Chapter 2
Tudo nele estava enferrujado, desde a cadeia donde pendia o seu relógio de caixas de prata, até aos botões do colete. Cor de ferrugem era o seu fato cheio de cerziduras e lustroso, à força de gasto, nos cotovelos, nos joelhos e nas coxas; cor de ferrugem eram as suas suíças sarapintadas, os cabelos raros deixando a descoberto um pedaço de crânio amarelado, a pele salpicada de manchas ruivas, os olhos inquietos orlados de um círculo desbotado como os dos peixes cozidos, os lábios que deixavam entrever as suas gengivas arruinadas, os dentes que nelas encaixavam... e tudo enfim! Enferrujada era também a sua voz, e até se exalava da sua individualidade um tal ou qual cheiro ferruginoso.
Todavia, a despeito da afirmativa da senhora Poussignol, o senhor Germinal não tinha de modo algum a aparência de um ex-bandido. Era um homem tímido, humilde, vítima de um contínuo mal-estar e de uma trepidação nervosa inexplicável, sempre com o ouvido à escuta, e a atenção alerta. Naquele mesmo momento, em que arriscava um passo verdadeiramente fenomenal para o seu carácter, parecia obrar sob a pressão de uma vontade mais forte do que a sua, como um sonâmbulo recalcitrante, que o magnetizador dirige.
E contudo nunca mortal algum, mesmo o mais sedutor, foi acolhido, lisonjeado, afagado por um sorriso semelhante ao que André Sauvain dispensou ao pai da sua... quimera loura.
--Tenha a bondade de sentar-se, senhor Germinal, faça favor!... Que amável surpresa!... Que excelente ideia teve!... Não sei como agradecer-lhe...
Pouco faltou para que André ajoelhasse.
O senhor Germinal suspirou, assentou-se com certas precauções, que davam a entender precisarem de untura de azeite os seus pontiagudos joelhos, esfregou lentamente os dedos nodosos, uns contra os outros, e disse:
--É hoje dia de Natal, senhor Sauvain! Ouvindo aquela incontestável verdade, André entendeu dever manifestar alguns sinais de alegria.
--Com efeito é dia de Natal... Uma grande festa!
--Muito grande.
--Felizmente o tempo está bom.
--Muito bom.
--Ainda que bastante frio.
--Muito frio.
Neste período da conversação houve uma pausa de cinco minutos. André contemplou o senhor Germinal com ar animador, e apoderou-se-lhe de uma das mãos, que estreitou nas suas de um modo inteiramente filial. O senhor Germinal baixou pudicamente os olhos, retirou a mão, e com ela esfregou a outra.
--Parece-me, prosseguiu este, que por ocasião de tal solenidade, poderíamos permitir-nos... um leve extraordinário...
--É tão curta a vida... respondeu Sauvain, procurando adivinhar a conclusão a que queria chegar o seu interlocutor.
--Permitir-mo-hei pois, continuou o velho, e como o senhor é meu vizinho...
O coração de André cessou de bater.
--Tomo a liberdade; articulou o senhor Germinal com incrível esforço, sim... tomo a liberdade... de o convidar...
--Ora essa! bradou a senhora Poussignol, dando um salto.
--Senhor! exclamou o pintor, meu caro senhor, semelhante honra, um tal... Ah! senhor, disponha de mim... pertenço-lhe em corpo e alma!...
--Não exijo tanto, disse o senhor Germinal, tirando do bolso um lenço cor de ferrugem, com o qual enxugou a sua calva amarelada. Peço-lhe unicamente... o favor de vir esta noite a minha casa... das oito horas às oito e dez minutos... para passar o serão... modestamente... em família.
--Em família! repetiu André extasiado.
--Então... aceita?
--Se aceito! querido e venerado senhor... com entusiasmo!... com delírio!
O senhor Germinal levantou-se como se fora feito de uma só peça. Parecia consternado.
--Nesse caso, disse ele em tom lúgubre, até à noite.
--Até à noite, meu respeitável vizinho! modulou André, que interrompeu o ruído de raspador, apertando nas suas ambas as mãos do senhor Germinal.
Este último encaminhou-se para a porta.
--Haverá, acrescentou com voz abafada... sim... haverá talvez... uma garrafa de cidra.
--Adoro a cidra!
O senhor Germinal abriu a porta.
--E... sim... creio poder afirmar que haverá também... castanhas.
