Mundanismos

Chapter 4

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--Tens coragem! Só me representa que gravaràs na alma uma eterna desconfiança da amizade de tua esposa...

--Isto não!

--Pois parece, Ormindo!

--Neste caso, escutas-me com agrado?

--Sim.

--Posso falar?

--Não.

--Ah! jà sei... É a mesma quesilia de que falar é um desperdicio de forças organicas...

--Diz o doutor...

--Nenhum delles sabe nada... Quem pensa deve falar. Onde o meu cerebro conteria tanta palavra que tenho pensado? Eu te dizia que tu vais entrar num terceiro mundo, e para cada um desses mundos, devido às intenções animaes dos homens, a equação da mulher é perigosamente diversa. Virgem, ella tem a expressão de um sonho; esposa, representa uma realidade; e viuva, ella é uma alma em que se derramam os mananciaes copiosos da luxuria humana... Virgem, fôste uma criadora; esposa, uma inspiradora; viuva, seràs, em nome da honra de teu marido, uma redemptora... Ai!... Dóem-me os pulmões... Morrerei, porem, com todas as sensações...

--Não morreràs, Ormindo!

--São os teus votos?

--Duvidas de mim, dos meus affectos, dos meus affagos, do meu amor, inda no instante derradeiro?

--Não duvidei jamais: fui um esposo feliz, muito feliz.

--Pois então?!...

--Dà-me a tua mão...

--Estàs frio!

--É a gelidez da morte... Não tardarà... Fazes-me um favor?...

--Se o faço...

--É para depois de minha morte...

--Juro-te.

--Mas, responde franca e precisamente, para que eu não succumba com uma duvida...

--Pede o que quizeres... Pede... não!... ordena!

--Estou acabado. Luctou commigo a morte, que, se não me derrubou de vez, vai invadindo-me com o gêlo de seu halito das extremidades para o coração. Bestam-me instantes. Vais enviuvar e a viuvez é um despenhadeiro. Peço-te em nome de minha tranquillidade, que te cases, immediatamente, afim de que não paire uma só nuvem sobre a limpidez do teu e do meu nome... Casarás logo... Peço-te... É o ultimo sacrificio em prol do teu defuncto...

--Intranquillisas-me, Ormindo.

--Não ha razão para isso.

--Se tu mandas...

--Mando, não; peço... Agradar-te-à Eloy?

--Queres, Ormindo, a verdade antes da morte?

--É isso...

--Pois bem! O que tu propões jà estava assentado entre nós outros...

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A ira irrompe brutalmente na alma do trahido moribundo, que faz um grande esforço e se salva com o despedaçamento brusco do myoma desconhecido, do assassino erro de diagnóstico...

A HUNGARA

A HUNGARA

Commodo de hotel. Um fóco electrico esverdinhava o azul papel das paredes.

Revolvido, o leito denunciava em duas cóvas a pressão de dois corpos que nelle se afundaram.

SARAH, a hungara, recebia GUANABARINO, o chronista theatral, com um estridente signal de contentamento...

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--Aqui estou. Nem sei como acertei.

--Estás apaixonado?

--Crês, Sarah, que paixão desponte como um sorriso?

--Quem te disse o meu nome?

--Li-o nos programmas.

--Ah! sim. Gostaste do meu canto?

--Não te ouvi.

--Como te agradei?

--Pertencendo a outro. A mulher sem dono custarà a topar com um amante. Rolarà uma eternidade como a pedra que não cria limo... Tenha um amante e dezenas surgirão...

--Como elle é experiente!

--Vejo todos os dias. Se quizeres arrebatar, deixa-te monopolisar por Gustavo. Ouve: agradei-me de ti porque, pelo braço delle, no teu longo _manteau_ de sêdas e rendas, pareceste-me uma conquista difficil. Vejo dezenas de mulheres no Café-Concerto. Tyroleanas, que encantam com o canariar de suas vozes; francesas, que arrebatam com o _savoir-dire_ as malicias mais leves; espanholas, que excitam com o sensualismo de seus sapateados; americanas, que lembram bugios nos saltos do _cake-walk_... Todas são-me indifferentes, por todas passo na certeza de cruzar com cocottes para todo o mundo... De começo estive tentado a emprehender uma _ménage-à-trois_ com uma acrobata. Porque assim? A gymnasta era um corpo prohibido e vivia aferrolhado à concupiscencia de seu proprio pae. Tive horror a essa monstruosidade e o desejo passou. Finalmente encontrei-me comtigo...

