Memorias Posthumas de Braz Cubas

Part 9

Chapter 93,995 wordsPublic domain

Chegando á rua, arrependi-me de ter saído. A baroneza era uma das pessoas que mais desconfiavam de nós. Cincoenta e cinco annos, que pareciam quarenta, macia, risonha, vestigios de belleza, porte elegante e maneiras finas. Não falava muito nem sempre; possuia a grande arte de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se então na cadeira, desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. Os outros, não sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo que ella olhava só, ora fixa, ora mobil, levando a astucia ao ponto de olhar ás vezes para dentro de si, porque deixava cair as palpebras; mas, como as pestanas eram rotulas, o olhar continuava o seu officio, remexendo a alma e a vida dos outros.

A segunda pessoa era um parente de Virgilia, o Viegas, um cangalho de setenta invernos, chupado e amarellado, que padecia de um rheumatismo teimoso, de uma asthma não menos teimosa e de uma lesão do coração: era um hospital concentrado. Os olhos porém luziam de muita vida e saúde. Virgilia, nas primeiras semanas, não lhe tinha medo nenhum; dizia-me que, quando o Viegas parecia espreitar, com o olhar fixo, estava simplesmente contando dinheiro. Com effeito, era um grande avaro.

Havia ainda o primo de Virgilia, o Luiz Dutra, que eu, entretanto, desarmava á força de lhe falar nos versos e prosas, e de o apresentar aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome á pessoa, se mostravam contentes da apresentação, não ha duvida que o Luiz Dutra exultava de felicidade; mas eu curava-me da felicidade com a esperança de que elle nos não denunciasse nunca. Havia, emfim, umas duas ou tres senhoras, vários gamenhos, e os famulos, que naturalmente se desforravam assim da condição servil, e tudo isso constituia uma verdadeira floresta de olheiros e escutas, por entre os quaes tinhamos de resvalar com a tactica e maciez das cobras.

CAPITULO LXVI

As pernas

Ora, emquanto eu pensava naquella gente, iam-me as pernas levando, ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei á porta do hotel Pharoux. De costume jantava ahi; mas, não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da acção me cabe, e sim ás pernas, que a fizeram. Abençoadas pernas! E ha quem vos trate com desdem ou indifferença. Eu mesmo, até então, tinha-vos em má conta, zangava-me quando vos fatigaveis, quando não podieis ir além de certo ponto, e me deixaveis com o desejo a avoaçar, á semelhança de gallinha atada pelos pés.

Aquelle caso, porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vós deixastes á minha cabeça o trabalho de pensarem Virgilia, e dissestes uma á outra:--Elle precisa comer, são horas de jantar, vamos levai-o ao Pharoux; dividamos a consciencia delle, uma parte fique lá com a dama, tomemos nós a outra, para que elle vá direito, não abalroe as gentes e as carroças, tire o chapeu aos conhecidos, e finalmente chegue são e salvo ao hotel. E cumpristes á risca o vosso proposito, amaveis pernas, o que me obriga a immortalisar-vos nesta pagina.

CAPITULO LXVII

A casinha

Jantei e fui á casa. Lá achei uma caixa de charutos, que me mandára o Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas côr de rosa. Entendi, abri-a, e tirei este bilhete:

«Meu B...

«Desconfiam de nós; tudo está perdido; esqueça-me para sempre. Não nos veremos mais. Adeus; esqueça-se da infeliz

«V...a»

Foi um golpe esta carta; não obstante, apenas fechou a noite, corri á casa de Virgilia. Era tempo; estava arrependida. Ao vão de uma janella, contou-me o que se passára com a baroneza. A baroneza disse-lhe francamente que se falára muito, no theatro, na noite anterior, a proposito da minha ausencia do camarote de Lobo Neves; tinham commentado as minhas relações na casa; em suma, eramos objecto da suspeita publica. Conclui dizendo que não sabia o que fazer.

