Part 2
Ceruleo clarão refulgiu celestialmente. Coalharam-se os ares de aves, armas lampejaram em meneio heroico e toda a turba templaria formou no atrium, ergueu um sonoro louvor e rojou-se de bruços, com um tinir argentino de armillas e braceletes. E um homem alto, alado, com dois cornos de luz purpurea ardendo-lhe entre os cabellos crespos, surgiu no limiar de ouro estendendo amorosamente os braços a Maria extatica.
A voz com que a chamou reproduziu-se em echo no silencio mystico; o seu olhar ardia e, em torno do seu corpo atorreado, relumbrava um halo como se o emmoldurassem chammas.
--Vem! O meu amor esperava-te ancioso. És a eleita de minh'alma. Chegaste no tempo em que as rosas florescem. As vinhas crespas dão fruto, as abelhas fazem o seu mel, o trigo redoura os campos, os lagos são açucenaes extensos.
Eu puz em ordem a natureza para as nossas nupcias sagradas. Vem!
A terra em que pisas nunca recolheu cadaveres. Entraste no reino da ventura eterna. Vem! E estendeu os longos braços que alumiavam como caudas d'astros.
Houve um clamor ovante feito com o nome suave de Maria e outro que ribombava e os cataphractos, levantando-se, a prumo, nos estribos, cruzaram as lanças formando uma abobada de scintillações.
José olhava, mudo e receioso, acolhendo ao peito a timida donzella. Um gallo cantou em alguma herdade proxima.
Instantaneamente, com uma surda explosão, toda a cidade maravilhosa e os seres que a animavam subverteram-se.
Os ares ficaram nublados de fumo, estryges chirriaram.
De novo reappareceram os campos rasos, ermos, estereis, calados, ao luar livido.
Maria, com o coração sobresaltado, murmurou:
--Que lindo sonho, meu senhor.
--Não foi sonho, Maria, tornou sombriamente o patriarcha. Vamos! Os lirios trescalam, os gallos cantam; é a madrugada que vem.
Puzeram-se a caminho.
E, pelos ares, contorcendo-se em furor, uma sombra alada fugia, enorme, monstruosa, com dois cornos que coruscavam.
* * * * *
O milagre das lagrimas
A estrada, a duas horas de Sichem, pelos montes, larga e suave, com acceitosas sombras de sycomoros e de amendoeiras, era toda orlada de anemonas vermelhas e de margaridas brancas e amarellas.
Os khans succediam-se sempre abrigados em hortos frondosos, com a cisterna ao lado ou perto de alguma fonte, com a alpendrada reverdecida pela vinha, debaixo da qual os mercadores, que desciam de Tyro ou do Libano ou subiam de Joppé, comiam uma febra de anho regando-a com o vinho fresco de Engaddi, emquanto os dromedarios soltos iam e vinham vagarosamente ou deitados, ruminando, cerravam os olhos nostalgicos á vivida fulguração do sol.
Casas miserrimas, de muros de lodo, cobertas de palha, confundiam-se com a ramagem dos eloendros, perdiam-se nos olivaes.
Caravanas desfilavam--os homens a cavallo, com as lanças altas, o albornoz ao vento; as mulheres em jumentos ou em carros, entre fardos e alcofas, agasalhando crianças sob as pontas dos mantos.
Por vezes um canto suave rompia da turba, rufavam tamboris, kinnareths vibravam, frautas desferiam e os cavalleiros alegres faziam caracolar os ginetes, as mulheres punham-se de pé nos carros olhando as muralhas que se aprumavam ao longe, fechando cidades, cujas casas, em cubos brancos, semelhavam tumulos.
José evitava os pousos, fugia aos rumorosos aduares, mettendo por atalhos para evitar a chacota da gente nomade.
Justamente atravessavam uma trilha deserta quando ouviram um choro triste e deram de rosto com uma moça morena que trazia nos braços uma criança inerte.
Pós ella uma pequenita, já com abundancia de flores, ainda varejava os mattos procurando anemonas.
Vendo-os, a misera susteve o pranto e, fitando em José os olhos rasos d'agua, perguntou:
«Se ainda distava muito Endor, onde vivia Baruc, o nazir, que conhecia a virtude das hervas e realisava curas maravilhosas. Vendera as suas ovelhas e levava oito cyclos de prata e um collar de ouro comprado em Jerusalem e, se tanto não bastasse, dar-se-ia como escrava pela saude do filho.»
