Mundanismos

Chapter 2

Chapter 23,734 wordsPublic domain

--Como esse poeta, Heloisa, que o grande musico fez morrer nas notas bemolisadas do piano, finou-se hoje o nosso amor... Emquanto executavas e os teus dedos arrancavam da alma do instrumento piedoso os sons do passional poema lyrico, me concentrei e te affirmo que a visão não despresou a audição, pois vi e ouvi toda a scena, desenvolvida entre personagens vivas, que se moviam, se soccorriam e testimunhavam o desfallecimento do artista moribundo. Durante minutos que serão inegualaveis na minha existencia de musico, aqui estive ao teu lado, frio como uma estatua, hermetico como uma esphynge, e não denunciei, pela ruga menor de meu semblante, a dor imperiosa que me ennervava a existencia. Vim do gabinete privado de tua mãe, que se transformou pacificamente no Satan de nossa felicidade. Falei-lhe ardoroso, como se lhe dissesse uma aria de Beethoven, contei-lhe minucioso e preciso a longa historia de nosso amor. Vejo, agora, que, por vezes, fui minudente de mais, rememorando o platonismo inedito com que te amei a alma de artista e não o corpo de mulher. Ao depois de ouvil-a, vim inspirar-me para o sacrificio no teu talento. E saio de tua presença illuminado como o prescripto que recebeu o balsamo do conselho christão para subir em seguida ao patibulo. Dá-me, pois, o conforto de tua confidencia ultima: amaste-me alguma vez?

--Que pergunta, Christovam.

--Indiscreta?

--Não; ao contrario. Amesquinhante...

--Extranho-te.

--Não ha razão. Porventura pensarás que te amei e não te amo agora? Acaso a minha mão de mulher para te ser dada dependerá de alguma coisa irreductivel deante de minha vontade altiva?

--Sinto-me lisonjeado, de facto, com a tua constancia, Heloisa. A cor dourada dos teus cabellos que te faz distincta entre as cabeças bellas de todas as mulheres, neste instante, afigura-se-me a grinalda de luz com que se enfeitam as santas nos seus altares. Mas, um maestro, um homem que sabe musica simplesmente, que é apenas um artista, é pequenino de mais para ter uma pretenção de amor. Eu me pareço com esta figura lendaria de Kadjira que destruia as rozas por prazer. No reinado das fantasias de ouro e de fidalguia com que se entontecem os teus paes em sonhos egoistas, cheguei, como a perversa princeza turca que despetalava rozas, derrocando castellos, para me conter na illusão em que me deleitava sómente com a audiencia da negativa inclemente de tua mãe. Confessou-me que maldava de todo o nosso amor, desde principio. E porque, se assim era, protegia a ampliação de um sentimento que deveria ser, como os filhos defeituosos das ciganas que são atirados ás piranhas, destruido no nascedoiro? Antes que eu lhe communicasse, falou-me em que se correspondias aos meus calculos de matrimonio, era porque, doidivana como toda creança, jogavas a péla na orla do precipicio, esperando o aviso amigo para te retirares gloriosamente... Negarás, Heloisa, que tinhas consciencia de minha pretenção? Sophismarás, em favor da excommunhão que me lançou a tua mãe, e contra a clareza da ordem que me deste afim de se officialisarem as relações do affecto, que nos encaminhava de um illusorio paraiso? Responde com o talento immensuravel com que sempre me amaste...

--Falas desatinadamente, Christovam, numa contingencia em que deverias possuir o maior tino dos homens.

--Tens o dom solar de illuminar o mundo pelos flancos, se uma nuvem pesada se antepõe á sua esphera...

--Sinto-me transfigurada. Amo-te ainda, e não te hei de amar fóra do regosijo delles...

--Dos teus paes?

--Sim. Acharias extranho se te dissessem que duas sementes postas em tuas mãos estariam vegetaes só ao sôpro de um fakir indiano. Porque admittirias que a minha vontade fosse forte bastante para romper a marcha das intenções dos meus paes sobre a minha razão de ser mulher? Por ventura sem o sopro do fakir as sementes germinariam e attingiriam as fórmas de seres definitivos? Não supporás que, sem aquelle sôpro, algo se realisasse. Como suppôres que sem a vontade dos meus maiores a nossa união se perpetraria ao teu sabôr?

