Part 1
Produced by Pedro Saborano
MYSTERIO DO NATAL
DO MESMO AUCTOR
Esphynge, 1 vol. . . . . . . . . . 600 Sertão, 1 vol. . . . . . . . . . . 600 Agua de Juventa, 1 vol. . . . . . 700 A bico de penna, 1 vol. . . . . . 700 Romanceiro, 1 vol. . . . . . . . . 500 Jardim das Oliveiras, 1 vol. . . . 500 Fabulario, 1 vol. . . . . . . . . 500 Miragem, romance, 1 vol. . . . . . 600 Theatro, vol. 1.º . . . . . . no prélo Theatro, vol. 2.º. . . . . . . . . 400 Ouebranto (Theatro), vol. 4.º. . . 500 Apologos, 1 vol. . . . . . . . . . 500
No prélo, a seguir em novas edições:
Inverno em flor. . . . . . . . . 1 vol. O Rei phantasma. . . . . . . . . 1 vol. Capital federal. . . . . . . . . 1 vol. O morto. . . . . . . . . . . . . 1 vol. O paraiso. . . . . . . . . . . . 1 vol. O Rajah de Pendejab. . . . . . . 2 vol. A Conquista. . . . . . . . . . . 1 vol. A Tormenta. . . . . . . . . . . 1 vol. O Turbilhão. . . . . . . . . . . 1 vol.
Coelho Netto
COELHO NETTO
MYSTERIO
DO NATAL
PORTO LIVRARIA CHARDRON De LELLO & IRMÃO, editores RUA DAS CARMELITAS, 144 ---- 1911
O "Accordo" assignado no Rio de Janeiro em 9 de Setembro de 1889, entre o Brasil e Portugal, assegurou o direito de propriedade litteraria e artistica em ambos os paizes.
A presente edição está devidamente registada nas Bibliothecas nacionaes, de Lisboa e Rio de Janeiro.
PORTO--IMPRENSA MODERNA
* * * * *
A partida
Era a hora silenciosa e triste do crepusculo.
Abrumados de ouro os montes, em duros perfis, esmaltavam de negro o horizonte abrazado. Abriam-se as primeiras estrellas. Subiam da terra, como o fumo das aras, pannos alvos de nevoa.
Pelos caminhos esbarrondados, em aspero acclive, beirando grotas espontadas de cardos, cantaro ao hombro, as tunicas arrepanhadas á cinta, desfilavam donzellas conversando e rindo.
Juntas, em passo miudo, trepidando nas pedras, com um cheiro de suarda e de silvas, passavam nas trilhas ovelhas em rebanhos. Um rude e mazorro pastor seguia-as cabisbaixo.
Esbatiam-se as nuvens de ouro quando José e Maria appareceram no limiar da casa promptos para a longa jornada, por valles e montanhas, em direcção á terra farta de Bethleem onde iam cumprir a lei de Augusto.
Fechada a porta ainda demoraram um instante sob a vinha, contidos pela saudade.
O homem, por fim, decidiu-se, tomou a frente, vagaroso, pensativo e logo, limpando os olhos que as lagrimas nublavam, a donzella seguiu.
Elle grisalho, alto, robusto, ainda que um tanto curvado pelo pendor constante em que vivia, sempre inclinado sobre o lenho do officio, falquejando-o, acepilhando-o, dando-lhe fórma e lustro. Ella, mean de altura, fina e fragil.
Suavemente morena, os olhos grandes e tristes eram dum limpido verde d'agua, e como dois lagos purissimos num areal, ao sol; e os cabellos, escapando-se do cairel do manto, punham-lhe na fronte uma frisa de ouro.
Mal se lhe adivinhava o collo abotoado.
Os pés, alvos e pequeninos, assentavam em sandalias e toda a sua riqueza consistia em um par de braceletes de marfim que lhe cingiam graciosamente os pulsos finos.
Trilhando a estrada que ia ter á fonte e seguia direita aos campos, paravam para falar ás moças, companheiras e amigas de Maria, para corresponder á saudação dos homens, para attender ás crianças que deixavam os seixos tomando-lhes o passo, pedindo que lhes trouxessem das terras de além conchas, como as de Ascalon, que conservam no bojo o soluço das ondas.
E Maria, commovida, chorava sobre o sorriso.
Os campos toldavam-se de bruma e as oliveiras de pallida folhagem faziam no recosto das collinas como estendaes de nevoa.
