# Miniaturas Romanticas

## Part 4

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Um dia, Beatriz, depois de ter vendido e sacrificado tudo o que possuia de seu, lembrou-se de appellar para a acção da caridade publica, como unico e verdadeiro recurso no extremo d'aquella aterradora indigencia. Lourenço, porém, apenas soube a fatal nova de que os alimentos, que ella lhe ministrava diariamente, com tanta bondade e doçura, eram colhidos de porta em porta, mediante as suas lagrimas e contristante humilhação, não ousou supportal-os por mais tempo.

D'ahi em diante, tudo o que ella podia trazer-lhe para alentar o seu vigor physico e robustez intellectual era arremessado á rua irremessivelmente. Nunca o seu orgulho e independencia poderiam conceder tal baixeza e opprobrio na mulher que elle desejara por esposa. Desde então o tédio começou a apossar-se violentamente de seu angustiado espirito, e Beatriz, a seus olhos, tornara-se um ente desprezivel e vil.

Assim pois, neste estado atrophiante e sensibilisador, pensou elle muitas e longas horas. A loucura parecia dominal-o fortemente. E já não havia valer-lhe, talvez, se, por acaso, uma circumstancia imprevista, o não obrigasse subitamente a abandonar aquella immobilidade e desoladora situação, em que, mau grado seu, o haviam encerrado suas forças e abominavel desesperança.

Por um acaso inexplicavel de manifesta loucura, Lourenço Viegas não pôde mais prolongar a febre vertiginosa, que lhe abrazava a mente enlouquecida: levantou-se de salto, como se o desespero, de subito, lhe houvesse alentado o corpo, enervado pela doença, e aproximou-se de Beatriz, cujos cabellos beijou soffregamente:

--Ao menos, morrerás com o meu amor, anjo bemdito do Senhor!--exclamava elle, afagando-lhe com delirio sua fronte mimosa.

Já não havia remedio, que lhe podesse abrandar o seu feroz instincto. Que valeriam as supplicas da pobre mulher, em face da hediondez d'aquelle tigre asqueroso e repellente,... se, minutos depois, ella tinha de jazer a seus pés, victima expiatoria d'um pensamento infernal?!...

Consummou-se o sacrificio!...

Lourenço, cégo de raiva, sem atinar mesmo com a enormidade do crime, que praticara, deu-se pressa em fugir para longes terras, passando sempre incolume ás mãos da policia vigilante d'aquelle paiz.

Decorridos alguns annos, voltava elle a Portugal, em demazia opulento, para poder grangear quaesquer d'esses titulos ou commendas, que tão malbaratados andam por este nosso malfadado paiz. Onde elle conseguira tão rapida transformação, isso ainda hoje passa como mysterio insondavel para todos os que o conheceram outr'ora pobre e sem meios de vida. Diziam alguns que elle se associara a uma quadrilha de bandidos na America do Sul; outros affirmavam ter sido roubada aquella fortuna a um abastado proprietario, ao serviço do qual elle se conservara por muito tempo.

Em conclusão, o que se sabe ao certo é que, estando elle um dia, muito descançado, pacificamente encostado ao portal de sua casa, respirando docemente as exhalações fragrantes das mil florinhas, que, então, apenas começavam a vegetar, de subito parou junto d'elle um vulto desconhecido, sopeando galhardamente um brioso e folgasão ginete.

--É o sr. Lourenço Viegas a quem tenho a honra de fallar?--dizia o cavalleiro, dirigindo-se para elle com delicadeza e urbanidade.

--Um seu humilde servo,--replicou Lourenço, admirado.

--Pois, sr., saiba que aproveito esta occasião para vir pagar-lhe uma divida antiga, que até hoje não tenho podido satisfazer.

--Uma divida?!... A mim?! Isso ha de ser engano, forçosamente. Creio que v. s.^a nada me deve.

--Pois então saiba mais que me chamo José de Brites Lencastre Serrão, e que tinha uma unica filha chamada Beatriz, a quem um infame assassinou e roubou para sempre aos meus carinhos e affeições.

Palavras não eram ditas, e já Lourenço Viegas caía moribundo no chão com um tiro de bacamarte, que lhe varara o peito de lado a lado.

Lourenço cahiu exclamando:--Mataram-me!... Fez-se a justiça de Deus!...

