Mulheres e creanças: notas sobre educação
Chapter 11
A differença consiste unicamente n'isto:
Uma tem de educar-se para criada, e outra tem de educar-se para duqueza.
No asylo destinado a formar criadas, haveria o mesmo escrupulo na escolha das mestras.
Antes de tudo uma moralidade austera.
Depois no que toca á parte technica da educação, officinas distinctas onde cada uma das discipulas fosse alternativamente aprender os serviços que mais tarde tivesse a cumprir.
Officinas onde se aprendesse a cosinhar segundo as regras da hygiene. Officinas onde se aprendesse a engommar segundo os processos mais adiantados. Outras onde se lavasse roupa de lã, e roupa de linho e algodão.
Outras onde se talhasse roupa branca, fatos de creança, e fatos de senhora.
Não se attenderia aqui como no _atelier_ das modistas do asylo superior, aos caprichos da moda, mas unicamente á commodidade, ao bom gosto e á hygiene.
Outras ainda onde se cozesse á machina.
Haveria mulheres especialmente encarregadas de ensinarem as discipulas a varrer, a limpar o pó, a esfregar o sobrado, ou a enceral-o á moda franceza, a deitar bem _rêdes_, a fazer meias, a cerzir panno, etc., etc.
Haveria n'este estabelecimento um requinte de aceio hollandez.
As mestras escolhidas primeiro nos paizes estrangeiros, e depois educadas pelo mesmo asylo, ensinariam com o maior cuidado ás suas discipulas, que as criadas destinadas pelo seu trabalho a penetrarem no seio de familias inteiramente estranhas a viverem em contacto com gente de muita qualidade eram forçadas a ter, além da honestidade commum a todas as mulheres honestas, uma honestidade particular da sua classe, uma honestidade composta de elementos muito variados.
Dir-lhes-hiam que uma criada boa tem de ser leal, tem de ser digna, de resistir ás más tentações, de ser fiel, de ser boa companheira, de ser laboriosa e de ter o escrupulo mais exagerado no cumprimento das suas obrigações.
N'este asylo ainda haveria subdivisões necessarias.
As mais geitosas para um certo e determinado trabalho applicar-se-hiam a elle de preferencia, não desprezando porém os outros.
Aquella que fosse destra para tudo, aproveitaria egualmente todos os elementos que houvessem de constituir a sua educação.
Ser criada não é--entenda-se bem--nem uma vergonha nem um _pis aller_; ser criada é um officio, ás vezes mais complicado que os outros, porque comprehende muitos.
A unica differença é que se póde ser uma boa criada não sendo excessivamente intelligente, e que as qualidades aqui indispensaveis são robustez, destreza de mãos, fidelidade, amor de trabalho.
* * * * *
Não se diga que isto é uma utopia impossivel.
No estado de adiantamento a que chegou entre nós o principio de associação applicado á beneficencia, nada mais facil do que organisar por este modo os asylos do paiz, ou pelo menos de uma cidade do paiz.
Não augmentaria de modo algum a despeza, mas progrediria necessariamente a educação popular.
Reunidas debaixo de uma direcção geral, todas as casas de Beneficencia de uma cidade, passaria esta não a crear asylos novos, mas a modificar a indole dos que existem.
Estabelecer-se-hia uma especie de gradação natural.
Em baixo a casa que recebesse sem distincçao todas as creanças de 4 a 10 annos que estivessem no caso de serem admittidas.
Alli, sob a direcção de professores intelligentes, e de directoras de espirito cultivado, far-se-hia aos 12 annos de edade a escolha.
Umas seriam enviadas para o asylo profissional de 1.^a classe, outras para o asylo profissional de 2.^a classe, a terceira para o asylo das criadas futuras.
Aquellas que estivessem mais adiantadas trabalhariam logo, de modo que grangeassem um salario por mesquinho que fosse.
Esse salario entraria como elemento de receita na caixa central.
Este plano, como se vê, não é mais que um plano embryonario, o germen d'uma idéa que se nos affigura util e praticavel.
