Mysterio do Natal

Part 4

Chapter 43,355 wordsPublic domain

O Infante ficara entregue ao seu piedoso voto. Deus entrava desacompanhado no mundo, ser como os demais seres, homem como os outros homens, integrando-se na Humanidade.

Só lhe valeram os carinhos de Maria: o calor do collo, o enlace amoroso dos braços, os beijos repetidos foram, pouco a pouco, alliviando-o e, de novo, adormeceu tranquillo, não mais sobre a palha loura, mas aconchegado ao seio, ninado pelas palpitações do coração materno.

* * * * *

Receio

Fino raio de sol insinuando-se na caverna pousou na palha abrindo um aro de ouro em torno da cabeça do Infante adormecido.

Todas as aves chilreavam, garrulas moças passavam na estrada; ás vezes eram récuas de dromedarios desfilando em ruidoso atropello.

Maria prestava attenção ao rumor, receiando pelo Filho. Tomou-o muito ao seio e, quasi de rastos, aprofundou-se na sombra escondendo o seu thesouro com amorosa avareza.

Tão lindo! quem o não desejaria! E se um d'aquelles homens, descobrindo-o, investisse para arrebatal-o, quem o defenderia?

Na treva ficava a coberto de todos os olhares.

No fundo da caverna lentejava tristemente uma mina e a cada gotta do estellicidio respondia um som lacrimoso.

O ar era frio e humido, as paredes luziam lutulentas e, fóra, o sol brilhava, alegre e tepido, em fitas, em nimbos de ouro, lampejando nas arestas agudas da abobada escabrosa.

Quando José reappareceu--a herva da entrada subitamente esmarriu--vendo deserta a palha, estacou, olhando espantado, com apprehensões de desgraça.

Que seria feito delles? Caminhou alguns passos. O coração batia-lhe, tremia-lhe a urna ao hombro. Maria, reconhecendo-o, falou do seu esconderijo:

--Aqui, meu senhor. O patriarcha adiantou-se e, sentindo a friagem do sitio, ouvindo o triste gottejar na lage, perguntou:

--Porque buscaste tão obscura jazida onde o ar regela e a luz não chega? Lá fóra ha um calor macio e sente-se o aroma das hervas vivas, ouvem-se as vozes alegres. Aqui ha o silencio e a melancolica espessidão dos tumulos.

--Eu estava só, meu senhor e o coração, dantes tão animoso, é agora tão timido que eu viveria, de boa mente, num subterraneo só para que olhos maus não fitassem meu filho nem o invejassem adoentando-o.

Não sei que voz me fala dentro do coração pedindo-me que o defenda. Ouço-a a todo instante.

Dizem-me os anjos que Elle é Deus... Não me passaram despercebidos os prodigios da noite: tudo vi, tudo ouvi, mas minh'alma ordena-me que o resguarde, que o não perca de vista, que sempre o traga acautelado, talvez porque é pequenino e fraco.

Não sei se pecco com a presumpção de defender quem é omnipotente, mas como hei de lutar contra mim?

--Mas se o ceu nos diz e prova que Elle é o Filho de Deus porque has de receiar os homens?

--É o coração que receia.

--E entre o que diz o coração e o que affirmam os anjos hesitas, Maria?

--Senhor, os anjos falam pelo Ceu, o coração fala pelo meu amor. Se Deus acha-me rebelde, curvo-me ao seu castigo.

E, humildemente, ajoelhou-se ante o berço.

Jesus, abrindo os olhos claros, profundos, fitou-os nella e, como se lhe quizesse responder, sorriu.

* * * * *

O somno

Maria mal humedeceu os labios á borda do tarro de leite de ovelha que o pastor ordenhara antes de partir. Cuidados traziam-na apprehensiva. Se o filho estremecia sobresaltava-se-lhe o coração, se o via immovel, dormindo, temia que houvesse morrido e logo, anciosamente, afagando-o, chamando-o, despertava-o.

--Deixa-o dormir, disse-lhe o patriarcha, o somno é necessario á vida, é a sombra em que a alma repousa.

O espirito das crianças refugia-se no somno como o dos velhinhos--o primeiro porque d'elle sahiu e ainda o tem por ninho; o segundo porque o procura como abrigo. Não o despertes, deixa-o dormir.

--É que me parece estar morto. Não faz o mais leve movimento e, quando elle assim fica, meu coração pára retransido.

--É a serenidade. Só o somno dos maus transmitte ao corpo a convulsão do pesadello.

O somno é uma visita á morte: os innocentes fazem-na sorrindo, os peccadores fazem-na espavoridos.

