Memorias Sobre A Influencia Dos Descobrimentos Portuguezes No C

Chapter 6

Chapter 61,603 wordsPublic domain

O _Cabo Formoso_ do _Roteiro_ de Castilho não póde ser o _Cabo Formoso_ do Esmeraldo. De feito o primeiro, a _Ponta Timbo_ de algumas cartas (_Rot._ p. 276), fica ao norte do _Rio dos Cestos_; em quanto que o do _Esmeraldo_ demora muito ao sul, a 7 leguas da _Ilha da Palma_, e ainda ao sul dos _Ilhéos_. Deve corresponder á _Ponta de Baffa_ ou á _Ponta Tassou_ (_Rot._ p. 282). Não ha erro da parte de Duarte Pacheco em o collocar n'esta situação, pois temos uma prova de que segue a nomenclatura usada no seu tempo. Na carta de João Freire, de 1546, vem do mesmo modo _Ilha da Palma_, _Ilhéo Cayado_ (é um dos ilhéos citados no Esmeraldo, e ahi se diz, que eram muito brancos, d'onde lhe veiu o nome) e depois _Cabo Formoso_, por tanto na mesma successão que adopta o nosso auctor.

Segue-se o _Resgate do Genovez_, assim chamado porque um marinheiro genovez foi o primeiro que ahi resgatou malagueta, deverá collocar-se nas proximidades de _Battoa Grande_ (_Rot_. p. 284).

O _Rio de S. Vicente_ é talvez o _Rio do Sino_ (_Rot._ pag. 285): em quanto á _Praia dos Escravos_, que tinha, no dizer de Pacheco, duas leguas de extensão, é sem duvida a parte do littoral aonde vem desembocar os pequenos rios _Dru_, _dos Escravos_ e _Ferroowah_ (_Rot._ pag. 290 a 292).

A _Lagea_, rochedo separado da costa coisa de um quarto de legua, póde com alguma duvida, identificar-se com o _Carpenter rock_ ao mar da _Ponta de Setre_ (_Rot._, pag. 293).

Em quanto ao _Cabo de S. Clemente_, tambem não concorda a sua posição com a que vem no _Roteiro_: Castilho dá este nome á _Ponta de Battoa Grande_, sendo certo que o _Cabo de S. Clemente_ de Duarte Pacheco fica muito para o sul, e já proximo ao _Cabo das Palmas_. Deve, me parece, corresponder á _Ponta dos Bretons_ ou á de _Fish town_. (_Rot._ pag. 297). Na carta de Freire, que não vi, mas de que o visconde de Santarem transcreve os nomes por sua ordem (_Mem. sobre a prior._, etc., pag. 213) vem por estas alturas o _Cabo do Sacramento_; haverá erro de leitura e será _Cabo de S. Cremente_ com a orthographia então usada? N'este caso a nomenclatura de Freire estaria mais uma vez de accordo com a do _Esmeraldo_.

As latitudes ou «graos de ladeza» dadas por Duarte Pacheco não se afastam muito das que hoje se admittem. Sendo para notar que as citadas no texto differem ás vezes das que estão reunidas em uma taboada geral, o que sem duvida é devido a erros de copia. As que se referem á parte da costa que nos occupa são as seguintes:

No _Esmeraldo_ _Roteiro_ de Castilho Cabo do Monte 6° 40' 6° 44' Cabo Mesurado 6° 20' 6° 19' Rio dos Cestos 5° 30' 5° 26' Cabo das Palmas 4° 4° 22'

A divergencia maior no _Cabo das Palmas_, é devida sem duvida, a ter o copista omittido os minutos.

Estas aproximações foram feitas rapidamente e de modo algum as tenho por seguras, pois levantam não poucas difficuldades, cuja discussão saíria completamente do plano n'este trabalho.

[81] Com quanto todo este trabalho se prenda á questão tão disputada da prioridade do descobrimento da costa occidental da Africa, e particularmente d'esta costa da Malagueta pelos portuguezes, mui deliberadamente a não tenho querido tratar, porque, com prefeita sinceridade e desprendido de todo o falso patriotismo a julgo fóra de contestação. No entanto, não posso deixar de recordar que Villaud de Bellefond, diz do Rio dos Cestos, que fôra assim chamado pelos portuguezes: «_a cause d'une espèce de poivre qui y croit, quils appellent sextos:_» e em outra parte, fallando dos negros da Costa, diz: _le peu de langage qu'on peut entendre est français. Ils n'appellent pas ce poivre sextos a la portugaise, ni grain a la hollandaise, mais malaguette._» É difficil accumular tantos e tão palmares erros em tão poucas palavras! Pena é que estas ridiculas asserções fossem admittidas por escriptores serios e de boa nota.

[82] Veja-se a p. 25.

[83] Taes foram as viagens feitas pelos hespanhoes no anno de 1475, de que falla D. Diogo Ortiz de Zuniga (_Annales ecl. y sec. de Sevilla_, p. 373. Madrid, 1677); e outras levadas a cabo, ou projectadas, no anno de 1478, a que se refere um documento citado por Navarrete (_Coll._ t. II, pag. 386). Mas logo no anno seguinte de 1479, feitas as pazes com Hespanha, se reconheceram os direitos de Portugal ao exclusivo do commercio de Guiné. Veja-se tambem em Garcia de Rezende (_Chron. d'elrey D. João III_, cap. XXXIII e cap. LXXIII) a relação das duas embaixadas enviadas a Inglaterra em resultado dos preparativos, feitos por João Tintam e Guilherme Fabiam, por ordem do duque de Medina Sidonia, para passar a Guiné, no anno de 1481; e annos depois, no de 1484, em virtude de egual tentativa do conde de Penamacor. Em um e outro caso foram desde logo dadas ordens expressas para que taes viagens não tivessem logar, sendo mesmo o conde de Penamacor encarcerado na torre de Londres. Sobre estas e outras reclamações diplomaticas, veja-se o que diz o visconde de Santarem (_Recherches sur la déc._, etc., p. 198 a 222).

