Memorias Posthumas de Braz Cubas
Part 8
e digo mal, comparando-nos a bois, porque nós eramos outra especie de animal menos tardo, mais velhaco e lascivo. Eis-nos a caminhar sem saber até onde, nem porque estradas escusas; problema que me assustou, durante algumas semanas, mas cuja solução entreguei ao destino. Pobre Destino! Onde andarás agora, grande procurador dos negocios humanos? Talvez estejas a criar pelle nova, outra cara, outras maneiras, outro nome, e não é impossivel que... Já me não lembra onde estava... Ah! nas estradas escusas. Disse eu commigo que já agora seria o que Deus quisesse. Era a nossa sorte amar-nos; se assim não fora, como explicariamos a valsa e o resto? Virgilia pensava a mesma cousa. Um dia, depois de me confessar que tinha momentos de remorsos, como eu lhe dissesse que, se tinha remorsos, é porque me não tinha amor, Virgilia cingiu-me com os seus magnificos braços, murmurando:
--Amo-te, é a vontade do ceu.
E esta palavra não vinha á toa; Virgilia era um pouco religiosa. Não ouvia missa aos domingos, é verdade, e creio até que só ia ás igrejas em dia de festa, e quando havia logar vago em alguma tribuna. Mas rezava todas as noites, com fervor, ou, pelo menos, com somno. Tinha medo ás trovoadas; nessas occasiões, tapava os ouvidos, e resmoneava todas as orações do catecismo. Na alcova della havia um oratoriosinho de jacarandá, obra de talha, de tres palmos de altura, com tres imagens dentro; mas não falava delle ás amigas; ao contrario, taxava de beatas as que eram só religiosas. Algum tempo desconfiei que havia nella certo vexame de crer, e que a sua religião era uma especie de camisa de flanella, preservativa e clandestina; mas evidentemente era engano meu.
CAPITULO LVIII
Confidencia
O Lobo Neves, a principio, mettia-me grandes sustos. Pura illusão! Como adorasse a mulher, não se vexava de m'o dizer muitas vezes; achava que Virgilia era a perfeição mesma, um conjunto de qualidades solidas e finas, amoravel, elegante, austera, um modelo. E a confiança não parava ahi. De fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia confessou-me que trazia uma triste carcoma na existencia; faltava-lhe a gloria publica. Animei-o; disse-lhe muitas cousas bonitas, que elle ouviu com aquella uncção religiosa de um desejo que não quer acabar de morrer; então comprehendi que a ambição delle andava cançada de bater as azas, sem poder abrir o vôo. Dias depois disse-me todos os seus tedios e desfallecimentos, as amarguras engolidas, as raivas sopitadas; contou-me que a vida politica era um tecido de invejas, despeitos, intrigas, perfidias, interesses, vaidades. Evidentemente havia ahi uma crise de melancolia; tratei de combatel-a.
--Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. Não póde imaginar o que tenho passado. Entrei na politica por gosto, por familia, por ambição, e um pouco por vaidade. Já vê que reuni em mim só todos os motivos que levam o homem á vida publica; faltou-me só o interesse de outra natureza. Vira o theatro pelo lado da platéa; e, palavra, que era bonito! Soberbo scenario, vida, movimento e graça na representação. Escripturei-me; deram-me um papel que... Mas para que o estou a fatigar com isto? Deixe-me ficar com as minhas amofinações. Creia que tenho passado horas e dias... Não ha constância de sentimentos, não ha gratidão, não ha nada... nada... nada...
Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar, parecendo não ouvir cousa nenhuma, a não ser o echo de seus proprios pensamentos. Após alguns instantes, ergueu-se e estendeu-me a mão:--O senhor ha de rir-se de mim, disse elle; mas desculpe aquelle desabafo; tinha um negocio, que me mordia o espirito. E ria, de um geito sombrio e triste; depois pediu-me que não referisse a ninguem o que se passara entre nós; ponderei-lhe que a rigor não se passara nada. Entraram dous deputados e um chefe politico da parochia. O Lobo Neves recebeu-os com alegria, a principio um tanto postiça, mas logo depois natural. No fim de meia hora, ninguem diria que elle não era o mais afortunado dos homens; conversava, chasqueava, e ria, e riam todos.
