Memorias Sobre A Influencia Dos Descobrimentos Portuguezes No C
Chapter 5
[24] O texto de Pordenone é o seguinte: «_In ipsa (insula Jauá) nascuntur cubebae, melegetae, nuces que muscatae, multae que aliae species pretiosae_». Veja-se H. Yule (_Cathay and the way thither, etc._, II. Appendix, I, XVII.)
[25] Sabemos que pelos tempos de Frey Odorico se differençavam perfeitamente as duas drogas. Pegolotti no seu (_Libro di divisameuti di paesi, etc._) inserido no tratado (_Della decima, etc._ III) falla das _meleghette_ e do cardamomo como de mercadorias diversas; a mesma distincção faz um seculo mais tarde G. da Uzzano no (_Libro di gabelli, etc._) egualmente inserido no (_Della decima, etc._ IV). Veja-se H. Yule (_Cathay and the way thither, etc._, I, pag. 88). A passagem de Rolandino Patavino, assim como a de Nicolau Myrepso antes citadas, dão tambem a malagueta e o cardamomo como coisas diversas. Veja-se a nota a pag. 9.
[26] Eis a passagem em que Humboldt (_Hist. de la géogr. du nouveau Continent_, I, pag. 258), expõe esta theoria. «Como as producções vegetaes, analogas, e que se substituem mutuamente no commercio, tomam sempre o mesmo nome, o de _malagueta_, tão celebre no XV seculo, e que os pharmaceuticos transformaram em _melegueta_, _maniguette_ e _cardamomum piperatum_ parece-me derivar-se do nome indico do _pimento_, tal qual é usado na lingua de Sumatra. Acho na Cosmographia de Sebastião Munster (ed. de 1850 p. 1093), _lingua patria sumatrensis piper molaga dicunt_. O sabio auctor da _Materia medica of Hindoostan_, o sr. Ainslie dá tambem (ed. de Madrasta, 1813, p. 34) ao _Piper nigrum_ o nome tamul de _mellaghoo_. Em sanskrito _mallaja_ e _maricha_ são synonymos de _pippali_. O primeiro designa mais particularmente, segundo Wilson, o _Piper nigrum_ e o segundo o _Piper longum_.» A estes nomes apontados por Humboldt podemos accrescentar os que encontramos citados por Garcia da Orta (_Colloquios dos simples, etc._, p. 172, ed. 1872), pertencentes ás mesmas fórmas, como são _molanga_, _meriche_ e _merois_. A semelhança de alguns d'estes nomes com a palavra melegueta é singular; julgo porém ser uma simples aproximação fortuita.
[27] A palavra portuguesa _pimenta_ não vem da mesma origem, como quer o padre Raphael Bluteau no Vocabulario, fazendo-a derivar de _pimpilim_, nome usado no Malabar. Deriva-se de _pigmentum_, que na baixa latinidade significava especiaria em geral: _species aromatis_. Ducange. (_Gloss. ad script. med. et infim. lat. voc. pigmentum_.)
[28] _Recherches sur la déc. des pays situés sur la cote occ. d'Afrique, etc._ p. 266.
[29] _Mem. sobre a prioridade, etc_., p. 39, e nota 7.ª, p. 196.
[30] Na edição franceza da sua memoria (_Recherches sur la déc._ etc. Paris 1842), o visconde de Santarem cita Balducci Pegolotti, e a passagem onde falla da malagueta (p. LXV), mas não modifica a sua argumentação (p. 14 e 15).
[31] Eis o que diz Matthioli: _i grani, i quali chiamano alcuni meleghette per rasomigliarsi eglino (come credo io) al miglio indiano, il quale in alcuni luoghi d'Italia si chiama melega_ (_I discorsi di M. P. Matthioli etc., nei sei libri di Dioscoride_, p. 24. Venezia, 1712).
[32] Foi publicado na (_Storia d'Incisa, etc._ Asti, 1810) e vem transcripta por Michaud (_Hist. des Croisades_, II, p. 494).
[33] Sobre a verdadeira natureza da _meliga_ e a introducção da cultura do milho na Europa pode-se consultar Bonafous (_Hist. nat. agric. et éc. du maïs_); e tambem A. de Candolle (_Géogr. bot. rais._, p. 943).
[34] É esta a opinião apresentada pelo sr. Ernesto Renan (_Hist. des langues sémitiques_, p. 201-202, 4.ème éd.), da qual, porém, se afastam alguns philologos, e entre outros o sr. Newman, que considera o berbér como um idioma semitico.
