Mulheres e creanças: notas sobre educação

Chapter 3

Chapter 33,788 wordsPublic domain

Segundo, a inhabilidade e a ignorancia, que as torna incapazes de qualquer trabalho seguido. A falta de gosto natural ou de gosto adquirido, para se entreterem, para se distrahirem, para revestirem de uma fórma sympathica e attrahente as suas obrigações de donzellas, de esposas, de mães, de donas de casa.

Terceiro, a inveterada frivolidade que herdaram, e que os exemplos recebidos, e a falsa educação mais aggravou e desenvolveu, tornando-a um perigo, o maior de todos os perigos que ameaçam a familia.

Eu tenho repetido isto tantas e tantas vezes, que receio por fim enfastiar as minhas leitoras.

_É necessário antes de tudo transformar radicalmente a educação das mulheres._

Muitas das cousas que hoje se ensinam é mister que deixem de se ensinar.

Muitas outras que se encaram debaixo de um certo e determinado ponto de vista, cumpre que se vejam sob outro aspecto inteiramente differente.

Outras ha ainda a que ninguem attende e que se não ensinam, e é positivamente a essas que se deve dar a maxima e a mais desvelada attenção.

Tratemos de apresentar exemplos das tres asserções que acabamos de apresentar.

Das cousas inuteis que hoje se consideram ainda partes integrantes de uma educação perfeita.

Ha a _dança_: um talento absolutamente dispensavel, que nas meninas só serve para desenvolver a _coquetterie_, o desejo de brilhar e de agradar.

A _tapeçaria_: um pretexto futil para estragar o tempo. Em quanto a mão vae preguiçosamente bordando a talagarça, a phantasia irrequieta da mulher, da creança, corre e vôa por montes e valles, á procura de um vedado ou de um impossivel ideal. Chama-se a este genero especial de trabalho feminino, a _hypocrisia da preguiça_.

Como estas duas cousas, ha muitas mais que não temos tempo de enumerar, mas que se não são nocivas como a primeira, são pelo menos inuteis como a segunda.

Procuremos agora muitas das materias que se ensinam, e devem continuar a ensinar-se, mas ás quaes a educação tal como está rotineiramente estabelecida, não sabe dar a importancia e o valor devido.

São a musica, a historia, as linguas, a geographia, a arithmetica, etc., etc.

O primeiro cuidado de toda a mãe vaidosa ou illustrada, intelligente ou mediocre, é que as suas filhas aprendam a tocar piano.

Muito bem.

É preciso, porém, advertir-se que a _monomania do piano_, tal como ahi anda inoculada e propagada, é um flagello, um temivel flagello e nada mais.

A musica é de todas as artes aquella que mais falla aos sentidos e á alma do homem.

Modera, dulcifica, adormenta, consola, estimula, apaixona, enternece e muitas vezes, quando profanada e desvirtuada por sacerdotes sacrilegos, enerva, abranda a energia e a vitalidade do espirito, e vence todas as resistencias viris do caracter.

É uma amiga, póde ser uma cumplice.

Em todos os casos é um grande, um milagroso, um divino, um terrivel poder.

Mas mesmo pelo papel importante que occupa, mesmo pela influencia profunda que exerce, não é dado a todos interpretal-a e comprehendel-a.

Muitos ha que se submettem ao seu irresistivel dominio, sem saber sequer adivinhal-o ou presentil-o.

Quantas vezes não temos visto uma pobre mulher boçal, uma modesta e ignorante creatura, chorar de commoção ouvindo as notas tristes de uma flauta ou de uma guitarra!

Não tem a consciencia da commoção que a perturba, mas vibram-lhe os nervos, latejam-lhe as fontes, toda ella palpita e estremece como que agitada por uma potencia ignota.

Como todas as artes, a musica só póde ser interpretada por quem a comprehenda com o seu espirito, e por quem a sinta com o seu coração.

De outro modo é uma profanação e é um escarneo.

Achamos, portanto a musica, um elemento poderosissimo de educação, mas exigimos que haja intelligencia e vocação nas pessoas que a aprendem.

Não é fazer do piano um attributo indispensavel de todo o ensinamento elegante, e obrigar sem discernimento e sem escolha todas as meninas a estudal-o e a atormentar com elle o ouvido do proximo.