CAPITULO LIX
Um encontro
Deve ser um vinho hem energico a politica, dizia eu commigo, ao sair da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui andando, até que na rua dos Barbonos vi uma sege, e dentro um dos ministros, meu antigo companheiro de collegio. Cortejámo-nos affectuosamente, a sege seguiu, e eu fui andando... andando... andando....
--Porque não serei eu ministro?
Esta idéa, rútila e grande,--trajada ao bizarro, como diria o padre Bernardes,--esta idéa começou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me estar com os olhos nella, a achar-lhe graça. E não pensei mais na tristeza de Lobo Neves; senti a attracção do abysmo. Recordei aquelle companheiro de collegio, as correrias nos morros, as alegrias e travessuras, e comparei o menino com o homem, o perguntei a mim mesmo porque não seria eu como elle. Entrava então no Passeio Publico; e tudo me parecia dizer a mesma cousa.--Porque não serás ministro, Cubas?--Cubas, porque não serás ministro de Estado? Ao ouvil-o, uma deliciosa sensação me refrescava todo o systema. Entrei, fui sentar-me n'um banco, a cavar commigo aquella idéa. E Virgilia que havia de gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara, que me não pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse d'onde fosse.
Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta annos, alto, magro e pallido. As roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao captiveiro de Babylonia; o chapéu era contemporaneo do de Gessler. Imaginem agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes,--ou, litteralmente, os ossos da pessoa; a côr preta ia cedendo o passo a um amarello sem brilho; o pello desapparecia aos poucos; dos oito primitivos botões restavam tres. As calças, de brim pardo, tinham duas fortes joelheiras, em quanto as bainhas eram roidas pelo tacão de um botim sem misericordia nem graxa. Ao pescoço fluctuavam as pontas de uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um collarinho de oito dias. Creio que trazia tambem collete, um collete de seda escura, roto a espaços, e desabotoado.
--Aposto que me não conhece, Sr. Dr. Cubas? disse elle.
--Não me lembra...
--Sou o Borba, o Quincas Borba.
Recuei espantado... Quem me dera agora o verbo solemne de um Bossuet ou de Vieira, para contar tamanha desolação! Era o Quincas Borba, o gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de collegio, tão intelligente e abastado. O Quincas Borba! Não, impossível; não pode ser. Não podia acabar de crer que essa figura esqualida, essa barba pintada de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda essa ruina fosse o Quincas Borba. E era. Os olhos tinham um resto da expressão de outro tempo; e o sorriso não perdera certo ar escarninho, que lhe era peculiar. Entretanto, elle supportava com firmeza o meu espanto. No fim de algum tempo arredei os olhos; se a figura repellia, a comparação acabrunhava.
--Não é preciso contar-lhe nada, disse elle emfim; o senhor adivinha tudo. Uma vida de miserias, de attribulações e de lutas. Lembra-se das nossas festas, em que eu figurava de rei? Que trambolhão! Acabo mendigo...
E alçando a mão direita e os hombros, com um ar de indifferença, parecia resignado aos golpes da fortuna, e não sei até se contente. Talvez contente. Com certeza, impassivel. Não havia nelle a resignação christã, nem a conformidade philosophica. Parece que a miseria lhe callejára a alma, a ponto de lhe tirar a sensação da lama. Arrastava os andrajos, como outr'ora a purpura: com certa graça indolente.
--Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma cousa.
Um sorriso magnifico lhe abriu os lábios.--Não é o primeiro que me promette alguma cousa, replicou; e não sei se será o ultimo que não me fará nada. E para que? Eu nada peço, a não ser dinheiro; dinheiro sim, porque é necessario comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as quitandeiras. Uma cousa de nada, uns dous vinténs de angú, nem isso fiam as malditas quitandeiras.... Um inferno, meu... ia dizer meu amigo.... Um inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje não almocei.
--Não?
--Não; saí muito cedo de casa. Sabe onde moro? No terceiro degráu das escadas de S. Francisco, á esquerda de quem sobe; não precisa bater na porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois saí cedo, e ainda não comi...
Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil réis,--a menos limpa,--e dei-lh'a. Elle recebeu-m'a com os olhos scintillantes de cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a enthusiasmado.
--_In hoc signo vinces!_ bradou.
E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa expansão, que me produziu um sentimento mixto de nôjo e lastima. Elle, que era arguto, entendeu-me; ficou serio, grotescamente serio, e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não via, desde muitos annos, uma nota de cinco mil réis.
--Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu.
--Sim? acudiu elle, dando um bote para mim.
--Trabalhando, conclui eu.
Fez um gesto de desdem; calou-se alguns instantes; depois disse-me positivamente que não queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa abjecção tão comica e tão triste, e preparei-me para sair.
--Não vá sem eu lhe ensinar a minha philosophia da miseria, disse elle, escarranchando-se diante de mim.
CAPITULO LX
O abraço
Cuidei que o pobre diabo estivesse doudo, e ia afastar-me, quando elle me pegou no pulso, e olhou alguns instantes para o brilhante que eu trazia no dedo. Senti-lhe na mão uns estremeções de cobiça, uns pruridos de posse.
--Magnifico! disse elle.
Depois começou a andar á roda de mim e a examinar-me muito.
--O senhor trata-se, disse elle. Joias, roupa fina, elegante e... Compare esses sapatos aos meus; que differença! Podera não! Digo-lhe que se trata. E moças? Como vão ellas? Está casado?
--Não...
--Nem eu.
--Móro na rua...
--Não quero saber onde mora, atalhou o Quincas Borba. Se alguma vez nos virmos, dê-me outra nota de cinco mil réis; mas permitta-me que não a vá buscar a sua casa. É uma especie de orgulho.... Agora, adeus; vejo que está impaciente.
--Adeus!
--E obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto?
E dizendo isto abraçou-me com tal impeto, que eu não pude evital-o. Separamo-nos finalmente, eu a passo largo, com a camisa amarrotada do abraço, enfadado e triste. Já não dominava em mim a parte sympathica da sensação, mas a outra. Quizera ver-lhe a miseria digna. Comtudo, não pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outr'ora, entristecer-me, e encarar o abysmo que separa as esperanças de um tempo da realidade de outro tempo...
--Ora adeus! Vamos jantar, disse commigo.
Metto a mão no collete e não acho o relogio. Ultima desillusão! o Borba furtára-m'o no abraço.
CAPITULO LXI
Um projecto
Jantei triste. Não era a falta do relogio que me pungia, era a imagem do autor do furto, e as reminiscencias de criança, e outra vez a comparação, e a conclusão... Desde a sopa, começou a abrir em mim a flor amarella e morbida do cap. XXV, e então jantei depressa, para correr á casa de Virgilia. Virgilia era o presente; eu queria refugiar-me nelle, para escapar ás oppressões do passado, porque o encontro do Quincas Borba tornara-me aos olhos o passado, não qual fora devéras, mas um passado roto, abjecto, mendigo e gatuno.
Saí de casa, mas era cedo; iria achal-os á mesa. Outra vez pensei no Quincas Borba, e tive então um desejo de tornar ao Passeio Publico, a ver se o achava; a idéa de o regenerar surgiu-me como uma forte necessidade. Fui; mas já não o achei. Indaguei do guarda; disse-me que effectivamente «esse sujeito» ia por alli ás vezes.
--A que horas?
--Não tem hora certa.
Não era impossivel encontral-o n'outra occasião; prometti a mim mesmo lá voltar. A necessidade de o regenerar, de o trazer ao trabalho e ao respeito de sua pessôa enchia-me o coração; eu começava a sentir um bem-estar, uma elevação, uma admiração de mim proprio... Nisto caía a noite; fui ter com Virgilia.
CAPITULO LXII
O travesseiro
Fui ter com Virgilia; bem depressa esqueci o Quincas Borba. Virgilia era o travesseiro do meu espirito, um travesseiro molle, tepido, aromatico, enfronhado em cambraia e bruxellas. Era alli que elle costumava repousar de todas as sensações más, simplesmente enfadonhas, ou até dolorosas. E, bem pesadas as cousas, não era outra a razão da existencia de Virgilia; não podia ser. Cinco minutos bastaram para olvidar inteiramente o Quincas Borba; cinco minutos de uma contemplação mutua, com as mãos presas umas nas outras; cinco minutos e um beijo. E lá se foi a lembrança do Quincas Borba... Escrofula da vida, andrajo do passado, que me importa que existas, que molestes os olhos dos outros, se eu tenho dous palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos e dormir?