--Sou doido por castanhas!
A porta fechou-se.
André Sauvain ficou um momento como esmagado pela enorme ventura, que a Providencia lhe enviava; depois saltou para o meio do _atelier_, executando a capricho uma sarabanda furiosa, delirante, como de outra igual não há memoria!
Pelo que respeita à senhora Poussignol, apenas teve forças para repetir: «Ora essa!»
Paralisada pelo excesso de espanto, deixou-se cair com todo o seu peso sobre a caixa das tintas, derramando algumas.
VI
Que fada haveria tocado o senhor Germinal com a sua magica varinha? Por que prodígio aquele misantropo, que durante onze anos não se aventurara fora de casa, com medo de encontrar o oval de qualquer dos seus semelhantes, vinha agora convidar um desconhecido para festejar com ele o aniversario do Natal!
O pintor não se inquietou com esse enigma. Contentou-se com ser feliz.
Às oito horas em ponto, agitou, não sem sobressalto, o fio de ferro que correspondia à campainha do seu amável vizinho.
André tinha tido o cuidado de aformosear-se. Escovara o fato e vestira roupa lavada; contudo sentia-se pouco à vontade. Quando Rosa olhou para ele, fez-se tão branco como a própria camisa, e pela primeira vez deplorou o comprimento dos seus braços e pernas, das quais não sabia o que fizesse.
Pelo que toca à jovem, ignoro em que ela pensou, mas o seu lindo rosto tornou-se da cor do seu nome.
O arranjo de casa do senhor Germinal, não só era totalmente desprovido de magnificência, mas até deixava adivinhar a presença de um mau hóspede, a quem chamam pobreza; contudo a ordem, harmonia e limpeza, que ali reinava, fazia alegrar o coração: cada móvel fora conquistado à custa de laboriosas vitorias, e ostentava-se no seu lugar, polido, espanado e lustroso, como convém a um troféu doméstico.
A noite correu deliciosamente. Houve cidra... e houve castanhas!... Para André houve também certos regalos pouco apreciados pelo vulgo, mas que o pintor saboreou como artista e como poeta: o prazer dos olhos, a embriaguez da alma, o delírio da imaginação... são esses a que me refiro.
Porque... ela estava ali, Rosa, a travessa e meiga criança. Para certificar-se de que não sonhava, Sauvain beliscava os braços de vez em quando; ora, como apesar disso continuava a absorver por todos os poros a suave música da sua voz, as escalas argentinas do seu riso e o _fru-fru_ do seu vestido azul; como a via voejar, qual ave encantadora, ruborizar-se por ser admirada, e sorrir de prazer corando; como, enfim, quando ela inclinava a cabeça, o candeeiro iluminava de reflexos doirados os anéis do seu cabelo, punha em relevo o seu gracioso perfil, sombreado por pestanas de seda; ou lhe transformava o colo em uma lamina de puríssimo marfim, André viu-se obrigado a reconhecer que não dormia.
O senhor Germinal ganhou dezassete partidas de _écarté_ ao seu jovem vizinho... que nem deu por isso!
O pintor não notou também as singulares contracções nervosas do seu parceiro, que estremecia ao menor ruído exterior, empalidecendo ao fechar longínquo do portão do pátio, e saltando na cadeira quando a escada rangia sob a pressão de passos humanos. Bem podia cair um raio sobre a mesa, que André não repararia em tal!
Às onze horas retirou-se este, cambaleando como um ébrio, posto só tivesse aceitado um cálice de cidra; e quando Rosa, à despedida, lhe tocou levemente nas pontas dos dedos, pareceu-lhe que o peito se lhe dilatava até ao infinito, e que dentro dele se abrigava o céu inteiro, límpido, azulado, transparente e todo povoado de pombas de cândida plumagem.
Enquanto a Rosa, depois de André partir, fazendo um colar dos seus braços nevados ao papá Germinal, cobriu-lhe de beijos as faces enferrujadas, e gorjeou-lhe ternamente ao ouvido:
«Muito obrigada, meu bom, meu querido, meu adorado papázinho!»
E, feito isto, voou para o ninho.
