Nas Cinzas

Chapter 4

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A criança era débil; a sua vida parecia depender de um sopro. O senhor Germinal procurou e descobriu uma camponesa de Viroflay, moça e robusta, que levou a pequerrucha banhada das lágrimas de seu pai, e prometeu restituir-lha, dentro em pouco, esperta, robusta e traquinas. E com efeito, cumpriu tão bem a sua palavra, que o senhor Germinal, achando-a de dia para dia mais rechonchuda e chilreadora, resolveu deixá-la mais tempo em casa da ama, e mesmo vê-la só de longe em longe, porque a despesa das viagens abria sensível brecha no seu modesto orçamento.

Eis o motivo porque, no dia a que nos referimos, o senhor Germinal se sentia ligeiro como um pássaro. Entreabria-lhe os lábios, cor de ferrugem, um franco sorriso (sorria ainda nessa época...) e o ruído de raspador, produzido pelo esfregar das suas mãos, confundia-se com os silvos da locomotiva. O vento incomodava os seus companheiros de viagem; ele porém acolhia-o com delicias, pensando que aquela mesma brisa teria talvez acariciado os faces de sua filha. Bem que o comboio deslizasse veloz sobre os seus cordões de ferro, acusava-o de lentidão, e vinte vezes olhou para fora, desconfiado de que o horizonte, por pirraça, se afastava dele.

Entretanto ia depressa! e tão depressa, que nenhum dos viajantes se recordava de semelhante celeridade.

As árvores, os prados, as sebes, as colinas, os postes que ladeavam a estrada, fugiam arrebatados num turbilhão infernal... Apareciam e desapareciam antes que se pudesse distinguir-lhes as formas... E a rapidez aumentava, de minuto para minuto... Pouco a pouco, os objectos exteriores confundiram os seus perfis indecisos... era uma confusão extraordinária... um vertiginoso turbilhão... uma miragem louca, análoga à que reflectiria uma onda violentamente agitada...

Dentro do comboio, os passageiros consultavam-se com terror; entrechocavam-se os dentes uns nos outros, os seios arfavam, as mãos uniam-se convulsivas e alagadas de frio suor.

E a velocidade aumentava... aumentava sempre, de segundo para segundo...

Houve um momento solene, um momento longo como um século, um momento durante o qual cada um orou do intimo de alma ao que perscruta as consciências, e pensou nos entes queridos que o prendiam à vida... Depois... um choque espantoso... e um clamor, ainda mais espantoso!... Eram 8 de maio de 1842.

Como escapou o senhor Germinal àquele desastre? Ele mesmo nunca pôde recordar-se.

À mingua da rasto, que o abandonara, o instinto, esse guia cego do animal, conduziu-o intacto a salvamento. Quando deu acordo de si, corria através dos campos, espavorido, ofegante, meio-louco; mas apenas recuperou o espírito, o seu primeiro acto foi voltar atrás e auxiliar os socorros, que de todos os lados acorriam.

Passou-se então um facto, que deixou na sua vida indelével impressão.

Um homem, um moribundo, que ele debalde tentava salvar, desprendeu-se-lhe dos braços, e entregou-lhe uma carteira, murmurando estas palavras:

--Guarde: é um depósito... que lhe confio... Entregue-o pela sua própria mão a... Eu chamo-me...

Fez um esforço supremo para concluir, mas não pôde; caiu morto no _wagon_, que começava a ser invadido pelo fogo.

XIII

No dia seguinte, regressou o senhor Germinal a Paris. Inútil é acrescentar que foi de carruagem.

Quando se reinstalou na sua habitação, a senhora Possignol recusava-se a reconhecê-lo; em vinte e quatro horas envelhecera vinte e quatro anos. O seu semblante parecia uma planície devastada por um ciclone; para o corpo fez à involuntária aquisição de um tremor nervoso; e para o espírito, a de dois cuidados graves: o depósito, que lhe fora confiado; e sua filha, que trouxera consigo, não querendo estar por mais tempo separado dela, depois de ter visto a morte tão de perto.

A pequena Rosa dormia a sono solto. Ele improvisou-lhe um leito, correu as cortinas, aferrolhou-se solidamente, e foi sentar-se imóvel ante um objecto, que exumara das profundezas do seu sobretudo.

Era uma carteira assaz volumosa, denegrida pelo uso, e tendo gravado no couro, em letras outrora douradas, o nome de Onésimo Toucard.

