Part 2
Alvaro encarou tres vezes o seu mimoso par. Não sabia devéras, como encetar a conversação. Dirigir-lhe alguns requebros frivolos e banaes, em que tanto abundam estes bailes da nossa moderna sociedade, isso não. Não se coadunava com a sua indole, em extremo sensivel, o compendiar meia duzia de palavras semsabores, para entreter uma dama, cuja belleza elle, aliás, admirava.
Era dura a collisão, mas tinha de acabar, e acabou com effeito, explosiva, mas real.
E senão, ouçamos o resto do dialogo, se nos apraz. Esqueçamos, por um momento, os outros pares dançantes, e concentremos a nossa curiosidade sobre os heroes d'esta pequena scena, que intentamos esboçar.
--Nem v. ex.^a é capaz de avaliar quanto foi poderoso e salutar o feiticeiro sorriso de seus labios sobre o meu pobre coração, minha senhora. Já esquecido, ha muito, d'este mundo hypocrita e ridiculo, estava longe de me reputar feliz um momento sequer, quando divisei, na orla do meu horisonte, a terna imagem de v. ex.^a E, com effeito, não houve resistir-lhe. Cedi a um impulso intimo; compenetrei-me da gravidade do caso, e agora aqui me tem completamente escravisado e rendido aos pés de v. ex.^a
Emilia, e porque não? Seja-nos licito revelar aqui o seu nome, Emilia nada respondeu; baixou sua loura cabeça em scismador enleio, e teve a loucura de o acreditar, a desgraçada.
Horas depois, Alvaro, ao vêr os salões de todo desertos, saíu, como sempre, tetrico e pavoroso.
Entrou no primeiro café, que se lhe deparou; mandou vir champagne e cognac; e bebeu, bebeu até á embriaguez! O ultimo calix voou pelos ares, em pedaços ao clamor estridulo e rouquenho de--_Vive l'amour! Vive le champagne! Vive l'ivresse! Vive la folie!_...
A prostração, comtudo, não o tornou em completa demencia, nem tão pouco as forças physicas se lhe esgotaram.
Passeou a vista pelas mezas da casa, e apenas avistou dois meliantes ainda profundamente encarniçados no delirio do jogo.
Levantou-se, e foi direito a elles. Apontou a uma carta, e perdeu; apontou a outra, e tornou a perder; á terceira, entisicando-se-lhe a bolça, soltou um derradeiro e sentido suspiro!
Já não havia mais recursos: saíu, pois, do botequim.
A aurora começava, então, a roxear o oriente com o clarão da sua divina poesia. Ao longe, a cotovia annunciava um dia ameno e bello. A brisa mórna do crepusculo bafejava de mansinho, ao brando contacto de solitaria violeta, que se espreguiçava indolentemente, qual indiana lasciva na sua rede de pennas!
Alvaro nem sequer se commoveu com aquelle espectaculo.
Pobre desgraçado! como seria elle capaz de poder comprehender essa epopeia gigante, que tão evidentemente nos revela a existencia d'um Deus omnipotente e justo, n'aquelle estado deploravel e asphyxiante?!
Passou, como se tudo lhe fôra indifferente.
Subiu, depois, uma longa e sinuosa escada, que conduzia a uma agua furtada, cuja era a sua residencia. Veio abrir-lhe a porta uma joven mulher pallida e alta, de feições distinctas e ainda delicadas, mas já quasi extinctas pelo marulhar tenebroso do gêlo da desventura!
Uma luz baça allumiava o humilde aposento. Pela fresta da janella apenas se coava um tenue raio de luz, que contrastava singularmente com a pobreza e nudez d'aquelle exiguo e acanhado recinto.
Mas quem era aquella mulher? Que vida era a sua? Que fazia ella ali?
Aquella mulher era uma d'essas creaturas, como muitas, que Deus arrojou ao mundo, para justa punição do homem, e opprobrio eterno da humanidade.
Filha de paes abastados, aquella mulher, teria sido rica, outr'ora, nimiamente formosa e sublimemente ditosa, se a fatalidade do destino, peior que a fatalidade das paixões, não tivesse vindo macular para sempre a sua reputação ephemera.
Paulina amara Alvaro ardentemente; mas o traidor, longe de sanctificar aquelle amor com uma união licita, prostituiu torpemente a victima indefesa de seus nefastos designios, sempre indifferente ás suas agonias e ás suas dôres.