O senhor Germinal, vendo-se só, esfregou as mãos por tal forma, que ter-se-ia jurado estar ali um batalhão de marçanos raspando cones de açúcar. Depois suspirou, bateu na testa e deu algumas voltas pelo quarto, até que aferrolhou a porta, tapando o buraco da fechadura, fechou a janela e correu as cortinas. Tomadas estas precauções, arredou o leito, ajoelhou no sobrado, no mesmo lugar que ocupara a cama, levantou uma tábua, deixando a descoberto uma profunda escavação, meteu por ela o braço e exumou um volumoso rolo de papeis.
Aqueles papeis amarelentos, ensebados, velhos e cheios de nódoas, tinham o selo do banco de França. Eram notas de mil francos.
O senhor Germinal contou-os, recontou-os, espalhou-os, beijou-os, e depois, acamando-os num maço, contou-os ainda outra vez.
Eram noventa e dois.
O senhor Germinal não devia conservar dúvida alguma sobre o seu numero e valor, porquanto os verificava trezentas e sessenta e cinco vezes por ano.
E quando as notas foram de novo recolhidas no esconderijo, e o leito restituído ao seu lugar, o senhor Germinal consultou o almanaque, e disse em voz baixa:
«Onze anos, sete meses e dezassete dias... Daqui a quatro meses e meio, a minha Rosinha será feliz! E eu?... acrescentou ele estremecendo.»
VII
Voltou a primavera. Na da rua dos Mártires havia um jardim, separado do pátio por uma sebe de buxo; e esse jardim era dividido em vários talhões, de modo que cada locatário, mediante um pequeno aumento na renda, gozava de uma pequeníssima nesga de terreno, que podia cultivar a seu bel-prazer.
André Sauvain não participava dessa regalia.
Mas, quando as folhas, ainda franzidas, começavam a romper do seio dos rebentos, quando as aves ensaiavam já os seus gorjeios, e o ar amornecendo espalhava as nuvens sobre um fundo de pálido azul, o moço pintor visitou quotidianamente o jardim do seu vizinho Germinal.
Havia quatro meses que, por uma série não interrompida de milagres, André se tornara indispensável ao misterioso velhote; contava-se com ele, agora, como com um génio do lar.
O pintor não se saciava de admirar Rosa; enlevava-se na contemplação daquela flor animada, que também ia desabrochando ao calor da primavera. Uma manhã estavam eles sós no seu paraíso de doze pés quadrados; um raio de sol, escorregando à beira do telhado, cujas ardósias coloria de azul, deixara-se cair nos laços que lhe armavam os ramos das árvores e as novas vergônteas; debatia-se, o imprudente raio, no meio de um folhedo de verdura; e a brisa, segredando, mofava do seu desatino. Ouvia-se já o zumbido das abelhas, e delicados perfumes se exalavam das flores, que tinham aberto as suas corolas durante a noite.
«Eu também, dizia André, possuo um jardim, um velho jardim, que povoam copadas árvores!... Rodeia a casa onde nasci; muitas vezes ali passeio... em sonhos. Se lá voltasse, parece-me que cada tronco estremeceria sob o seu invólucro de musgo, que o lagarto viria alegre mostrar-se à fenda do muro, que a aranha desceria da sua teia rendilhada para acorrer jubilosa, que a água do tanque se agitaria de contente, que a parreira enlaçaria os seus esteios carunchosos, e tudo ali me bradaria com voz comovida: «Bons dias, André! Sê bem vindo!... Pobre André! já não és a criança que nós encantávamos; já não tens as faces rosadas, a fronte límpida, a franca alegria, a gargalhada espontânea de então! Agora... és um homem! cresceste, lutaste, sofreste; os companheiros dos teus brinquedos já se esqueceram do teu nome; o camponês, que te trouxe às costas, passa e não te conhece. Mas nós, amigos humildes como somos, conhecemos-te ainda, André; deixaste entre nós a melhor parte das tuas recordações, e irás encontra-las lá em baixo, naquele banco carunchoso, onde tua mãe te embalava cantando.»
Rosa escutava-o comovida, entrançando um ramo de pervincas.
--Oh! continue, murmurou ela. Amo essa casinha e esse velho jardim. Quando me fala deles, os seus olhos impregnam-se de infinita doçura; dir-se-ia que reflectem, como a água límpida de um regato, a imagem daqueles companheiros da sua infância.
--É porque, junto de si, querida menina, respondeu Sauvain, tudo o que na minha alma há de sagrado, me sobe aos lábios e aos olhos. Ah! se a esperança transparece neles tão claramente como as mágoas, dar-se-á acaso que não descobrisse ainda?...