--O melhor é fugirmos, insinuei.

--Nunca, respondeu ella abanando a cabeça.

Vi que era impossivel separar duas cousas que no espirito della estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração publica. Virgilia era capaz de eguaes e grandes sacrificios para conservar ambas as vantagens; e a fuga só lhe deixava uma. Talvez senti alguma cousa semelhante a despeito; mas as comoções daquelles dous dias eram já muitas, e o despeito morreu depressa. Vá lá; arranjemos a casinha.

Com effeito, achei-a, dias depois, expressamente feita, em um recanto da Gamboa. Um brinco! Nova, caiada de fresco, com quatro janellas na frente e duas de cada lado,--todas com venezianas côr de tijolo,--trepadeira nos cantos, jardim na frente; mysterio e solidão. Um brinco!

Convencionámos que iria morar alli uma mulher, conhecida de Virgilia, em cuja casa fora costureira e aggregada. Virgilia exercia sobre ella verdadeira fascinação. Não se lhe diria tudo; ella aceitaria facilmente o resto.

Para mim era aquillo uma situação nova do nosso amor, uma apparencia do posse exclusiva, de dominio absoluto, alguma cousa que me faria adormecer a consciencia o resguardar o decoro. Já estava cançado das cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do canapé, de todas essas cousas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade. Agora podia evitar os jantares frequentes, o chá de todas as noites, emfim a presença do filho delles, meu complice e meu inimigo. A casa resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria á porta;--dalli para dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso, somente nosso, sem leis, sem instituições, sem baronezas, sem olheiros, sem escutas,--um só mundo, um só casal, uma só vida, uma só vontade, uma só affeição,--a unidade moral de todas as cousas pela exclusão das que me eram contrarias.

CAPITULO LXVIII

O vergalho

Taes eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquelle Valongo fóra, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-m'as um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas unicas palavras:

--«Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!» Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada supplica, respondia com uma vergalhada nova.

--Toma, diabo! dizia elle; toma mais perdão, bebado!

--Meu senhor! gemia o outro.

--Cala a boca, besta! replicava o vergalho.

Parei, olhei... Justos ceus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudencio,--o que meu pae libertára alguns annos antes. Cheguei-me; elle deteve-se logo e pediu-me a benção; perguntei-lhe se aquelle preto era escravo delle.

--E, sim, nhonhô.

--Fez-te alguma cousa?

--É um vadio e um bebado muito grande. Ainda hoje deixei elle na quitanda, em quanto eu ia lá embaixo na cidade, e elle deixou a quitanda para ir na venda beber.

--Está bom, perdoa-lhe, disse eu.

--Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bebado!

Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjecturas. Segui caminho, a cavar cá dentro uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria materia para um bom capitulo, e talvez alegre. Eu gósto dos capitulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episodio do Valongo; mas só exteriormente. Logo que metti mais dentro a faca do raciocinio achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudencio tinha de se desfazer das pancadas recebidas,--transmittindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; elle gemia e soffria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia, trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que elle se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as subtilezas do maroto!

CAPITULO LXIX

Um grão de sandice

Este caso faz-me lembrar um doudo que conheci. Chamava-se Romualdo e dizia ser Tamerlão. Era a sua grande e unica mania, e tinha uma curiosa maneira de a explicar.

--Eu sou o illustre Tamerlão, dizia elle. Outr'ora fui Romualdo, mas adoeci, e tomei tanto tartaro, tanto tartaro, tanto tartaro, que fiquei Tartaro, e até rei dos Tartaros. O tartaro tem a virtude de fazer Tartaros.

Pobre Romualdo! A gente ria da resposta, mas é provavel que o leitor não se ria, e com razão; eu não lhe acho graça nenhuma. Ouvida, tinha algum chiste; mas assim contada, no papel, e a proposito de um vergalho recebido e transferido, força é confessar que é muito melhor voltar á casinha da Gamboa; deixemos os Romualdos e Prudencios.

