Memorias Sobre A Influencia Dos Descobrimentos Portuguezes No C
Chapter 2
Deparam-nos as obras de Matthioli, uma etymologia que, com quanto apresentada de passagem e como opinião pessoal, é muito digna de attenção e exame. Vem a ser a que deriva a palavra _malagueta_ da semelhança da semente com os grãos de milho da India, aos quaes em algumas partes da Italia se dava o nome de _meléga_[31]. Effectivamente, o milho da India, o _Holcus sorghum_ de Linneo, foi denominado _meléga_, _meliga_ ou _mélica_, e encontra-se designado com este nome em uma data anterior á primeira menção, que conheço, do nome de _malagueta_. Em um instrumento publico do XIII seculo, passado na villa d'Incisa, se diz, que dois cavalleiros cruzados, companheiros de armas de Bonifacio, marquez de Monteferrato, de volta do cerco de Constantinopla, deram á dita villa, além de uma cruz de prata encerrando um fragmento do Santo Lenho, uma porção de sementes provenientes da provincia de Natolia na Asia e chamadas _meliga_, offerta que foi tida em grande estima e consideração[32]. Quizeram alguns, que estas sementes fossem o milho, é porém mais provavel fosse uma especie de sorgo então nova, ou pouco vulgar[33]. Do theor da carta passada em Incisa no anno de 1204 parece resultar que o nome de _meliga_ era até então desconhecido. É possivel, com quanto pouco provavel, que dez annos depois no de 1214 se tivesse já, por analogia e semelhança de fórma, derivado d'aquelle nome o de _melégueta_.
Resta examinar a origem africana, a qual se póde encontrar nos numerosos e variados dialectos usados pelas populações negras da região aonde a planta se cria, ou ainda nas linguas dos povos que com ellas negoceiavam. Dois povos de raça diversa se empregaram no activo commercio feito por um lado com os europeus, e por outro com as populações de raça negra; commercio de que os nossos escriptores tiveram, como vimos, noticia, e de que Leão Africano dá relação com a clareza e intimo conhecimento de quem n'elle tomou parte. Foram esses povos os arabes e os berberes: estes, os numidas ou libyanos dos antigos, fallam uma lingua bem distincta do arabe, e que nem mesmo se póde filiar no grupo semitico, mas sim em um grupo um pouco vago, de que o coptico parece ser o typo, para o qual se propoz o nome de «chamitico[34].» Dominados pelos semitas e em contacto por duas vezes com linguas semiticas, isto é, com a lingua punica dos colonos carthaginezes, e seculos depois com a arabica, aceitando o dominio dos arabes e recebendo mesmo d'estes a religião mahometana, alguns berberes conservaram no entanto lingua e costumes proprios. Ainda mais; os povos berberes de raça pura, como os Tuareg, mais entranhados no deserto, e mais afastados do elemento arabe, que tão profundamente tem penetrado todo o norte da Africa, não só fallam uma lingua distincta, mas conservam o uso de um alphabeto especial, semelhante ao das inscripções libycas[35]. O mais antigo historiador dos descobrimentos portuguezes, Gomes Eannes de Azurara, teve conhecimento dos berberes, que chamou azanegues e barbaros, e da distincção entre a linguagem mourisca e «a azaneguya do Zaara»; e ainda mais, relatando a viagem do heroico escudeiro João Fernandes, dá conta de usarem de uma lettra com que escrevem «de outra guisa» que a dos mouros[36], facto curioso, ignorado ou posto em duvida durante muito tempo, e demonstrado pelas modernas investigações scientificas.
É pois no arabe, no berbér, ou nas linguas do Sudan e da costa occidental que se deve procurar a origem da palavra, se porventura é africana.
Devemos no entanto notar que os nomes arabes, hoje mais usados, não tem relação ou semelhança com a palavra _malagueta_. São estes nomes _teen el felfel_ e _tamar el felfel_, o que vale o mesmo que _pimenta figo_ e _pimenta tamara_, derivados por um lado da ardencia das sementes, e por outro de uma vaga semelhança na fórma dos fructos, quando mais desenvolvidos, com os figos, quando menores, com as tamaras.