Quando, algumas horas depois, accorreu a gente da terra áquelle sitio, já elle havia exhalado o ultimo suspiro.

No dia immediato alguns dos seus poucos amigos conseguiram, a grandes rogos, que o parocho da freguezia desse o seu consentimento para elle ser sepultado no adro da igreja.

Hoje a sua lousa jaz quasi ignorada. Algumas florinhas solitarias, que derramam aromas nas horas do crepusculo, ou quando muito um cypreste erguendo-se melancolico e severo, com as côres sombrias e esverdeadas da sua eterna primavera, e uma cruz silenciosa e triste indicando que ali repousam os ossos d'um desgraçado!...

*CAMBIANTES DA COMEDIA HUMANA.*

CAMBIANTES DA COMEDIA HUMANA

Ao Dr. Antonino José Rodrigues Vidal

CAPITULO I

Henrique IV, perguntando a Gabriella d'Estreés por onde se entrava para o seu quarto, esta respondeu-lhe:--pela porta da egreja. Pela sociedade moderna pode dizer-se que a entrada para o matrimonio é muitas vezes a porta d'um salão onde se dança.

LOPES DE MENDONÇA.--_Scenas e Phantasias._

Um baile!...

Delirio da mocidade! gloria d'um amante! receio das mães! enojo da velhice!...

Um baile!...

Quantas vezes sonhamos, ainda crianças, com aquelle novo mundo ideal e angelico, com aquella visão dulcissima, enlevo de amantes, com aquelle rodopio vertiginoso e inebriante!...

Um baile!...

Mixto de ideas e sentimentos oppostos! Sorrisos e prantos! suspiros e lagrimas! amor e saudade! lyrios e goivos!...

Um baile!...

Desgraça de muitas familias! orphandade de muitos corações! inveja de muitas creaturas!...

Um baile é a photographia da humanidade, assim como o theatro é o espelho da sociedade.

Tem-se dicto muito sobre bailes. Todos lhe reconhecem os perigos, e, todavia, ninguem os evita.

A donzella corre ao precipicio, attrahida pelo canto seductor d'esta implacavel sereia. O mancebo alimenta ali sua phantasia ardente. Os velhos assistem a elles, como meros espectadores, realçando as glorias dos seus tempos, em menospreso das modernas velleidades civilisadoras e progressistas.

Emfim, tudo anceia por um baile; todos rejubilam na sua presença; todos esquecem, por momentos, as ulceras do proprio corpo, para dar largas ás vélas da sua imaginação.

Seja, pois, bemvindo o salão onde teremos de encontrar um dos principaes personagens da narrativa que vamos encetar!...

Estava eu em Fafe, no mez de agosto de 1860. Ali, fugindo ás ardencias do estio e monotonia da cidade, me fui recrear, durante alguns mezes, á sombra d'aquellas viçosas amoreiras, completamente descuidado do bulicio d'este mundo, para a sós comigo me entregar ao prazer de alguns dias serenos e beatifico scismar.

Foi tambem n'uma d'essas occasiões, creio eu, que me foi licito sondar uma das almas mais formosas e um dos genios mais modestos que tenho encontrado em dias de minha vida. Arthur de Campos era realmente um moço affavel e de uma fina educação; bom até ali. Havia um não sei quê de mysterioso e sympathico n'aquelle seu vulto insinuante e bello, que me attraía irresistivelmente para elle.

Para logo, procurei travar relações com o joven provinciano, e de tal modo o consegui, que, dentro de pouco tempo, já vivia nas suas proprias alegrias, e chorava nas suas tristezas. Entre nós a amizade era mais que fraternal. Quasi todos os dias nos juntavamos de manhã, para só nos separarmos ao recolher para casa.

Oh!... com que saudade me não lembra ainda aquelle tempo!... como os dias se deslisavam então brandos e suaves! como era puro o azul do nosso horisonte, e feliz a nossa existencia, juncada pelas rosas do amor, e matizada de flores, que nos enfeitiçavam a mente enlouquecida pelas larvas da phantasia!...

Ás vezes passavamos horas inteiras, um ao pé do outro, sem articularmos uma unica palavra; e, comtudo, os nossos pensamentos pareciam adivinhar-se mutuamente n'aquelles meigos e puros anceios de paz e felicidade.