José estendeu o braço na direcção do Levante:
--Era além, muito longe, atravez da montanha, num valle sombrio, a horas do Jordão.
Maria, commovida, quiz vêr o infante.
A mãi descobriu-lhe o rosto.
Era lindo!
Os cabellos rolavam-lhe em cachos louros, os olhos jaziam como dois mortos sob as cupulas tumbaes das palpebras, com os longos cilios repontando como a herva que viça no abandono.
A boca, de labios cerrados, livida, era como o leito secco de uma torrente que o sol exhauriu e estalou.
Não se movia e, tão rigido, tão frio estava que só a illusão do amor podia ainda emprestar-lhe vida.
A pequenita continuava a rebuscar anemonas cantando.
--Ides debalde a Endor com o vosso filho, disse commiserado o patriarcha, accrescentando: Baruc póde sarar enfermos, mas só Elias resuscitava os mortos.
--Quereis dizer que elle está morto!? exclamou a mulher tremendo. Se, ainda hontem, embalei-o nos braços... Se ainda estou com os peitos cheios de leite, manando copiosamente como as ribeiras das collinas.
Ai! de mim... Bem que eu não queria cantar a cantiga tristonha! Foi o canto triste que o fez fugir dos meus braços. Ai de mim!
Adormeci-o para sempre.
E agora? quem terá piedade da minha solidão? Era elle só...
Nasceu em noite de luar, finou-se em manhan de nevoa. E hei-de o deixar na terra justamente agora quando o inverno chega! Ai! de mim... A saudade mudará o leite dos meus peitos em lagrimas para os meus olhos. Pobre de mim! Coitada de mim!
E a moça deixou-se cahir á beira do caminho apertando nos braços o corpo do filho morto.
A pequenita continuava a rebuscar anemonas.
Maria inclinou-se compadecida sobre o cadaver e duas lagrimas da sua piedade rolaram na fronte gelida do defunto.
Logo abriram-se os olhos da criança. Eram azues, côr do ceu; renasceram-lhe as rosas das faces, os bracinhos inertes estenderam-se e, lindo, com o esplendor da vida, o pequeno sorria afogando a cabeça no collo materno.
O espanto emmudecera, immobilisara a moça.
Subito, ergueu-se com um grito d'alma, poz-se a rasgar a tunica na pressa sofrega de amamentar o filho.
Os peitos saltaram tumidos. O pequeno abocou avidamente e a mãi, sentindo-o sugar, contente e com lagrimas, ajoelhou-se e, d'olhos no ceu, ficou como petrificada.
Maria chorava por vêl-a chorar venturosa e, como as suas lagrimas cahissem na terra, a pequenita não teve mãos para colher as flores que nasciam, brotando como acima d'agua borbulham, ás mil, as bolhas de ar.
* * * * *
Caminhando
Maria caminhava em silencio, pensando naquella mãi que, repentinamente, passára da maior desventura á maior felicidade pelo prestigio das lagrimas misericordiosas.
--O pequenito dormia e a pobre mãi tinha-o por morto. Foi bastante que eu lhe tocasse para que logo abrisse os olhos.
--É que o despertaste, disse o patriarcha sem alludir ao prodigio que testemunhara.
Elle ia notando, com discreta reserva, todas as maravilhas que se realisavam á passagem da Virgem: ribeiros que sustavam o curso offerecendo o leito enxuto para a travessia; arvores que se cobriam de flores, carregavam-se de frutos vergando generosamente os galhos; vozes que murmuravam; veios limpidos que rebentavam das pedras e, durante os curtos somnos da donzella, não lhe passavam despercebidos anjos que rondavam em torno dos bosques pisando, de leve, os caminhos avelludados.
A mais e mais se lhe firmava nalma a certeza de que as palavras que ouvira em sonho haviam sido pronunciadas por um mensageiro do ceu.
Aquella era, em verdade, a eleita da Divina Graça, a Virgem pura de Judá, da qual devia nascer o Messias das gentes.
Elle acompanhava-a, não como esposo e sim como servo, adorando-a de joelhos quando a via adormecida.
Ella ignorava tudo. Sabia apenas que era mãi porque sentia no seio os movimentos do Sêr Perfeito, no qual concentrava todo o seu amor.
Já lhe crescia o collo, pesando, arredondado e turgido.
O amor preparava o alimento para Aquelle que se nutria de mysterio.