[35] Veja-se sobre o alphabeto _tifinar_ ou _tifinag_ uma noticia do sr. A. Judas: (_Journal Asiatique_. Mai 1847) assim como o (_Essai de grammaire tamackek._) do sr. Hanoteau.
[36] _Chron. da Conq. de Guiné._ p. 83 e 365.
[37] Diz Pomet «_nous l'appellons aussi maniquette ou melaquette a cause d'une ville d'Afrique appelée Melega d'ou elle était autrefois apportée_» (_Hist. gén. des drogues_, I, 42, 2.me éd.) Nicolau Lémery repete a mesma asserção quasi pelas mesmas palavras (_Traité univ. des drogues simples_, p. 152. Paris, 1698); e não obstante La Martinière, no seu diccionario ter mostrado ser falsa, ainda se encontra no diccionario do sr. Littré.
Uma derivação inversa, e que vem apontada na _Africa_ de Ogilby, tambem envolve um erro. Diz-se ahi: _grain coast is named melliguette or melli, from the abundance of grain of paradise there growing, wich the natives call mellegette_. Confunde-se n'esta passagem a costa da Malagueta, a qual de feito recebeu o nome da droga com a região de Melli, situada já no centro de Africa ao meio dia de Timbuktu, e bem conhecida desde tempos remotos. Foi visitada em 1352 por Ibn Batuta, que a designa com o nome de Melle ou Mali (segundo a traducção do padre Moura) e figura na carta Catalan de 1375. Cadamosto tambem a conhecia, e indica com bastante rigor o itinerario das caravanas, que transportavam o sal de Tagazza a Timbuktu e a Melli. Só muito depois se começou a usar o nome de costa da Malagueta e nenhuma relação tem com o de Melli.
[38] Eis alguns dos nomes citados pelo sr. Daniell: _Attahre_ usado em Yorruba: _Ussorgé_ em Ebo: _Anniewhé_ em Accara: _Weeza_ entre os Ashantis: _Guetta_ e _Emaneguetta_ entre os Krus: uma variedade de fructos mais pequenos é chamada _Tosshan te timmané_ em Serra Leôa: _Niammakyu_ entre os negros Susus: _Bellankufo_ entre os Mandingas do interior; uma terceira variedade de fructos ainda menores recebe o nome de _Tokoto m'pomah_ em Fernão do Pó, e de _Dungo zargo_ e _Dungo zenzambah_ no Congo. Conservei escrupulosamente a orthographia usada pelo sr. Daniell, que não é talvez a mais propria, e corresponde á impressão produzida em um ouvido inglez pelos sons dos dialectos africanos. Barbot, citado por Daniell, diz que nas proximidades do cabo Lopes, se dá á droga o nome de _Calicute_. Deve ser uma antiga designação portugueza, derivada da semelhança com a pimenta que vinha de _Calecut_.
[39] O genero _Piper_ tal qual se acha constituido na monographia das _Piperaceae_ do sr. Casimir de Candolle (_Prodromus_, XVI, S. I.), inclue os generos _Chavica_, _Cubeba_ e outros, e abrange mais de 600 especies.
[40] Com este nome (_poivre long noir_) a menciona Pomet, negociante droguista de Paris, referindo-a a uma figura bastante exacta, para que se não possa duvidar da identidade da especie. (_Hist. géner. des drogues_, p. 225, f. 140, éd. de 1735.)
[41] Os nomes de _maniguette_, _bois d'Ecorce_, _poivre d'Ethiopie_ são dados a uma planta denominada _Waria Zeylanica_, por Fusée Aublet (_Hist. des plantes de la Guiane_, I, p. 605, t. 243), a qual sem duvida é a _Xylopia Ethiopica_.
[42] Temos em favor d'esta opinião a auctoridade de Robert Brown (_Exp. to the river Zaire_, etc. Appendix. p. 469), e a não menos valiosa de A. de Candolle (_Prodrom_ XIII, p. 412). Fraas é de opinião contraria, e suppõe que o _Capsicum longum_ DC, fôra conhecido de Theophrasto. (_Synops. pl. fl. classic._, p. 160.)
[43] Veja-se a carta de Chanca nas (_Select letters of Columbus_, etc., na Coll. Hakluyt).