Vem expressa em varias obras, sobretudo francezas, a opinião de que o nome da droga se deriva do nome de uma villa ou logar de Africa, chamado _Melega_, d'onde era trazida para a Europa. Da existencia de tal villa não pôde achar noticia, e creio, que alguns desses auctores se equivocaram com a costa da Malagueta, e que os outros, como tantas vezes succede, repetiram a asserção sem se darem ao trabalho de procurar os seus fundamentos[37].
Nos dialectos dos negros os nomes da droga são variadissimos o pela maior parte absolutamente diversos e afastados no som e na fórma da palavra _malagueta_[38]. Diz-nos porém o sr. Daniell, que entre os negros Krus habitantes da costa que vae do cabo Mesurado ao das Palmas, o nome vulgar é _Guetta_, ao qual frequentes vezes se juntam as prefixas _mane_ ou _malé_, e tem por certo ser esta a origem da palavra. É possivel, mas não tão seguro, nem tão fóra de discussão como parece ao dr. Daniell, pois se póde bem admittir que o nome usado pelos Krus seja a corrupção do vocabulo empregado pelos portuguezes e outros europeus, o que é tanto mais provavel quanto os Krus não são uma população do interior, mas sim um povo da costa, muito dado á navegação, e como tal um dos que tem sempre tido mais contacto com os estrangeiros.
Em todo o caso, se a palavra pertence ao dialecto dos negros foi-nos transmitida pelos povos do norte da Africa, unicos que até ás viagens portuguezas tiveram contacto com aquellas regiões. Devemos pois admittir que espalhando-se o seu uso pelo interior da região de Mandinga, se tornasse vulgar em Timbuktu e outros grandes mercados do Sudan. Os arabes e os berberes, que a esses mercados concorriam trouxeram a droga, e com a droga o nome, pelo caminho do Dar-Fur ao alto Nilo, e d'ahi aos portos do Egypto, ou pela via mais seguida do Fezzan aos portos de Tripoli. Mercadores de varias nações, e na época a que nos referimos, principalmente os venezianos, navegavam para esses portos, e desde o começo do XIII seculo, se não antes, introduziram a droga na Europa e usaram o nome _malagueta_ ou _melegeta_.
Em resumo a origem da palavra permanece obscura, e unicamente temos como certo, que os italianos foram os primeiros, entre os povos da Europa, a empregal-a, quer a derivassem da semelhança da droga com o sorgo, chamado _melega_, quer usassem, o que é mais provavel, de uma denominação vulgar eutre os africanos.
III
Das plantas que produzem a malagueta, e da sua distribuição geographica
Como mais de uma vez tenho observado, existe uma tendencia geral a applicar o mesmo nome a productos distinctos, mas semelhantes ou de propriedades analogas, e que se confundem ou substituem mutuamente no commercio. Por outro lado nas diversas regiões e épocas se tem dado nomes differentes á mesma substancia. D'aqui resulta uma certa confusão de nomes vulgares, da qual póde provir obscuridade, e que exige algumas palavras de explicação.
O nome de _pimenta_ tem designado productos vegetaes variados. Em primeiro logar algumas especies do genero _Piper_[39], da familia das Piperaceas, pela maior parte oriundas da Asia, algumas porém naturaes da Africa, como por exemplo o _Piper Clusii_, chamado _pimenta de rabo_ pelos nossos antigos escriptores. Por analogia de propriedades deu-se depois ao fructo de uma planta totalmente diversa, uma Myrtacea das Indias occidentaes, o _Myrtus Pimenta_ de Linneo, ou _Pimenta officinalis_ de Lindley, sendo singular que o nome portuguez do _Piper_ se viesse a adoptar na linguagem scientifica para uma planta tão afastada. O fructo de uma Anonacea, a _Xylopia Æthiopica_, foi egualmente conhecido no commercio, pelos nomes de _pimenta de Guiné_ ou de _Ethiopia_, de _pimenta negra longa_[40], de _grãos de zelim_ e de _maniguette_[41], este ultimo por confusão com a verdadeira malagueta.
