Part 7
A minha vida agitava-se alternadamente entre estes dois pólos distinctos e independentes. Cheguei a New-York, radiante de bellas aspirações e fulgurantes idéas. Procurei empregar-me honestamente: tudo consegui, sem difficuldade. O meu genio voluvel, porem, impellia-me constantemente para fóra d'aquella esphera, onde o trabalho se remunerava tarde e mal.
Dentro de pouco tempo, agrilhoado por uma ambição sem limites, e, mais que tudo, profundamente vulnerado pelo demonio do egoismo, tinha eu roubado o meu senhor, fugindo logo, espavorido e temeroso, para uma selva distante, onde procurei refugio entre uma quadrilha de bandidos, que, desde muito, ali haviam assentado a sua tenda de pilhagem e de nocturno assassinato.
IX
Por muitos e longos annos durou a minha nefanda peregrinação n'aquelle terrivel deserto, onde não penetrava sequer um raio do sol. Occultos, durante o dia pela espessura do arvoredo,--aguardavamos tristemente o silencio da noite para dar largas á nossa voracidade famelica. Então, não passava pessoa alguma, por aquellas solidões tenebrosas, em quem não procurassemos, desde logo, embeber a esponja corrosiva do veneno e da maldição,--o cutello do algoz e do malvado.
Aviltante e funesta condição a minha! A principio o remorso levantava-se irado contra tamanhas torpezas e monstruosas infamias. Mais tarde a minha alma, já de si callejada no erro e no crime, nada mais quiz ouvir; empallideceu terrivelmente nas trévas, e nunca até hoje tornou a guiar os passos incertos da minha vida depravada.
Nada mais pungente e superiormente bestial do que locupletar-se um individuo qualquer com o ouro roubado aos seus semelhantes. O trabalho honesto nobilita o seu auctor. Procurar illicitamente um interesse, que nos não pertence, isso, além de ignominiosamente villão, toca ainda as balizas da perfidia.--Não ha necessidade que só de per si possa abonar satisfactoriamente semelhante corrupção e baixeza d'animo!
A despeito de tudo isto, porém, não duvidei iniciar os dias da minha vida social em tão rude aprendizagem e degradante profissão. E bem cruel me foi esse engano!
Dentro em poucos dias, do esterquilinio do vicio e da maldição havia eu passado, rapida e insensivelmente, para o fundo de medonha enxovia. A justiça humana, no seu incessante vôo, não despegara a vista do desgraçado cadaver, que, ainda no recondito de arida floresta, lampejava chispas de fogo amedrontador.
E tudo foi bem assim!
Ao vêr cerrar-se sobre mim a solitaria porta do carcere, que rangia lugubremente nos seus enormes gonzos de ferro, senti um movimento involuntario e repulsivo, e tive o pavor de quem vê seu peito ferozmente esmagado pelo duro pé do inimigo victorioso!
Então veiu a sacratissima imagem de minha mãe dulcificar-me o amargor da desventura. Lembrei-me de Therezinha. Erin, a bella indiana, de quem nunca mais tivera noticias, calou-me no espirito não sei que indefinivel sentimento, que me fazia antever uma felicidade duradoura, se, por acaso, não houvesse desprezado o seu immenso amor para comigo.
X
Ao penetrar na escuridão do ergastulo julgara ter encontrado o meu epitaphio, assignalado, com letras de bronze, sobre a lousa sepulchral, que se me antolhava n'aquelle extenso e terrivel horizonte. Illudira-me, porém, o meu juizo. Havia-me Deus predestinado neste mundo para grandes e temerarias emprezas.
Por mero acaso, acontecera um dia ter eu lançado as mãos a um varão de ferro, que me interceptava a passagem para um longo claustro, por onde se me tornava facil a sahida para a rua. Recobrei alento, e não foram frustradas as minhas esperanças.