Ainda havia quem trabalhasse a leira na ancia do fruto. Chiava um carro de lavoura, o guieiro afalava aos bois animando-os no lance abrupto de uma rampa.
Chegando ao planalto esteril, que dominava os horizontes e onde o vento zunia, os viajantes fizeram uma parada olhando em redor o redente dos montes.
Lá ficava Nazareth no valle feliz, com o seu casario, em cubos brancos, como um pacifico rebanho adormecido.
Ao longe tudo era carregado e lugubre.
A noite chegava primeiro ás alturas.
Isolado, com a lua pairando acima do seu viso, o Thabor era como um peito de gigante de onde houvesse espirrado aquella gotta de leite.
Maria ignorava o mundo. Nunca houvera passado além da fronteira da terra natal. Alongando os olhos pela vastidão que a vista alcançava, montes, varzeas, esplanados desertos tristes, sentia-se mesquinha e com medo.
Voltou-se, ainda uma vez, para olhar o tranquillo recanto em que sempre vivera em pobreza e virtude. Mas a noite baixára; raros lumes picavam a tréva. Ouvia-se vago murmurio, como escachôo d'aguas, subindo do fundo obscuro onde jazia a cidade. Sahiu-lhe do coração um suspiro maguado:
--Onde fica Bethleem? José levantou o braço e estendia o cajado na direcção da terra de David, quando uma estrella fulgurou, illuminando radiosamente o ceu profundo.
--Ali! disse o patriarcha, numa voz que tremia, comprehendendo, maravilhado, que aquelle astro surgira dentro da noite como uma resposta de Deus á moça predestinada.
* * * * *
O anjo
A noite, profundamente escura e fria, atravessada de vento, atroava o fragor de ramagens estortegadas e d'aguas precipitosas que se despenhavam, aos jorros, pelos algares. Nas chans ainda o transito era facil, sem o varejo da ventania que repulsava os caminhantes, como a impedir-lhes a marcha; mas nas gargantas, entre alcantis, as lufadas, abocando á entrada, esfusiavam desabridas, uivando com a furia de alcatéas famintas em ronda céva, a fariscar redis.
Todas as estrellas haviam-se apagado, apenas rutilava, enorme, como lumareu de vigilia em torre, a que surgira e brilhava sobre Bethleem.
Os passos estrepitavam nos seixos, estalavam nas folhas e no ramalho secco.
Um ramo que bolisse, o lento defluir de um fio d'agua por entre pedras levantavam ruidos temerosos.
Ás vezes José detinha-se, hesitante na bifurcação de duas trilhas, mas pouco durava a duvida porque uma das veredas ennegrecia ainda mais, ao passo que a outra rutilava fulgida, como calçada a diamantes, offerecendo-se, clara e segura, aos peregrinos.
Como entrassem em sinuosa e esgalgada passagem, murada de rochas anfractuosas, eriçada de agaves e echoando como o ambito de uma caverna, ouviram leve, frouxo ruido como de esfrolar d'azas.
Uma aguia, talvez, que acordara em algum teso e de pé, attenta, alargando as azas, ficára em attitude hostil prompta a arremetter em defeza do ninho.
O patriarcha, acolhendo a esposa meiga, cujas faces pareciam de neve, apertou com força o cajado e levantou os olhos.
Maria, sentindo o perigo, tartamudeou, timida e tremula, uma oração ao Senhor. O receio de um ataque em sitio tão desolado, longe de toda habitação, onde nem choça de pegureiro havia, deteve o homem.
Os corações batiam. Nella era o pavor do desconhecido, o grande medo tragico das sombras do Scheól, que erram, á noite, pelos descampados; nelle era temor por ella.
Não falavam, de olhos muito abertos, quietos, immoveis como os rochedos que os emparedavam.
De repente um clarão fulgurou. A passagem illuminou-se, as pedras scintillaram e as palmouras dos cardos ficaram como de prata. E elles viram uma grande luz á flor da terra e clareando as rochas.
Aves despertando galreavam festivamente o canto da madrugada.
Levantando o olhar viram os dois a fonte do esplendor. Era um anjo que os precedia, ora trilhando os caminhos, ora voando acima das rochas, pousando nos alcandores quando o lento e fatigado andar de Maria retardava a marcha.