CAPITULO LXX

D. Placida

Voltemos á casinha. Não serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor; envelheceu, ennegreceu, apodreceu, e o proprietario deitou-a abaixo para substituil-a por outra, tres vezes maior, mas juro-te que muito menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre; um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas.

E vejam agora a neutralidade deste globo, que nos leva, atravez dos espaços, como uma lancha de naufragos, que vae dar á costa: dorme hoje um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que soffreu um casal de peccados. Amanhã pode lá dormir um ecclesiastico, depois um assassino, depois um ferreiro, depois um poeta, e todos abençoarão esse canto de terra, que lhes deu algumas illusões.

Virgilia fez daquillo um brinco; designou as alfaias mais idoneas, e dispol-as com a intuição esthetica da mulher elegante; eu levei para lá alguns livros; e tudo ficou sob a guarda de D. Placida, supposta, e, a certos respeitos, verdadeira dona da casa.

Custou-lhe muito a aceitar a casa; farejára a intenção, e doia-lhe o officio; mas afinal cedeu. Creio que chorava, a principio: tinha nojo de si mesma. Ao menos, é certo que não levantou os olhos para mim durante os primeiros dous mezes; falava-me com elles baixos, séria, carrancuda, ás vezes triste. Eu queria angarial-a, e não me dava por offendido, tratava-a com carinho e respeito; forcejava por obter-lhe a benevolencia, depois a confiança. Quando obtive a confiança, imaginei uma historia pathetica dos meus amores com Virgilia, um caso anterior ao casamento, a resistencia do pae, a dureza do marido, e não sei que outros toques de novella. D. Placida não rejeitou uma só pagina da novella; aceitou-as todas. Era uma necessidade da consciencia. Ao cabo de seis mezes quem nos visse a todos tres juntos diria que D. Placida era minha sogra.

Não fui ingrato; fiz-lhe um peculio de cinco contos,--os cinco contos achados em Botafogo,--como um pão para a velhice. D. Placida agradeceu-me com lagrimas nos olhos; e nunca mais deixou de rezar por mim, todas as noites, deante de uma imagem da Virgem, que tinha no quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo.

CAPITULO LXXI

O senão do livro

Começo a arrepender-me deste livro. Não que elle me cance; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capitulos para esse mundo sempre é tarefa que distráe um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulchro, traz certa contracção cadaverica; vicio grave, e aliás infimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estylo regular e fluente, e este livro e o meu estylo são como os ebrios, guinam á direita e á esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o ceu, escorregam e cáem...

E cáem!--Folhas miserrimas do meu cypreste, heis de cair, como quaesquer outras bellas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-hia uma lagrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que se não deixa boca para rir, tambem não deixa olhos para chorar... Heis de cair. Turvo é o ar que respiraes, amadas folhas. O sol que vos allumia, com ser de toda a gente, é um sol opaco e reles, de cemiterio e carnaval.

CAPITULO LXXII

O bibliomano

Talvez supprima o capitulo anterior; entre outros motivos, ha* ahi, nas ultimas linhas, uma phrase muito parecida com desproposito, e eu não quero dar pasto á critica do futuro.

Olhae: daqui a setenta annos, um sugeito magro, amarello, grisalho, que não ama nenhuma outra cousa além dos livros, inclina-se sobre a pagina anterior, a ver se lhe descobre o desproposito; lê, relê, treslê, desengonça as palavras, sacca uma syllaba, depois outra, mais outra, e as restantes, examina-as por dentro e por fóra, por todos os lados, contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada. Fica sempre o mesmo desproposito.

