca aumenta, embora trabalhe noite e dia, podem comparar-se aos de um artista, moço, corajoso, inteligente e forte?

--Não ponho em dúvida a sua coragem, nem o seu talento: mas presumo que, quando os resultados forem apreciáveis, já Rosa terá os cabelos brancos. Não possuirá minha filha, senhor Sauvain.

--Possui-la-hei! gritou o pintor... Juro-o!

--Não gracejemos, peço-lho!... Ouça, senhor André: vim falar-lhe, movido por verdadeira simpatia. Lamento-o e estimo-o. Dê-me a sua palavra de honra de que não tentará ver, nem falar a minha filha, ou fazer-lhe acalentar ilusões inúteis. Com essa condição...

--Nunca!

--Nesse caso, estão quebradas as nossas relações.

--É a sua terminante decisão?

--É.

--Basta. Graças a Deus há leis em França; não se coage ninguém. Rosa e eu esperaremos...

--A minha morte?

--Não, senhor; a maioridade de sua filha.

--Seja assim, disse o senhor Germinal. Mas, até então, desculpará que eu lhe feche a minha porta, e terá a bondade de renunciar à conversação de minha filha.

--Engana-se! vê-la-hei, falar-lhe-hei, ama-la-hei e casarei com ela; mesmo contra sua vontade!

--Tomarei as medidas necessárias para obstar a essas loucuras.

E o senhor Germinal, erguendo-se com um gesto ameaçador, saiu do _atelier_.

Apenas transpôs o liminar, André correu atrás dele. Arrependia-se da sua arrogância. Queria lançar-se-lhe aos pés e enternecê-lo à força de súplicas; mas, quando ia a alcançá-lo, as abas flutuantes de um enferrujado casaco abriram-se como duas asas, e o senhor Germinal, veloz como uma seta, encaixou-se em casa e trancou ruidosamente a porta. André voltou desanimado; ao desânimo seguiu-se o furor; ao furor, o desespero; depois... os projectos extremos, as resoluções insensatas, e até uns vagos desejos de lançar fogo ao edifício, precipitar-se através das ruínas fumegantes, estreitar Rosa nos braços e fugir com ela... fosse para onde fosse!...

André Sauvain mordia os dedos e andava de um para outro lado, como um tigre na jaula. Perto da noite, não podendo conter-se, trepou quatro a quatro a escada do que recusava ser seu sogro; tocou à campainha, primeiro timidamente, depois com mais força.

Nenhuma resposta.

Tocou outra vez, bateu, suplicou, disse quem era, tornou a tocar, atroou o patamar com as suas imprecações. Mas ninguém apareceu, a não ser um vizinho desagradável, que resmungou vagamente as palavras: comissario de policia.

Depois disto, André desceu ao _atelier_, atirou consigo para cima do canapé, estorcendo-se e invocando Rosa.

Após muitas horas deste exercício incoerente, um colosso ficaria prostrado. Havia muito que era noite. O pintor adormeceu num sono febril, assaltado de sonhos extravagantes, e interrompido de dez em dez minutos. Vinte vezes acordou em sobressalto para ver se o dia não surgira ainda.

Pela madrugada julgou ouvir ao longe a voz da sua noiva, que, com queixumes angustiosos, o chamava por entre soluços. Correu à porta, e, com os cabelos eriçados e o ouvido à escuta, olhou para fora.

Já nascera o sol; ténue claridade se coava a custo através das nuvens escuras; a chuva caía vertical e em grossas gotas, marulhando no pátio pedregoso e nos canteiros do jardim, que exalavam um odor terroso. Entretanto a casa estava inteiramente tranquila, e as janelas de Rosa, hermeticamente fechadas, não deixavam filtrar o mínimo raio de luz.

O frio da manhã atenuou a sobre-excitação febril de André; tornou a deitar-se, vestido como estava, dizendo consigo... que ninguém já sequestra raparigas; que de certo Rosa tomaria ar de vez em quando; que ele aproveitaria essas ocasiões, mesmo nas barbas do senhor Germinal, e finalmente que era tolo em preocupar-se assim. Com estas reflexões, adormeceu sossegadamente, e tão deveras, que a senhora Poussignol, na sua habitual visita matutina, não logrou despertá-lo inteiramente.