Não concluiu. Nunca tinha dito tanto!
Rosa, sentindo bater o coração e com as faces em rubor, curvou a cabeça e esperou. Mas André não teve ânimo para continuar. O silencio apenas foi perturbado pelos trilos de uma toutinegra, que esvoaçava por cima dos dois jovens.
--Fale-me do seu jardim? lhe tornou Rosa; conte-me o que ele lhe confiou, a última vez que o viu.
O sorriso de André extinguiu-se, e a voz tornou-se-lhe mais triste.
--Nesse dia, disse ele; o meu velho jardim estremecia sacudido por áspera brisa, e quando transpus a porta, as árvores desfolhadas e as folhas em redemoinho, só me enviaram um gemido, que acolhi com lágrimas...
Rosa ficou pensativa e fitou no rosto de Sauvain as suas pupilas negras e inquietas.
--Há doze anos que isto sucedeu, prosseguiu o pintor. Tinha eu então treze, e era aprendiz em casa de um escultor. Recebera da Normandia uma carta, que beijei; continha apenas estas palavras: «Estou muito doente, meu querido filho, e queria abraçar-te». Um quarto de hora depois, partia eu... a pé, por falta de dinheiro. Andei noite e dia, comendo o meu pão enquanto caminhava, matando a sede na água lodosa dos fossos da estrada, repelindo o sono, que me fechava as pálpebras... Cheguei enfim! A porta estava aberta... entrei chamando minha mãe... vi-a imóvel, branca como a cera, estendida sobre o leito em que eu nasci; ao lado dela, ardia uma tocha... Caí de joelhos no meio do quarto... sem gritos, sem lágrimas, sem ideias... Minha mãe estava morta!
O pintor proferiu estas últimas palavras com a voz entrecortada pela comoção. Rosa pousou-lhe timidamente a mão sobre o ombro.
--Enterraram-na, ao cair da noite, continuou ele... Quando tudo terminou, retomei o caminho de Paris, trazendo a chave de minha casa deserta... menos deserta que a minha alma!
Rosa deixara cair o ramo; os anéis louros do seu cabelo escondiam-lhe os olhos.
--Parece-se com sua mãe, André?
--Não, Rosa; pareço-me com meu pai, um ousado marinheiro que pereceu num naufrágio, e que eu não cheguei a conhecer... A pobre viúva nada mais possuía, neste mundo, além do meu afecto: a sua existência decorrera triste e solitária; éramos pobres; foram-lhe necessários prodígios de dedicação para educar-me; chamava-me a sua alegria, o seu orgulho, a sua consolação... E eu tinha por ela um culto apaixonado; por ela jurara ser rico, respeitado, celebre... Minha mãe morreu!
Rosa estava de pé, um pouco inclinada para o pintor. Este sentiu uma pérola líquida cair-lhe sobre a fronte.
--Como eu a teria amado! suspirou a jovem.
André pegou-lhe nas mãos, atraindo-a brandamente para si.
--Minha mãe morreu! repetiu ele, e pensei por muito tempo que nada preencheria o horrível vácuo, que em mim causou a sua falta. Porém, Rosa, acredita-lo-á?... A par dessa indelével saudade insinuou-se, pouco a pouco, uma ternura não menos forte, ainda que de outra natureza. Ao princípio, era apenas um gérmen, um grão dourado que o acaso lançara no meu caminho, mas... o gérmen cresceu, o grão desenvolveu-se em planta, e a planta em frondosa floresta, cheia de canções, de murmúrios e de perfumes!...
André sentiu tremer, entre as suas, as mãos de Rosa. Contudo... ela sorria através das lágrimas.
--E, se as almas pudessem falar, sabe Rosa o que lhe diria a alma de minha mãe? Dir-lhe-ia: «Rosinha, também te amo muito... a ti, que me terias amado! Amo-te, porque és boa, inocente e piedosa; porque o teu espírito encantador tem mil delicadezas; porque me substituíste nos sonhos de meu filho; porque és a luz dos seus olhos, a flor da sua esperança, o enlevo da sua vida! Ama-o, Rosinha... peço-to eu! ama meu filho, que te ama tanto!»
Rosa volveu para o pintor o seu olhar, radiante e cândido.
--Mas, disse ela com simplicidade, eu amo-o!... Pois não o sabia, André?