Outros melhor do que nós o estudem e desenvolvam, se entenderem que o merece.
* * * * *
Quanto a nós, acreditamos piamente que só então começariamos a ter criadas.
As que sahissem do asylo com 20 annos de edade ficariam sujeitas a uma certa e determinada vigilancia, cujo systema e cujas bases nos não compete agora explicar.
Com estas garantias de moralidade, e de bom serviço, seriam preferidas a todas que as não tivessem, e pelo menos fariam uma util concorrencia ás criadas indisciplinadas e ignorantes que hoje temos.
As casas dignas e honestas teriam criadas cujo comportamento as não deslustrasse.
As outras ficariam com as que teem hoje.
Não merecem mais.
* * * * *
Nos asylos dos rapazes, seguir-se-hia uma norma egual ou parecida.
Esses como teem campo muito mais vasto para exercerem as suas actividades complexas, dariam de certo, bem educados e bem dirigidos, um pequeno contingente para a classe dos criados.
Seria um bem.
Uma criada representa sempre uma necessidade, um criado representa sempre um luxo!
Para que ha de haver criados de meza ociosos e insolentes, cosinheiros envenadores e infieis?
Estes serviços tão faceis não podem ser feitos por mulheres?
Logo que este uso se propagasse entre os ricos, deixaria de ser indicio de pobreza, ou de habitos plebeus.
No fim de contas tudo isto não passa de convenção!
* * * * *
Já que o Estado julga descer occupando-se d'estas _pequeninas_ questões de moralidade domestica, que a iniciativa individual o substitua.
Ninguem mais do que nós tem applaudido o engrandecimento progressivo, o rapido desenvolvimento das instituições de caridade.
Não é o dinheiro que falta, porque entre nós quando se falla na miseria, a caridade nunca faltou; o que falta é uma direcção boa.
A rotina n'isto como em tudo é funestissima.
A nossa caridade official dá pão e vestuario ás creanças, mas que faz em favor das mulheres?
Dando-lhes uma educação que não está em harmonia com os seus meios futuros, condemna-as á miseria, á desgraça, quantas vezes á ociosidade e á ignominia?
A educação deve fazer-se pratica e positiva, deve tornar-se um preventivo efficaz contra os maus conselhos da pobreza ou da preguiça!
Os que pensarem n'isto farão um bem á familia, e á sociedade.
Creanças
CAPITULO XV
I
São ellas a alegria da familia, como a familia é a suprema ventura dos felizes, e o supremo consolo dos desgraçados.
Quando apparecem trazem comsigo o sol; tudo se illumina.
Sorriem os labios mais ironicos, marejam-se de lagrimas doces os olhos mais aridos, estendem-se prodigas de bençães as mãos mais avaras.
Ellas são a graça que se ignora, a fraqueza que nenhum poder assusta, a innocencia que interroga, a aurora intellectual que desponta e que diffunde em torno de si uma luz cariciosa e limpida, uma luz que se reflecte em jubilos no coração das mães.
Tudo na vida é para ellas mysterio, mysterio que as chama e as attrahe, cujas trevas as não apavoram, em cujos sinistros meandros nem sequer receiam perder-se.
Em cada um d'aquelles pequeninos cerebros encerra-se em germen tudo que é no homem pequenez ou grandeza, genio ou mediocridade, força ou impotencia, virtude, abnegação, esquecimento de si ou egoismo, vicio e crime.
Onde ha maior mysterio do que a creança?
Debalde a interrogamos; não sabe responder, senão áquelles que pelo poder da sympathia logram identificar-se com ella.
Recebel-a das mãos de Deus é para a mulher, para a mãe a mais tremenda das responsabilidades, e desgraçadamente aquella de que tem a consciencia menos definida e menos clara!
* * * * *
Ser mãe, quem o não é?
A difficuldade e o segredo é saber sel-o.
Na sociedade, tal como ella está constituida e continuará a estar por largos e dilatados annos, dous entes, um homem e uma mulher, moços ambos, encontram-se, olham-se, sorriem-se e pensam de si para comsigo que estão _apaixonados_.