--Desconheço-te já...

--Mas, porque...

--O sophisma substitue a tua logica: o amor cedeu o posto á quesilia dos outros...

--Esperarias o meu consorcio sem o consenso dos que me deram a existencia de mulher?

--Nem sei de mim mesmo que te responda...

--Não poderias esperar. Se eu fôsse livre, se a lagarta para ser papilio não carecesse de passar por ser chrysalida, nem eu te mandaria impetrar a sancção que nos faltou, nem os que nol-a negaram teriam razões para tal fazer. Aborrece-te o trovão? amedronta-te o curisco? Queres ver-te livre delles? Crê num Deus e pede-lhe a extinção... Infelizmente, Christovam, nem o trovão se extinguiria, nem o teu querer triumpharia... De um lado, Deus seria impotente para te dar o que pedisses porque não terias o direito de pedir... Só pede quem póde pedir; se se pede é porque de quem dá depende o pedido; e se o pedido não é dado, procura a causa na insufficiencia e na sem-razão de quem pediu...

--Mas...

--Nada adianta, Christovam. Corresponde ao meu inquerito e nega-me, se conservares a razão, que tenho o bom senso desejavel ás creaturas perfeitas. Queres responder-me?

--Nada significará o que te responda.

--É preciso que sejas categorico.

--Pois sim: responder-te-ei.

--Poderias tomar-me como tua esposa sem, obteres a minha vontade?

--Por certo que não.

--De minha parte a questão é outra: teria eu o direito de responder por mim num caso expresso de matrimonio? poderia ser unico o meu querer?

--Se quizesses, sim.

--Não é assim, não. Porque não me tomarias por mulher sem o meu assentimento? Por impoderoso deante de minha definição adversa. Porque não me daria eu por esposa sem o consentimento dos meus paes? Por impoderosa deante da pronuncia delles. Se tu pudesses alcançar de mim o amor sem vontade, desnecessario seria impetrares-m'a; se eu dispuzesse de meu corpo sem a intervenção dos que m'o formaram do nada em materia e em alma, nem cogitaria de enviar-te a elles...

--É um dilemma sophistico.

--Por que principio, não sei.

--Um dia, quando eu te disse que me abrazava na sêde do teu amor, Heloisa, como correspondeste a esse lapso do meu instincto?

--Do modo mais franco.

--Sim... Dando-me apaixonadamente os teus labios para nelles, como eu quizesse, matar a sêde que allegava...

--Dependia de mim. Dei-te.

--De outra vez pedi-te um testimunho da correspondencia de tua paixão. Negaste-m'o?

--Não poderia negar.

--Exactamente. Levaste-me, com todo o carinho, a dextra ao collo, e, na grandeza das iteradas pulsações cordiaes, affirmaste que eu reconheceria a intensidade do teu sentimento...

--Dependia de mim. Pratiquei.

--Por fim, quando te acenei com o plano de nossa união...

--Como te respondi, Christovam?

--Com a primeira negaça.

--Adulteras a minha intenção: cumpri o meu dever, enviando-te á maman, como o caminho propicio para vencer o papá.

--Realmente, Heloisa. Sou um vencido.

--Garanto-te, porem, Christovam, que te amo, ainda, como te amei...

--Irresistivel tormento para mim: serei eternamente o artista obrigado a consummar uma grande obra musical sem a inspiração para a realidade do dever...

--Desistes, então, do teu amor?

--Razões me sobejam...

--Que te disse, afinal, a maman?

--Isso mesmo. Falou-me em que queria um marido para a sua filha e lembrou-me que um musicista não compõe sem ter inspiração...

--Nada de mais, Christovam!

--Talvez não queiras comprehendel-a... Mas é tudo que se póde allegar contra um homem...

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E, louco pela musica, inconsciente quasi, CHRISTOVAM DETMER assentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a esquisita criação de Gotschalk, ao depois do que, ceremoniosamente, se despediu de HELOISA...

O VELHO MEDICO

O VELHO MEDICO

O mostruario exhibia, garbosamente, os artigos da moda rigorosa.

ESTEPHANIO e JUDITH--esta desprendendo-se de si no devotamento ao esposo, e aquelle, dominador da mulher vencida em mais annos, como se lhe tivesse o corpo de cór, curvas e linhas, luzes e perfumes--gozavam o esplendor dos luxos, com que o artificio corrige os defeitos da Natureza e apaga os estragos do Tempo...