A virgem sorria de enlevo e José, tolhido de commoção, não se atrevia a encarar o guia resplandecente, cujo reflexo abria na terra um clarão de luar. E as azas aflavam docemente no silencio.
A virgem reconheceu no anjo o mancebo que a saudára com as palavras mysteriosas, cuja promessa cumpria-se e José reviu o divino emissario que lhe apparecera em sonho, sob a figueira do horto, defendendo a innocencia de Maria, em cujo seio, cemo em corolla de flor, a Graça perpassava em genese immareavel, fecundando-o como o sol fecunda a leiva, eternamente pura.
* * * * *
Lyrios
Clareava.
Manhan opáca, envolta em bruma que algodoava a terra, fluctuando com um lento ondular, fluindo em frouxeis alvissimos como pennugem, esgarçando-se, diluindo-se em fumo tenue que se esvaía no ar silencioso.
A espaços frondes boiavam, ramarias exciduas irrompiam.
Ouvia-se o lentejo lacrimoso das folhas orvalhadas.
A terra dava-se avaramente, a trechos curtos, á medida que os viajantes avançavam e o caminho percorrido, como os dias da vida, eram logo fechados em branco pelos nevoeiros.
Branco era tambem o ceu e triste, pesando sobre a terra, tão baixo que as nuvens, por vezes, envolviam os peregrinos.
Passaros piavam nas taliscas, occultos; vozes de gado, longinquas, evocativas, annunciavam casaes.
Maria tiritava.
A tunica pesava-lhe nos hombros, humida, e as faces, rorejadas, tingiam-se em duas rosas como se as flores, transidas, houvessem procurado abrigo ao calor carinhoso daquella mocidade pura.
José distrahia a companheira falando-lhe dos lugares que iam atravessando.
Todos aquelles atalhos tortuosos, aquelles carreiros invios haviam sido, em tempos remotos, trilhados por patriarchas.
Ali haviam-se travado batalhas sanguentas; ali alvejara a tenda, crescera, em louro estendal, o trigo, retorcera-se a vinha, pastara o armento, correra o azeite, fundira-se o ferro, britara-se a pedra, cosera-se o barro sob as vistas de Iaveh omnipotente.
Por ali andara Elias trovejando oraculos. Judith afiára o gladio libertador nas arestas daquellas penhas.
Em poeira de ouro foi-se mudando a nevoa: era o sol.
Já apparecia uma nesga de azul; arvores, moutas destacavam-se: a mortalha rasgava-se para a resurreição.
Alegremente as aves, em claras vozes, cantaram a victoria da Luz. E Maria, contente, d'olhos em extase, esperava o astro annunciado pela fulguração das nuvens.
Num recanto, entre mirradas arvores de troncos retorcidos, uma agua escura e quieta reluzia.
Pedras negras, cobertas de limo, escondiam-se sob ramos acenosos.
Maria, sentindo a dobrez da fadiga, os olhos pesados de somno, sentou-se tão perto d'agua que toda ella reflectiu-se na superficie espelhenta.
Viu-se sem vaidade, com a mesma innocencia com que se revê o passaro e, num momento, infantilmente, mergulhou, até o punho, as mãos ambas no paul.
Quiz José reprehendel-a, vendo-a, porém, sorrir, sorriu tambem.
Gottejando sahiram as pequeninas mãos da agua que tremia.
Olhavam os dois os circulos que se abriam quando viram duas flores subirem á tona, brancas, abertas em cinco petalas, erectas em finas hastes, como se o reflexo das mãos da Immaculada se houvesse materialisado em memoria da ablução ligeira.
Eram lirios e trescalavam.
Virtude, brilho das almas, que importa que desças á vasa? és impermeavel como a luz, purificadora como o raio de sol.
Não perdes a limpida pureza e, se entras no Vicio, fazes desabrochar a Graça; se afundas no Crime, tiras o arrependimento.
O pantano era lobrego, coberto de folhas mortas e as mãos de Maria, só com o aflorarem, tanto o purificaram que delle nasceu o lirio sem macula, symbolo formoso e candido da innocencia.
* * * * *
A refeição
Suave som de frauta pastoril deu a Maria o encanto de uma egloga. Voltou a cabeça dourada e viu o rebanho que se aproximava em vagaroso passo.
Trazia-o um menino, guiando-o por entre as hervas de aroma. Um lindo menino, tão alvo que não despedia sombra, como as neves que os raios do sol atravessam; tão louro que a sua cabeça alumiava.