--Ladrãosinho! Como elle sabe contar!

--Junto de Gustavo acendeste-me a centelha de um capricho: trahir o teu amante. Tinha eu entrado no Theatro naquella hora mesmo. O grupo de amigos attrahiu-me e a attracção de todos eras tu. Olhei-te e fiz-te um cumprimento com a cabeça. Não me teres sido apresentada, significou que o teu galan zelava de mais. Ah! A cultura humana tem o maior testimunho de seu progresso na sabedoria dos olhares que as pessôas cultas pódem trocar. Viste como te comprehendi e logo te apertei os dedos, no caminho para o _buffet_? Atinaste como consegui retirar, por um momento, Gustavo de junto de ti e como tratamos, quaes velhos conhecidos este encontro? Na sombra dos pés da meza, os nossos corpos se trocavam desejos nos encontros, animavam-se tambem com os promettimentos mais claros, e as nossas carnes se queimavam por detraz dos tecidos de nossas vestias. Tudo isto, porem, ainda não é paixão. É um grito do instincto animal. Só nos não apaixonaremos se não quizermos...

--Como sabes a vida!

--Precisas prender Gustavo. A epoca é das melhores. O dinheiro passa-lhe pelas mãos como as aguas pelos rios para o mar. Segura-o bem, porque, alem do mais, é um amante que, por força de ter mulher e filhos e morar longe, te darà muito tempo aos amores furtados.

--Não os quererei. Sempre fui parcimoniosa. Juro-te como o meu corpo não se tem dado a muitos. Fui concubina de um general, durante annos, e só o trahi uma só vez: com o pae de meu filho. Gósto de um amor só, de ter um dono e de ser cubiçada. Nem sei como te recebi agora... Em todo o caso, o Gustavo não me agrada... Prefiro-te a elle, serás o meu amante...

--Erraràs se assim preferires, Sarah. Não tenho posses para te manter, ao passo que o Gustavo...

--Que tem isso? Tenho eu o meu officio. O emprezario paga-me bem, ganho para o luxo e para a meza. Dou-me a quem eu quero...

--Neste caso ficaràs com elle...

--Porque então?

--Conheceste-o primeiro.

--Não importa isso. A elle conheci na manhan, a ti à noite, ambos no mesmo dia. Vi-o a bordo. Trouxe-me elle para a terra. Encaminhou-me do hotel, e... má recommendação tem dado com os multifarios obsequios, com os gastos e as gentilezas, sómente com essas coisas... Ora, uma mulher como eu, ou quer o homem, ou não o quer... De minha parte dispenso as galanterias...

--Tudo isto concorre para lhe fazeres teu amante, para dispôres de sua bolsa...

--E fico comtigo para o meu verdadeiro amante, para o meu especial amor...

--Là com isto combino eu.

--Assim, và que seja e comecemos...

--Que tenho eu para tanto me olhares?...

--Fixo a tua imagem. Tens um olhar de fogo. Os teus olhos incandescentes são dois vulcões. Como te chamas?

--Guanabarino, um nome difficil.

--Como?

--Gua-na-ba-ri-no!

--Gua-na...

--... barino.

--Ah! sei. Guanabarino. É a primeira vez que ouço esse nome. És brazileiro?

--De corpo e alma. E tu?

--Filha do sul da Hungria. Vim creança para a tua terra. Fui noiva, aprendi a cantar com um meu amante e vivo disto...

--Tens percorrido meio-mundo, hein?

--Não: conheço a tua patria e a minha, em pallida reminiscencia...

--Dize outra vez esse termo...

--Reminiscencia.

--Que lindo! Parece-me, Sarah, que estás a dar uma serie de beijos...

--Como elle é ardente!

--De verdade?

--A tua alma està fugindo-te pelos olhos...

--Junto de um espirito como o teu, como ella não querer a transfusão carnal? Jà notaste o frio que regela as mãos do homem emocionado junto da mulher que o escalda?...

--Ih!... Que gêlo!

--Sabes explicar?

--Não. É difficil?

--Ao contrario. Bem facil. O sangue todo affluiu-me ao coração. As extremidades resfriaram-se. Tudo isto jà é começo de paixão... Falaste nos meus olhos! E os teus? São capazes de comprar o mundo com um só relance.