Paulina aproximou-se do seu amante, com o intuito de o beijar docemente, segundo o seu costume, quando elle a arremessou brutalmente ao meio da casa:
--Afasta-te, mulher vil! Para sempre! Não me tornes a beijar! Não queiras, ainda mais, manchar a minha fronte com o teu osculo impudico e pestilente. Julgara-te uma mulher, e não passas d'uma desgraçada! Reputei-te um anjo, e és um demonio! Cri, por algum tempo, na sanctidade do teu amor, e illudi-me, illudi-me sim, vibora dolosa e maldicta!
Triste verdade!...
Ah! Ah! Ah!
Neste ponto, Alvaro soltou uma d'essas gargalhadas estridentes e medonhas, que causam horror até ao maior heróe d'este mundo. Depois caíu sobre um canapé esfarrapado e sediço, que elle herdara de seus paes, em tempos mais ditosos, e ao lado do qual existia uma mezinha tosca e ligeira, onde se accommodava invariavelmente uma botija de genebra, que elle collou aos labios, tractando de a sorver diligentemente.
Paulina, embrulhada n'um roupão rôto e velho, com as suas longas madeixas em completo desalinho, foi-se arrastando insensivelmente no pó da sua ignominia, até chegar ao pé de Alvaro, cuja mão ainda tentou beijar mais uma vez.
Elle, quasi adormecido, soffreou aquelle golpe como lh'o permittiam as suas debeis forças.
Paulina ajoelhou perante o seu algoz. Mal começara, porém, a introduzir suas pequeninas e niveas mãos por entre os avelludados cabellos de seu amante, prodigalizando-lhe toda a especie de blandicias e carinho, de que só uma mulher é capaz,--Alvaro, como que tomado de subito desespero, levantou-se, e, tomando do braço d'aquella pobre mulher, exclamou:
--Paulina, é preciso que tu me entendas, d'uma vez para sempre. Eu não te amo, nunca te amei, nem te poderei jámais amar. Has de ser desgraçada toda a tua vida, porque nunca me soubeste comprehender,--porque nunca foste capaz de imaginar que, em logar d'um amante, só tinhas diante de ti um leproso vil, a quem a sociedade contaminou com o seu halito corrompido, para depois o deixar triste e solitario neste theatro ignobil da humana corrupção. Tu, que foste boa e meiga para comigo, procura outro mais digno de ti. Não faltarão homens, que te saibam estimar. Vae, vae correr mundo; e deixa-me, deixa-me por uma vez!...
Neste instante, desabotoou-se, por acaso, o casaco de Alvaro, e de seu seio caíu um leque, que lhe havia sido dado poucas horas antes por aquella joven e espirituosa Emilia, de quem já nos occupámos no principio d'esta narrativa.
Paulina empallideceu terrivelmente, e ia para apanhar aquelle objecto, tão caro e saudoso, de seu amante, quando elle se interpoz á sua vontade, collocando-se de modo a impedir a realisação, bramindo rancoroso e medonho. Os olhos chispavam-lhe sangue, e a bocca espumava-lhe de satanica raiva.
Tambem não articulou nem mais uma palavra. Apanhou o leque com soffreguidão inaudita; abriu-o, e começou a reparar n'uma borboleta que alli se achava gravada. Depois sorriu-se, e, sempre com os olhos fitos no mesmo ponto, exclamou:
--Qual te via sempre, mariposa gentil, adejando mimosa por sobre os meus sonhos radiantes, appareceste-me hoje, mais bella e sublime como nunca te havia imaginado. A tua imagem despertou ao longe os echos da minha alma; consolou-me o fulgor da tua benefica luz, na esperança d'um ditoso porvir!
Sê grande, minha Emilia, dá-me a crença e a vida outra vez! Suavisa o meu penoso soffrer, com o teu balsamo salutar, e, com o orvalho de teu doce coração, refrigera as chagas da minha imaginação enferma!...
Alvaro saíu, então, com tenções de nunca mais voltar áquella casa.
Paulina, essa jazeu por muito tempo n'um abatimento deploravel, até que, ao fim de alguns dias, se resolveu a ir mendigar de porta em porta o pão ázimo da desventura e do arrependimento.
Enganara-se, porém, aquella pobre mulher, quando julgara ter perdido para sempre o seu amante, que, ainda no opprobrio da sua existencia, não podera olvidar.