Durante alguns dias, alguns mezes, a que elles em falsa e sentimental linguagem chamam _seculos_, repetem um ao outro, n'um tom mais ou menos desafinado os _duettos_ de ternura doentia que os romancistas, os prosadores e os _maestros_ inventaram para conveniencia sua... dos seus emprezarios e editores, e para envenenamento do resto da humanidade.
N'este meio tempo, por detraz dos bastidores, os paes, que fingem _não ver nada_, calculam _in petto_ quaes os prós e os contras pecuniarios do matrimonio hypothetico.
Se os primeiros levam certa vantagem aos segundos, celebra-se com a devida pompa o almejado consorcio, e n'essa noite ha mais dois desconhecidos, dois indifferentes, dois estranhos acorrentados um ao outro por um laço que devia ser sagrado, e que muitas vezes consegue sómente ser... dourado!
O marido no outro dia vae para as suas labutações do costume, para a vida exterior que o reclama e absorve, a mulher fica em casa provando os vestidos do enxoval, experimentando se lhe fica bem a touca, distinctivo invejavel das noivas, ensaiando os seus primeiros vôos timidos de senhora independente, que póde á sua vontade fechar o piano, atirar fóra o lapis e as tintas, deixar para um canto a costura e o bordado, e subverter-se sem receio das censuras maternas no _dolce far niente_, que tanto a namorava em seus dias de educanda submissa.
D'alli a um anno, se é boa, docil, se tem a intuição das cousas delicadas, se um poderoso instincto de creatura amoravel lhe pede que espalhe em volta de si a felicidade, concedamos-lhe que já tem tido tempo de conhecer e apreciar seu marido, que principia a estimal-o, que se lembra um poucochinho envergonhada dos falsos lyrismos de solteira, das cartas que lhe escrevia _fazendo estylo_ e copiando phrases dos grandes apaixonados que a lenda e o romance immortalisam; que tem, emfim, ainda incompleta, mas já accentuada a noção da verdade e da justiça que ha de guiar-lhe a vida.
Param, porém, aqui os seus conhecimentos, e um dia, surpreza, encantada, extactica, chorando de alegria, umas lagrimas verdadeiras, d'estas que se escoam entre risos de gratidão, percebe que tem nos braços um pequenino ser, a quem tem direito de chamar filho, porque o gerou no seio em longos mezes de agonia insondavel.
Que ha de fazer d'elle? Como ha de desenvolver, robustecer, cultivar a saude d'aquelle entezinho, fragil e indefezo, que lhe solta no regaço os seus primeiros vagidos, buscando com a boquinha faminta e o instincto animal, que Deus concede a todos os seres creados, a primeira gotta do leite materno, que é a sua vida?
Entram as amigas e dizem-lhe em côro:
--Não o cries que perdes a formosura, o viço, a mocidade, tudo o que prende e captiva teu marido.
--Não o cries, que tens de te despedir dos bailes, das noites triumphantes em que a valsa nos arrebata nos circulos vertiginosos, em que as flôres e as finas essencias nos embriagam com o perfume enervante, em que a musica nos côa nos sentidos as suas caricias languidas, em que a luz crúa do gaz nos beija as espaduas opalinas, em que a admiração dos homens nos envolve na audaz provocação dos seus olhares, em que a inveja das mulheres nos enrosca em espiraes de cobra.
--Não o cries, que terás de perder as noutes, não entre alegrias e folgares, mas na alcova, onde a medo bruxoleia a luz mortiça da lamparina, junto de um pequeno berço, ouvindo aquelle choro da infancia, tão doloroso para os ouvidos maternaes.
Teu marido fugirá de ti; elle, que anda cansado da faina diaria, quer as noutes tranquillas, os somnos fartos, as placidas madrugadas; repugnam-lhe os primeiros trabalhos que a creança tem que dar por força á mãe, que fôr mãe, na accepção plena da palavra.
Não creio que a maior parte das mulheres ouça os funestos e corrosivos conselhos das amigas falsas; hoje começa a radicar-se em todos os espiritos a convicção justa e sensata de que só a mãe, quando é robusta, ou quando é simplesmente sã, deve amamentar o filho.