Logo que se comprehenda bem o grande alcance da musica, a sua influencia moralisadora, a sua missão artistica, as mães escolherão de entre as suas filhas, aquella ou aquellas que mostrarem predisposição para este genero de estudo e auxiliarão por todos os modos o desenvolvimento d'essa vocação.

O piano deixará de ser o flagello e a peste das _soirées_ sem ceremonia, o tormento dos visinhos proximos, o pezadello dos maridos, o martyrio das proprias executantes. Não reinará exclusivamente como até aqui esse despotico e terrivel instrumento.

Não se dirá das meninas _bem educadas_: _toca admiravelmente_, subentendendo já o malfadado _piano_.

Dir-se-ha mais acertadamente: _sabe musica_, _toca muito bem violoncello_, ou _harpa_, ou _rebeca_, ou _piano_ mesmo, porque nós não queremos condemnar nenhum instrumento ao ostracismo, pelo contrario queremos livrar os outros do ostracismo a que estão injustamente condemnados.

Com esta escolha sensata das pessoas que particularmente devessem cultivar a sua vocação musical, muitos bens proviriam á educação da mulher.

A musica executada só por quem a entendesse, ouvida só por quem a apreciasse, tornar-se-hia, em vez de um ornato de vaidade, uma elevada distracção artistica.

Educaria e apuraria o gosto, exerceria a sua pura e civilisadora influencia, seria o repouso depois do trabalho ou a consolação no meio d'elle.

Os velhos mestres allemães com as suas largas e simples harmonias, ouvidas á noute no serão modesto da familia, ao pé de um ou dous amigos intelligentes e sinceros, penetrariam o coração da mulher de uma serenidade affectuosa e dôce, de um casto enternecimento salutar!

* * * * *

O que dizemos da musica instrumental tem applicação a todas as outras artes.

O canto, o desenho, a pintura, a escultura mesmo.

Todas merecem o nosso respeito, não como adornos pueris, mas como elementos de util e fecunda moralisação.

Sempre que a mãe ou que a educadora descubra em sua filha, ou na sua discipula, tendencia pronunciada para um ramo qualquer de actividade intellectual, deve por todos os modos facilitar e desenvolver essa vocação espontanea.

Mas que a educação de todas não seja pautada por um molde uniforme!

Mas, por Deus! que não se faça d'esta grande e sublime missão de cultivar um espirito infantil, uma questão de moda, uma questão de vaidade, uma questão de mutua inveja mesquinha.

As linguas são hoje ensinadas com muito esmero.

Mas que applicação se dá a essa sciencia adquirida em muitos annos de estudo e de pratica?

Uma applicação deveras ridicula!

Entre vinte das meninas que sabem hoje francez, inglez, allemão ou italiano, não ha quatro que tenham lido Hugo ou Bossuet, Racine ou Montaigne, Shakspeare ou Milton, Goethe ou o Dante, não ha quatro sobretudo que estejam aptas para comprehenderem estes mestres do pensamento e da palavra.

E no entanto para que servem as linguas estrangeiras?

Não passam de meros instrumentos com os quaes adquirimos noções, factos, idéas, conhecimentos, que nos seriam estranhos sem ellas.

Na lingua de um povo está consubstanciado muito do que elle é moral, physica e intellectualmente. Penetra-se no caracter de uma nação conhecendo a fundo as locuções de que ella se serve.

E quem é que hoje encara as linguas d'este modo a não ser algum philosopho retirado na sua torre ideal, ou algum philologo embebecido nos seus estudos?

É preciso que este conhecimento se vulgarise e se propague, para que as linguas estrangeiras tomem na educação o lugar que lhes compete.

A historia, que é um apontoado de datas e de nomes proprios, de dynastias e de batalhas, logo que passasse a ser na educação das mulheres o que ella é já no espirito dos criticos, seria um estudo attrahente, mais dramatico do que todos os romances, de uma realidade mais poderosa e dominadora.

A geographia, que não é mais do que uma arida e enfadonha nomenclatura, animada pelo espirito da mãe intelligente, levaria a imaginação infantil, não já pelos paizes chimericos, do sonho e do impossivel, mas por essas regiões pittorescas, onde tanto ha que vêr e que aprender.