[44] _Simplicium medic. ex novo orbe delatorum_, traducção latina de Clusio inserida nos (_Exotic._ p. 343). Monardes excellente auctoridade pelo tempo (1565) e logar, em que escreveu, admitte a origem americana da planta.
[45] Clusio nas notas a Monardes, (_Exotic._ p. 343. A numeração das paginas vem errada na edição de 1605 e lê-se 341 mas deve ser 343). Na mesma nota diz Clusio, que a planta se chamava então em Lisboa _pimenta do Brasil_.
[46] Esta embaraçosa confusão fazia exclamar ao antigo auctor Geoffroy: «_Nulla res est fortasse in re Pharmaceutica magis litigiata quam Cardamomi notitia._» (_Tractatus de materia medica_, II, p. 364.)
[47] _Spec. plant._ I p. 9 ed. Willd. 1797.
[48] _Remedia guineensia_, p. 71. Upsaliae; citado por Flück. et Hanb. _Pharmac._ p. 590.
[49] _Monandrian plants of the order Scitamineae_, etc. 1828.
[50] Hooker (_On some afr. sp. of. Amomum. Kew gardens misc._ VI, p. 293) vem transcripto em (_Walpert Ann. bot. syst._ VI, p. 19): póde-se tambem consultar (_Bot. mag._ t. 4663 e 4764 e noticias annexas).
[51] Guibourt (_Hist. nat. des dr. simples_ II, p. 224. 1876).
[52] Daniell (_On the Amoma of Western Africa. Pharm. Journal_ XIV, p. 312 e 356, XVI, p. 465 e 511).
[53] É esta a opinião de Daniell, da qual se afasta um pouco Hooker, e tambem Flüekiger e Hanbury na sua _Pharmacographia_.
[54] Encontra-se nas ilhas de S. Thomé e do Principe, aonde é conhecido com o nome de _Uçame_.
[55] Veja-se a noticia sobre os _Dongos do Congo_ na (_Synopse expl. das mad. e dr. medicinaes_, p. 30, num. 51-74) e tambem (_Apont. phytogeographicos_, p. 544) nos _Annaes do Conselho Ultramarino_.
[56] É necessario advertir que estes limites se referem á planta espontanea, pois que se encontra cultivada não só em outras regiões da Africa, por exemplo nas margens do rio Coango, mas ainda na America, em Demerara e outros pontos.
[57] A substancia mencionada pelo capitão Lyon, sob o nome de _Tammerat et filfil_, entre as mercadorias trazidas do Sudan ao Fezzan, é, sem a menor duvida, a malagueta (_A narr. of travels in northern Africa_, etc., p. 156, 1821).
[58] Assim Pereira suppõe que o _cardamomo_ conhecido na Abyssinia com o nome de _Korarima_ é identico ao _Amomum angustifolium_ Sonnerat, de Madagascar, e Hanbury (_Pharm. Journ._ 1872) considera um e outro identicos ao _A. Danielli_ Hooker fil.
[59] O livro de Pegolloti, já muitas vezes citado, dá interessantes noticias sobre o commercio com o Oriente. Pode-se consultar tambem um curioso capitulo de João de Barros (_Asia_, dec. I, liv. VIII, cap. I), do qual se vê quanto eram extensas e exactas as suas informações sobre o modo porque se fazia o trafico das especiarias, antes de os nossos haverem dobrado o cabo da Boa Esperança; e egualmente o bem conhecido (_Tratado dos diversos e desvairados caminhos_, etc.) de Antonio Galvão.