Entregal-o aos braços mercenarios de mulher estranha é aceitar a mais tremenda das responsabilidades.
A ama póde communicar no leite os seus vicios, os seus instinctos maus, as suas doenças ou defeitos de organisação hereditaria, toda a herança fatal de um passado inteiramente desconhecido para as pessoas que tão levianamente lhe confiam o que devia ser o mais precioso thesouro da sua alma.
Abstraiamos, pois, a ama, por não querermos suppôr que se trata aqui de uma mãe frivola até ao crime, despiedosa até á ferocidade, ou fraca a ponto de não poder cumprir os deveres da sua missão maternal.
Fica-nos simplesmente a mãe inexperiente e ignorante em face da recem-nascida creatura, flôr que precisa o mais desvelado cultivo, a mais complexa das educações.
Não a accusemos ao vel-a aceitar o seu mimoso fardo com tão leviana confiança, com uma tão plena inconsciencia da grande missão que precisa de cumprir.
A culpa não é d'ella; n'este ponto ha um criminoso apenas--é o homem.
* * * * *
Abrem-se universidades, lyceus, escolas, seminarios, institutos scientificos, para educarem no seu seio os jurisconsultos, os medicos, os sacerdotes, os mathematicos, os commerciantes, os sabios, os cidadãos do futuro.
Só falta uma escola, a primeira, a mais indispensavel das escolas, a que facilitaria e tornaria fructiferos os trabalhos das outras: falta a _escola das mães_!
Ninguem se lembrou ainda de a crear, julgam-na desnecessaria, ou talvez que a julguem frivola.
--Como é que se ha de ensinar a ser mãe? é só a natureza que instrue a mulher. Ha mães de quinze annos que sabem mais n'este assumpto do que velhos pensadores de sessenta. Deixae obrar a natureza, é ella a grande mestra, a suprema inspiradora!
De accordo, meus senhores; quem é que nunca se lembrou de negar á mãe o seu divino instincto de protecção e de ternura? Quem ao vel-a segurar com tão delicado carinho o tenro corpo do filho, acalental-o nos braços, adivinhar-lhe as necessidades e os desejos até para elle indistinctos, negará que entre esses dous entes ha uma cadeia mysteriosa, que a natureza nunca poderá mais desatar?
Mas é necessario que o estudo auxilie o maravilhoso instincto, que elle ensine á mãe a comprehender no seu triplice aspecto, physico, moral e intellectual, a educação do ser complexo, que hoje é uma fraqueza que implora auxilio e ajuda, que ámanhã será uma força util ou funesta, conforme a direcção que haja recebido desde os mais tenros annos.
* * * * *
_O estudo que comprehende todos os outros estudos, e que deve, portanto, constituir o ponto culminante da instrucção, é a theoria e a pratica da educação da infancia._
Estas palavras de Herbert Spencer, o philosopho mais notavel da moderna Inglaterra, um grande pensador, um chefe de escola, provam de sobejo até que ponto, aos olhos do homem que medita, avulta hoje o grande problema da educação.
É um erro imaginar que a creança nasce boa.
Ha n'ella instinctos innatos de natureza selvagem, instinctos primitivos, que só uma habil cultura modifica, transforma, encaminha ou desarreiga.
Toda a creança é curiosa: mães aproveitae essa grande força, que conduz o homem á conquista de todas as grandes descobertas da sciencia e da arte, e que póde quando entregue a si conduzir a creança ao mais deploravel e mesquinho dos vicios de caracter, á curiosidade esteril do ocioso, da _senhora visinha_. A creança tem o instincto do roubo. Apossa-se do que vê, do que attrahe pelo brilho, do que lhe desafia a cubiça, a gulodice, o amor da posse.
