Miniaturas Romanticas

Part 1

Chapter 1 3,761 words Public domain Markdown

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MAGALHÃES LIMA

* * * * *

*MINIATURAS ROMANTICAS*

Martyrio d'um Anjo.--Amour et Champagne.--Um drama intimo.--A Fatalidade e o destino.--Cambiantes da comedia humana.--Estrellas e Nuvens--Á Beira-Mar.--Um dia de noivado.

COIMBRA Imprensa da Universidade 1871

MINIATURAS ROMANTICAS

*MINIATURAS ROMANTICAS*

POR

MAGALHÃES LIMA

Ce livre............................ Tremble et palpite abrité sous vos pieds.

VICTOR HUGO.

COIMBRA

Imprensa da Universidade

1871

A

MEU PAE

DUAS PALAVRAS

*Miniaturas romanticas*--é um livrinho modesto e despretencioso. O seu auctor não aspira aos louros d'uma gloria certa e immorredoura. Tem desejos; estuda para isso; e tanto lhe basta.

_O auctor._

*MARTYRIO D'UM ANJO*

MARTYRIO D'UM ANJO

Despontara risonho o dia 23 de maio de 1856. Era profundo o anil do céu. Nem uma nuvem sequer toldava o puro azul do firmamento, nem um sôpro de desgosto vinha embaciar o prisma da felicidade humana.

Tudo era bulicio, vida, amor!...

A natureza, revestida das magnificentes pompas da primavera, desentranhava-se em flores e fructos, revelando mais e mais a grandeza e omnipotencia do Creador, que avulta tanto no mais humilde insecto, como no mais esplendido organismo.

Folgava a toutinegra no raminho frondente, dizendo-se ternos amores com o emplumado rouxinol, cujo canto mavioso repercutia em echos longinquos o idyllio melancolico da creação.

Impellida doudejava a mariposa de flor em flor, e a brisa, tepida, ciciava de mansinho ao perpassar por sobre a solitaria florinha.

Em delirantes extasis, suspirava a pudibunda donzella, sorvendo grata a vida num casto e puro anceio.

O amante, sem desfitar os olhos da fugitiva lympha, mudo contemplava, gentil, o retrato da sua amada.

E ao pobre faminto, para quem a ventura fôra meteóro fugaz, no horisonte medonho da humana desdita, sorriu a furto um raio de esperança no seu espirito angustiado por cruciante dôr.

Sublime era o quadro, beatifica a visão!

E qual seria o ente, cuja alma fosse aleitada por uma centelha divina, que não sentisse arrobar-se-lhe a existencia ao contemplar tão sublime maravilha, tão rara formosura!!...

Que Raphael seria capaz de reproduzir na tela esta estrophe melodiosa e suavissima do Senhor, a que os homens deram o nome de--primavera!!...

* * * * *

Mollemente reclinada em flacida alfombra, Leonor, parecera, comtudo, indifferente ás doçuras d'este panorama, e ao brilho da sua divina poesia. Em que scismava aquelle anjo de pudor?... Que fatal magnetismo a arrastara ali?

Ninguem o poderá dizer. Ao certo só sabemos que a sua alma, cheia de sublime poesia, procurara instinctivamente aquella solidão, como que agrilhoada pela necessidade innata de fugir ao mundo e aos seus encantos.

Leonor chegara do Brasil havia poucos mezes. Cecilia, sua mãe, vendo-se viuva, com este unico thesouro das suas entranhas, para logo tractara de alugar casa em Bemfica, não só por ser esse o logar da sua naturalidade, senão tambem pelo desejo de satisfazer ás reiteradas instancias de sua filha, que desde muito aborrecia a cidade. Ali viviam aquelles dois anjos uma vida beatifica, alentados pela mutua esperança, e identificados pelos poderosos laços do amor.

Leonor, no dia em que a encontrámos, completara vinte annos: tinha, portanto, attingido essa idade sublime e mysteriosa, mórmente para a mulher, que, elegiaca por condição, sente o vacuo da sua existencia, arrojando-se loucamente ás ondas do amor, talvez, pela natural fragilidade da sua natureza.

Quem sabe, se n'isto divagaria a nossa poetiza, no momento em que a encontrámos no seu pittoresco jardim?