--As mãis soffrem tanto pelos filhos!... O amor das mãis é como a rosa que cresce entre espinhos. Praza aos céus que meu filho não soffra emquanto fôr pequenino.
As crianças não falam, não atinam a indicar onde lhes punge a dôr, de sorte que a gente não sabe como as ha de alliviar quando soffrem.
--As mãis adivinham.
--São tão fracas as criancinhas que tudo é perigo em torno dellas. Tremo quando penso no meu pequenino filho que vai nascer, tão franzino e tão pobre. Onde o agasalharemos nós?
--Entre os nossos braços, como os passaros resguardam o ninho entre os ramos.
--E o frio?
--Temos o nosso calor.
--E a fome?
--Os peitos maternos são dois celleiros sempre cheios.
--Haveis de amal-o, senhor, e ajudar-me emquanto elle carecer de nós?
--Por ti, por Elle, por todos, disse José enlevado.
Chegavam a um bosque de tamareiras, onde havia uma cisterna cercada de musgo.
Um velho cégo repousava á sombra, ouvindo cantar uma criança que brincava sentada nas folhas seccas.
* * * * *
O cégo
O velho era de Jerichó.
Esperava naquelle retiro a passagem das caravanas que se encaminhavam a Jerusalem e sempre recolhia uma azinhavrada moeda, um punhado de tâmaras ou um esgarçado albornoz em que se enrolava, bemdizendo, com palavras humildes e agradecidas, a generosidade dos homens, recommendando-os ao deus de Abrahão, de Isaac e de Jacob e indicando-lhes os melhores e mais seguros caminhos pelos montes.
José ajuntou as folhas espalhadas e fez uma alfombra onde Maria adormeceu revendo, em sonho, a sua alegre Nazareth, as moças á beira da fonte, os pastores nos cerros, á hora macia da tarde, quando as cotovias baixam e desapparecem nas searas e as aguas das levadas cantam.
Conversaram os dois velhos--José falou da sua viagem, o cégo falou da sua cegueira.
--Estava assim desde moço, um raio cegara-o no campo, sob um sycomoro. Já se habituara á treva como um prisioneiro que se houvesse acostumado ao carcere.
Um magico de Suza offerecera-se para cural-o. Pedira cem drachmas, baixara a cincoenta; faria por vinte se elle lh'as offerecesse.
Tinha ainda a sua cabana e ovelhas, vendendo-as reuniria a somma, mas, pensando, resolvera deixar-se ficar na cegueira. E suspirou:
--Illude-se quem julga que, ao voltar aos antigos lugares, encontrará as coisas como deixou: as proprias pedras modificam-se e não são varias como as almas.
Quando me annunciaram a morte de meu filho, pedi que me puzessem junto do cadaver, apalpei-o, beijei-o; ouvi os passos dos que o levaram a enterrar, mas não vi o enterro.
Ouvi o estrondo da queda do cedro que cobria de sombra a minha eira e, ainda hoje, vou sentar-me no sitio em que elle avultava e sinto-me agasalhado pela ramagem que não existe e ouço a alegre voz dos passarinhos de outr'ora.
As coisas foram desapparecendo uma a uma, eu mesmo envelhecia, mas a cegueira conserva a visão do passado.
O sol parou para mim na mocidade como parou sobre os muros de Jerichó á voz do batalhador.
Vejo dentro de mim tudo quanto deixei: as gentes, os animaes, as arvores, os lugares com as suas cabanas e os seus campos floridos.
Sou como a ave aprisionada, de pequenina, em uma gaiola, que não olha senão a limitada paizagem que fica em torno da sua vivenda triste. Soltai-a, esvoaçará atordoada e, se não regressar á prisão, morrerá de fome perdida nas florestas frondosas, se não cahir nas garras dos abutres.
O homem de Suza queria dar-me a liberdade. Para que? para eu morrer de saudosa tristeza sentindo o deserto em volta de mim? Não!
Vivo no passado, o meu tempo já foi.
Não caminho para a morte, espero-a, sentado no limiar da mocidade, ouvindo o rumor do tempo devastador, sem vêr os desastres, sem vêr as lagrimas, sem vêr os enterros.
Perdi-me dos meus, dei em uma furna e nella vivo. Já agora estou habituado á sombra. Para que hei de sahir se, lá fóra, só me esperam ossadas? Se o proprio Deus me offerecesse a luz eu lhe pediria a morte.
Voltar atraz...! A herva cresce, o vento revolve a areia desmanchando as nossas pegadas.