É um bibliomano. Não conhece o autor; este nome de Braz Cubas não vem nos seus diccionarios biographicos. Achou o volume, por acaso, no pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o por duzentos réis. Indagou, pesquizou, esgaravatou, e veiu a descobrir que era um exemplar, unico... Unico! Vós, que não só amaes os livros, senão que padeceis a mania delles, vós sabeis mui bem o valor desta palavra, e adivinhaes, portanto, as delicias de meu bibliomano. Elle regeitaria a corôa das Indias, o papado, todos os muzeus da Italia e da Hollanda, se os houvesse de trocar por esse unico exemplar; e não porque seja o das minhas _Memorias_; faria a mesma cousa com o _Almanak_ de Laemmert, uma vez que fosse unico.

O peor é o desproposito. Lá continúa o homem inclinado sobre a pagina, com uma lente no olho direito, todo entregue á nobre e aspera funcção de decifrar o desproposito. Já prometteu a si mesmo escrever uma breve memoria, na qual relate o achado do livro e a descoberta da sublimidade, se a houver por baixo daquella phrase obscura. Ao cabo, não descobre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o, remira-o, chega-se á janella e mostra-o ao sol. Um exemplar unico! Nesse momento passa-lhe por baixo da janella um Cesar ou um Cromwell, a caminho do poder. Elle dá de hombros, fecha a janella, estira-se na rede e folhea o livro devagar, com amor, aos goles... Um exemplar unico!

CAPITULO LXXIII

O lunch

O desproposito fez-me perder outro capitulo. Que melhor não era dizer as cousas lisamente, sem todos estes solavancos! Já comparei o meu estylo ao andar dos ebrios. Se a idéa vos parece indecorosa, direi que elle é o que eram as minhas refeições com Virgilia, na casinha da Gamboa, onde ás vezes faziamos a nossa patuscada, o nosso _lunch._ Vinho, fructas, compotas. Comiamos, é verdade, mas era um comer virgulado de palavrinhas doces, de olhares ternos, de criancices, uma infinidade desses apartes do coração, aliás o verdadeiro, o ininterrupto discurso do amor. Ás vezes vinha o arrufo temperar o nimio adocicado da situação. Ella deixava-me, refugiava-se n'um canto do canapé, ou ia para o interior ouvir as denguices de D. Placida. Cinco ou dez minutos depois, reatavamos a palestra, como eu reato a narração, para desatal-a outra vez. Note-se que, longe de termos horror ao methodo, era nosso costume convidal-o, na pessoa de D. Placida, a sentar-se comnosco á meza; mas D. Placida não aceitava nunca.

--Você parece que não gosta mais de mim, disse-lhe um dia Virgilia.

--Virgem Nossa Senhora! exclamou a boa dama alçando as mãos para o tecto. Não gosto de Yayá! Mas então de quem é que eu gostaria neste mundo?

E, pegando-lhe nas mãos, olhou-a fixamente, fixamente, fixamente, até molharem-se-lhe os olhos, de tão fixo que era. Virgilia acariciou-a muito; eu deixei-lhe uma pratinha na algibeira do vestido.

CAPITULO LXXIV

Historia de D. Placida

Não te arrependas de ser generoso; a pratinha rendeu-me uma confidencia de D. Placida, e conseguintemente este capitulo. Dias depois, como eu a achasse só em casa, travámos palestra, e ella contou-me em breves termos a sua historia. Era filha natural de um sacristão da Sé e de uma mulher que fazia doces para fóra. Perdeu o pae aos dez annos. Já então ralava côco e fazia não sei que outros misteres de doceira, compativeis com a edade. Aos quinze ou dezeseis casou com um alfaiate, que morreu tisico algum tempo depois, deixando-lhe uma filha. Viuva, com pouco mais de vinte annos, ficaram a seu cargo a filha, com dous, e a mãe, cançada de trabalhar. Tinha de sustentar a tres pessoas. Fazia doces, que era o seu officio, mas cosia tambem, de dia e de noite, com affinco, para tres ou quatro lojas, e ensinava algumas crianças do bairro, a dez tostões por mez. Com isto iam-se passando os annos, não a belleza, porque não a tivera nunca. Appareceram-lhe alguns namoros, propostas, seducções, a que resistia.