Mais tarde as sciencias naturaes, a botanica, a mineralogia, a biologia, abririam ao espirito já preparado, horisontes larguissimos, onde pudesse espraiar-se livremente.

* * * * *

Assim educada, quer dizer, sabendo tudo que sabe hoje, mas classificado por outra ordem, e encarado debaixo de outro aspecto, e muitissimas cousas que hoje não sabe, mas ás quaes a conduziria naturalmente, o novo methodo dos seus estudos, a mulher transfigurada, levantada, fortalecida, podia aspirar a uma vida inteiramente diversa da que hoje tem.

Teria grandes vantagens esta modificação profunda no seu modo de ver, de pensar e de sentir.

Vulgarisada para todos a educação cujas bases apontamos, desapparecia da sociedade essa entidade singular chamada _mulher pedante_.

É extraordinario mas é verdade, a ignorancia das outras é que constitue o pedantismo d'esta.

Sendo uma excepção no seu meio, tem as qualidades e os defeitos das _excepções_.

Comprehende que é alvo da curiosidade, do pasmo, da observação dos que a rodeiam, e a pouco e pouco vae cahindo n'uma _pose_ artificial que a torna ridicula.

Poucas são as que téem a coragem de--tendo um lado superior--se conservarem simples, desartificiosas, naturaes.

Lêram, estudaram, compararam; no meio da estupidez geral, produzem um vago assombro que lentamente vae distinguindo n'ellas!

Oh! mas no dia em que a mulher instruida deixasse de ser uma excepção admiravel, como ellas, as pobres _mulheres pedantes_ se sentiriam humilhadas e deslocadas!

A vida de sala iria pouco a pouco sendo o apanagio das frivolas e das tôlas, e acabaria por desapparecer completamente.

A mulher dentro de sua casa sentir-se-hia bem, porque teria em si recursos sufficientes não só para entreter os seus, como tambem--e é isto o principal--para se _entreter a si_.

É essa a grande questão!

É preciso que as mães preparem o espirito de suas filhas de modo que ellas não precisem dos outros para viver contentes.

E como se ha de conseguir este fim?

Educando-as para que ellas bastem a si proprias. Dando-lhes ao espirito todos os recursos, ao corpo todo o vigor, ao caracter toda a austera dignidade; cultivando e desenvolvendo todas as faculdades superiores que ellas revelem, encadeando harmonicamente as suas acquisições intellectuaes, para que d'essa harmonia interior resulte para ellas uma exacta e elevada comprehensão da vida!

E não é muito o que nós exigimos.

Somos a primeira a confessar que hoje ha muito mais esmero e apuro do que havia antigamente na instrucção que as classes abastadas dão ás suas filhas.

Pouco mais precisam de aprender; o que lhes falta é a ligação logica entre as varias cousas que aprendem, é uma concepção mais larga das mesmas sciencias que adquirem, é o conhecimento das proprias armas que possuem, contra esse inimigo poderoso da mulher, chamado Tedio.

Em nosso humilde entender classificariamos d'este modo os conhecimentos indispensaveis a toda a mulher, para esta ser julgada apta a exercer o sacerdocio de esposa, de mãe, e de dona de casa.

As linguas estrangeiras, consideradas como meios de adquirir noções praticas, idéas justas, factos positivos; como meios de comparar, de julgar, de aquilatar, de exercer emfim o seu senso critico, de modo que o desenvolvesse, elevasse e afinasse; como meios de conhecer as differentes manifestações do bello e de as poder relacionar entre si.

A Historia, com o fim de conhecer através d'ella a humanidade de todos os tempos, de seguir a sua lenta e continua evolução, e de penetrar lucidamente no sentido da palavra--progresso.

O conhecimento profundo e philosophico da historia moralisa, pacifica, e revigora as crenças. Dá ao espirito, além de notavel perspicacia, grande justeza de pontos de vista.

Viriam depois, como já dissemos, a geographia natural, a arithmetica, a geometria, as sciencias da natureza, e isto harmonicamente, progressivamente, de deducção em deducção, sem esforço, ligando um conhecimento a outro conhecimento, n'uma cadeia logica e inquebrantavel.