Uns vislumbres de saudade, de tristeza e melancolia animavam seu rosto naturalmente pallido.--Aquelles olhos pretos e rasgados, enturvecidos por uma nevoa de languidez, provavam bem quantos e quão perigosos seriam os pensamentos que se lhe agitavam na mente.

Sua mãe viera pé ante pé, curiosa, sem duvida, por penetrar no recondito d'aquelle coração. Leonor presentiu-a, e sorriu-se. Cecilia pousou seus castos labios na angelica fronte da filha, e nella depositou, com maternal carinho, o nectar que dimanava de seu extremoso peito. Depois, tomando entre as suas as mãos d'aquella pomba, disse:

--Então que tens tu, minha querida filha? Tão triste e solitaria no dia de teus annos! Ora anda: falla francamente a tua mãe.

--Oh! minha querida mãe, quanto lhe sou devedora! Como havia de eu estar triste, tendo-a aqui ao meu lado? Não vê que sou tão sua amiguinha, e como já estou tão alegre?

--Por quem és, Leonor, nada me queiras occultar. Poupa-me a um sacrificio doloroso, dispensando-me a sinceridade que mereço. Comprehendo a tua dôr, como se minha já fosse. Tu amas, bem o sei. Tenho presenciado tudo. Nada me é extranho.

Leonor córou de involuntario receio, ao ouvir as ternas expressões de sua mãe, e por alguns minutos permaneceu em scismador enleio, como que subitamente preoccupada por estranho pensamento. Recobrando, porém, a serenidade, que momentaneamente houvera perdido, prorompeu nos termos seguintes:

--É verdade, minha mãe, nada lhe desejo nem posso occultar. Eu amo meu primo Mauricio. Amo-o com toda a pureza da minha alma, e em todo o fervor da minha existencia. Uma circumstancia poderosa veio, comtudo, cavar um abysmo entre nós, e forçar-me á dura collisão, em que, máu grado meu, me tenho conservado. Foi esse o motivo por que ha mais tempo lh'o não declarei, intimamente convencida de que a minha bondosa mãe perdoaria mais uma vez esta falta á sua filhinha, que tanta felicidade lhe deseja.

--Julgas, talvez, que te culpo por isso; antes, pelo contrario, não podia achar mais acertada a tua escolha. Mauricio é um rapaz serio, capaz de te retribuir o teu affecto, e de desempenhar no futuro a missão d'um marido exemplar.

--Sem duvida, tambem assim o creio. Mas não lhe tenho já declarado por vezes que só me unirei eternamente a um homem de muita instrucção e de grande saber?

--Isso é uma fraqueza da tua parte, que se virá a dissipar com o tempo; sendo que muitas vezes os homens mais celebres são exactamente aquelles que menos se coadunam com a indole do viver domestico. Além d'isso, teu primo tem o desinvolvimento sufficiente para te saber estimar; e eu morreria tranquilla se um dia tivesse a dita de te ver enlaçada pelo affecto áquelle que já posso appellidar--meu segundo filho.

--Oxalá assim succeda, replicou Leonor, com um disfarce feliz. O futuro só a Deus pertence. Amar a mediocridade, isso só pode ser o apanagio das mulheres vulgares. Por hoje não fallemos mais n'isso. Vamos antes esperar as pessoas da nossa intimidade, que decerto não perderão esta noite, para nos prestarem agradavel companhia.

Dirigiram-se depois para casa, e assim correu o resto da tarde sem maior incidente.

Ás nove horas da noite já se cruzavam nas salas algumas familias, que expressamente tinham vindo festejar o anniversario natalicio de Leonor, com brindes de toda a especie. Esta não sabia como agradecer tantos e tão prolongados obsequios, que a cada passo lhe prodigalisavam os convivas recemchegados. No entretanto todos se retiravam sobejamente remunerados, com o galardão do seu peregrino talento e natural candura.

Mauricio, como era de esperar, abrilhantou esta festa com a sua presença. Logo, porém, notou em sua prima um ardente desejo de o evitar. Na primeira quadrilha viu em Leonor hesitação, e que só forçada condescendencia a obrigava a dançar com elle.

Não sabendo a que attribuir tão rapida transformação, recorreu a sua tia. Cecilia, que a principio vacillara em relatar o acontecido a seu sobrinho, não pôde de modo algum abafar o grito imperioso do seu coração, patenteando-lhe tanto ao vivo o pensamento de sua filha, que Mauricio a custo reteve uma lagrima de saudade por aquella que já ha muito dourava o horisonte de sua existencia.

