# Miniaturas Romanticas

## Part 3

Book page: https://www.cyberlibrary.org/pt/books/miniaturas-romanticas-21567/index.md

«O desgraçado havia ensandecido. Por isso, reconhecida a verdade do facto, me concederam a liberdade, e me restituiram ao seio da familia. Ainda assim, não havia furtar-me aos olhares perscrutadores e cubiçosos d'aquella gente hypocrita e ridicula da terra.

«Foi, pois, com este intento que meu padrinho, Francisco Marques, homem solteiro e de grandes haveres, se resolveu a persuadir minha mãe, a fim de me deixar embarcar para o Brazil, pretextando ser aquelle o unico meio, não só de me subtrahir ás linguas viperinas, que, a cada passo, intentavam empeçonhar o sanctuario da minha reputação, até ali intacta, senão tambem o caminho mais seguro para alcançar no futuro uma posição certa e definida.

«D'ahi a dois mezes já eu estava no Rio de Janeiro como caixeiro d'uma casa commercial.

«A ingenua hospitalidade, e natural lhaneza, com que ali me tractaram, deixara-me de todo captivo d'aquella sancta e boa gente. Fôra-me, porém, impossivel contrariar a minha natureza, já de si sobejamente expansiva e juvenil, escravisando-a a tão arduo e difficil mister.

«Todavia, a despeito das mil e quasi insuperaveis contrariedades, que então se me antolharam no horisonte da minha vida social, estava intimamente convencido, ainda assim, que a fouce do tempo, roçando ao de leve por sobre os sonhos e illusões da minha mocidade, faria de mim um _bom negociante_, e um verdadeiro automato das minhas necessidades, sempre crescentes de dia para dia, se um motivo inopinado não viesse, por uma vez, cercear o nó fatal de todas as minhas aspirações no porvir.

«E foi o caso:

«Na rua Direita, onde eu residia, havia dois annos, habitava quasi _vis-à-vis_ de nossa casa, um diplomata de grande nomeada n'aquelle tempo, muito affeiçoado a meus patrões, com quem nutria tambem algumas relações commerciaes.

«Descendente de illustres avoengos, este personagem, pelos seus ademanes e acções, affigurara-se-me, desde a primeira vez que o vi, um senhor feudal da edade-media, no entranhavel rancor e odio feroz, com que olhara sempre os que lhe eram inferiores em categoria e nascimento; ou, por outra, esse bando de _mecanicos_, que por ahi tropeça a cada canto, especie de bestas de carga,--segundo elle--uteis, apenas, para ludibrio dos grandes e descredito da sociedade.

«Já vê, pois, o meu amigo, quão longe estaria eu de sympathisar com aquelle homem, sinceramente estulto e fatuo, que receiava macular as insignias do seu brazão hereditario, apertando a mão impolluta d'um pobre, mas honrado plebeu. E, no entretanto, a minha má estrella parecia caprichar em me ter escolhido, um monstro d'aquella casta, para meu implacavel algoz.

«Do seu primeiro matrimonio, que elle concebera apenas obtida a elevada posição de embaixador extrangeiro junto á côrte brazileira, houve elle tão sómente uma filha, em quem debalde procurou imprimir o cunho dos seus depravados sentimentos. Amelia era o seu nome.

«Inebriado pela seducção de seu olhar magnetico, e lisongeado pela magia de celestial encanto que me sorria ao longe por entre o anil da minha primavera; eu, atomo insignificante, ousei, um dia, alçar a minha fronte obscura para aquelle astro de divina poesia. Contemplei-o, por longas horas, n'um extasi de ineffavel ventura, e reconheci, alfim, a grandeza e immensidade d'aquelle coração, para quem não fôra indifferente o meu olhar receioso e temerario.

«Porém, entre mim e aquella mulher existia um abysmo incommensuravel; um inferno medonho nos separava. Ella era rica, e nobre; eu era pobre, e plebeu.

«Era, sem duvida, uma attitude dolorosa, aquella, em que inesperadamente nos collocara um caso fortuito, e meramente instinctivo. Todavia, não desanimei, e cedi machinalmente aos impulsos poderosos do meu destino, alentado apenas por uma esperança vaga e indecisa, que me adejava furtiva e longinqua por sobre a orla do meu horisonte.