--Costumas ser gentil com todas as mulheres de teu conhecimento?

--Que graça! Se costumasse, haviam de estar bem gastas as minhas gentilezas.

--Tens gozado tanto?

--Inda perguntas?! Não sabes que o amor se fez para os temperamentos tropicaes, para os homens das terras do Sol, como eu o sou? Tenho um desejo para cada mulher e, posso parodiar um dito desrespeitado a toda hora: sinto que todo o teu sexo não seja uma só mulher para esta ser a minha amante...

--Caloroso! Deita-te aqui, Guanabarino!

--Não.

--Desmentes o que asseguras.

--Jà tiveste o teu quinhão.

--Como assim?

--Jà te possuiu o Gustavo...

--Juro-te que não. Tem sido o meu apresentante, e, a verdade seja revelada, ainda não desejou...

--De facto?

--Juro-te eu.

--Ao depois delle... nunca!

--Mas, porque? Mettes-me medo...

--Por nada! O Gustavo é um homem para se temer...

--E porque me inflúes para ser a sua amante?

--Porque o encontrei no fastigio da tua posse, porque vejo que do seu concubinato bem pódes usufruir grandes proventos. E, jà agora te direi: pouco mais fará elle do que hoje... Entretanto, como homem de recursos, talvez ainda não te désse a menor prova do que seja...

--Fez-me hoje a oblata de um collar de libras...

--Um collar?

--Sim.

--De libras esterlinas?

--Conheces?

--Acho que não. Agora reparo que tens dois fachos lindissimos...

--Foram presente.

--Fico esmorecido. Nem sei como hei de portar-me para comtigo sem outros meios que não esta apparencia palavrosa e este atrevimento que me trouxe aqui...

--Não amo os homens pelas riquezas. Tenho os meus rendimentos de _chanteuse_. Ás vezes succede amar os que podem. Neste caso, sou a primeira a não regeitar o que me dão. Um deputado deu-me este annel...

--Adoravel!

--Um advogado, ao depois de uma perseguição de mezes, para eu o receber, offertou-me estas pulseiras... No entanto, o pae de meu filho aquinhoou-me apenas com o seu amor... Assim vou passando, umas em cheio, outras...

--Muito em cheio, Sarah!

--Tu falas? Um mineiro, hoje desesperançado de conseguir a minha retribuição, deu-me estes correntões para atilios...

--Que lindas fórmas!

--Mostro-te apenas os atilios e não as pernas...

--E eu vejo tudo! É admiravel como o _fraise_ das meias se destaca no gêsso das tuas pelles...

--Pois bem, Guanabarino! Permitte que eu te diga; amantes que me cubrissem de oiro tenho tido às carradas... mas, um só que me dissesse coisas tão lindas, nunca tive... A palavra inescutada é tambem uma joia preciosa. E para retribuir tantas distincções ineditas só um beijo de muita paixão, só um beijo...

--Basta, Sarah! Basta! Prometteste um e déste mais de mil...

--Longe disto, tu não me recompensaste com um só... Reparei bem...

--Desculpa. Mas, quando sou beijado, não beijo. Esta caricia deve ser sempre espontanea e impagavel. E eu não commetto a grosseira sensualidade de pagar uma caricia...

--Ao depois de ti, nem mais sei como receba Gustavo, amanhan...

--Com todo o fervor...

--Não te enciumas?

--Não. Estimarei que possas fluctuar aos olhos do mundo na aeronave de ouro que elle te der.

--Queres ver o collar de hoje?

--Verei.

--Elle me prometteu para amanhan um relogio e um correntão.

--Aproveita, Sarah! Gustavo desperdiça dinheiros de herança...

--Vês tu o bello collar?

--É lindo!... Elle t'o deu?

--Sim.

--Esta joia?

--Que significa o teu espanto?

--É que este collar é...

--Falso?

--Não! Uma joia de familia, uma joia da mulher de Gustavo...

--Agora é minha!

--Estàs no teu direito. Deixa-o amar-te e colhe os seus esbanjamentos...

--E só a ti amarei, Guanabarino!...

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Pela madrugada, a libertina abria a porta para o successor de GUSTAVO evadir-se, e recebia, instantes depois, reticenciando o silencio somnolento do casarão do hotel, a figura caprina de um mal conhecido visinho de quarto...