[60] Sobre a supposta situação do parayso e a sua vegetação, póde ler-se a relação de Fr. João de Marignolli, e as eruditas notas de Yule (_Cathay and the way_, etc., pp. 360 e seguintes). Veja-se tambem uma carta de Letronne inserida na obra de Humboldt (_Hist. de la géographie du nouveau continent_, III p. 118). N'esta mesma obra se encontram expostas e discutidas as curiosas opiniões de Christovão Colombo sobre a proximidade em que deviam estar as novas terras por elle descobertas, do parayso terreal (_Hist._ etc. III, p. 111). Emquanto á influencia do parayso sobre a producção das especiarias ou substancias aromaticas, diz-nos Maçudi, escriptor arabe do X seculo, que Adão saíu do parayso coberto de folhas, e que estas depois de seccas, sendo espalhadas pelo vento sobre a India, deram origem a todos os aromas d'aquella região. (_Les prairies d'or_, etc. trad. de B. de Meynard et P. de Courteille. I. p. 60). O prudente arabe accrescenta no entanto (Deus sabe melhor a verdade). É curiosa a aproximação entre esta singular asserção e outra muito semelhante que encontramos nas obras de Santo Athanasio, o qual no dialogo _Quaestiones ad Anthiocum_ (_Opera_, etc., n p. 279. Parisiis 1698), diz que a abundancia de substancias aromaticas nas regiões orientaes ou Indicas, é devida á proximidade do parayso, pois o vento que d'ali sopra póde tornar fragrantes e aromaticas as arvores das terras visinhas «_sic fragrantia quae ex paradyso ventorum afflatu exit, arbores locorum illorum viciniores fragrantes efficit._» D'estas e de outras opiniões semelhantes resultou o nome de _grana paradysi_, dado, como vimos, á malagueta.
[61] O godo Alarico exigia da cidade de Roma para levantar o cerco, um resgate no qual figurava ao lado de avultada quantia de ouro e prata, uma porção relativamente pequena de pimenta. Constantino offerecia ao papa S. Silvestre vasos de ouro cravejados de pedrarias contendo quantidades minimas de perfumes e especiarias. Nos thesouros de Chosroes II, rei da Persia, mencionava-se a existencia da camphora, do almiscar e do sandalo. Muitos outros exemplos, que seria facil accumular, provam quanto eram considerados estes productos de afastadas regiões.
[62] Ao periodo de grande expansão que teve o christianismo no oriente, e particularmente na Tartaria e na China nos fins do seculo XIII e começo do seguinte, succede uma rapida decadencia, durante a qual quasi se apagou a sua memoria. Quando no XVI seculo os Jesuitas penetraram na India e na China, e tão cuidadosamente buscaram os vestigios dos christãos de S. Thomé, ou tiveram pouca noticia, ou intencionalmente callaram os grandes serviços feitos pelos Dominicanos, e sobretudo pelos Franciscanos, que ali os haviam precedido, e aos quaes só mais tarde se fez completa justiça. Veja-se Huc (_Le christianisme en Chine_, etc., I, p. 94 e seguintes) e tambem o livro já tantas vezes citado de Yule (_Cathay and the way_, etc).
[63] Quando o infante D. Pedro esteve em Veneza, foi-lhe ali offerecido um exemplar do livro de Marco Polo; o manuscripto original, como suppoz Ribeiro dos Santos (_Mem. de litt. portugueza_, VIII, p. 276, 2.ª ed.), ou, o que é mais provavel, uma copia authentica. Valentim Fernandes, no prefacio á traducção portugueza que depois fez, menciona esta circumstancia. Ramusio dá a mesma indicação (_Discorso sopra la prima et secunda lettera di Andrea Corsali.--Delle nav._ I. p. 176 v.º, Venetia 1563), e refere-se á influencia que o livro teve em Portugal «_e che'l detto libro dapoi tradotto nella loro lingua fu gran causa che tutti quelli serenissimi Re s'infiammassero a voler far scoprir l'India orientale, e sopra tutti il Ré Don Giovanni_.» Por esta, ou por outra copia, se fez desde logo uma traducção portugueza, pois entre os livros de uso d'el-rei D. Duarte, figura _Marco Paulo, latim e linguagem em um volume_ (_Provas da Hist. Geneal_, etc. I. p. 844). Annos depois fez Valentim Fernandes a sua traducção, que imprimiu em Lisboa em 1502, obra muito rara, da qual a Bibliotheca nacional de Lisboa possue um exemplar.
[64] A relação da viagem do Nicolo di Conti, foi, por ordem do papa Eugenio IV, dictada ao seu secretario Poggio Bracciolini e por este escripta em latim. Foi depois vertida em portuguez por Valentim Fernandes e publicada juntamente com a obra de Marco Polo, com o titulo _Ho livro de Nycolao Veneto_. Quando Ramusio a quiz inserir na sua collecção não pôde encontrar o original latino, e teve de recorrer á versão portugueza, bastante defeituosa. (_Dell. nav._ etc. p. 338-1563.) Depois porém se publicou a relação em latim juntamente com outras obras de Poggio (_De varietate fortunæ libri quatuor_-1723) e por esta fez o sr. Major a traducção ingleza inserida no livro (_India in the fifteenth century-Collec. Hakluyt_). Sobre a influencia exercida pelo livro de Conti, veja-se Humboldt (_Hist. de la géogr. du nouv. cont._ I. p. 216).