Um dia Alvaro regressou a casa, completamente regenerado d'aquelles vicios hediondos, que nós lhe conhecemos na sua mocidade estouvada, e perfeitamente arrependido das passadas loucuras.
Emilia fôra o seu anjo da guarda. Quando soube da mulher vilipendiada, d'aquella boa e angelica Paulina, longe de a rivalisar, pelo contrario, tractou de lhe promover o seu maior bem. E foi tanta a longanimidade do seu coração, que um mez depois Alvaro era legitimo esposo de Paulina e um dos mais honrados e bemquistos cavalheiros da invicta cidade do Porto.
Deixal-os ser felizes. Que a benção do Senhor se compadeça dos seus peccados, e faça descer sobre elles o anjo da felicidade e do amor.
O mundo é assim!
*UM DRAMA INTIMO*
UM DRAMA INTIMO
Ao meu amigo Agostinho F. Velho
La vie en effet n'est qu'une idée sans valeur, une page blanche, qu'otan n'y a pas écrit ces mots:--J'ai souffert, c'est à dire, j'ai vécu.
BARON DE FEUCHTERSLEBEN.
I
«Como Amelia era formosa! que bondade a sua! que terna expressão a do seu rosto angelico; e, que sentimento! que grandeza d'alma!...
«Como não eram radiosos aquelles sonhos da loura criança, que á noite ia segredar á brisa os seus amores sentidos, em infantil rubor!...
«Oh!... e que meiguice não era a sua, espalhando tão docemente o aroma de seus argenteos cabellos á viração perfumada da tarde, e despertando, ao longe, os echos da solidão com o brando dedilhar da sua harpa portentosa!...
«Phantasma cruel, que, por tanto tempo, me alimentaste o porvir grandioso das minhas aspirações ephemeras! Sombra implacavel d'um destino fallaz! Effigie derradeira d'uma chimera inutil! Espectro medonho da medonha existencia! Mulher! anjo! demonio! tudo emfim!...
«Porém, não!... renasça uma crença, ao menos! reviva a fé, em nossos corações! dissipem-se as negruras da vida, e surja a aurora boreal d'um futuro certo, e de uma verdade eterna!...
Nestes termos apaixonados fallava o venerando presbytero, Francisco de Castro, ao seu affectuoso amigo, Alberto de Carvalhal, quando um raio furtivo do sol, penetrando de soslaio por entre a coma dos pinheiraes, que se erguiam altivos lá no cume das montanhas, os veio despertar do inebriante gozo e suavissimo prazer, em que, desde longas horas, se haviam esquecido dois amigos desditosos, profundamente adormecidos nos braços d'uma saudade infinda.
O pescador deixara a choupana, que lhe era consolação extrema nas horas de afflictivos transes e doloroso penar, para ir estender a rede na praia mais proxima!
Ao longe ouvia-se a voz rouquenha e estridula do gondoleiro, accordando aos echos da sua alma o doce nome da amante ditosa, que, em terra, por elle velava, dia e noite.
O astro do dia, erguendo-se phantasticamente das salsas, escumosas ondas em que parecera mergulhado, havia desfeito as obscuras brumas, que lhe empanavam o brilho, espargindo sua luz etherea pelo espaço infinito.
Tudo rejuvenescia, ao seu halito bemfazejo!
A planta, modesta e grata, elevava para o céu a corolla de feiticeiro encanto, gottejando compassadamente a ambrosia celeste de suas elegantes petalas, matizadas d'ouro e prata.
Rejubilava o passarinho no ramo frondente, pipitando a medo um eterno canto de amor e saudade.
A abelha, com a cabeça esmaltada de pedras e diamantes, as azas variegadas como o iris, encetava sua laboriosa tarefa, sorvendo diligentemente o succo da nectaria, que junto lhe acenava.
Neste comenos, Francisco de Castro enlaçou seu braço direito pelo corpo do idolatrado amigo, convidando-o fraternalmente a retirar-se para casa.
--Vamos, meu bom amigo,--dizia elle,--recolhamo-nos ao meu humilde presbyterio, e lá lhe contarei então, mais desafogadamente, os lances da minha existencia, se a tibieza do meu espirito tanto m'o permittir, e, antes d'isso, não afrouxar.