«Ao tempo em que primeiramente a conheci, Amelia não contava mais de 18 annos de edade, ostentando então toda a formosura e transparencia de seu elevado espirito, n'um rosto profundamente sereno e angelico, onde scintillavam, como esmeraldas, dois olhos verde-negros e seductores, que me deixaram devéras captivo e enleiado.

«Quando, pela primeira vez, fitei a gentileza d'aquella imagem radiante, d'aquelle corpo donairoso e alabastrino, d'aquella mãosinha tão delicada e quasi impalpavel, d'aquelle pésinho de sylphide, d'aquelles cabellos, pretos como azeviche, ondulando naturalmente por sobre os seus hombros de cysne, á mercê da branda e tepida viração do crepusculo; senti-me enlevado em mysticas harmonias; convulso, não pude suster o vôo da minha phantasia. Crêra-me até arrastado no mimo da flor, e na melodia do rouxinol, a um novo mundo; julgara entrever um paraizo, n'essa exuberancia de seiva imaginativa, que produziu em mim um mixto de sentimentos indiziveis e mysteriosos.

«Dir-se-ia uma visão oceanica!

«Amelia, para quem a minha presença fôra de todo indifferente, no principio, começou por me corresponder, dahi a um mez, com um amor apaixonado, e tão verdadeiro como era o meu. E, em verdade, tudo nos corria auspicioso e promettedor. Quasi nos haviamos esquecido d'este mundo, com as suas paixões e odios ruins, para nos extasiarmos perante o desabrochar d'aquella ventura celestial, cujo ambiente nos envolvia n'um deleite imperceptivel.

«Porém, tudo tinha de acabar irremediavelmente; e foi exactamente, quando menos o esperavamos, que o sopro terrivel da realidade nos veio dissipar, n'um momento, todas as doces illusões d'aquelle immenso amor, que nos absorvia, desfolhando-nos, impassivel, todos os sonhos que nos alimentavam o ideal da nossa juventude esperançosa e meiga.

«O diplomata, tendo sido competentemente avisado d'esta nossa mutua affeição, não só me ameaçou logo com toda a casta de doestos e convicios, como tambem o participou immediatamente aos meus patrões, que me despediram, n'esse mesmo dia, com uma desculpa ridicula e alvar.

«Amelia, essa, coitada! teve de luctar, e luctar muito, para arcar com os instinctos ferinos de seu pae, a quem prestes occorreu a idéa nefasta de sacrificar aquella victima innocente a um interesse sordido e vil. Aquelle miseravel concebera a satanica inspiração de _vender_ sua filha a um millionario devasso, que, anteriormente, lhe havia manifestado o desejo de casar um unico filho que possuia com o doce objecto dos meus sonhos sobre a terra,

«Por maiores que fossem as imprecações d'aquelle anjo celeste, allegando a impossibilidade d'uma tal união com um homem, que mal conhecia, e cuja desventura seria infallivel no futuro, não houve, comtudo, resistir-lhe. A resolução, uma vez tomada, tinha de seguir o seu curso violento, ainda através dos mais insuperaveis obstaculos.

«E, de feito, assim succedeu!

«Um mez depois, Amelia, aos olhos do mundo, era legitima esposa do tal millionario. Seu pae havia attingido o auge de gloria e contentamento, julgando ter encontrado a maxima felicidade para sua filha. Era, porém, grande a illusão. E muito callejado, por certo, deveria de estar aquelle homem no vicio, para não resistir ao remorso da sua consciencia, e não conhecer toda a vastidão da sua perfidia e do seu crime.

«Mas esqueçamos esse homem hypocrita e embusteiro, se tanto nos for possivel, de que anda tão colmada esta nossa sociedade, e voltemos a rematar a nossa historia com os ultimos episodios de meus desgraçados dias.

V

«Apenas sahi d'aquella primeira e ultima casa, em que me fôra licito entrar no Rio de Janeiro, nunca mais consegui empregar-me em parte alguma. A minha reputação estava de todo perdida e manchada. Como valer-lhe? d'onde haver recursos, para voltar á patria? Em tal caso, o unico refugio seria, talvez, mendigar de porta em porta um mesquinho ceitil, com que podesse matar a fome que me devorava as entranhas; mas, como o havia de fazer, eu, um homem robusto e apto para trabalhar? quem ousaria acreditar-me, n'aquellas circumstancias? e qual seria o meu denodo para arcar peito a peito com a indignação da sociedade, arrojando-me ás faces os meus erros, e passadas loucuras?!...

