Part 5
A isto respondeu mui laconicamente a dona da casa, intentando provar-lhe que não tinha feito mais do que cumprir um dever para com os seus hospedes e amigos, que tanto folgava em ver reunidos, como em familia, n'aquellas poucas noites de sancta alegria e jubilosa reminiscencia.
Arthur, por um momento silencioso, continuou logo n'aquelle mesmo estylo parlamentar, com que havia encetado a sua conversação, manifestando igualmente o seu profundo sentimento pela ausencia do conselheiro, a quem desejava fallar urgentemente para tractar d'um negocio importante, cuja solução deveria interessar a toda a familia.
Nesta occasião, confesso, tive um horrivel calafrio. _Tractar d'um negocio importante, cuja solução deveria interessar a toda a familia?!..._
Nem eu sabia que pensar d'aquellas suas palavras. Pois dar-se-ha o caso, na realidade, que este homem vá pedir a mão de Malhilde, não tendo fallado com ella senão uma vez, ignorando completamente os seus sentimentos e qualidades moraes?!...
Veremos!...--dizia eu a mim mesmo, abrangendo em toda a estreiteza d'esta palavra um raio de esperança no futuro.
Após alguns momentos, como vissemos que não chegava o dono da casa, saímos, promettendo voltar n'essa mesma noite.
Quando depois nos encontrámos, cá fora, ao ar livre, sem haver nenhuma pessoa que podesse espiar os nossos passos, Arthur encarou-me com um olhar furtivo, mixto de susto e alegria, perguntando-me disfarçadamente:
--Então que te parece a minha resolução? Não julgavas, talvez, que fosse tão precipitado nos meus planos; não é assim? Pois olha, eu previra tudo isso, e, todavia, não o pude dissimular. Quiz evitar todos os escolhos, que me podessem sobrevir, no decurso d'esta minha difficil peregrinação, mas cheguei nimiamente tarde. Agora entrego-me á Providencia de alma e coração. O futuro nos dirá o que fôr.
Estas ultimas palavras foram proferidas n'um tom severo e decisivo, e de tal modo, que julguei inutil toda e qualquer replica, que a minha amizade, porventura, podesse suggerir-lhe. Limitei-me apenas a fazer-lhe alguns reparos sobre o casamento, apontando sempre ao futuro, como uma sombra pavorosa, diante da qual elle teria de recuar um dia, se a fatalidade, por acaso, porfiasse em perseguil-o. Elle, pela sua parte, fingiu nada ouvir do que eu lhe dissera, e calou-se.
N'essa mesma noite, o casamento ficara definitivamente tractado, para ter logar dentro em quinze dias, o mais tardar. Esta resolução do moço provinciano propalou-se logo pela cidade, e todos pasmavam ao ouvil-a, acreditando uns na sua realidade, e outros negando-se em acceital-a como verdadeira.
O que é certo é que d'ahi a dez dias os jornaes da localidade registavam nas suas columnas o casamento de Arthur, do modo seguinte:
--«Hontem, pelas 10 horas da manhã, na egreja de Santo Ildefonso, contrairam os sagrados laços matrimoniaes o ex.^mo sr. Arthur de Campos e a ex.^ma sr.^a D. Mathilde de Andrade Castello Branco, menina de subidos sentimentos e elevadas qualidades. Os ditosos noivos retirar-se-hão brevemente para Lisboa, onde irão passar a lua de mel. D'aqui mesmo lhes enviamos os nossos parabens, fazendo votos pela sua felicidade futura, e eterna união.»
O ideal de Arthur realisara-se, pois, neste mundo. N'aquelle dia tudo lhe sorriu fagueiro e jovial. A primavera tornara a despontar no seu coração, cheia de galas e encantos. A sua imaginação, povoada de tudo quanto ha de mais bello e sublime, neste valle de lagrimas, nada mais enxergara além da existencia presente. O sol da sua felicidade, até então sepultado nas trevas de um desditoso porvir, surgiu emfim magestosamente no horisonte da vida, purpureado de bem vivas côres e rescendentes perfumes.
E, diga-se a verdade, n'aquelle dia, ao menos, Arthur julgou-se feliz, e muito feliz. Por entre as rosas do amor não distinguiu elle os goivos da existencia; através a pureza do seu horisonte de todo lhe fôra impossivel notar a orla sombria e fatidica. Sentiu-se deslumbrado por um não sei quê de vago e mysterioso, que o arrastava involuntariamente para um abysmo tremendo, onde tinha de resvalar mais tarde, a despeito mesmo da sua vida regrada e habitos morigerados.