DEPOIS DO COMETA

DEPOIS DO COMETA

De olhos pisados e presos num halo de violeta cinta, ALEXANDRINA ergueu-se da _steeple-chaise_, e beijou a mão da velha senhora D. CAROLINA, que acompanhava MIMI, naquella matutina visita de nupcias.

Ao depois, como duas flores de uma só haste separadas para sempre que se reencontrassem, a recem-cazada recebeu alacremente nos braços a figura da amiga e beijaram-se fartamente.

De outro lado, ARTHUR, o novel esposo, enfardado no seu dolman de brins brancos, cumprimentàra, ceremoniosamente, a DONA CAROLINA e com um sorrizo prazenteiro applaudiu as bregeirices de MIMI.

Esta e ALEXANDRINA, ao depois de affaveis cumprimentos geraes, confidenciavam numa janella, por detraz de arrendadas cortinas, onde se foram acastellar para a permuta de segredos...

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--A que horas despertaste?

--Nem sei mesmo...

--Não é possivel.

--Palavra!

--Então ferraste no somno, e...

--Ao contrario: não durmimos.

--É exquisito.

--Como te enganas! Não calculas o que seja a estafa de um dia de noivado.

--O dia mais bello da mulher...

--Parece-te?

--Esta é bôa, Alexandrina! Sou eu quem deve perguntar-te: não te sentiste extraordinariamente feliz?

--Ah! sim... Casei-me por meu gosto...

--Olha que já me pareces outra com tanta sisudez e seccura...

--Não é, Mimi. Arthur e Dona Carolina nos olham insistentemente. É preciso que não me tenham na conta de alguma leviana: jà hoje em dia, minha amiga, tenho segredos que te não posso falar...

--Prohibiram-te de dizer-m'os..

--Não! Nem sei explicar-te, mas ha tanta alteração na vida de uma mulher que se caza, dentro das primeiras vinte e quatro horas de sua vida conjugal, que nem sei como me reconheceste hoje... Jà viste, no craveiro, o botãosinho verde; o casúlo de folhas, como, na manhan seguinte, está um perfumoso cravo, uma flor distincta? Se te dessem as duas cousas, pela vez primeira, tu contestarias o facto como inveridico...

--Mas eu te vejo a mesma boniteza...

--Sim! É questão de alma. Suppõe que adormeceste no começo de uma viagem e que quando despertaste estavas numa terra de extranhos. O teu corpo seria o mesmo, a tua lindeza não seria transformada, mas o teu coração palpitaria diversamente na sociedade desconhecida a que aportaste. As tuas amigas ficariam noutra parte. Se quizesses vel-as, seria preciso que regressasses ou que ellas viajassem para onde fôras. Assim no cazamento: viajei para muito longe de ti. Para nos irmanarmos como dantes, ou voltarei à minha immaculabilidade de hontem, o que seria impossivel, ou tu ascenderás ao matrimonio para o que faço votos.

--Tens razão!

--Não te parece?

--Falas e procedes tão judiciosamente que não me atrevo a duvidar das alterações por que passaste... Eu, porem, serei capaz de repudiar o cazamento para não me esquecer tão depressa das intimidades com as minhas amigas...

--Não me esqueci. És injusta! Não te darei novas confidencias: as velhas, entretanto, ficarão acariciadas como um sonho de felicidades na vida de uma mulher inditosa.

--Pois pensei que me dirias tudo...

--Tudo... quê?

--Ora!

--Denuncias que pensas em algumas coisas que não são veridicas, ou, pelo menos, não o foram para mim.

--Foste differente das outras!

--Offendes-me.

--Não te offendo, não. Desconheço-te.

--Que quererias tu que eu te falasse?

--Não sei. Se soubesse, desnecessario seria que me referisses.

--Objectiva o que queres saber... e depressa, porque Arthur me acompanha com um olhar seriamente investigador e tua mãe franze o sobrolho para mim... Um ha de suppôr-me indiscreta para te communicar tolices... e a outra... corrupta para te ensinar... loucuras...

--Não! Deixa...

--És má! Tens talento e não queres comprehender a minha situação, especialmente no dia de hoje.

--Jà te comprehendi: e estou pelo que tu quizeres...

--Amúas sem razão.

--Com que direito a planta exige viço da flor que já foi colhida? Comprehendo, perfeitamente, agora, que entre nós duas existe a alma do sr. Arthur...

--Não exaggeres...