Coadjuvado por antigos companheiros, que haviam escapado milagrosamente ás garras da humana justiça, e com quem eu continuava ainda a nutrir relações de camaradagem,--púde aproveitar o silencio d'uma longa e tempestuosa noite de inverno para os fins a que me propunha.
Fui feliz no meu arrojado commettimento. Ás occultas consegui embarcar em um navio inglez, que se fazia de véla para a Europa.
Assim, no espaço de pouco tempo, abandonei o paiz dos meus sonhos tristemente desfolhados aos ventos do infortunio e de medonhas calamidades. E o certo é que, se não vinha tão rico, como de principio o havia imaginado, pelo menos trazia meios sufficientes para viver em Portugal, como capitalista de modesta apparencia.
Tudo isso se desfez, porém, ante a maxima desventura, que, neste instante, me aguarda terrivelmente.
A nossa embarcação jaz nas alturas da ilha de S. Vicente. O estado do mar é deveras assolador; não ha meio de resistir-lhe. Naufragio inevitavel! Estão talhadas as nossas mortalhas. Já a morte nos sorri satanicamente por entre a negra agitação do oceano. Lucta infernal! Que diabolico tufão! Meu Deus! meu Deus! Angustiadas lagrimas, sentidos suspiros, supplicas sinceras, fervorosas orações!... tudo em vão!... Não ha duvida: seremos devorados irremessivelmente pela sanha do mar! Que profundo abysmo nos espera! Como a esperança nos é ainda meigo amparo nesta hora extrema e funebre! E como estamos todos profundamente unidos pelo mesmo pensamento, pelo mesmo amor! Oh! Só Deus é infinitamente justo e bom! Emfim, estão lavradas as nossas sentenças! A redempção do céu, essa, só de ti a poderei supplicar, que decerto não deixarás de interceder na terra pelo descanço de teu desditoso filho. E adeus,... adeus,... para todo o sempre!... Uma sentida saudade para Therezinha, o anjo immaculado dos meus sonhos!... adeus... adeus!...
* * * * *
Eis o conteúdo d'este interessante manuscripto, no fim do qual estava assignado Ernesto, e era dirigido laconicamente a Maria dos Anjos, moradora no Porto, aos Clerigos. Após longas e infructuosas pesquizas, consegui saber que Maria dos Anjos era fallecida, tendo instituido por universal herdeira de seus bens a Therezinha, hoje noviça no convento de Arouca. Para lá foi remettida esta preciosa reliquia, e com ella a infeliz herança de seu esperançoso noivado. Por certo não faltariam lagrimas de bem viva saudade a orvalhar aquelle extremo legado d'um coração diluido nas grandes luctas d'um amor infindo e de constante tenacidade!
Antes assim!
*UM DIA DE NOIVADO*
UM DIA DE NOIVADO
A F. Simões Margiochi Junior
Ahi! null'altro che pianto al mondo dura!
PETRARCHA.
Ai! neste mundo só as lagrimas não têm termo!
Cantae, ternos passarinhos; voae, mariposas gentis!
É dia de noivado!
Rejubile a natureza; reviva, resplandeça a festa!...
Folgam, auras indiscretas, nos choupaes e nos silvedos! Tudo acode, sem delonga, ao banquete dos bemaventurados! A aldeia exulta de vivaz festejo! É vivo o reboliço: grinaldas de flores, perolas e diamantes, tudo, á porfia, deslumbra os convivas!
Que doce aroma! que suave fragrancia!
Alada visão, fiel mensageiro do homem--o amor,--conforta o desgraçado e sorri á opulencia. Expellem-se os cuidados, apavoram-se os temores, rejuvenesce a humanidade!
Dia de solemne bemaventurança!--eu quero colorir teu quadro ingente, juncar de variegadas côres teu sólo matizado!...
* * * * *
A nove kilometros de Aveiro existe a pittoresca villa de Eixo. É uma deliciosa povoação! O Vouga espraia ali mansamente suas limpidas aguas, formando como que um vasto lençol, por entre os formosos salgueiraes, que lhe servem de margem e curiosa graciosidade!