--Se eu pudesse encontrar outro marido, disse-me ella, creia que me teria casado; mas ninguem queria casar commigo.

Um dos pretendentes conseguiu fazer-se aceito; não sendo, porém, mais delicado que os outros, D. Placida despediu-o do mesmo modo, e depois de o despedir chorou muito. Continuou a coser para fóra e a escumar os tachos. A mãe tinha a rabugem do temperamento, dos annos e da necessidade; mortificava a filha para que tomasse um dos maridos de emprestimo e de occasião, que lh'a pediam. E bradava:

--Queres ser melhor do eu? Não sei donde te vem essas fiducias de pessoa rica. Minha camarada, a vida não se arranja á toa; não se come vento. Ora esta! Moços tão bons como o Polycarpo da venda, coitado...Esperas algum fidalgo, não é?

D. Placida jurou-me que não esperava fidalgo nenhum. Era genio. Queria ser casada. Sabia muito bem que a mãe o não fôra, e conhecia algumas que tinham só o seu moço dellas; mas era genio e queria ser casada. Não queria tambem que a filha fosse outra cousa. E trabalhava muito, queimando os dedos ao fogão, e os olhos ao candieiro, para comer e não cair. Emmagreceu, adoeceu, perdeu a mãe, enterrou-a por subscripção, e continuou a trabalhar. A filha estava com quatorze annos; mas era muito fraquinha, e não fazia nada, a não ser namorar os capadocios que lhe rondavam a rotula. D. Placida vivia com immensos cuidados, levando-a comsigo, quando tinha de ir entregar costuras; e a gente das lojas arregalava e piscava os olhos, convencida de que ella a levava para colher marido ou outra cousa. Alguns diziam graçolas, faziam comprimentos; a mãe chegou a receber propostas de dinheiro...

Interrompeu-se um instante, e continuou logo:

--Minha filha fugiu-me; foi com um sujeito, nem quero saber... Deixou-me só, mas tão triste, tão triste, que pensei morrer. Não tinha ninguem mais no mundo e estava quasi velha e doente. Foi por esse tempo que conheci a familia de Yayá; boa gente, que me deu que fazer, e até chegou a me dar casa. Estive lá muitos mezes, um anno, mais de um anno, aggregada, costurando. Saí quando Yayá casou. Depois vivi como Deus foi servido. Olhe os meus dedos, olhe estas mãos... E mostrou-me as mãos grossas e gretadas, as pontas dos dedos picadas da agulha.--Não se cria isto á toa, meu senhor; Deus sabe como é que isto se cria... Felizmente, Yayá me protegeu, e o senhor doutor tambem... Eu tinha um medo de acabar na rua, pedindo esmola...

Ao soltar a ultima phrase, D. Placida teve um calafrio. Depois, como se tornasse a si, pareceu attentar na inconveniência daquella confissão ao amante de uma mulher casada, e começou a rir, a desdizer-se, a chamar-se tola, «cheia de fiducias», como lhe dizia a mãe; enfim, cançada do meu silencio, retirou-se da sala. Eu fiquei a olhar para a ponta do botim.

CAPITULO LXXV

Commigo

Podendo acontecer que algum dos meus leitores tenha pulado o capitulo anterior, observo que é preciso lel-o para entender o que eu disse commigo, logo depois que D. Placida saiu da sala. O que eu disse foi isto:

--Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando a missa, viu entrar a dama, que devia ser sua collaboradora na vida de D. Placida. Viu-a outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma graça, pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias de festa. Ella gostou delle, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjuncção de luxurias vadias brotou D. Placida. É de crer que D. Placida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias:--Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe respondi riam:--Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, n'um momento de sympathia.