MARCO ANTONIO--o medico afamado--cofiando as ennevoadas barbas em que se escondiam as illusões do seu poder curador, arrancou os olhares dos dois esposos, e apoderou-se, com fascinante dominio, de suas attenções...

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--Bem póde a therapeutica dos homens... Vejo-o restituido ao fulgôr da mocidade...

--É exacto, doutor, passo agora sobre as molestias como a insensivel salamandra por sobre chammas... Descrendo da causa, não posso affectar-me com os seus effeitos: a sua medicina é a criadora das humanas torturas. Parece-me que jà se disse: «Tirem os medicos e as enfermidades desapparecerão»... Mas, eu digo: fugi delles e estou curado. Deem-me milhões de medicos e estarão formados trilhões de doenças.

--E quem te curou, meu caro?

--A natureza...

--O novo deus pagão...

--Assim diz o dr., mas, de facto, a inexgottavel fonte de poderes curadores. Lembra-se de que o procurei exasperado com o que soffria?

--Lembro-me, sim.

--Foram tantos os diagnosticos que jà perdi o direito de dar-lhes autorias.

--O sr. era verdadeiramente um doente.

--E o dr. escreveu uma longa lista de medicamentos para horas certas e invariaveis.

--Realmente.

--Pois confesso-lhe: não fiz uso de um só. Tambem o doutor não foi o ultimo medico que me assistiu. Ainda hoje louvo-lhe a sua acuidade na inspecção. Nada faltou à sua perspicacia, senão comprehender que, no meu estado, as suas perguntas eram outras tantas suggestões e novos symptomas para a aggravação de meu mal. Eu vivia desvairado na vontade de accusar males crescentes, e os meus assistentes porfiavam em illustrar-me em torturas ineditas.

--Afinal... quem te curou?

--Dir-lhe-ei tudo, de começo. Hygia, a deusa da saude, não é de todo mà...

--A historia vai ser a mesma de todos os doentes restabelecidos: salvaram-se pela acção do dedo de Deus, como teriam morrido pela intervenção do doutor...

--Creio que o sr. adianta um mau conceito. Não me tenho na conta dos casos communs.

--Desculpe-me.

--Pois não! Mas, a minha doença foi uma criação dos meus medicos, e a minha cura proveiu de minha inabalavel resolução de abandonal-os. Eu estava em ultimo grau de desengano quando o doutor foi chamado. Voltei assim às mãos de um allopatha. Homeopathas e feiticeiros nada fizeram de resultado para minorar os meus padecimentos. Quando adoeci, aos vinte e tres annos, foi numa convalescença de enfermidade effectivamente assassina: o amor. Eu tinha conseguido, pela vez primeira, objectivar uma paixão. E, não só isto: tivera, com todo o delirio proprio da idade, a posse facil, e passageira contra a minha vontade, de uma mulher amada. O mundo inteiro concentrou-se, ao meu sentir, nos violentos pezadelos de minha carne inexperimentada. Foram sessenta dias, mil quatrocentas e quarenta horas, ou oitenta e seis mil e quatrocentos minutos de frenetico jogo de instinctos, durante os quaes as paradas assediaram-me a alma, remontando as fichas do meu gozo ao maximo possivel. O prazo desse amor fôra, entretanto, fatal. Exgottou-se e a mulher fugiu-se-me dos braços como a espiral do fumo que procura as alturas. Ao depois disto, separado do entretenimento carnal, que me combalia as fibras, como a agua que vai abalar as galerias subterraneas para derribar as minas, tive a sensação do remorso de um grande crime...

--De um crime delicioso...

--Talvez, doutor.

--E então?

--Encegueirado pelo amor, o mundo ficou às escuras sem a luz do olhar della. Quiz correr nas suas pégadas, e senti-me tolhido como a voz na garganta do atormentado por um pezadêlo. Vi em todos os convivas de minha existencia, terriveis sombras fantasticas... E tudo findava sempre num choro convulso, durante o qual me punha a tremer com tanta violencia quanta fazia extremecer todo o assoalho de minha alcova e soar fóra de tempo a campainha do relogio sobre a meza... Senti-me muitas vezes balançado como a espherasinha de madeira que anima o trillo dos apitos...