--Pódes ouvir de mim o maior segredo, bem como ouvirás delle tambem. Os meus serão contados, syllaba por syllaba, aos ouvidos do sr. teu esposo, porque não deve haver um conhecimento novo que não pertença a ambos: os delle... morrerão comtigo, porque não deves trahir à tua fé conjugal...

--És incondescendente!

--Sim, sou incondescendente na verdade das cousas.

--Em parte, minha amiga.

--Não. Em tudo.

--Veremos.

--Pois experimenta!

--E se eu te provar?

--Pago-te com um beijo...

--Oh! Pois então a mulher que se cazou póde beijar outra pessôa que não seja o seu esposo?

--Deste modo, Mimi, não chegaremos a um accordo. Ha beijos como ha conversas... O que te conversei até hontem, não conversarei jamais com o meu esposo. O que te converso agora, não conversarei jamais com a tua maman. Beijos!... Os que te dou são da ordem dos que sempre te dei...

--Bem te comprehendo. A mulher cazada tem duas existencias.

--Não sei se sómente duas, mas, a solteira, antes do matrimonio, nem sei quantas tem...

--Comtudo, conto-te eu um incidente de minha intimidade feminina. Dizes ou não ao teu marido?

--Conforme.

--Não é caso de dubiedades. Dizes ou não?

--Se fôr só do teu interesse, não.

--Faço-te justiça, minha boa Alexandrina: a tua gentileza obriga-te ao falseamento agora, sómente agora, do teu dever. Contarás tudo o que te disserem, ou serás uma perjura na fé conjugal. Eu mesma duvidaria de tuas intenções, se occultasses do teu marido o menor acontecimento que te revelassem. E, por fim, em tudo quanto te falarem has de descobrir sempre esse interesse que não é exclusivo da pessôa que te fallou, para contares tudo ao teu companheiro. Deixemos essas cousas de parte, e affectemos a nossa convivencia hypocrita, como tu queres...

--Dou-te razão, minha amiga. O mundo é esse mesmo e não serei eu quem o modificará.

--Estavas bella, Alexandrina, nas tuas vestias de noiva!

--Achaste?

--Encantadoramente bella!

--E tu me viste?

--Sim. Passaste bem junto de mim quando saltavas da carruagem à porta da igreja. Tinhas um rubor nas faces de matar de inveja.

--Era a ultima nota do meu pudor de virgem!

--A tua costureira fez o teu vestido a capricho e o teu cabelleireiro assentou-te a grinalda como uma corôa de rainha. Agradou-me a tua elegancia. E, porque não te censurar? só não gostei de trazeres os olhos humildemente baixos... Faltava-te o sol do teu olhar esplendido.

--Lisonjeira!

--Eu traria os olhos bem illuminados, fascinando as multidões que se dominavam com a curiosidade de ver-me...

--Tens razão. Naquella hora, eu temia os olhos de tanta gente... sem saber que... mais tarde...

--Dize... dize...

--Dir-te-ei... mais tarde... eu teria sobre o meu corpo olhares mais algozes...

--De véras?

--Sim, minha amiga! Não calculas o olhar de Arthur quando elle... Oh! Digo-te de mais! Perdôa se te offendo...

--Desculpo-te. Senhora de mim, sei dispensar-te das leviandades que, ainda ha pouco, condemnavas. Onde puzeste o teu veu?

--Guardei-o já para offerenda a uma Santa.

--Quem t'o tirou?

--A maman... Arthur conversava no salão com o papà e dois amigos retardatarios... Sentia-me alquebrada. Tambem jà era alta hora da madrugada. Duas ou tres, não sei.

--E o teu vestido? Era primoroso...

--Está no _armoire-à-glace_...

--Muito amarrotado?

--Não. Quando o despi... chorei! Como é que uma mulher só se veste tão bem uma vez na vida?!...

--Choraste, Alexandrina?

--Sim.

--É de mau agoiro. Dizem que morrerá primeiro aquelle que chora...

--Não sabia.

--Nem que morrerá antes do outro o que se deitou por primeiro?

--Tambem não! E por isso tambem serei eu quem morrerá antes...

--Ah! já estavas deitada quando elle appareceu na alcôva?