Continha noventa e dois mil francos.

Perante aquele maço de papeis, que representavam mais de sessenta anos do seu ordenado, o digno burocrata por pouco não perdeu os sentidos; eriçaram-se-lhe os raros cabelos, ergueu-se, e arrastou um móvel, com o qual barricou a porta.

Depois, prosseguiu nas suas investigações com ardor febril.

Não levaram essas muito tempo: a carteira não continha papel algum, que pudesse servir de esclarecimento; as folhas, pela maior parte em branco, só forneceram ao senhor Germinal algumas notas de compras e várias despesas, escritas com má caligrafia, umas a lápis, outras a tinta.

O viúvo ficou imerso em profunda perplexidade; reflectiu tanto tempo que os objectos se lhe baralharam diante dos olhos, multiplicando-se confusamente; a final, exausto por tão diversas comoções, arrecadou a carteira no fundo de uma gaveta, cuja chave meteu debaixo do travesseiro, e deitou-se.

Se o sono não chegou, veio em seu lugar o pesadelo; pelas fendas da janela, pelo buraco da fechadura, ou pela chaminé, insinuavam-se ladrões, que esquadrinhavam na gaveta com deplorável afinco.

O senhor Germinal, inundado de suores frios, saltou fora da cama, e em pé, descalço, imóvel no seu traje alvejante, passou o resto da noite a perguntar a si próprio onde poderia ocultar melhor o seu importuno tesouro.

Ao romper do dia, surgiu-lhe uma ideia. Desarrumou a cama, ergueu uma tábua do soalho, e por debaixo dela escavou um esconderijo, assaz engenhoso.

Feito isto, vestiu-se e foi de corrida dar a sua demissão da secretaria, e fazer valer os seus direitos à aposentação.

À secretaria!... Bem lhe importava agora a secretaria! Só cuidava em desencantar a família Toucard, e desembaraçar-se de uma aterradora responsabilidade, em proveito dela.

Outro qualquer julgaria ter feito muito, indo depositar a soma no mais próximo comissariado de polícia, mas o senhor Germinal não era do feitio de outro qualquer; na sua escrupulosa delicadeza, considerava-se como ligado ao morto por um compromisso; tinha sempre presente na memoria aquele rosto contraído, sentia aquela mão fria apertando a sua, ouvia aquela voz agonizante a dizer-lhe:

--Entregue-o pela sua própria mão a...

Mas... a quem? A alma, fugindo, levara a chave do enigma. Fosse a quem fosse: Onésimo dissera «Pela sua própria mão»... e isso era o bastante para o senhor Germinal não se arredar um passo da vontade expressa do moribundo.

Pôs mãos à obra sem tardança. Durante muitos meses, viram-no sair quotidianamente ao romper de alva, para só voltar depois de noite, estafado, moído e de mau humor. Interrogou o _Almanaque do comercio_, gastou dez pares de botas nas ruas de Paris, fatigou os ecos da prefeitura de polícia, por pouco não pegou de estaca em cada uma das legações estrangeiras, percorreu os arrabaldes, esquadrinhou Versailles e seus subúrbios, revolveu céu e terra, e contudo não descobriu em parte alguma vestígios da passagem ou da morada de Onésimo Toucard.

Ora, enquanto as suas pernas funcionavam ao longe, as notas de banco aboloreciam no buraco, à mercê dos ladrões ou do incêndio; e a pequerrucha, confiada a uma ou outra vizinha obsequiosa, desaprendia de sorrir à máscara ferrugenta de seu pai. Um tal estado de coisas não podia prolongar-se, e o senhor Germinal desistiu enfim das suas correrias infrutíferas; quebrou o mealheiro, no qual, desde que enviuvara, ia juntando, soldo por soldo, os elementos de um dote para sua filha; e com esse dinheiro, deduzido do seu passadio, fez publicar um anuncio nos jornais... depois dois... depois três... depois vinte...

À medida que o tempo decorria, o senhor Germinal tornava-se mais frenético, mais nervoso, mais pusilânime. Os noventa e dois mil francos invadiram-lhe o cérebro, submergindo todos os seus pensamentos. Tiraram-lhe o sono e o apetite absurdos terrores; paralisaram-se-lhe as faculdades morais a ponto de não ousar mais afastar-se de casa, e dispôs as coisas de modo que nada interrompesse o seu cativeiro voluntário. Primeiramente, matriculou Rosa em um colégio próximo, com a condição expressa de a virem buscar todas as manhãs, e trazê-la de tarde. Depois, contratou com uma agência de anúncios para que, até nova ordem, o seu reclame fosse publicado duas vezes por mês. E feito isto, aferrolhou-se dentro de casa e entrou de sentinela.