«Todas estas interrogações dirigia a mim proprio, apertando, por vezes, entre as mãos convulsas, as minhas faces afogueadas em colera e subito desalento. Procurei repousar o meu corpo abrazado, e não pude. Experimentei distrahir-me, e tudo cri impossivel. Que fazer, pois? Appellar para a acção da divina Providencia; isso seria, além de demasiada temeridade, um puro _lazzaronismo_. Emfim, nem sei como possa descrever-lhe aquelle momento de suprema angustia, e fatal desesperança?! Só lhe direi que em poucas horas me senti envelhecer, como se já tivesse cincoenta annos de edade.

Oxalá Deus me tivesse chamado a si n'aquelle intervallo de pungente dôr e lucta tenaz!...

«No entretanto, a incredulidade ía-se apossando do meu debilitado espirito, e o cynismo não tardaria, de certo, a vir fazer-lhe companhia; quando senti um clarão de luz banhar-me a furto a minha existencia fallaz.

«N'esse instante, tinha eu recebido um bilhete, concebido nos seguintes termos:

--«Meu caro Francisco.--Espero-te hoje, sem falta, ás 11 horas da noite, junto de minha casa. Sempre a mesma--Amelia.»

«Esperei, pois, por essa hora, caminhando, lentamente, para o logar aprazado. Incitava-me uma curiosidade espantosa, e um desejo violento de poder dizer um derradeiro adeus áquella perola da minha alma.

«Apenas soaram 11 horas nos relogios da cidade, de subito Amelia, surgiu a uma das janellas da casa, acenando-me cautelosamente para que me aproximasse sem receio. Acerquei-me, portanto, d'aquelle logar; porém, oh! meu Deus!... o que vi eu?!... nem quero que tal cousa me lembre! Amelia, tão formosa outr'ora, como estava mudada!... As rosas das faces tinham-se-lhe seccado profundamente; os olhos encovados, e sem brilho; as palpebras apenas se volviam morbidas, e sem significação. Tudo denunciava terrivel cataclysmo, ruina inevitavel!

--«Mandei-te chamar, Francisco, porque me custava desprender d'este mundo, sem me despedir do unico amigo que ainda possuo na terra. Perante o despotismo da força foi cega a minha humilhação, como sabes. Obedecendo a meu pae, julguei cumprir um dever filial, e nada mais. Ao menos ninguem ousará taxar-me de ingrata, nem de insubordinada, creio eu. Agora, consumou-se tudo. A vingança está prestes. Deus, de certo, não me poderá recusar a bemaventurança d'uma outra vida. Os anjos esperam-me no céu, meu amigo, e só lá então poderei encontrar a verdadeira felicidade. Lembra-te sempre da tua Amelia, meu caro, e não percas jámais a esperança da nossa união ante o throno do Altissimo. Tambem imagino bem quantas privações terás passado, meu bom amigo. Não julgues, por acaso, que tenha esquecido a tua dedicação e infortunio, no meio do fausto e esplendor em que vivo. Não; pelo contrario. Desculpa, se antes te não mandei chamar; mas só hoje me foi possivel levantar as algemas de meus pulsos. Agora... adeus... sinto... passos... preciso retirar-me... Lembra-te sempre de mim... Não me esqueças.... por quem és... Toma lá... recebe, agora, a ultima lembrança... da tua querida... E adeus... adeus...

«Amelia retirou-se logo, para dentro, cerrando vagarosamente a janella, como para evitar que alguem a podesse vêr e ouvir. Eu, afastei-me immediatamente d'aquelle logar, suffocado, sem poder articular nem mais uma palavra. Por pouco se me não esvaíram os sentidos.

«Apanhei o pacote que Amelia me pedira para acceitar, como um penhor de reminiscencia das nossas horas venturosas. Abri-o, e encontrei um masso de notas do Banco, que subiam a um valor nada vulgar. Emmudeci, e ajoelhei automaticamente, levantando as mãos aos céus, n'um acto de piedosa contrição. Volvi, depois, a casa, ancioso por dar largas á sinceridade das minhas lagrimas, longo tempo represadas, e ao brado da minha consciencia generosa.

«D'ahi a um mez estava eu no alto mar, em regresso para Portugal.