CAPITULO LXXVI

O estrume

Subito deu-me a consciência um repellão; accusou-me de ter feito capitular a probidade de D. Placida, obrigando-a a um papel torpe, depois de uma longa vida de trabalho e privações. Medianeira não era, melhor que concubina; e eu tinha-a baixado a esse officio, á custa de obsequios e dinheiros. Foi o que me disse a consciencia; e eu fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse. Ella accrescentou que eu me aproveitára da fascinação exercida por Virgilia sobre a ex-costureira, da gratidão desta, emfim da necessidade. Notou a resistência de D. Placida, as lagrimas dos primeiros dias, as caras feias, os silencios, os olhos baixos, e a minha arte em supportar tudo isso, até vencel-a. E repuxou-me outra vez de um modo irritado e nervoso.

Concordei que assim era, mas alleguei que a velhice de D. Placida estava agora ao abrigo da mendicidade; era uma compensação. E raciocinei então que, se não fossem os meus amores, provavelmente D. Placida acabaria como tantas outras creaturas humanas; donde se poderia deduzir que o vicio é muitas vezes o estrume da virtude. O que não impede que a virtude, seja uma flor cheirosa e sã. A consciência concordou, e eu fui abrir a porta a Virgilia.

CAPITULO LXXVII

Entrevista

Virgilia entrou risonha e socegada. Os tempos tinham levado os sustos e vexames. Que doce que era vel-a chegar, nos primeiros dias, envergonhada e tremula! Ia de sege, velado o rosto, envolvida n'uma especie de manteu, que lhe disfarçava as ondulações do talhe. Da primeira vez deixou-se cair no canapé, offegante, escarlate, com os olhos no chão; e, palavra! em nenhuma outra occasião a achei tão bella, talvez porque nunca me senti mais lisonjeado.

Agora, porém, como eu dizia, tinham acabado os sustos e vexames; as entrevistas entravam no periodo chronometrico. A intensidade de amor era a mesma; a differença é que a chamma perdera o tresloucado dos primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios, tranquillo e constante, como nos casamentos.

--Estou muito zangada com você, disse ella sentando-se.

--Porque?

--Porque não foi lá hontem, como me tinha dito. O Damião perguntou muitas vezes se você não iria, ao menos, tomar chá. Porque é que não foi?

Com effeito, eu havia faltado á palavra que dera, e a culpa era toda de Virgilia, Questão de ciúmes. Essa mulher esplendida sabia que o era, e gostava de o ouvir dizer, fosse em voz alta ou baixa. Na antevespera, em casa da baroneza, valsara duas vezes com o mesmo peralta, depois de lhe escutar as cortezanices, ao canto de uma janella. Estava tão alegre! tão derramada! tão cheia de si! Quando descobriu, entre as minhas sobrancelhas, a ruga interrogativa e ameaçadora, não teve nenhum sobresalto, nem ficou subitamente séria; mas deitou ao mar o peralta e as cortezanices. Veiu depois a mim, tomou-me o braço, e levou-me até outra sala, menos povoada, onde se me queixou de cançaço, e disse muitas outras cousas, com o ar pueril que costumava ter, em certas occasiões, e eu ouvi-a quasi sem responder nada.

Agora mesmo, custava-me responder alguma cousa, mas emfim contei-lhe o motivo da minha ausencia... Não, eternas estrellas, nunca vi olhos mais pasmados. A boca semi-aberta, as sobrancelhas arqueadas, uma estupefacção visivel, tangivel, que senão podia negar, tal foi a primeira replica de Virgilia; abanou a cabeça com um sorriso de piedade e ternura, que inteiramente me confundiu.

--Ora você!

E foi tirar o chapéo, lepida, jovial, como a menina que torna do collegio; depois veiu a mim, que estava sentado, deu-me pancadinhas na testa, com um só dedo, a repetir;--Isto, isto;--e eu não tive remedio senão rir tambem, e tudo acabou em galhofa. Era claro que me enganára.

CAPITULO LXXVIII

A presidencia