Leitora, quando o teu pequenino de tres ou quatro annos tiver artes de te roubar uma joia muito querida, um manjar muito reservado, um _bibelot_ qualquer, que seja para ti de grande estimação, não chores desconsolada, lendo n'esse primeiro symptoma sinistras prophecias. Esse prenuncio de ambição desregrada póde, dirigido com previdente vigilancia, transformar-se na legitima energia que leva o homem a desejar a posse das riquezas honestamente adquiridas, a exercer no seu espirito uma influencia fortificante, a tornal-o pertinaz no caminhar para um ficto que de longe antevio.
Dirigir toda e qualquer tendencia para um fim elevado e util, combater a inercia, a preguiça physica e intellectual da creança, empregando activos reagentes, ir ajudando lenta e gradualmente a evolução natural do entendimento infantil, abrir-lhe o espirito a todas as curiosidades sãs, apontar para a natureza inteira como para um livro enorme, mysterioso, cheio de apaixonado interesse, de peripecias dramaticas, de imagens vistosas, que elle ha de ir decorando a pouco e pouco, conduzil-o até ao limiar da adolescencia, puro de coração, immaculado no corpo, prompto e apto para absorver em si os conhecimentos complexos que o esperam, robusto, são, energico, confiante, cheio de crença nos outros, e de crença maior em si, eis a missão das mães. Que de cousas não são indispensaveis para a saber cumprir!
* * * * *
Uma das cousas que a mulher quasi geralmente ignora é a hygiene pratica, que ella tanto precisava saber, tendo, como tem, a seu cargo a distribuição e direcção do alimento da familia.
Do alimento que se ministra á creança depende em grande parte não só a sua futura saude, mas, o que poucas mulheres sabem,--o seu caracter futuro!
Dae a uma creança alimentos irritantes, inflammaveis, apimentados; deixae-a usar sem discernimento de bebidas em que o alcool predomine, e tereis o temperamento adulterado, o caracter azedo, os habitos baixos, os gostos perversos, todas as aberrações de um organismo estragado.
Dae-lhe só carne, alimentae-a brutalmente de materias fortemente azotadas, e fareis d'ella, da meiga e fragil creatura, do pequeno anjo de cabellos louros e olhos innocentes, um temperamento sanguinario, selvagem, amigo das luctas bravias, das distracções violentas, dos exercicios athleticos, que caracterisam as rigorosas raças do norte.
Exemplo: os inglezes, que só domam as revoltas brutaes do temperamento com a forte disciplina de uma educação que é o supremo milagre do espirito sobre a materia.
A alimentação fraca produz os organismos inertes, fleugmaticos, sem impulso, sem fibra, sem energia duravel.
Saber pois, conhecer os diversos attributos que caracterisam a alimentação do homem, saber combinal-os de modo que todos concorram para o seu bem-estar physico, e que nenhum produza as graves perturbações organicas de que podem ser origem, é a sciencia das mães, sciencia para cujo estudo devem tender todos os seus esforços.
* * * * *
A actividade quasi incessante da creança é um dos meios que mais efficazmente concorrem para o seu crescimento physico e, por consequencia, para o seu desenvolvimento intellectual.
As mães, julgando fazer n'isto um grande serviço a seus filhos, combatem por todos os modos esta actividade, obrigando as creanças a uma quietação que se transforma em supplicio para os pequeninos corpos buliçosos, que um impulso involuntario leva a um quasi continuo movimento.
Não é só com as reprehensões, ás vezes asperas e sempre injustas, não é só encerrando os pobres seres pequeninos em espaço muito estreito para os seus desejos, é tambem vestindo-os para obedecer ao despotismo da moda, e ás exigencias da propria vaidade de um modo que está em pleno contraste com a idéa que todo o espirito um pouco sensato deve formar das aspirações e necessidades da infancia!