E quantas vezes um sorriso nos labios occulta uma grande dôr!...

Mauricio, como se nada com elle houvera passado, voltou á sala, e dançou até ver a reunião completamente terminada.

Seriam duas horas da noite. Despediu-se de sua tia, e sahiu. Mas, ai do malfortunado mancebo!...

Longe de se dirigir para casa, divagou triste e pensativo pelas ruas da capital até ao alvorecer do dia, sendo a cada passo assaltado por dolorosas recordações, que lhe dilaceravam as fibras do seu apaixonado coração.

No dia immediato Mauricio havia desapparecido de Lisboa!...

* * * * *

Deixemos agora esvoaçar quatro annos nas azas do passado, e voltemos a Bemfica.

Ali reconheceremos Leonor, proxima de sua mãe, trabalhando diligentemente. Aquella flor, que ha cinco annos se ostentava tão altiva e louçã, vêde-a, presentemente, como vai estiolando e fenecendo, e ai d'ella!... se o céu, na sua infinita misericordia, lhe não enviar o orvalho que lhe restitua o viço e frescor!

Estavamos, então, em maio de 1860, cujo mez fôra assignalado pela rapida ausencia de Mauricio. E n'isto fallava a virtuosa mãe a sua filha, enxugando de quando a quando uma lagrima, que espontanea lhe rolava pelas faces. Não era tanto o desapparecimento de seu sobrinho que a affligia, como ella julgar-se a principal causa d'esse fatal evento.

Leonor vivificava o pezar de sua pobre mãe com gostosas consolações, que, puras e castas, brotavam de seu virginal seio.

Seriam talvez cinco horas da tarde do dia 30 de maio, quando sentiram bater á porta. Sensação particular, por aquelle inesperado toque, fez estremecer mãe e filha. Mysterios ha na vida humana que se não explicam. Este era um d'elles.

A porta da sala abriu-se, e o criado annunciou uma visita, que não queria dar o nome, mas que muito desejaria fallar com a senhora.

Mandaram-na entrar.

Ora imagine o benevolo leitor qual não seria a profunda commoção, sentida simultaneamente por aquella familia, vendo junto de si o sobrinho que que ha muito julgava perdido.

Mauricio tinha chegado naquelle dia de Paris, onde, a grandes e penosos sacrificios, fôra buscar uma solida instrucção com o unico intuito de realisar a sua felicidade futura, unindo-se a sua prima pelos laços matrimoniaes. Cursava, então, o terceiro anno de engenharia, e viera passar as ferias a Lisboa.

Leonor, ao ouvir dos saudosos labios de seu primo a narração circumstanciada dos motivos, que o levaram a executar tão heroico projecto, sentiu augmentar-lhe gradualmente aquella paixão latente, que ha muito ardia em seu peito. Elle, attento ao benevolo acolhimento e fraternal regosijo, que então lhe dispensaram, não duvidou em declarar-se a sua candida prima, que o attendeu com meiguice e amor.

Rapido se passou o tempo de ferias. De dia para dia se iam identificando aquelles dois corações, que tinham nascido para muito se amarem. E, similhante a um grande rio, já não haveria dique capaz de lhe vedar o seu correr impetuoso.

O amor verdadeiro e puro é uma irradiação do sublime, e como tal uma aspiração constante para as regiões do absoluto.

Os esponsaes ficaram tractados, e por elles Mauricio voltaria dentro em dois annos formado, e sobejamente instruido para melhor poder satisfazer as nobres e santas aspirações de sua prima.

O leitor melhor poderá imaginar qual não seria a violenta agitação dos dois amantes ao dizerem-se o adeus da despedida. Um drama intimo, impossivel de descrever-se, e que só poderá ser bem apreciado por aquelle que, no decurso da sua vida, se encontrar algum dia em identicas circumstancias.

Porém o bom senso de Mauricio, e sobretudo a necessidade, que nelle fallava mais alto do que a voz de seu apaixonado coração, estimulou-o a prosseguir na vereda tão briosamente encetada, ainda através dos maiores obstaculos.

Partiu, levando a saudade gravada no intimo do peito, e a esperança a refulgir-lhe por entre as perspectivas d'um risonho porvir.