Vinha a frauta soando em suaves accentos e attrahidas, enlevadas na musica, abelhas voavam em volta do pastorinho, que assim apascentava dois rebanhos: um pela terra verde, outro pelos ares claros.
Ergueu-se Maria e, sem dizer palavra, olhando os ubres apojados das ovelhas, deu a sentir o seu desejo.
Como devia saber aquelle leite que era a metamorphose das flores dos silvados! Como devia rescender na boca e aquecer e fartar!
Calou-se a frauta e o menino, fitando os olhos meigos no casal errante, como se de muito o conhecesse e amasse, deteve-se, e os animaes pararam.
Ficou o rebanho unido, tão junto que não fazia mais que um vello e as abelhas, zumbindo, puzeram-se a esvoaçar em torno dos lirios alvos.
José adiantou-se e, offerecendo um obulo ao menino, pediu-lhe um pouco de leite. Sorrindo, o pastorinho tomou o tarro que trazia ao flanco.
Logo, entre as ovelhas, houve um movimento ancioso. Balavam todas offerecendo as tetas refertas, atropelavam-se, saltavam querendo, cada qual, ser a escolhida e o pastorinho brandamente as afastava.
Foi á primeira, ordenhou-a. O leite esguichou em fio; outra chegou, depois outra e a todas elle attendia para que nenhuma ficasse preterida.
Já a espuma fervia crescendo em flor, transbordando do vaso e as ovelhas festejavam-se contentes.
Sorrindo, aceitou Maria a offerta do zagal; bebeu a lentos goles, saboreando. E foi a vez de José.
Refeito, o patriarcha insistiu na dádiva da moeda, mas o menino negou-se a recebel-a:
«Que era um pouco de leite? Qualquer pastor faria o mesmo.»
Saudou-os, e, pondo-se á frente das ovelhas, levou a frauta aos labios.
Os sons vibraram. Lento e manso o rebanho proseguiu. Foi então que Maria viu que as abelhas, tantas que occultavam os lirios, deixavam as flores voando á musica da frauta.
--Lindo pastor! Lindo rebanho! disse, enlevada, a Virgem. Mas logo, referindo-se ás abelhas que fugiam, perguntou a José: Que terão ellas buscado nas flores d'agua?
--O arôma e o néctar, explicou o patriarcha.
Chegaram-se os dois ás flores e viram, maravilhados, que estavam cheias de mel crystallino e louro como o ambar precioso e tão perfumado como se contivesse toda a essencia das flores.
Tomou José um dos lirios e deu-o a Maria; a Virgem offereceu-lhe o outro. Depois, deliciados, contemplaram-se felizes.
--A frauta já não sôa, vai muito longe o pastor, disse Maria.
--Vai muito longe! repetiu José contricto, levantando os olhos para o ceu, como se procurasse nas nuvens o pastorinho louro e as ovelhinhas brancas.
* * * * *
A nuvem
Sob a irradiação do sol a terra secca abrazava, exhalando um bafio de rescaldo.
Triste, flagellada Samária pagan!
Os deuses do Garizin, depois da destruição do templo, pareciam haver desertado o monte onde os homens subiam a retemperar a fé, de onde manava a seiva que se infiltrava nos campos e mantinha vivas todas as fontes, entre rochas humidas.
Ermo o sagrado monte, esquecido o santuario antigo, as lavouras mirraram e um sol mais árdego crestou as hervas, sorveu as aguas outr'ora copiosas.
Nem as torrentes ligeiras conseguiram, fugindo, escapar á inclemencia e os leitos dos corregos, em lodo secco, estalavam, fendiam-se em gretas fundas.
Um fio d'agua rastejava nos lugares que, antigamente, rios largos alagavam.
Das fontes restavam apenas as pedras calvas sobre areias torridas onde viboras esfusiavam, entaliscando-se ao rumor de passos.
De ponto em ponto uma cisterna funda offerecia ao caminhante a sua agua salobra.
Ás vezes o terebintho forte sombreava-a ou figueiras e mimosas formavam-lhe em torno um bosque ameno.
Mas os trilhos, arenosos e pedrentos, eram apenas habitados pelo cardo que esgalhava os ramos espinhosos, abertos em feridas, feios, disformes como aleijões. Não se ouvia cantar um passaro--só o gypaeto atravessava o espaço fulgurante ou grandes aguias hostis, pousadas no cabeço das penhas, devassavam os arredores buscando o que prear.