O campo, que conhecemos florido, mudou-se em carrascal; a gente envelheceu ou morreu. Só ha um meio de não caminhar chorando--é seguir sempre em frente e se eu recobrasse a vista teria de retroceder e cegaria de novo com os olhos afogados em lagrimas. Aonde vos dirigis?
--A Bethleem.
--Casa do pão. É ali que deve nascer o Annunciado. Casa da abundancia, celleiro do Senhor, Bethleem da fertilidade! De lá é que nos ha de vir o Messias. O campo de Booz dará o trigo que ha de fartar as almas.
--É para lá que vamos.
--Que as estrellas vos sejam propicias, como fôram a Ruth, a moça de Moab.
* * * * *
Dentro da noite
Maria abriu os olhos quando as estrellas nasciam.
O cégo já havia partido levado pelo menino. As cigarras cantavam vesperas.
José empunhou o cajado: Maria deixou o leito agreste, e seguiram.
As ultimas chammas do sol apagavam-se no occaso e a nevoa polvilhava os ares como uma cinza.
Monstruosos penhascos, talhados a pique á beira de precipicios, avultavam temerosamente na sombra.
Palmeiras debruçavam-se sobre as rampas. Toda a vegetação contorcida, com as raizes á flor da terra, agarrando-se nervosamente ás arestas dos penhascos, parecia receiar aquelles despenhadeiros de onde subia atroadoramente um escachôo soturno d'aguas constrangidas.
Escurecia. Os montes áridos da Judéa apresentavam-se hostis aos peregrinos.
Os caminhos, aos torcicollos, confundiam-se augustos, escavados em brocas, eriçados d'aspas calcareas, orlados de intonsos espinheiros que, ás vezes, como garras, detinham os viajantes pelas tunicas.
Estryges voavam, pousavam nos ramos, nos penedos com gritos lugubres.
José caminhava a passo cauteloso, sondando o piso com o cajado, detendo Maria, buscando tranquillisal-a com palavras carinhosas.
Mas a treva adensava-se a mais e mais, os roçados confundiam-se com a sombra. Julgando seguir a trilha direita, o patriarcha estendia a mão e sentia a aspereza das penhas.
--É imprudencia insistirmos em proseguir em tal escuridão, disse Maria com medo. É Deus que nos retém.
José deteve-se. Parecera-lhe ter ouvido vozes, rumor de passos, estalos de ramos seccos, como se viessem outros caminheiros. Escutou attentamente.
Era o vento que agitava o folhedo e eram as aguas profundas que referviam nos algares.
Mas um clarão suave accendeu-se no fundo espesso do arvoredo. Quem seria? Encolheram-se os dois, olhos fitos na claridade, que se adiantava como a luz de um facho.
Uma centelha passou na escuridão, outra gyrou nos ares, as folhas, os ramos das arvores ficaram incrustados de brazas.
Surgiram da terra, saltaram das rochas, subiram dos desfiladeiros, a espessidão estrellou-se e todas as fagulhas, unindo-se, formaram uma rutila umbella pairando sobre Maria e José como a nuvem seguiu Israel guiando-o luminosamente pelo negror das noites no deserto.
Eram pyrilampos que voavam em ordenada phalange alumiando os caminhos obscuros.
E os dois, sob o relume dos insectos, continuaram a viagem dentro dum reverbero que só ao clarear d'alva desappareceu nos ares.
* * * * *
Presagio
O ceu, d'um azul transparente, ia-se, aos poucos, illuminando.
Os montes, em recortes rigidos, calvos, com a pedra exposta, a reluzir de humidade, ou eriçados de hispidos mattos, resaltavam em aspero, mordente relevo, com os cimos resplandecendo sob uma nevoa de ouro.
Docemente baliam placidos rebanhos.
As casas abriam-se; homens, ainda estremunhados, vinham ás portas, bocejavam lançando por entre as barbas um halito brumoso.
Sentia-se a visinhança de Jerusalem pelo maior numero de casas, pela abundancia de gado nos valles verdes, recortados de veios d'aguas. Burricos trotavam com alcofas e ceirões de frutas.
Risos crystallinos annunciavam crianças; ouvia-se um estrepitante chapinhar e, á volta de um caminho, no claro remanso de uma ribeira, sob a acenosa ramagem do salgueiral, meninos nús saltavam, atiravam-se de mergulho, aos gritos alegres, flagellando a agua com ramos ou pendurando-se, a rir, dos galhos inclinados.