Não receies que Elle passe tão cedo á Eternidade de onde veiu. Ainda que não trouxesse a missão que o fez baixar ao mundo, fosse Elle tão da terra como o filho da zagala dos montes, não o deverias tirar do repouso.

Não desenterras a semente por não a veres á flor do solo, deixas que ella venha a flux e rebente, abra o renovo e cresça.

O somno é uma incubação. Porque não sonha? porque não tem impressões. O sonho é como um reflexo em que ha echo, é a reproducção confusa da vida com a repercução indistincta das vozes e dos ruidos.

Ha quem veja presagios no sonho como o nómade vê realidades na miragem.

Com que ha de sonhar quem não tem consciencia da vida? Deixa-o dormir.

É á noite que a floresta cresce e a criança é como a arvore.

O luar é manso, é uma luz silenciosa de vigilia, uma tunica diaphana sobre a treva--não desperta. As estrellas são meigas porque a noite deve ser tranquilla para que a Natureza descance. Peixa-o dormir.

Conserva-te immovel e calada, não perturbes a vida mysteriosa. Demais, Elle é o Eterno. A Morte passa por Elle como a lamina de uma espada por um raio de sol. Deixa-o dormir.

Bem sei que o egoismo das mãis chega a insurgir-se contra as leis de Deus; não te insurjas tu, que O geraste. Elle precisa rever a Humanidade entrando na Vida e gozando, sahindo, talvez, pela Morte com soffrimento.

--Meu senhor! exclamou a Virgem estendendo as mãos, commovida.

--São palavras, Maria. Ai! de mim, quem sou eu para pronunciar oraculos sobre Aquelle que tem o destino da Vida na sua mão direita!

São palavras que digo. Deixa-o dormir.

* * * * *

Palavras de Maria

Como eu agora comprehendo que se viva escravisada a um sorriso!

Quando tenho meu filho ao collo, nutrindo-se do meu sangue, que deixa a côr da purpura e veste-se de branco para não macular os labios innocentes, toda a minha vida nelle se concentra.

A Felicidade e a Desgraça sentam-se junto de mim, sinto-as no contentamento que me alvoroça e nos presagios estranhos que me occorrem.

É preciso ser mãi, ter gerado para conhecer o verdadeiro amor.

A alma sahe-me do corpo e fica junto do Infante. Se me arredo um momento sinto-me logo attrahida como por uma pesada corrente que se me prende ao coração. E tanto o contemplo, tanto! que fico com elle dentro dos olhos como quem fita um objecto ao sol e depois o vê em toda parte, ainda na treva mais densa.

Dantes, quando as mãis falavam-me de seus filhos, sempre eu as achava exaggeradas nos louvores. Que diriam de mim as que agora me ouvissem!

O meu desejo era não ter na boca outras palavras senão estas: «Meu filho!» São as que o coração inspira-me, são as que me agradam ouvir.

Ellas fazem um gyro alegre como um casal de passarinhos brincando. Sahem-me dos labios, entram-me pelos ouvidos cantando, circulam o meu coração e tornam á boca.

Meu filho! E não ha todo um mundo de amor dentro d'ellas? Que mais é preciso para a ventura?

Quando as suas palpebras descerram-se inclino-me e busco vêr nas suas pupillas--que são agora os meus espelhos--o que ellas contêm.

Fico tão perto que ellas só a mim reproduzem.

Do mais tenho ciume, nem quero que seus olhos tenham outros habitantes.

Quando Elle estremece, tremo. Quando Elle sorri é tão grande a minha alegria que fico num atordoamento desvairado, sem saber que faça, e choro e rio.

Ai! de mim quando Elle chora.

Não tendes notado que sou agora como uma faminta perdida que não se sacia de alimento?

Não é que tenha fome, não; mas penso n'Elle e, como é preciso que Elle encontre sempre farto o peito em que se nutre, transformo-me em celleiro.

Dormir, nem sei se durmo, porque ao mais leve movimento que Elle faça surprehendo-me a mim mesma achando-me a seu lado, agasalhando-o, afagando-o, procurando readormecel-o ou acalentando-o, se chora.

Eu não era assim amorosa, meu senhor. Agora que o tenho não parece que vivo no mundo, só d'Elle me lembro. Onde Elle está ahi é que me apraz viver.

O seu berço é um oasis em immenso deserto.

Dizeis, ás vezes, que me distraio porque não vos respondo de prompto. Não é distracção, é que a alma está junto d'Elle--o corpo fica vasio como uma casa fechada cujo dono trabalha na seara.