* * * * *

Ao entrar nesta parte da veridica narrativa, que intentamos esboçar, julgamos mais conveniente satisfazer a curiosidade da amavel leitora, transcrevendo para aqui fielmente a limitada correspondencia que se trocou entre Mauricio e sua prima.

É o que vamos fazer.

CARTA 1.^a

(De Mauricio a Leonor)

Paris, 1860.

«Nem eu sei como relatar-te a minha viagem. Feliz teria ella sido, por certo, se te tivesse visto sempre a meu lado. Mas... não digo bem... a tua terna imagem acompanhou-me sempre. Na onda, que preguiçosa ia beijar a fulva areia; na estrella, que á noite scintillava nos céus; no espaço, que infinito se me antolhava; por toda a parte, emfim, meu anjo, a tua melancolica figura vinha sempre afagar a minha tetrica existencia, e contornar uns doces effluvios de amor no meu angustiado espirito.

Oh!... e quem me dera poder hoje abraçar-te, e depois n'um extasi delirante, dizer-te:--Leonor, benefica luz dos meus olhos; amo-te, adoro-te, sou teu. Mas um dia virá em que te poderei dizer desafogadamente:--agora, por toda a vida, meu amor, jámais me verás longe de ti!

Louco, que eu sou, na verdade! Insensato!... a dispôr do futuro, como se meu já fora. Embora! Deus é bom! Não sejamos incredulos! Elle, que na sua infinita bondade não esquece o desgraçado agonisante no leito da dôr, por certo não consentirá que uma negra nuvem venha toldar o puro azul do nosso céu.

Leonor, por quem és, envia-me o balsamo para as saudades que me opprimem o coração.--_Mauricio._

CARTA 2.^a

(Resposta de Leonor)

Bemfica, 1860.

«A tua carta veio encontrar-me agonisando nas vascas d'uma paixão febricitante.

Um dia sorriu-me o oasis mimoso no deserto da vida, acerquei-me d'elle extenuada de fadiga, e com o meu pobre coração dilacerado por uma lucta gigante, que me fôra impossivel evitar. Julgava ser aquelle o alento para proseguir na minha espinhosa tarefa!... Illusão!... Sinto-me fraca, e não sei se terei forças para resistir ás agitações febris que hoje me dominam.

Pede a Deus, meu bom amigo, me prolongue os dias da existencia, para poder abraçar-te mais uma vez ao menos, e morrer depois com a consolação derradeira do moribundo, que vê junto do seu leito o vulto venerando do presbytero, amenisando-lhe a algidez do sepulchro com a uncção da sua divina prece.

Lembra-te sempre da tua amiga, que, ao longe, vela por ti dia e noite.--_Leonor._»

CARTA 3.^a

(De Mauricio a Leonor)

Paris, 1860.

«Não sei como communicar-te o temor violento, que se apoderou da minha debilitada existencia ao ler e reler a tua carta. Aquellas linhas, dictadas pela fatalidade poderosa do amor, e escriptas por tua angelica mão, que tantas vezes beijei com o anceio de largas esperanças no futuro, compungiram-me profundamente.

Justamente, quando o meu espirito allucinado procurava o calix da ventura para docemente o libar, veiu a desdita sentar-se ao lado, e involver-me no luto de medonha desesperança.

Meu Deus! meu Deus! Quanto a vida é cruel, sem uma esperança fagueira que nos alimente os sonhos radiosos do porvir! Quão duro é de tragar o absintho d'esta existencia ephemera!

Porque será que o espirito do homem é tão possante librando-se nos vôos d'uma phantasia ardente; e cahe depois prostrado pela vertigem das paixões no mais temeroso de todos os precipicios?

Insondaveis são os arcanos do Creador!

A esperança vivifica; o amor martyrisa!

Podesse ao menos o holocausto do meu doloroso soffrer resgatar os dias sanctificados de Leonor, e eu satisfeito deporia a minha cruz, orvalhada pelas lagrimas de eterna saudade.

A ventura é um anceio febril em espiritos privilegiados. Mas a ventura é uma vaidade, uma chimera, entrecortada, apenas, pelas alternativas radiantes de melhores horisontes!

Feliz o homem que tem fé; porque a fé, para almas bem formadas, é a agua redemptora do seu baptismo.

Porém o homem, que sente o gêlo da descrença no seu coração; o homem, que não pode evitar a peçonha corrosiva do cynismo e da perversidade; esse homem é um desgraçado, um miseravel, como muitos, que a sociedade escolhe para instrumento da sua implacavel vingança, e opprobrio da humanidade!!