--E esta!

Tal foi a exclamação, que retumbou aos ouvidos de Sauvain. Semi-abriu os olhos e contemplou a porteira, que estava de pé, em frente dele, com o bigode eriçado, com os punhos fincados nas ancas, e firmada nos seus sapatos de ourelo, como um pato nos seus pés espalmados.

--Então, disse ela, não o tinha eu prevenido!...

--De quê?

--De que fazia muito mal em frequentar aquela gente...

--Que gente?

--A família Germinal.

André sentou-se de súbito no canapé.

--Faça favor de falar mais respeitosamente dos meus vizinhos.

--Não lhes falto ao respeito, mas isso não impede que eu volte à minha primeira opinião, de que aquele homem é um antigo criminoso.

--Ainda a mesma tolice!

--Tolice!... A prova é que fugiu, e a polícia vai-lhe no encalço.

--Do senhor Germinal?... Você endoideceu!

--Ah, endoideci!... Pois bem! quando souber o que aconteceu...

--O que foi? Vamos, explique-se! bradou André com impaciência.

--Esta manha, às quatro horas, ainda não era dia claro, bateram nos vidros do meu quarto. Quem é? perguntei eu.--Sou eu, Germinal, responderam. Era já caso para admirar!... pois não era? Um homem que, durante doze anos, não deitou o nariz fora da porta, e que hoje, sem mais nem menos, vai passear antes de luzir o buraco!... Levantei-me, acendi a candeia, e que vejo?... O senhor Germinal, com a mala debaixo de um braço e a filha pelo outro, chorando, a pobrezita, que enternecia um rochedo! Que deseja? perguntei eu. Em resposta, paga-me o mês por inteiro, pespega-me dez francos na mão (primeiro dinheiro dele, a que vejo a cor--sempre é bom saber-se!) participa-me que vai viajar, e não sabe quando voltará; mas que me não inquiete eu pelos móveis, porque brevemente os mandará buscar. Então, a menina Rosa, que continuava a chorar, tentou dizer-me duas palavras em voz baixa, porém o pai levou-a de repelão. Puxei a corda e... boas noites!

André parecia uma estátua.

--Partiu!... partiu!... Rosa partiu!... murmurou ele afinal; é impossível!

--A prova é que tenho aqui a chave da casa.

O pintor arrancou a chave das mãos da senhora Poussignol, que ficou pasmada. Dez segundos depois, penetrava em casa do seu velho vizinho.

O quarto do senhor Germinal estava limpo e em ordem, como sempre; a cama não fora desfeita.

André, lívido, gelado, empurrou uma porta, a do quarto de Rosa. Entrou nele com passo de fantasma; mas, quando percorreu com a vista aquele mimoso retiro abandonado, quando aspirou o suave perfume de violetas, que lhe recordava a ausente, encostou-se à parede, inclinou a cabeça sobre o peito e perdeu os sentidos.

XVII

Durante quinze dias, André Sauvain vagueou pelas ruas de Paris, como um cão que perdera seu dono.

Quem visse aquele gigantesco moço, com a fisionomia espantada, os cabelos flutuantes, o bigode arrepiado, e o vestuário em desalinho, correr como um doido atrás de qualquer transeunte, mirá-lo em face, e logo voltar-lhe as costas para correr atrás de outro, teria acusado mentalmente de negligencia os guardas e o porteiro de Bicêtre.

Naquele lapso de tempo, um desconhecido visitou, por duas vezes no mesmo dia, a casa do senhor Germinal. Da primeira visita, examinou escrupulosamente os móveis; da segunda, levou-os, depois de exibir um acto de venda perfeitamente em regra. Pode presumir-se como o pintor se agarrou, com ambas as mãos a essa suposta tábua de salvação! Interrogou, suplicou, afagou, ameaçou, e maçou de mil maneiras o infeliz comprador para extorquir-lhe a nova residência do fugitivo, ou ao menos algum indício, que o guiasse na busca de Rosa.

Todavia, a vítima não lhe fornecera o menor esclarecimento. Era um ebanista do _faubourg_ Saint-Antoine; comprara em globo a mobília do senhor Germinal, que lhe anunciou estar em vésperas de empreender uma longa viagem.