Por esta occasião memoravel foi servido um lauto banquete em casa do conselheiro F.
Opiparos manjares guarneciam as mesas, rodeadas de amigos e parentes.
N'essa mesma noite houve um baile, esplendidamente servido, e que se prolongou até ás 6 horas da manhã.
Passados que foram tres dias, Arthur partiu para Lisboa, acompanhado de sua esposa e sogro. Ali se demorou tres mezes, ao cabo dos quaes regressou á invicta cidade, mais ditoso ainda do que lhe fôra licito imaginar.
A felicidade, porém, como o destino, tem os seus revezes neste mundo. Um amor excessivo aterra-nos e confunde-nos. Os extremos são sempre anomalias, mais ou menos perigosas, na vida humana.
CAPITULO III
Un groupe de Dalila et de Sanson avec celui de la farouche Judith serait toute la femme expliquée.
BALZAC.
Ai! mulheres! mulheres! De todos os mysterios, que Deus ha creado, vós sois o maior d'elles, talvez!...
E quem poderá comprehender-vos, com effeito?!...
A candura do vosso espirito, ao desabrochar das mil chimeras da existencia; a meiguice de um vosso olhar voluptuoso e luxuriante; o feiticeiro encanto de um vosso sorriso, profundamente celestial e angelico; todo o complexo de variegadas côres e mysticas harmonias, que vos envolve e sobrepuja aos outros seres da creação: emfim, todos esses sons dispersos, indefiniveis e atrahentes, constituem em vós um Eden de amor, idealisação sublime, perante a qual todos se julgam impotentes, não sabendo até o meio de resistir-lhe.
Tudo tem o seu contraste, porém!... Não ha pomba sem fel, assim como tambem não ha rosa sem espinhos!
A par de seraphica innocencia existe em vós a ferocidade do tigre; junto á sublimidade do vosso coração tendes a fealdade da hyena!
Profunda e contristante antinomia!!!
O mundo, em seus juizos iniquos, condemna-vos, a cada passo, sem procurar mesmo ouvir as vossas queixas. A sociedade ha muito lançou o stygma fatal sobre a vossa fronte impura. E no meio de tudo isto, todos vos procuram para vos repellirem mais tarde, quando já eivadas das mil miserias e humanas torpezas.
Então ninguem se lembra já que fostes uma mãe desvelada e terna; que amamentastes a vossos peitos a loira criancinha--fructo mimoso do Senhor;--que procurastes imprimir na sua fronte o osculo do amor para o tornar o homem bom e virtuoso, que todos desejam, e por quem a civilisação trabalha sem cessar!
Sim! então, ninguem se recorda que fostes o encantamento do lar domestico, quando filha;--esse typo seductor, visão etherea, que pela sua natural candura, meigo aspecto e divina graça, fazia a felicidade dos paes e o respeito dos extranhos!...
Até mesmo a esposa carinhosa e meiga, que outr'ora illuminava, como um sol de primavera, foi esquecida e amaldiçoada pelos homens;--eclipsou-a a nuvem sombria da civilisação. O Minotauro de Balzac devora as mulheres jovens e bellas, as outras anceiam por serem devoradas por elle.
Ai! mulher!... mulher!... Quanto é sublime a tua missão sobre a terra! Como é soberbo o teu dominio!... Quantas dôres não tens tu mitigado com a protecção do teu magico affecto!... Para quantos infortunios não tens sido o anjo mensageiro, enviado pelo Creador á humanidade!... E haverá ainda alguem, tão estolidamente egoista, que pretenda negar o teu poder?!...
Homem, quem quer que tu sejas, dize-me--que és tu perante as lagrimas de uma mulher?... oh!... mesquinha e louca creatura!... quão ephemera é a a tua natureza!... grão de areia na vastidão do oceano!...
Mulher! Eu respeito as tuas dôres, bemdigo as tuas lagrimas!...
Porém, vai longa a digressão. Voltemos ao fio da nossa historia.
Arthur viera, pois, assentar a sua residencia no Porto, definitivamente. Ali comprou uma linda habitação, ao cimo da rua da Alegria, onde se conservou durante um anno, approximadamente, n'um remanso de paz e socego de espirito, que ameaçava ser eterno.