CAPITULO LXIII
Fujamos!
Ai! nem sempre dormir. Tres semanas depois, indo á casa de Virgilia,--eram quatro horas da tarde,--achei-a triste e abatida. Não me quiz dizer o que era; mas, como eu instasse muito:
--Creio que o Damião desconfia alguma cousa. Noto agora umas exquisitices nelle... Não sei... Trata-me bem, não ha duvida; mas o olhar parece que não é o mesmo. Durmo, mal; ainda esta noite acordei, aterrada; estava sonhando que elle me ia matar. Talvez seja illusão, mas eu penso que elle desconfia...
Tranquillisei-a como pude; disse que podiam ser cuidados politicos. Virgilia concordou que seriam, mas ficou ainda muito excitada e nervosa. Estavamos na sala de visitas, que dava justamente para a chacara, onde trocáramos o beijo inicial. Uma janella aberta deixava entrar o vento, que sacudia frouxamente as cortinas; e eu fiquei a olhar para as cortinas, sem as ver. Empunhára o binoculo da imaginação; lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa, um mundo nosso, em que não havia Lobo Neves, nem casamento, nem moral, nem nenhum outro liame, que nos tolhesse a expansão da vontade. Esta idéa embriagou-me; eliminados assim o mundo, a moral e o marido, não haveria mais do que penetrar naquella habitação dos anjos.
--Virgilia, disse eu, proponho-te uma cousa.
--Que é?
--Amas-me?
--Oh! suspirou ella, cingindo-me os braços ao pescoço.
Virgilia amava-me com furia; aquella resposta era a verdade patente. Com os braços ao meu pescoço, calada, respirando muito, deixou-se ficar a olhar para mim, com os seus grandes e bellos olhos, que davam uma sensação singular de luz humida; e eu deixei-me estar a vel-os, a namorar-lhe a boca, fresca como a madrugada, e insaciavel como a morte. A belleza de Virgilia tinha agora um tom grandioso, que não possuira antes de casar. Era dessas figuras talhadas em pentelico, de um lavor nobre, rasgado e puro, tranquillamente bella, como as estatuas, mas não apathica nem fria. Ao contrario, tinha o aspecto das naturezas calidas, e podia-se dizer, que, na realidade, resumia todo o amor. Resumia-o sobretudo naquella occasião, em que exprimia mudamente tudo quanto póde dizer a pupilla humana. Mas o tempo urgia; deslacei-lhe as mãos, peguei-lhe nos pulsos, e, fito nella, perguntei-lhe se tinha coragem.
--De que?
--De fugir. Iremos para onde nos fôr mais commodo, uma casa grande ou pequena, á tua vontade, na roça ou na cidade, ou na Europa, onde te parecer, onde ninguem nos aborreça, e não haja perigos pára ti, onde vivamos um para o outro... Sim? fujamos. Tarde ou cedo, elle póde descobrir alguma cousa, e estarás perdida... ouves? perdida... morta... e elle tambem, porque eu o matarei, juro-te.
Interrompi-me; Virgilia empallidecêra muito, deixou cair os braços e sentou-se no canapé. Esteve assim alguns instantes, sem me dizer palavra, não sei se vacillante na escolha, se aterrada com a idéa da descoberta e da morte. Fui-me a ella, insisti na proposta, disse-lhe todas as vantagens de uma vida a sós, sem zelos, nem terrores, nem afflicções. Virgilia ouvia-me calada; depois disse:
--Não escapariamos talvez; elle iria ter commigo e matava-me do mesmo modo.
Mostrei-lhe que não. O mundo era assás vasto, e eu tinha os meios de viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol; elle não chegaria até lá; só as grandes paixões são capazes de grandes acções, e elle não a amava tanto que pudesse ir buscal-a, se ella estivesse longe. Virgilia fez um gesto de espanto e quasi indignação; murmurou que o marido gostava muito della.