Podiam cortar o ebanista em mil pedaços, ou oferecer-lhe os tesouros de Golconda, que ele não saberia dizer mais nada.

Como o senhor Germinal pagara religiosamente o aluguer da casa, ninguém opôs dificuldades à remoção dos moveis. André seguiu-os com os olhos até à esquina da rua; levavam-lhe a última esperança.

Depois recomeçou as suas furibundas correrias. O comer, o beber e o dormir, foram tratados por ele como importunos credores, que se deixam gritar e a quem se não paga. Mas a natureza tem os seus limites; este estado de exaltação originou uma febre cerebral, e o pobre André desceu rapidamente o declive que conduz ao cemitério.

Felizmente, sua mãe moldara-o em bronze: a doença apenas o apalpou de leve, e, não obstante a senhora Poussignol ter chamado dois médicos, o pintor escapou. O seu físico restabeleceu-se à custa do moral: André, sempre profundamente melancólico, atirou-se ao trabalho como quem se atira a um poço.

Este género de suicídio não era dos menos eficazes: André prosseguia nele com uma pertinácia de mau agouro, e qualquer outro convalescente, menos bem construído do que ele, não duraria três semanas com semelhante afã.

Entretanto, onde ele esperava encontrar a morte, encontrou um paliativo. A fadiga do corpo adormentou-lhe, pouco a pouco, a dor do espírito. E a arte ganhou com isso: a pintura de André ressentiu-se das tribulações da sua vida. Desenvolveu nos seus quadros um vigor de colorido, uma fúria de concepção, um arrojo de pensamentos, uma originalidade de meios, que não teriam de certo brotado das plácidas inspirações de um espírito tranquilo. O homem feliz já não existia: revelou-se o artista.

Enfim, o acaso também entrou em cena. Como André, a tudo indiferente, não corria atrás do dinheiro nem da fama, aconteceu naturalmente que a fama e o dinheiro correram atrás dele.

Surgiram no horizonte sinais precursores de gloria. O mercador de quadros, que até ali o explorara sem vergonha, e lhe comprara muitas telas por preços fabulosamente baixos, aumentou-os... oh, prodígio!... e aumentou-os de seu moto próprio.

Fez mais ainda: concordou, sem hesitar, em que o nome de Sauvain ecoava já na opinião de alguns ricos amadores, e que, se André quisesse, o oiro, de ora em diante, seria para ele uma realidade.

O pintor encolheu os ombros, pagou as dívidas que contraíra durante a doença, e voltou à sua lida obstinada.

O verão acabou lentamente. A julgar pelo número de encomendas, os créditos de André não diminuíam; apenas concluído um dos seus quadros, era logo vendido. O seu _Faust au sabbat_ tornou-se propriedade de um capitalista misterioso, que o pagou muito caro e desejou conservar o anónimo.

Noutro tempo, aquela veia de bom êxito teria enlevado Sauvain; agora era-lhe mais um motivo de ironia e de amargura. Pensava em Rosa perdida para ele, em Rosa talvez infiel, em Rosa que o esquecia, pois nem sequer lhe escrevera, e repetia a si mesmo: «De que me serve isto?»

Contudo, a abastança substituíra a pobreza; nada impedia André de trocar o seu escuro cubículo da rua dos Mártires por um _atelier_ mais cómodo e decente; todavia não o quis deixar. Invisíveis cadeias o ligavam ali. Alugara os dois quartos, habitados anteriormente pela sua Rosa e pelo pai. Podia acaso afastar-se daquela janela, onde ela lhe aparecera na flor da sua radiante beleza? Podia afastar-se daquele jardim, onde ela lhe fizera a primeira confissão do seu amor?... daquele banco, onde se sentava a par dele?... daquela casa, onde lhe decorreram horas tão venturosas?...

Ficou, e continuou a torturar a alma na saudade, como torturava o corpo na fadiga.

Porém, quando veio o outono, quando as árvores, que vira frondosas e virentes, amareleceram e deixaram cair as folhas... então abandonou-o a coragem: à sua fictícia actividade seguiu-se uma indolência invencível; como o trabalho o não matara, amaldiçoou o trabalho e aborreceu-o; pálido, enervado, emagrecido, com os olhos brilhantes de febre, sem forças, nem energia, passou os seus dias, inúteis, ruminando a própria dor.