[65] Primeiro mandou D. João II, Fr. Antonio de Lisboa, e Pero de Montarroyo, que por ignorarem a lingua arabica não proseguiram na sua viagem; depois Affonso de Paiva e Pero da Covilhan, e finalmente, em busca d'estes, dois judeos, Rabbi Abram de Beja, e um sapateiro de Lamego, chamado José. Veja-se o que diz Barros (_Asia_, dec. I, liv. III, cap. V) e sobretudo a relação muito mais detalhada dada pelo padre Francisco Alvares, na (_Verdadeira informaçam das terras do Preste Joam_).
[66] Diz João de Barros fallando da pimenta de rabo «a qual ElRei mandou a Frandes, mas não foi tida em tanta estima como a da India.» (_Asia_, dec. I, livr. III, cap. III.) Garcia de Rezende diz tambem da mesma pimenta «da qual foi logo mandado a Frandes.» (_Chron. del Rey D. João II_. pag. 43 verso. Lisboa).
[67] Sobre as informações que o infante tomava dos arabes veja-se o que diz João de Barros: «Donde assi na tomada de Cepta como as outras vezes que lá passou sempre inquiria dos mouros as cousas de dentro do sertão da terra» vindo a saber não só das terras dos Alarves e do Sahará mas tambem dos Azenegnes «que confinam com os negros de Jalof onde se começa a regiam de Guiné.» (_Asia_ dec. I, livr. I, cap. II). Damiam de Goes falla tambem «das muitas informações que (o infante) cada dia tomava de mouros e azenégues practicos nas cousas de Africa» (_Chron. do Princ. D. Joam._ etc. cap. VII). Diogo Gomes conta que estando em Cantor, no Rio Gambia, ahi soubera de uma batalha travada entre dois regulos negros do interior, e que voltando ao reino, dera esta noticia ao infante, o qual lhe respondeu, que por uma carta de um mercador de Oran já fôra informado d'aquelle successo. Prova curiosissima de quanto eram extensas as relações que D. Henrique mantinha com o interior de Africa.
Sobre o conhecimento que os arabes tiveram do Sudan desde o tempo de Ibn Haucal (X seculo), e a influencia que as noções por elles obtidas e transmittidas mais tarde aos christãos exerceram na construcção da carta Catalan de 1375, na do museu Borgia, e em outros monumentos cosmographicos, veja-se o que diz o visconde de Santarem (_Essai sur l'hist. de la cosm._ etc). A curiosa viagem de Ibn Batuta ás terras do Alto Niger, em 1352, dá uma idéa clara das relações dos arabes com aquellas regiões. (_Viagens ext. e dil. de Abu-Abdallah_ etc. versão de fr. J. de Santo Antonio Moura. II. pag. 140 e seguintes).
[68] Azurara (_Chron. da conq._ etc. pag. 400). Barros (_Asia_ dec. I, liv. I, cap. XIV).
[69] No mesmo anno de 1446. Azurara (_Chron._ etc. pag. 410). Barros (_Asia_ ibid).
[70] Em 1448; veja-se Major (_Life of Princ. Henry_ etc. pag. 288).
[71] Em 1454 e 1455. (_Collecção de not._ etc. II. pag. 28 e seguintes). As datas citadas não são as admittidas na versão portugueza, mas as que se encontram em Ramusio, tidas geralmente por mais exactas.
[72] _Collecção de not._ II. pag. 73.
[73] Barros (_Asia_ dec. I, livr. II, cap. II).
[74] Barros (ibid.)
[75] Veja-se o que diz Azurara (_Chron. da conq._ etc. pag. 158), em uma curiosa passagem na qual define bem o sentido em que toma a palavra. Pode-se consultar egualmente o admiravel capitulo, cheio de observações curiosas e exactas de João de Barros (_Asia_ dec. I, livr. III, cap. VIII). Sobre o conhecimento que os arabes tiveram da Guiné e sobre os erros commettidos em relação á sua situação geographica antes dos descobrimentos dos portuguezes, veja-se o visconde de Santarem (_Essai sus l'hist. de la cosm._ etc. I. pag. 300) e tambem a (_Mem. sobre a prior._ etc. pag. 161 e seguintes).