«Alguns dias, porém, antes de partir, tinha, por acaso, encontrado Amelia, pelo braço de seu _respeitavel_ marido, que me lançou um olhar torvo e sinistro. Foi tambem a primeira vez que o vi, e, valha a verdade, poucas ou nenhumas impressões me deixou. Apenas me recórdo ser elle um homem de estatura elevada, muito magro, tendo um espesso e elegante bigode a cobrir-lhe os labios, naturalmente grossos e rudes. De nada mais me recordo. Hoje, se o visse, estou intimamente convencido, que me seria impossivel conhecel-o.

«Mas, como lhe dizia, desembarquei no Porto a 2 de julho de 1852. Ahi mesmo consegui a minha entrada no seminario episcopal da cidade, d'onde saí, cinco annos mais tarde, já com ordens sacras.

«A despeito de todos os despotismos e ameaças, Amelia continuou a escrever-me todos os paquetes, até que chegou um dia em que deixei de receber noticias suas. Foi isto, cinco mezes depois da minha chegada a este paiz. Soube, finalmente, por carta d'um caixeiro da casa commercial, onde eu estivera, que ella havia succumbido a uma phthisica pulmonar, acompanhada de doloroso soffrimento e pranto acerbo.

«O diplomata, ainda hoje me consagra um odio feroz, attribuindo á minha pessoa toda a origem dos seus males e desgraças. Emquanto a seu genro, nem sei o que lhe terá succedido. Disse-me alguem, ha poucos dias, que elle viera fixar a sua residencia em Portugal. De certeza, porém, nada posso affirmar-lhe.

«Em conclusão, o que bem lhe posso asseverar é que, apezar da grande aversão com que aquelle homem ainda hoje me olha, talvez, eu, pelo contrario, nunca lhe desejei senão o seu bem e completa felicidade. Pois, em verdade, bastava ver n'elle o marido de Amelia, para não poder resistir a um profundo respeito e sincera veneração.

--E que faria hoje a esse homem se, por acaso, o encontrasse?--interrompeu finalmente Alberto de Carvalhal.

--Perdoar-lhe-ia, como expressamente m'o ordenam os preceitos de Christo.

--Ora até que emfim! sou feliz, meu amigo. Deus seja louvado!--exclamou Alberto, cahindo aos pés do padre Francisco de Castro, que debalde procurou sustel-o em seus braços.

Quem era pois Alberto de Carvalhal, já o leitor, de sobejo, o terá imaginado. E a razão por que elle sempre se conservara silencioso, no decurso da triste narrativa do padre Francisco de Castro, facil nos será suppor tambem, por isso mesmo que elle não fazia mais do que ouvir, em parte, a sua propria historia, e chorar nos seus proprios infortunios.

EPILOGO

Dois annos depois Alberto era monge benedictino. Ao cilicio do penitente junctara elle as lagrimas d'um peccador contricto.

O padre Francisco de Castro, ao receber esta nova, que lhe era de tanto prazer e consolação, deu-se pressa em ir abraçar o seu amigo, e, por longo tempo esquecidos, permaneceram nos braços um do outro, extasiados da mutua ventura e jubiloso alvoroço.

A felicidade os acompanhe! Que a gloria do Eterno lhes alente o espirito por entre as lagrimas e abrolhos d'este mundo, e que a certeza d'um beatifico porvir os inicie na practica das grandes virtudes!...

*A FATALIDADE E O DESTINO*

A FATALIDADE E O DESTINO

Blood will have blood

SHAKESP.--_Macbeth._

O sangue pede sangue.

Era por uma d'essas noites tempestuosas e frias do mez de dezembro de 18... O vento soprava rijo e medonho. Lá fóra ouvia-se o rugir da procella. O ribombo do trovão echoava tremendo e severo, como um castigo de Deus. As nuvens, prenhes de electricidade, revolviam os ares, de cada vez mais espessas e rapidas. A natureza parecêra amesquinhar-se, perante o pavoroso espectaculo, que, em breve, teria de representar-se por sobre a superficie da terra.

Tudo cedia, sem remedio, á violencia de tão possante e irresistivel inimigo.

O roble altivo dobrava sua fronte magestosa ao impeto do vendaval raivoso. O cedro rojava-se humilhado ante a sua impotencia e fragil embaraço. No céu mal se destacava o refulgir das estrellas, d'entre a densidade das brumas e trevas espessas. A humanidade, em silencio, parecera adormecida n'um leito de funeral tristeza, e o prazer profundamente engolphado n'um abysmo de terrivel melancholia.