--Sim. Elle se abeirou de mim e, segurando-me uma das mãos, tratou do successo das festas de nosso cazamento. Recapitulamos toda a seroada, desde as asperezas do juiz cazamenteiro, até às melifluidades de voz do sacerdote, quando fez a pratica sobre a felicidade conjugal. Recompuzemos a sociedade que aqui esteve. As dansas, o serviço de _buffet_, a ceremonia do chá... Tudo se conservou. Elle dizia uma coisa, eu lembrava outra. Sorriamo-nos, commentavamos, com seriedade, as incorrecções dos outros...

--E o tempo se passava...

--É exacto, Mimi. O tempo se escoava enganadoramente. Não sabes, porem, como foi opportuna a nossa conversação. Quando extremecemos, ouviu-se o tiro das cinco horas...

--E então?

--Arthur lembrou-se do cometa... Já o viste?

--Ainda não!

--Pois é bello! Arthur mostrou-m'o... Que lindo esteve elle na madrugada do meu cazamento?!... Se todos vissem o cometa como eu vi...

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Interrompidas por DONA CAROLINA, MIMI e ALEXANDRINA, dando-se as mãos, nervosamente, passaram ao recinto da sala e entraram na conversação commum...

AMORES NO CLAUSTRO

AMORES NO CLAUSTRO

Um ar tépido, cheio de luzes meridionaes, rico de aromas novos, instigador do sensualismo mais humano e menos animal, era o excellente conforto da cella de FREY PATRICIO.

Um leito acolchoado recebia em cheio a restea do sol poente, e, de dedos enclavinhados, um em frente do outro, o habitante do claustro e o seu affectuoso irmão de ordem, FREY THOMASIO, palravam gostosamente de coisas alegres...

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--Assim foi que me decidi, sem espanto dos meus, e por uma resolução improvisada...

--Pois eu, não! Luctei contra uma grosseira serie de vontades, e não venci: fui derrotado.

--Não posso crer facilmente.

--É a verdade, irmão Thomazio... Fiz como um cadaver que entra no sepulchro. Para aqui trouxe o meu corpo, e, là fóra, borboleteando, sem parar, a minha alma... viveu sempre muito longe das carnes que ella animava. Emquanto moço, nas minhas preces só o nome de uma mulher viçava triumphante...

--Tambem a mulher...

--Sim. Preconceitos, preconceitos! A baronía estulta de uma familia asphyxiou sem dó a ventura de duas almas... E eu de falar-te, inda hoje, tremo de colera. Pudesse eu e a vontade amorosa de Marina, por entre hymnos e bemdições, tel-a-ia levado, não à cova, sublevando-se contra os pais, sim ao hymeneu, triumphando o seu amor. Desde que nos vimos, sem cuidados naquillo que outros apreçavam--a feeria dos titulos nobiliarchicos--vivemos apenas pelas suggestões do sentimento que nos venceu...

--Os teus labios tremem, irmão Patricio, as tuas pupilas se inflammam e olham por sobre nós para tempos bem distanciados...

--Realmente! Fusilam-me eternamente os desejos da vingança que exerci contra mim mesmo, enclausurando-me. Quando aqui cheguei, Marina vivia ainda, mas respirando balões de oxygenio. Artificios da sciencia! E tres dias depois, desta mesma janella, vi passar, alli embaixo, naquella tortuosa e accidentada vereda, vi passar o coche branco, portador do esquife em que desappareceu para sempre a materia que tanto amei... A vista annuviou-se-me e, balouçadas pela briza, as rendas do esquife me disseram um adeus afflictivo, como as despedidas de uns lenços muito brancos, molhados de lagrimas... Succumbi deante da falsa visão e esmaeci... debruçado sobre aquelle leito, onde chorei incansavelmente irado--Deus me perdôe!--como o mais pecador dos homens...

--Tanto poude o amor!

--A mola do mundo, Frei Thomasio, é a mulher. Não ha um burel aqui dentro que não seja trazido por uma dellas. E em tudo, como dizem corriqueira e profanamente os francêses, _chercher la femme_... Por ventura não professaste como os outros?

--Sem tirar nem pôr na cauza.

--Sempre assim.

--Mas, tu procuraste o claustro como um eleito do amor que te distinguiu entre os outros homens e te elegeu o seu preferido.

--Ah! por certo.

--Quem me déra!

--E que te faltou, Frei Thomasio?

--Justamente o amor.

--Intrigas-me de véras.

--Vou contar-te, pois, a minha historia. Lembras-te de que professei mocinho?

--Se me lembro!...