Ninguém o rendeu do seu posto; e aí adquiriu, pouco a pouco, uma doença singular. Ou fosse porque aquela perpétua expectativa, sempre alerta e sempre frustrada, tivesse enfraquecido as suas faculdades mentais, ou porque o contacto incessante do dinheiro desenvolvesse nele predisposições latentes, começou a manifestar sintomas de avareza. Achou-se muitas vezes, sem saber como, a mergulhar as mãos, trémulas de voluptuosidade, no maço das noventa e duas notas de banco, a amarrotá-las, rindo de prazer ao escutar deliciosamente o seu macio _fru-fru_... E então, envergonhado de si mesmo, afastava-se de súbito, fazendo votos sinceros pela aparição de um Toucard qualquer.

Sete anos se passaram assim. Rosa tinha doze, e o colégio já a enfastiava. Logo que se instalou definitivamente no domicílio paterno, a sua fisionomia, fresca e louçã, iluminou-se como uma aurora boreal...

Foi uma felicidade para o pobre homem; algum tempo mais de solidão, e a loucura não tardaria. Contudo, a influência daquela criança adorada não tranquilizara o senhor Germinal; apenas imprimiu outra direcção às suas inquietações. Rosa prometia ser extremamente bela, e, de todas as promessas que as mulheres fazem, é essa a única que geralmente costumam cumprir. O viúvo admirava nela as feições queridas da sua defunta; tinha a mesma graça, a mesma afectuosa alegria, a mesma expressão no olhar, mas também a mesma débil constituição. O pobre pai suspirava, vendo-a estragar, em grosseiras ocupações, as suas mãos pequeninas e brancas; empalidecia, observando que o menor trabalho a fatigava.

À força de temer para ela a miséria, acostumou-se gradualmente a desejar-lhe o impossível... isto é, _dinheiro_. Os seus vagos, instintos de cobiça pelo que diariamente remexia, aumentaram de consistência desde que tiveram um fim nobre e elevado. Chegou um momento em que, contemplando a carteira de Onésimo Toucard, o senhor Germinal dissera consigo:

--Se o não reclamassem!...

Esta ideia, uma vez encaixada no cérebro do senhor Germinal, alastrou-se como uma nódoa de azeite. Tudo poderia obter para Rosa com noventa e dois mil francos: ar, sol, espaço, prazeres e saúde... tudo simultaneamente lhe passou pela imaginação fascinada. Em vão se desculpava para com a sua consciência, murmurando:

--É uma simples hipótese!... A hipótese era já uma esperança, que fizera mudar de causa a sua impaciência e agitação; tanto estremecera de júbilo, quanto estremecia agora de receio, à vista de um estranho; cessara de publicar anúncios, e cada dia, que passava, era riscado no almanaque, como um perigo de menos a evitar.

Três anos decorreram ainda, e foram terríveis! A pensão do senhor Germinal, até então suficiente para um velho e uma criança, não o era já para duas pessoas; as suas economias tinham desaparecido na educação de Rosa e nos gastos da publicidade. Mais de uma vez, deitado na sua enxerga, a braços com a febre ou com a fome, sentindo através do tabique sua filha a chorar, tivera horripilantes tentações, relativas a esse dinheiro, que dormia inútil ao alcance da sua mão. Contudo não tirou dele a mínima parcela, nem sequer trocou uma nota.

Decorridos dez anos, aquele homem probo, escrupuloso, austero até ao superlativo, chegou, de concessão em concessão, a formar o seguinte raciocínio:

«Fiz tudo quanto era humanamente possível para descobrir os herdeiros de Onésimo: o meu dever está cumprido. Restituir esta soma ao estado, que não carece dela, seria um absurdo. Acaso não quereria a Providencia compensar-me dos meus sofrimentos, proporcionando-me os meios de me utilizar destes valores? Portanto, sou livre de dispor deles.»