Dir-se-ía a hora de eterna vingança, o dia de suprema verdade!

Em Lisboa, nessa cidade luxuosa e rica, era prolongado o silencio. Apenas o vozear confuso e indistincto d'um ou outro pregoeiro poderia tomar-se, talvez, como um signal de vida e movimento ephemeros, por entre o tumultuar d'aquelle estranho labyrintho.

N'uma pequena e exotica habitação da rua dos Douradores agitava-se violento e apressurado, d'um para outro lado da casa, um vulto alto e nobre, de tez morena, barba preta, longa até ao peito, e com a fronte sulcada de profundas e salientes rugas.

De quando em quando, Lourenço Viegas corria pressuroso pela sala, abria a vidraça da janella, com impeto não vulgar, e observava impaciente aquelle estado de cousas, que refervia, lá por fóra, nas ondas da procella. Depois voltava para dentro, e continuava a passear agitado e trémulo.

N'um dos intervallos, porém, Lourenço caíu quasi automaticamente sobre uma velha cadeira de espaldar, ali existente, unico movel que guarnecia aquelle triste e humilde recinto, e que tivera a dita de escapar á sua espantosa prodigalidade. Após alguns momentos, como se pensamento estranho, de subito, lhe houvesse subjugado a fronte entumecida pelo continuo redemoinhar de idéas, quasi sempre oppostas, puxou por um punhal, que nunca esquecia ao seu lado esquerdo, e colerico arremessou-o para longe de si, sem outro instincto que não fosse o da propria salvação. A lamina de aço fusilou um instante, e foi cravar-se n'uma porta fronteira onde bruxuleava ainda o clarão quasi extincto d'uma candeia, ali cravada. Ao contacto de tão perigoso aggressor a porta estremeceu, e a luz, mal segura, caíu.

Nesse momento estrugiu os ares o latir agudo de enorme rafeiro, inseparavel companheiro d'este nosso _Othello_ em miniatura. Lourenço apenas levantara a cabeça, para tornar a caír n'aquelle mesmo estado de medonha lethargia.

No entretanto a tempestade havia serenado algum tanto. As brumas começavam a dissipar-se no horisonte, e a estrella d'alva rompia bonançosa e feliz.

Lourenço levantou-se então, allumiado ainda pelo continuo e rapido fusilar dos relampagos, e foi arrancar o punhal do logar em que, momentos antes, se tinha cravado. Olhou para elle com a firmeza d'um heróe, e introduziu-o no bolso.

Tu me salvarás!...--dizia elle, empurrando cautelosamente a portinhola d'aquelle cubiculo, que nem já chave possuia. Acompanhava-o o seu--_Terra-Nova_.

Mas que iria elle fazer a deshoras da madrugada? Que designio era o seu? Vel-o-hemos mais tarde. Por agora, limitar-nos-hemos a seguir-lhe seus passos incertos, se tal nos aprouver.

Da rua dos Douradores, Lourenço Viegas caminhou até o Caes do Sodré, onde parou junto do _Grand Hotel-Central_.

--É preciso partirmos já, sem mais demora. Remos ao mar, e nada de hesitações. Vamos a isso. O teu premio está nas minhas mãos.

Isto dizia Lourenço Viegas, dirigindo-se a um desconhecido, que ha muito o esperava n'aquelle mesmo logar.

--Receio muito pelo mar, meu amo. Mas, emfim, uma vez que é da sua vontade, vá lá. A Virgem Nossa Senhora nos acompanhe.

Assim fallava o arraes, saltando, prestes e desempedido, para dentro d'um pequeno escaler, que se vergava submisso sobre as ondas enfurecidas.

Depois de varias e perigosas peripecias, de todo inuteis á curiosidade do leitor, o escaler abicou finalmente á praia de Cacilhas. D'um pulo estava Lourenço em cima do caes, tendo exposto d'antemão ao arraes todo o plano de seus futuros designios.

Vejamos, pois, o que succedeu.

Lourenço subiu apressado a longa e difficultosa encosta, que conduz á villa de Almada, e parou no cimo, lá, onde alveja uma casinha graciosa, rodeada de espesso arvoredo, e fragrancias sem conto.