II
Francisco de Castro era natural de Aveiro. Filho de paes indigentes, e de baixa condição, a sua juventude deslisara, naturalmente, por entre o vegetar monótono d'aquella cidade, sem outro incentivo que não fosse a salutar influencia de algum parente mais proximo, ou o conselho leal e franco de algum amigo intimo.
Chegado, porém, que foi á edade da razão, os seus sentimentos abriram-se-lhe em sensações suaves n'um porvir radiante, e despertaram n'elle um prurido irresistivel de ir em cata de melhores horisontes por esse mundo além.
Com este intuito, pois, deixou o nosso provinciano a terra da infancia, antecipadamente recommendado, e sobejamente abonado por um commendador, seu padrinho, com destino para os portos do Brasil.
Que saudades se lhe não avivaram na mente, ao ver-se longe da patria e dos seus! que pavor não affrontou com o rugir da procella, e horrores do naufragio no alto mar! elle, que jámais havia ultrapassado os estreitos limites da sua terra natal! mas tambem, com que deleite, com que profunda emoção, não mirava elle, por noites calmosas, o manto do firmamento azul, magestosamente recamado de estrellas, que se lhe desenhavam por cima da sua fronte! e o sereno marulhar das vagas, quebrando-se de mansinho no dorso da fragil embarcação! e aquelle continuo acastellar de nuvens, debuxando tão ridentes e phantasticas figuras por sobre a vastidão dos mares!...
Como elle sonhava, então!... Como se deixava arrastar tão docemente pelos mundos ethereos de ignota phantasia, julgando ter já encontrado o almejado thesouro que ao longe lhe sorria! regressando rico e feliz ao solo natalicio, e vendo já os seus, agrupados em torno de si, beijando-o alegremente! E, comtudo, como foi diversa a realidade!...
Francisco de Castro desembarcára no Rio de Janeiro a 30 de março de 1849. Procurando saber immediatamente onde era a rua Direita, ahi se dirigiu, sem mais delonga, aos srs. Costa Pereira & C.^a, ricos proprietarios d'uma casa commercial, e correspondentes de seu padrinho n'aquella cidade.
Tanto que foram entregues as cartas, que devidamente o recommendavam, appareceu um caixeiro convidando-o a entrar, e, apertando-lhe fraternalmente a mão, como signal evidente de futura e benevola camaradagem.
D'aqui foi o nosso provinciano levado á presença d'um dos donos do estabelecimento, que o interrogou minuciosamente ácerca da sua vida passada, animando-o amigavelmente a entrar no escabroso labutar d'aquelle labyrintho commercial, e acolhendo-o para logo em sua casa, consoante a praxe de ha muito estabelecida n'aquelle paiz.
Eis aqui, pois, como Francisco de Castro se iniciou na vida activa do commercio, desejoso, sem duvida, de trabalhar, quanto o comportassem as suas forças, e esforçando-se o mais possivel por grangear, dentro de pouco, os meios de subsistencia necessarios para prover decentemente ás necessidades de sua familia, que tanto o havia mister.
A fortuna foi-lhe, porém, adversa. Cahiu, quando menos o julgava, e cahiu, para nunca mais se levantar.
Repugnava lhe á sua indole, em extremo ardente, o vêr-se um dia inteiro acorrentado a um balcão, não mirando a outro horisonte, que não fosse o sediço positivismo do--_Deve_--e _Ha de haver_.
Cançado já d'aquelle pandemonio tumultuoso de gelo e de cifras, intentava uma ou outra vez espairecer os olhos lassos de fadiga e semsaboria, levantando um olhar modesto e casto para uma casa fronteira, em cuja janella voejava brandamente uma andorinha gentil.
Foi isto mais que sufficiente para elle ser despedido, ao cabo de alguns mezes, da residencia, onde tão familiarmente havia sido acolhido, logo após a sua chegada.
Assim vagueou incerto, por alguns mezes, bemquisto por uns, odiado por outros, sustentando, a cada passo, uma lucta ingente e dolorosa comsigo proprio; e regressando, mais tarde, á patria com o vivo remorso de nada haver contribuido para o bem estar de seus paes, e de ter ido, além d'isso, semear a desordem e a confusão no seio d'uma familia extranha.
Por isso, mingoado de recursos, apenas chegou a Portugal, Francisco de Castro, não contando mais de trinta annos de edade, resolveu-se a tomar ordens, expiando, com o sacrificio de seus derradeiros dias, uma mocidade, no parecer de muitos, estouvada e febril, que jámais podera olvidar.