A creança, que quer e que precisa de correr no espaço amplo, pelas ruas pedregosas, pelos campos lavrados, pela matta cheia de raizes, traz quasi sempre uma botina alta, justa, de salto levantado e estreito! Ella, que aspira aos movimentos livres, que se compraz nos grandes gestos, que trepa ás arvores, que se roja pelo chão, que atira ao longe os improvisados projectis que encontra, sente-se cruelmente cingida por um fato rico, elegante, phantasioso, caro por força, e que tem o defeito duplo e contradictorio de a entristecer lentamente, inconscientemente pelas censuras e ralhos de que lhe é motivo incessante--visto que não ha nada mais avarento do que a prodigalidade e nada mais economico do que a ostentação--e de a tornar vaidosa pelo habito e pelo gosto de attrahir as vistas dos frivolos, e a inveja dos pobres, dos pequenos rotos, dos miseraveis de cinco annos, que ignoram as alegrias bemditas da sua liberdade indomada!
Mães, arrancae ao vestuario dos vossos filhos tudo que fôr vaidade, falso luxo, ostentação ridicula!
A graça das creanças consiste na plena expansão da sua vitalidade; o luxo d'ellas está no doce aroma de infancia que de si exhalam, e que falla de aceio, de pureza, de carinho materno, que revela--aos que sabem ver--as matinaes e frescas alegrias do banho, as risadas crystallinas como perolas que se desfiam, os gritinhos infantis, as fugidas subitas, todo esse poema, que ninguem traduz, de um bando de pequeninos corpos, feitos de leite e rosas, com cabelleiras louras por aureola, que uns braços amorosos amparam, susteem, acariciam, em quanto que um sorriso meigo e pensativo illumina em clarões de limpidez ideal, uma bocca que só sabe abençoar, uns olhos de mãe, que nunca desamparam nem desfitam o tepido ninho das suas doces aves implumes.
II
Por muito tempo todas as attenções do homem se fixaram n'um ponto que se avistava para além da vida terrestre.
Curava-se sómente da alma considerando a terra morada transitoria, cheia de males e de miserias, e o corpo ephemero involucro, especie de lodoso carcere onde o espirito prisioneiro anciava por levantar o vôo para as altas espheras da eterna bemaventurança.
Este pensamento, que dominava todos os outros e ao qual todos os outros se subordinavam, é a causa suprema de onde deriva toda a philosophia da edade média, e que determina o ideal a que tenderam os sonhos de milhares de gerações, nossas predecessoras na vida.
Foi elle que estabeleceu o medonho antagonismo entre o espirito e a materia, causa de tantos erros e de tão falsas interpretações; foi elle que levou o homem perdido e transviado a considerar a natureza como a sua mais cruel inimiga, como a sua tentação mais perigosa e abominavel.
D'esta guerra anti-humana e anti-natural nenhuma conquista verdadeira poderia provir.
Era falso o ponto de vista de que o homem partia, falsissimas todas as deducções que d'esse ponto de vista resultavam.
O corpo era um farrapo miseravel que só merecia desprezo e humilhação; todo o prazer, ainda o mais natural era um peccado que cumpria expiar cruelmente; a vida era um periodo curto de passagem e penitencia; a creança nascida já vinha contaminada do peccado original; a alma, só a alma precisava dos nossos cuidados, das nossas meditações, do nosso mais especial e esmerado cultivo!
Quantos erros de educação, de moralidade e de hygiene!
Quantas revoltas medonhas este despotismo espiritual não excitava!
Mas foi por acaso esse tempo de pura espiritualidade?
Pelo contrario!
Nunca os instinctos maus do homem imperaram com mais violencia! Nunca se materialisaram mais todos os cultos e todas as idéas!
O Deus que todos adoravam em extasis apaixonados, era o Christo dolorido, cadaverico, crivado de pregos, escorrendo sangue de cada uma das suas chagas abertas.
A dôr maternal era symbolisada por sete espadas atravessando um coração dilacerado.
Os fanaticos mostravam á admiração das turbas os estygmas sangrentos das suas carnes palpitantes.
Os ascetas tinham visões nas quaes o Padre Eterno, o Christo, a Virgem, os Santos, lhes appareciam sob a fórma humana, com feições diversas e caracteristicamente accentuadas, fallando na linguagem mais correntia e mais chã.
A _resurreição da carne_ era um dos pontos fundamentaes do dogma catholico. O espiritualismo d'essas éras barbaras era muito mais _material_ do que a sciencia de hoje.