Ha um não sei quê de vago e sympathico nos seus ignotos caminhos, tão cheios de divina poesia e magica formosura, que nos seduz instinctivamente. Em todos os paizes ha d'estas pequenas povoações, mais ou menos dilectas do povo, e que parecem ter sido apontadas adrede para a representação dos grandes dramas da humanidade. E esta foi realmente uma d'ellas, como abaixo veremos!
Ha de haver dez annos, Eixo trajava de galas. A solidão transformara-se subitamente em meigo theatro de harmonia e saudade. Os habitantes como que resuscitavam do seu antigo marasmo. Desvaneciam-se as trevas do sepulchro, perante o vivo esplendor d'uma aurora deslumbrante!
Era um dia de festa, emfim, dia de noivado, sancto alvoroço, candida alegria!
Fernando, o moço querido da terra, esposara Luiza, a joven e sympathica aldeã. E foi devéras uma suprema abnegação aquelle divino enlace! Fernando possuia a riqueza do espirito e a riqueza do dinheiro.
Era uma joia!
Luiza, essa, coitadinha! limitava seus parcos cabedaes á rara e quasi esquecida opulencia dos grandes sentimentos e vivas impressões. Amava com ardente intensidade.
Era uma perola!
Fernando era tão amado, tão louvado! Ai! Senhor! que thesouro aquelle!...
Na sua frequente passagem pelas ruas da villa, os lavradores descobriam-se respeitosamente. Depois lá se ficavam longos momentos a scismar, até que por fim! diziam elles de si para si:--Pombinha sem fel!--e seguiam o seu rumo.
Luiza grangeára a piedosa dedicação das suas patricias. Era em extremo philantropica: e de muitas conseguira ella até a sincera veneração de santinha, que realmente era.
Quando, por acaso, se fallava em Luiza áquella pobre gente d'aldeia, esta retorquia logo com vivo interesse:--Ai! a Luizinha! a noiva do sr. Fernandinho! isso é mesmo um anjo, meu senhor! E elle, que bondade, que ternura! É mesmo ouro sobre azul!...
Imagine-se pois, que mago fulgor não irradiariam aquellas duas ternas creaturinhas, ao estreitarem seus amorosos corações pelos vinculos indissoluveis do matrimonio!...
Que sancta alliança aquella, meu Deus! Que innocente festa não ia pela villa!...
Tudo folgava, tudo amava, tudo vivia!...
Apenas o mancebo sahira da egreja, levando sua angelica esposa pelo braço, immediatamente, d'aquelle enorme conjuncto de povo, apinhado em massa pelas ruas da villa, para assistir ao brilhante cortejo, rompeu a mais solemne acclamação, o mais enthusiastico viva.
Fernando respondia com lagrimas, que symbolisavam o enthusiasmo e a gratidão. Luiza, pela sua parte, julgara-se guindada a um paraizo de fadas, onde a vida se assemelha ao grato arroio escoando-se de mansinho por entre as mil verduras e fragrancias da natureza.
Porém surgíra a noite, e suas sombras temerosas, até ali occultas pelo brilho das luzes, invadiram a mesma área, que, horas antes, fôra povoada pelos raios diamantinos de mago encantamento e verdadeiro prazer!
No dia immediato ao do seu noivado Fernando despertára triste e pezaroso; isolára-se voluntariamente de sua esposa, e apparecêra envolvido em profundo meditar. Os éstos da sua primitiva alegria haviam-se-lhe convertido medonhamente n'um oceano de torturas. Os sons melodiosos da orchestra nupcial eram agora para elle um motivo de pungente agonia e de atroz supplicio. Silvavam-lhe no cerebro as negras viboras da loucura. Era forçoso afastar de si o vil e gélido phantasma, que o perseguia sem cessar.
Assim se passaram muitos e longos dias. Todos indagavam sollicitamente a causa de tão inesperada catastrophe, de tão cruel agitação; e, todavia, ninguem ousava responder, ninguem proferia sequer uma palavra.