Nos campos, a espaços, alvejavam sepulchros; ovelhas pastavam em torno, pombos cercavam-nos em revoada arrulhante.
Por entre a palha das choças esfiava-se o fumo azul.
Já os moinhos trabalhavam e junto aos immensos lagares, onde se pisava a azeitona, reluziam, em fumeiro, montes de bagaço oleoso.
Maria, que caminhara contente até aquellas paragens, á medida que avançava, sentia apertar-se-lhe o coração em presagio funesto.
Olhava anciosa os longes dos horizontes.
Tudo era calmo. A paizagem estendia-se acceitosa, cortada de muros de hortos, toda verde, bem differente dos desolados ermos que ella deixára.
Todavia a tristeza empannava-lhe os olhos, enchia-lhe o coração e já transbordava em lagrimas.
Vendo-a chorar, José perguntou com meiguice:
--Sentes-te fatigada?
--Não, meu senhor: voltaria a Nazareth sem parar, se pudesse.
--E porque choras?
--Não sei. O coração aperta-se-me, um grande medo invade-me, constrange-me. Tremo e sinto-me gelar. As proprias flores causam-me horror. As anemonas parecem-me chagas que sangram. Tenho medo, um grande medo, como se fosse caminhando para a morte. Que tumulo é aquelle que apparece além, tão alto, tão negro, sob o vôo dos corvos?
José seguiu com o olhar a direcção do gesto de Maria.
--O que vês são as muralhas de Jerusalem, onde chegaremos antes do pôr do sol.
--Além das muralhas, aquelle tumulo negro, tão triste, onde agora o sol brilha.
Uma velha, trazendo um jumento pela arreata, sahiu ao caminho vagarosa.
José saudou-a, a velha sorriu á Maria abençoando-a e a Virgem, escondendo a tristeza num sorriso, perguntou-lhe:
--Que tumulo é aquelle, além! tão alto, dentro dos muros da cidade? Os corvos rondam-no, deve haver mortos ali.
--É um monte, disse a mulher.
--Um monte! repetiu Maria surprehendida.
--O Golgotha. O outro é o Goreb.
--O Golgotha! suspirou a Virgem e, depois de um silencio dolorido, deixando-se cahir sobre as hervas, desatou a chorar convulsamente. A velha animou-a, teve palavras inuteis de consolo e alento. José assentou-se-lhe ao lado e, tomando-lhe as mãos frias, alisando-lhe os cabellos humidos de orvalho, perguntou-lhe:
--Que tens? Ella não poude responder. Levantou-se e, resignadamente, de olhos baixos, contendo os soluços, poz-se, de novo, a caminho, em direcção á cidade branca e atorreada, ao sol.
* * * * *
Piedade
Com um rebanho que recolhia levado por um pastor coberto de pelles, as pernas enroladas até os joelhos em vello sórdido, entraram em Jerusalem pela porta do mercado, á hora em que as buzinas romanas troavam nas torres.
José procurava distrahir Maria mostrando-lhe as grandes bellezas, a magnificencia da cidade; nomeava os edificios, alguns longinquos, esfumados nas primeiras sombras da noite.
A Virgem, porém, seguia calada, sem animo de levantar os olhos, o coração cerrado em tristeza invencivel.
Gentes diversas cruzavam-se nas ruas: homens abaçanados do deserto, com o albornoz ao vento, o punho esmaltado das adagas reluzindo á cinta; phenicios cobertos de jóias, com enormes collares de contas de ouro e braceletes de marfim; gregos ágeis passando ligeiros entre a multidão, com a tunica colhida ao braço, as pernas enlaçadas em tiras de couro.
Mulheres mostravam-se ás portas das casas, encostadas languidamente aos umbraes, olhando em extase, com um sorriso nos labios côr de purpura.
A algumas viam-se-lhes os peitos pela abertura das tunicas; outras, reclinadas em leitos marchetados, cerravam mollemente as palpebras gosando o frescor dos flabellos que escravas agitavam.
Errava no ar denso um cheiro forte de aromatas.
Estranhas musicas soavam e, como os albergues estavam cheios, era um babariso alegre sob as frescas latadas, por entre as quaes, em corridinha airosa, moças iam e vinham com amphoras e crateres.
O pastor falara-lhes em uma modesta estalagem em Bezetha, para o lado do forte, onde podiam encontrar agasalho seguro.