Não aconteceu, porém, assim. As nuvens iam-se-lhe amontoando gradualmente por sobre o anil do seu horisonte. A procella estava imminente; era terrivel o abysmo!
Acompanhemos o drama.
Arthur, apenas estabelecida a sua morada, e dispostas convenientemente as demais coisas, concernentes a uma boa administração, começou a embriagar-se de tal modo n'aquelles effluvios de amor, que brotavam espontaneos do seio de sua adorada esposa, que se julgou prestes a succumbir de felicidade e bem-estar.
A ventura em demasia conduz-nos a maior parte das vezes a uma dolorosa prostração e fleugmatica indifferença por tudo o que não fôr o objecto das nossas vistas apaixonadas e infantis.
Foi exactamente o que succedeu ao afortunado(?) mancebo. Mathilde tornara-o flexivel a ponto de o converter n'um instrumento pueril de todos os seus caprichos e insaciaveis desejos.
Os bailes multiplicavam-se; os jantares não tinham limites. Emfim, por aquelle andar, tudo tendia, sem remedio, a uma perdição infernal e miseravel corrupção. E a par d'isto tudo, como succede a maior parte das vezes, a reputação de Mathilde corria já empeçonhada e perdida...
O joven provinciano parecera não ter primado demasiadamente na escolha dos seus amigos. Por entre um ou outro coração sincero e bom, d'aquelles que frequentavam a sua casa, surgiram tambem muitas almas corrompidas e devassas. Entre estas, notára-se particularmente um _flaneur_ de bom tom, a quem Arthur dedicára sempre, desde o principio, uma particular predilecção. Chamava-se elle Roberto Guimarães, se bem me recordo.
Roberto Guimarães era um d'estes elegantes da boa sociedade, a quem de resto pareciam sobejar dotes de espirito e faculdades inventivas para se fazer amar por qualquer mulher, egualmente formosa e bella. Trajava pelo ultimo figurino de Paris: o pescoço, vexado em enorme collarinho, que devia medir um palmo, aproximadamente; as pernas enfronhadas em apertada calça, que ameaçava desconjuntar-se a cada movimento; o pé, encaixado n'uma bota de lustroso verniz, obrigando-o a andar em passo de dança por causa dos callos que o molestavam; a luzente cabeça, sepultada em fino chapéu, cuja altura não excedia tres pollegadas. Era sua inseparavel uma _badine_, em que pegava com o primor do fino janota; frequentava o café _Marrare_, onde ia discutir a politica do dia.
Com taes predicados, Roberto era acolhido em todos os salões com inaudita anciedade e frenesi espontaneo; em todos elles figurava sempre na primeira plana, prodigalisando com perspicacia nada vulgar os preciosos dotes da sua atilada imaginação e acrisolado saber.
E, digamol-o de passagem, Roberto era uma alma grande e difficil de encontrar entre os homens. Emquanto tivesse dinheiro, não havia ninguem pobre ao pé de si: todos folgavam com a sua alegria.
Amava do mesmo modo todas as mulheres, sem comtudo ter paixão a nenhuma d'ellas. Para elle, a mulher não passava de um objecto, como qualquer outro, que o deleitava simplesmente durante duas ou tres horas por dia, um incentivo para melhor passar o tempo, e mais se rir com alguns amigos intimos entre duas botijas de _cognac_ e appetitoso fiambre.
Com o contacto da sociedade tornara-se cynico. A seus olhos a familia, a religião, a patria, a sociedade não eram mais que meras phantasmagorias--um espectro vil e hediondo!
Não acatava ninguem, nem mesmo as cousas mais sagradas d'este mundo. Era implacavel nos seus juizos.
O boato circulava já nas ruas mais frequentadas da cidade. Aos olhos da sociedade Mathilde escorregara subitamente do sanctuario da moralidade no esterquilinio do vicio e do crime; já não havia valer-lhe.
Choveram, então, cartas anonymas, sem peso nem medida,--o meio mais torpe e tacanho de que se servem algumas pessoas, estribadas impunemente numa amizade insensata e vã, para acarretarem o desgosto e a perturbação ao seio de uma familia, muitas vezes innocente!