E quem me permitte ajuizar da minha virtude?...

Só Deus o sabe, meu anjo, quanto é leal e verdadeiro o pranto acerbo, que derramei ao saber da tua sentida doença.

Possa, emfim, o Senhor ouvir a sinceridade da minha supplica, e fazer descer sobre ti o anjo da felicidade e do amor.--_Mauricio._»

CARTA ULTIMA

(De Leonor a Mauricio)

Bemfica, 1860.

«Apezar da expressa prohibição dos medicos de me evitarem tudo o que possa prejudicar o meu estado melindroso de saude: não pude, ainda assim, furtar-me a um desejo imperioso de me associar ao teu pezar, mitigando-o, no caminho espinhoso do meu Golgotha.

É uma expiação, que a mim propria imponho, sem outro galardão, que não seja a retribuição do teu entranhado affecto.

As lagrimas têm um condão mysterioso. Adoçam a adversidade terrestre, com a consolação extrema d'um futuro incerto. Assim eu podesse encontrar n'ellas o topico provavel para a medonha enfermidade moral que hoje me devora.

Tudo creio impossivel.

Só a tua presença me poderia ser, talvez, refrigerio momentaneo para o meu aturado martyrio, e doloroso esquecimento.

Regressa, portanto, á patria, meu bom amigo. Vem engrinaldar a fronte da esposa com as flores amarellecidas do sepulchro, e prestar um derradeiro tributo áquella que te amou na terra com o fervor da virgem e pureza dos anjos.

Só Deus poderá abençoar o nosso amor!...

Não posso mais,... Mauricio... Sinto-me desfallecer sensivelmente.

Adeus... adeus, e talvez... para sempre.--_Leonor._»

Inutil se tornaria aqui dizer, que Mauricio obedeceu peremptoriamente ás ordens de sua saudosa noiva, tomando bilhete para o primeiro vapor com escala por Lisboa.

Fôra, porém, intempestiva a sua viagem.

Quando chegou a Bemfica, encontrou a nudez e a solidão enthronisadas no solio, onde deveria ter existido o jubilo e a gloria de dois amantes ditosos.

Leonor havia desapparecido para sempre d'este mundo!...

O anjo da morte, extendendo suas negras azas sobre aquelle coração de pomba, arrebatou-o para sempre á humanidade.

Eclipsou-se no céu uma estrella, e da terra voou um anjo á mansão dos justos!

Mauricio libou até ás fezes o calix do infortunio.

Aquelle amigo verdadeiro e fiel; aquella intelligencia robustecida á luz da profunda meditação; aquelle coração de poeta; aquella imagem continuamente açoutada pelo tumultuar de sentimentos encontrados, onde meigamente vinha transparecer a morbidez e o desalento d'uma paixão precoce,--nunca mais transpoz o limiar da casa de Bemfica, que outr'ora pisava, sentindo a vida a rejuvenecer-lhe a cada passo.

Ainda houve quem o visse, um mez depois, com as faces pallidas, os olhos cadavericos e um semblante sepulchral.

Não era passado muito tempo, quando Cecilia recebeu uma carta de seu sobrinho, concebida nos seguintes termos:

--Minha excellente tia.--Ao deixal-a em contristante e dolorosa desolação, tendo-se associado á dôr e orphandade do espirito, como unicas companheiras, que lhe restavam no areal sombrio da vida, era mais do que dever d'um filho allivial-a, quanto em si coubesse, dos transes medonhos e caprichos da sorte, por que acaba de passar o seu bondoso coração.

Porém, minha tia, se neste mundo pode haver perdão para um desgraçado, conceda-lh'o.

Já a meus pés se abre o abysmo incommensuravel do cynismo e da descrença, que dentro em pouco me ha de absorver.

Haverá muito quem me censure, chamando-me--louco!

Louco!... porque não soube abafar a palpitação febril d'um sentimento elevado e nobre!

Louco!... porque não tive a resignação, para oppôr ao marulhar tremendo das vagas da desventura!

Louco!... porque cri na sanctidade do amor; ajoelhei perante um archanjo celeste, e senti o fogo da inspiração a enroscar-se-me voluptuosamente pelos membros!

Louco, emfim, porque soube desprezar a imbecillidade dos homens pelo gozo ineffavel d'uma ventura celeste!