--É curioso, de véras, o seu caso.

--Foi, doutor.

--Sim! Foi! E hoje sinto não lhe ter visto nesse tempo originalissimo.

--Mas viu-me um outro medico e diagnosticou-me: um paranoico.

--Paranoico?

--Exactamente, doutor, e và vendo. Aconselhou que eu me tratasse com banhos de luzes. Escravos do sentimentalismo clinico desse primeiro medico, os meus paes exgottaram uma fortuna e eu fui enormemente banhado, a contragosto, com luzes de todas as côres. Era inocuo o tratamento para me fazer bem, mas foi uma aggravante dos meus males Exacerbei-me. Os meus nervos polarisaram-se como se aguçados por alta dose, mas não toxica, de strychnina. Veiu um segundo medico--jà a esta hora e ha muito tempo--victimado por uma embolia cerebral. Olhou-me e disse, carrancudamente, deante de uma das minhas crises de saudade carnal: «são delirios epileptiformes»... E o tratamento passou a ser feito com altas doses de bromurêto. A minha ennervação deprimiu-se, e tornei-me um atoleimado, tanto que nem pranteei a morte de minha mãe, desgostosa com a minha tragica existencia... Novo medico; vim a ser um simples neurasthenico, com atonias nervosas. Reconstituintes, passeios, boas alimentações, prazeres, etc.: nada, porem, matava as saudades do meu instincto animal. Comecei de padecer do estomago, ora por excesso de alimentação, ou por escassez... Fui um dispeptico, padeci de insomnias, tornei-me um narcoticomano. Na insomnia, senti faltas de ar: novos medicos e fui um cardiaco, um arterio-schlerotico... Abusaram de iodêtos e tive hemoptises. Um Esculapio chamado às pressas, levando em conta a minha magrêsa, o sangue exvasado dos meus pulmões e o historico dos meus soffrimentos, num rapido prognóstico, annunciou a minha morte breve, por força de adiantadissima tuberculose. Quando os doutos senhores me interpellavam, nunca tiveram o escrupulo de ouvir-me no que soffria sómente: suggeriam-me cousas que só dalli por deante eu começava de sentir. E veiu um curador homeopatha: os seus remedios ingeri com facilidade, pela falta de sabor. Cahi num abatimento nervoso, e um visinho, que se enforcou dias depois porque se sentiu arruinado nas suas forças commerciaes, lembrou que os maus espiritos encostados aos corpos de pessôas novas, faziam artes do demo... E não só apresentou a conveniencia de ser eu rezado, como tambem foi buscar uma velhinha, encarquilhada e bronzea, que, de sobre o meu corpo, deitado de bruços na cama, exconjurou o meu malfeitor, com um galho da famosa arrudeira...

--E nem rezado, sr. Estephanio?

--Para o doutor ver! Nem rezado!

--É unica a sua historia.

--Creio que sim, mas verdadeira. Notou-se, ao depois, que eu tinha mau funccionamento renal... E foi quando o sr. foi chamado.

--Assim acaeceu.

--E inda pensa o doutor que eu tivesse affecção nos rins?

--Se me não falha a memoria, effectivamente.

--Pois escute: logo depois de sua intervenção, repudiando eu os medicamentos que o doutor indicou largamente, dois collegas seus foram trazidos em conferencia.

--Que disseram elles?

--Discordaram preliminarmente do doutor, e discordaram entre elles mesmos. Do doutor discordaram reputando sãos os meus rins.

--Sãos, ou curados?

--Curados, não. Inattingidos até àquella data. E firmaram o diagnostico de uma hepatite aguda, um encontrando atrophia do orgão e o outro hypertrophia.

--Mas, afinal, acertaram?

--Suppõem que sim, porque ao depois da assistencia delles recuperei a saude.

--É espantoso, meu caro senhor.

--Não é, não, doutor. Ao tempo em que descri dos medicos, tinha reapparecido a mulher que eu amára. Visitou-me. Inflammamo-nos, e... estamos casados, não foi assim, Judith?

--Parece-me!

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Assim exclamou, apenas, a seductora mulher, com os olhos espelhando o enfeitiçamento de um lindo _manteau_ exposto no mostruario de modas e confecções... emquanto o velho Doutor enrugava solemnemente a espaçosa fronte...