Um dia, lembra-me ainda como se hoje fôra, eram talvez duas horas da madrugada. A lua, aureolada de mystica luz, campeava no seu eterno throno de magia e formosura. Reinava um silencio sepulchral. Apenas se presentia ao longe o grato arroio, serpeando de mansinho por entre as dispersas arvores, de que as folhas se agitavam frouxas, ao perpassar da fresca brisa da madrugada.

Senão quando veiu ferir-me o meu ouvido vigilante a voz de Arthur, que me chamava de fóra da porta. Corri a elle, curioso por saber o que se teria passado. Nada me disse. Entrou pensativo. para dentro de casa, e sentou-se melancolico e triste.

--Sei quem és, meu amigo; falla francamente, que tens tu, que te aconteceu?...

Elle, comtudo, conservava-se silencioso, sem nada me responder. Eu, por mim, julguei prudente não insistir em tão pertinaz proposito, e aguardei melhor ensejo para esse fim, certo de que elle se não recusaria a revelar-me o seu segredo.

Após alguns momentos, quando o vi sair, sem proferir sequer uma unica palavra, durante o tempo que ali estivera comigo, tive a fatal idéa de o acreditar demente. Para me certificar, porém, da verdade do facto, resolvi seguil-o a todo o transe, commettendo a discrição de me occultar, o mais cautelosamente possivel, atrás da espessura do arvoredo por onde elle tinha de passar irremediavelmente.

Similhante a um reptil, lá me fui arrastando, como pude, por entre o matto e silvedo, que delimitavam o estreito caminho.

Foi então, que sua tímida voz, de envolta, com o perfume do orvalho matutino, me veiu estancar no peito um mysterioso receio. Suas palavras foram tristes, como a solidão da sua alma, pavorosas como os milhares de phantasmas, que lhe voejavam na mente tresloucada. Era assim o monólogo:

--«A sociedade! sempre a sociedade! Maldicta sejas tu, mil vezes maldicta!... E o homem ha de respeitar necessariamente os teus decretos vis, e lisongear a tua hypocrisia infame!

«Triste abjecção!...

«Não sei porque; mas, quando penso nessas sombras pavorosas, que, a cada passo, me enluctam o espirito com as trevas deste mundo, sinto-me enlouquecer terrivelmente. Odeio os homens; abomino o prazer da terra, e não posso de maneira alguma acreditar na idéa d'um Deus infinitamente justo e bom!...

«Muita lagrima, muita miseria e muita vingança: eis devéras a realidade das coisas, eis a sociedade, em toda a sua nudez!

«Nasce a criança, de envolta com o cilicio do soffrimento, para expirar depois no meio de agudas dôres e medonho agonisar!

«Um dia, quando já homem, aproxima-se da mulher, que ama loucamente, e essa mulher, sem pejo, cospe-lhe nas faces a podridão da sua alma corrompida, o veneno absorvido no seio da sociedade, o lodo, a corrupção, a vaidade!...

«E ainda ha quem sonhe no amor d'uma mulher?!...

«Pobre desgraçado, quem quer que tu sejas compadeço-me da tua innocencia. Aprende antes a conhecer esses vermes nauseantes, e não creias jámais nas palavras hypocritas d'uma mulher fementida! Afasta-te, em quanto é tempo, d'essas viboras dolosas, que te podem acarretar a tua eterna ruina, e a degradação da tua dignidade!...»

Não pude ouvil-o por mais tempo. O echo de suas ultimas palavras foi perder-se a distancia nas azas da branda viração d'uma esplendida madrugada de outono.

Retirei-me para casa bastante apprehensivo. De todo me fôra impossivel atinar com a origem de similhante mysterio. Appellei, pois, para o tempo, como melhor mestre e mais efficaz para me elucidar a esse respeito.

Quando me tornei a encontrar com Arthur, d'ahi a algumas horas, já o reconheci mais sereno e agradavel. Affigurou-se-me ver dissipadas as sombras, que pouco antes lhe offuscavam o espirito. Ainda assim, evitei sempre o fallar-lhe sobre coisas, que de algum modo podessem offender o seu melindre e elevados sentimentos. Procurei amigavelmente distrair-lhe os seus pezares e profundas amarguras, mas vi quasi baldados os meus esforços.

No entretanto, o inverno ameaçava ser rigoroso. O mez de novembro principiara frio e insupportavel.