Arthur, que a principio não fizera caso de taes bagatellas, intimamente convencido da innocencia de sua esposa,--concluiu finalmente por encarar a sua vida pelo lado peior e mais perverso.
D'ahi em diante não perdeu a expectativa, simulando, comtudo, a maior tranquillidade, e plena confiança em sua mulher.
Um dia levantara-se pelas seis horas da manhã, e, arranjada que foi a sua mala, disse elle a sua mulher que se ausentava por tres dias para fóra da cidade: foi a primeira vez que tal succedeu... Mathilde, algum tanto assustada com tão inesperada resolução, não pôde, todavia, attingir qual o fim d'esta peripecia, que ella estava longe de conceber.
Roberto, aproveitando-se da ausencia do seu amigo Arthur, fôra immediatamente habitar para casa da sua querida amante, a fim de lhe fazer companhia, ao menos durante o apartamento de seu esposo...
Uma noite estavam elles inebriados em mutuo abrasamento, quando, inopinadamente, sentiram abrir-se a porta, de golpe, e entrar por ella o moço provinciano, d'uma pallidez sepulchral e com a fronte inundada d'um suor frio, que lhe devorava a triste existencia. Sustinha um _rewolver_ na mão direita, que lhe fôra impossivel desfechar: tal era a sua situação!
Mathilde caíra desfallecida e exangue. Roberto, aterrorisado, recuou dois passos; depois investiu contra o inimigo, a quem tomou por um braço, e arrancou d'uma especie de torpor em que jazia.
--Medir-nos-hemos no mesmo campo,--vociferou Roberto, como que allucinado e simulando gestos medonhos.
Arthur interrompeu-o por algum tempo, olhando para elle fitamente e exprimindo, talvez, a sua profunda compaixão pelo miseravel que via diante de si.
Em seguida Roberto proseguiu:
--Ámanhã, ás 4 horas da manhã, na praça da Boa-Vista: escolherá as armas e padrinhos, conforme lhe convier: de resto, estou ás suas ordens.
Após esta fatal allocução, Roberto saíu tranquillamente d'aquella casa.
Arthur, apenas recuperados os sentidos, retirou-se egualmente pacifico, como se tivesse assistido a um magnifico espectaculo.
O certo é que Mathilde, quando voltou a si, já não viu mais ninguem no quarto, afora uma velha criada, que velava por ella solicitamente.
No dia immediato, á hora convencionada, Roberto apresentou-se destemidamente na praça da Boa-Vista, aguardando o seu adversario, com quem esperava bater-se n'um duello de morte.
Arthur, porem, não appareceu ali, como era para desejar. Tambem ninguem mais soube do desventurado mancebo. Diziam uns que elle tinha embarcado para Inglaterra, onde se fôra reunir a seu irmão, muito amigo, que negociava em vinhos n'aquelle paiz: outros affirmavam que vivia occulto n'um logar proximo de Lisboa, afim de nunca mais ser visto, nem tão pouco tornar a fallar com sua esposa depravada e falsa.
Mais adiante veremos o que é feito d'elle.
CAPITULO IV
Oh! n'insultez jamais une femme qui tombe; Qui sait sous quel fardeau la pauvre âme succombe?...
V. HUGO.
Caíu o anjo bom, ficou o anjo mau!
Já não havia valer-lhe, á triste victima. A quéda foi tanto mais fatal, quanto mais audacioso tinha sido o vôo a que loucamente se arrojara.
Dentro de pouco tempo, Mathilde ganhara o desprezo da sociedade. Seu pae havia succumbido a tão dolorosa crise. Arthur retirara comsigo a sua protecção e o seu dinheiro.
No meio do esplendor e louçanias d'este mundo tudo nos sorri prospero e seductor. Não faltam amigos; multiplicam-se os parentes. Vem depois o phantasma da tristeza, o espectro da desventura, e a victima, odiada por todos, á beira do abysmo, terá, apenas, a Providencia por unico e derradeiro recurso.
Nada mais verdadeiro. É assim a nossa sociedade: ataviada de galas no exterior, e contaminada de podridão no intimo.
Por algum tempo, Roberto continuou ainda a dispensar os seus disvelos e favores áquella desgraçada mulher; preparou-lhe uma pequena habitação, a alguma distancia da cidade, e lá conseguiu encarceral-a, durante algum tempo.