Sauvain empalideceu, e estreitou nos braços a donzela, cujas faces se encenderam em pudico rubor.
Neste momento ouviu-se aquele, já mui conhecido, som de raspador, e à porta do jardim apareceu o senhor Germinal, mais frio, mais compassado, mais ferrugento do que nunca.
--Muito bem! disse ele em tom levemente irónico, então quando é o casamento?
VIII
Os dois namorados ficaram confusos, como colegiais surpreendidos a furtar maçãs.
--Senhor, balbuciou André, não pense que... Juro-lhe, pela minha honra, que é a primeira vez que...
--Meu caro vizinho, permita-me que lhe diga que é um parvo! interrompeu o senhor Germinal, que se assentou sossegadamente, e puxou para junto de si, ameaçando-a com o dedo, a linda Rosa, um tanto enleada.
Quem, então, ficou de todo embatocado foi o pintor...
Pois supõe, continuou o senhor Germinal, que iria eu próprio meter o lobo no aprisco, se não tivesse... cá o meu plano?
--Será possível!... exclamou Sauvain
--Tudo é possível, meu caro. E possível que, à força de deitar o nariz fora da janela, esta criança reparasse em certo vizinho; é possível que o pai, vendo-a pensativa, procurasse descobrir o que a preocupava; é possível que, adivinhando ele o que de ordinário atormenta uma rapariga de dezassete anos, a seguisse à dita janela e aventurasse um olhar por cima do ombro da filha; é possível enfim, que, por entender que ao longe se vê mal, aproximasse os dois curiosos para se verem de perto.
André lançara-se de joelhos na areia do jardim: com uma das suas mãos apertava a dextra escabrosa do senhor Germinal, com a outra levava aos lábios a alva mão da donzela.
--Rosa!... minha Rosinha! anjo querido! sonho dourado da minha vida! repita diante de seu pai aquelas palavras, que há pouco me iluminaram o coração!
--Amo-o; André! disse ela ingenuamente e sem hesitar.
--Não se morre de alegria!... exclamou o enamorado moço.
--E o senhor... meu bom amigo... meu pai... dá-ma?
--Ela ama-o, André! respondeu o senhor Germinal, arremedando Rosa. Mas levante-se daí, vizinho! há mais janelas e mais inquilinos, no prédio!
André obedeceu: nos seus olhos ardiam fogos de artifício, o coração tocava-lhe a rebate, e no cérebro sentia ressoar uma banda regimental.
--Escute-me, disse o velho.
--Sou todo ouvidos!...
--Não se vive só de ar: não lhe parece?
--É verdade, infelizmente!...
--Bem. E que trará o senhor para a comunidade conjugal?
André mordeu o bigode, e consultou as nuvens, como se elas estivessem encarregadas de trazer-lhe barras de oiro e se houvessem demorado no caminho.
--Trarei, respondeu enfim, o meu amor, a minha coragem, a minha perseverança e... a minha fé no futuro.
--Muito bem, disse o senhor Germinal. E tu Rosa, que levarás em dote a teu marido?
--A felicidade, respondeu ela simplesmente, mas com profunda convicção.
--Muito bem, repetiu o velho. Pois, meus filhos, possuís exactamente o mesmo capital, que eu possuía quando casei.
--E foi feliz, afirmou Rosa.
--Feliz!... redarguiu ele com amargura; feliz, como o ladrão, que se apressa a dissipar o que roubou, pensando incessantemente nas galés que o esperam!... feliz, como o condenado à morte, que afoga a razão numa orgia efémera, e que despertará no cadafalso!... Não sabe, André, quanto custa ver a mulher que adoramos, uma criatura delicada a quem desejaríamos entretecer um ninho com todas as maravilhas do universo, estragando a vista num trabalho ingrato para poder comprar um miserável vestido de chita!... sorrir forçadamente para nos esconder as pálpebras avermelhadas pela vigília!... definhar-se; a fogo lento, à mingua de um pouco de supérfluo!... E tu ignoras também, minha pobre Rosa, o que é ver entrar à noite um homem desanimado, abatido, prostrado pelo excesso de um trabalho mecânico, humilhado por superiores insolentes, escarnecido por subalternos mais bem trajados do que ele, consentindo, para poder ganhar um salário irrisório, em calcar aos pés a sua inteligência e a sua dignidade!... Tu não sabes, repito, o que é sentir-se uma pessoa esmagada por esta luta com a pobreza, prever próxima a morte, e inclinar-se de noite sobre um berço, murmurando: «Que será desta criança, quando eu lhe faltar?»