A casa era dirigida por um velho de Siloeh e tinha, fama pelo seu anho tenro e pelo seu vinho puro. Lá achariam pousada e, como ficava longe e não recebia mulheres, não seriam incommodados pelos legionarios que, á menor agitação, invadiam as casas brutalmente levando tudo a conto de lança.
Era um rancho pauperrimo, entre sebes de espinhos, onde aboletavam-se mesteiraes e homens dos montes que traziam ao mercado favos de mel, resinas, balsamos e raizes.
O velho acolheu-os de boa sombra, serviu-lhes a refeição na sala lobrega que uma candeia alumiava.
Rusticos bebiam, jogavam e fóra, junto a um monte de pedras, um velho resmungava raspando, com voracidade, o fundo de uma escudella.
Era um leproso nojentamente abostellado de ulceras.
Ás chufas dos homens, que lhe atiravam cascas, bagaços de frutas, respondia aos regougos, bramindo maldições e, como prorompesse aos berros, apanhando pedras para defender-se, os homens revoltaram-se.
O hospede tranquillisou-os e, sahindo ao terreiro, poz-se a assobiar.
Enorme cão saltou da sombra rosnando, o taverneiro açulou-o contra o leproso que se encolhera estarrecido.
Vendo o cão investir, Maria cahiu de joelhos, juntou as mãos frias e, tremula, d'olhos no ceu, implorou pelo infeliz.
O animal raivava, aos saltos; os homens vociferavam incitando-o. Alguns riam no ante-gosto da scena cruel, mas como o leproso, tentando correr, tropeçasse rolando na terra e ferindo o rosto no pedregulho, o cão, que o alcançara, poz-se a ganir e, sacudindo a cauda, ficou de rastos, lambendo mansamente o sangue que escorria da cicatriz do mendigo.
E Maria, extactica, não via a doce misericordia que immobilisara em espanto os hospedes do albergue.
* * * * *
Cantico messianico
Ao romper d'alva quando, do lado do templo, as cegonhas partiam em direcção ao deserto e as pombas baixavam em nuvens sobre o mercado catando o grão que transbordava das ceiras, o patriarcha despertou Maria e, ligeiros como foragidos, deixaram a estalagem com os votos de boa jornada do hospedeiro. As buzinas romanas resoavam na serenidade.
Legionarios recolhiam cançadamente a Makéros.
Pobres, que haviam pernoitado ao relento, estremunhavam sobre farrapos.
Num pateo, entre muros de maceria, espontado de hervas sylvestres, mugiam bois e homens bradavam.
Corvos rondavam os ares attrahidos pelo cheiro do sangue.
Quando passaram as muralhas, sahindo no campo do oleiro, o sol brilhava nas pastagens humidas e passarinhos cruzavam o vôo cantando na alegria do sol.
Maria caminhava d'olhos altos, como enlevada. Ineffavel sorriso illuminava-lhe o rosto lindo, arrepios nervosos sacudiam-na de instante a instante.
--Lá está Bethleem! disse José estendendo o cajado na direcção dos montes ainda enfaixados em nevoa.
Maria empallideceu e, d'olhos fitos nos outeiros graciosos da terra de David, rompeu, de repente, a cantar, sobre uma antiga melodia hebraica, repetindo inspiradamente as palavras que lhe sahiam d'alma:
«Espirito Perfeito, ancia das almas miseras, se és Tu que em mim assistes, bemdita seja a carne fragil em que te encerraste e de onde deves romper, germen da Redempção, em Flor de Misericordia.
Espirito Perfeito, lume que de mim fizeste a Tua lampada, que o Teu clarão espalhe-se pela terra fazendo brotar a sementeira nos campos e o Amor no coração dos homens.
Espirito Perfeito, fonte de copiosas aguas bemfazejas, se é do meu seio que vais jorrar, bemdita seja a Dôr que me lançou na vida, bemditas sejam as lagrimas que já por Ti hei vertido.
Espirito Perfeito, esperança dos desanimados, se eu sou o ramo verde que Te hei de dar, bemdita seja a afflicção de minh'alma na hora atormentada em que, innocente, me julguei culpada e, pura, vi a suspeita manchar a minha virgindade.
Espirito Perfeito, se És a Redempção annunciada, bemdigo a Tua vinda, sem orgulho, por me haveres tomado por Teu trámite e prostro-me ante a Tua Graça e exalto a Tua Beneficencia.