Tudo se transtornara ali, com a chegada da estação invernosa. Aquelles prados e veigas, até então tapetados de verde e flacida alfombra, começavam a inundar-se com as cheias, que os tornavam geralmente intransitaveis. O céu iriado da primavera havia desapparecido, deixando em seu logar um montão de nuvens escuras e temerosas.

Neste comenos, negocios de familia me chamavam a casa, impedindo a continuação da minha residencia n'aquelle encantado paraizo de amor e felicidade. Despedi-me, pois, affectuosamente do meu amigo Arthur, e regressei ao Porto.

Arthur promettera escrever-me d'ahi em diante sem interrupção. Passaram-se, comtudo, oito mezes sem que eu recebesse uma unica carta sua. Quasi o julgara doente, se, porventura, não fôra um amigo d'aquelles sitios, que me disse tel-o encontrado, poucos dias antes, de perfeita saude e invejavel robustez. Dei-me por satisfeito, e de nada mais quiz saber.

Aconteceu, porém, um dia, ser eu convidado para um baile em casa do conselheiro F., por occasião do anniversario natalicio de sua filha Mathilde. Mal teria entrado no salão, quando, cheio de espanto e receioso prazer divisei o meu amigo Arthur de Campos, por entre a multidão de cavalheiros, que se apinhava a uma das portas, para a proxima quadrilha.

Fiquei estupefacto!

Ora vão lá conhecer o mundo,--dizia eu, repetidas vezes a mim mesmo, mal acreditando ainda na realidade do que via. Pois aquelle homem que, ainda ha pouco, amaldiçoava a sociedade, no meio d'um horrivel _spleen_, que lhe atrophiava a dolorosa existencia; aquelle homem, para quem a mulher não passava d'um espectro hediondo e feroz,--já então não hesitava em se degradar d'aquelle modo, vivendo na sociedade, e procurando até o objecto da sua antiga indignação e odioso desprezo?!...

Pois a isto chama-se--_saber viver_ e nada mais,--dirão muitos, e digo eu tambem. Lá diz o proverbio:--_Qui ne sait pas feindre, ne sait pas vivre._

Passemos, porém, uma esponja por sobre estas miserias e humanas ninharias, e voltemos ao salão.

Ao meu lado conversava calorosamente um grupo de convidados.

Dizia o primeiro, litterato de grande nomeada na invicta cidade:

--Quem será aquelle joven _Lovelace_, que traz captivos tantos olhares modestos e apaixonados?...

--Pois, em verdade, ainda não o conheces, meu caro?--retorquia um adestrado _Marialva_, muito conhecido pelas suas proezas e afamada mestria.--Aquelle sugeito é um provinciano de Fafe, homem de grandes haveres, segundo me dizem, e que vem agora residir para o Porto. É o que em boa sociedade pode chamar-se _un homme distingué, un homme à bonnes fortunes_.

--Hum!... lá me parecia!...--prorompeu o primeiro. Isso assim é outro cantar. Por isso a filha do nosso conselheiro não descura da sua missão. Olha... que modos aquelles... como ella se quebra toda para lhe agradar... ah! pois não, coitadinha!... Nem a formosa nympha da mythologia, surgindo do seio do Oceano, seria mais bella e tentadora!...

--E bem haja. ella, continuou o segundo. Isto, hoje em dia, mulher esbelta sem dinheiro é o mesmo que um cavallo bonito e manhoso: todos gostam de lhe admirar a estampa, mas ninguem o quer para si.

Emquanto isto assim se passava, Arthur, de longe, pareceu reconhecer-me, e, levantando-se de golpe do logar onde se sentara, ao lado de Mathilde, veiu abraçar-me sem demora.

--Como tu estás gordo e bom, meu caro! Estava longe de te fazer hoje por aqui, dizia elle, apertando-me fraternalmente em seus braços varonis.

--Pois olha, eu a ti muito menos; foi milagre, de certo. Mas conta-me lá: que transformação foi essa tão rapida? Tu, o homem piegas e choramingas de outr'ora, o Heraclito provinciano, a quem nada podia distrair, a não ser uma ou outra pagina do milagroso _Werther_, appareces-me agora transformado em Democrito feliz e folgasão, catechisando estes corações rebeldes ao teu dominio e absoluto imperio?!...

--Isso é uma longa historia, meu amigo, que para aqui não vem a proposito. A esse respeito tenho muito que te contar. Apparece ámanhã no _Hotel Central_, quarto n.^o 9, e lá fallaremos.