Estava elle, um dia, meditando deliciosamente, á sombra de annoso cedro, recolhendo, na sua debilitada imaginação, as sombras longinquas d'esta tragedia estupenda, que se passa entre Deus, o homem e o universo, quando um desconhecido, eventualmente, se acercou d'aquelles sitios!
Era Alberto de Carvalhal!
Movido pela profunda tristeza, que subitamente accommettera Francisco de Castro, e pela curiosidade irrequieta de querer sondar os arcanos d'aquella alma formosa, que bem se deixava entrever na sua fronte generosa e ampla, e n'aquelle seu vulto insinuante e nobre, já curvado ao peso d'uma paixão prematura, e d'um destino atroz, que lhe seccára a seiva da vida, e lhe emmurchecera as flores mais ridentes da sua primavera; Alberto aproximou-se do logar, onde o presbytero se sentára, e prorompeu nos termos seguintes:
--Não sei se, da minha parte, haveria indiscrição, em vir quebrar-lhe este momento de goso ineffavel e placida meditação, accordando-o á triste realidade da vida?! Confio, porém, no perdão da sua generosidade.
--Bem pelo contrario, meu caro. Um amigo é sempre bemvindo, e, se uma ou outra vez nos apraz a solidão, é certo que a sua continuação nos causaria insupportavel tedio. Precisamos d'uma urna depositaria dos nossos segredos; do mesmo modo que a planta carece do orvalho para vicejar e crescer. Sente-se aqui ao meu lado, e assista comigo ao mais pavoroso de todos os espectaculos que só a natureza nos sabe prodigalisar, e que a maioria dos homens, no meio de seu estupido orgulho, olham indifferentes.
Travada, assim, a intimidade entre estes dois corações, que á primeira vista pareciam entender-se bem; facil lhe foi, a Alberto de Carvalhal, que Francisco de Castro lhe narrasse circumstanciadamente os tristes episodios de alguns dos seus dias passados.
Com este alvitre pois, enlaçados pela mutua sympathia, aquelles dois amigos encaminharam-se para casa, onde, depois de terem almoçado jubilosamente, Francisco de Castro, coadjuvado pelo attencioso ardor do seu companheiro, encetou o drama da sua vida com as palavras, que vão ler-se no seguinte capitulo.
III
«Foi por uma tarde serena de abril. Eu, criança ainda, dos meus 13 annos, divagava, triste e solitario pela margem graciosa do meu limpido Vouga, contemplando aquelle espectaculo de mystico enlevo, aquella hora de profundos arrôbos e de gostosa melancholia, em que o Creador mais parece fallar directamente ao coração do homem,--quando, inopinadamente, me pareceu ouvir, a poucos passos do logar onde me encontrara, o estalido rapido e secco d'um instrumento metallico. Em poucos minutos galguei um comoro, que me separava d'aquelle sitio desastroso, encontrando-me face a face com dois personagens, que, muito intencionalmente, tinham escolhido o silencio d'aquella hora para ali virem bater-se n'um duello de morte. Quiz dissuadil-os de similhante proposito: nada consegui.
«Travou-se uma lucta feroz, e, dentro de pouco tempo, um dos adversarios jazia por terra, coberto de pó, e revolvendo-se cruelmente no sangue de suas proprias feridas. Ainda experimentei, uma e muitas vezes, levantar o moribundo, e conduzil-o á primeira guarida, que se me deparasse opportunamente. Tudo foi baldado, porém.
«O outro adversario, apenas viu o contendor prostrado, e sem forças, abandonou o campo, e fugiu. Que fazer, em tal conjunctura? Eu, só, ali, sem uma pessoa unica, que podesse velar por elle. nem sequer uma gotta d'agua para o refrigerar momentaneamente!!
«Felizmente, meia hora não era passada, quando, ao clamor da minha voz, accorreu áquelle logar um trabalhador, que, casualmente, se recolhia a casa. Em poucas palavras, contei-lhe o succedido, convidando-o a que velasse pelo ferido, emquanto eu, açodado, correria á cidade a dar parte do acontecido.
«E assim foi com effeito. Dei-me pressa em correr á visinha povoação. Em vinte minutos estava de volta com dois valentes companheiros para logo o conduzirmos a um logar seguro, como a urgencia do caso nol-o ordenava.