Conspirava consigo mesmo para fazer uma surpresa a sua filha: seria uma casinha branca, no campo, um retiro florente, onde Rosa gozasse enfim dos ócios e distracções, de que até então fora privada a sua mocidade. Mas, logo que pegou nas notas com a intenção formal de se apossar delas, empalideceu e deixou-as cair no fundo do esconderijo. Parecia-lhe que ia cometer um roubo.

«Não é de urgência, pensou o velho. Rosa tem apenas quinze anos... É uma criança nobre e corajosa, que soube criar-nos recursos e trouxe um pouco de bem-estar à nossa pobre casa. A verdade é que não nos falta o pão! Esperemos mais dois anos... Doze anos é um prazo razoável...»

Todavia, é provável que o fosse adiando, de ano para ano, detido sempre pelos mesmos escrúpulos, se Rosa lhe não houvesse confessado o seu amor por André Sauvain.

Aquela noticia afligiu o senhor Germinal, mas acabou com as suas hesitações. Convenceu-se de que existia uma séria paixão, de parte a parte; estudou o pintor, afeiçoou-se-lhe, e, meio desesperado, meio satisfeito, resolveu conceder-lhe a mão de Rosa, com os noventa e dois mil francos, no dia em que expirasse o décimo segundo ano do depósito.

Foi desse modo que, entre perpetuas angustias, com a consciência oprimida e o espírito torturado, o senhor Germinal dotou e chamou noivos aos dois jovens.

Vimos já como surgira nesse momento Pedro Toucard, qual outro Desmancha-prazeres.

XIV

Ao centro do quarto, que escondera um tesouro sob o seu pavimento, estavam sentados Pedro Toucard e o senhor Germinal, um em frente do outro, na atitude de duas esfinges que tentassem adivinhar-se.

Ambos estavam pálidos, comovidos e agitados.

Os olhos do provençal luziam como carbúnculos; torcia a barba a ponto de quase lhe arrancar os cabelos.

--Como íamos dizendo, começou ele, os parentes ou herdeiros de Onésimo Toucard foram rogados, com instância, para, a bem de seus interesses, se dirigirem ao senhor... O que, segundo creio, significa que em sua mão existem alguns fundos, os quais devem pertencer àqueles, não é assim?»

O senhor Germinal hesitou. Pensava na sua querida Rosa, na felicidade que lhe prometera e que ia roubar-lhe. Verdade era que podia ainda negar o depósito, e desembaraçar-se de Toucard, mentindo; mas... não se é honrado impunemente!

--Sim, senhor, respondeu com voz sumida.

Pedro Toucard reteve um grito de alegria. Respirou estrepitosamente e aproximou a cadeira.

--Queira continuar, disse ele; sou todo ouvidos.

--É ao senhor que compete falar, replicou o pai de Rosa, analisando tacitamente os andrajos de Pedro, que lhe inspiravam pouca confiança.

--Em que grau era parente de Onésimo Toucard?

Uma vermelhidão, cor de tijolo, invadiu as faces crestadas do provençal; abaixou os olhos: dir-se-ia que se travava nele uma luta interior. Contudo, após alguns segundos de reflexão, recobrou o seu habitual desembaraço e respondeu:

--Em grau muito próximo; sou seu irmão, e o único representante da família, hoje extinta.

--Então... porque não deu sinal de existência durante doze anos?

--A razão é simples. Há doze anos que vagueio do outro lado dos mares, e apenas quatro meses que habito em Paris, aonde nunca tinha vindo; enfim, ignorava a morte do meu pobre Onésimo, e só esta manhã a soube.

--De que modo?

--Por um dos seus anúncios.

--Há cinco anos que os não publico!...

--É possível que o pedaço de jornal, em que o encontrei, datasse dessa época... Mas não percamos tempo com bagatelas. A quanto monta a herança?

--Não calcula o seu valor? perguntou o senhor Germinal.

--Aproximadamente... talvez. Meu irmão era sócio da minha casa comercial; em 30 de Abril de 1842, liquidámos, partilhando os lucros, que se elevavam a... cerca de duzentos mil francos. Se Onésimo morreu em 8 de maio, devia ter em caixa de oitenta a noventa mil libras...

--Foi em Paris que se efectuou a partilha?

--Não, em Liverpool.

--Nesse caso, quando seu irmão faleceu estava em França, havia quatro ou cinco dias apenas?

--Um ou dois, se tanto.

--E o senhor?

--Eu, a 8 de Maio, embarcava em Liverpool e fazia-me de vela para Calcutá, sem pressentir que nesse mesmo dia Onésimo esticava a canela em Versailles.