Fernando corria todas as tardes os sitios reconditos da villa. Com os cabellos eriçados, a lividez nas faces, o olhar scintillante, as mãos nervosas, os punhos sempre cerrados, lá se ia o pobre doido, o desgraçado moço--para quem a fortuna fôra um sonho fallaz de alguns momentos apenas--a conversar com as arvores, que tanta vez lhe ouviram seus queixumes de amor,--a ralhar com o placido regato, que o atormentava ferozmente,--a rir-se, emfim, de si mesmo, da descompostura do seu trajo, das suas palavras!...
E era tremenda e pavorosa a sua gargalhada!...
Luiza conquistára, a par da sciencia do amor, a sciencia da resignação: por isso vivia, e supportava o agudo espinho, que lhe trespassava o coração.
Um dia, em que intentara approximar-se de seu marido, este repellira energicamente sua mão, e, sem dó nem piedade fugira para longe de suas caricias e afagos!
Estavam as cousas neste ponto, quando Fernando foi accommettido d'um delirio mais violento e doloroso. A sua constante monomania, o seu desejo incessante, era assassinar todas as mulheres, que, por acaso, encontrava. Tornou-se mister o auxilio de toda aquella gente, para o encerrar cautelosamente n'um quarto subterraneo, onde lhe era ministrada a comida, que mal provava.
No auge da loucura, conheceu-se, então, a causa do seu infortunio, por alguns poucos monólogos, que elle soltava de quando a quando, taes como este:
--«Ser eu feliz, alegre, bom, docil; amar uma mulher ternamente, com a intensidade d'um seraphim; e vêr-me tristemente illudido por esse demonio maldito!... Oh!... por Deus! nem pensar n'isso!...
«E aquella vibora, aquella Lui... i...--Ai! Senhor! Senhor! seja o seu nome para sempre esquecido!--a ostentar tamanho pudor, tamanha virgindade e honestidade, e tudo com o hypocrito fim de me amortalhar covardemente!...
«E toda a gente a acreditava piamente; sim! todo o mundo, até eu!...
«Eterna maldição sobre o desgraçado, que foi procurar na mulher, que escolhera para esposa, a deshonra da sua propria familia!...
«Ha! Ha! Ha!...
E n'isto o desventurado moço soltava uma cynica gargalhada!
Frequentemente repetia elle o nome de sua esposa, uma e muitas vezes; e logo após, n'um acto de medonho desespero, chorando desabridamente, arrancava de si um punhado de cabellos ensanguentados, e rojava-se no lagedo do carcere.
E eram bem tristes as suas lagrimas, bem acerbo o seu pranto!
Pobre Fernando! Quem não teria pena de ti?!...
Um anno decorrido exactamente desde o dia em que se havia festejado o noivado de Fernando e Luiza,--pelas ruas da pequena e triste povoação seguia compassadamente um funebre prestito.
O doido havia cessado de existir n'aquella madrugada!...
Mal julgara aquella gente, que tivera ido brindar tão esplendido noivado--que tão cedo havia de acompanhar o cadaver do sympathico Fernando á sua derradeira morada!
É assim o infortunio d'este mundo!...
A corôa de grinaldas, essa desfizera-a o vento desapiedadamente! Hoje só restam corôas de perpetuas, e alguns goivos tristemente derramados sobre a ignota lousa do desditoso mancebo!
Luiza vive resignada, e lá vae lavrando quotidianamente o epitaphio, que ha de guarnecer a lage sepulchral de seu marido, com as sinceras e ardentes lagrimas da saudade e do arrependimento! Aguarda pacientemente a hora da sua partida para ir fruir no céo aquillo que lhe foi vedado na terra!
Deus é compassivo, e de certo não olvidará a sua redempção celeste!...
FIM.
*Obras do mesmo auctor:*
EM VIA DE PUBLICAÇÃO
*A Actualidade*, estudo economico social.
*A Morte do Poeta*, scena em verso.