--Está dicto: ámanhã lá me tens, sem falta. Apertámo-nos depois as mãos reciprocamente, e cada um seguiu o seu rumo. Arthur voltou ao salão; eu retirei-me socegadamente ao meu quartel.

CAPITULO II

Amor, és immortal! sorris nas campas!

GOETHE.

No dia immediato, á hora aprazada, dirigi-me apressadamente para a rua do Laranjal, conforme haviamos convencionado na vespera.

Seria talvez uma hora da tarde, quando entrei no _Hotel Central_. Fui assim percorrendo a longa numeração dos quartos, até que se me deparou o mencionado n.^o 9, a cuja porta bati duas vezes, sem obter a minima resposta. Á terceira pancada, já conseguira mais alguma coisa, por isso que me soára distinctamente o ranger descompassado d'um leito, e o bocejar monótono d'algum sybarita, que se espreguiçava indolente, qual moderno Sardanapalo. Quasi me julgara illudido no meu humilde proposito, quando ouvi a voz de Arthur, clamando bem alto:

--Olé! quem está ahi? Entre quem é...

Abri a porta, e entrei. Arthur mal havia despertado ainda do contristante lethargo que d'aquelle modo lhe entorpecera seus membros voluptuosos.

--Sim, senhor, muito bem, menino Arthur! isto é que se chama viver, o mais é historia! Olha que lá por fóra já é dia ha muito tempo.

--Ora deixa-me, nem me falles n'isso. Estou perdido, estou morto! Amo uma mulher apaixonadamente.

Ai! Mathilde! Mathilde! o teu olhar foi o demonio, que se introduziu na minha alma. Preciso amar-te. D'ora ávante só quero viver para ti, adorar-te, e chamar-te minha, finalmente. Que nos importarão, então, os prazeres d'este mundo, quando nós, afastados da sua corrupção e miseria, vivermos um só para o outro e nos alimentarmos na innocencia e suave conforto dos nossos corações privilegiados?!...

Ai! Mathilde! meu amor! custe o que custar, tu has de pertencer-me um dia. Embora tenha de arrancar-te aos braços de teu pae, tu serás minha e só minha, doce perola do meu coração!

--Bravo! tudo vai a melhor. Á ultima hora appareces-me metamorphoseado n'um elegante Romeu. Realmente, és um homem singular, um typo _sui generis_!...

--Sou um homem singular, dizes tu. Não preciso, nem quero comprehender-te. Porque me não vês, como vós outros, verme impotente, rastejando impunemente na podridão das proprias chagas, chamas-me um typo _sui generis_. Embora! Prouvera a Deus todos assim fossem!...

--Lá por isso não vale zangar, meu amigo. Já vejo que não estás hoje de muito bom humor. Este tempo chuvoso tambem não deixa de ter sua influencia sobre o systema nervoso. Mas, emfim, fallemos n'outra coisa. Quando chegaste de Fafe?

--De Fafe cheguei ha tres dias, e de sobejo têm elles sido para me persuadir a que não devo voltar para lá.

--Não deves voltar para lá?!... Essa é melhor. Então por que?

--Porque já agora aborreço aquella vida solitaria da minha aldeia. Tenciono comprar uma casa, casar-me breve, e continuar a residir aqui. Mas, olha lá, isto devem ser horas de almoço: que me dizes?

--Até de jantar, meu caro: são quasi duas horas da tarde.

--Pois bem, n'esse caso, vou vestir-me quanto antes, e tu almoçarás comigo, como espero.

--Eu?! almoçar a estas horas?! Estás perfeitamente enganado a meu respeito. Eram 7 horas da manhã, já estava fóra de lençoes; ás 8 tinha o almoço digerido; e ás 9 estava na rua a tractar dos meus negocios.

_C'est trop fort!..._ Far-me-has companhia, ao menos, estimulando-me o appetite com dois dedos de succulento cavaco; depois iremos juntos a casa do conselheiro F., onde se me faz mister da tua valiosa protecção.

--Nesse caso, uma vez que me queres para jantar, tomarei a liberdade de ir já confortando as paredes estomacaes, para o que dér e vier.

--Á cautela, tambem t'o aconselho; porque, finalmente sempre é obra que fica feita.