--Como sabe que foi em Versailles que ele morreu?

--Presumo-o; ele tinha tenção de lá fixar a sua residência...

O senhor Germinal ergueu-se? passeando no quarto com agitação.

--Senhor, disse ele, todas as suas respostas combinam com os documentos que possuo, mas desculpar-me-á se exijo provas mais palpáveis da sua identidade...

--Ora essa! disse o provençal; é muito justo. Felizmente trago sempre comigo os meus papeis, visto não ter domicilio certo, nem fechadura segura...

E dizendo isto, a mão do aventureiro mergulhou no andrajoso casaco e reapareceu à superfície, carregada com uma carteira grande e sebenta.

Logo que para ela lançou os olhos, o senhor Germinal ficou inteiramente convencido. Aquela carteira era irmã gémea de outra, que por tanto tempo namorara! o mesmo feitio, as mesmas dimensões, e os mesmos caracteres, outrora dourados, indicando o nome do seu proprietário: Pedro Toucard.

--Aqui tem, em primeiro lugar, a minha certidão de baptismo, disse o provençal; eis aqui, também, diferentes passaportes; e enfim, duas cartas de Onésimo... Conhece-lhe a letra?

--Conheço, respondeu o senhor Germinal, examinando as duas missivas.

Eram curtas; tratavam unicamente de negócios e tinham a assinatura de Onésimo Toucard. Ambas as cartas começavam por estas palavras: «Meu querido irmão...»

O pai de Rosa abriu uma gaveta, tirou de dentro a carteira do morto, e comparou a letra dos apontamentos com a das cartas. Não podia conservar a sombra de uma dúvida.

--Senhor, disse ele ao provençal, cujos olhares impacientes revistavam todo o quarto, como procurando descobrir onde se escondia a herança, reconheço-o por irmão e herdeiro de Onésimo Toucard. Só me resta...

--Entregar-me a herança, interrompeu Pedro, ofegante. Desencante-a pois... meu bravo!

--Permita-me que, primeiro, lhe conte de que morte desgraçada seu irmão pereceu.

Ora!... ora!... ora!... é inútil. Não percamos tempo precioso!

--Entretanto...

--Que morresse de bexigas, ou tísico, pouco importa. O positivo é que morreu; agora vamos às contas...

--Mas, disse Germinal admirado, preciso de fazer-lhe saber como, e porquê, ele me confiou as suas últimas vontades.

--Pois sim, diga lá! Mas seja conciso, com mil bombardas!

O senhor Germinal foi tão conciso, quanto parecia desejá-lo o seu interlocutor.

--Pobre Onésimo! disse Pedro. Acabou mal; lamento-o, mas... era um grande traste!

Porém, notando o espanto e estranheza, que produzira no velho uma oração fúnebre tão pouco fraternal, apressou-se a acrescentar:

--Que quer! Nas famílias numerosas, é raro deixar de haver... há sempre algum tratante... Mas tratemos agora...

--Agora, disse o velho suspirando, vou entregar-lhe os valores do defunto.

E, proferindo estas palavras, tirou do bolso as notas do banco e depô-las sobre a mesa, uma por uma.

A cada macete de dez mil francos, o rosto de Pedro coloria-se um pouco mais.

--Noventa e dois mil francos! exclamou ele afinal, ébrio de alegria. Viva a França! e vamos à Bolsa! Com a breca! farão bem em ter cuidado comigo, lá na Bolsa!... Se, daqui a seis meses, não possuir dois milhões, consinto em que me enforquem!

O senhor Germinal ficou impassível e pensativo ante aquela exuberância de júbilo. Para ele estava consumado o sacrifício...

Pedro bateu-lhe no ombro.

--Não lhe farei a injuria, disse ele maliciosamente, de oferecer-lhe uma recompensa...

O senhor Germinal abanou a cabeça.

--Tanto mais, continuou o manhoso velho, que os interesses deste capital devem ter produzido uma continha menos má...

--Os interesses!... observou o pai de Rosa; que quer dizer com isso? Estes valores são os próprios que recebi em depósito; não saíram de minha casa!

--Farsista! Então não os empregou em acções, em rendas, em obrigações, em terras, ou em inscrições sobre hipoteca?... em suma, não os fez render de alguma forma?

--Não, senhor.

--E guardou-os doze anos, assim... num buraco?