Pelos fins do XV seculo, ou principios do seguinte, introduziu-se na Europa a cultura de diversas especies do genero _Capsicum_ da familia das Solanaceas. Parece que todas estas especies são de origem americana[42]. A primeira noticia que temos d'estas plantas, é dada pelo medico Chanca, natural de Sevilha, e companheiro de Christovão Colombo na sua segunda viagem, o qual as descreve sob o nome de _agi_ usado pelos naturaes das Antilhas[43]. Trazido o _Capsicum_ para a Europa, ahi se generalisou rapidamente a sua cultura. D. Nicolau Monardes, que escreveu não muitos annos depois da conquista do novo mundo, diz que em toda as hortas de Hespanha se cultivava[44]. Clusio dá a mesma noticia em relação a Hespanha e a Portugal, aonde, nos arredores de Lisboa, observou differentes especies e variedades[45]. Pelas qualidades pungentes e ardentissimas de seus fructos, receberam estas plantas o nome de _pimenta_, sendo chamadas, no tempo em que Clusio visitou Lisboa _pimenta do Brasil_, e depois _pimenta de Hespanha_ ou de _Cayenna_ e tambem _pimento_, _pimentão_ e _malagueta_. É o fructo pequeno, alongado e muito ardente, da variedade quasi arbustiva, que geralmente se conhece com o nome de malagueta. Como a cultura d'esta planta é hoje muito espalhada no meio-dia da Europa, o tambem na Africa, e ao mesmo tempo a antiga malagueta é rara no commercio e pouco usada, o nome transferiu-se na linguagem vulgar para o fructo do _Capsicum_, sendo geralmente ignorado, que durante seculos designou uma planta totalmente diversa.
Em quanto a essa planta, a que agora nos occupa, pertence á familia das Zingiberaceas do grande grupo das Monocotyledoneas: familia constituida por vegetaes das regiões quentes do globo, nos quaes abundam principios aromaticos, e cujas raizes, ou antes rhyzomas e sementes, fornecem alguns productos muito conhecidos desde tempos antigos, como são os cardamomos, a curcuma, a galanga e o gengivre. Os cardamomos, produzidos pelo genero _Elletaria_ e por algumas especies do genero _Amomum_ da Asia ou do oriente da Africa, foram conhecidos dos antigos, mas bastante confundidos entre si. Dioscorides e Plinio, e ainda mais os seus commentadores, como Ruellio, Valerio Cordo, Laguna, Matthioli e outros, enredaram por tal fórma a synonymia dos cardamomos[46], que os trabalhos modernos, e em especial as pacientes investigações do erudito Hanbury, ainda não conseguiram dissipar toda a obscuridade e remover todas as duvidas. Quando a semente do _Amomum_ da Africa occidental começou a apparecer no commercio, foi envolvida n'esta confusão, recebendo por vezes os nomes de _cardamomum majus_, e _cardamomum piperatum_, com quanto fosse geralmente chamada _melegeta_ ou _grana paradisi_. A natureza e patria da planta, que a produzia, eram então ignoradas e mesmo quando depois as viagens dos portuguezes lançaram alguma luz sobre estes pontos, a distincção das especies permaneceu por muito tempo, e até aos nossos dias, em extremo duvidosa e incerta.
Foi Linneo o primeiro a descrever uma Zingiberacea sob o nome de _Amomum Granum-paradisi_[47]: porém dando uma diagnose curtissima, como era seu costume, que mal permitte discriminar a que planta se referia, e citando a par da habitação exacta na Guiné, a habitação em Madagascar e em Ceylão, aonde não existe tal especie e sim outras distinctas, temos a prova de que confundia a especie do occidente d'Africa, com alguma outra da Africa oriental ou da Asia. Torna-se assim muito difficil saber o que na realidade seja a planta de Linneo. Um botanico sueco, que no começo d'este seculo assistiu por algum tempo em Serra Leôa, Afzélius, descreveu depois uma especie sob o mesmo nome de _A. Granum paradisi_[48]. Mais tarde Roscoe, em uma monographia das Scitamineas, estabeleceu uma especie que julgou nova, mas parece ser uma simples variedade da já descripta por Afzélius, da qual diz provirem as sementes do commercio, e á qual deu o nome de _A. Melegueta_[49]. Algum tempo depois sir J. Smith em trabalhos diversos, e particularmente em varios artigos da Cyclopaedia de Rees, occupou-se do genero _Amomum_, creando algumas especies novas. O dr. Hooker publicou finalmente differentes noticias sobre estas plantas, e fez a revisão dos _Amoma_ da Africa occidental[50]. Devemos ainda citar as observações de Jonathan Pereira, inseridas nas successivas edições dos seus elementos de Materia Medica, assim como as do sr. Planchon nas ultimas edições da Historia das drogas de Guibourt[51] e muito particularmente uma memoria importante do dr. Daniell, á qual já repetidas vezes me referi, fructo de longas e cuidadosas investigações, feitas na costa de Africa[52].