Dissestes uma vez: «As mãis adivinham.» Como conheceis o coração materno!

E ha mãis que ficam no mundo quando lhes morre o filho. Como se podem guiar na vida? Como podem caminhar sem arrimo? Como podem vêr sem luz? Como não sossobram no pranto? Eu...

--Porque choras, Maria?

--Porque sou feliz, meu senhor...

* * * * *

As duas mãis

Junto a uma velha figueira, que ficava a dois passos da caverna, onde a estrada, bifurcando-se, dava uma sinuosa trilha para os montes e um caminho direito para os campos, sentara-se Maria com Jesus ao collo, gozando o frescor da manhan serena e vendo os pombos revoarem, com rumoroso ruflo d'azas, passando, repassando em torno.

José descera á fonte.

Zagalejos passavam soprando frautas e o sol, accendendo as camarinhas do orvalho, fazia da paizagem uma extensa scintillação.

A Virgem entretinha-se, enlevada no pequenito que acompanhava a ronda aligera das aves, quando uma pallida mulher, andrajosa e descalça, os cabellos desgrenhados, os olhos fundos, a caveira estalando a pelle secca, appareceu no caminho, tão lenta e com tão alto e angustioso arquejo que foi por elle que Maria sentiu a aproximação da infeliz.

Era ainda moça, conservava na miseria um resto de emmurchecida belleza.

Os olhos negros ardiam febris como dois carvões em que faiscassem fagulhas; as rosas das faces haviam amarellecido, os labios, reseccados e lividos, estalavam em fendas como golpes.

Trazia nos braços, envolta em grosseiras faixas, uma criança que vagia.

Diante da Virgem deteve-se. Arrasaram-se-lhe os olhos d'agua e, parada, tremendo, estendeu a mão magra, a pedir.

Maria encarou-a compadecida e, como não possuisse moeda, não respondeu á infeliz, alanceada de pena. E a mulher soluçou:

--Não é por mim que peço, é por elle. Tenho-o, desde hontem, ao seio, bebendo sangue--não é um peito que lhe dou, mas uma ferida. A boca do pobresinho está da côr da anemona.

Não lamentaria a dôr com que a sua fome me apunhala se o visse saciado, mas o sangue não farta e, ainda que eu lhe não recuse o que me resta de vida, sinto-o enfraquecer a mais e mais.

Já não chóra, nem abre os olhos, começa a agonisar, como a planta que o sol mirra na terra adusta.

Dai-me o bastante para que elle viva um dia, só emquanto eu viva. Que elle morra depois de mim para que eu o receba na morte.

Maria fez lugar junto á figueira para a enferma e, entregando-lhe Jesus, tomou o pequenino moribundo. Poz-lhe na boca o peito turgido e logo o sentiu sugar avidamente.

A misera mulher embalava o divino Infante, apertava-O ao collo com medo de que chorasse e interrompesse a esmola que seu filho recebia.

Tão enlevada estava vendo o seu penhor mamar que nem sentiu que os seus peitos, junto aos quaes Jesus agasalhava-se, enchiam-se, apojavam-se. E toda ella refazia-se: a carne renovava-se-lhe robusta, voltava-lhe a côr ao rosto.

Satisfeita, a criança adormeceu ao collo de Maria e da boquinha entreaberta escorreu, rolou na terra uma gotta de leite, cahindo, como uma pérola, na raiz da figueira.

As duas mãis olharam-se caladas por que as crianças dormiam. Trocaram-nas tomando, cada qual, a que lhe pertencia e a miseravel, agradecendo a esmola, foi-se por entre as margaridas do caminho.

Perdeu-se no meio das arvores, reappareceu no lançante do cerro.

De repente, já no cimo, envolta em luz, estacou derreando a cabeça como para olhar o ceu em pleno e subito, lançando os braços, tombou sobre os joelhos.

Dera, sem duvida, pelos peitos cheios.

Maria, para seguil-a com o olhar, levantou-se e, como se apoiasse á figueira, uma folha cahiu. Sentindo os dedos humidos mirou-os--estavam molhados de leite.

D'onde proviria? da fina haste da figueira de onde se destacara a folha.

A arvore sorvera a gotta de leite que rolara da boca do pobresinho e sempre a verte mostrando-a aos incredulos, mal se lhe arranca uma folha ou se lhe golpeia um galho, como uma prova da misericordia suave.