A um signal convencionado, abriu-se uma das janellas d'aquella airosa e solitaria vivenda, e logo após assomou a ella uma figura de mulher, que mal se destacava ainda por entre as sombras quasi desvanecidas da madrugada.

--Es tu, Lourenço?--perguntou Beatriz n'um tom receioso e baixo.

--Sim, meu anjo, é o teu amante, que te espera. Convém não demorar, de modo algum, a nossa partida. A claridade começa a romper, e os nossos esforços serão frustrados, se não fugirmos antes do dia.

--Então já, meu amigo. Fujamos, emquanto é tempo. Meu pae dorme profundamente, e creio até que ninguem mais véla nesta casa.

Neste comenos, Beatriz atou um lençol á beira da janella, procurando ter nelle um esteio seguro para a sua rapida fuga. Desceu, em seguida, até uma certa altura, em que Lourenço a pôde suster em seus possantes braços, não consentindo, por este modo, que seu pésinho aristocrata tocasse sequer esta terra ingrata e rebelde, que só pisam humildes mortaes.

Momentos depois as pedras da calçada iscavam fogo ao rapido perpassar d'um brioso alazão, que tomara o caminho do caes com celeridade inaudita.

Quem era o cavalleiro, ou antes, quem eram os cavalleiros, já o leitor, de certeza, o terá imaginado. E como Lourenço pôde haver á mão aquelle meio de transporte, facil nos será tambem conjecturar, mormente se nos lembrarmos de que elle havia transmittido, muito antes, as suas ordens ao arraes João.

Apearam-se no caes. Beatriz, quasi desmaiada, dando apenas accôrdo de si, foi conduzida ao escaler nos braços de Lourenço, que a envolveu sollicitamente no seu _chale-manta_, para evitar que sua melindrosa saude, d'algum modo, se alterasse com os rigores do tempo e intemperies da estação.

O escaler, depois, remou ao largo, e foi atracar a um brigue, que estava ancorado, defronte da torre de Belem, para onde Beatriz foi levada, a custo, com o salutar auxilio de Lourenço Viegas. D'ahi a duas horas já o navio se fazia de véla, com destino para New-York.

Mas, emfim, é tempo de sabermos quem são estes dois personagens,--dir-nos-ha a amavel leitora, já um tanto agrilhoada por desesperadora curiosidade.

Pois tem v. ex.^a muita razão, minha senhora. E para o que vou procurar, desde já, sanar este inconveniente, apresentando, o mais ligeiramente possivel, a photographia dos nossos viajantes.

Lourenço Viegas era bacharel formado em direito pela universidade de Coimbra, e exercia, ha dois annos, um logar de professorado em Lisboa. Procurando debalde obter a mão de sua adorada Beatriz, filha unica do abastado lavrador--José de Brites Lencastre Serrão,--Lourenço resolveu-se, por fim, a sacrificar toda a sua vida e paz de espirito, intentando o rapto d'aquella angelica _sabina_, em que se estreou evidentemente feliz, como acabámos de vêr.

Beatriz, que, a principio, vacillara em acceitar a temeraria e audaz proposta do eximio professor. não pôde abafar, mais tarde, o grito espontaneo do seu apaixonado coração, consentindo, de boa mente, nos sinistros desejos de tão aleivoso amante.

Eis aqui, pois, como, por uma natural coincidencia, nos foi licito assistir áquelle espectaculo, devéras commovente e fatal para ambos, que, ainda ha pouco, vimos ser representado dentro dos muros da villa de Almada.

Chegado que foi á America, Lourenço procurou logo empregar-se; e conseguiu effectivamente uma posição modesta e decente, sobejamente capaz para antecipar toda e qualquer eventualidade, que, inopinadamente, lhe podesse sobrevir pelo decorrer dos annos.

A saude, porém, não lhe fôra de todo favoravel, sob a influencia d'aquelle clima. Por isso, ao cabo de alguns mezes, jazia elle enfermo, no leito da desgraça e da miseria.

Beatriz bem lhe quiz valer com o seu trabalho, é verdade. Mas, coitada!... como o poderia ella fazer, se todo o tempo lhe era pouco para velar pelo moribundo e saudoso amante?

Portanto, quando Lourenço obteve algumas melhoras, os seus recursos estavam completamente esgotados. Era dolorosa a posição d'aquelle desventurado! As suas forças mal lhe consentiam ainda qualquer genero de trabalho, por menos violento que elle fosse.