OS DOIS ESPELHOS

OS DOIS ESPELHOS

Depois de mandar retirar-se a criada, VIOLANTE foi, pé ante pé, fechar a porta do salão de jantar que deitava para a copa, e veiu sentar-se junto do esposo com um olhar esbrazeado e as mãos profundamente geladas.

SIMEÃO, o esposo, estava transfigurado: um tremor esquivo no canto dos labios e o retorcer teimoso dos bigodes, illuminavam-lhe as feições com um clarão colerico.

Ao depois de sentada ao seu flanco, impulsionando para traz a cadeirinha de balanços, VIOLANTE provocou-o...

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--Faze a tua scena.

--E não é sem tempo.

--Porque te deixaste enganar se sabias de ha muito e se não é sem tempo?

--Facilidades.

--Os grandes generaes perdem sempre as batalhas porque facilitam. E o homem cazado não tem direito a facilidades.

--Bem o sei... Quando penso no erro do meu casamento, soffro mais do que Orestes no remorso do seu crime lembrado sempre pelas erynias. Uma existencia inteira para passar escravisado aos laços de uma união infeliz!... Maldita hora!

--Ah!... ah!... ah!... ah!...

--Sorris...

--E então? Hei de chorar para te sentires bem na oppressão que me fazes?

--A minha vida depois que me senti enganado...

--Não tem sido menos nem mais infernal do que a minha depois que conheci o teu adulterio...

--Insultas-me ainda em cima, Violante?

--Não te insulto. Repillo as tuas aggressões, termo por termo. O que eu digo é que o mesmo direito que tem o homem de trazer o corpo escarolado e perfumoso para agradar às amantes, tem a mulher de...

--Não dize, Violante, a indignidade!

--Porque não dizer as cousas como ellas devem ser? Só depois que senti a tua ausencia do lar...

--E confessas o delicto?!...

--... só depois que conheci a tua amante...

--Mentes, mulher!

--... só depois que fui ver onde entras, todas as manhans, quando daqui sais...

--É horrivel, Violante!

--... só depois de ver-te partir de là e a tua concubina despedir-se de ti com um olhar de escandalo e tu com gestos de lastimavel escravidão...

--Tu viste?

--Sim... só depois de ter a certeza de possuires uma amante...

--Poupa, Violante, essa phrase...

--... rendi-me voluntariosamente a um dos muitos homens que me faziam a côrte, sabendo-me uma mulher, infeliz como outras muitas, esquecida no lar pelo marido libertino...

--É demais!

--Porque tu o quizeste. Abandonaste a tua caza. Dias inteiros passei num isolamento de aborrecer. Entretanto, fôra diverso o teu proceder nos primeiros tempos de nosso casamento. Quando sahias, mal eu te pensava na rua, mal eu começava a sentir a tua ausencia, estavas de volta. Fui-me habituando a essa constancia ficticia. No dia em que te retardaste, pela primeira vez, chorei e nem soube, porque nunca te perguntei, a hora em que tornaste da rua... Onde estiveste? Nunca quiz saber. E, até hoje, nunca te pedi a menor palavra sobre o teu procedimento...

--E como homem, senhor pleno de seus actos, eu te negaria informações.

--Pois bem! Para evitar essa negação, nunca t'as pedi, sciente e consciente de que sobre o meu procedimento, dentro do nosso lar, não te devo satisfacções... São ellas por ellas...

--Abusas...

--Corrige-me se puderes... Não és o meu marido?... Toma conta dos meus actos! Soubeste que te trahi?... Mata-me, ou expulsa-me de teu lar. Faze o que entenderes, certo de que atraz de mim haverá quem vingue as tuas incontinencias e perversidades...

--E sabes quem é a minha amante?

--Se sei, Simeão?!...

--Crias um conhecimento para justificares a tua falta. Mentes, pois: não conheces ninguem...

--Só com o rizo!... Ah!... ah!... ah!...

--Toma tento, Violante: enveredas por um caminho em que a minha paciencia se exgottarà afinal...

--Ainda em cima me ameaças?

--Sou senhor dos meus actos, dono de minha caza, e exijo que me confesses tudo... Quem te mentiu que tenho uma amante?