[84] (_Annaes de el-rey D. João III_ por fr. Luiz de Sousa, publicados por Alexandre Herculano, p. 374.) Os plenipotenciarios francezes, cujos nomes citei com a orthographia usada nos Annaes, eram: Antonio du Prat, chanceller de França, que abraçando em edade já avançada o estado ecclesiastico, veiu a ser arcebispo de Sens, cardeal e legado a latere: o bem conhecido Anne de Montmorenci, que então ainda não fôra elevado á dignidade de condestavel, sendo simplesmente grão mestre: e provavelmente João de Gontault, barão de Biron, que consta fôra empregado em missões diplomaticas junto do imperador e do rei de Portugal. No entanto não o encontro entre os almirantes de França, sendo este cargo desempenhado, na data das negociações, por Philippe de Chabot, conde de Charny: é porém possivel, que exercesse as funcções de almirante temporariamente e no impedimento do titular.

Estas negociações sobre as viagens dos francezes, e as cartas de marca, continuaram por muito tempo, passando a França o conde da Castanheira, e depois Bernardim de Tavora. Este ultimo levava, ao que parece, instrucções para offerecer ao chanceller, ao grão-mestre e ao almirante, quatro mil cruzados a cada um, em cada anno, para os dispor melhor em favor dos interesses de Portugal. Veja-se (_Ann. d'el-rei D. João III_. p. 370 e 379), e o que diz o visconde de Santarem (_Recherches sur la déc_. etc. p. 216 e seguintes).

[85] Os capitulos de concerto foram passados a 11 de julho de 1531. Mais tarde os nossos direitos foram tambem reconhecidos no tratado concluido em Lyão a 14 de julho de 1536, e nas cartas patentes de Francisco I, datadas de Valença e de Lyão de 8 e 27 de agosto do mesmo anno. Veja-se o visconde de Santarém (_Recherches_, etc., pag. 219).

[86] Em um extenso e curioso despacho, de que vi o original na Torre do Tombo (_Corp. Chron_. p. I, maço 47, doc. 75).

[87] Veja-se (_Delle nav. et viagg._, etc. III, p. 417, v.º ed. de 1565).

[88] _Annaes d'el-rey D. João III_, p. 306.

[89] (Ibid., p. 404.) Deve-se notar, que o conde se não refere unicamente ao trato da droga, mas ao commercio de toda a costa, pois a palavra malagueta significa aqui a região e não a especiaria. Encontra-se muitas vezes, nos escriptores d'aquelle tempo, empregada a expressão _a malagueta_, por costa da Malagueta.

Se este documento é, como parece, do anno de 1542, segue-se que as viagens dos francezes haviam começado pelos annos de 1513 ou 1514, um pouco mais cedo do que suppõe o visconde de Santarem (_Recherches_, etc., pp. 213-223).

[90] As narrativas d'estas viagens, publicadas por Eden e outros, foram depois reunidas na importante collecção de Hakluyt. Não tive esta obra á minha disposição, e só póde consultar a versão franceza má e incompleta, que faz parte da (_Hist. gén. des voyages_, etc. II p. 242 e seguintes. Paris, 1746).

[91] Penteado tinha feito viagens a Africa, sendo mesmo encarregado da guarda da costa da Malagueta, antes de passar a Inglaterra, aggravado por uma prisão que julgou injusta. Dos esforços feitos pelo infante D. Luiz para que voltasse ao reino, se deduz que era pessoa de importancia. Foi victima n'esta viagem dos maus tratos e dissabores, porque o fizeram passar os inglezes.

[92] A _bota_ ou antes _botta_, segundo a orthographia proposta por Duarte Nunes de Leão, correspondia a duas terças partes de uma pipa. Dava-se tambem este nome a um barril grande ou barrica d'aquellas dimensões. Em barricas se trazia então habitualmente a malagueta. João Lok, trouxe em 1554 «_thirty six butts of graines_.» O _butt_ é uma barrica da capacidade de cento e vinte e seis gallões.

[93] O visconde de Santarem cita brevemente este despacho, e diz que elle fixa a época em que a primeira malagueta foi levada ao mercado de Ruão. Do theor do despacho não resulta bem claramente que fosse a primeira vez, e unicamente se vê que não era um acontecimento vulgar e corrente.

[94] ... _a very hote fruit, and much like unto a fig, as it groweth on the tree_. (Hakluyt II, p. 12, citado por Daniell.)

[95] _They grow a foot and a half, or two foot from the ground, and are red as blood when they are gathered. The graines themselves are called by the Physicians Grana Paradisi._ (Ibid. p. 22, citado por Daniell.)

[96] Já fiz notar que esta asserção, referindo-se a uma época posterior perto de um seculo ao descobrimento d'aquella parte da costa, nenhuma importancia tem relativamente á primitiva origem do nome.

[97] _Annaes d'el-rei D. João III_, etc., p. 378.

[98] (Ibid. p. 401). Esta venda foi talvez realisada nas feitorias de Flandres, que ainda então existiam, sendo n'este anno feitor Jorge de Barros: a feitoria de Flandres só foi desfeita no anno de 1549.

[99] Flükiger and Hanbury (_Pharmacographia_ p. 592.)

Notas de transcrição:

Foram encontrados e corrigidos alguns erros de impressão que não têm influencia no significado das frases.

No original existiam algumas palavras em grego, que nesta versão não é possível representar. Essas palavras foram transliteradas para caracteres latinos e rodeadas pelos caracteres ++, ex. +peperi+.