Commettido o crime, o primeiro cuidado do malfeitor é occultal-o, sem demora, aos olhos dos seus similhantes. As trevas fogem da luz; o sol odeia a noite.
Isto, porém, foi de pouca dura: com a saciedade veiu o odio, com o odio o abandono.
Mathilde ficou só no mundo, sósinha, com as suas lagrimas, com a sua dôr, com a sua miseria! E que poderia ella fazer, coitadinha!... Depois de ter empenhado e vendido tudo o que possuia de mais valor, vexada de si mesmo, com a febre do desespero, amaldiçoou o sol que a aquecia, e foi procurar na sombra o refrigerio á sua alma attribulada.
A sociedade cavou-lhe o sepulchro, e soltou uma gargalhada estulta e perfida! O homem covarde esmagou o verme impotente, e tripudiou incolume sobre todos os sentimentos e qualidades moraes! A materia venceu o espirito! a força bruta subjugou o movimento!...
Hontem censurámos em Malhilde a mulher social; hoje podemos e devemos justifical-a, sem que n'isto sejamos contradictorios.
E, de feito, o que era aquella mulher, senão uma d'essas desgraçadas, a quem a sociedade havia enxovalhado com a lama do desprezo, sujeitando-a a mercadejar o melhor dote que Deus lhe concedera--a honra?! Era uma d'essas mulheres estouvadas, no sentir de muitos, que, zombando de tudo, tambem ousam profanar com mãos sacrilegas o sanctuario do pudor e da virgindade, contribuindo assim para a sua inteira ruina e completa perdição!
E no entretanto, esses são os homens _bons_, que mais tarde fingem não reconhecer a victima de seus nefastos interesses, lançando o escarro do desdem na sua passagem. São estes os homens _bons_, que, longe de alliviar o pobre com uma esmola, filha de um nobre coração, pelo contrario, tropeçam impunemente nas suas chagas, ennodoando-as com a baba asquerosa do seu orgulho!...
Assim decorreram alguns annos. Mathilde, a mulher perdida, lá foi encontrar n'um prostibulo a expiação severa e ardua d'uma falta injusta, embora toleravel. O holocausto começara então; devia de ser bem negro o seu fim.
A aridez do deserto, depressa a superou, a triste romeira. As difficuldades foram-se-lhe tornando habituaes de dia para dia. O seu halito _alcoolisado_ captivara a attenção de muita gente.
O corpo, já de si pestilente, transformara-se repentinamente em podridão nauseante. Ao longe, pairava o corvo, immundo e contente, por sobre as exhalações infectas d'aquelle charco putrido, aguardando occasião opportuna para cevar ali a sua espantosa avidez.
E assim aconteceu, realmente. Um dia, atravessava indifferentemente as ruas da cidade um camponez, levando um caixão ás costas. Dirigia-se para o _Prado do Repouso_! Lá o lançaram para uma cova, e com elle os restos mortaes d'uma mulher desditosa.
A terra occultava uma infeliz no seu seio obscuro; os homens acolhiam no seu gremio um leproso vil e incuravel!...
Nem uma lagrima! nem um suspiro! nem um ai compassivo!...
Roberto, ao saber do funebre passamento de Mathilde, neste mundo, limitou-se muito ingenuamente a vomitar uma bafurada de fumo de seu enorme cachimbo, acompanhada de sinistra gargalhada!
E melhor foi assim, talvez!...
A mulher ludibriada havia desapparecido para sempre de sobre a superficie da terra! Era tempo de procurar outra victima!...
Rejubilae, satrapas da corrupção e da licença! erguei as cabeças, parasitas ignobeis!...
Vinte, trinta ou quarenta mortes, que importa tudo isso, uma vez que nós vivamos contentes e satisfeitos?!...
Arda muito embora o universo! De que vale essa triste ninharia, se as chammas mesmo de leve nos não tocarem?!...
Neros do egoismo! preparae a vossa argilla immunda! A hora soará uma vez, e os vossos cadaveres, por seu turno, agitar-se-hão ensanguentados ao longo das vossas miserias e villanias!...
No entretanto, em quanto as coisas assim se passavam, Arthur regressara finalmente á patria, após uma longa viagem, que havia emprehendido á Inglaterra, com o intuito provavel de recuperar no estrangeiro a ventura, que lhe fôra impossivel encontrar no meio d'aquelles que mais amava e queria. Quem o visse, depois da sua chegada, passear as ruas do Porto n'uma perfeita serenidade de espirito e jovialidade quasi espontanea, que tão peculiares se tornavam ao seu caracter indifferente e generoso--reputal-o-hia, á primeira vista, um homem feliz, sem receio de errar.