[76] _É nel libro del primo viaggio dice, que egli vide alcune sirene nella costa della Manegueta._ (_Hist. del signor D. Fernando Colombo_ etc. pag. 16. Venezia 1676). Esta biographia do almirante foi escripta por seu filho D. Fernando Colombo em hespanhol, vertida por Affonso Ulloa em italiano, e havendo-se perdido o manuscripto original o qual nunca fôra publicado, vertida de novo em hespanhol e inserida na collecção de _Historiadores primitivos_ de Andre Gonzales Barcia. A versão italiana, de que se fizeram diversas edições, é por tanto a mais authentica.
[77] «_Yo estuve en el castillo de la Mina del Rey de Portugal._» Veja-se a _Historia de las Indias_, de Las Casas, contemporaneo do almirante. (Navarrete. _Collection de Doc._, etc. I. LXII). Na biographia antes citada, escripta por D. Fernando Colombo, encontra-se a mesma asserção. Em quanto ás outras viagens, Las Casas diz, que o almirante «_affirma haber navegado muchas veces de Lisbona a Guinéa_.» As datas, porém, são duvidosas, e o proprio D. Fernando Colombo confessa não saber bem quando tiveram logar estas viagens de seu pae.
[78] É a data marcada por Herrera (_Historia de las Ind. ocid._, dec. I, libr. I, cap. VII).
[79] É evidente que a designação empregada era a usada e vulgar entre os portuguezes. Colombo, como antes Cadamosto, A. da Nolle e outros, fez as suas viagens nos navios portuguezes, unicos que então se dirigiam para a Africa. O celebre genovez pelo seu casamento com a filha de Bartholomeu Perestrello, homem principal, e demais mui versado na navegação, tinha adquirido muitas relações em Portugal, e tão portuguez se havia tornado, que Toscanelli, seu compatriota, parece olvidar-se da sua nacionalidade e confundil-o com os portuguezes dizendo-lhe em uma carta, se não admira da sua grande coragem, e da de toda a nação portugueza, na qual sempre houve homens assinalados em todas as empresas: «_Non mi maraviglio che tu, che sei di gran cuore, e tutta la natione Portoghese, la quale ha havuto sempre huomini segnalati in tutte le imprese etc._» segunda carta de Toscanelli a Colombo inserida na (_Hist. del signor D. Fernando Colombo_ etc. cap. VIII).
Las Casas diz, do modo o mais explicito, que as viagens a Guiné foram feitas em companhia dos portuguezes «_y assi navegó algunas veces aquel camino en compania de los portuguezes, como persona ya vecina y quasi natural de Portugal_.» (_Hist. de las Indias. Collec. de doc._ etc. t. LXII). Estas informações colheu Las Casas da boca de D. Diogo Colombo, filho do almirante.
[80] Eis as localidades mencionadas na descripção da costa da Malagueta por Duarte Pacheco.
Cabo do Monte. Rio dos Cestos. Rio de S. Vicente. Cabo Mesurado. Ilha da Palma. Praia dos Escravos. Matta de Santa Maria. Ilhéos. Lagea. Rio de S. Paulo. Cabo Formoso. Cabo de S. Cremente. Rio do Junco. Resgate do Genovez. Cabo das Palmas.
É facil definir a situação da maior parte d'estas localidades. Na excellente obra de A. M. de Castilho, encontram-se o _Cabo do Monte_, _Cabo Mesurado_, _Rio de S. Paulo_, _Rio dos Juncos_, _Rio dos Cestos_, _Ilha da Palma_ e _Cabo das Palmas_ (_Descr. e Rot. da costa occ. de Africa_, I, p. 264 a 301 e mappa VIII), situados por modo, que não póde haver duvida em serem as localidades mencionadas, com os mesmos nomes, por Duarte Pacheco.
As outras designações, ou não se encontram no _Roteiro_ como são a _Matta de Santa Maria_, os _Ilhéos_, o _Resgate do Genovez_, o _Rio de S. Vicente_, a _Praia dos Escravos_ e a _Lagea_, ou se encontram applicados por modo diverso d'aquelle, que se adopta no _Esmeraldo_, como são o _Cabo Formoso_ e o de _S. Clemente_.
A _Matta de S. Maria_ é uma localidade bem conhecida, situada logo adiante do _Mesurado_, e aonde segundo a relação de Cadamosto, já muitas vezes citada, terminou a viagem de Pero de Cintra.