* * * * *

A estrella

Ao declinar do sol, quando cessava toda a alegria rural e, quietos, em magotes brancos, os rebanhos desciam das pasturas e o canto das aves morria em estrebilhos tristes, José, á entrada da caverna, as mãos cruzadas sobre o cajado, contemplava o ceu macio, barrado de ouro no occidente, onde os outeiros pareciam arder como altas pyras sobre as quaes flammejasse um lume votivo.

Um molle, languido quebranto prostrava a natureza.

As arvores espreguiçavam-se em movimentos morosos; raros passaros aligeiravam o vôo atravessando a luz vesperal.

Nas quebradas sombrias crescia a voz das aguas borbulhantes, saltando, escachoando de pedra em pedra até fluirem mansas sob as pendidas ramas que pareciam tremer de frio.

Longe, na cidade, resoava o tumulto humano.

Grossos rolos de fumo negro subiam aos ares, fundiam-se, dissipavam-se e, á medida que a noite conquistava a paizagem, apontavam pequeninas estrellas esmaltando o ceu.

A voz de Maria no fundo da caverna entoava suavemente. Era o encantamento maternal, a mimosa cantilena com que Jesus adormecia.

O patriarcha, recolhido em pensamento, olhava, e, como se voltasse para o lado do oriente obscuro, viu um como fulgido alfange chammejando na treva.

Tremeu e, fitando o olhar na estranha apparição, notou que avançava no ceu vagarosamente.

Era uma estrella enorme, de brilho coruscante, que parecia haver atravessasado a teia da Via Lactea, tendo della trazido um rutilo farrapo que a seguia atravez do espaço.

O astro subia em marcha grave e as demais estrellas esmoreciam á sua passagem como se se retrahissem timidas.

Pelos caminhos, pelos outeiros homens, mulheres paravam attonitos olhando o prodigio.

Alguns, atemorisados, invocavam deuses, rojando-se por terra; outros fugiam aterrados; crianças choravam espavoridas.

E quando a noite negrejou fechada, o astro, com a flammejante cauda aberta, pairou no ceu, sobre a caverna, como uma palma de luz que assignalasse o berço do Messias.

* * * * *

Epiphania

Pastores, que faziam a vigilia no campo, contemplavam embevecidamente a estrella maravilhosa, quando ouviram cantares e rumorosa estropeada como se festiva e densa turba viesse pela encosta do cerro mais alto.

Ergueram-se estranhando a caravana e viram romper, á luz de archotes, cujo clarão tingia sanguineamente a noite, um cortejo brilhante e desusado.

Os animaes pareciam ajaezados de ouro, com recamos de pedrarias, tamanho era o fulgor que irradiavam nos cabeios ardegos em que vinham.

Onagros, tangidos por negros, trotavam sacolejando fardos e tres dromedarios enxairelados caminhavam entre lanças garbosamente empunhadas por cavalleiros robustos.

Tamborinos e anafis soavam em concerto, regulando o rythmo da marcha; vozes bradavam e a turba descia assustando as ovelhas e os grandes bois que trasmalhavam mettendo-se pelos mattos.

Os cães de guarda, attentos, d'orelhas fitas, conservavam-se silenciosos como se reconhecessem os chegadiços.

Por vezes as lanças chocavam-se, tinindo, e cerrada, na claridade fulva dos archotes, a caravana aproximava-se.

Na planicie, ao rouco estrugir de uma buzina, estacou em ordem.

Ligeiramente, destros e açodados negros desfizeram grandes rolos, fincaram cepos e, em pouco, tendas retesaram-se.

Os animaes, alliviados da carga, deitavam-se na herva fresca, espojavam-se contentes e, em volta das tendas, como uma sebe de guerra, os cavalleiros cravaram as lanças pelos cantos ficando os ferros luzindo como estrellas.

Os pastores, esgueirando-se na sombra, procuravam chegar ao acampamento para vêr de perto os chefes da hoste que com tanta grandeza se movia.

Um d'elles, mais ousado, foi descoberto por um grande negro que trazia ás costas, suspenso d'uma corrente, um dardo de ferro.

Sem tempo de fugir cahiu em poder do vigia que logo o conduziu á tenda mais sumptuosa, toda alfaiada de seda e purpura e nublada de aromatas.

Lampadarios de ouro illuminavam-na. A herva desapparecia sob tapetes altos, escudos lampejavam e, como o negro o impellisse, viu-se o pastor na presença de tres homens ricamente paramentados, com fotas na cabeça rutilantes de gemmas.

Eram magos das terras remotas.

Um alvo, a barba negra e farta espalhada no peito scintillante de pedrarias; outro da côr amarellada dos filhos das extremas da Asia; o terceiro negro, com immensas camandulas de ouro em volta do pescoço, braceletes nos punhos, argolas nas orelhas e na fronte alta, preso por um nastro, um diamante que coruscava.