Como as folhas caíam das árvores, uma a uma, assim se desprendiam as suas quimeras. Crenças de gloria e crenças de amor... todas iam pelo mesmo caminho. Da sua mocidade florescente, restava apenas o esqueleto.

Era a estação cismadora, em que a terra e o sol confundem num beijo os seus últimos adeuses, em que o céu se vela num crepe cor de opala, bruma transparente, que o voo das andorinhas rasga ao partirem. Era a estação temerosa, em que o enfermo melancólico pressente o seu próximo fim, e busca um seio amigo, onde reclinar a fronte.

E André, pressentindo também o inverno para a sua alma, buscava ao redor de si um conforto, uma dedicação, uma simpatia... Mas... debalde: nada encontrava... nem um ente, a quem amar! No seu passado, no presente ou no futuro, nenhuma ligação, nenhuma alegria, nenhuma esperança! Em tudo o deserto, em tudo o vácuo, em tudo o desalento!...

Então, prostrado de corpo e desfalecido de espírito, com o peito entumecido de lágrimas, exalou instintivamente o queixume habitual da criança em aflição. Bem como a pérola, lançada nas ondas, volta à superfície, assim uma palavra de há muito esquecida, subindo do fundo da sua fraqueza, do abismo do seu isolamento, lhe vibrou nos lábios: «Minha mãe!»

Oh, maternidade! afeição puríssima e inexcedível, consolação sobre-humana, único amor desinteressado, único apoio... que resiste quando todos os outros se nos despedaçaram nas mãos, e ainda quando os mais indeléveis sentimentos se esvaíram em fumo! Maternidade! santa encarnação do sacrifício! O homem só te aprecia quando te perde!

Oh! se sua mãe vivesse!... Como iria refugiar-se no seu seio! Como ela teria derramado naquele coração o bálsamo da sua ternura! Como o embalaria com aqueles misteriosos acentos, que as mães tiram do vocabulário dos anjos!...

Ai dele! sua mãe era morta!

Àquela recordação pura, tanto tempo abandonada por amor de uma ingrata, André corou de remorsos.

Lembrou-se do tempo, em que o seu máximo desejo fora cobrir com uma campa as cinzas da viúva, e o seu mais acariciado projecto restaurar as ruínas da casinha onde vivera com ela.

O oiro necessário possuía-o agora.

Que significava, pois, o ficar ali covardemente suspirando? A morta esperava.

--Coragem! exclamou André. A caminho!...

E, numa linda manhã de Setembro, partiu com a mala aos ombros, levando sob a blusa de linho os seus modestos haveres, e sentindo amarga satisfação em pensar que ia morrer no tugúrio em que nascera. Para cumprir escrupulosamente o seu voto, empreendeu a viagem a pé, como no tempo em que era tão alegre, quanto pobre. Nesse tempo, sua mãe não tinha rival no coração do pintor; a sua imagem adorada sorria-lhe de entre as árvores do caminho. Agora não acontecia o mesmo: a seu pesar, uma outra imagem substituía a primeira. Queria chorar pela santa guarda da sua infância, e chorava pela fada da sua juventude, Rosa! Debalde concentrava o pensamento no termo da sua peregrinação; a cada passo voltava insensivelmente a cabeça para trás. Em vão evocava o semblante frio e macilento da morta; a memoria só lhe reproduzia um rosto animado, com olhos negros e cabelos louros...

Assim caminhou André por muitos dias, descansando nas estalagens dos almocreves, bebendo na palma da mão, dormindo no meio dos campos matizados de amarelo e púrpura.

Desses esplendores do outono, nada notou... ele, o artista, o entusiasta! Nada o comoveu; nem o horizonte, nem a verdura, nem os efeitos da luz, nem a poesia campestre que a terra emanava por todos os seus poros, no intervalo abençoado, que vai da ceifa à vindima. Somente, quando por acaso descobria dois namorados, ocultos entre as ervas, uma dor atroz lhe apertava a garganta, e fugia blasfemando.