--Ninguem!

--Ninguem, como?

--Desconfiei e fui ao teu encalço...

--Não falas a verdade, Violante.

--A certeza das coisas é adquirida quando nos abeiramos dellas. Molestias mortaes, por miasmas exhalados dos paúes, só as contrai quem lhes vai à beira. Acompanhei-te os passos... Foste ao suburbio... Olhas-me agora atravessado? Nega então que te falo a verdade como ella é?!... Por favor, desmente-me, se és capaz...

--Juro-te que não sei do que se trata.

--Perjuro!... Então, toda a manhan não vais daqui à caza de Idalia... Não me interrompas, não... toda a manhan, não passas là horas esquecidas, quando sais não fica ella por traz da gelosia a acenar-te e tu a corresponderes-lhe os acenos de apaixonada despedida?

--Ousada! Alem do mais, injurias à mulher de um amigo da nossa familia...

--E que é a tua amante...

--Pois se é, está tudo muito bem... Escolhi-a por minha muito livre vontade... Constou-te jà que eu tivesse desrespeitado o nosso lar? As minhas obrigações maritaes concluem-se, quando saio, na porta da rua, e começam, quando entro, no mesmo ponto em que as deixei... Portas a dentro, estou eu cazado, e arrependido de ter renegado a Jessy a quem jurei culto eterno, alias, em tempos melhores... Casei por uma supposição de momento: a solidão de solteiro era um suicidio de todos os dias. E só não me enganei em suppôr que o matrimonio me facilitaria relações difficeis antes de ter as qualidades de senhor duma mulher... O mundo inteiro me foi pequeno sempre que tive em mente a tua companhia, e, inda hoje, Violante, se me lembro de ti, o maior prado é um pequenino jardim, o maior céu é a entrada de uma furna... A companheira é um tormento. Tomei uma amante... mas, dentro desta caza, fui sempre o mesmo homem respeitador...

--Outro tanto te allego eu... Mentirá aquelle que disser me ter visto, sorrateira ou clandestinamente, embuçada ou mascarada, penetrar em lugares escusos, ou ao lado de algum homem que não fôsses tu... Casei-me por inexperiencia... Suppuz ser inextinguivel a paixão momentanea que ditou o acto de meu infortunio... Escravisei-me emquanto o meu marido tambem foi meu escravo... Libertou-se elle, libertei-me eu... Adquiriu uma amante...

--Retem-te, Violante!...

--Não! Hei de dizer-te como tu me disseste... Ninguem póde viver longe do pecado depois que pecou uma vez... Tambem tenho um amante, sr. meu marido!...

--Intoleravel!

--Tambem tu o és!

--Adultera!

--Deixemo-nos, Simeão, de apodos... Tenho lingua e liberdade para t'os devolver todos, um por um...

--Saber-me trahido...

--Nada mais natural: queimou-te a braza com que me queimaste... Quando nada, não terás de lastimar a alarvidade da tua esposa... Foi uma mulher digna do marido que lhe deram...

--Sinto faltar-me a luz da vista...

--Impressões, Simeão.

--Pois é justo que me consinta enganado?

--Não nos deshonramos...

--É um consôlo ridiculo.

--E que dirias tu se trahida eu não te trahisse igualmente?

--Diversa é a situação do homem, Violante.

--O casamento nivela os direitos de ambos os sexos... Espontaneamente nos submettemos a esse regimen de igualdade...

--Doloroso!

--Assim exclamei, Simeão! Agora, porem, me sinto melhor: não me enganaste, e isto deve ser glorioso para ti, enganamo-nos...

--E o teu amante?

--Dispensa sabel-o...

--Ah!... Repillo a lembrança que me occorre... Não, não é possivel!... O massagista...

--Rende justiça à tua mulher, Simeão! Pois não vês que eu me não vingaria de ti amando um homem indigno por todos os titulos, que te fizesse córar perante a sociedade, e que me fizesse enrubescer deante de ti?

--Então... Desabafa-me!... Sê completa!

--Insistes em conhecer tudo?

--Não duvides que o quero de coração.

--É Lourival...

--O marido de Idalia?...

--De certo.

--Ah! como somos, do modo mais vil, dois espelhos que se reflectem conjugadamente...

--Mas eu estou vingada...

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