O pastor ajoelhou-se e, medroso, esperava ouvir palavras severas, quando um dos homens tranquillisadoramente perguntou:

--Se sabia em que paço, por ali perto, nascera o rei dos judeus. O rustico, sem entender a pergunta, ficou arvoado, imaginando-se victima de uma zombaria. Lembrando-se, porém, dos anjos e de todos os prodigios da noite messianica, respondeu vagamente:

--Perto d'aqui nasceu--e os ceus festejaram o seu natal--um menino, filho de pobres, vindos de terras longinquas. Ainda lá está no mesmo tugurio, ao collo da mãi, que é uma linda moça, sob a guarda de um ancião veneravel. É bem perto d'aqui, na caverna do outeiro sobre o qual paira e brilha a estrella alada que appareceu no ceu.

Levantaram-se os tres homens--o pastor sahiu da tenda e, estendendo o braço na direcção do outeiro, disse:

--É ali, sob a estrella.

--Deve ser, disse o negro. E os dois outros concordaram. E, despedindo o pastor com uma bolsa de moedas de ouro, ficaram de pé, em silencio, contemplando adorativamente a estrella que resplandecia.

* * * * *

Adoração dos magos

Ao dealbar tronaram as buzinas e a caravana moveu-se em direcção á caverna.

A grande estrella ainda luzia no ceu.

Os magos seguiam á frente nos dromedarios e, em torno delles, nitriam, caracolavam os ginetes dos cavalleiros com os seus telizes dourados, os seus caparações de purpura.

Quando a turba defrontou com a caverna todos os homens apearam e, respeitosamente, com humildade de servos, deixando no limiar os papuzes marchetados, os magos penetraram zumbridos, como se fossem de rastos, levando nas mãos, devotamente, as pareas significativas.

Recebeu-os o patriarcha e, como a Virgem se levantasse, com Jesus ao collo, os tres homens prostraram-se de joelhos, descobrindo-se, depondo os turbantes, e, inclinando a cabeça, ficaram um momento em veneração silenciosa.

O primeiro falou offerecendo a myrrha.

--Homem, Filho de Deus, a arvore do deserto deu do seu tronco a resina que te offereço. O seu perfume é uma força que se oppõe á destruição da carne: eternisa o corpo como a Virtude eternisa o espirito.

O segundo inclinou-se com um escrinio cheio de ouro:

--Rei, as minas, onde rebrilham os veios rutilantes, deram a poeira que te offereço: ouro, symbolo do poder, chamma fria da terra. Tudo elle vence: a miseria e a propria Virtude. Desopprime e escravisa, redime e perverte, é o bem e é o mal. Nas mãos munificas é luz que aclara e salva; nas mãos crueis é chamma que consome.

O negro falou por ultimo com uma patena de incenso:

--A arvore instilla a lagrima que rescende, lagrima que, ao lume, converte-se em fumo e evola, demandando o ceu, como homenagem da terra.

Como lagrima, é uma concentração; como aroma, é uma oblata. É o incenso com que se glorificam os deuses. É a offerenda das terras negras ao Deus que redime.

Gente, que afluira á caverna, pastores e seareiros, mesteiraes, velhos, mulheres e crianças das arribanas proximas entraram e, diante da palha humilde, toda a grandeza e toda a humildade confraternisaram e tambem o sol, como enviado do ceu, adorando o Infante da Misericordia que baixara para cumprir as prophecias trazendo aos homens a religião do Amor.

E Maria, deslumbrada, sem ouvir as vozes glorificadoras, olhava, contemplava, adorava o pequenino Filho.

O sol cercou-os de esplendor e a Virgem, de pé no meio da turba, com Jesus ao collo, era o purissimo altar sobre o qual se mostrara ás gentes o Divino Perdão.

INDICE

Pag. A partida 5 O anjo 13 Lyrios 19 A refeição 25 A nuvem 31 Ao pôr do sol 39 A tentação 45 O milagre das lagrimas 55 Caminhando 65 O cégo 71 Dentro da noite 77 Presagio 83 Piedade 91 Cantico messianico 97 O campo de Booz 105 Na estrada de Bethleem 109 Na caverna 113 Natal 121 As tres virgens 129 O primeiro leite 135 Adoração dos pastores 141 Dôr 147 Receio 151 O somno 157 Palavras de Maria 161 As duas mãis 167 A estrella 175 Epiphania 179 Adoração dos magos 185

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