O suicidio é a suprema aspiração d'uma imaginação sublimemente grandiosa, que, não podendo suster o vôo audacioso a que se arrojara, se despenha fatalmente no oceano do nada.

E a resignação o que é?...

A immobilidade physica e moral, uma profunda negação do ser humano, e uma violação flagrante dos verdadeiros sentimentos.

O homem, que vê o seu nome malbaratado, a sua honra vilipendiada; sem ter uma mão caritativa, que lhe sirva de luz por entre as fragas estereis da vida; sem mesmo um refrigerio para as chagas do seu pobre coração; sem uma esperança, ao menos, que lhe acalente os sonhos radiosos do existir durante o correr tempestuoso, que vai do berço á sepultura: esse homem, digo, descrê da Providencia; torna-se cynico; e vai buscar na ponta d'um punhal aquillo que não pôde encontrar no meio d'essa sociedade estulta e devassa.

E, ainda haverá quem condemne o suicidio?!...

Condemna-o, sim, a mediocridade, porque o não comprehende; porque lhe é mesmo impossivel conceber a lucta gigante que se trava a cada passo nos espiritos altaneiros entre a razão e a vontade,--duas faculdades de que depende toda a nossa vida e bem-estar terrestre.

Por isso, minha bondosa mãe, e deixe-me chamar-lhe assim nos ultimos instantes do meu passamento neste mundo, abençôe pela derradeira vez o seu desgraçado filho, que sem saudade abandona este theatro maldito, para ir tributar perante o throno do Altissimo o sanctuario das puras affeições e leal obediencia.

Adeus, minha desvelada mãe, e adeus para sempre. Não descreia do seu filho, e lembre-se que só no céu se poderá encontrar a remuneração condigna ás virtudes mundanas.--_Mauricio._

Cecilia ficou como que petrificada, ao receber o golpe inesperado, que lhe causara a carta de Mauricio. Desvairada pelo infortunio, assaltada por uma visão sinistra e cruel, aquella extremosa mãe vendeu a sua casa em Bemfica, que lhe era recordar amargo d'uma felicidade radiante e fallaz, e recolheu-se a um convento, onde vive ainda hoje, acompanhada pela resignação, e alimentada pela virtude esperançosa de que um dia se irá reunir no seio do Creador áquelles dois martyres bemaventurados, a quem o vulcão das paixões sorveu para sempre na sua cratera de fogo.

*AMOUR ET CHAMPAGNE*

AMOUR ET CHAMPAGNE

_Vive l'amour! Vive le champagne!..._

O amor é o nosso heróe, mas um heróe _comme il faut_; o champagne o seu condigno satellite.

A scena passa-se n'um baile, se bem me recordo.

O protogonista da acção é um mancebo de vinte annos, pouco mais ou menos; alto, magro, de cabello e bigode alourado, testa rasgada e ampla, olhos pequeninos e vivos, e com todos os signaes visiveis d'uma imaginação eminentemente fogosa, mas, em parte, já obscurecida pelo contínuo perpassar de medonhas orgias e pelo roçar de perigosas paixões.

Agora, com estes preludios, leitor amigo, acompanhemos o nosso personagem, e perscrutemos, sem escrupulo, alguns episodios da sua tragica vida.

Silencio, pois!

Eil-o ali, áquelle cantinho! Lá caminha passo lento e medido! Os sons da orchestra attráem-n'o irresistivelmente ao salão! Aquelle esplendor, aquella voluptuosidade oriental, que se respira n'aquelle recinto ideal e angelico, despertam em sua alma febril o enlevo de mais venturosos dias, evocando á sua phantasia amortecida esses phantasmas crueis e fagueiros, que outr'ora lhe alimentavam os doces sonhos do porvir.

Alvaro, dirigido para ali automaticamente, foi sentar-se na primeira cadeira, que, ao acaso, encontrou.

A dança tornara-se delirante, e a sua alma, já de muito saturada com a triste realidade do mundo, palpitava-lhe no seio com a violencia de prolongadas e suaves sensações.

Senão quando, o som desconhecido d'uma voz argentina e doce lhe attraíu a attenção desvairada por longinquas paragens.

Despertou do lethargo, o nosso galan. Acercou-se d'aquelle vulto gracioso e nobre, e, convidando-o a dançar, entrou n'uma quadrilha.