--Certamente!...

--Ignorava então, meu camarada, que um capital se duplica ao fim de catorze anos?

--Não o ignorava. Mas acaso tinha eu o direito de dispor do dinheiro de outrem?

--Maganão!... disse Pedro, sorrindo com ar incrédulo.

--Senhor! exclamou Germinal, rubro de indignação, esquece que, se acaso eu fosse um tratante, nada me impedia de apropriar-me da soma toda.

--Isso é verdade... respondeu Toucard.

E, olhando em torno de si, acrescentou:

--E com efeito, este quarto não é dos mais luxuosos... Decididamente, a virtude é uma bela coisa!

E, enrolando as notas com evidente voluptuosidade, continuou:

--Visto isso, considero-me seu devedor, e quero pagar...

O senhor Germinal desdobrou um papel e apresentou-o a Pedro.

--O que é? perguntou este último.

--É a conta circunstanciada do que desembolsei: despesas de anúncios, aluguer de carruagens, etc. Total: mil quarenta e dois francos e cinquenta cêntimos.

--Com mil amarras!... Ora vá passear, mais as suas contas de boticário! exclamou Pedro; atirando fora o papel. Toma-me por algum sovina?... Aqui tem o maço, tire o que quiser.

O senhor Germinal endireitou-se com altivez.

--Não aceitarei um soldo, sequer, a mais do que se me deve! disse ele.

Pedro Toucard insistiu vivamente. O senhor Germinal resistiu com firmeza. Cansado de lutar, o provençal cedeu, porque estava ardendo por ver-se dali para fora, e esboçar nova especulação. Reembolsou-o dos mil quarenta e dois francos e meio, e tomando nas suas as mãos do velho, disse-lhe:

--Meu bom amigo, eu sou espertalhão, e conhecedor de fisionomias. Gosto de ler na sua, posto não seja das mais belas... O senhor é teimoso como um burro, mas é o homem mais honrado que tenho conhecido. Isto não ficará assim, palavra de Pedro! Havemos de tornar a ver-nos! Adeus.

Recitado este discurso, enterrou com um murro o chapéu na cabeça, enfiou as notas nos bolsos das suas calças esfarrapadas, e, radiante, com os olhos a cintilar, e a boca entreaberta por um franco sorriso, desceu a escada cantarolando.

O senhor Germinal seguiu-o, um pouco pálido ainda, mas desta vez tranquilo... e quase alegre também!

Havia exactamente doze anos, que o desastre se dera.

XV

À ténue sombra do microscópico jardim, através das moitas de liláses, distinguiam-se dois rostos juvenis, que não tinham vontade de rir.

Rosa e André, conchegavam-se um ao outro, como duas aves ao aproximar da tempestade. Lendo o anúncio, tinham quase atinado com a verdade, e as últimas palavras do velho retumbavam ainda aos seus ouvidos.

Entretanto, não bastavam palavras para desarreigar as firmes raízes da esperança, e Rosa encostando a loura cabeça no ombro do seu prometido, tranquilizava-se ouvindo-lhe a voz altiva é varonil repetir:--Amemo-nos, apesar de tudo!

Quando o senhor Germinal passou, precedido do triunfante provençal, envolveu o lindo par num olhar terno e contristado.

--Olhe, disse Pedro parando; ali está o que nos rejuvenesce trinta anos, meu amigo!...

O senhor Germinal carregou o sobrolho e, esforçando-se por mostrar-se severo, bradou:

--Rosa!

--Meu pai? respondeu a jovem, estremecendo.

--Vá já para casa.

Ela ergueu-se com tímida lentidão e, oferecendo a fronte aos lábios de seu pai; fitou-o com os seus grandes olhos negros, cheios de súplicas e de amargura.

--Vai para casa, minha filha, emendou mais meigamente o velho. Preciso de falar com André.

Rosa afastou-se sem voltar a cabeça. Não queria que lhe vissem as lágrimas.

--E o senhor, balbuciou Germinal, meu querido senhor Sauvain...

Pedro Toucard, que torcia a barba sorrindo, recuou de um salto, como se tivesse pisado uma serpente; decompôs-se-lhe a fisionomia e, segurando o senhor Germinal pela gola do casaco:

--Que nome foi o que acaba de pronunciar? articulou ele, passado um momento.

--O do senhor Sauvain.

--E quem é que se chama assim?

--Este mancebo.