De todos estes trabalhos resulta, que houve numerosos enganos e trocas na descripção e identificação das diversas especies, devidos por um lado á difficuldade de as distinguir, e por outro a imperfeita exploração da região que habitam. Ainda hoje não concordam absolutamente os diversos auctores, Hanbury, o dr. Hooker e o dr. Daniell sobre a sua limitação, e o valor de algumas fórmas, que uns julgam especies e outros simples variedades. Não entra no plano d'este trabalho a descripção minuciosa das especies, nem a discussão da sua synonymia muito complicada e das divergencias em alguns pontos secundarios, que ainda podem existir entre uns e outros botanicos, e se encontram expostas nas obras citadas.
Basta-nos dizer, seguindo principalmente a opinião do dr. Daniell, que as sementes se podem distribuir em dois grupos: o primeiro da _malagueta véra_, ao qual pertence quasí toda a droga do commercio, tendo em subido grau as qualidades aromaticas e pungentes que a tornam procurada: o segundo da _malagueta dubia_, aproveitada pelos negros na falta da primeira, e servindo mesmo para adulterar a droga trazida aos mercados, pois possue algumas das suas qualidades, posto que em menor grau.
A _malagueta véra_ parece ser produzida por uma unica especie, o _Amomum Granum paradisi_ Afz.[53], da qual se encontram tres variedades distinctas.
_Var. a. majus_: de porte maior e fructos e sementes grandes, a mais estimada. Encontra-se principalmente na costa da Malagueta e do golfo de Guiné, e particularmente nos logares baixos, humidos e ferteis. É a fórma que Roscoe considerou como especie distincta e descreveu com o nome de _A. Melegueta_.
_Var. b. medium_: de porte e fructos menores. Habita os terrenos montanhosos da Serra Leôa e outros logares. Parece ser a que serviu de typo á descripção de Afzelius.
_Var. c. minus_: propria ás regiões mais seccas e mais elevadas, de porte, fructos e sementes muito reduzidos; uma verdadeira variedade subalpina.
Em quanto á _malagueta dubia_ é produzida por um certo numero de especies bem distinctas, como são o _Amomum exscapum_ Sims., _A. longiscapum_ Hooker fil., _A. latifolium_ Afzelius, _A. Danielli_[54] Hooker fil., _A. palustre_ Afzelius, _A. Pereirianum_ Daniell.
A exploração botanica da Africa intertropical está demasiado imperfeita, para que se possa fixar com rigor, ou mesmo com uma tal ou qual segurança, a demarcação das areas habitadas pelas differentes especies vegetaes. Os limites, que vamos indicar, devem pois tomar-se apenas como uma grosseira aproximação, sujeita a muitas correcções.
Pelo lado do norte a malagueta começa a encontrar-se desde o cabo Verde, ou talvez mesmo desde o Senegal. Parece porém ser bastante rara na região proxima ao mar, que corre da foz d'este rio á do Gambia. A que por ahi se vende é trazida do interior pelos mandingas, e provém do alto Senegal, alto Gambia, e das terras de Bambará. Podemos pois fixar como limite norte, aproximadamente, o parallelo de 15° latitude norte.