Juntamente com estas acquisições uteis, e como que amenisando os esforços que ellas por ventura custassem, a mãe intelligente levaria sua filha a cultivar especialmente a arte para a qual sentisse mais accentuada vocação.

Preparada por esta iniciação em que o espirito fosse exigindo dia a dia alimento mais substancioso e mais forte, á proporção que mais rico de vigor e de vitalidade elle se sentisse, escusado é dizer, que nenhuma mulher deixaria de comprehender e de saborear com intimas delicias o encanto novo e superior com que a arte illuminasse a sua vida.

Seria uma ascensão gloriosa e lenta, ás alturas onde se respira um ar mais puro e mais subtil.

D'alli, d'aquella montanha ideal, a que ella houvesse subido, levada pela sciencia e pela arte, pelo estudo e pelo sentimento, ser-lhe-hia facil descobrir o caminho que devesse seguir na vida. A idéa do dever, esta idéa que é o remate e a corôa da educação perfeita, apresentar-se-lhe-hia como um resultado natural de todo o trabalho interior que no seu espirito se houvesse feito.

Chegariamos emfim ao ponto que queremos attingir.

A educação deixaria de ser um fim e tornar-se-hia o meio elevado e transformado de alcançar a perfeição moral.

Resta, porém, fazer uma pergunta que está no animo de todos.

Sujeitar-se-ha a mulher, assim arrancada de chofre á banalidade da esphera limitada em que tem vivido até agora, a cumprir as mesmas humildes obrigações, que teem sido e continuarão a ser a sua tarefa quotidiana, e o seu quinhão na vida?

De certo que sim, e seguindo o mesmo methodo que seguimos para o seu cultivo intellectual não nos será difficil provar que esses mesmos deveres, logo que sejam comprehendidos dignamente, em vez de humilharem, são um triumpho para aquella que os sabe exercer.

CAPITULO III

A velhice das mulheres

Nas nossas continuadas predicas ácerca da transformação que é necessario operar-se em tudo que respeita á educação feminina, levamos em mira principal, duas cousas muito dignas de attender-se.

Primeiro: que a mulher torne quanto possa, independente de circumstancias exteriores, a marcha do seu destino, quer dizer, que ella não seja forçada fatalmente a seguir um caminho para o qual haja no seu espirito instinctiva repugnancia, que ella dispense na sua vida influencias estranhas e muitas vezes incompativeis com a sua indole.

Segundo: que ella se vá lentamente preparando na infancia e na sua tão curta e ephemera mocidade, para a quadra mais longa, mais difficil e podemos hoje dizer, mais dolorosa da sua existencia: a velhice.

Exemplifiquemos, para que melhor seja comprehendido o nosso raciocinio.

No que toca ao primeiro ponto, lancemos em roda os olhos e vejamos. Por toda a parte encontraremos argumentos victoriosos.

No estado presente da educação a mulher está sujeita a uma funesta dependencia, a qual mesmo sem tendencia para exagerações declamatorias, se póde chamar escravidão.

Assim como descuram dar ao seu corpo por meio da gymnastica a força, a elasticidade, a ligeireza, o vigor, assim descuram dar á sua alma a energia, que a torne superior aos preconceitos, e ao seu espirito a forte e larga educação, que a habilite para ganhar honestamente a sua modesta subsistencia.

Sente-se fraca, e pusillanime diante do trabalho, diante das luctas, diante da desgraça.

Confessa a cada instante o medo pueril que a avassalla; medo de não resistir ás tentações que a covardia dos homens arma á insensatez da mulher; medo do riso alvar com que os tolos lhe castigariam a viril energia; medo de se sujeitar ao trabalho incansavel e tenaz que ha de dar-lhe a independencia, a dignidade, a livre posse do seu destino.

Além do medo a impossibilidade absoluta.

Se nada sabe, o que ha de ella fazer?

Podia dirigir a contabilidade de uma casa de commercio importante.

As mulheres com o seu instincto de ordem, mais desenvolvido do que os homens, são proprias para este genero de trabalho.