Almoçámos, pois, deliciosamente. Eu de cada vez admirava mais o meu amigo Arthur. Dir-se-ia um ente incomprehensivel, na verdade: ora alegre, ora triste, ora melancolico e sereno, ora folgasão e jovial; emfim, são coisas d'este mundo!

Depois de termos entrouxado duas boas travessas de appetitosas costellelas de porco e ovos, acompanhadas do saboroso e estomacal vinho de Xerez,--saímos ambos, em direcção á rua de Sancta Catharina, onde morava o nosso amigo conselheiro F.

Apenas haviamos subido alguns degraus da escada, cujo andar era habitado pelo conselheiro e sua familia, quando nos soou distinctamente a voz de Mathilde, altercando furiosa com sua irmã Maria. Hesitámos um instante no nosso proposito, e por alguns momentos ficámos perplexos, sem saber o que fazer. Por fim parámos juntos á porta da entrada, a cuja fechadura collámos o ouvido cautelosamente, para assim, invisiveis, melhor podermos assistir áquelle espectaculo de ciumenta fraternidade.

Dizia Malhilde, com as faces inflammadas em colera e subito desespero, accentuando bem as suas palavras, vibradas do intimo do coração:

--Ora a mana sempre é muito invejosa!... que se importa com a vida do sr. Arthur? que tem com elle? nunca o ouviu fallar a seu respeito, nem bem, nem mal, não é assim?... pois então é melhor calar-se, e nunca mais tornar a fallar em tal coisa.

--Sim, sim, tudo isso é muito bonito! eu já sei o que a mana quer: imagina talvez que o sr. Arthur está a distillar de amores pela sua pessoa, e illude-se perfeitamente. Nem elle tinha mais que fazer. Olhe, sabe que mais, é melhor tirar d'ahi o sentido. Ainda d'esta vez não péga a labia, minha senhora...

--Olhe bem a mana, veja lá o que diz; depois não se arrependa, porque pode vir tarde e a más horas. Não estou disposta a aturar as suas creancices por mais tempo. Parece que ainda cheira a coeiros! Que tal está o fedelho! já viram coisa igual?...

Neste ponto, Arthur, vendo que a contenda ia a tomar proporções um pouco serias e assustadoras, julgou do seu dever atalhar quanto antes os funestos resultados, que d'ahi lhe podessem provir. Para isso tocou a campainha, e logo após veiu um criado abrir-nos a porta, convidando-nos a entrar para a proxima saleta.

Entrámos n'uma sala, elegantemente adornada e cuidadosamente disposta. Sentámo-nos n'umas cadeiras de braços, ao acaso, e lançámos mão do primeiro objecto que se nos deparou opportunamente sobre a mesa: era um _album_, quasi todo manuscripto.

Abrimol-o distraídamente,--passeando a vista, ao mesmo tempo, por aquella multidão de paginas, repletas de centenares de palavas semsabores e sem sentido--quando vimos, no topo da pagina, a seguinte epigraphe:

ILLUSÕES

(Fragmento d'uma poesia inedita)

Á ex.^ma sr.^a D. Mathilde

Isto excitou a curiosidade de Arthur, que continuou a lêr em voz alta:

No céu divinal nascida, Tão querida!... Entre os homens és rainha! No teu olhar enlevados, Pelo encanto avassallados, Todos suspiram: sê minha!...

De manhã o sol luzente, Vem ridente!... A natura illuminar; Assim tu, com teu fulgôr, Vens n'um sorriso d'amor Minha alma purificar!

No céu a estrella ondulante, Tão brilhante!... A cada passo é toldada! Mas tu brilhas sempre pura, Qual a rosa com frescura Pelo sol illuminada!...

--_C'est assez!..._--exclamou Arthur, contendo um longo abrimento de bocca, e depondo discretamente o _album_ sobre a mesa. É um optimo narcotico para quem precisar d'elle: eu, por mim, declaro, estou satisfeito e mais que satisfeito.

Neste momento entraram na sala as duas filhas do conselheiro, acompanhadas de sua respeitavel mãe.

Trocadas as cortezias do estylo, tornámos a tomar novos logares.

Arthur começou, dizendo que aproveitava aquella occasião para ir agradecer pessoalmente o benevolo acolhimento e fraternal sympathia com que se tinham dignado tractal-o na noite antecedente, confessando-se eternamente grato por todos aquelles obsequios, que tão do intimo lhe tinham sabido prodigalisar, e que elle jámais poderia esquecer em dias de sua vida.