Caminhando para o sul encontra-se na Guiné portugueza porém em pequena quantidade. É mais frequente a partir do rio de Nuno Tristão, e muito abundante desde a Serra Leôa até ao cabo das Palmas. Predomina sempre nos terrenos baixos, humidos e fundos aonde chega a invadir as culturas sendo difficil de destruir. Do cabo das Palmas para este abunda em toda a zona da costa da Mina, costa de Benin, e delta do Niger até ao rio dos Camarões, encontrando-se tambem na ilha de Fernão do Pó. Existe egualmente no Gabão, e em geral em toda a costa que corre norte sul do rio dos Camarões até ao Zaire. Começa porém a ser mais rara, ou pelo menos a não dar logar a tão activo commercio. Estende-se a habitação da planta além do Zaire. Temos n'esta parte uma informação importante, dada pelo dr. Welwitsch, o qual nas suas explorações botanicas, não encontrou a planta espontanea, mas foi informado de que existe nas florestas do interior do Congo[55]. Comparando esta informação com o itinerario seguido por Welwitsch, póde fixar-se como limite aproximado sul o parallelo de 7° latitude sul. Vê-se pois que a planta se encontra localisada em uma região bastante vasta, que se estende ao norte e ao sul do equador, dilatando-se mais para o norte[56].
O limite oriental é muito mais vago, senão absolutamente desconhecido. As vastas regiões do Sudan tem sido atravessadas por alguns, poucos, exploradores europeus, mas não estudadas botanicamente. Sabemos apenas, que aos mercados da costa vem malagueta das terras de Bambará e talvez das de Massina no alto Niger, que por outro lado as caravanas ainda hoje levam a Murzuk, no Fezzan, alguma malagueta do Sudan[57], mas ignoramos a região onde é produzida. Attendendo ás condições bastante uniformes de temperatura e humidade que reinam no Sudan, é natural suppor que alguns _Amoma_ da costa occidental, se não todos, se estendam em uma vasta habitação até á região dos lagos, ou mesmo de costa a costa. Na Abyssinia, no paiz dos Gallas, e mesmo na costa oriental existem especies de _Amomum_, mas a sua identidade com as da costa occidental, com quanto admittida por alguns auctores[58], não está completamente demonstrada. É forçoso confessar que o conhecimento d'estas plantas é demasiado imperfeito, e a exploração d'estas regiões demasiado incompleta para que desde já se possam formular quaesquer conclusões seguras.
IV
Do commercio da malagueta, e da parte da costa a que se deu este nome
Na ultima metade do XV seculo, e no principio do seguinte, o commercio da malagueta, como o de todos os outros productos da costa occidental da Africa, foi exclusivamente feito pelos portuguezes. O caracter, que distingue os descobrimentos dos nossos, e os separa de muitas tentativas arrojadas, mas desconnexas, de outros navegadores, é a energia e a persistencia com que, não só proseguem avançando para o desconhecido, mas vão consolidando, por meio de novas e repetidas expedições, o seu dominio nas longinquas praias recentemente visitadas. Inspiradas pelo genio ardente do infante D. Henrique, as navegações portuguezas algum tanto affrouxam no tempo de D. Affonso V, occupado pelas dissenções intestinas do reino, pelos cuidados das expedições á Africa mediterranica, e pela lucta em que a defesa dos direitos da excellente Senhora o havia envolvido; tomam porém novo impulso sob a mão energica e inflexivel de D. João II, para chegarem no reinado de D. Manuel, a essa época de maravilhosa espansão, em que as naus portuguezas sulcavam todos os mares. Não se satisfazem os nossos em descobrir novas terras, mas procuram firmar por toda a parte o dominio portuguez, levantam o castello de Arguim, edificam a fortaleza de S. Jorge da Mina, e cobrem a costa oriental da Africa e a costa do Malabar de fortes e feitorias. Estabelecem-se assim relações seguidas, e um activissimo commercio com a Africa e com o Oriente, no qual as especiarias representavam, como é geralmente sabido, o mais importante papel.