--Póde ser, respondi eu; póde ser que sim...
E fui até a janella, e comecei a assobiar e a rufar com os dedos no peitoril, Virgilia chamou-me; eu deixei-me estar, a remoer os meus zelos, a desejar estrangular o marido, se o tivesse alli á mão... Justamente, nesse instante, entrou na chacara o Lobo Neves. Não tremas assim, leitora pallida; descança, que não hei de rubricar esta lauda com um pingo de sangue. Logo que o Lobo Neves entrou na chacara, fiz-lhe um gesto amigo, acompanhado de uma palavra graciosa; Virgilia retirou-se apressadamente da sala, e elle entrou dahi a tres minutos.
--Está cá ha muito tempo? disse-me elle.
--Não.
Entrára serio, pesado, derramando os olhos de um modo distrahido, costume seu, que trocou logo por uma verdadeira expansão de jovialidade, quando viu, chegar o filho, o nhonhô, o futuro bacharel do cap. VIII; tomou-o nos braços, levantou-o ao ar, beijou-o muitas vezes. Eu, que tinha odio ao menino, afastei-me de ambos. Virgilia tornou á sala.
--Ah! respirou o Lobo Neves, sentando-se preguiçosamente no sophá.
--Cançado? perguntei eu.
--Muito; aturei duas massadas de primeira ordem, uma na camara e outra na rua. E ainda temos terceira, accrescentou, olhando para a mulher..
--Que é? perguntou Virgilia.
--Um... Adivinha!
Virgilia sentara-se ao lado delle, pegou-lhe n'uma das mãos, compoz-lhe a gravata, e tornou a perguntar o que era.
--Nada menos que um camarote.
--Para a Candiani?
--Para a Candiani.
Virgilia bateu palmas, levantou-se, deu um beijo no filho, com um ar de alegria pueril, que destoava muito da figura; depois perguntou se o camarote era de boca ou do centro, consultou o marido, em voz baixa, acerca da _toilette_ que faria, da opera que se cantava, e de não sei que outras cousas.
--Você janta comnosco, doutor, disse-me o Lobo Neves.
--Veiu para isso mesmo, confirmou a mulher; diz que você possue o melhor vinho do Rio de Janeiro.
--Nem por isso bebe muito.
Ao jantar, desmenti-o; bebi mais do que costumava; ainda assim, menos do que era preciso para perder a razão. Já estava excitado, fiquei urn pouco mais. Era a primeira grande colera que eu sentia contra Virgilia. Não olhei uma só vez para ella durante o jantar; falei de politica, da imprensa, do ministerio, creio que falaria de theologia, se a soubesse, ou se me lembrasse. O Lobo Neves acompanhava-me com muita placidez e dignidade, e até com certa benevolencia superior; e tudo aquillo me irritava tambem, e me tornava mais amargo e longo o jantar. Despedi-me apenas nos levantámos da mesa.
--Até logo, não? perguntou o Lobo Neves.
--Póde ser.
E sai.
CAPITULO LXIV
A transacção
Vaguei pelas ruas e recolhi-me ás nove horas. Não podendo dormir, atirei-me a ler e escrever. Ás onze horas estava arrependido de não ter ido ao theatro, consultei o relogio, quiz vestir-me, e saír. Julguei, porém, que chegaria tarde; demais, era dar prova de fraqueza. Evidentemente, Virgilia começava a aborrecer-se de mim, pensava eu. E esta idéa fez-me successivamente desesperado e frio, disposto a esquecel-a e a matal-a. Via-a d'alli mesmo, reclinada no camarote, com os seus magnificos braços nús,--os braços que eram meus, só meus,--fascinando os olhos de todos, com o vestido soberbo que havia de ter, o collo de leite, os cabellos postos em bandós, á maneira do tempo, e os brilhantes, menos luzidios que os olhos della... Via-a assim, e doía-me que a vissem outros. Depois, começava a despil-a, a pôr de lado as joias e sedas, a despenteal-a com as minhas mãos sofregas e lascivas, a tornal-a,--não sei se mais bella, se mais natural,--a tornal-a minha, sómente minha, unicamente minha.