«Sem saber, porém, o nome do individuo, nem tão pouco a sua procedencia, julguei prudente entregal-o ao cuidado d'um desgraçado, mas honrado agricultor, que, de bom grado, o acolheu no seio de sua familia, dispensando-lhe todo o desvelo e sollicitude, que sóe sempre encontrar-se no tugurio do pobre.
«O ferimento não fôra mortal. O cirurgião assistente, apenas decorrido o primeiro mez, para logo o declarara livre de perigo, concedendo-lhe egualmente a liberdade de dar alguns passeios pelos campos e devezas mais proximas, com o intuito de tornar mais rapida a sua convalescença.
«Pouco tempo depois, instaurou-se um processo para proceder a uma averiguação rigorosa sobre aquelle facto lamentavel. No dia aprazado para esse fim fui obrigado a comparecer na audiencia, como testemunha ocular, que, infelizmente, houvera sido.
«E fui pontual, n'esse dia, apparecendo, sem difficuldade no tribunal, onde pouco depois teria de julgar-se um crime de ha muito reprovado pela moral, e pelo direito. Estava impolluta a minha consciencia, não me arguindo de cousa alguma, a não ser o ter eu envidado todos os meus esforços, posto que inuteis, para salvar um desgraçado.
«Por isso, quando me chegou a vez de fallar, contei singela e lealmente o que me fôra licito vêr e presenciar. O juiz figurára-se-me satisfeito com o meu depoimento. A minha má sina, porém, já então me começava a perseguir.
«Após alguns momentos de silencio, e geral expectação, o réu começou a narrar circumstanciadamente tudo o que lhe houvera succedido; vindo eu, finalmente, ao conhecimento de que elle era um mancebo natural de Lisboa, descendente de preclara stirpe, a quem uma paixão violenta, e uma rivalidade sem limites haviam arruinado physica e moralmente.
«Estavam as cousas neste ponto, quando seus olhos, por acaso, se fixaram na minha humilde pessoa. Parecera-me encontrar n'aquelle olhar o quer que era de satanico e sinistro, que me horrorisou até á medulla dos ossos. E, de feito, não me illudi.
«Alguns instantes depois, aquelle individuo, para quem eu fôra o anjo custodio n'um momento de suprema desventura, apontava-me ao publico como um dos principaes cumplices n'aquelle crime; e asseverando até abertamente ter sido o meu desejo immediato o assassinal-o para lhe roubar o pouco que comsigo trouxera, se, por ventura, um transeunte não tivesse ido em seu auxilio, arrancando-o ás minhas mãos.
«D'esta vez a minha indignação tocou o seu zenith. Os olhos chispavam-me fogo; o coração, afogueado em cholera, batia-me apressado e violento. Quiz fallar, mas não pude. A voz prendera-se-me na garganta. Alcei os olhos para o céu, e caí, subitamente accommettido por dolorosa syncope. O que depois d'isto se passou, nem eu o sei, meu amigo.
«Quando, no dia immediato, descerrei as palpebras amortecidas ao astro do dia, encontrei-me isolado, n'uma alcova escura e humida, com uma estreita gelosia apenas, no vão da parede, por onde se coava, a custo, um tenue raio de luz.
«Por informações colhidas posteriormente, concluí ser aquelle o carcere, que, logo após o julgamento, me fôra predestinado para justa expiação do meu delicto. Appellei para a acção da divina Providencia, e soffri resignado o peso da minha cruz.
«Lembrei-me, então, de minha pobre e santa mãe, ralada de desgosto, de meu excellente pae, de meus pequeninos e innocentes irmãos, emfim, de tudo o que me era caro neste mundo, e chorei... chorei... muito...
Neste ponto, o venerando apostolo de Christo, não pôde, por mais tempo, suffocar a sinceridade de seu coração. Levantou-se do escabello, em que se havia sentado, com dois fios de grossas lagrimas a deslisarem-lhe brandamente pelas faces macillentas; e, de subito, alçou a adufa da janella, como se pêso enorme lhe affrontasse a vista. Alberto acompanhou-o n'aquelle movimento convulsivo, auxiliando-o de boa mente a volver as negras paginas do livro fatal da sua vida. Depois, sentaram-se novamente, e Francisco de Castro, fortificado pelas ternas consolações d'um amigo sincero e bom, continuou, mais alentado, a sua historia até ali encetada.
IV