Hoje, que algumas especiarias tem caído em completo desuso e abandono, e outras se encontram tão vulgares e correntes no commercio, surprehende-nos a singular estima, em que foram tidas nos tempos antigos, durante toda a edade média, e ainda no primeiro periodo do renascimento. É certo, porém, que as difficeis, e muitas vezes interrompidas relações com o extremo Oriente, e as longas e demoradas viagens pela Persia, ou pelo Mar Vermelho[59], tornaram estes productos vegetaes raros e custosos, e por isso mesmo procurados como objecto de luxo excepcional. As duvidas sobre a sua patria, o mysterio que envolvia a sua origem, e fazia considerar alguns como provenientes do parayso terrestre[60], ainda mais contribuiram para que se encarecessem as suas excellencias como medicamentos, e como adubos. Quantidades pequenas d'estas substancias, e que hoje teriamos por insignificantes, se offereciam como valiosos presentes a papas e imperadores, ou se enumeravam cuidadosamente entre as riquezas accumuladas em seus thesouros[61].
O desejo de chegar ás terras aonde cresciam tão ricos e estimados productos, e de, pela communicação directa, arrancar das mãos dos venezianos o monopolio do trato commercial com o Oriente, foi sem duvida uma das causas principaes, que incitaram portuguezes e hespanhoes nas suas navegações.
É impossivel desconhecer, que outros motivos mais elevados e desinteressados actuaram no animo dos nossos antepassados. As vivas crenças religiosas, e o empenho de dilatar a verdadeira fé entre as populações pagans ou mahometanas, o intuito de alargar o dominio das quinas, accrescentando novas glorias, a tantas que já as rodeavam, e ainda o puro interesse scientifico de resolver alguns problemas geographicos, influiram por certo nos portuguezes para os lançar em empresas heroicas, nas quaes nunca regatearam o sangue, nem a vida. Todavia, devemos confessar, que a estes motivos mais puros accresceram depois a sede do lucro, a rivalidade com as opulentas cidades de Italia, e a attracção irresistivel exercida pelas riquezas do Oriente, a terra das pedras preciosas, do ouro e das especiarias.
As relações com o estremo Oriente haviam-se tornado durante a dominação dos tartaros, pelos XIII e XIV seculos mais seguidas e frequentes. A viagem tão conhecida de Marco Polo, e as perigrinações de alguns frades menores, como Fr. João de Plano Carpini, Guilherme Rubruk, mais conhecido com o nome de Rubruquis, Fr. João de Monte Corvino, Fr. Odorico de Pordenone, Fr. João de Marignolli e muitos outros, rasgaram um pouco o véo, que envolvia as terras quasi fabulosas do Cathayo ou da Ilha de Cipango, e avivaram o desejo e a cubiça de penetrar n'aquellas regiões, pois antes encareciam que diminuiam a fama já antiga das suas riquezas. Se algumas d'estas viagens foram menos conhecidas ou quasi ignoradas[62], não succedeu o mesmo a todas. As copias e traducções da relação escripta por Marco Polo multiplicaram-se desde logo, e é bem sabido, que em Portugal se conheceram e estudaram na época, que precede o grande movimento dos nossos descobrimentos[63]. O mesmo se deu no XV seculo com a viagem de Nicolo di Conti, escripta por Poggio[64], e avidamente lida e estudada pelos mais notaveis geographos de então, como Fra Mauro e Toscanelli.
Os projectos para chegar a essas ricas regiões do oriente, _a terra das especiarias_ occupam por esta época todos os espiritos. D. Affonso V manda por um dos seus capellães, o conego Fernão Martins, consultar o celebre Toscanelli sobre o mais curto caminho para aquella terra. Christovão Colombo consulta egualmente Toscanelli sobre o seu grande intento de chegar aonde nascem as _especiarias_ navegando para o occidente; intento que não levou a cabo, que só devia realisar Fernando de Magalhães alguns annos mais tarde, mas que o conduziu ao inesperado descobrimento do novo mundo e illustrou para sempre o seu nome. D. João II, não affrouxando nas expedições maritimas, manda pela via do Mediterraneo Pero da Covilhan e Affonso de Paiva, estudar o caminho para a terra das especiarias, e procurar o Preste João, esse singular e mysterioso personagem, que tanto occupou as attenções do mundo christão durante alguns seculos[65].