Rosa e André achegaram-se um ao outro, trocando olhares altivos, que desafiavam a adversidade.
--Ignoram tudo isto, prosseguiu o senhor Germinal; porém eu, que o sei por experiência própria, jurei sobre o túmulo de minha mulher, morta de miséria, vítima de privações de toda a espécie!... que nunca daria minha filha a um homem pobre.
André levantou-se, pálido e com as feições transtornadas.
--A não ser que ela tenha um dote razoável... concluiu o velho.
Os dois jovens ficaram aterrados.
--Oh, meu pai!... meu pai!... exclamou Rosa, quase irrompendo em pranto.
--Senhor! bradou André, trémulo de indignação, se o que diz é um gracejo... é bem cruel!
Papá Germinal esfregou as mãos, produzindo desta vez o ruído de um raspador colossal.
--Senhor Sauvain, a quantos estamos do mês?
--Oh!... o senhor está abusando...
--Responda-me por favor: quantos são hoje?
--Não sei!... 8 de maio, creio eu.
--Pois bem, senhor Sauvain; hoje mesmo, 8 de maio de 1854, minha filha possui um dote.
--Um dote?... eu! exclamou Rosa, incrédula.
--Isso pouco me importa, disse André, o essencial para mim...
--Pelo contrario, deve importar-lhe muito; sem dote, não consentiria eu que casasse com minha filha. Dou-lha... com noventa e dois mil francos.
Desta feita, o susto sufocou Rosa e André. Pareceu-lhes palpável que o senhor Germinal trilhava o caminho que conduz a Charenton[2].
Mas o velho, sempre sério, tirou convulsivamente do bolso um grande maço de notas de banco, folheou-o perante os olhares atónitos dos dois namorados, e repetiu, acentuando cada silaba: «Noventa e dois mil francos!» Tome lá, meu genro!
IX
Sauvain abriu desmesuradamente os olhos. Tantos valores nas mãos do senhor Germinal, cuja miséria igualava a de Job!... O caso era de natureza a inspirar suposições extravagantes: até Rosa se inquietou.
--Como assim, meu pai! disse ela, tudo isso lhe pertence?
--Pertence-te a ti; pois que to dou.
--E de onde lhe veio tanta riqueza?
A fronte do velho enrugou-se; até aquele momento desenvolvera insólito desembaraço, mas a esta pergunta de sua filha, reapareceram o seu constrangimento anterior, o seu balbuciar e timidez habituais.
--De onde me veio este dinheiro!... retorquiu ele; queres sabe-lo?
--Certamente!...
--Das minhas economias.
--Economias!... quando cem vezes nos tem faltado o necessário!... quando não era raro ignorarmos na véspera se jantaríamos no dia seguinte!
--Minha filha, é bom sofrer no presente para assegurar o futuro.
--Economias!... quando o pai, estando doente, ia morrendo por falta de remédios e de dinheiro para os comprar!
--Sou avarento!... balbuciou o senhor Germinal, evidentemente constrangido.
--Talvez... Mas explique-me por favor, meu pai, como pôde poupar perto de cem mil francos, dos seus seiscentos francos de ordenado?
--Há muito tempo que comecei, disse o velho enxugando o crânio; os pequenos regatos tornam-se em rios, os soldos transformam-se em francos, e os francos em notas do banco.
--Para isso mesmo era necessário recorrer ao cambista, e há doze anos que meu pai não põe os pés fora de casa!
--Estás importuna!... articulou o senhor Germinal, que, de amarelo cor de palha, passou ao amarelo do enxofre; além de que... há mais de doze anos que tive uma herança...
--Agora diz que o herdou!...
--Foi ainda em vida de sua mulher? perguntou André secamente.
--Ao que parece...
--Entretanto, senhor, acaba de confiar-nos que a mãe de Rosa morreu à míngua do necessário!...
--Vão para o diabo! bradou o senhor Germinal. Dar-se-á acaso que me tomem por um ladrão?
--Meu pai!...
--Vizinho!...
--Minha filha... Meu amigo... Não querem o meu dinheiro, não é assim? julgam-no de origem impura? Pois não o queiram. Reembolso-o, e... basta de amor... nada de casamento! Voltemos para nossas casas, e não falemos mais em tal!