As grandes commoções variam de individuo, segundo a diversidade de circumstancias que as podem originar. A desgraça de Mathilde convertêra-se n'um manancial de felicidade para Arthur. O homem, aviltado por um amor insensato, reconheceu, alfim, a sua dignidade, e ergueu a cabeça, cheia de luz e esplendor. O holocausto de sua mulher resgatára-o para a vida e para o mundo.
Antes assim!
Após esta grande evolução do espirito humano, a transformação operára-se rapida e completa. Apagaram-se odios ruins; deslembraram-se velhos rancores.
O esquecimento da victima e o cynismo tornavam dois homens ditosos sobre a terra, em quanto o céo acolhia, talvez, no seu seio uma peccadora arrependida, e regenerada pelo amor e pela virtude!
E de facto, Mathilde, quando se viu assim ludibriada, e afastada da sociedade, chorou muitas lagrimas de arrependimento sincero, derramou nas trevas muita perola occulta, tragou até ás fezes o absintho d'aquella taça denegrida e empestada pela sociedade, a que alguns muito erradamente chamavam vida. Vida! para aquelles que a não conheceram outr'ora opulenta e a trasbordar de pura seiva vital!... Vida, sim, mil vezes terrivel e amargurada!...
Antes o inferno, a solidão, o abandono, a inercia, do que o sacrificio de tão ignobil vegetação!...
Agora, é tempo de terminarmos a nossa historia. Fica ao arbitrio de cada um, o ajuizar da bondade ou maldade da nossa heroina. Nem isso nos causará assombro. Para nós, Mathilde symbolisa uma perfeita imagem da mulher actual; nem mais nem menos.
Arthur foi, pois, despejadamente abraçar o seu amigo Roberto Guimarães, que de muito bom grado o acolheu em sua casa, cheio de gaudio ingente, e espontaneidade feliz. Congraçaram-se as duas velleidades; o veneno amalgamou-se com a peçonha n'um grosseiro deleterio; o piar do mocho agoureiro contrastou singularmente com a avidez do abutre esfaimado!
Fazia-se mister uma occasião opportuna, a fim de cada um poder expandir convenientemente os seus sentimentos.
É o que vamos ver.
O moço provinciano, já a este tempo purificado no cadinho d'uma civilisação depravada e falsa, foi readquirindo as suas antigas relações. Os seus salões continuaram a estar patentes a todos os velhos amigos e parentes. O seu nome tornara-se sobejamente conhecido no paiz. A sua fortuna augmentara consideravelmente com a ida á Inglaterra. Não lhe faltavam paes, que o desejassem ver bem collocado no seio de suas familias.
E o certo é que as circumstancias se combinaram de tal modo, que, dentro de pouco tempo, Arthur de Campos fôra feito barão de... E era justo, com effeito; tinha dinheiro: ao menos podia contribuir para a prosperidade do paiz.
A riqueza rehabilitou o homem covarde, perante as cataractas d'uma sociedade meia em dissolução. É assim que vemos muitas vezes a virtude supplantada, e o egoismo triumphante e victorioso!...
Tudo isto, porém, era pouco ainda, ante o glorioso porvir que lhe estava reservado. O baronato metamorphoseara o nosso provinciano a ponto de lhe incutir no animo um acervo de sentimentos depravados e baixos, de uma certa aristocracia ignara, que por ahi tropeça a cada canto.
Feito barão, o seu primeiro cuidado foi escolher uma mulher da alta sociedade, que lhe lisongeasse devéras o paladar, já de si delicado e corrupto. Para isso procurou elle unir-se em segundas nupcias com a filha d'um acreditado visconde, que ainda hoje reside em Lisboa.
De resto, nada mais é notorio, a não ser que o sr. barão de... emprehendeu, ainda ha pouco, uma nova viagem ao estrangeiro, em companhia de sua amavel esposa, com quem dizem gosar perfeita felicidade e verdadeira união.
A reparação, embora tardia, não foi intempestiva. Possa, ao menos, a Providencia prolongar-lhes os dias da sua ventura e do seu amor!...