Maria offegava seguindo o esposo. A areia escaldava-lhe os pés mimosos, o sol abrazava-lhe a cabeça.
Caminhavam como atravez de chammas, sem que os olhos avistassem um colmado, a grata ramagem duma arvore.
Ó terras férteis da Galiléa! valles alfombrados e frescos de tanta belleza por onde correm numerosos ribeiros claros. Ó Galiléa!
Tudo era desolação na tristonha Samária e o sol do outono queimava como nos incendidos dias estivaes.
Seria melhor esperarem a tarde, proseguirem com a brandura do crepusculo; mas a pressa que levavam não lhes permittia demora.
José, mais robusto e affeito a rigores, resistia; a Virgem, porém, começava a sentir-se atordoada: faltava-lhe o ar, os olhos ardiam-lhe.
--Chega-te á sombra do meu corpo, disse-lhe o patriarcha. Ella obedeceu. Mas o sol zombava da misericordia do amor e Maria continha as lagrimas, calava as dores dos delicados pés abertos em feridas, não querendo que o esposo soffresse com o seu soffrimento.
O sol subia, augmentava o calor e o animo da Virgem desfallecia quando uma nuvem cresceu acima do monte Ebal.
Era escura como os nimbus e apressava-se como impellida por um grande vento.
Barulho surdo annunciava-a, igual ao ronco soturno que precede as saraivadas de verão.
A terra entenebrecia á passagem obumbrada da nuvem, que vinha direita ao caminho trilhado pelo casal.
O ruido augmentava tornando-se como o escachôo das catadupas.
Detiveram-se os dois, pallidos, tolhidos de espanto.
Subito Maria sorriu:
--São pombas, disse. Eram, effectivamente, milhares de pombas azues que, muito juntas, formavam a nuvem escura. Pairaram, ficaram adejando sobre elles, com rumoroso arrulho, e o sol quebrava-se-lhes nas azas estendidas.
José baixou os olhos, dobraram-se-lhe os joelhos e a Virgem, olhando as aves, não deu pelo gesto piedoso nem ouviu as palavras devotas com que elle, em extase, adorava-a.
Então proseguiram á sombra do immenso pallio azul e fóra da nuvem viva a terra, quente e rutila, ardia e faiscava ao sol.
* * * * *
Ao pôr do sol
No ceu desbotavam, esbatiam-se as côres vivas, o ouro e a purpura fundiam-se em violete e, docemente, a melancolia vesperal envolvia a natureza e penetrava as almas. E Maria perguntou:
--Porque é mais triste do que a noite o breve instante do pôr do sol?
--Porque é uma agonia, respondeu José. Não é a morte que impressiona, é o morrer.
A luz que vasqueja é como o corpo que estrebucha. A noite é serena, tem a immobilidade do cadaver.
Quantas sombras havia na terra? tantas quantas são os seres e as coisas que existem. O sol, porque é a vida, discrimina, dá a cada um a sua autonomia para o bem ou para o mal.
O homem tem a sua sombra, como a formiga; a cordilheira escurece uma região e o grão de areia destaca a sua mancha.
A noite condensa na mesma sombra todo o universo.
No instante da agonia a alma, como o saltador que recúa para ganhar impulso na corrida e formar o pulo, regressa na reminescencia recordando a vida, desde os dias primévos até á hora suprema.
O crepusculo, que lembra o amanhecer, sem a alegria, é um recúo á madrugada para o salto dentro da noite.
--Aquelle clarão que alveja nos montes é o luar. A lua é como uma lampada que o sol deixa accesa quando parte. Como a noite é linda!
--E purificadora. O somno é um mergulho na Eternidade.
--Quando eu era pequenina, mal anoitecia, punha-me a tremer de medo e só depois de rezar conseguia adormecer.
--Porque a Fé é uma claridade que desfaz as sombras interiores. O que não crê é como o cégo que anda tacteando, sempre arriscado a perigos, bastando resvalar num talude para precipitar-se no abysmo.
A Fé é como a lampada dos templos: sempre accesa e fulgurando.
O homem de fé anda mais seguro na escuridão do que o incrédulo ao sol. O horizonte do crente é Deus.
--Porque bate com mais vigor o coração á noite?