No dia seguinte, não me pude ter; fui cedo á casa de Virgilia; achei-a com os olhos vermelhos de chorar.
--Que houve? perguntei.
--Você não me ama, foi a sua resposta; nunca me teve a menor somma de amor. Tratou-me hontem como se me tivesse odio. Se eu ao menos soubesse o que é que fiz! Mas não sei. Não me dirá o que foi?
--Que foi o que? Creio que não houve nada.
--Nada? Tratou-me como não se trata um cachorro...
A esta palavra, peguei-lhe nas mãos, beijei-as, e duas lagrimas rebentaram-lhe dos olhos.
--Acabou, acabou, disse eu.
Não tive animo de arguir, e, aliás, arguil-a de que? Não era culpa della se o marido a amava. Disse-lhe que não me fizera cousa nenhuma, que eu tinha necessariamente ciumes do outro, que nem sempre o podia supportar de cara alegre; accrescentei que talvez houvesse nelle muito de dissimulação, e que o melhor meio de fechar a porta aos sustos e ás dissensões era aceitar a minha idéa da vespera.
--Pensei nisso, acudiu Virgilia; uma casinha só nossa, solitaria, mettida n'um jardim, em alguma rua escondida, não é? Acho a idéa boa; mas para que fugir?
Disse isto com o tom ingenuo e preguiçoso de quem não cuida em mal, e o sorriso que lhe derreava os cantos da boca trazia a mesma expressão de candidez. Então, afastando-me, respondi:
--Você é que nunca me teve amor.
--Eu?
--Sim, é uma egoista! prefere ver-me padecer todos os dias... é uma egoista sem nome!
Virgilia desatou a chorar, e para não attrahir gente, mettia o lenço na boca, recalcava os soluços; explosão que me desconcertou. Se alguem a ouvisse, perdia-se tudo. Inclinei-me para ella, travei-lhe dos pulsos, susurrei-lhe os nomes mais doces da nossa intimidade; mostrei-lhe o perigo; o terror apaziguou-a.
--Não posso, disse ella dahi a alguns instantes; não deixo meu filho; se o levar, estou certa de que elle me irá buscar ao fim do mundo. Não posso; mate-me você, se o quizer, ou deixe-me morrer... Ah! meu Deus! meu Deus!
--Socegue; olhe que podem ouvil-a.
--Que ouçam! Não me importa.
Estava ainda excitada; pedi-lhe que esquecesse tudo, que me perdoasse, que eu era um doudo, mas que a minha insania provinha della e com ella acabaria. Virgilia enxugou os olhos e estendeu-me a mão. Sorrimos ambos; minutos depois, tornávamos ao assumpto da casinha solitaria, em alguma rua escusa...
CAPITULO LXV
Olheiros e escutas
Interrompeu-nos o rumor de um carro na chacara. Veiu um escravo dizer que era a baroneza X. Virgilia consultou-me com os olhos.
--Se a senhora está assim com dor de cabeça, disse eu, parece que o melhor é não receber.
--Já se apeou? perguntou Virgilia ao escravo.
--Já se apeou; diz que precisa muito de falar com sinhá!
--Que entre!
A baroneza entrou dahi a pouco. Não sei se contava commigo na sala; mas era impossivel mostrar maior alvoroço.
--Bons olhos o vejam! explodiu ella. Onde se mette o senhor que não apparece em parte nenhuma? Pois olhe, hontem admirou-me não o ver no theatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta da Candiani? É natural. Os senhores são todos os mesmos. O barão dizia hontem, no camarote, que uma só italiana vale por cinco brazileiras. Que desaforo! e desaforo de velho, que é peor. Mas porque é que o senhor não foi hontem ao theatro?
--Uma enxaqueca.
--Qual! Algum namoro; não acha, Virgilia? Pois, meu amigo, apresse-se, porque o senhor deve estar com quarenta annos... ou perto disso... Não tem quarenta annos?
--Não lhe posso dizer com certeza, respondi eu; mas se me dá licença, vou consultar a certidão de baptismo.
--Vá, vá... E estendendo-me a mão:--Até quando? Sabbado ficamos em casa; o barão está com umas saudades suas...