Podia, sendo medianamente illustrada, ser caixeira de um estabelecimento de modas, de uma loja de papel, de um mercador de fazendas, etc., etc. Tudo isto está em harmonia com a delicadeza dos seus orgãos.

Podia ensinar linguas, ensinar musica, ensinar e explicar as sciencias que houvesse aprendido, a historia, a arithmetica, a litteratura, a geographia.

Podia, tendo alguns fundos que houvesse herdado de seus paes, estabelecer qualquer pequena industria, emfim, ter uma acção propria, independente e não subordinada aos caprichos alheios, ou ás circumstancias eventuaes.

Mas como não sabe fazer nada d'isto, como a sua educação a pôz e a conserva n'um estado de absoluta e desoladora humildade, não tem senão tres caminhos a seguir.

Ou casar mesmo que não tenha pelo seu noivo nenhum sentimento de respeito; mesmo que o ache ridiculo ou estupido ou máu; mesmo que elle lhe seja imposto unicamente pelas conveniencias egoisticas do seu futuro; mesmo que nenhum laço de sympathia a elle a prenda, e d'esta funesta causa escusado será dizer quantos males terriveis não resultam para a sociedade e para a familia!

Ou ficar a cargo dos parentes mais ricos, que por commiseração a acolham, a alimentem, a vistam, a protejam, e n'este caso soffre e decahe a sua dignidade propria, a alma curva-se-lhe n'uma postura humilhante, deixa de ter responsabilidade, de ter opinião, de ter individualidade emfim; constitue-se um ser mutilado cujo aspecto enfermiço faz tristeza e dó, quando se não torna um temperamento azedo, atrabiliario, perverso, folgando no espectaculo de todas as desgraças alheias.

A terceira hypothese já todos a adivinharam infelizmente.

A mulher repellida da familia, porque a não quizeram inutil e pobre, não achando em si nem a coragem, nem a sciencia do trabalho, lucta contra o mal que lhe revela as suas traidoras miragens, mas se mão estranha a não soccorre e a não prende, succumbe, precipita-se e perde-se.

D'estas tres hypotheses exceptuamos, já se entende, todas as mulheres que tiverem a suprema felicidade de encontrar no homem a quem entregaram absolutamente o seu destino, além do noivo escolhido e preferido entre todos, o protector mais util e mais dedicado.

Exceptuamos tambem as ricas, porque essas que não tinham em si proprias a independencia, adquiriram-na indirectamente por meio da sua fortuna.

Mas a divisão infinita dos bens vae diminuindo mais e mais o numero das ultimas, e a felicidade negativa que ha na maior parte dos _ménages_ tornando as meninas de pouca edade impacientes de sahirem da casa paterna, imprudentes e precipitadas na escolha, vae diminuindo em não menor proporção o numero das primeiras.

Como quer que seja, abandonemos essas duas cathegorias de excepções e achamo-nos em frente de uma numerosissima maioria.

* * * * *

Os resultados que encontramos são, portanto, os seguintes:

A incapacidade absoluta da mulher dominar o seu destino, incapacidade cujas causas já apontámos, produz estes tres generos de victimas.

A mulher que casou, porque não podia deixar de o fazer, que casou para ter pão, para ter casa, para ter luxo, para ter protector, um editor responsavel da sua vida, e que tendo sómente este objectivo, se não occupou nem um instante em estudar e conhecer o homem a quem ia para sempre entregar-se.

A creatura humilhada, dependente, parasita, vivendo das migalhas do luxo que a rodeia.

A desgraçada que a sua fraqueza inteiramente desprotegida perdeu e abysmou.

Nenhuma d'estas mulheres condemnadas ao descontentamento intimo, á dolorosa inquietação da consciencia, em resultado de uma causa identica, póde estar satisfeita comsigo mesma.

O que fazem, pois, para fugirem de si? Procuram quanto sabem e como podem, os outros.

As festas de uma folia burlesca, ou as festas de uma pompa deslumbrante, o mundo, emfim, a convivencia, o barulho, tudo que aturde, tudo que faz esquecer.

Ainda aqui os nossos calculos nos não illudiram.