--As aguas murmuram mais alto no silencio? não, a voz é a mesma, a calma é que isola fazendo-a parecer mais forte. Quando trabalhas á sombra da vinha ouves balar o rebanho? não, entanto, á noite, soergues-te no leito á voz lamentosa duma ovelha perdida.
O coração parece pulsar com mais impeto nas horas de recolhimento.
Nas cavernas profundas as vozes reboam, o estellicidio de uma gotta faz ruido. É essa uma das vantagens da noite--estabelecer o silencio, a quietude nalma para que a consciencia faça o seu acto de contricção.
--E as estrellas? quem as accende no ceu?
--Aquelle mesmo que abre as flores na terra.
--Ninguem o vê.
--E o Pensamento, quem o vê? Enunciado é um relampago, realisado é um esplendor; a sua essencia é o genio, que gera a Ordem. O mundo é a realisação do Pensamento de Deus; as obras ephemeras do mundo são a consubstanciação do pensamento humano. O homem constróe, é o artista; Deus crêa, é o Verbo.
--E eu?
--Tu és Maria, disse o patriarcha, afagando-a paternalmente.
Iterativas, afinadas vozes murmuraram nos ares concluindo o dizer do ancião:
... cheia de Graça, o Senhor é comtigo. Bemdita és tu entre as mulheres.
Ella deteve-se assustada e interrogou o esposo, tremulo:
--Que dizeis, meu senhor? José, que nada ouvira, respondeu:
--Digo que és uma creatura de Deus, como a flor, como a estrella.
Os chacaes latiam no deserto ao doce clarão da lua.
* * * * *
A tentação
Numerosa estropeada de innumeros corceis atroou o silencio; tubas clangoraram e, repentinamente, como passassem entre duas alcantiladas penhas, que o luar vestia d'alvo, viram altos pylonos de basalto, sarapintados de hyerogliphos, ante os quaes esphynges monstruosas, deitadas sobre stelas negras, laivadas de sanguineo, com os bicos dos rijos peitos incrustados de rubis, cravavam no ceu os olhos mysteriosos.
Mal chegaram á entrada portentosa logo uma luzente guarda de cataphractos, com petrinas de prata, montando ginetes brancos de crinas rastejantes, hasteando lanças que alumiavam, formaram duas extensas alas ao longo do caminho areado de ouro, sobre o qual frescamente rociava uma serena pulverisação de aromas.
Os olhos perdiam-se na visão de uma vasta cidade mirifica, toda em marmores e pórphydos, com enormes templos, palacios que eram cidadellas, jardins de redolentes áleas, rios beirados de arvores, com as rampas em alcatifa de flores, rolando alisadas aguas sobre as quaes rebrilhava, em tremulina, o luar.
Barcos de prôas curvas, transbordando brocados, cruzavam-se com musicos sob doceis de seda.
Nos bosques que os cysnes percorriam, alvos como vivos marmores, mulheres, veladas de gaze, coroadas de rosas, repousavam na fina relva ou balouçavam-se em redouças.
Os zimborios dourados, os frontões dos templos tauxiados de ouro, as escadarias largas, de zebrados degraus de cypolino, subindo a pateos de mosaico, esplendiam.
Surdo rumor agitava a cidade onde a multidão, em festa, tumultuava numa variedade de trajos multicores.
Passavam palanques sob flabellos empunhados por grandes negros vestidos de saios rubros, com franjas de prata, adagas á cinta, emplumados turbantes á cabeça.
Plaustros rodavam com crepitações levantando uma nevoa loura.
Photinas de harpas respondiam-se de um eirado a outro e, num obelisco de onix canellado, molle serpente de escamas de ouro, vibrando a lingua bifida, enroscava-se, em lentas espiras, ficando, ás vezes, pendente, a oscillar como uma grossa liana.
José olhava pasmado e Maria encolhia-se timida, contemplando, deslumbrada, a cidade fulgente.
Não era a triste Sichem nem a sombria Jerichó. Que cidade seria aquella tão rica, de tanta vida, isolada na tristonha e maninha região da Samária?
Subitamente, com improvisa fulguração, abriram-se de par em par as portas do templo maior e um grave cortejo appareceu no peristylo e vagaroso, solemne, poz-se a descer a fulgida escaleira.
Vozes, ao rythmo de instrumentos lyturgicos, entoaram um cantico glorioso.
O povo prostrou-se na areia micante das alamedas bradando um nome forte.