A mulher procura o mundo, porque as alegrias que póde encontrar em si mesma, não só lhe não bastam para illuminar com ellas o lar onde vive com os seus, como lhe não chegam para si propria se distrahir e se contentar.

* * * * *

Entremos agora no segundo ponto que ha pouco tocámos.

A mocidade da mulher é forçosamente curta. Aquella que se compenetrar sensatamente d'esta idéa, o que deve fazer para attenuar a amargura?

Preparar-se com dignidade, com resignação, diremos mesmo com alegria para esse longo supplicio da mundana, que se chama velhice.

O homem, desenvolvendo em muito mais larga escala e de um modo muito mais variado a sua actividade complexa, póde gosar até á mais avançada edade dos prazeres que por assim dizer mais apreciou.

A ambição, as luctas da politica, as lucubrações da sciencia, as argucias da diplomacia, as investigações da historia e da critica, e mesmo os gosos ardentes da arte.

Vejam-se Goethe, Miguel Angelo, Hugo, Beethoven, Talleyrand, Thiers e tantos e tantos mais.

A mulher de hoje, a mulher educada por este acanhado ideal que a domina, funda o seu fragil poder nas graças fugitivas da sua formosura, no encanto juvenil da sua vivacidade, na sua elegancia, no seu riso frivolo e pueril, no esplendor radiante do seu luxo, na sua convivencia inutil e perfumada como a das flôres!

Um dia alveja-lhe na massa fulva, cendrada, ou negra dos seus cabellos, um fio de prata, o primeiro, invisivel para todos os olhos, mas que o espelho revelou aos seus.

Esse fio traz preso a si a desventura!

Oh! ella reinou, dominou, teve subjugadas aos seus pés todas as forças e todas as vontades!

A casa, mesmo sendo a casa um ninho fôfo e perfumado, parecia-lhe bem pequena e bem mesquinha para theatro dos seus triumphos.

Era das salas que ella gostava!

Do murmurio surdo, abafado, voluptuoso de admiração, que ella excitava ao entrar nos salões pelo braço do seu pobre marido, muito enfastiado e soberanamente ridiculo!

Como todos gabavam o sabio decote do seu corpete, revelando com uma indiscrição que accendia invejas e desejos em torno d'ella--invejas e desejos que a enroscavam como serpentes de fogo--a brancura do seu collo e dos seus hombros, aquella brancura setinosa de camelia, que o orvalho da madrugada humedeceu.

Como era magestosa a cauda do seu vestido! como as flôres e as perolas se ennastravam bem nas suas tranças opulentas! como os braceletes de brilhantes mordiam de raios iriados a carnação explendida dos seus braços!

Como a adoravam, como a detestavam ferozmente aquelles homens e aquellas mulheres!

Cada olhar tinha a agudeza de uma lamina de aço!

Traspassavam-n'a, feriam-n'a, beijavam-n'a aquellas mudas caricias insolentes, e aquelles odios violentos e felinos!

E a consciencia da sua formosura, da sua soberania omnipotente, do seu prestigio invencivel, fazia-a vibrar toda como ao contacto de uma pilha.

Sentia-se rainha. Tinha ditos graciosos, tinha repentes felizes, tinha epigrammas implacaveis, _coquettismos_ crueis; era espirituosa, era bella, era triumphante!

A casa, os filhos pequeninos, o marido, os livros, que são tão bons companheiros da honestidade e da modestia, onde ficara tudo isso? Nas brumas indecisas de um passado que ella não queria ver.

Oh! que intensidade de vida n'estas horas!

Era só pensando n'ellas que vivera. Para que havia de lêr, para que havia de instruir-se, para que havia de ir perguntar á natureza muda, o segredo de todas as suas riquezas, para ella inuteis e desdenhadas?

Era feliz porque era admirada.

* * * * *

Como desce o panno sobre o tablado cheio dos deslumbramentos de uma magica, assim para ella descera agora o panno, sobre os prestigiosos esplendores da sua vida de garridice e de vaidade, de luxo e de loucura.

Aquelle cabello branco avisou-a sinistramente de que tudo acabara.

Se continúa a luctar com a velhice que nunca se deixa vencer, achará só escarneos onde antigamente achára cultos, só baldões onde a tinham acclamado em triumpho.